Segunda-feira, 23 de Março de 2009

GAL CANTA CAYMMI - O ENCONTRO DE DOIS BAIANOS

 


O Brasil perdeu Dorival Caymmi em 16 de agosto de 2008, aos 94 anos, vítima de um câncer com o qual lutou durante nove anos. No momento de dor e tristeza que a partida de um cantador do Brasil e, particularmente, da Bahia, deixa em nós, é tempo de revisitarmos a sua imensa obra, um acervo com mais de 100 canções. Nada mais agradável do que começar pelo álbum “Gal Canta Caymmi”, de 1976, um dos mais belos e definitivos registros da obra do grande compositor baiano. O universo de Dorival Caymmi traduzido no canto de Gal Costa revela-nos a pluralidade da Bahia, que presenteou o Brasil com tão soberba e talentosa dupla. Gal Costa e Dorival Caymmi, duas vezes Bahia, duas vezes emoção, mil vezes Brasil.
Em 1975 a Rede Globo decidiu adaptar o romance “Gabriela, Cravo e Canela”, de Jorge Amado, para uma das suas telenovelas. Começava uma grande corrida das atrizes para conseguir o papel de Gabriela. O todo poderoso da emissora carioca, Daniel Filho, tinha em mente um nome, Gal Costa. Mas a cantora, mesmo diante da insistência de Daniel Filho, declinou do convite, por não se achar uma atriz. Após intensa seleção, Sonia Braga, então atriz de papéis secundários na emissora, foi a escolhida para protagonista de “Gabriela”. Dorival Caymmi compôs o tema de abertura da novela, “Modinha Para Gabriela”. A canção foi dada a Gal Costa, que com uma interpretação sensual e mítica, fincaria de vez a sua voz na personagem de Jorge Amado.
Apesar de conhecer a obra de Caymmi do avesso e cantar suas canções nos seus shows, até então, Gal Costa só tinha gravado do compositor a música “Oração de Mãe Menininha”, em 1973, e mesmo assim em dois registros de shows, lançados em 1973, nos álbuns “Phono 73 - O Canto de Um Povo”, dueto com Maria Bethânia, e “O Banquete dos Mendigos”, numa interpretação a solo.
Com o grande sucesso da novela “Gabriela”, a Bahia ficou em grande evidência, tornando-se moda no país inteiro. Jorge Amado, Gal Costa e Dorival Caymmi tornaram-se os grandes protagonistas desse modismo. O resultado deste momento, foi um show histórico de Gal Costa e Dorival Caymmi, que percorreria apenas quatro cidades do país. O suficiente para que a química musical entre ambos contagiasse o Brasil. Estava lançada a semente para um encontro entre Gal Costa e Dorival Caymmi em um disco. Ainda no calor do sucesso de “Modinha Para Gabriela”, e do show que teve gosto de pouco, em dezembro de 1975, Gal Costa entrou em estúdio para gravar um disco só com canções de Dorival Caymmi. Em março de 1976 era lançado o mítico “Gal Canta Caymmi”, um dos mais belos registros musicais da essência baiana no cenário da MPB.

Gal Canta Caymmi, o Álbum

Gal Canta Caymmi”, álbum de 1976, trazia na sua capa uma Gal Costa fotografada por Tereza Eugênia, com cabelos e bocas sensuais, a lembrar uma Gabriela de todos nós. Na contra-capa, Gal Costa e Dorival Caymmi estão abraçados, ambos com um sorriso luminoso, a mostrar a admiração recíproca e o carinho que sentiam um pelo outro. O álbum foi produzido por Perinho Albuquerque. Trouxe músicos como João Donato, Roberto Menescal e Dominguinhos, com quem a cantora já trabalhara anteriormente.
Gal Canta Caymmi” nasce do grito da Bahia milenar, folclórica, com sua eterna pulsação geradora de arte e de artistas. Começa com uma vinheta trazendo o toque dos tambores (infelizmente cortados da versão do LP para o CD). O show vai começar. O tempero baiano está no ar, apimentado e pincelado pela receita de “Vatapá”. É a simplicidade de Caymmi na voz de Gal Costa, que de pequenos momentos, como fazer um vatapá, gera uma poesia com cheiro do Brasil africano que há em todos nós. Se alguém procurava uma nega baiana que soubesse mexer esse vatapá, encontrou-o no tempero certo da voz de Gal Costa.
Depois de saborearmos o vatapá, o violão traz a voz de Gal Costa, quase em capela, a introduzir “Festa de Rua”, que nos transporta para o sincretismo religioso da Bahia, retratado na tradicional procissão marítima pela Baía de Todos os Santos, levando a imagem de Bom Jesus, que sai da Conceição da Praia no primeiro dia do ano. A voz de Gal Costa começa doce, lenta, explodindo em agudos, como uma festa de rua.
Nem Eu” mostra a maturidade no cantar de Gal Costa, o controle da voz, que transforma um intimismo velado em uma apoteótica canção de amor. Nesta faixa a cantora cresce como intérprete, distanciando-se da época que cantava o amor para a geração do desbunde. Aqui ela canta o amor para toda a MPB, levando-nos a compará-la com uma Dalva de Oliveira ou Ângela Maria. Gal Costa já não era a menina rebelde dos gritos da Tropicália, era senhora do seu canto e sabia onde poderia chegar.
Pescaria (Canoeiro) mostra o mar da Bahia, os pescadores de “Mar Morto” de Jorge Amado, a gente simples que vive do peixe pescado no recôncavo baiano. Gal Costa usa de seus agudos como nunca. O final é belíssimo, como o chamado de uma sereia. Os agudos da cantora contrastam com as ondas do mar baiano. Nesta canção Gal Costa mostra porque é uma das maiores vozes do Brasil. Técnica e emoção fundem-se, perdendo-se em agudos embriagantes.
O Vento” chega manso, é chamado pela cantora e pelo violão. Soltam-se as velas, içam-se os arranjos, e viajamos atrás do curimã para a moqueca baiana, atrás da voz cada vez mais embriagante da cantora, que com “O Vento” encerrava o lado A do vinil, dando-nos fôlego para o que viria a seguir.
O álbum, feito nos moldes dos LPs, começava o lado B (a lógica bem trabalhada dos lados A e B foi eliminada pelos CDs) com “Rainha do Mar”. O eterno casamento entre a poesia de Dorival Caymmi e o mar imenso, folclórico, repleto de lendas. O canto da sereia, temido e admirado por todos os pescadores:

