Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

O DIA EM QUE SÃO PAULO PAROU

 

 

A cidade de São Paulo é um dos maiores centros urbanos do mundo. Maior cidade brasileira, responsável por 12,26% do PIB do país, abrigando 63% de todas as multinacionais estabelecidas no Brasil. Por todas estas razões e tantas outras, São Paulo recebeu no século passado, o estigma de que não pára, dando veracidade à célebre frase: “São Paulo não pode parar”.
Parar uma cidade como São Paulo parecia impossível sob todos os aspectos, tanto econômicos, quantos sociais, certeza traduzida pela dinâmica que conduz a cidade e os seus habitantes. Mas um país de contrastes como o Brasil, a ilicitude marginal gerada por uma justiça lenta e capenga, pelas diferenças sociais e pela certeza da impunidade, muitas vezes assume aspectos de um poder paralelo, desafiando as instituições públicas e as suas leis.
Numa sociedade formada por um governo pouco comprometido com os seus cidadãos e com a sua evolução educacional e a sua saúde física, ciclicamente marginais assumem-se como falsos justiceiros sociais, delegando para si poderes que se elevam aos da própria justiça. De Lampião, feroz assassino e bandoleiro nascido sob o sol da caatinga, ao Primeiro Comando da Capital (PCC), organização criminosa liderada das prisões de segurança máxima; o Brasil sofre com este poder paralelo que se estabelece à face da justiça, tendo como resultado a violência e o sangue derramado de inocentes. Foi justamente uma série de atos de violência provocados pelo poder paralelo do PCC para medir forças com a polícia do Estado, que levou ao colapso a capital paulistana. Contrariando a todas as previsões ou estatísticas, São Paulo, o coração financeiro do Brasil, literalmente parou no dia 15 de maio de 2006.

Breves Exemplos do Poder Paralelo no Brasil

A democracia de uma nação é garantida pela liberdade que o seu cidadão tem em poder exercer a sua cidadania, quer sob os aspectos do cumprimento dos direitos que ele tem, como do cumprimento dos seus deveres para com a sociedade. Mas os princípios éticos que constroem os elos morais de uma sociedade mostram uma ínfima diferença entre os direitos e os deveres de um cidadão, tão estreitos são eles, que ao se confundirem, esvaem-se literalmente, dando passagem para o chamado “poder paralelo”, totalmente desprovido de senso moral, mas travestido de uma linguagem popular que o confunde com a “justiça pelas mãos”, já que a justiça do Estado não satisfaz a sociedade.
O poder paralelo pode emanar de qualquer parte da sociedade, quer por organizações de criminosos e contraventores, como pela própria polícia criada para a defesa da sociedade, ou mesmo pelo Estado.
Em quase 190 anos da sua existência como nação, o Brasil exerceu poucas vezes a tão sonhada liberdade democrática. Desde a sua independência, em 1822, que se desenhou um estado pouco voltado para a democracia. Dom Pedro I, foi primeiro a dissolver a constituição e exercer o seu poder autoritário e absolutista. A República foi formada por um golpe contra a Monarquia e por muito tempo, sustentando-se com os contra-golpes, gerando os males da nação, como a República do Coronelismo (1889-1930), ou das oligarquias rurais; a ditadura do Estado Novo (oficialmente iniciada em 1937, mas nascida com a ascensão de Getúlio Vargas, em 1930); e a ditadura militar (1964-1985).
O Estado autoritário, por se manter aquém dos princípios democráticos e construído ilegitimamente, mas legitimado pela repressão e pela força bruta, gera um estado paralelo a ele mesmo. Nas duas fases de ditadura vividas pelo Brasil no século XX, este poder paralelo do Estado foi vergonhosamente exercido na forma de tortura e de assassínio clandestino dos opositores ao regime.
Se o próprio Estado, movido pelo autoritarismo, cria o seu poder paralelo, a sociedade reage, sentindo-se no direito de ela também fazer o mesmo. Foi assim com o cangaço, surgido durante a ditadura do Estado Novo, em que matadores profissionais (os jagunços), sustentados pelas oligarquias que se rivalizavam, ladrões e assassinos em nome da honra, uniram-se em bandos, saqueando e trazendo o terror para as cidades nordestinas. Protegidos pelos interesses dos coronéis, esses bandos de criminosos criaram verdadeiros mitos como o de Lampião, e quando o mito incomodou a própria oligarquia que dele se beneficiava, tornou-se necessário que o Estado demonstrasse ser mais forte, eliminando o bando. Assim aconteceu com Lampião e o seu bando, sendo morto pela polícia em 1938, tendo as cabeças cortadas e expostas em praça pública para que se evidenciasse o poder do Estado contra o poder paralelo.
Numa guerra ideológica, os princípios éticos, morais e de justiça, muitas vezes confundem-se tanto da parte dos opressores, como da parte dos oprimidos. O Partido Comunista Brasileiro (PCB), foi o partido que mais fez parte da história do Brasil no século XX, apesar de ter permanecido grande parte da sua existência na clandestinidade. Erigido sob a direção da extinta União Soviética, os seus militantes tomavam-se por revolucionários, tendo estatuto próprio, que além das ordens vindas de Moscou, não aceitavam o poder emanado do Brasil. Dentro do PCB vários “tribunais revolucionários” foram formados, algumas vezes condenando pessoas à morte. Foi o caso do “tribunal revolucionário” de 1936, realizado logo após o fracasso da Intentona Comunista de 1935, que condenou à morte Elvira Cupelo Coloni, militante conhecida como Elza Fernandes. Elza era namorada de Miranda, um dos membros do Comitê Central do PCB. Com a prisão de Miranda, Elza foi condenada a morte por seus companheiros, que entenderam que ela representava perigo para eles. Foi executada a machadadas. Outro tribunal famoso da esquerda foi o que decretou a morte do capitão estadunidense Charles Rodney Chandler, executado pelo grupo de Carlos Marighela (futura Aliança Libertadora Nacional – ALN) e pelo grupo de Onofre Pinto (futura Vanguarda Popular Revolucionária – VPR), em 1968. Bolsista no Brasil, o capitão Chandler foi condenado pela esquerda por suspeita de colaborar com os militares.
Dentro da polícia, de tempos em tempos surgem grupos de extermínios, conhecidos como “esquadrões da morte”. Geralmente apresentam-se como justiceiros e exterminadores de bandidos, o que lhes confere forte respaldo popular. Na maioria das vezes são grupos liderados por policiais corruptos, que usam de um poder paralelo para eliminar possíveis delatores e silenciar testemunhas. Os esquadrões da morte fazem parte do imaginário popular há várias décadas, tendo visibilidade maior ou menor em determinadas épocas.
As favelas e as periferias das grandes cidades brasileiras, principalmente as de São Paulo e do Rio de Janeiro, foram durante décadas esquecidas pelo Estado e legadas à miséria e ao ostracismo sócio-cultural. Esquecidas pelo poder público, as favelas foram tomadas pela marginalidade, pelo tráfico e pelo consumo de drogas. Tidas como terra de ninguém, muitas dessas favelas vivem sob a opressão e sob o poder de traficantes, que estabelecem as próprias regras e “leis” dentro dessas comunidades. Movidos pelo tráfego de drogas e por leis próprias, os marginais mais perigosos do Brasil criaram dentro das prisões ou fora delas, poderosas organizações criminosas, formando verdadeiras irmandades, como o Comando Vermelho no Rio de Janeiro e o PCC em São Paulo. Também estas organizações têm o seu próprio tribunal, definindo como deve viver ou morrer não só os seus membros, como também os integrantes da sociedade. Em 2002 o Comando Vermelho, liderado na época por Elias Maluco, condenou à morte o jornalista da Rede Globo, Tim Lopes, executando-o de forma cruel, enterrando-o em uma vala cheia de corpos também por ele sentenciados.

O Primeiro Comando da Capital

De todas as rebeliões e atrocidades cometidas pelo poder paralelo estabelecido por marginais no Brasil, o que mais causou constrangimento ao poder público e ao Estado, foi sem dúvida o que atingiu o Brasil em maio de 2006, que culminou com o colapso que parou a cidade de São Paulo.
O PCC, a maior facção criminosa do país, numa demonstração clara de medição de forças com o poder público, iniciou na noite de 12 de maio, uma série de ataques contra as forças de segurança e a alvos civis, causando a maior onda de violência urbana da história brasileira, que se iniciou no estado de São Paulo e em poucos dias, espalhou-se como um rastilho pelo Paraná, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo, Minas Gerais e Bahia, deixando a população civil ilhada e aterrorizada.
O Primeiro Comando da Capital (PCC), surgiu como organização criminosa em 1993. Fundado no dia 31 de agosto daquele ano, no Anexo da Casa de Custódia de Taubaté, no estado de São Paulo, nasceu durante uma partida de futebol, onde vários presos brigaram, e temendo retaliações, punições e mortes como as acontecidas em 2 de outubro de 1992, no sangrento e histórico massacre do Carandiru; firmaram entre si um pacto de ajuda mútua.
Criado no rescaldo da tragédia do pavilhão 9 do Carandiru, no início era chamado de Partido do Crime, sendo formado por Misa (Misael Aparecido da Silva), Cesinha (César Augusto Roris da Silva), Geleião (José Márcio Felício), Eduardo Gordo (Wander Eduardo Ferreira), Paixão (Antonio Carlos Roberto da Paixão), Bicho Feio (Antonio Carlos dos Santos), Dafé (Ademar dos Santos) e Isaías (Isaías Moreira do Nascimento). No início a organização proclamava-se como defensora das injustiças e dos maus tratos carcerários. Usava como símbolo o yin-yang chinês. Para manter a organização, os membros do grupo pagam uma taxa de cerca de 50 reais se estiverem presos e 500 reais se estão em liberdade. Além do dinheiro arrecado com os membros, promovem o tráfego de drogas, seqüestros e assaltos a bancos; compram armas e executam o resgate de alguns prisioneiros membros do grupo. Cada membro tem que cumprir um estatuto de 16 itens, que estabelece entre outras coisas, a lealdade, o respeito e a solidariedade entre os membros, além de prever a “execução sem perdão” aos que não cumprirem o estatuto quando livres.
Desde que foi criado o PCC teve várias lideranças, entre as mais famosas estão a do Sombra (Idemir Carlos Ambrósio), que liderou de dentro de uma cela, em 2001, através de um celular, a rebelião em 29 presídios. Sombra foi morto dentro da prisão, cinco meses depois, sendo substituído por Geleião e Cesinha, que promoveram uma união provisória com o Comando Vermelho (CV) do Rio de Janeiro. Sanguinários e radicais, foram substituídos na direção do PCC em 2002, por Marcos Willians Herbas Camacho, conhecido como Marcola. Foi sob o comando do Marcola que as autoridades públicas sofreram a maior humilhação da sua história, em maio de 2006.

São Paulo, Maio de 2006

Com o objetivo de desarticular o PCC, no dia 11 de maio de 2006, o governo de São Paulo decidiu transferir 765 presos para presídios de segurança máxima. A operação foi desencadeada, quando os presos foram enviados para Presidente Venceslau, no interior de São Paulo. No dia 12, 8 líderes do PCC, entre eles o líder máximo, o Marcola, foram levados para a sede do DEIC (Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado), localizada na zona norte da capital paulista. No dia anterior, Marcola havia reivindicado 60 aparelhos de televisão para que os prisioneiros assistissem aos jogos da copa de futebol daquele ano, o que lhe foi veementemente negado.
No dia 13 de maio, Marcola foi transferido para a penitenciária de Presidente Bernardes, no interior paulista, sendo esta considerada uma das mais seguras prisões do Brasil. Como represália à transferência dos líderes, principalmente a de Marcola, o PCC decidiu intervir, intimidando a polícia, organizando uma onda de violência que aterrorizaria o país, tirando toda a beleza do dia das mães daquele ano, expondo a fragilidade da segurança no país diante do mundo.
Os ataques começaram a tomar forma justamente durante a realização dos benefícios que os prisioneiros tinham pela comemoração ao dia das mães. Nesta data é costume os prisioneiros receberem visitas nas celas ou indulto. Os que visitaram seus presos saíram com a missão de organizar ataques à polícia, e os que receberam indultos do dia das mães, a de comandar esses ataques.
Na noite de 12 de maio, sexta-feira, começaram os ataques, sendo os primeiros alvos o 55º DP , no Parque São Rafael, e um policial civil atingido próximo à sua casa em Guaianazes. Estava estabelecido o objetivo principal dos ataques, delegacias e policiais tornam-se os alvos. Os primeiros atentados não ficam esclarecidos a quem pertence à sua autoria, suspeitando-se que sejam promovidos pelo PCC. Até a meia-noite a cidade de São Paulo registraria 8 policiais feridos e outros 7 mortos.
Já no dia 13, vários presídios de São Paulo rebelam-se. Os ataques, que desde o dia anterior tornaram-se contínuos, são finalmente atribuídos ao PCC. No domingo, 14, dia das mães, a onda sucessiva da violência intensifica-se, começando a tomar conta da mídia sensacionalista, gerando o pânico geral na população. Fala-se dos ataques e das mortes, mas a imprensa não relata à população a ofensiva da polícia, e que vários dos mortos já fazem parte de integrantes do próprio PCC. Para a população assustada, apenas os policiais estão a morrer. O governo cala-se diante da mídia e da população.

O Dia em que São Paulo Parou

No dia 15 de maio, segunda-feira, a falta de uma resposta imediata e contundente do governo do estado de São Paulo e da polícia, torna a população paulistana refém dos ataques criminosos e da imprensa sensacionalista.
Começam a correr boatos de que as estações do metropolitano de São Paulo seriam os próximos alvos. Tiros atingem a estação de Artur Alvim, na zona leste. Ônibus são incendiados, deixando a população sem condução em plena segunda-feira. As limitações de carros em São Paulo, conhecidas como rodízio, são suspensas, o que causa um dos maiores congestionamentos de automóveis registrados na cidade.
À tarde, para completar o caos, sem informar a fonte e deixando-se conduzir pelo sensacionalismo, a Rede Record anuncia que haveria um toque de recolher às 20 horas. Estava lançado o pânico. O que se viu a seguir foi a maior cidade da América do Sul entrar em colapso. As empresas liberaram, na parte da tarde, os seus funcionários; metropolitano e ônibus foram retirados de circulação; os shoppings foram fechados. Acossadas e sem transporte, milhares de pessoas transitavam a pé pelas ruas da metrópole, tentando desesperadamente chegar em casa e, principalmente, evitar passarem próximas às delegacias, que se tornaram alvos do PCC. Temendo retaliações, os policiais andavam pelas ruas da cidade em comboios, evitando assim, que se tornassem alvos fáceis dos bandidos.
São Paulo viveu, naquela segunda-feira, um clima de terrorismo comparável aos de uma guerra. No fim da tarde, a maioria da população está presa dentro de casa, a ouvir, finalmente as explicações do então governador Cláudio Lembo e dos chefes de segurança do estado, a revelar que estavam reagindo aos ataques, desmentindo o toque de recolher e acusando a imprensa de promover e acirrar o pânico entre a população.
Às 20 horas da noite de 15 de maio, as ruas de São Paulo ficaram desertas, como jamais acontecera na sua história. Ninguém ousou a sair de casa naquela triste segunda-feira. Reféns do medo e do poder paralelo, os paulistanos preferiram ficar em casa, a esperar o desfecho da impotência do estado e da sua polícia. Naquele dia, São Paulo parou.

Após o Fim dos Ataques

No dia 16 de maio, incitada pelo governo, a população voltou às ruas e ao trabalho, decidida a não mais ficar refém do poder paralelo dos bandidos. Naquele dia, o saldo era 128 mortos e 59 feridos. Entre os mortos estavam: 23 policiais militares, 6 policiais civis, 3 guardas municipais, 8 agentes penitenciários, 4 civis, 71 suspeitos e 13 presos. No balanço da tragédia, alguns dos suspeitos foram inocentemente mortos pela polícia. Aos poucos o estado controlava e dissipava a rebelião, que tornara o mês de maio de 2006, ano de eleições presidenciais e para governadores de estado, em um dos mais sangrentos e negros da história da violência e do poder paralelo no Brasil.
Em agosto daquele ano, o PCC ensaiou um novo ataque de pânico à população, desta vez divulgando a sua mensagem através da maior emissora de televisão do Brasil, a Rede Globo. Na manhã do dia 12 de agosto dois funcionários da emissora, o repórter Guilherme Portanova e o técnico Alexandre Coelho Calado, foram seqüestrados pelo PCC. A organização criminosa exigiu que a Rede Globo divulgasse um DVD, levado aos estúdios por Alexandre, enquanto Guilherme era mantido refém. Para não pôr em risco a vida do repórter, após consultar organizações jornalísticas internacionais, a emissora transmitiu o vídeo, que trazia uma mensagem pronunciada por um integrante do PCC, a pedir revisão de penas e melhorias carcerárias. Era obvio que mais uma vez, o PCC queria medir forças, disseminar o pânico. O repórter foi libertado 40 horas após a transmissão do vídeo, que não atingiu às massas, a tentativa de pressionar a população falhara. O que não falhou foi o registro histórico feito a 15 de maio de 2006, o dia que São Paulo parou.
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Sexta-feira, 29 de Maio de 2009

O REGICÍDIO

 

 

A 5 de outubro de 1910 era proclamada a República em Portugal, pondo fim a uma das monarquias mais antigas da Europa. A jovem República herdara um país empobrecido, longe dos áureos tempos das grandes navegações. Além de uma economia precária, trazia nas costas o sangue derramado do penúltimo rei português, nódoa que jamais sairia do cenário histórico português.
No dia 1 de fevereiro de 1908, sucedeu-se na Baixa Lisboeta, entre o Terreiro do Paço e a Rua do Arsenal, uma das maiores tragédias da história da monarquia portuguesa, o assassínio do rei Dom Carlos e do príncipe Luis Filipe. Vítima da sua política déspota e ditatorial, o monarca suscitou o ódio popular, incitando sobre si, as revoltas e várias armas apontadas. Dom Carlos retornava de uma temporada no Alentejo, quando foi surpreendido por revoltosos militantes dos Dissidentes e dos Republicanos, cerca de oito (ou dezoito, conforme algumas versões) começaram a atirar sobre o landau que trazia a família real. Dom Carlos tombou sob os tiros da Winchester 351 de Manuel Buíça, e o filho, o infante Dom Luís Filipe, sob os tiros de Alfredo Costa. A rainha Dona Amélia, usando as flores que recebera de boas vindas a Lisboa, batia com elas no rosto dos atiradores, em vão, tentando defender a família. Minutos depois as flores caíam no chão, manchadas de sangue, assim como a monarquia, que dava os seus últimos suspiros. Nas ruas da cidade, o sangue real lavava todos os pecados do reinado de Dom Carlos, o regicídio abria as portas para a República, fechando de vez as da Monarquia.