“Minha sereia, rainha do mar
Minha sereia, rainha do mar
O canto dela faz admirar”

E se o temido canto que enfeitiçou os pescadores era de Iemanjá, aqui ele é de Gal Costa, que vai, faixa a faixa, quase sem esforço, transformando o repertório de Dorival Caymmi em uma extensão da sua obra.
O clímax do álbum é atingido em “Só Louco”. Gal Costa faz uma interpretação intimista, solitária, lírica e definitiva, repleta de armadilhas sedutoras que prendem os ouvintes. A música foi escolhida pela Rede Globo para ser tema da abertura da novela “O Casarão”, de Lauro César Muniz. Devido ao sucesso da telenovela, torna-se a canção mais tocada nas rádios de todo o álbum, e também a mais conhecida, ganhando um clipe histórico no programa “Fantástico”.
São Salvador” é a homenagem de Dorival Caymmi e Gal Costa à cidade que os viu nascer. Com simplicidade, é a canção dentro da MPB, que melhor retrata a geografia humana de Salvador nos versos “a terra do branco, mulato” e “a terra do preto doutor”. Na voz de Gal Costa a canção torna-se doce, quase um sussurro.

“São Salvador
Bahia de São Salvador
A terra do Nosso Senhor
Pedaço de terra que é meu”

Dois de Fevereiro” fecha o álbum com a grande homenagem à maior festa de Salvador e, conseqüentemente, da Bahia. É a homenagem à Bahia eclética, de várias cores e sons, traduzida na devoção a Iemanjá. A força baiana de Gal Costa supera o piano bossa nova de João Donato e a canção encerra a homenagem da cantora ao mestre e pai de todos os cantores baianos.
Resta falar sobre a penúltima canção, “Peguei um Ita no Norte”. É a história do próprio Dorival Caymmi, que quando jovem veio da Bahia em um navio a vapor pertencente à Companhia Nacional de Navegação Costeira, designados por Itas, devido aos nomes que tinham: Itapagé, Itanagé, Itapé... É a história comum de várias gerações de baianos, nordestinos, nortistas do Pará, que diante da miséria da sua região, eram obrigados a migrar para São Paulo e Rio de Janeiro em busca de melhores condições de vida. Caymmi veio de Ita para o sudeste e jamais voltaria à Bahia para viver. Gal Costa e a sua geração de baianos vieram da Bahia, para conquistar o Brasil. A canção canta a saudade da terra natal, não importa se de Salvador ou de Belém, a saudade de quem venceu nos grandes centros do sudeste, mas nunca esqueceu as origens. Caymmi jamais esqueceu a Bahia. Retratou-a por toda a sua obra. Gal Costa, ao gravar este álbum, voltava às origens, trazendo a sua essência baiana à flor do canto.
Dez canções depois, os tambores dos terreiros voltam a tocar em vinheta, encerrando o encontro mágico de Gal Costa e Dorival Caymmi, deixando uma emoção perene e o completo fascínio de todo o Brasil pela Bahia aqui cantada.
Gal Canta Caymmi” anulava a proposta cool de interpretação do álbum anterior, “Cantar”, para mostrar uma cantora que sabia mesclar emoção e técnica, dosar os agudos, ampliando as extensões de voz. Neste álbum, a interpretação intimista de “Domingo”, indomável na época da Tropicália e do desbunde, cool e elegante em “Cantar”, dá passagem para o domínio perfeito e maduro no canto de Gal Costa, pronta, finalmente, para interpretar qualquer fase ou estilo da MPB.

Ficha Técnica:

Gal Canta Caymmi
Philips
1976

Direção de produção: Perinho de Albuquerque
Arranjos: João Donato e Perinho Albuquerque
Técnicos de gravação: João Moreira, Ary Carvalhaes, Luigi Hoffer e Luiz Cláudio
Assistente de produção: Luciano Maia Bartholo
Assistentes de gravação: Paulo “Chocolate” Sérgio, José Guilherme e Rafael Isaac
Montagem: Jairo Gualberto
Estúdio: Phonogram
Mixagem: Luigi Hoffer
Capa: Lobianco
Fotos: Tereza Eugênia

Músicos Participantes:
Piano: João Donato e Antonio Adolfo
Violão: Chiquito Braga, Roberto Menescal e Perinho Albuquerque
Órgão: Zé Roberto
Viola e Guitarra: Chiquito Braga
Bateria: Enéas Costa e Paulinho Braga
Baixo: Fernando Leporace, Luizão, Novelli, Gabriel e Perinho Albuquerque
Acordeom: Dominguinhos
Percussão: Bira da Silva e Aladim