O Mapa Cor-de-Rosa, Primeira Derrota do Reinado de Dom Carlos

O reinado de Dom Carlos teve início em 1889, quando sucedeu ao pai, Dom Luís. Desde que ascendera ao trono, o monarca fora contestado, sendo responsabilizado por todas as mazelas de Portugal.
O grande desgaste que atingiria para sempre a imagem do rei diante dos seus súditos, viera de uma questão com a Inglaterra, em 1890. O país possuía colônias no sul da África, entre os oceanos Atlântico e Índico, para uni-las, o governo português traçou o chamado Mapa Cor-de-Rosa, que consistia nos territórios de Angola, Moçambique, e o espaço entre eles, chamado de Chire. Portugal apresentou o mapa aos países aliados, tomando para si o direito aos territórios. A Inglaterra não gostou do mapa, que a obrigava a passar pelos territórios lusitanos para unir as suas colônias africanas de norte a sul. O império Britânico deu um ultimato a Portugal, que abandonasse imediatamente a região do Chire, caso contrário declarar-lhe-ia guerra. Sem saída, impossibilitado de enfrentar tão poderosa nação, Dom Carlos cedeu às pretensões inglesas, perdendo com isto, a popularidade, fazendo com que crescesse os simpatizantes dos republicanos, que, aproveitando-se da insatisfação popular, tentariam a implantação da República no Porto, em 31 de janeiro de 1891.

João Franco é Nomeado Presidente do Concelho

O fim do século XIX foi caracterizado pela decadência da Monarquia e pela acentuada corrupção eleitoral, promovida por dois partidos, o Progressista e o Regenerador. Estes partidos revezavam-se no poder, tendo como juiz o próprio rei, que quando via terminar o mandato de um deles, chamava o outro, por este motivo, os dois partidos eram conhecidos como “rotativos”. Esta manipulação real, consentida pelo oportunismo partidário, teve a harmonia quebrada em 1901, quando João Franco abriu uma cisão no Partido Regenerador e, em 1905, quando José Maria Alpoim abriu outra cisão no Partido Progressista, formando a Dissidência Progressista. Diante das divisões, do desgaste, da corrupção e dos escândalos políticos, o parlamento deixou de funcionar a partir de 1904.
Marcada pela letargia do parlamento, a primavera de 1905 trouxe grandes tumultos e agitações que selariam de vez o futuro do rei e a sua integridade física. De 9 a 13 de abril, as guarnições dos cruzadores “D. Carlos” e “Vasco da Gama”, sob a inspiração de José Maria Alpoim, revoltaram-se, produzindo um movimento que tinha como meta pôr o infante Dom Luís Filipe no trono, no lugar do pai.
Não bastassem as guarnições revoltosas, a 4 de maio, o republicano Bernardino Machado promoveu uma manifestação que foi severamente dispersada pela polícia, deixando dezenas de feridos. No Campo Pequeno, o republicano Afonso Costa, na presença da rainha Dona Amélia, recebeu uma grande ovação. Incomodado pelas agitações cada vez mais contundentes, o presidente do Conselho, o regenerador Hintze Ribeiro, pediu ao rei que suspendesse indefinidamente a sessão legislativa, até que se estabelecesse a normalidade. Diante de uma proposta de se instaurar uma ditadura, Dom Carlos recusou a proposta do presidente do conselho. Em 19 de maio, nomearia para o cargo de Hintze Ribeiro, o exaltado João Franco Castelo-Branco.

Decreto Arbitrário e Ditatorial

João Franco demonstrou-se um desastre para o combalido governo de Dom Carlos. Sob os arroubos da exaltação, chegou prometendo o fim da política de “rotação”, demonstrando desde sempre, contumaz inimigo dos “rotativos”. Prometeu formar um genuíno parlamento, eleito sem comprometimentos. Diante de uma política viciada, João Franco propunha, inconscientemente, uma explosiva situação revolucionária. Para liquidar os “rotativos”, ele precisava de um reino ditatorial para chegar ao reino da liberdade. Não podendo acabar de vez com a “rotação”, uniu-se a um dos partidos que dela fazia parte, os Progressistas. Mas a inabilidade e a falta de competência de Franco para liquidar os “rotativos”, fez com que estes organizassem manifestações contra Dom Carlos, incitando para isto, populares em Arganil, na Régua e em Vila Real. Por fim, o rei tornou-se alvo das difamações, maledicências e ódios por todo o reino.
Tentando fazer uma eleição menos viciada, João Franco viu, em 1906, a vitória de quatro republicanos ao parlamento: Antonio José de Almeida, João de Menezes, Afonso Costa e Alexandre Braga. O presidente do Conselho governou sofrendo o obstrucionismo nas Câmaras e, com profundas campanhas difamatórias da imprensa, gerando cada vez mais desafetos para o seu governo e para o rei.
Em 1907, bastante enfraquecido, João Franco viu-se ameaçado pelos Progressistas, que tramavam para substitui-lo. Para impedir a sua derrocada, Franco pôs somente aliados no governo.
Terminada a união com os Progressistas, sem alianças, restava a iminência de uma ditadura, que combatesse os “rotativos”. A 8 de maio de 1907, Dom Carlos assinou um decreto que dissolvia a Câmara dos Deputados, sem a prévia consulta do Conselho de Estado e sem que se marcassem eleições, conforme determinava a Constituição. Estava instaurada a ditadura absolutista de Dom Carlos e do seu aliado, João Franco.

Corrupção e Conspirações

Ainda no fatídico ano de 1907, explodiu uma greve acadêmica em Coimbra, contestando as arbitrariedades do governo, que logo se alastrou por todo o país. A situação tornou-se mais delicada quando João Franco, para evitar os constantes ataques dos jornais republicanos e dos Dissidentes Progressistas, faria aprovar uma nova lei repressiva, que viria a ser conhecida como “a lei contra a imprensa”.
Em novembro de 1907, o Dissidente Antonio Centeno, em discurso na Câmara dos Pares, mencionou que havia contas a liquidar entre a administração da Casa Real e o Estado, ao que Franco confirmava, espontaneamente, que Dom Carlos recebera adiantamentos ilícitos do Estado à Casa Real. Imediatamente foram espalhados boatos de que o rei roubava o Estado. Para deteriorar ainda mais a situação, o rei declarava arrogantemente ao jornal parisiense “Le Temps”, que era o responsável pela dissolução da Câmara, e que quando ele e Franco achassem conveniente, convocariam as eleições.
A questão dos “adiantamentos” não saiu mais da pauta da imprensa e das calorosas afrontas no Parlamento. Portugal era um país empobrecido, cada vez mais isolado nas questões políticas européias. Para uma população que se via cada dia mais carente financeiramente, defrontar-se com os boatos de uma Monarquia corrupta, fazia com que aumentasse a simpatia pelos republicanos e desprezassem o seu rei, que se tornara um absolutista, recorrendo a uma forma repressiva e ditatorial de governar. Se a verdade sobre a corrupção de Dom Carlos pode ser historicamente contestada e provada a sua inocência, a sua forma de ditador não o redimiu, pelo contrário, tornou-se historicamente inquestionável.
Se a popularidade do rei caía vertiginosamente, os movimentos conspiratórios contra o seu reinado ascendiam espetacularmente. No princípio de novembro de 1907, a conspiração dos republicanos e dos Dissidentes Progressistas estava pronta para travar a luta definitiva. Armaram-se com carabinas e revólveres, começaram a tramar uma revolução que culminasse com o fim da Monarquia e a proclamação da República. Na véspera da intentona republicana, marcada para o dia 28 de janeiro de 1908, os seus dirigentes, entre eles João Chagas, José Maria Alpoim, Afonso Costa, Antonio José de Almeida, o visconde da Ribeira Brava, João Pinto dos Santos e Egas Moniz, distribuíram carabinas winchester e revólveres aos grupos de aliados civis.
Mas a intentona foi descoberta antes que se concretizasse, levando os seus principais conspiradores à prisão. No meio da confusão, grupos de aliados civis continuaram armados, entre eles Manuel Buíça, que herdara uma Winchester 351, e Alfredo Costa, herdeiro de um revólver. Os dois dariam os tiros fatais que matariam o rei Dom Carlos e o seu filho Dom Luís Filipe.

O Regicídio

Para punir os conspiradores, Dom Carlos, a 31 de janeiro de 1908, assinou um decreto que autorizava o governo a expulsar do reino e degredar para as colônias ultramarinas, os culpados de crimes contra a segurança do Estado. Um jornal, “O Mundo”, descobriu uma cópia do decreto e publicou-o, incitando a revolta contra o rei. Falsamente, o jornal, de tendência republicana, concluía que Egas Moniz, Afonso Costa, Ribeira Brava, João Chagas e Antonio José de Almeida seriam deportados para Timor, fato que nunca estivera nos planos de Dom Carlos.
Era costume da família real passar o mês de janeiro em Vila Viçosa, Alentejo. Quinze dias antes do retorno oficial, a rainha Dona Amélia quis voltar, mas o rei recusara. João Franco incentivou o rei a lá permanecer, sua volta antecipada poderia demonstrar fraqueza diante dos acontecimentos conturbados, segundo o presidente do Conselho, era preciso mostrar que tudo corria sem preocupações.
Assim, findo o mês de janeiro, a família real regressou para Lisboa. No caminho de volta, um descarrilamento do comboio, em Casa Branca, atrasaria algumas horas a chegada à capital.
No fim da tarde de 1 de fevereiro, a família real chegava à estação fluvial do Terreiro do Paço. O visconde de Asseca, estribeiro-mor, indagou ao rei se preferia fazer o trajeto até o Palácio das Necessidades de automóvel ou de carruagem aberta, fatalmente Dom Carlos escolheu a carruagem aberta, o landau. À espera do rei estavam o infante Dom Manuel, que retornara mais cedo do Alentejo, Dom Afonso, João Franco, as damas palatinas, os cortesãos e os fiéis, além de alguns políticos. Por volta das cinco horas da tarde, Dom Carlos subiu na carruagem aberta, ao seu lado, à frente, iam os dois infantes e Dona Amélia. Quando o landau atravessava o meio da passadeira no lado ocidental do Terreiro do Paço, um homem de gabão saiu da placa central, extraiu uma carabina da capa, ajoelhou-se e atirou. Era Manuel Buíça, o seu tiro atingiu o rei, partindo-lhe a coluna, matando-o instantaneamente. O landau foi cercado por dois outros homens, que abriram fogo atingindo a carruagem e as paredes do Ministério da Fazenda. Da arcada surgiu Alfredo Costa, que empunhando um revólver Browning FN, calibre 7.65, saltou para o estribo do landau, disparando dois tiros em Dom Carlos, a esta altura, já morto, o rei foi atingido no antebraço e na omoplata direita. O infante Dom Luís Filipe levantou-se, tentando sacar de um colt, calibre 38, que trazia consigo. Alfredo Costa atingiu o príncipe com uma bala no peito. Ferido, o príncipe respondeu com um tiro, atingindo Costa, que rolou para o chão. Manuel Buíça continuava a disparar sobre Dom Carlos, finalizando com um tiro letal na cabeça de Dom Luís Filipe. Dona Amélia desceu do landau, e com um ramo de rosas que recebera como presente de boas-vindas, fustigou o rosto de Alfredo Costa, forçando-o a parar de atirar na sua família.
Após alguns minutos fatídicos, a escolta do rei reagiu. Policiais e soldados convergiram contra Alfredo Costa e Manuel Buíça, este último ainda acertou em um soldado e no tenente Figueira. O tenente desferiu um sabre nas costas de Buíça. No fim da tragédia, jaziam o rei Dom Carlos, o príncipe Dom Luís Filipe, os regicidas Manuel Buíça e Alfredo Costa. A carruagem do rei refugiou-se na Rua do Arsenal. Ali, no empedrado da rua, os corpos reais foram estendidos, molhando o chão com uma grande poça de sangue. Diante dos cadáveres do marido e do filho, Dona Amélia vociferou para João Franco: “Veja a sua obra”.
Diante dos corpos, uma multidão de pessoas apareceu, tratando Franco e os ministros com desprezo e repulsa.
Levada ao local, a rainha Dona Maria Pia, viúva do rei Dom Luís, mãe de Dom Carlos, disse a Dona Amélia: “Alors, on a tué mon fils.” A pobre mulher ainda não sabia da morte do neto. Desolada, Dona Amélia respondeu-lhe, revelando-lhe a morte do príncipe: “Et lê mien aussi.” A rainha-mãe resignou-se, sentando-se, sem dizer mais uma palavra, ou verter uma lágrima. À noite, dois landaus levaram os corpos para o Palácio das Necessidades. O crime trouxe o medo e o terror para todos os nobres do reino, receosos de serem os próximos.
Após a tragédia, que passou para a história como o regicídio, Dom Manuel, segundo na sucessão de Dom Carlos, tornou-se o último rei de Portugal. Seu reinado terminaria no dia 5 de outubro de 1910, com a proclamação da República. O último rei português não deixou descendência, sendo a linha sucessória passada para o ramo miguelista (descendentes de Dom Miguel, irmão de Dom Pedro IV de Portugal e I do Brasil). Quando Dom Carlos morreu, morria também qualquer vínculo com o futuro da sua descendência. Dom Manuel II preservou a prole do malogrado rei até a sua morte no exílio, em 1932. Dom Carlos, assim como o seu reinado, deixou a esterilidade do mundo como herança. Um século depois da sua morte, a República portuguesa, hoje parte de um regime de cunho democrático, ainda carrega nas costas um dos preços que teve que pagar para ser proclamada, o sangue derramado na Rua do Arsenal, o regicídio.
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Segunda-feira, 27 de Abril de 2009

JOÃO PAULO I, MORTE E MISTÉRIO NO VATICANO

 

 

Vaticano, 26 de agosto de 1978, vinte dias após a morte do papa Paulo VI, os cardeais reunidos em conclave na Capela Sistina, votam o nome de um novo papa. Os votos são contados e queimados, formando uma fumaça branca. “Habemus Papam!” (Temos Papa), anunciava o deão. Na varanda principal aparecia Albino Luciani, já feito sumo sacerdote, com o seu sorriso peculiar no rosto, dando a sua benção ao mundo católico.
Com uma simplicidade secular, Albino Luciani recusou a cerimônia formal da coroação, abdicando da tiara (coroa pontifical) e da entronização papal, fato inusitado desde Clemente V, papa do início do século XIV. Em homenagem aos seus antecessores, os papas João XXIII e Paulo VI, Luciani adoto o nome de João Paulo I, sendo o primeiro papa a ter nome duplo. Conta-se que o patriarca de Veneza, ao ser eleito papa, mostrou-se incrédulo diante do inusitado, tendo declinado à missão, mas que teria sido convencido pelo cardeal Johan Wildebrands, que lhe teria dito: “Coragem! O Senhor dá o fardo, mas também a força para carregá-lo.” O novo papa declararia, logo após os resultados do conclave: “Quando cheguei ontem de manhã, fui à Capela Sistina para votar tranqüilamente. Eu nunca teria imaginado o que estava prestes a acontecer."
João Paulo I, com o seu jeito carismático, ficou conhecido como o “Papa Sorriso” ou “Papa Sorridente”. Veio disposto a fazer mudanças dentro das estruturas de uma das instituições mais poderosas da humanidade. João Paulo I teria dito aos secretários mais próximos as suas intenções peremptórias: rever a estrutura da Cúria, com a publicação de várias cartas pastorais sobre a colegialidade dos bispos, rever as condições das mulheres na Igreja, a pobreza no mundo e a unidade da Igreja; além de acabar com o negócio da IOR (Instituto para Obras Religiosas), em especial o seu casamento com Banco Ambrosiano, exigindo transparência, mesmo em frente aos maçons e à máfia.
29 de setembro de 1978. 33 dias após João Paulo I ter sido eleito o sumo sacerdote da igreja católica, subitamente o Vaticano declarava ao mundo: o papa estava morto, por causa de um enfarte agudo do miocárdio. O sorriso do rosto de João Paulo I esvaiu-se, assim como a sua vida. Uma morte envolta em mistérios e circunstâncias jamais explicadas, o que levou à suspeita de assassínio. 30 anos passados, a pergunta continua a ser feita, João Paulo I, o Papa Sorriso, teria morrido naturalmente ou teria sido assassinado?

Máfia e Maçonaria nos Negócios do Banco do Vaticano

Esta manhã, 29 de setembro de 1978, pelas 05h30, o secretário particular do Papa, não tendo encontrado o Santo Padre na capela, como de costume, procurou-o no seu quarto e encontrou-o morto na cama, com a luz acesa, como se ainda estivesse a ler. O médico, Dr. Renato Buzzonetti, que acudiu imediatamente, constatou a sua morte, ocorrida provavelmente pelas 23h00 de 28 de setembro, devido a um enfarte agudo do miocárdio. "
O anúncio oficial da morte de João Paulo I foi feito em cima de mentiras e ocultações de fatos que por si só eram bastante para que se abrissem suspeitas de assassínio, falta de transparência e um terrível mal-estar diante do sucedido. Aos poucos, algumas verdades foram reveladas, transformando o óbito do papa em um poço de contradições até hoje não esclarecidas.
Mas o que levaria um papa a ser assassinado 33 dias após a sua eleição? O que realmente estava envolvido no futuro pontificado de João Paulo I que pudesse causar tanta preocupação e medo? O fato que mais pesa sobre um suposto assassínio do sumo pontífice seria a sua determinação em limpar a corrupção que se abatera sobre o Banco do Vaticano, o IOR. Sobre os negócios ilícitos da instituição financeira e a posição da igreja em relação a ela, teria dito:
Aquela que se chama sede de Pedro e que se diz também santa, não pode degradar-se até a ponto de misturar as suas atividades financeiras com as dos banqueiros, para os quais a única lei é o lucro e onde se exerce a usura, permitida e aceita, mas ao fim e ao cabo usura. Perdemos o sentido da pobreza evangélica; fizemos nossas as regras do mundo.
Para limpar a corrupção do IOR, João Paulo I tinha como objetivo destituir o seu poderoso presidente, Paul Marcinkus, conhecido como o “banqueiro de Deus”. A participação da máfia e da loja maçônica italiana Propaganda Due (P-2) nas finanças do IOR geraram vários inquéritos e assassínios dos envolvidos no decorrer dos anos, sem jamais ficar esclarecida. João Paulo I estava disposto a tomar uma posição diante de todos perante a maçonaria e a máfia. A esta oposição, teria dito ao secretário de Estado do Vaticano, Jean Villot, o qual desejava substituir por Johan Wildebrands: “São duas (máfia e P-2) potências do mal. Devemos enfrentar com coragem as suas ações perversas.” Com esta atitude, estaria selado o destino de João Paulo I, ou seja, o seu assassínio.
As suspeitas aumentaram, quando foi vazada a informação de que no quarto de João Paulo I, sobre a sua mesa de trabalho, teria sido encontrada uma lista com nomes de supostos maçons do Vaticano. Esta lista teria sido elaborada pelo jornalista Mino Pecorelli, membro arrependido da P-2, que seria assassinado em 1979. Nesta lista constariam os nomes de Jean Villot e Paul Marcinkus. A corrupção levaria à falência fraudulenta do Banco Ambrosiano, em 1982, do qual o IOR era o principal acionista.