Faixas:

1 Vatapá (Dorival Caymmi), 2 Festa de rua (Dorival Caymmi), 3 Nem eu (Dorival Caymmi), 4 Pescaria (Canoeiro) (Dorival Caymmi), 5 O vento (Dorival Caymmi), 6 Rainha do mar (Dorival Caymmi), 7 Só louco (Dorival Caymmi), 8 São Salvador (Dorival Caymmi), 9 Peguei um ita no norte(Dorival Caymmi), 10 Dois de fevereiro(Dorival Caymmi)

Adeus a Dorival Caymmi

O Brasil ficou mais triste em agosto de 2008. Morreu Dorival Caymmi. O mestre de voz grave, sorriso bonachão, ar indolente, figura doce e sensível, calou-se.
Dorival Caymmi era o último representante dos desbravadores da nova Bahia que se deslumbra nos dias atuais. Nasceu em 1914, em uma Salvador negra na cor e na população, branca no preconceito e nas minorias, mas pulsante nos seus sons e imagens. A Bahia do jovem Dorival Caymmi era aquela que proibia os tambores dos terreiros, chegando mesmo a prender quem ousasse a praticar ou professar as religiões africanas. Foi das letras de Jorge Amado e do canto de Dorival Caymmi que a Bahia negra emergiu, que a Bahia e o candomblé tornaram-se moda, e hoje são conhecidos em todo o país.
Dorival Caymmi foi buscar no mar a inspiração para a sua poesia. Porque o mar é de uma imensidão aparentemente simples, mas é nele que se reflete a promessa de uma alma e de que não estamos sós, que deuses de um Deus acenam na quebrada das ondas na praia. A MPB deve muito a este homem, que percorreu com a sua música décadas da nossa história, foi cantado por Carmem Miranda, esteve presente no primeiro disco de João Gilberto, no arremate da carreira de Gal Costa, na voz de Maria Creuza, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Caetano Veloso, e tantos outros baianos. Ele era o pai de todos eles, o senhor das melodias da sua Bahia. Traduziu o mar de Jorge Amado nas notas da sua música. Rimou “Gabriela, Cravo e Canela” com a MPB. Mesmo longe, era na sua Bahia que encontrava a inspiração.

“Ai, ai que saudade eu tenho da Bahia
Ai, se eu escutasse o que mamãe dizia
Bem, não vá deixar a sua mãe aflita
A gente faz o que o coração dita
Mas esse mundo é feito de maldade e ilusão"

Mas a Bahia inspiradora tornou-se pequena para este homem, estava escrito que ele conquistaria o Brasil. E foi o que fez, desceu do nordeste para o Brasil. Conquistou com as suas canções do mar, as suas mulheres sensuais e a cheirar a um universo colorido, quem não se apaixonou por sua “Marina” de rosto pintado? Ou pela sua “Dora” a deslumbrar quando passava e acendia os clarins de todos nós. Voz grave, de uma época em que o cantor precisava ter mais do que conhecimentos vocais e produção de marketing para vingar na MPB. Voz poderosa, quase agreste, olhar sorridente, homem gentil, Caymmi era mais que um cantor, era um cantador, que nos deixa, tal qual Elvis Presley, em um 16 de agosto.

Minha jangada vai sair pro mar
Vou trabalhar meu bem querer
Se Deus quiser quando eu voltar do mar
Um peixe bom eu vou trazer
Meus companheiros também vão voltar
E a Deus do céu vamos agradecer

Caymmi foi enterrado longe da sua Bahia, no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, o cemitério das estrelas do Brasil. Estará ao lado de Carmem Miranda. Com certeza no céu já fazem, juntos, uma grande roda de samba, pois doente do pé é que não eram. Foram 94 anos por aqui. Muito pouco para um homem da grandeza artística de Dorival Caymmi, quase nada no vão da existência. Sua música está para sempre cravada na MPB, no imaginário do brasileiro, registrada em mais de 100 canções.
Espreguiça-se Caymmi, segue a imensa lua que se fazia no céu no dia que você partiu, iluminando o mar da sua poesia. Nós só temos a agradecer e aplaudi-lo. Que toquem todos os tambores dos terreiros!
Palmas para Dorival Caymmi!

Se a noite é de lua
A vontade é contar mentira
É se espreguiçar
Deitar na areia da praia
Que acaba onde a vista não pode alcançar
E assim adormece esse homem
Que nunca precisa dormir pra sonhar
Porque não há sonho mais lindo do que sua terra.
publicado por virtualia às 00:24
link | comentar | favorito
Sexta-feira, 6 de Março de 2009

MANOEL CARLOS - O PAI DAS HELENAS

 

 
Há pouco mais de trinta anos estreava como autor de telenovelas, um dos maiores nomes da teledramaturgia brasileira, Manoel Carlos. Ator, adaptador de diversos teleteatros, diretor e escritor de programas humorísticos, variedades e musicais, Manoel Carlos tornou-se novelista aos 45 anos de idade. Começou com a novela “Maria Maria”, na TV Globo, em 1978. Aos poucos, construiu uma carreira sólida e respeitada tanto pela crítica, como pelos atores, diretores e, principalmente, pelo público.
Trazendo uma linguagem centrada no perfil psicológico das personagens, Manoel Carlos é tido como o dramaturgo da alma feminina. Suas mulheres são mais ricas e interessantes do que as suas personagens masculinas. É através das mulheres que o autor imprime a sua mensagem, o universo feminino surpreende diante das emoções. À mulher é permitida a expressão de todos os sentimentos. As telenovelas de Manoel Carlos giram em torno de uma Helena (nome que o autor batiza às suas personagens centrais) e das mulheres à sua volta. Os homens no universo das Helenas são meros coadjuvantes dos caprichos delas, dos seus sonhos, da sua evolução como mulher. Inconfundivelmente um mestre que desvenda a alma feminina, Manoel Carlos é o autor preferido das atrizes, fazer uma Helena é a ambição máxima de qualquer estrela de telenovelas. Conhecer um pouco do universo de Manoel Carlos é mergulhar em uma riqueza de conteúdo cada vez mais raro de ser encontrado nas novelas brasileiras.

A Estréia nas Novelas das 18 Horas

Manoel Carlos Gonçalves de Almeida, nascido em São Paulo, em 1933, passou a maior parte da vida dedicando-se à televisão. Dirigiu, escreveu e produziu programas que fazem parte da história da televisão brasileira, como “Fantástico”, “O Fino da Bossa” e “A Família Trapo”, só para citar alguns exemplos.
Sua carreira como autor de telenovelas começou quando adaptou, em 1978, o romance “Maria Dusá”, de Lindolfo Rocha, escritor que desde o princípio do século estava em completo ostracismo. A partir da obra de Lindolfo Rocha surgiu “Maria Maria”, novela das 18 horas, protagonizada por Nívea Maria e Cláudio Cavalcanti. Ao contrário da teledramaturgia urbana que se tornaria uma característica das novelas de Manoel Carlos, “Maria Maria” era uma novela rural, centrada no sertão e no garimpo brasileiros. Nívea Maria, numa das melhores composições da sua carreira, fazia as gêmeas Maria Alves e Maria Dusá, separadas quando crianças, vendidas pelo pai por um saco de grãos durante a seca que matou de fome muitos nordestinos, em 1860. A novela tornou-se um sucesso, assumindo dimensões e diálogos que faziam lembrar o filme “... E o Vento Levou”. As palavras finais de Maria Dusá eram uma adaptação da personagem de Scarlet O’Hara. Na trilha sonora da novela foi incluída “Romaria”, na voz do seu autor, Renato Teixeira, que serviu para criar belas cenas e consolidar a canção no imaginário da MPB.
Com o sucesso de “Maria Maria”, no ar até junho de 1978, Manoel Carlos teve uma folga de pouco mais de três meses, e a sua segunda novela, “A Sucessora”, estreou em outubro daquele ano. Na época, o horário das novelas das 18 horas na TV Globo era dedicado às adaptações de obras da literatura brasileira. “A Sucessora” não fugia à regra, baseava-se no romance homônimo de Carolina Nabuco. A curiosidade a respeito deste romance, é que ele teria sido plagiado pela escritora britânica Daphné Du Maurier, dando origem ao romance “Rebecca”, que por sua vez foi adaptado para o cinema por Alfred Hitchcock, em 1940: “Rebecca, a Mulher Inesquecível”. Apesar de conservar os nomes das personagens do livro de Carolina Nabuco, a adaptação da novela é toda feita em cima do romance “Rebecca” e do filme de Hitchcock. O resultado foi uma das melhores novelas do horário das 18 horas da TV Globo. A história de Marina Steen (Suzana Vieira) e a sua luta psicológica para conquistar o marido Roberto Steen (Rubens de Falco), apagando a memória da mulher morta, empolgou o Brasil. “A Sucessora” consolidava o estilo de Manoel Carlos. Marina Steen lutava com uma morta, Alice Steen, personagem que só aparecia na novela através de um imenso quadro na parede. Quanto mais a sucessora da mulher do quadro parecia absurda, mais ela era verdadeira e a única a desafiar o absurdo. Suzana Vieira cita a personagem desta novela como uma das melhores que ela já fez. “A Sucessora” transformou Paulo Figueiredo, que conquistou o Brasil vivendo o carrancudo Miguel, em galã da Globo. Ao viver a governanta Juliana, Nathália Timberg despertou ódio e comoção. Era uma vilã com características humanas, típica da obra de Manoel Carlos. Suspense romântico e psicológico, digno dos filmes de Hitchcock, “A Sucessora” foi uma das mais bem-sucedidas novelas da história da teledramaturgia brasileira.