Morte pela Ingestão em Excesso de um Vasodilatador

Deixando os suspeitos, se mergulharmos nas contradições oficiais sobre a morte de João Paulo I e as revelações que se fizeram através dos anos, vamos encontrar a sensação explícita de que um grande mistério foi mantido em preterimento à memória do papa.
A verdadeira causa da morte do Papa Sorriso, enfarte do miocárdio ou assassínio, teria sido facilmente esclarecida com uma simples autópsia ao corpo. Oficialmente o Vaticano negou-se a fazê-la, mantendo a versão da inviolabilidade do corpo. Em 1987, o jornalista Giovanni Gennari, amigo pessoal de Albino Luciani, declararia em um artigo publicado, que teria sido feita uma autópsia secreta ao cadáver do papa, que se teria revelado a ingestão de uma fortíssima dose de um vasodilatador a verdadeira causa da morte. A droga teria sido receitada por telefone, pelo médico pessoal do papa em Veneza, o Dr. Antonio Da Ros. Após o telefonema do médico, o papa teria feito abrir a farmácia do Vaticano às 22h30. Daqui nascia a teoria de que o sumo pontífice enganara-se e tomado uma dose excessiva do remédio. 15 anos depois da morte de João Paulo I, em 1993, Antonio Da Ros, declarou à revista “30 Giorni”, que o seu telefonema ao papa teria sido de rotina, não lhe receitando remédio algum, pois o tinha visto cinco dias antes e a sua saúde era excelente.
Ao contrário do que declarou Antonio Da Ros sobre a excelente saúde do papa, na ocasião o Vaticano tentou passar para a opinião pública que ele tinha uma saúde debilitada e muito frágil. Diego Lorenzi, secretário do papa e quem revelou que uma autópsia secreta teria sido feita com um pedaço retirado do corpo, provavelmente as vísceras; também rebateu a teoria da fragilidade da saúde do papa, confirmando de que durante os 26 meses que esteve com ele, jamais ficou doente ou apresentou qualquer problema de saúde, a não ser que tinha uma pressão arterial um pouco baixa. Também funcionários da farmácia do Vaticano declarariam que remédio algum tinha saído dali para João Paulo I durante o curto tempo do seu pontificado.
Se a morte de João Paulo I se deu por ingestão de um vasodilatador e não por um enfarte do miocárdio, e se não foi receitado remédio algum por seu médico, tão pouco ele saiu da farmácia do Vaticano, mais uma vez surge a sombra da dúvida de quem e em que circunstâncias teria administrado a droga a ele.

Contradições e Mentiras Oficiais

Mais algumas contradições surgiram quanto ao relato oficial: quem encontrou o corpo do papa? Em que posição foi encontrado e a que horas morreu de fato? Estas três perguntas foram respondidas mais tarde, pelo testemunho revelador da irmã Vicenza Taffarel, freira que cuidava de João Paulo I.
Na versão oficial do Vaticano, o bispo John Magee teria sido quem encontrara o papa morto em seus aposentos, e que na ocasião trazia entre os dedos “A Imitação de Cristo” e outras coisas, apontamentos, homilias e discursos; teria morrido por volta das 23h00 do dia 28 de setembro.
Em 1988, a verdade quanto ao descobrimento do cadáver veio à tona. John Magee reconheceu não ter sido ele, mas a irmã Vicenza Taffarel, quem encontrara o papa morto. A irmã Vicenza teria sido proibida pela secretaria do Estado do Vaticano a não revelar a verdade. Teria vivido atormentada o resto dos seus dias por manter esta mentira. Em 1983, no momento da sua morte, a freira sentiu-se libertada da imposição, revelando a verdade a familiares. Irmã Vicenza revelou que encontrara o papa sentado na cama, com os óculos postos e alguns papéis na mão. Trazia a cabeça tombada para a direita e uma das pernas estendia sobre a cama. Trazia ainda, um leve sorriso no rosto e a testa morna. Foi a irmã Vicenza, ajudada por outra freira, quem lavou o cadáver, elas constataram que as costas estavam ainda mornas. Este fato leva à dedução de que a morte teria acontecido de madrugada, entre às 2h00 e às 4h00 do dia 29 de setembro. O fato de estar com uma perna sobre a cama, sem vestígios de luta contra a morte, demonstra que não é um quadro típico de enfarte do miocárdio.
Outras contradições viriam, como o que estaria a ler o papa na hora da sua morte. Dom Germano Pattaro, conselheiro em Roma de João Paulo I, afirmou que não era “A Imitação de Cristo” ou homilias, mas anotações sobre uma conversa que o papa teria tido com o secretário de Estado Jean Villot, na última tarde da sua vida. Teria sido nesta conversa que o papa revelara a Villot as mudanças imediatas e revolucionárias que pretendia fazer, mudanças essas que o secretário teria refutado, demonstrando ser contrário a elas.

O Silêncio da Verdade nos Ecos da História

Três décadas depois da sua morte, quem foi este papa que se sentou na cadeira de Pedro por apenas 33 dias? Que mistérios envolveram esta morte? Numa imagem deturpada pelo Vaticano, a de homem fisicamente debilitado e de saúde frágil, aos poucos, através dos anos e de investigações de homens como o jornalista britânico David Yallop, que escreveu “Em Nome de Deus” (1982), e do sacerdote Jesús López Sáez, autor de “Se Pedirá Cuenta” e muitos escritos sobre a morte do papa, considerando-a um assassínio; surge-nos a imagem de um papa decidido, afável e de caráter revolucionário dentro das estruturas de uma igreja constantemente questionava pela evolução das civilizações cristãs.
Albino Luciani nasceu em 17 de outubro de 1912, cinco anos antes da revolução Bolchevique. Nasceu em Belluno, região de Veneto, na Itália. Oriundo de uma família humilde, assistiu às dificuldades do pai, que diante da miséria causada pela Primeira Guerra Mundial, foi obrigado a migrar para diversos países vizinhos para trazer o sustento da família. Aos 11 anos de idade entrou para o seminário, vindo a ordenar-se sacerdote a 7 de julho de 1935. Em 1954 foi nomeado vigário geral de diocese e, quatro anos depois, bispo de Vittorio Veneto. Em 15 de dezembro de 1969, Paulo VI nomeou-o Patriarca de Veneza, e três anos mais tarde, cardeal. Assim permaneceu até a sua eleição para papa, em agosto de 1978, poucos dias antes de completar 65 anos. Não viveria suficientemente para mostrar a verdadeira face do seu pontificado. Dele ficou para o mundo a grandiosidade do seu sorriso, que lhe valeu a alcunha de Papa Sorriso e um grande mistério sobre a sua morte, que urge em ser desvendado. A história e o Vaticano devem a João Paulo I este esclarecimento, seja qual for a verdade. A este respeito o cardeal brasileiro Aloísio Lorscheider teve a coragem de falar há uma década atrás: “As suspeitas continuam no nosso coração como uma sombra amarga, como uma pergunta à qual não foi dada resposta.”Mesmo depois de três décadas da morte suspeita de João Paulo I, o assunto, apesar das especulações e das várias investigações por conta de tantas pessoas, o silêncio ainda é absoluto dentro do Vaticano. E a história continua a dever a reparação da verdade ao Papa Sorriso e ao que lhe sucedeu de fato, naquela tumultuada madrugada de 28 para 29 de setembro. Só o tempo fará os acertos com a história e com este silêncio aparentemente perpétuo.
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Sexta-feira, 24 de Abril de 2009

A ATUAÇÃO DAS MULHERES NO GOLPE MILITAR DE 1964

 

 

É certo que o golpe militar de 1964 não vingaria não fosse o apoio conspiratório de várias entidades e segmentos da sociedade brasileira. Passados os anos da catástrofe contra a democracia instaurada naquele ano, pouco foi dito sobre os conspiradores ou sobre as entidades que ajudaram o golpe de estado. Uma das participações mais determinantes no movimento de 1964 foi a das mulheres. Pouco se tem dito, mas elas foram essenciais para a queda do governo de João Goulart.
Nos anos 60 uma nova história da participação da mulher dentro da política e da sociedade seria escrita. É a década da quebra de tabus, da liberação sexual e da emancipação da mulher, desde então feita dona do seu corpo e destino. A ciência conspirou a favor dessa emancipação, lançado através da pílula anticoncepcional uma nova visão da maternidade. Se foi nessa década que a mulher adotou a pílula, queimou sutiãs em praça pública pelo mundo, no Brasil elas permaneciam conservadoras e voltadas para os princípios básicos e eternos do conceito de família e da religião cristã romana.
A voz feminina nas decisões políticas do país deixou, nesta década, o papel habitual de coadjuvante, tornando-se uma arma poderosa, bem usada e manipulada pela direita conservadora e pela igreja católica. No início dos anos 60 as conservadoras mulheres da classe média organizaram-se, surgiram entidades políticas femininas patrocinadas pelo Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) e pelo Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), destinadas a colaborarem com uma imensa conspiração que urdia para derrubar o então presidente João Goulart. Distintas senhoras mães de família, mulheres de políticos, militares, e até mesmo artistas, organizaram-se nos principais estados conspiradores, Guanabara, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, formando a União Cívica Feminina (UCF), a Campanha da Mulher pela Democracia (Camde) e a Liga da Mulher Democrata (Limde), entre outras organizações. Decididas, empunhando rosários nas mãos, as mulheres brasileiras, amparadas em suas entidades, marcharam pelas ruas das principais cidades do Brasil, primeiro exigindo a queda de João Goulart, depois, concretizado o objetivo, para saudar os militares golpistas que instaurariam uma ditadura que duraria mais de 20 anos. Vitoriosas, as mulheres aplaudiram ao ato que confortavelmente chamaram de “revolução”.

Entidades Femininas Sob a Influência do IBAD, do IPES e da Igreja Católica

A divisão do mundo político em dois blocos após a Segunda Guerra Mundial, tendo de um lado os Estados Unidos e a Europa ocidental, do outro lado a União Soviética, fez com que se instaurasse a Guerra Fria. Não só os interesses ideológicos e econômicos foram postos em causa, como também o destino e o futuro da igreja romana no mundo. A Europa estava completamente ocupada e devastada pelo poderio nazista. Duas frentes dos aliados vieram em seu socorro, uma liderada pelos americanos, que entrou nos países ocupados pela Normandia, e outra liderada pelos soviéticos, vinda do leste, a partir de Moscou. Ao libertar o leste europeu, os soviéticos não só expulsaram os nazistas dali, como também a igreja, considerada pelos comunistas a responsável direta pela miséria e alienação dos povos através dos tempos. Estava instaurado o chamado comunismo ateu.
A Guerra Fria estava em seu auge no início dos anos 60. A revolução socialista cubana em 1959, deu o sinal de alerta para os americanos, a desigualdade social, a miséria e o poder latifundiário, faziam da América Latina campo fértil para as revoluções socialistas. O catolicismo enraizado nesses países também estava ameaçado. Quando John Kennedy ascendeu à presidência dos EUA, tornava-se o primeiro presidente católico daquela nação. Em 1961 Kennedy lançou o programa de ajuda econômica e social à América Latina, a Aliança para o Progresso, surgindo paralelamente o plano Caritas. Em princípio de caráter humanitário, o Caritas (caridade em latim) além de distribuir alimentos, medicamentos e esmolas para os latinos americanos, ele servia como atenuante dos ideais revolucionários socialistas, apontando-os como incessíveis à fé. Financiado pelos católicos dos países ricos, o Caritas alertava o povo, propagando que o ateísmo marxista destruiria as igrejas, separaria as famílias e mataria todos os conceitos familiares tradicionais do povo latino americano. No final de 1963, foi enviado para o Brasil o padre Patrick Peyton, devidamente chancelado por Kennedy e pela Agência Central de Inteligência (CIA), que o tinha sido preparado. Peyton era famoso por gostar de aparecer ao lado de celebridades. O padre iniciou uma pregação pelo Brasil, aliciando principalmente, as mulheres católicas do país. No início de 1964, com suporte técnico feito por Washington, o primeiro programa em rede da televisão a cobrir todo o Brasil, foi uma missa celebrada por Peyton. O padre abriu caminho para as chamadas marchas da família, dando origem à Cruzada pelo Rosário em Família. Promovia o lema de que a família que rezava unida, permanecia unida. Seus rosários em família eram disputados pelos brasileiros. A Cruzada do Rosário tinha surgido nos Estados Unidos em 1945, e adotara como símbolo o rosário católico como principal arma contra o comunismo.
Paralelo ao trabalho da igreja, foi reativado o IPES, existente desde 1952, mas até então com pouca relevância. Sob o comando do coronel Golbery do Couto e Silva, esta entidade era uma organização que corresponderia às atuais organizações não-governamentais (ONGs), era financiado por empresas nacionais e multinacionais e pelo próprio governo. O IPES tornou-se forte articulador da desestabilização do governo. Em 1959, o economista Ivan Hasslocher criou o IBAD. Apoiada por poderosos empresários brasileiros e estrangeiros, a entidade financiava meios de comunicações, políticos e entidades de oposição ao governo de João Goulart. IPES, IBAD e a igreja católica, seriam os principais incentivadores das organizações das mulheres, ajudando na criação de várias delas, incitando-lhes às marchas contra o suposto comunismo do governo janguista, e até financiando essas entidades.
Sob a benção do IPES, em 1962 surgiu em São Paulo, a União Cívica Feminina (UCP). A entidade era composta pelas mulheres da mais alta elite paulistana. Se a UCP começou a campanha contra João Goulart em nome da defesa da moral e dos bons costumes da família e do direito à integridade religiosa, terminou por defender a elite, atemorizada pela convicção do presidente em promover reformas de base que beneficiariam grande parte da população, contrariando interesses de empresários, latifundiários e de multinacionais.
Na cidade do Rio de Janeiro, capital do estado da Guanabara, a elite reuniria as suas mulheres dentro da Campanha da Mulher pela Democracia (Camde). Em Belo Horizonte, Minas Gerais, surgiria a Liga da Mulher Democrata (Limde). UCP, Camde e Limde unir-se-iam em uma das maiores cruzadas políticas feitas pelas mulheres brasileiras, marchando de encontro aos golpistas militares que implantariam uma longa ditadura no Brasil, a mais feroz de todas que o país viveu em sua história.

As Ofensivas das Mulheres da Elite

João Goulart era conhecido pela sua grande capacidade de dialogar com todos os setores da sociedade. Nem assim conseguiu a simpatia da elite brasileira, que sempre o viram com desconfiança. Isolado pelos empresários e por grande parte dos políticos, Jango, a partir de janeiro de 1964, voltou-se para as entidades que lhe apoiavam, entre elas a União Nacional dos Estudantes (UNE) e o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). Para mostrar ao povo a força do governo, apoiado pelas entidades de esquerda, o presidente marcou um comício para o dia 13 de março, que se realizaria no Rio de Janeiro.
A tensão estava criada. As mulheres da elite, cada vez mais organizadas, participavam de cursos financiados pelo IPES, nos quais recebiam aulas de preparação para pregar a união da família contra o perigo do comunismo ateu. Devidamente instruídas, elas levavam às amigas, aos empregados domésticos, às comunidades, as lições aprendidas contra o perigo vermelho. A Limde, a UCF e a Camde, promoviam grandes participações em programas de rádios, reuniões com adesões cada vez maiores, distribuíam panfletos, enviavam telegramas e cartas aos políticos e às entidades representativas, sempre em nome da defesa da pátria e da família cristã; chegaram a enviar mais de 50 mil cartas ao Congresso Nacional.
Conforme a tensão aumentava os conflitos entre a esquerda e a direita, também as mulheres ficavam mais ofensivas. Em janeiro do fatídico 1964, Belo Horizonte iria receber o congresso da Central Única dos Trabalhadores da América Latina. Em resposta à realização do evento, a Limde espalhou que enviaria as suas militantes para o aeroporto, deitar-se-iam na pista, evitando que as delegações pudessem desembarcar. Diante do impasse, o congresso foi transferido para Brasília. A mesma entidade voltaria a radicalizar em fevereiro, quando Leonel Brizola, de passagem por Belo Horizonte, discursava na Secretária de Saúde a favor das reformas de base; as mulheres invadiram o auditório com rosários na mão e pronunciando orações, calando o deputado, causando um grande tumulto. O episódio passaria para a história como a “noite das cadeiradas”.

Vermelho Bom, Só o Batom

Como já elucidado acima, a Cruzada do Rosário, promovida pela pregação do padre Peyton, atingiu as mulheres da elite brasileira, e também, grande parte da população católica. O que não era citado era o profundo teor reacionário desses conservadores católicos que além dos comunistas, punham no mesmo saco de inimigos o espiritismo, a umbanda, o protestantismo e a maçonaria. No comício da Central do Brasil do dia 13 de março, João Goulart daria uma resposta à hipocrisia conservadora da Cruzada do Rosário:
Não podem ser levantados os rosários da fé contra o povo, que tem fé numa justiça social mais humana e na dignidade das suas esperanças. Os rosários não podem ser erguidos contra aqueles que reclamam a discriminação da propriedade da terra, hoje ainda em mãos de tão poucos, de tão pequena minoria.”
O discurso de João Goulart foi considerado ofensivo às mulheres, às suas entidades e à Nossa Senhora. A verdade é que o comício da Central do Brasil incomodou profundamente aos conservadores. Mais uma vez a hipocrisia religiosa foi dada como desculpa para que a elite pudesse defender os seus interesses seculares. Em resposta ao comício, a UCP organizou uma grande manifestação em São Paulo, em defesa da “ofensa” feita pelo presidente à Nossa Senhora. Foi escolhida a data de 19 de março, dia de São José, o santo protetor da família, para a realização de uma grande marcha que se destinava a sensibilizar os brasileiros da ameaça comunista que pairava contra a nação. À frente da convocação à família paulistana, foi usado o nome de Leonor Mendes de Barros, mulher do então governador de São Paulo, Adhemar de Barros. Entre 14 e 16 horas, formaram-se na Praça da República, grupos de pessoas em volta de elegantes mulheres, que traziam nas mãos bandeirinhas do Brasil e rosários. As mulheres eclodiam pelo país as “marchas da família, com Deus, pela liberdade”. Se o comício da Central do Brasil reunira 100 mil pessoas, quando a marcha desembocou-se na Praça da Sé, cerca de 500 mil pessoas a acompanhava. Aproximadamente 80 entidades participaram do manifesto. Durante o trajeto, faixas estampavam o objetivo da marcha, trazendo frases que entrariam para a historia, como “Está chegando a hora de Jango ir embora”, “Verde e amarelo, sem foice nem martelo” e “Vermelho bom, só o batom”.
O palanque montado na Praça da Sé só foi atingido uma hora depois do início da marcha. Leonor Mendes de Barros hasteou a bandeira brasileira, o Hino Nacional foi tocado pela banda da Força Pública. Foi feita uma oração pela salvação da democracia, abrindo-se logo a seguir, o palanque para os discursos. Carlos Lacerda e Adhemar de Barros limitaram as suas presenças no evento, o primeiro não discursando, o segundo sobrevoando a praça de helicóptero. Ao agir assim, deixaram estrategicamente as glórias do evento às mulheres.