O Salto Para o Horário Nobre

Depois do sucesso de “A Sucessora”, Manoel Carlos só voltaria a escrever novelas em 1980, quando foi convidado por Gilberto Braga para ajudá-lo a terminar a novela “Água Viva”. Antes Manoel Carlos fez parte da equipe de criação do seriado “Malu Mulher”, para o qual escreveu alguns episódios, acontecendo o primeiro encontro do autor com a atriz que mais interpretaria as suas Helenas, Regina Duarte.
Em 1981 a Rede Globo, que teve Janete Clair no ar no horário nobre por dez anos consecutivos, começava a dar maior fôlego à autora, buscando novos autores para o horário mais importante da emissora. Manoel Carlos estreava uma história totalmente sua em horário nobre: “Baila Comigo”. O nome da novela foi um jogo de marketing da emissora e da sua gravadora Som Livre, para promover o disco de Rita Lee. Recorrendo ao folhetim tradicional, novamente a história dos gêmeos separados ao nascer, desta vez João Victor e Quinzinho (Tony Ramos), filhos gêmeos de Helena (Lílian Lemmertz) e de uma aventura com o seu patrão Quim (Raul Cortez), casado com Marta (Tereza Raquel), que não podia ter filhos. Quim fica com João Victor, criando-o com a mulher, e Quinzinho com Helena, que se casa com Plínio (Fernando Torres). Ao contrário do que se propunha, a história fugia do melodrama, trazendo personagens ricos e de forte presença psicológica. “Baila Comigo” trazia a primeira Helena de Manoel Carlos, trabalho primoroso da saudosa Lílian Lemmertz, que concorreu com esta personagem, a todos os prêmios daquele ano, alcançando na sua estréia na Globo, o apogeu de popularidade da sua carreira. A personagem Helena era para ser vivida pela atriz Fernanda Montenegro, há muitos anos afastada da televisão, mas a produção decidiu escalar Lílian Lemmertz para viver o papel. Diante do imprevisto, Manoel Carlos criou outra personagem para Fernanda Montenegro viver, o da atriz Silvia. Três cenas antológicas de “Baila Comigo” entraram para a história das telenovelas: a de Helena e Plínio, já velhos, indo ao motel, descobrindo as faces do sexo na maturidade; a cena do corno magnífico Mauro (Otávio Augusto), que cansado das traições da mulher Paula (Suzana Vieira), num gesto de vingança suicida, atira um monomotor sobre amante da mulher Caio (Carlos Zara). A cena foi feita ao som da voz de Cauby Peixoto cantando “Loucura”, que se tornaria um grande sucesso nas rádios. E por fim, a cena do encontro dos gêmeos, que valeu a Tony Ramos todos os elogios e reconhecimentos da crítica e do público. “Baila Comigo” foi o maior sucesso da televisão em 1981. Historicamente marcou pelo surgimento da primeira Helena de Manoel Carlos. Pelo encontro do autor com Tony Ramos, que se tornaria por muitos anos, o ator predileto dele. Primeira aparição em novelas do autor da atriz Beatriz Lyra, que se tornaria uma presença obrigatória em quase todas as suas obras; além da atriz Natália do Valle, que passaria a ser uma presença constante na obra de Manoel Carlos.
Após o grande sucesso de “Baila Comigo”, Manoel Carlos escreveria outra história para o horário nobre, “Sol de Verão”, que estreou no final de 1982, obtendo de imediato, um grande sucesso. Desta vez o protagonista de Manoel Carlos não é o galã perfeito das telenovelas, mas um surdo-mudo, Abel (Tony Ramos). A personagem central é Rachel, que marcaria a estréia de Irene Ravache na TV Globo. Rachel quebra os tabus e preconceitos criados em torno do mito da mulher e, de maneira livre e consciente, arrisca a ser feliz. Mulher de classe média alta, ela deixa o marido Virgílio (Cecil Thiré) e o suposto casamento perfeito. Na procura de um sentido para si mesma, ela se envolve com o rude mecânico Heitor (Jardel Filho). O romance de Heitor e Rachel agrada o grande público. Também o de Abel e Clara, aqui uma adolescente Débora Bloch vivendo a sua primeira protagonista. O sucesso imenso da novela foi interrompido por uma tragédia: a morte do ator Jardel Filho, em 19 de fevereiro de 1983. O ator sofreu um ataque cardíaco fulminante, nas gravações dos capítulos que precederam à sua morte, ele se queixava de imensa fadiga, transpirava muito, o que dificultava a maquiagem para esconder esta transpiração. Revoltado e abalado, Manoel Carlos abandonou a novela, dizendo-se impossibilitado de terminá-la. Esta atitude provocou duras críticas, inclusive de Janete Clair, que o acusou de falta de profissionalismo. Com o afastamento de Manoel Carlos e a morte de um dos protagonistas da história, a Globo optou por sumir com a personagem, encurtando a novela. Mais 17 capítulos seriam escritos por Lauro César Muniz, com a colaboração de Gianfrancesco Guarnieri e Paulo Figueiredo, atores que participavam da trama. O que começara com um grande sucesso, terminara em um fracasso trágico, o público desistiu de “Sol de Verão”. A Globo desistiu de Manoel Carlos, que deixou a emissora, só a ela retornando nos anos 90.

Seriados e Séries na Década de 80

Longe do horário nobre, Manoel Carlos escreveu episódios do seriado “Joana”, uma produção independente do diretor Guga de Oliveira, protagonizada por Regina Duarte. O seriado era quase que um remake de “Malu Mulher”. A primeira temporada foi vendida em 1984, para a TV Manchete, e a segunda para o SBT, em 1985. No seriado o ator que interpretava o ex-marido de Joana era Umberto Magnani. Este ator é ícone na obra de Manoel Carlos, que declararia anos depois, que não escreve uma história sem ter uma personagem para o ator viver.
Ainda em 1984, Manoel Carlos escreveria para a Manchete a minissérie “Viver a Vida”, com inspiração no livro de Theodore Dreiser, “Uma Tragédia Americana”. A história obteve uma boa audiência na emissora. Trazia como protagonistas Paulo Castelli, Louise Cardoso e Claudia Magno.
Manoel Carlos voltaria a escrever novela em 1986, “Novo Amor”, desta vez para a TV Manchete. A novela teve apenas 59 capítulos, tendo como protagonista a atriz Renée de Vielmond, ladeada por Carlos Alberto, Nuno Leal Maia, Nathália Timberg, Esther Góes, Beatriz Lyra, entre outros.
Após um afastamento de três anos, Manoel Carlos escreveria uma minissérie para a TV Bandeirantes, “O Cometa”, em 1989, uma adaptação do romance “Ídolo de Cedro”, de Dirceu Borges. Aqui Manoel Carlos contou com a colaboração do filho Ricardo de Almeida, que viria a falecer anos mais tarde.