Mulheres Saúdam o Golpe Militar

O sucesso da Marcha da Família com Deus pela Liberdade (que inicialmente deveria se chamar Marcha de Desagravo ao Santo Rosário) em São Paulo, abriu caminho para que outras fossem realizadas por todo o país, sempre com as mulheres à frente, trazendo rosários nas mãos. Uma marcha gigantesca e tão marcante quanto a de São Paulo, seria marcada para ser realizada no Rio de Janeiro no dia 2 de abril. No dia 31 de março o general Olimpio Mourão Filho, subleva as suas tropas da 4ª RM e 4ª DI, em Juiz de Fora, começando o movimento que culminaria na deposição do presidente João Goulart. Quando se realizou a marcha na capital da Guanabara, ela já se dá como festa para receber os militares do golpe, que é chamado de “revolução”. O evento passa então, a ser chamado de Marcha da Vitória, chancelando o golpe de estado que se dava naquele momento.
Com a implantação do governo ditatorial dos militares, as entidades femininas formadas naqueles tumultuados anos do início da década de 60 deixaram de ter uma utilidade objetiva. Afinal tinham sido criadas para a desestabilização do governo que fora derrubado. Qualquer ameaça da esquerda foi reprimida através de prisões e torturas. Os rosários já não eram necessários diante dos fuzis. Assim como surgiram, as entidades da conservadora elite das mulheres brasileiras foram extintas e esquecidas. Pouco ou nada é falado, quando acontece, apenas as mais beatas são citadas, causando-se a impressão de um fanatismo de mulheres velhas. Mero engano. Mulheres de todas as idades participaram dessas entidades, e de fanatismo nada tinham, eram movidas pelos interesses das classes sociais que se criaram e que delas sempre tiraram proveitos. Mulheres inteligentes e de acesso cultural elevado usaram do seu poder na defesa de uma elite secular. Algumas dessas mulheres futuramente perderiam os seus filhos para o romantismo de uma esquerda revolucionária que se voltaria contra a ditadura. Ironicamente os homens que ajudaram a chegar ao poder é que iriam matar ou desaparecer com alguns dos seus filhos.
De todas as entidades citadas, a única que persiste até os nossos dias é a UCF, em São Paulo. Mais de quatro décadas depois da implantação da ditadura e de todos os males que causaram historicamente, a UCF jamais fez uma retratação ou autocrítica da sua participação no movimento de 1964. Atua como uma entidade politicamente correta, ainda a serviço da elite. Limitam-se a entregar panfletos pelas ruas de São Paulo lembrando datas cívicas esquecidas ou promovendo manifestações mornas de apoio a alguma CPI (Comissão Parlamentar de Inquéritos) contra a corrupção. Suas integrantes ainda chamam o golpe militar de revolução, pouco comentam, talvez pela necessidade de tentar apagar da história uma participação tão polêmica e nada honrosa da mulher na construção da nação.
As mulheres brasileiras redimir-se-iam mais tarde, eliminando dos movimentos femininos futuros o conservadorismo de outrora. Nos anos 70 voltariam com força à cena política, sendo imprescindíveis na restauração da abertura política, na sanção da lei da Anistia, em 1979, ou ainda no movimento pelas Diretas Já, em 1984. Mas jamais tiveram tanta evidência em seus movimentos, como quando desfilaram pelas avenidas da história com os seus rosários nas mãos.
 
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Sábado, 4 de Abril de 2009

A INVENÇÃO DO 7 DE SETEMBRO

 


O Brasil como nação e estado soberano, surgiu em 1822, quando rompeu os laços coloniais com Portugal. Desde então, aos poucos, foi criada uma identidade nacional repleta de símbolos e datas, contando de forma épica a história de uma jovem nação, muitas vezes gerando fatos míticos fantasiosos. Um dos símbolos dessa identidade é a comemoração da Independência, repleta de heróis e arroubos patriotas, gerando assim, um glamuroso momento da construção do Estado.
Mas até onde os fatos históricos e o que é contado coincidem? Aos poucos, os historiadores atuais lapidam o glamour da mística em torno do grito do Ipiranga, recontando esta página instigante da nação brasileira.
Se a data da Independência é hoje comemorada no Brasil no dia 7 de setembro, nem sempre foi assim. Quando se deu o rompimento com Portugal, em 1822, o primeiro relato que exaltou o grito do Ipiranga foi feito em 20 de setembro daquele ano, no jornal O Espelho, publicação da Imprensa Nacional que circulava no Rio de Janeiro (1821-1823). Naquele momento dom Pedro foi aclamado o herói nacional e a Coroa portuguesa a grande vilã. A data da comemoração do dia da Independência desde então, foi comemorada de acordo com o momento político vivido e a necessidade dos mitos exaltados para fincar a identidade da jovem nação. Aclamado imperador do Brasil em 12 de outubro do ano da independência, dom Pedro era o ícone proclamador da liberdade da nação. A data de nascimento do imperador era também o dia 12 de outubro. Assim, ficou estabelecido que esse era o dia para que se comemorasse a Independência. Quando em 1 de dezembro daquele ano, dom Pedro I foi coroado, também esta data passou a ser comemorada como dia da independência. Curiosamente, este é o dia histórico da restauração da independência de Portugal do domínio da Espanha (1580-1640), muito comemorado pela ex-nação colonizadora, o que trazia um incômodo para os exaltados brasileiros da época, ansiosos de apagar a condição de colônia das suas páginas. Ao longo do século XIX, com a decadência da popularidade de dom Pedro I, também a sua importância no grito do Ipiranga passou a ser amenizada, e, a partir de 1870, consolidou-se a história do Estado nacional, transformando o 7 de setembro no dia da independência do Brasil. Estava inventado o 7 de setembro, o símbolo maior da identidade brasileira.

Dom Pedro I, Símbolo Mítico da Independência

Ao olharmos para o famoso quadro de Pedro Américo, o “Grito do Ipiranga”, encontramos um imponente e destemido dom Pedro I no centro da imagem, montado em um cavalo de raça, ladeado pela Guarda de Honra do Imperador. Aqui começa a fantasia sobre o fato histórico. Concluído em 1888, o quadro apagou da história a mula montada pelo então príncipe, e ainda trouxe para o cenário a elegante guarda criada depois do dia do grito, quando ele, como o nome do regimento sugere, já era o imperador do Brasil.
Esta imagem de herói de dom Pedro I, vista no quadro de Pedro Américo foi construída bem antes, e retocada através dos anos, muitas vezes transformando o imperador em vilão. Quando se deu o grito do Ipiranga, a figura emblemática do primeiro imperador brasileiro tornou-se mais importante que a própria independência, centralizando nele as comemorações patrióticas. No ápice da popularidade de dom Pedro I, era incontestável que a data do seu aniversário e da sua aclamação como imperador, fosse a da comemoração do dia nacional. Assim, até 1826, o 12 de outubro era o dia da Independência. É neste ano que o parlamento cria cinco datas comemorativas da Independência, entre elas o 7 de setembro.
Nos dias da comemoração da Independência (12 de outubro e 7 de setembro passaram, desde 1826, a ter peso igual), Dom Pedro I recebia o beija –mão no Paço do Rio de Janeiro, promovia-se o Te Deum na capela imperial, e uma grande parada das milícias e do exército na praça. Quando a noite caía, velas e lâmpadas de azeite eram acesas pelos moradores nas janelas das suas casas, enquanto havia um espetáculo de gala nos teatros, do qual participava o imperador e a imperatriz. Com o passar do tempo, dom Pedro I mostrou-se autoritário e a sua imagem foi desgastando-se politicamente. Em 1830 Moderados e Conservadores, em uma campanha contra o imperador, organizam uma comemoração ao 7 de setembro na Praça da Constituição, no Rio de Janeiro, não comemorando, a partir de então, o dia 12 de outubro. A impopularidade levou o imperador a abdicar, em 1831, a favor do filho, dom Pedro II, então com 5 anos, e partir para Portugal.

Comemorações da Independência no Segundo Império

Com a abdicação de dom Pedro I e o costume da concentração das comemorações da Independência na sua pessoa, as datas passaram a ficar esquecidas pelos brasileiros nos anos que se seguiram. Quando chegou a notícia da morte do imperador em Portugal, em 1834, a sua imagem voltou a ser revitalizada, e novamente foi aclamado como o verdadeiro herói e proclamador da independência. Em 1854, nas comemorações dos vinte anos da morte de Dom Pedro I, começou uma ampla campanha para que se fosse feita uma grande estátua em sua homenagem. Na seqüência desse movimento, em 1855, foi fundada a Sociedade Ipiranga, que tinha como finalidade restaurar as comemorações da independência. A sociedade incitava à população a voltar a iluminar as suas janelas, trazia bandas para tocar no meio da Praça da Constituição, onde deveria ser posta a estátua do imperador. A estátua eqüestre de dom Pedro I, fundida na França, só foi ali inaugurada no dia 30 de março de 1862, e representava as comemorações da Independência e da Constituição, outorgada pelo imperador em 1824. Com o início da Guerra do Paraguai, em 1864, o entusiasmo das comemorações esvaiu-se, sendo aos poucos, esquecido. A partir de 1870, já não se comemora o 12 de outubro, e o 7 de setembro tem parcas comemorações pela população.
À medida que o Império entrou em decadência, também a imagem de dom Pedro I voltou a ser atingida, e, novamente, minimizada, desta vez pelos republicanos, ansiosos por acabar com a monarquia. Na década de 1880, o monumento eqüestre do fundador do império na Praça da Constituição, passou a ser o símbolo de contestação contra o governo de dom Pedro II. A história da independência voltou a ser contestada, a legitimidade de dom Pedro I como dela proclamador passou a ser questionada. Em 1889 é proclamada a República, findando mais de sessenta anos de Império.

A Criação da Praça Tiradentes

Com a chegada da República, outra história passou a ser contada. Surgiu uma nova necessidade da criação de uma identidade nacional descolada dos heróis do extinto Império. Os republicanos vão buscar na imagem de Tiradentes, a criação de um novo herói nacional. Dom Pedro I passou a ser visto como um mero representante diante do desejo dos brasileiros de emancipação, e exaltá-lo seria enxergar a independência como uma doação da família bragantina.
Na nova história contada pela jovem República, Portugal e Brasil eram inconciliáveis, representavam o opressor e o oprimido. Dar as glórias da independência a um português era humilhante para uma nova identidade que se queria apresentar ao brasileiro. A história de Tiradentes, traído como fora o próprio Cristo, oprimido e morto pelo desejo de liberdade, o seu suplício pungente, caiu perfeito para o herói que o Brasil republicano precisava. Em 1890, sob os aplausos de exaltados manifestantes, a Praça da Constituição mudou de nome, passou-se a chamar Praça Tiradentes. Para justificar a homenagem, os republicanos aclamaram a praça como o local do suplício de Tiradentes. O republicano Miguel Lemos criou a falsa história que o inconfidente mineiro, que fora enforcado no século XVIII no subúrbio de São Domingos, altura do atual cruzamento da Rua Senhor dos Passos com a Avenida Passos, tinha sido morto na Praça Tiradentes. O que os republicanos não tiveram coragem de fazer foi retirar a estátua eqüestre de dom Pedro I do meio da praça. Por isto, até os dias atuais, quem visita a Praça Tiradentes no centro da cidade do Rio de Janeiro, pode contemplar a estátua do homem do grito do Ipiranga, e não a do mártir dos inconfidentes.
Com a consolidação da República e o passar dos anos, dom Pedro I voltou a ser visto como o herói da Independência, principalmente depois das comemorações do seu centenário, em 1922. Nas comemorações dos 150 anos do grito do Ipiranga, em 1972, Portugal doou os restos mortais do imperador, que foi transladado do Panteão Nacional de Lisboa para o Museu do Ipiranga, em São Paulo. Reabilitado como herói, dom Pedro I finalmente repousa no local onde o 7 de setembro foi inventado.
 
 

 

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Sexta-feira, 13 de Março de 2009

O ASSALTO À CAIXINHA DO ADHEMAR DE BARROS

 

 

Adhemar de Barros foi um dos políticos que escreveu de forma indelével o seu nome na história de São Paulo e, conseqüentemente, do Brasil. Foi prefeito da capital paulista e governador do estado por duas vezes. Da sua forma carismática, folclórica e populista de fazer política, nasceu o bem-amado dos paulistas e paulistanos durante algumas décadas do século XX.
Do bem-amado, ficaram para a posteridade as mazelas da corrupção ativa de um político e a participação passiva da população, que o via como “um fazedor de obras”, cujo lema era “Rouba, mas faz!”.
Adhemar de Barros apresentava-se ao povo com o seu jeito de pai bonachão, populista, travestido de um moralismo incondicional, que nos comícios chamava a mulher de “aquela santa”, e no escritório recebia telefonemas de um certo “Doutor Rui”, codinome da amante.
A partir da década de 1950, durante as campanhas eleitorais, começou a surgir boatos e lendas em torno de uma certa “caixinha do Adhemar”. Estes boatos tornaram-se famosos, ainda hoje fazem parte do anedotário da política nacional. Mas o que era a caixinha do Adhemar? Lenda política? Maledicência? Intriga da oposição? A prova viva da corrupção de um político?
A caixinha seria uma forma de arrecadação de dinheiro e de troca de favores, com transações espúrias que envolveriam empresários, bicheiros, empreiteiros, fornecedores, enfim, todos aqueles que almejavam favores e benefícios políticos.
Segundo relatos históricos, a caixinha do Adhemar permitiu ao político paulista uma fortuna não declarada, convertida em dólares, guardada em cofres particulares espalhados pelas residências dele e da amante. Dizia que a caixinha do Adhemar, guardada em sua casa, tinha cerca de 2,5 milhões de dólares para os seus gastos pessoais. Num dos episódios mais inusitados da história brasileira, a caixinha do Adhemar iria parar, em 1969, nas mãos de guerrilheiros que resistiam e combatiam à ditadura militar. Numa operação espetacular, a Vanguarda Popular Revolucionária, de Carlos Lamarca, assaltaria a caixinha do Adhemar.

A Caixinha do Adhemar Vira Tema de Música da MPB

Adhemar de Barros, no auge da sua popularidade como político, era abertamente chamado de corrupto e ladrão por todas a vertentes sociais. A história sobre a caixinha do Adhemar nunca foi desmentida por ele. Nesta época chegou a ter a alcunha de “Promessão”, uma alusão clara a um bandido alcunhado “Promessinha”, que assustava a população com seus crimes de roubos a mão armada.
Duas vezes governador de São Paulo (1947-1951 e 1963-1966), Adhemar de Barros já no seu primeiro governo inspirou o lema “Rouba, mas faz”. Com o seu jeito populista de ser, ele enfrentava os boatos de peito aberto, sem constrangimentos, mesmo quando o seu nome ficou para sempre atrelado às evidências de financiamentos clandestinos de campanhas. Para ficar livre do estigma da história da caixinha, Adhemar de Barros usou-a em seu benefício, encomendando aos compositores Herivelto Martins e Benedito Lacerda uma música a contar uma história diferente da que os adversários propagavam. Surgiria um sucesso musical popular: “A Caixinha do Adhemar”, que em vez de criticar o político, exaltava-o:

Quem não conhece
Não ouviu falar,
Na famosa “caixinha do Ademar”,
Que deu livro, deu remédio, deu estrada,
Caixinha abençoada (…)
Deixa falar toda essa gente, maldizente,
Deixa quem quiser falar (…)
Enquanto eles engordam tubarões,
A caixinha defende o bem-estar de milhões


Atraiçoado Pelos Militares Que Apoiou

Na época do golpe militar de 1964, Adhemar de Barros era governador de São Paulo. Juntamente com os governadores Carlos Lacerda, da Guanabara, e Magalhães Pinto de Minas Gerais, conspirou contra o governo do presidente João Goulart e ajudou a provocar o golpe, apoiando-o de imediato. Todos os três governadores golpistas tinham uma grande ambição, a presidência da República. Esta pretensão dissipou-se tão logo os militares chegaram ao poder, dispostos a por lá permanecerem por muitos anos.
Adhemar de Barros, era aspirante à presidência da República desde 1955, quando sofreu um grande fracassado eleitoral. Mesmo sendo um dos pilares do golpe militar (chegou a apoiar a indicação do general Humberto Castelo Branco à presidência, em 5 de abril de 1964), o velho político foi mantido à distância pelos militares no poder. Sem nunca deixar de lado a pretensão de vir a ser presidente da República, em 11 de março de 1966, Adhemar de Barros exigiu publicamente, a renúncia do então presidente Castelo Branco. A resposta do presidente veio em 5 de junho daquele ano: a velha raposa teve o seu mandato de governador cassado e os direitos políticos suspensos por dez anos. Para evitar vir a ser preso, Adhemar de Barros deixa o Brasil em 7 de junho de 1966, exilando-se em Paris, na França. Acabava-se aqui, uma das carreiras políticas mais bem-sucedidas da história brasileira, também uma das mais corruptas.

Morte e o Constrangimento da Família

Adhemar de Barros viria a morrer em Paris, em 12 de março de 1969. Não fora somente um político eminente, acumulou atividades empresariais bem-sucedidas, sendo o dono da fábrica de chocolates Lacta (a mesma que produzia o famoso bombom “Sonho de Valsa” e outros chocolates famosos) e sócio da Rádio Bandeirantes, entre os seus muitos negócios.
A morte do político causou constrangimentos à família durante o enterro, que se deu no cemitério da Consolação, em São Paulo. Publicamente veio à tona o seu relacionamento com Ana Gimol Capriglione. A amante, na época que o falecido era governador, era conhecida pelos amigos e funcionários do Palácio do Governo, pelo codinome de “Doutor Rui”. Quando o “Doutor Rui” telefonava, era preciso passar imediatamente ao governador, pois todos sabiam da importância da amante. Durante a cerimônia fúnebre, Ana Capriglione, que fora quem cuidara do translado do corpo de Paris para o Brasil, fez questão de velar o morto até o fim, causando desconforto à viúva, Leonor Mendes de Barros, e aos filhos. O impasse foi resolvido quando se chegou ao acordo inusitado de que as duas mulheres dividiriam o tempo no velório. Ana Capriglione permaneceria até o início da madrugada e, em seguida, cederia à família. O trajeto final até o cemitério foi feito pela família do morto.

O Caso do Cofre do Adhemar

Quatro meses depois da morte de Adhemar de Barros, um novo e definitivo escândalo histórico envolveria o seu nome. Em julho de 1969 surgia a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), resultado da fusão entre o Comando de Libertação Nacional (Colina) com a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), comandada por Carlos Lamarca. É desta organização de esquerda que virá a ação que seria conhecida como o Caso do Cofre do Adhemar.
Por detrás da lenda da caixinha do Adhemar, havia a certeza das suas negociatas obscuras e do hábito do velho político guardar o resultado delas em dinheiro vivo. Mas onde estaria o dinheiro? Comentava-se que estava espalhado por vários cofres.
Através de um militante da VAR-Palmares, Gustavo, soube-se do paradeiro de dois dos cofres com o dinheiro da caixinha do Adhemar. Um deles estava na casa e Ana Gimol Benchimol Capriglione, que morava com o irmão, o cardiologista Aarão Benchimol. O outro estaria na casa de José Benchimol. O jovem Gustavo sabia o que dizia, pois era sobrinho de Ana Capriglione, e de Aarão e José Benchimol. Através das revelações do jovem militante, a VAR-Palmares desenvolveu uma minuciosa e bem planeada ação, que envolveria treze guerrilheiros de várias regiões, identificados apenas pelos seus codinomes. Esta ação teria tido como cérebro a guerrilheira Estela (Dilma Rousseff).
No dia 18 de julho de 1969, a ação para expropriar o cofre herdado por Ana Capriglione foi posta em execução. A ex-amante de Adhemar de Barros vivia em uma luxuosa mansão do bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Às 15:30 horas, três guerrilheiros, de codinomes Leo (o sargento Darcy Rodrigues), Mariana (a estudante Sônia Lafoz) e Maurício (o professor Reinaldo José), estacionaram uma Aero Willys próxima à entrada da mansão. Leo desceu do carro, deixando Maurício ao volante e ao seu lado, a bela Mariana de fuzil e granadas à mão. Dois outros veículos, uma Veraneio C-14 e uma Rural Willys, encostavam ao lado, trazendo mais dez guerrilheiros.
Da Veraneio C-14, desceram os guerrilheiros Justino (o estudante Wellington Moreira Diniz), Alberto (o sargento José de Araújo Nóbrega) e Juvenal (o sociólogo Juarez Guimarães de Brito), todos vestindo paletó e gravata. Os três foram até a guarita, apresentaram ao vigia um falso mandado de busca e apreensão, supostamente expedido por um general, que estaria atrás de documentos subversivos em poder do doutor Aarão Benchimol. Justino carregava duas pistolas 45 e uma metralhadora, pronto para dispará-las, mas não foi preciso. Após desarmarem o vigia, a Veraneio C-14 e a Rural Willys subiram a alameda, estacionando em frente da escadaria. De acordo com os planos, eles têm 30 minutos para executar a ação.
Já dentro da mansão, os guerrilheiros renderam onze empregados da casa, trancando-os na despensa. O irmão do guerrilheiro Gustavo, Sílvio Schiller, é algemado, ficando preso na despensa, ao lado dos empregados. Os fios dos telefones da casa foram cortados. Seguindo as indicações de Gustavo, eles encontraram em um armário, um cofre de 350 quilos. Tentaram descer o cofre pela escadaria, deslizando-o em cima de um carrinho de rolimãs. No meio da operação, perderam o controle do carrinho, que desceu bruscamente, quebrando degraus de granito, tombando o cofre quando chegou ao fim das escadas. Usando da força bruta, conseguiram levantar o precioso e pesado objeto. Por fim, puseram o cofre dentro da Veraneio C-14, deixando a mansão.
Já no meio do caminho, a Veraneio C-14 parou em um sinaleiro, um guarda de trânsito, vendo a traseira do veículo arriada pelo excesso de peso, comentaria:
O defunto que vocês estão carregando está pesado mesmo!”
Todos já de armas em punho, ouviram quando Leo, mantendo uma calma disciplinar, falou friamente ao guarda, quase gracejando:
“É um cofre que acabamos de roubar. Quer ver?”
Ao que o guarda teria, inocentemente, respondido:
Não, façam bom proveito. Tomara que esteja cheio!”
Mais tarde, Gustavo, o sobrinho de Ana Capriglione, seria preso e torturado. Ele manteria sempre a versão de que existiam oito cofres, que sabia o paradeiro de apenas dois, ambos nas casas dos tios. Quando a polícia investigou o caso, ouviu a versão de que o cofre na casa de José Benchimol estava vazio. Ana Capriglione, para safar-se de um inquérito aberto, manteve a versão de que o cofre levado da sua casa também estava vazio, que tudo não passara de um grande equívoco dos guerrilheiros.
Ao contrário do que foi declarado pela ex-amante de Adhemar de Barros, os guerrilheiros, numa ação que duraria exatos 28 minutos (2 a menos dos 30 que haviam planejado), puseram as mãos em mais de 2,5 milhões de dólares. Como se fosse um Robin Hood tupiniquim, Carlos Lamarca, dirigente da VAR-Palmares, declararia à agência France Press:
Esse dinheiro, roubado do povo, a ele será devolvido.”Assim, parte do dinheiro da famosa caixinha do Adhemar, ele um fervoroso inimigo do comunismo, ironicamente serviu para financiar a resistência comunista e as guerrilhas contra a ditadura militar no Brasil.

 
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Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009

ISRAEL 60 ANOS, A REALIZAÇÃO DA UTOPIA SIONISTA

 

 


Há sessenta anos a ONU dava um novo destino à Palestina, idealizando a criação de dois estados, um judeu e outro muçulmano. Nascia o Estado de Israel, que trazia uma luz sobre o estigma da sombra do holocausto. Conflitos deflagrados entre a nova nação e as nações árabes da região, fizeram com que só o estado judeu prevalecesse.
A Segunda Guerra Mundial ainda ardia na lembrança das pessoas, com o seu fim, em 1945, ficou um saldo de 6 milhões de judeus mortos nos campos de concentração nazistas. O mundo apercebeu-se da necessidade da criação de um estado judeu, restituindo a este povo uma indenização histórica devida às perseguições e ao genocídio que sofreram ao longo dos séculos. Seguindo o lema sionista “uma terra sem povo para um povo sem terra”, criou-se o estado judeu, que contrariamente a este lema, encontrou uma terra com uma população disseminada de palestinos, que com a chegada em massa dos judeus, com as guerras que se seguiram, resultou a este povo uma grande tragédia individual e coletiva, sustentada por ódios seculares.
Israel surgiu do conceito utópico do movimento sionista de Theodore Herzl, dentro de todas as catástrofes sofridas pelo povo hebreu no século XX, é um exemplo de como esta utopia superou os sofrimentos, a intolerância, o genocídio, e tornou-se uma realidade, talvez a única utopia bem sucedida no século passado. O jovem Estado de Israel, na sua comemoração de 60 anos, é um dos estados mais desenvolvidos do mundo, moderno, com mais de 6 milhões de habitantes, mas que ainda procura uma identidade, visto que foi formado por pessoas vindas de todas as partes do mundo, inseridas nos mais diversos costumes. Nesta busca por uma identidade, terá que aprender a conviver com os vizinhos da região, formada pelos árabes. Ainda há muitas arestas do ódio a ser limadas, para que se comemore verdadeiramente a criação desta nação e a volta dos hebreus à terra prometida, à terra dos seus antepassados.

Os Hebreus na Palestina

Abraão, considerado o pai das grandes religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo e islamismo), teria migrado de Ur, sua terra natal, na Mesopotâmia, por ordem de Deus, para a região habitada pelos cananeus, situada entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo. À sua prole foi prometida habitar toda a terra. Do seu filho Isaac, fruto que teve com a mulher Sara, surgiria o povo hebreu, e do filho Ismael, que teve com a sua escrava Hagar, surgiria os ismaelitas, dos quais surgiria o povo árabe.
As escrituras bíblicas relatam que Abraão, provado por Deus, recebeu a ordem de executar o filho Isaac em honra ao Criador. O holocausto de Isaac seria no afloramento de rocha no monte Moriá. Quando já se preparava para nesta rocha sacrificar o filho, foi impedido por um anjo enviado por Deus. Provados o amor e a fidelidade de Abraão a Deus, ele foi recompensado, tornando-se o pai de nações e de religiões. Este relato mostra a presença mais antiga dos hebreus na Palestina.
Os netos de Isaac, os doze filhos de Jacó, teriam migrado para o Egito por volta de 1300 antes de Cristo, devido à fome que assolava a Palestina. José, um dos filhos de Jacó, abandonado quando criança pelos irmãos, ali vivia, a desfrutar dos favores do faraó. Restabelecida a amizade com os irmãos, José possibilitou que o clã vivesse confortavelmente no Egito. Com a morte de José, algumas gerações depois, os hebreus seriam feitos escravos do faraó Ramsés.
Moisés, o grande profeta de Israel, foi o escolhido para livrar os hebreus da escravidão no Egito, conduzindo-os em uma das maiores sagas da humanidade. Da fuga do Egito, da perambulação no deserto do Sinai por quarenta anos, surge a utopia da terra prometida de Canaã. É através de Moisés que Deus transmite as leis que os judeus deveriam cumprir para que se diferenciassem dos outros povos, tornando-se o povo eleito do Criador. Moisés morreu antes de entrar na terra prometida. Coube a Josué conduzir o seu povo, que lutou com várias tribos por aquelas terras. De 1220 a 1200 a.C. os hebreus conquistaram Canaã, atual Palestina. Uma vitória que nunca foi absoluta, pois viviam em guerras constantes com as tribos vizinhas dos moabitas, dos filisteus, dos amonitas, dos amalecitas, dos idumeus e dos arameus.
Na virada do primeiro milênio antes de Cristo, o rei Davi conquistou Jerusalém aos seus habitantes originários, os jebuseus. É nesta época que o rei dos judeus compra ao jebuseu Onã, o terreno onde Abraão sacrificaria Isaac, para que ali fosse construído um templo para abrigar a Arca da Aliança. Este templo só seria construído no reinado do seu filho, o rei Salomão.
A nação hebraica tem o seu apogeu tanto econômico, quanto em extensão territorial, no reinado de Salomão. Após a morte deste rei, o reino é dividido em dois: o de Judá e o do Israel. Assim permanece até a sua queda, quando os caldeus, sob o comando de Nabucodonosor, conquistaram a terra prometida, destruindo o Templo de Salomão, levando os judeus como escravos para a Babilônia, encerrando-se de vez a existência de um estado judeu independente. Os judeus só voltariam à Terra Prometida em 515 antes de Cristo, quando os persas conquistaram a região, e o rei Ciro permitiu que retornassem e que reconstruíssem um novo Templo em Jerusalém.
Mesmo de volta à Palestina, os judeus permaneceram sob o domínio de vários povos. Os macedônios, sob a espada de Alexandre, o Grande, conquistaram a região aos persas. Com a morte prematura de Alexandre, seu vasto império é dividido entre os seus generais. Por anos o antigo reino de Israel é disputado pelos ptolomeus, baseados no Egito, e pelos selêucidas, baseados na Mesopotâmia. Sem ter um rei, os judeus eram direcionados pelo sumo sacerdote em Jerusalém, que assumia algumas funções reais.
Mesmo sob o domínio de vários povos, os hebreus não aceitam pacificamente nenhum dos povos dominantes, mantendo a sua religião e os seus costumes. É assim com os gregos e, a seguir, com os romanos. Quando a região é dominada pelos romanos, é dado a Herodes o poder de rei dos judeus. Este homem, um rei cruel e tirano, tentou conciliar o poder submisso a ele, por sua vez submisso a Roma, com as tradições judaicas, ampliando o Segundo Templo, aumentando os seus alicerces pela construção de gigantescos muros de retenção a oeste, ao sul e a leste. O Templo foi uma das mais belas realizações do mundo antigo. Herodes alçou Israel a um nível de esplendor poucas vezes alcançado pela nação hebraica. Mas os seus feitos não foram suficientes para conter as insubordinações de um povo que ansiava por uma nação livre do domínio dos gentios e dos seus costumes pagãos. Com a morte de Herodes, a incompetência dos seus sucessores durante nove anos, fez com que Roma colocasse a Judéia sob o governo direto de um procurador romano, entre eles Pôncio Pilatos.
Sob o domínio das várias nações, surgiu aos hebreus a expectativa das promessas da vinda de um messias, que redimiria o povo de Israel, tornando-o uma nação livre outra vez, sob um reinado que se estenderia para sempre, e, conseqüentemente, redimir-se-ia através dos judeus, o próprio mundo. Na época do domínio romano, vários foram os homens que se proclamaram o messias, entre eles Yeshua Ben Yossef, ou Jesus Cristo, cuja pregação resultaria na seita dos cristãos, e futuramente, no cristianismo.
A intensa expectativa messiânica, juntamente com a certeza de ser o povo eleito de Deus desde os primórdios da história, fizeram com que o povo hebreu acirrasse a sua rebelião contra os romanos, que deflagraria a guerra total. No ano de 66, os judeus expulsaram os romanos, tornando-se senhores das suas próprias terras, organizando a sua defesa contra o retorno dos algozes. Sob o comando de Tito, eles voltariam, trazendo uma guerra sangrenta, que reduziria os redutos dos judeus a algumas fortalezas longínquas e à cidade de Jerusalém. A resistência feroz que os romanos encontraram, fez com que, em setembro de 70, quando finalmente entraram em Jerusalém, após seis meses de lutas intensas, despejassem todo o seu ódio sobre aquele povo, massacrando a população. Tito ordenou que toda a cidade fosse destruída, inclusive os escombros do Segundo Templo. Calcula-se que mais de um milhão de pessoas morreram no cerco de Jerusalém, sendo escravizados os sobreviventes. Um grupo de rebeldes ainda resistiu na fortaleza de Massada. Quando finalmente os romanos entraram em Massada, encontraram quase mil pessoas mortas, elas mataram-se umas as outras, evitando assim, tornarem-se escravas dos romanos.
Com a destruição de Jerusalém e do Segundo Templo, iniciava-se a diáspora pelo mundo do povo hebreu. Cerca de sessenta anos após a queda de Massada, Simeon ben-Koseba foi reconhecido pelo rabi Akiba como o messias prometido. O novo “messias” iniciou uma outra rebelião contra os romanos, que apesar de ter êxito no início, duraria dezoito meses, até agosto de 135. A rebelião foi esmagada e Simeon ben-Koseba executado. A punição a esta rebelião foi severa, os judeus cativos eram mortos ou feitos escravos. A Judéia foi definitivamente abolida, tornando-se a província da Síria-Palestina. Todos os judeus foram excluídos da cidade de Jerusalém. No local do Templo, foram erguidos santuários ao imperador Adriano e ao deus Júpiter.

Canaã, Judéia ou Palestina, a Terra Sagrada das Religiões Monoteístas

No século VII surgiu o islamismo, através do profeta Maomé, um descendente de Ismael, filho de Abraão. Em 620, Maomé teve uma visão, na qual cavalgava um corcel celestial, el-Buruq, com o anjo Gabriel, até o monte do Templo, em Jerusalém, para encontrar Abraão, Moisés e Jesus, e daí ascendia ao trono de Deus, passando pelos sete céus. Maomé morreu na Arábia, em 632, após liderar uma peregrinação a Meca. Pela visão que teve, para o islamismo a sua ascensão aos céus teria sido feita no monte do Templo, da rocha onde Abraão sacrificaria o filho Isaac. Por este motivo, ao lado de Meca e Medina, Jerusalém foi considerada cidade sagrada para os muçulmanos.
Foi em Jerusalém que Jesus Cristo entrou, celebrou a Páscoa com os seus apóstolos, onde foi preso, julgado e executado na cruz, no ano 26 (ou 33 do calendário gregoriano). Ali teria ressuscitado e numa descrição parecida com a visão de Maomé, também teria ascendido aos céus. Com a separação do cristianismo do judaísmo, Jerusalém tornou-se uma cidade santa também para os cristãos.
Com a diáspora do povo judeu, surgiu a designação de Palestina às terras do antigo reino de Israel, ou Judéia. Com a cristianização de Roma, Jerusalém esteve por anos sob o domínio do Império Bizantino. Sendo chamada pelos cristãos de Terra Santa. Com o surgimento do islamismo, a Palestina é tomada pelos seguidores do profeta Maomé. Desde então, aos poucos, a maioria da sua população é constituída por árabes. Na Idade Média, a igreja, aliada aos nobres dos reinos cristãos da Europa, promove as Cruzadas, ou guerras para a conquista da Terra Santa. Os cruzados tomam Jerusalém e a Palestina aos sarracenos por várias vezes, originando várias cruzadas. Por fim, a região cairia definitivamente sob o domínio do Império Otomano.

O Surgimento do Estado de Israel

No século XIX, surgiu a utopia de um estado judeu, propagada pelo movimento sionista, com o objetivo de reunir o povo hebreu que estava espalhado pelo mundo, vítima de várias perseguições através dos séculos. Durante a Idade Média, os filhos de Israel foram expulsos de muitos dos reinos cristãos da Europa, além de se tornarem o alvo predileto do Tribunal da Inquisição, que resultou em forçadas conversões, torturas e condenações à morte nas fogueiras. No início do século XX a idéia do estado judeu começou a desenhar um esboço, e com o incentivo do movimento sionista, deu-se início a uma migração para a Terra Santa. Em julho de 1906, na Convenção dos Judeus de Yafo, feita no Yeshurun Club, Arieh Akiva Weiss, que tinha acabado de chegar à Palestina, propôs a criação de um novo bairro fora de Yafo. Em 1909, no segundo dia da Páscoa judaica, é feita a cerimônia do sorteio de lotes de terra, que marca oficialmente a fundação de Tel Aviv, bairro que se iria separar de Yafo, tornando-se a maior cidade judaica do mundo.
Com o fim da Primeira Guerra Mundial, o já decadente Império Otomano fragmenta-se por completo. A Inglaterra herda deste império a Palestina e a península do Sinai (hoje parte do Egito), tomando-os como uma colônia britânica. A população árabe, maioria na região, não reagiu pacificamente à colonização européia. Também os judeus, que chegavam todos os dias de todas as partes do mundo, desejavam um estado judaico independente.
O movimento sionista pregava que só um estado judeu poderia evitar as perseguições e as tragédias como as que aconteceram durante o tempo que predominou a Inquisição. Com a deflagração da Segunda Guerra Mundial, uma outra tragédia aconteceria aos israelitas: o holocausto promovido pelos nazistas, causando a morte de seis milhões de judeus. Por causa do holocausto, uma migração em massa dos israelitas europeus assolou a Palestina. Diante da divulgação do genocídio nazista ao povo judeu, o mundo indignou-se, a ONU viu-se pressionada a reparar a injustiça nazista. A Inglaterra deixava definitivamente a colônia da Palestina. Em 14 de maio de 1948, os judeus ganharam um estado independente. Nascia também um pequeno estado árabe, que descontentou os islâmicos.