A Volta das Helenas

Quase uma década se passou, quando Manoel Carlos voltou a escrever uma telenovela para a TV Globo. Em 1991, baseado em tramas e histórias de Aníbal Machado, escreveu “Felicidade”. Voltava à emissora carioca no horário que começara em 1978, às 18 horas. Nascia a sua segunda Helena, desde então o nome foi dado a todas as suas protagonistas. Vivida por Maitê Proença, Helena é uma mulher bela, que atrai o interesse e o amor dos homens que a ladeiam, mas o seu amor por Álvaro (Tony Ramos), com quem teve uma filha no passado, continua velado, platônico, fazendo com que ela menospreze todos os pretendentes e centralize a sua vida no amor à filha Bia (Tatyane Goulart). A novela trouxe de volta o universo psicológico de Manoel Carlos, mais maduro, mais seguro. Revelou para o país a atriz Vivianne Pasmanter, que estreava na pele da neurótica Débora. Umberto Magnani e Ariclê Perez comoveram o país como os pais de Helena, desde então, Magnani nunca mais saiu de uma trama do autor.
Em 1995 Manoel Carlos criaria um delicioso folhetim, “História de Amor”. Produção delicada, marcava a estréia de Regina Duarte como protagonista de uma novela das 18 horas, e como uma Helena de Manoel Carlos. Na sinopse original Helena disputaria o amor de Carlos (José Mayer) com a filha Joice (Carla Marins), mas devido à leveza do horário de exibição da história, o autor modificou a história. A novela abordava com profundidade e extrema delicadeza a gravidez na adolescência; o câncer de mama, momento antológico vivido por Marta (Bia Nunes); a deficiência física do malgrado atleta Assunção (Nuno Leal Maia). “História de Amor” marcou a última participação em novelas da atriz Yara Cortes, que viveu a carismática Dona Olga, uma senhora de 90 anos, uma personagem sob medida para esta atriz inesquecível. Destaque ainda para os trabalhos de Eva Wilma e Cláudio Corrêa e Castro, que viveram um casal falido que emocionou o Brasil. “História de Amor” trouxe para o universo de Manoel Carlos o ator José Mayer, que se tornaria uma constante em sua obra.
Em 1997 Manoel Carlos voltaria ao horário nobre com a novela “Por Amor”. Desta vez Helena (Regina Duarte) representa o sacrifício máximo que uma mãe faz em prol da filha Eduarda (Gabriela Duarte). Mãe e filha engravidam ao mesmo tempo, dando à luz no mesmo dia. Eduarda tem uma saúde frágil e não poderá mais ser mãe, para piorar as coisas, o filho dela morre horas depois de ter nascido. Para poupar a filha de tão duro sofrimento, Helena troca, às escondidas, as crianças, tomando para si o filho morto, entregando o seu para a filha criar. A novela tocou em várias feridas de temas considerados tabus, como o alcoolismo de Orestes, criação magistral de Paulo José, seu relacionamento com a filha Sandrinha (Cecília Dassi) lembravam um Chaplin vagabundo e carismático. Homossexualismo, preconceito racial, aborto, vários foram os temas polêmicos traçados. A novela teve cenas de sensualidade e torpor com o casal Nando (Eduardo Moscovis) e Milena (Carolina Ferraz) de grande beleza e impacto, que valeu aos atores passaporte para protagonizarem o remake de “Pecado Capital”. O grande destaque foi para a personagem vilã Branca, uma das melhores criações da atriz Suzana Vieira.
Em 2000 “Laços de Família” trazia a quinta Helena de Manoel Carlos, desta vez vivida pela belíssima Vera Fischer. A personagem serviu para reabilitar de forma decisiva, a imagem da atriz, bastante atingida nos anos 90 pela droga e pelo fiasco do fim do seu casamento com o ator Felipe Camargo. O tema da disputa entre mãe e filha pelo amor do mesmo homem é finalmente explorado pelo autor. Camila (Carolina Dieckmann) apaixona-se pelo namorado da mãe, Edu (Reynaldo Gianecchini). Diante do amor da filha, Helena abre mão do namorado. “Laços de Família” registrou mais uma cena que se tornou antológica, Camila, lutando contra uma leucemia, tem o cabelo raspado, a cena comoveu o Brasil, subindo aos picos a audiência da novela. Tony Ramos criou um sofrido e sensível Miguel, ganhando alguns prêmios por esta interpretação. Destaque para a prostituta Capitu, vivida por Giovanna Antonelli. Primeiro trabalho como ator do então modelo Reynaldo Gianecchini. “Laços de Família” abordou com seriedade e delicadeza o tema da impotência masculina, através da personagem Viriato (Zé Victor Castiel). “Laços de Família” marcou a estréia da atriz Juliana Paes, trouxe de volta o ator Flávio Silvino, que sofreu um acidente no início da década de 90, que lhe afetou para sempre a fala e os movimentos, vivendo uma personagem que passou pelo mesmo drama.
Mulheres Apaixonadas”, de 2003, trouxe Christiane Torloni no papel de Helena. A atriz estava escalada para fazer a novela de Antonio Calmon, “O Beijo do Vampiro”, diante do convite de Manoel Carlos, foi liberada, sendo substituída por Claudia Raia. Christiane Torloni tinha interpretado a filha da primeira Helena (Lílian Lemmertz), em 1981. De todas as Helenas criadas até então, esta foi a menos marcante. Uma das características das Helenas de Manoel Carlos sempre foi a maternidade e os sacrifícios que elas faziam em prol dos filhos. Faltou isto à Helena de “Mulheres Apaixonadas”, o que a tornou uma personagem sem objetivos e sem o carisma das anteriores. Pela primeira vez as tramas paralelas foram tão ou mais importantes do que a trama da Helena. Grande destaque para a personagem Heloísa (Giulia Gamm), que mostrou a psicologia de mulheres que não sabem amar, dilaceradas pelo ciúme doentio. Também o drama de Rachel (Helena Ranaldi) e do seu marido Marcos (Dan Stulbach), um homem violento, deixou o telespectador sem fôlego. Nunca a violência contra a mulher foi tão visceralmente retratada como aqui. A cena que Marcos bate em Rachel com uma raquete de tênis foi de grande impacto dramático e visual. Outro drama que causou polêmica foi a dos avós que eram maltratados pela neta. Carmen Silva, então com 84 anos, e Oswaldo Louzada, com 90 anos (ambos falecidos em 2008), emocionaram o país, e a atriz Regiane Alves, intérprete da neta, tornou-se a vilã mais odiada da novela. A novela mesclou ficção e realidade, a personagem Fernanda (Vanessa Gerbelli) morria nas ruas do Rio de Janeiro vítima de bala perdida. Aproveitando o drama da personagem, a novela registrou a passeata “Brasil Sem Armas”, feita nas ruas da cidade maravilhosa em um domingo de setembro.
Em 2006 Regina Duarte viveria a sua terceira Helena, em “Páginas da Vida”. Foi a novela em que Manoel Carlos mais tratou de temas específicos, como homossexualismo, Aids, síndrome de Down, traição, sexo, enfim, foram tanto os temas, que a trama passou superficialmente por todos eles. O excesso de personagens prejudicou a evolução psicológica delas, dando a sensação de que a novela ainda não tinha começado, quando já estava no seu final. A própria Helena, que começou a novela em uma cena clássica de Manoel Carlos, traída pelo marido Greg (José Mayer), separava-se após uma grande discussão dramática, que prometia um grande papel, tornou-se decorativa, assim como a maioria das personagens que muito prometiam, como Carmem (Natália do Valle), Olívia (Ana Paula Arósio) ou Tereza (Renata Sorrah). Frustrante foi a tão aguardada volta de Sonia Braga às novelas. Sua personagem Tônia não aconteceu. Estava destinado um caso de amor entre Tônia e o patriarca Tide, personagem de Tarcísio Meira, mas uma virose deixou o ator sem voz, longe da novela por dois meses. O romance de Tônia e Tide só aconteceu na última semana de exibição da novela. Diante de tantas tramas mornas, o grande destaque da novela ficou para o folhetim tradicional, a menina pobre Telma (Grazielli Massafera) que conquista o coração do rapaz rico Jorge (Thiago Lacerda). Destaque também para Marina (Marjorie Estiano) e seu drama com o pai alcoólico (Eduardo Lago). Mas a novela foi de Nanda (Fernanda Vasconcelos) que morre na primeira fase e permanece como fantasma no resto da trama, e da sua mãe Marta (Lília Cabral), a grande e excepcional vilã da novela. “Páginas da Vida” perdeu-se nas propostas das personagens, pecou pelo excesso de tramas, tornando-se uma das novelas menos marcante de Manoel Carlos.
A dramaturgia de Manoel Carlos é voltada para a família, retratada nos bairros da zona sul do Rio de Janeiro, evidencia os seus problemas, a renovação constante dos seus valores, os tabus permanentes criados pela evolução social do ser humano, sempre centrados na figura da mulher. As tramas acontecem no cotidiano, à mesa, no café da manhã, na cozinha da casa, nos quartos, na conversa dos criados. A ação não está concentrada nos atos, mas nas palavras. Fazer uma Helena de Manoel Carlos é a realização máxima de uma atriz, que proporciona sempre grandes momentos vividos nas pequenas telas da televisão brasileira.