Uma Nação Construída às Margens das Guerras e do Terrorismo

A criação de um estado judaico nunca agradou aos países árabes vizinhos. Mais do que criar um estado para o povo palestino, Jordânia, Síria e Egito estavam interessados em “varrer Israel para o mar”. Em 1948, 24 horas após ter sido criado, o Estado de Israel é invadido pelas nações árabes da Jordânia, Egito, Síria, Líbano e Iraque. A Jordânia conquista para si a Cisjordânia e parte de Jerusalém. Israel, com o apoio dos Estados Unidos, em 1949, vence a guerra e ainda expande as suas fronteiras. A anexação da Cisjordânia pela Jordânia e da Faixa de Gaza pelo Egito, deixa claro que a criação de um estado palestino não é o objetivo dos países árabes da região.
Os conflitos não se encerram em 1949. Egito, Jordânia e Síria proclamam internacionalmente, em 1956, o fim de Israel. Alertado para uma nova invasão, pouco antes de ela acontecer, tropas israelitas avançam e derrotam os inimigos. Uma paz passageira é obtida meses depois. Perduraria até 1967, quando novamente Egito, Síria e Jordânia lideram uma nova invasão para riscar Israel do mapa. Israel contra-ataca e toma da Jordânia, a Cisjordânia e Jerusalém. Da Síria anexa as colinas de Golã. Do Egito toma a Faixa de Gaza e a península do Sinai.
Outra investida do Egito, Jordânia e Síria foi tentada em 1973, desta vez sem que os países árabes anunciassem a invasão, mas novamente são derrotados.
A animosidade e a tensão com o Egito findaram, quando em 1978, após uma reunião em Camp Davis, foi assinado um acordo de paz entre as duas nações em 1979, chancelado por Anwar Al-Sadat, do Egito, e Menachen Béguin, de Israel. Este acordo possibilitou que Israel devolvesse a península do Sinai ao Egito, em 1982, mas custou o assassínio de Sadat, em 1981. Em 1994 um acordo de paz foi assinado com a Jordânia.
O maior avanço para solucionar o problema dos palestinos foi feito em 13 de setembro de 1993, com o acordo de paz entre Israel e a OLP de Yasser Arafat, o que valeu o Prêmio Nobel da Paz em 1994, para Yasser Arafat, Yitzak Rabin e Shimon Perez . A situação do conflito árabe-israelense tomava novos rumos, até então considerados inimagináveis. Com o acordo, vislumbrava-se a criação do estado palestino, engatinhando como nação em Gaza e no enclave de Jericó. Em 1995 radicais judeus assassinaram Yitzak Rabin. Em 2000 uma nova infantada palestina originou ataques terroristas, deixando mais distante o sonho de paz entre os dois povos, e a autodeterminação do estado da Palestina. A situação é agravada pelas dificuldades financeiras do incipiente estado palestino, pelos ataques dos grupos extremistas, quer de judeus, como a Espada de Davi, quer de islâmicos, como o Hamás e a Jihad Islâmica, que não aceitam sequer a existência do Estado de Israel, e pela disposição de Israel implementar, no futuro, a completa devolução da Cisjordânia.

Israel, 60 Anos

Israel é um estado diferente dos outros, não se formou naturalmente, não se desenvolveu gradualmente ao longo dos séculos, em redor de uma mesma população e de uma mesma história. Quando foi criado, em 14 de maio de 1948, era um pequeno país atrasado, com uma população de cerca de 600 mil judeus, que dependia para sobreviver, da generosidade do judaísmo mundial. 60 anos depois, é um país industrializado, tendo um PIB mais elevado que a soma dos PIB de todos os seus vizinhos árabes, que têm uma população 15 vezes superior ao estado judeu.
Israel desde que foi criado, viveu sempre no limiar da sua sobrevivência, passando por quatro guerras, vários atentados terroristas, e muitas hostilidades dos vizinhos. Para desenvolver e assegurar um futuro a esta nação, é preciso uma integração progressiva com os vizinhos árabes, uma capacidade maior para negociar a paz, e, principalmente, fazer uma integração irrestrita e bem sucedida de todos os cidadãos árabes que habitam o seu território. Quem sabe assim, quando completar 70 anos, a utopia sionista tornada realidade, veja finalmente a paz florir sobre Israel.

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Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009

HOSPITAL REAL DE TODOS OS SANTOS

 

 

Quando em 1755, um grande terremoto assolou a cidade de Lisboa, a catástrofe levou a maior parte medieval da cidade. Entre os monumentos perdidos, estava o Hospital Geral de Todos os Santos, que por mais de 250 anos foi o maior hospital de Portugal. Além de ter sido um grande monumento arquitetônico, o hospital foi responsável pelo desenvolvimento da medicina no país lusitano.
Nascido de uma antiga concepção de Dom João II, em 1479, o Hospital Real de Todos os Santos teve algumas lendas criadas em torno da sua construção, como a de que fora amaldiçoado pelos mouros e judeus, porque as pedras da sua construção teriam vindo em parte, de campas e cabeceiras de jazigos de mouros e do cemitério dos judeus, o que não é verdade, visto que a sua construção iniciou-se em 1492. Quando da expulsão dos mouros e judeus de Portugal, em dezembro de 1496, as obras já iam adiantadas, o que inviabiliza esta hipótese.
Amaldiçoado ou não, a verdade é que, coincidentemente, o hospital foi destruído em 1 de novembro de 1755, após o grande terremoto, seguido por um incêndio, ou seja, no seu dia, o dia de todos os santos. Pouco mais de cinco séculos após a sua construção, o Hospital Real de Todos os Santos merece ser lembrando pelo seu esplendor arquitetônico e pela sua imensa importância histórica.

Um Longo Caminho Até o Lançamento da Primeira Pedra

Com o fim da Idade Média, as pequenas instituições de beneficência, sustentadas por conventos ou de legados pios deixados por nobres beneméritos, entram em decadência, dando lugar a grandes hospitais centrais. Essas instituições rudimentares medievais eram, ao mesmo tempo, hospitais, albergarias e hospícios. Os hospitais centrais tinham rendimentos próprios, acrescidos dos rendimentos dos pequenos hospitais neles incorporados. Os primeiros hospitais centralizados surgiram nos reinos italianos, como o Hospital de Santa Maria Nuova, de Florença, que surgiu no século XIII, sendo modernizado no século XV. Havia ainda, o Hospital do Espírito Santo, em Roma, o Hospital Maggiore de Milão, e o Hospital de Santa Maria, em Siena. Estes hospitais serviram de modelo para o (ainda) príncipe Dom João, que idealizou fundar um grande hospital em Lisboa, reunindo os bens de 43 instituições de assistência existentes em Lisboa e nos arredores. Como os rendimentos dessas instituições eram próprios e geridos pela igreja, era preciso da autorização papal para concentrá-las em uma só. Em 1479, o Príncipe Perfeito consegue autorização concedida pelo papa Sisto IV, através da bula Ex debito sollicitudinis officio pastoralis, para a construção de um grande hospital real.
O Príncipe Perfeito sobe ao trono em 1481, como Dom João II, já com a idéia da construção do “Hospital Grande”. A demora na concretização do projeto, faz com que a bula assinada por Sisto IV não tenha mais valor depois da sua morte, em 1484. Somente em 1486 a autorização é confirmada, através da bula Iniunctum nobis desuper, chancelada pelo papa Inocêncio VIII. Concentrar todas as instituições em uma só levaria o seu tempo. Em 15 de Maio de 1492, numa cerimônia no Rossio, Dom João II lança a primeira pedra para a construção do Hospital Real de Todos os Santos.

Pleno Funcionamento em 1504

O local escolhido para a edificação do hospital foi nos terrenos da horta do mosteiro de São Domingos, lado oriental do Rossio. O autor de tão imponente monumento, não se sabe ao certo, mas há um consenso de historiadores que seria de Diogo Boytoc, o arquiteto do mosteiro dos Jerónimos.
Desde a sua fundação, no início da sua construção, em 1492, por nomeação régia, foram escolhidos o provedor, o vedor e o escrivão, sendo o primeiro provedor Estevão Martins, mestre da Escola da Sé de Lisboa.
As obras já iam adiantadas, quando Dom João II morreu, em 1495, cabendo a seu sucessor, Dom Manuel, terminar o hospital. Fazia parte das disposições testamentárias de Dom João II que o seu sucessor concluísse o “Hospital Grande” de Lisboa, e que o seu regimento fosse inspirado nos hospitais de Florença e Siena.
Dom Manuel continuou as obras do hospital, concluindo as instalações hospitalares e construindo a fachada voltada para o Rossio. Já em 1497 o provedor despachava do hospital, apesar de ele levar alguns anos para ser inaugurado. Há documentos que registram que em 1498, houve ali uma reunião da Câmara. Neste ano as obras seriam novamente interrompidas devido à ausência de Dom Manuel, que acompanhou a sua mulher grávida, a rainha Dona Isabel, filha dos reis católicos, Fernando e Isabel, à Espanha. Ali a Dona Isabel seria jurada herdeira do trono dos reinos da Espanha unificada.
Não se sabe ao certo em que ano o hospital começou a receber os primeiros doentes. Há registros que apontam para o ano de 1501, quando teria recebido os desalojados dos hospitais extintos. É de 1502 a data da nomeação da maioria do pessoal que trabalharia no hospital: um físico (mestre Delymilam, que por não ser suficientemente competente, seria substituído por mestre Jorge Físico Solorgião, em 1509), dois cirurgiões, um boticário, quatro enfermeiros e uma enfermeira, além dos seus ajudantes. Mas a data de seu pleno funcionamento seria 1504.

Consumido Pelos Incêndios e Pelo Terremoto

Quando em pleno funcionamento em 1504, o edifício do Hospital Real de Todos os Santos ocupava um quadrilátero aproximadamente coincidente com os limites da antiga Praça da Figueira e a atual Praça Dom João I, ficava enquadrado, a poente, pela Praça do Rossio (sobre o qual avançava a sua escadaria); a norte, pelo convento de São Domingos com o qual se ligava através do alpendre de arcarias, interpondo-se, entretanto, entre os dois monumentos, um conjunto de edificações, dos quais sobressaía a ermida de Nossa Senhora do Amparo; ao sul, pela Rua da Betesga; pelo nascente, entestava com as casas dos condes de Monsanto.
O Hospital Real de Todos os Santos era um dos mais antigos da Europa, com uma planta cruciforme, adotou as inovações introduzidas em estabelecimentos congêneres dos reinos italianos no decurso do século XV, e era, para a sua época, uma grandiosa e moderna instituição, de um belo edifício arquitetônico.
O imponente hospital serviu à medicina e aos doentes de Lisboa por mais de 250 anos. No decorrer desses anos a sua riqueza e beleza foram sendo consumidas, aos poucos, pelos sucessivos incêndios de 1601, 1750 e 1755. Depois do terremoto de 1755 e do incêndio que se lhe seguiu, o hospital ficou profundamente danificado, ficando os seus enfermos sob as barracas do Rossio, e, depois, nas cocheiras do Palácio do Conde de Castelo-Melhor. Foram feitas algumas obras de remedeio, que lhe permitiu funcionar até 1963. Após um período de hesitação entre a restauração do hospital ou a sua transferência para outro local, optou-se em 1775, pela transferência para o antigo Colégio de Santo Antão-o-Novo, que ficou devoluto desde a expulsão dos jesuítas. Em homenagem ao rei da época, Dom José I, que executou a transferência e as obras de adaptação, o Hospital Real passou a denominar-se Hospital de São José.
O antigo Hospital Real de Todos os Santos, fundado em 15 de Maio de 1492, por Dom João II, no Rossio, foi definitivamente extinto, melancolicamente, no dia 1 de Novembro de 1755, dia do grande terremoto que assolou Lisboa, dia de todos os santos.
 
 
 
 

 

 
 
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Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009

A MÚSICA E A CENSURA DA DITADURA MILITAR

 

 
Quando o golpe militar foi deflagrado, em 1964, ironicamente o Brasil tinha na época, os movimentos de bases político-sociais mais organizados da sua história. Sindicatos, movimento estudantil, movimentos de trabalhadores do campo, movimentos de base dos militares de esquerda dentro das forças armadas, todos estavam engajados e articulados em entidades como a UNE (União Nacional dos Estudantes), o CGT (Comando Geral dos Trabalhadores), o PUA (Pacto da Unidade e Ação), etc, que tinham grande representatividade diante dos destinos políticos da nação. Com a implantação da ditadura, todas essas entidades foram asfixiadas, sendo extintas ou a cair na clandestinidade. Em 1968, os estudantes continuavam a ser os maiores inimigos do regime militar. Reprimidos em suas entidades, passaram a ter voz através da música. A Música Popular Brasileira começa a atingir as grandes massas, ousando a falar o que não era permitido à nação. Diante da força dos festivais da MPB, no final da década de sessenta, o regime militar vê-se ameaçado. Movimentos como a Tropicália, com a sua irreverência mais de teor social-cultural do que político-engajado, passou a incomodar os militares. A censura passou a ser a melhor forma da ditadura combater as músicas de protesto e de cunho que pudesse extrapolar a moral da sociedade dominante e amiga do regime. Com a promulgação do AI-5, em 1968, esta censura à arte institucionalizou-se. A MPB sofreu amputações de versos em várias das suas canções, quando não eram totalmente censuradas.
Para censurar a arte e as suas vertentes, foi criada a Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP), por onde deveriam previamente, passar todas as canções antes de executados nos meios públicos. Esta censura prévia não obedecia a qualquer critério, os censores poderiam vetar tanto por motivos políticos, ou de proteção à moral vigente, como por simplesmente não perceberem o que o autor queria dizer com o conteúdo. A censura além de cerceadora, era de uma imbecilidade jamais repetida na história cultural brasileira.

Os Perseguidos do Pré-AI-5

Antes mesmo de deflagrado o AI-5, alguns representantes incipientes da MPB já eram vistos pelos militares como inimigos do regime, entre eles, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Taiguara e Geraldo Vandré.
A intervenção de Caetano Veloso era mais no sentido da contracultura do que contra o regime militar. Os tropicalistas estavam mais próximos dos acontecimentos do Maio de 1968 em Paris, do que das doutrinas de esquerda que vigoravam na época, como o marxismo-leninismo soviético e o maoísmo chinês. Mas os militares não souberam identificar esta diferença, perseguindo Caetano Veloso e Gilberto Gil pela irreverência constrangedora que causavam. Na época da prisão dos dois cantores, em dezembro de 1968, os militares tinham de concreto contra eles, a acusação de que tinham desrespeitado o Hino Nacional, cantando-o aos moldes do tropicalismo na boate Sucata, e uma ação que queria mover um grupo de católicos fervorosos, ofendidos pela gravação do “Hino do Senhor do Bonfim” (Petion de Vilar – João Antônio Wanderley), no álbum “Tropicália ou Panis et Circenses” (1968). Juntou-se a isto a provocação de Caetano Veloso na antevéspera do natal de 1968, ao cantar “Noite Feliz” no programa de televisão “Divino Maravilhoso”, apontando uma arma na cabeça. O resultado foi a prisão e o exílio dos dois baianos em Londres, de 1969 a 1972.
Ainda do repertório do álbum mítico “Tropicália ou Panis et Circenses” , a música “Geléia Geral” (Gilberto Gil – Torquato Neto), sofreu o veto da censura por ser considerada de conteúdo política contestatória, além de segundo os censores, fazer um retrato equivocado da situação pela qual passava o país.
Ao retornar do exílio, Caetano Veloso e Gilberto Gil sofreram com a perseguição da ditadura e da censura. Em 1973, Caetano Veloso teve a sua canção “Deus e o Diabo”, vetada por causa do último verso “Dos bofes do meu Brasil”. Diante do veto, a gravadora solicitou recurso, foi sugerido pelo censor que o autor substituísse a palavra “bofes”. Mas um segundo censor menciona os versos “o carnaval é invenção do diabo que Deus abençoou” e “Cidade Maravilhosa/ Dos bofes do meu Brasil”, como ofensivos às tradições religiosas. Em 1975, o álbum “Jóia” trazia na sua capa Caetano Veloso, sua então mulher Dedé e o filho Moreno, completamente nus, com o desenho de algumas pombas a cobrir-lhe a genitália. Censurada, o álbum foi relançado com uma nova capa, onde restaram apenas as pombas.
Geraldo Vandré tornou-se o inimigo número um do regime militar. A sua canção “Caminhando (Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores)”, que ficou com o polêmico segundo lugar no Festival Internacional da Canção, em 1968, tornou-se um hino contra a ditadura militar, cantado por toda a juventude engajada do Brasil de 1968. Esta canção, afirmam alguns analistas de história, foi uma das responsáveis pela promulgação do AI-5. Ficou proibida de ser cantada e executada em todo país. Só voltaria a ser ressuscitada em 1979, após a abertura política e a anistia, quando a cantora Simone a cantou em um show, no Canecão. Perseguido pelo regime, Geraldo Vandré esteve exilado de 1969 a 1973. Após o exílio, jamais conseguiu recuperar a carreira interrompida pela censura da ditadura militar. Calava-se uma expressiva carreira emprestada ao combate à ditadura.
Taiguara, uma das mais belas vozes masculinas da MPB, interpretou com maestria diversos gêneros musicais. Foi um dos cantores que mais se opôs contra a repressão da ditadura militar. Sua obra pagou o preço da perseguição e da censura. Deparou-se com a atenção da censura em 1971, que esteve atenta às canções do álbum “Carne e Osso”. Em 1973 teve 11 músicas proibidas. Perseguido pela censura, Taiguara teve muitas das suas músicas assinadas por Ge Chalar da Silva, sua esposa na época. Exilado em Londres, Taiguara gravou o álbum "Let the Children Hear the Music", em inglês. O disco foi proibido de ser lançado, pela EMI, por decisão da polícia federal brasileira. O compositor recorreu ao Conselho Superior de Censura, em 1982, tendo o disco finalmente liberado.

Chico Buarque, o Alvo Predileto da Censura Militar

Tendo silenciado e asfixiado Geraldo Vandré, os militares elegeram o seu novo inimigo do regime: Chico Buarque de Hollanda. No período que durou a censura e o regime militar, Chico Buarque foi o compositor e cantor mais censurado. A sua obra sofreu respingos da censura em todas as vertentes, tanto nas canções de protesto, quanto nas que feriam os costumes morais da época.
Os problemas de Chico Buarque com a censura começaram junto com a sua carreira. Em 1966, a música “Tamandaré”, incluída no repertório do show “Meu Refrão”, com Odete Lara e MPB-4, é proibida após seis meses em cartaz, por conter frases consideradas ofensivas ao patrono da marinha. Era o começo de um longo namoro entre a censura e a obra de Chico Buarque.
Exilado na Itália, de 1969 a 1970, Chico Buarque sofreria com a perseguição da censura após o retorno ao Brasil. Em 1970, recém chegado do exílio, o compositor enviou a música “Apesar de Você” para a aprovação da censura, tendo a certeza que a música seria vetada. Inesperadamente a canção foi aprovada, sendo gravada imediatamente em compacto, tornando-se um sucesso instantâneo. Já se tinha vendido mais de 100 mil cópias, quando um jornal comentou que a música referia-se ao presidente Médici. Revelado o ardil, o exército brasileiro invadiu a fábrica da Philips, apreendendo todos os discos, destruindo-os. Na confusão, esqueceram de destruir a matriz.
Em 1973 Chico Buarque sofreria todas as censuras possíveis. A peça “Calabar, ou o Elogio à Traição”, escrita em parceria com Ruy Guerra, foi vetada pela censura. As conseqüências da proibição viriam no seu álbum, “Calabar”, também daquele ano. A capa do disco trazia a palavra “Calabar” pichada num muro. Os censores concluíram que aquela palavra pichada tinha um significado subversivo, o que resultou na proibição da capa. A resposta de Chico Buarque foi lançar o álbum com uma capa totalmente branca e sem título. O disco trazia o registro das canções da peça vetada, por isto teve várias músicas (todas elas em parceria com Ruy Guerra) que amargaram nas malhas da censura. “Vence na Vida Quem Diz Sim” teve a letra totalmente censurada, sendo gravada no disco uma versão instrumental; “Ana de Amsterdam” teve vários trechos censurados. “Não Existe Pecado ao Sul do Equador”, que fazia parte deste disco, alcançaria grande sucesso quando gravada por Ney Matogrosso, em 1978, quando foi escolhida como tema de abertura da novela da tevê Globo “Pecado Rasgado”, na versão original da música o verso "Vamos fazer um pecado safado debaixo do meu cobertor", foi substituído por "Vamos fazer um pecado rasgado, suado, a todo vapor". “Fado Tropical” teve proibido parte de um texto declamado por Ruy Guerra, além da frase “além da sífilis, é claro”, herança portuguesa, segundo a personagem Mathias, no sangue brasileiro. “Bárbara”, um dueto entre as personagens Ana de Amsterdam e Bárbara, teve cortada a palavra “duas”, por sugerir um relacionamento homossexual entre elas. Tanto “Ana de Amsterdam” quanto “Bárbara”, já tinham sofrido os mesmos cortes no álbum “Caetano e Chico Juntos Ao Vivo”, ali substituídos por palmas. Ainda no registro do encontro de Chico Buarque e Caetano Veloso, além da censura às duas canções citadas, “Partido Alto” (Chico Buarque), interpretada por Caetano Veloso, sofreu alterações na letra, sendo substituídas as palavras “brasileiro” por “batuqueiro” e “pouca titica” por “pobre coisica”.
Diante de tantas mutilações da censura, o álbum “Calabar”, com capa branca, de Chico Buarque, foi um fracasso de vendas. Após o fracasso comercial , a Philips decidiu recolher o disco com capa branca, relançando-o semanas depois, com uma nova capa, trazendo apenas com uma fotografia do artista, de perfil, com o título “Chico Canta”.
Naquele ano de 1973, a música “Cálice” (Chico Buarque – Gilberto Gil), foi proibida de ser gravada e cantada. Gilberto Gil desafiou a censura e cantou a música em um show para os estudantes, na Politécnica, em homenagem ao estudante de geologia da USP Alexandre Vanucchi Leme (o Minhoca), morto pela ditadura. Ainda naquele ano, no evento “Phono 73”, festival promovido pela Polygram, Chico Buarque e Gilberto Gil tiveram os microfones desligados quando iriam cantar “Cálice”, por decisão da própria produção do show, que não quis criar problemas com a ditadura.
Em 1974 a censura não dá tréguas ao artista. Impedido de gravar a si mesmo, Chico Buarque lança um disco, Sinal Fechado (1974), com composições de outros autores. Diante de tantas canções vetadas, a sofrer uma perseguição acirrada, Chico Buarque cria os pseudônimos de Julinho da Adelaide e Leonel Paiva. É sob o heterônimo do Julinho da Adelaide que a censura deixa passar canções de críticas inteligentes à ditadura, lidas nas entrelinhas: “Jorge Maravilha”, que trazia o verso “Você não gosta de mim mas sua filha gosta”, que era lida como uma referência ao então presidente Geisel, cuja filha Amália Lucy, teria dito em entrevista, que admirava as canções do Chico Buarque. “Acorda Amor”, outra canção liberada do Julinho da Adelaide, era uma referência clara aos órgãos da repressão, que vinham buscar cidadãos suspeitos de subversivos em suas casas, levando-os em uma viatura, desaparecendo com eles. Diante da polícia repressiva, ele chamava pelo ladrão. “Milagre Brasileiro” também levou a assinatura de Julinho da Adelaide.
Outro clássico da MPB que sofreu uma censura moralista foi “Atrás da Porta” (Chico Buarque – Francis Hime), o verso original “E me agarrei nos teus cabelos, nos teus pêlos”, seria substituído por “E me agarrei nos teus cabelos, no teu peito”, a censura achava a palavra “pêlos” de caráter indecente.
Outra canção vetada de Chico Buarque foi “Tanto Mar”, uma homenagem do artista à Revolução dos Cravos em Portugal. Por ter sido uma revolução considerada socialista, a canção foi proibida. Seria gravada no álbum “Chico Buarque & Maria Bethânia Ao Vivo” (1975), numa versão instrumental. Mais tarde, em 1978, seria liberada com uma outra letra. Curiosamente, a versão original, sem cortes e cantada de “Tanto Mar”, consta no mesmo álbum “Chico Buarque & Maria Bethânia Ao Vivo” lançado em Portugal.
Quando o AI-5 foi extinto, em 1978, Chico Buarque vingou-se dos anos de censura, gravou “Cálice”, regravou “Apesar de Você”, além de criar músicas provocantes, que afrontavam à moral da época, como "Folhetim", que descrevia uma prostituta, ou “Geni e o Zepelim” e “Não Sonho Mais”, temas de dois travestis, Genivaldo da peça “A Ópera do Malandro” e Eloína, do filme “A República dos Assassinos”, respectivamente.

1973, o Ano Negro da Censura às Músicas da MPB

Chico Buarque não teria sido o único cantor da MPB a sofrer mutilações na sua obra naquele opressivo ano de 1973. O endurecimento deve-se à volta das manifestações estudantis, nos últimos anos bruscamente combalidas, resultado das perseguições aos líderes do movimento, que estavam em sua maioria presos, exilados ou desaparecidos. Outro disco mutilado pela censura naquele ano foi “Milagre dos Peixes”, de Milton Nascimento, lançado em LP e compacto simples. Do álbum seriam vetadas as canções: “Hoje é Dia d’El Rey” (Márcio Borges – Milton Nascimento), “Os Escravos de Jó” (Milton Nascimento – Fernando Brant) e “Cadê” (Milton Nascimento – Ruy Guerra). Uma das faixas proibidas teria a participação de Dorival Caymmi, com a sua exclusão, não aconteceu esta participação. “Diálogo Entre Pai e Filho” teve uma única frase que não foi proibida: “Meu filho”. Diante da censura, Milton Nascimento gravou apenas as melodias das canções vetadas.
Foi no tumultuado ano de 1973, que a banda Secos & Molhados explodiu, conquistando o país inteiro. O público dos Secos & Molhados, devido à proposta inovadora e ao seu carisma, era composto por todas as idades, inclusive por crianças e por adolescentes. Os três integrantes da banda eram Ney Matogrosso, Gerson Conrad e João Ricardo, que se apresentavam com os rostos pintados. Ney Matogrosso além de trazer a cara pintada, tinha uma voz de timbre totalmente diferente da de um homem cantor, um aspecto andrógeno e apresentava-se entre plumas, sem camisa. Os pêlos do peito do cantor e os seus frenéticos rebolados, incomodaram à censura, à moral e aos seus bons costumes vigentes, que proibiu que as câmeras da televisão focassem o cantor de perto, sendo permitido apenas aparecer o rosto em close. Assim apareceriam os Secos & Molhados em um clipe do recém estreado “Fantástico”, programa da Rede Globo.
Além da capa de “Calabar”, também em 1973, Gal Costa teve censurada a capa do disco “Índia”, por trazer um close frontal da cantora vestida de uma tanga minúscula, e na contra-capa fotografias da mesma de seios nus, vestida de índia. A gravadora Philips comercializou o álbum coberto por um envelope opaco, de plástico azul. Do mesmo álbum, a música “Presente Cotidiano”, de Luiz Melodia, foi proibida de tocar em rádios e locais públicos. Em 1984, já no fim da ditadura, pós Diretas Já, Gal Costa teria outra canção proibida pela censura de ser tocada em público: “Vaca Profana” (Caetano Veloso), do álbum “Profana”.
Ainda naquele tenso 1973, uma reportagem da revista Veja, dava conhecimento de que o álbum de Gonzaguinha, “Luiz Gonzaga JR.” (1973), era resultado do corte feito pela censura de 15 músicas.
Ainda em 1973, Raul Seixas teria 18 composições vetadas pela censura. Luiz Melodia, além de ter “Presente Cotidiano” proibida de ser executada nas rádios, teve várias palavras excluídas ou alteradas das canções do seu disco de estréia, e várias músicas vetadas na íntegra.

Linguagem Poética e Coloquial Sofrem Censuras

Na ignorância cega da censura, sem uma lógica que a sustentasse, até o poeta Mário de Andrade foi vetado. O fato inusitado aconteceu em 1970, quando a gravadora Festa decidiu homenagear os 25 anos da morte do poeta, preparando um disco com alguns dos seus mais conhecidos poemas. Após ser submetido à censura, o projeto teve seis poemas proibidos, entre eles “Ode ao Burguês” e “Lira Paulistana”. Os vetos foram justificados pelos censores como estéticos, “falta de gosto”. O que se concluía era que, os censores jamais tinham ouvido falar em Mário de Andrade, confundindo-o com um autor vulgar do Brasil da época.
Outro exemplo eloqüente da ignorância e do despreparo dos censores, foi com o compositor e cantor Adoniran Barbosa. Conhecido como o mais paulistano dos compositores, Adoniran Barbosa usava em suas canções o jeito coloquial de falar dos paulistanos. Não querendo problemas com a censura, em 1973 o artista decidiu lançar um álbum com várias canções já gravadas na década de cinqüenta. Inesperadamente, cinco das suas canções foram vetadas, mesmo não sendo inéditas. Diante da linguagem coloquial de “Samba do Arnesto” (Adoniran Barbosa – Alocin), que trazia nos seus versos “O Arnesto nos convidou prum samba/ Ele mora no Brás/ Móis fumo/ Num encontremo ninguém/ Fiquemo cuma baita duma réiva/ Da outra veiz nóis num vai mais (Nóis num semo tatu)”, o censor só liberaria a música se ele regravasse cantando assim: “Ficamos com um baita de uma raiva/ Em outra vez nós não vamos mais (Nós não somos tatus)”. Na letra da música “Tiro ao Álvaro” (Adoniran Barbosa – Oswaldo Moles), a censora faz um círculo nas palavras “tauba”, “revorve” e “artormove”, concluindo que a “falta de gosto impede a liberação da letra”. Para que pudessem ser aprovadas, “Samba do Arnesto” e “Tiro ao Álvaro”, teriam que virar “Samba do Ernesto” e "Tiro ao Alvo”. Tiveram o mesmo destino “Já Fui uma Brasa” (Adoniran Barbosa – Marcos César), "Eu também um dia fui uma brasa. E acendi muita lenha no fogão" e “O Casamento do Moacir” (Adoniran Barbosa – Oswaldo Moles), "A turma da favela convidaram-nos para irmos assistir o casamento da Gabriela com o Moacir". “O Casamento do Moacir” foi considerada de "péssimo gosto" pela censora Eugênia Costa Rodrigues. Diante da censura, Adoniran Barbosa não mudou a sua obra, deixou para gravar as músicas mais tarde, quando a burrice já tivesse passado.
Outro poeta que teve problemas com a censura foi Vinícius de Moraes. Sua música “Paiol de Pólvora” (Vinícius de Moraes – Toquinho), feita para a trilha sonora de “O Bem-Amado”, foi proibida de ser o tema de abertura da novela, em 1973, por causa do verso “estamos sentados em um paiol de pólvora”, sendo substituída na abertura pela música “O Bem Amado” (Vinícius de Moraes – Toquinho), interpretada pelo coral da Orquestra Som Livre. Também a belíssima canção “Valsa do Bordel” (Vinícius de Moraes – Toquinho), sobre a vida de uma velha prostituta, esteve proibida por dez anos. Vinícius cantava esta música em shows, ironicamente chamando-a de “A Valsa da Pura”, por causa da censura.
Paulinho da Viola, em 1971, teve no seu álbum “Paulinho da Viola”, duas canções proibidas: “Chico Brito” (Wilson Batista – Afonso Teixeira), música composta em 1949, e “Um Barato, Meu Sapato” (Paulinho da Viola – Milton Nascimento), ambas vetadas sob a alegação de que evidenciavam o clima marginal do samba.

Outros Tantos Vetos

Vale registrar, ainda, que em 1972, Jards Macalé teria que reescrever sete vezes a letra de Revendo Amigos” (Jards Macalé – Waly Sailormoon), do álbum “Movimento dos Barcos”.
Sérgio Bittencourt, jornalista e compositor, filho de Jacob do Bandolim, em 1970, teve a sua música “Acorda, Alice”, proibida pela censura da ditadura militar por causa do verso “Acorda, Alice/ Que o país das maravilhas acabou”. Esta canção seria gravada por Waleska já na época da abertura política.
Rita Lee teve as músicas “Moleque Sacana” (Rita Lee e Mu) e “Gente Fina” (Rita Lee) censuradas, a primeira por causa da palavra sacana, considerada obscena, a segunda porque poderia ferir os bons costumes da época.
Carlos Lyra sentiu o gosto da censura com a sua música “Herói do Medo”, proibida por causa dos versos "odeio a mãe por ter parido" e "o passatempo estéril dos covardes". Carlos Lyra não alterou o conteúdo da letra, preferiu sair do país.
Belchior, que durante muito tempo foi considerado autor marginal, teve a música “Os Doze Pares de França” (Belchior – Toquinho) censurada, porque para os censores, os autores vangloriavam a França, fazendo dele um país melhor para se viver do que o Brasil. Também a canção “Pequeno Mapa do Tempo” (Belchior), de 1977, uma crítica implícita ao regime, por causa dos versos "eu tenho medo e medo está por fora" e "eu tenho medo em que chegue a hora, em que eu precise entrar no avião", uma alusão ao exílio, os censores concluíram que a música trazia mensagem de protesto político.
Ao contrário do que se pensa, o cantor e compositor Luiz Ayrão foi um dos artistas brasileiros que mais contestou a ditadura militar. A sua música “Quem Eu Devo é Que Deve Morrer”, tem como tema uma dívida pessoal que só será paga se Deus quiser. Também a dívida externa brasileira encontrava-se nessas condições. Luiz Ayrão faz um samba provocativo. Diante da afirmação do verso “quem eu devo é que deve morrer", a canção é vetada, sendo a proibição justificada pela censura porque a letra era um incentivo ao homicídio, com uma mensagem de caráter negativo.
Sueli Costa deu a canção “Cordilheira” (Sueli Costa – Paulo César Pinheiro) para Erasmo Carlos gravar. Feito o registro, a canção jamais saiu, sendo proibida. Os autores chegaram a ir a Brasília em busca de uma explicação para o veto. Encontram o silêncio dos censores, sem nenhuma justificativa. Mas os versos falavam por si: “Eu quero ver a procissão dos suicidas, caminhando para a morte pelo bem de nossas vidas”. “Cordilheira” é uma das mais belas canções de teor contestatório já feita no Brasil. Quando liberada, seria gravada por Simone, em 1979, no álbum “Pedaços”. O registro de Erasmo Carlos só saiu em uma caixa de cds comemorativos à carreira do cantor. Outra canção censurada de Sueli Costa foi “Altos e Baixos” (Sueli Costa – Aldir Blanc), que cantava de forma densa uma cena de agressão entre um casal, que trazia um casamento desgastado. A música falava de uísque, Dietil, Diempax, e foi justamente por ter citado o nome do ansiolítico Diempax, que a canção foi censurada. Elis Regina conseguiria a liberação da música, gravando-a no seu álbum “Essa Mulher” (1979).

O Brega ou Popularesco, Nada Escapa à Censura

Como já se pôde observar , a censura da ditadura militar não obedecia a nenhum critério. Qualquer ameaça não só ao regime por ela imposto ao país, como à sociedade conservadora que a ajudou a ascender ao poder e nele continuar por mais de duas décadas. Vestido de uma moral hipócrita, o regime militar barrava qualquer obra que suspeitasse ofender à moral, ou que se mostrasse obscena a essa moral. Em um mesmo contesto, tanto Chico Buarque, quanto Odair José, um cantor e compositor de sucessos popularescos, sem vínculos com qualquer militância política, ou mesmo o genial e popular Genival Lacerda, sofriam os reveses da censura. “Tanto Mar” (Chico Buarque), “Pare de Tomar a Pílula” (Odair José) e “Severina Xique Xique”, apesar de canções antagônicas, de vertentes diversas dentro da música brasileira, oscilando entre a canção política e a considerada “brega” ou “pimba”, eram consideradas pela censura um perigo latente ao regime e à moral que se construía naquela época. Em 1975, já Genival Lacerda tinha transformado a sua música “Severina Xique Xique” (Genival Lacerda – João Gonçalves) em um grande sucesso de público no nordeste brasileiro, quando foi vítima do preconceito das famílias do Ceará, que acusavam a palavra “boutique” de ter duplo sentido, ofendendo os bons costumes do lugar. Diante do protesto, o departamento regional da polícia federal do Ceará encaminhou a letra à Divisão de Censura de Brasília. Surpreendentemente, o técnico de censura de Brasília, mantém a liberação da música e afirma que a canção "é um veículo de integração da nacionalidade". Este fato prova que a censura não vinha só do regime militar, mas da sociedade que apoiava este regime, e que muitas vezes, era mais repressiva e conservadora do que ele.
Dentro do popularesco da canção brasileira, Odair José foi um dos compositores que mais sofreu com a censura. “O Motel” (Odair José), teve só pelo seu título, o veto da censura. Revelar a intimidade de um casal naqueles preconceituosos anos setenta era inconcebível para a censura militar. Outra música de Odair José vetada pela censura foi “A Primeira Noite”, considerada inconveniente para ser consumida pelo público jovem e adolescente da época. O autor mudou o título da canção para “Noite de Desejos”, conseguindo liberá-la e gravá-la. A mais polêmica música de Odair José foi “Pare de Tomar a Pílula”, onde ele pedia para a namorada deixar de usar anticoncepcionais para que pudesse engravidá-la. Vista à ótica do tempo, a canção chega a ser ingênua, de uma simplicidade quase grotesca, absolutamente inofensiva para um público atual, mas aviltante para as velhas senhoras que em 1964, saíram às ruas de rosários nas mãos, saudando, em nome da família brasileira, os golpistas militares.
Dentro da corrente popularesca, a censura não poupou nem mesmo a dupla Dom e Ravel, que em 1970, tornara-se a menina dos olhos da repressão, com uma música que exaltava a nação, tornando-se o hino da ditadura: “Eu Te Amo, Meu Brasil”. O motivo que levou o regime a interrogar Dom e Ravel, foi quando eles apresentaram, em 1972, a canção “A Árvore”, os censores desconfiaram do trecho “venha, vamos penetrar”. Além de imaginar que o tema que falava de árvores, seria supostamente sobre a canabilis (planta da maconha). A música foi proibida, apesar de ter uma gravação da banda Os Incríveis, nunca foi lançada. A esta altura, a incoerência da censura já dava passagem para uma certa esquizofrenia social e política, sem ideologia ou razão.
Dentro de um processo repressivo, todos os argumentos tornam-se incoerentes, a razão é substituída pela força bruta. A censura não constrói uma lógica, muitas vezes ela percorre movida pelas decisões pessoais dos censores. Para manter as necessidades de uma ditadura, a censura fazia parte da arma de propaganda do estado repressivo, podava a liberdade de expressão, principalmente as que feriam os princípios que justificam um governo ilegítimo, emanado da força, da opressão e da traição aos princípios da democracia.

 

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Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009

OS TEATROS DA SÃO PAULO DOS BARÕES DO CAFÉ

 

 

Em meados do século XIX, São Paulo era uma cidade bucólica, a sua população dormia cedo, e tinha como atração principal da sua vida noturna, os saraus de poesia na casa das moçoilas. Com o poder econômico gerado pelo ciclo do café, e mais tarde, com chegada da luz elétrica, os paulistanos passaram a conhecer novos hábitos noturnos, com uma boemia centrada nos bares e nos cabarés. A época dos barões do café muda drasticamente a arquitetura da cidade, feita de ruas estreitas, iluminadas a gás, transitadas por pequenos bondes carregados por burros. A partir da segunda metade do século XIX, São Paulo atinge o porte de uma cidade média. A cidade cresce culturalmente, procurando assimilar e adaptar para si os modismos internacionais. É a descoberta do teatro e da ópera, que se tornam imprescindíveis na construção cultural de uma nova sociedade ascendente.
É nesta época que São Paulo ganha casas de teatros famosas, que darão forma ao conteúdo da sua nova forma de delinear e de viver a boemia, a noite cultural. Em 1864, no local onde é hoje a Praça João Mendes, nos fundos da catedral da Sé, é aberto o Teatro São José, o mais famoso teatro que a cidade já tinha visto até a inauguração do Teatro Municipal, em 1911. Em 1873, viria o Teatro Provisório, na rua Boa Vista, que deu lugar ao Teatro Santana. O Politeama, na Ladeira do Acu, depois rua São João, e finalmente, avenida São João, surgiu em 1892. O Moulin Rouge, nas imediações do Largo do Paissandu. Em 1908, foi a vez do Teatro Colombo, no largo da Concórdia, no Brás. Com o incêndio do Teatro São José, em 1898, um novo prédio é feito no Morro do Chá, onde o teatro é inaugurado em 1909. Em 1911, o paulistano tem a sua apoteose teatral com a inauguração do Teatro Municipal. Na década dos 1920 surgiria o belíssimo Teatro Santa Helena. Com a vinda do cinema, muitos teatros tornaram-se salas de exibição da sétima arte. Dos velhos teatros paulistanos descritos aqui, apenas o Teatro Municipal sobreviveu até os dias atuais, os outros tiveram os seus prédios demolidos ou incendiados, ou simplesmente desapareceram, engolidos pelo tempo e pela história.

Casa da Ópera, o Primeiro Teatro de São Paulo

A história do teatro em São Paulo está ligada à sua fundação, que remete ao padre Anchieta. O jesuíta fundador utilizava recursos teatrais na catequização dos índios, encenando para eles autos de cunho religioso. As encenações dos autos ocorriam ao ar livre, no local genético da cidade de São Paulo, o Pátio do Colégio. Muitos anos separariam a data da fundação da cidade, as encenações teatrais de Anchieta e a primeira casa de teatro. Relatos apontam para o século XVII, o aparecimento do primeiro prédio de teatro da capital paulista, chamado de Casa da Ópera, localizado no que é hoje a rua de São Bento. Segundo relatos, o prédio ficava entre São Bento e o antigo Largo do Rosário, hoje praça Antônio Prado. Por questões morais e preconceitos da época, em meio aos manifestos contrários ao seu funcionamento, este pequeno teatro foi obrigado a fechar.
No século XVIII, quando dom Luís Antonio de Sousa Botelho e Mourão, o Morgado de Mateus, era governador general da capitania de São Paulo (1965 a 1775), famoso por conceder em 1767, o título de coronel a Santo Antonio, surgiria aquele que é considerado o primeiro teatro oficial de São Paulo. Seria instalada na Casa da Fundição, nos baixos do Palácio do Governo, no Pátio do Colégio, uma sala de espetáculos para 350 pessoas, chamada de Casa da Ópera.
A Casa da Ópera do Pátio do colégio (local aproximado de onde está instalada a Caixa Econômica Estadual), tinha uma construção rudimentar para uma casa de espetáculos, com três portas no rés do chão e três janelas no primeiro andar. Trazia no interior, à altura do saguão, duas escadas, que davam, uma para o camarim governamental e outra aos 28 camarotes, divididos em três ordens. Na platéia havia bancos simples. A iluminação era feita por velas de cera e candeeiros de azeite doce.
Foi na Casa da Ópera, do Largo do Colégio (na fotografia acima, do Pátio do Colégio, a igreja e o colégio, tendo à esquerda, o prédio da Casa da Ópera, em 1861), que dom Pedro I, ao proclamar a independência do Brasil, em 7 de setembro de 1822, foi aclamado pelo povo, rei do Brasil. Com a inauguração do Teatro São José, em 1864, e outras casas de diversão em São Paulo, a Casa da Ópera entrou em decadência, sendo decretado por volta de 1870, que seria demolido o seu prédio. No seu lugar, em 1881, foi lançada a pedra fundamental do prédio da Tesouraria da Fazenda.

Teatro São José

Criado para ser um teatro nos molde dos europeus, o Teatro São José, construído no Largo Municipal (atual Praça João Mendes), foi inaugurado na noite de 4 de setembro de 1864, com a apresentação da peça “A Túnica de Nessus”, do estudante de direito Sizenando Nabuco, irmão de Joaquim Nabuco.
O Teatro São José do Largo Municipal, ainda estava inacabado no dia da sua inauguração, só finalizando as obras dez anos depois.
Nos palcos do Teatro São José, grandes espetáculos de óperas e dramas foram encenados, por lá passaram as melhores companhias da época. No seu apogeu, o São José recebeu a famosa atriz de origem portuguesa, Eugênia Câmara e o seu grande amor, o poeta Castro Alves. Por lá também passaram: Sarah Bernhardt, as pregações abolicionistas de Antonio Bento e Arthuro Toscani.
Na noite de 15 de fevereiro de 1898, um grande incêndio destruiu o Teatro São José. São Paulo despertou com os sinos das igrejas a anunciar o grande incêndio, quando o sol nasceu, o Teatro São José já não existia, deixando a cidade desprovida de um grande teatro. A partir do incêndio, o Largo do Comércio passou a ser chamado de Largo do Teatro, mais tarde de Praça João Mendes.
Diante da catástrofe, um novo Teatro São José (foto ao lado) passou a ser construído. Feito do projeto do arquiteto Carlos Eckman, foi inaugurado no dia 28 de dezembro de 1909, em um novo local, no morro do Chá. O novo Teatro São José, ao lado do Viaduto do Chá, trazia um prédio imponente, com um grande salão, dois anos depois, em frente a ele, surgiria o Teatro Municipal. O São José do Viaduto do Chá existiu até 1924, quando foi demolido para a construção do Edifício Alexandre Mackenzie, nova sede da Light & Power, depois Eletropaulo, na esquina da Rua Coronel Xavier de Toledo com o Viaduto do Chá.

Teatro Politeama

Segundo cronistas, a antiga Ladeira do Acu, depois Rua de São João (atual Avenida São João), era uma rua estreita de velhas quitandas e botequins que ladeavam o Teatro Politeama, que trazia a paisagem bucólica de fogareiros de lata de querosene na porta, assando castanhas, costume herdado da colonização portuguesa.
Registra-se sobre o edifício do Teatro Politeama (na foto a segunda porta à direita, entrada do Politeama ao lado do Cassino Paulista), como um grande barracão acaçapado, coberto de zinco, com uma pequena porta de acesso na Rua São João, à altura da Avenida Anhangabaú, outra porta de serviço, na Rua Formosa. O barracão de zinco tinha sido construído para abrigar o circo de Frank Brown. Apesar de seu prédio sem glamour, era o teatro de melhor acústica de São Paulo. O Politeama foi palco dos melhores espetáculos que marcaram culturalmente a cidade, em especial o Vale do Anhangabaú, que a partir dele tornou-se sede da vida noturna da Paulicéia. Nele efetuaram-se os mais diversos gêneros de espetáculos: cafés-concerto, circenses, atuações de grandes companhias estrangeiras de todos os gêneros, dramático, lírico e de opereta. Foi nos palcos do Politeama que a grande Sarah Bernhardt, em outubro de 1905, faria a sua última apresentação em palcos paulistanos. Nessa tournée ao Brasil, a atriz sofreu um acidente nos palcos do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, responsável pela amputação futura da sua perna.
O Politeama foi a casa de espetáculos que mais caracterizou a cultura tipicamente paulistana da época.

Moulin Rouge

O antigo Rinque de Patinação, foi mais tarde transformado no Moulin Rouge, um cabaré que marcou a vida noturna de São Paulo na virada do século XIX e início do século XX. Localizava-se na Avenida São João, nas proximidades do Largo do Paissandu. Funcionava em um casarão onde hoje está o prédio da Secretaria de Cultura, na esquina com a rua Dom José de Barros.
O Moulin Rouge (fotografia ao lado, do casarão do Largo do Paissandu, de um cartão postal do início do séculoXX), devido à sua localização privilegiada, foi de grande importância para a vida noturna do centro de São Paulo, sendo frequentado por grande parte dos paulistanos. Tinha um estilo de café-concerto, inspirado nos cafés parisienses. Gerou personagens míticos da vida noturna paulistana, como Garibaldi, um italiano de longas barbas, taxista amigo de todos, transportava os freqüentadores da boemia da cidade, entre eles, os bêbados e os casais formados na noite.
O casarão do Moulin Rouge tornar-se-ia, em 1905, o Teatro Carlos Gomes, que por sua vez, cederia lugar ao Teatro Variedades. Quando a Rua de São João foi alargada, tornando-se uma avenida, novamente mudou o nome para Teatro Avenida, que finalmente, tornar-se-ia o Cine Avenida, famoso por suas sessões duplas.

Teatro Santana

O poder do café transformava a cidade de São Paulo. O apogeu do ciclo cafeeiro deu-se de 1880 a 1930. Com o dinheiro do café, a burguesia ascendente necessitava de uma lapidação cultural, para firmar-se e ser aceita pelas famílias tradicionais. O paulistano necessitava cada vez mais de abrir novos espaços culturais, que os fizesse similar às grandes culturas européias. O teatro, pouco antes da chegada dos animatógrafos, era uma busca constante da São Paulo dos barões do café.
No dia 23 de agosto de 1873, inaugurou-se mais um teatro, o Teatro Provisório Paulistano, situado em um casarão, na Rua Boa Vista. O teatro traz uma mudança sócio-cultural à rua durante décadas, que nos dias atuais esvaiu-se por completo. O antigo Teatro Provisório Paulistano foi comprado pelo industrial Antonio Álvares Penteado, que o demoliu, para a construção de um outro teatro em seu lugar.
Mal o século XX mostrava o seu alvorecer e, no lugar do Teatro Provisório Paulistano, surge o Teatro Santana, inaugurado na noite de 26 de maio de 1900. Ali permaneceria até 1911. O Teatro Santana, por iniciativa de Antonio Álvares Penteado, foi transferido do casarão da Rua Boa Vista (demolido em 1912), para um edifício com projeto de Max Hehl, situado na Rua 24 de Maio, sendo inaugurado em 25 de abril de 1921. Era um prédio pequeno e elegante, com três bares. Sem fins lucrativos, era alugado por seus donos, o Conde Silvio Álvares Penteado e Armando Álvares Penteado, diretamente para as companhias teatrais, sem empresários. O Teatro Santana da Rua 24 de Maio foi demolido em 1960.

Teatro Colombo

O Teatro Colombo foi uma resposta das classes menos favorecidas à elitização dos teatros paulistanos, e dos preços exorbitantes cobrados pelas bilheterias. Localizado no Largo da Concórdia, no Brás, o Teatro Colombo, foi inaugurado em 19 de fevereiro de 1908. Pertencia à Companhia Dramática Italiana, e resultou da adaptação de um antigo mercado que havia no local. Tinha uma capacidade de 1968 lugares, contando com 39 camarotes e 24 frisas. Tinha ainda, as cadeiras de platéia e três arquibancadas, comportando 260 lugares em pé.
O Teatro Colombo foi palco de grandes manifestações de trabalhadores e grupos de tendência anarquista. Era conhecido como o local de reunião das famílias dos bairros industriais e populosos, por praticar preços ao alcance das classes operárias. Por seus palcos passaram companhias dramáticas, líricas e de operetas. O famoso Caruso apresentou-se para a sua platéia.
Com chegada do cinema, o Teatro Colombo foi transformado em uma grande sala de exibição de filmes. Uma sala que fez parte da história do Brás e da cidade de São Paulo. Em 1966, um incêndio destruiu-o completamente.

Teatro Santa Helena

O Teatro Santa Helena estava localizado no térreo do Palacete Santa Helena, na Praça da Sé. O edifício foi iniciado em 1922, e concluído em 1925. Através do Palacete, podia definir-se a paisagem da arquitetura paulistana da década vinte. Foi projetado pelo arquiteto italiano Corberi, executado pelo escritório técnico de engenharia Luis Asson.
No prédio reuniam-se célebres artistas plásticos, formando o que ficou conhecido como Grupo do Santa Helena, composto por Francisco Rebolo, Di Cavalcanti, Mario Zanini, Alfredo Volpi, Clóvis Graciano, Manuel Martins, Aldo Bonadei, Penacchi e outros, cujo lema era romper com as regras do academismo e retratar temas do cotidiano popular.
Além do Teatro, o prédio abrigou em várias épocas distintas, ateliês, sedes de sindicatos (dos Metalúrgicos, dos Artistas Plásticos, dos Empregados do Comércio), além de uma célula do Partido Comunista Brasileiro.
O Teatro Santa Helena foi transformado em sala de cinema. Nos anos trinta, passear pela Praça da Sé fazia parte do lazer do paulistano. Assistir filmes no cine-teatro Santa Helena, era um salutar e agradável costume da elite. A sala possuía decoração art nouveau, com escadarias de mármore de Carrara, vidros e espelhos franceses. O cine-teatro foi fechado em 1971, pouco antes do Palacete Santa Helena ser demolido para dar lugar à Estação Sé do Metropolitano.

Teatro Municipal

Com o incêndio do Teatro São José, em 1898, a idéia da construção de um grande teatro em São Paulo cresceu, fazendo o paulistano ansiar por uma casa de espetáculos grandiosa, com inspiração no Teatro da Ópera de Paris.
Em 1903, a Câmara Municipal de São Paulo desapropriou o terreno do Morro do Chá, iniciando naquele ano, as obras de um grande teatro, sobre um projeto de Cláudio Rossi, com desenhos de Domiziano Rossi, sendo Ramos de Azevedo o responsável pela construção. As obras finalizariam em 30 de agosto de 1911. Surgia, assim, no coração de São Paulo, um edifício imponente e luxuoso, com armadura de ferro de Düsseldorf; ferro artístico de Frankfurt; bronze artístico de Berlim, Paris e Milão; mosaicos de Veneza; mosaicos de pavimento de Nova York e Berlim; mármores de Siena, Verona e Carrara.
No dia 12 de setembro de 1911, o Teatro Municipal foi inaugurado, com o drama lírico Hamlet, cantado pelo barítono italiano Titta Ruffo. Desde então, grandes artistas passaram pelos palcos do teatro: Enrico Caruso, Isadora Duncan, Anna Pavlowa, Nijinski, Mikhail Baryshnikov, Clara Della Guardia, Itália Fausta, Vivien Leigh, Arthur Rubinstein, Maria Callas, Duke Ellington e Ravi Shankar, entre tantos.
Quase 100 anos depois da sua inauguração, o Teatro Municipal, criado para atender principalmente, às óperas, continua a ser o maior teatro de São Paulo, e um dos melhores do mundo. Assim como no dia da sua inauguração, continua a ser um teatro voltado para a elite, devido ao valor cobrado ao público por seus espetáculos. Grande parte do paulistano nunca entrou no Teatro Municipal.
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