OBRAS

Telenovelas:

1978 – Maria Maria –TV Globo
1978/1979 – A Sucessora – TV Globo
1980 – Água Viva (colaborador de Gilberto Braga) – TV Globo
1981 – Baila Comigo – TV Globo
1982/1983 – Sol de Verão – TV Globo
1986 – Novo Amor – TV Manchete
1991/1992 – Felicidade – TV Globo
1995/1996 – História de Amor – TV Globo
1997/1998 – Por Amor – TV Globo
2000/2001 – Laços de Família – TV Globo
2003 – Mulheres Apaixonadas – TV Globo
2006/2007 – Páginas da Vida – TV Globo

Seriados:

1979/1980 – Malu Mulher (co-autor) – TV Globo
1984/1985 – Joana (co-autor) – TV Manchete, SBT

Mini-Séries:

1984 – Viver a Vida – TV Manchete
1989 – O Cometa – TV Bandeirantes
2001 – Presença de Anita – TV Globo
2009 – Maysa – TV Globo
publicado por virtualia às 14:09
link | comentar | ver comentários (2) | favorito
Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009

GAL 1969, O PSICODÉLICO

 

 

Gal, de 1969 é o mais ousado disco da carreira de Gal Costa. Em nenhum outro momento a cantora repetiu o que ouvimos neste álbum. Gal, mais conhecido como o álbum psicodélico, a começar pela capa, com um desenho típico dos vôos sem céu do fim dos anos 1960. Na contra capa aparece uma imagem desfocada da cantora, com o seu cabelo “juba de leão”, já anunciando a sua fúria. O momento é de raiva. Seus amigos e companheiros da Tropicália, Gilberto Gil e Caetano Veloso, após a prisão em dezembro de 1968, seriam libertados na quarta-feira de cinzas de 1969, sendo escoltados até Salvador, de onde partiriam em Julho para o exílio em Londres. Gal Costa ficava sozinha com a sua raiva. Da menina bossa nova de “Domingo” (álbum de lançamento da sua carreira, em 1967) não resta nada. Suas interpretações e posturas, até então intimistas e contidas, tornam-se mais agressivas. A cantora junta-se a Jards Macalé e à guitarra de Lanny Gordin, o resultado é este álbum único, com apenas nove faixas, mas que não houve outro registro igual na música brasileira.

Do Rock Psicodélico ao Grito de Protesto

O álbum começa com “Cinema Olympia“ (Caetano Veloso), onde, sem maiores rodeios, ela já nos avisa:

Não quero mais
Essas tardes mornais, normais


Na década de 60 todas as grandes cidades tinham o seu cinema Olympia (Belém, São Paulo, Rio, Salvador – talvez o cinema que Caetano se refere, seja o Olympia da Baixa dos Sapateiros, famoso por suas matinés para a burguesia local, que nos anos 1960 passava filmes de westerns dos anos 40 de Tom Mix e Buck Jones). Caetano Veloso deixou esta música em demo, com o seu exílio nunca a gravou, sendo lançado recentemente um álbum com a versão demo e com inéditas do autor numa caixa comemorativa. Ao cantar “Cinema Olympia”, a voz jovial da cantora não nos indica a leoa enfurecida que está por vir.
Tuareg” (Jorge Ben) parece nos levar para oásis e desertos orientais, mas o ano é de 1969, a guerrilha urbana está no auge, assaltos a bancos, o seqüestro do embaixador norte-americano pela resistência guerrilheira, assassínio nas ruas de São Paulo de Carlos Marighela. Os versos de Jorge Ben não soam tão ingênuos, mas provocativos:

“Pois ele é guerreiro
Ele é bandoleiro
Ele é justiceiro
Ele é mandingueiro
Ele é um tuareg”

Seria um tuareg dos desertos? Ou um guerrilheiro das ruas das cidades brasileiras? A música fez parte da trilha do filme "O Diamante Cor-de-Rosa", de Roberto Farias, 1969, com Roberto Carlos e Erasmo Carlos.
É a partir de “Cultura e Civilização” (Gilberto Gil) que começam os gritos, as mixagens sujas, o canto rascante da leoa enfurecida.

“Contanto que me deixem meu cabelo belo
Meu cabelo belo
Como a juba de um leão


Com Medo, Com Pedro” e “Objeto Sim, Objeto Não” (aqui se registra o ápice da viagem psicodélica) são as outras duas canções de Gilberto Gil que entram no álbum. Gilberto Gil deixara as canções em demo no dia que embarcou para o exílio, para que Gal Costa pudesse saber como cantá-las.
O ano de 1969 também é o ano do festival de Woodstock, que reuniria em um sítio mais de 300 mil hippies e entraria para a história. A influência de Janis Joplin no início da carreira de Gal Costa é literalmente gritante nas faixas “The Empty Boat” (Caetano Veloso) e “Pulsars e Quasars” (Capinam – Jards Macalé), esta última encerra o álbum e mostra a insatisfação da cantora com os acontecimentos políticos, que a transformam na última representante da Tropicália, a sua fúria é refletida nas distorções da guitarra ácida de Lanny Gordin, nos versos que chamam e clamam pelos amigos exilados:

O inverso, um ser mutante universal
Meu ingresso para as touradas do mal
Dos sóis, Cá e Gil me mandem notícias logo
A sós, pulsos abertos, eu volto
Sem voz, ye ye, sem voz


Há tempo para aquela que seria por muitos anos, a música mais lembrada de Jorge Ben, “País Tropical “, numa participação especial de Gilberto Gil e Caetano Veloso. Resta a pergunta, esta participação foi feita em estúdio? Provavelmente não, pois desde que saíram da prisão Gilberto Gil e Caetano Veloso foram escoltados até Salvador, até o embarque para o exílio não pisaram mais no Rio de Janeiro e nem em São Paulo. Apesar de ser uma das mais belas e contundentes interpretações de “País Tropical”, a canção explodiu não com Gal Costa e seus convidados, mas através de Wilson Simonal, sendo esta versão durante anos conhecida apenas pelo público da cantora, recuperada bem mais tarde pela MPB.
O destaque do álbum vai para “Meu Nome é Gal” (Roberto Carlos – Erasmo Carlos), a dupla maior da Jovem Guarda fazia para Wanderléa músicas românticas, ingênuas. Para Gal era diferente, refletia uma mulher contestando a sua época, mostrando o amor livre de então, não importando cor, crença ou tradição. A canção mostra uma Gal Costa libertária, com seus ruídos vocais, os agudos aqui indomáveis diante da guitarra, mudando as oitavas. A cantora encerrava o lado A do disco com esta canção, rasgando a música na metade e se apresentando:

"Meu nome é Gal, tenho 24 anos
Nasci na Barra Avenida, Bahia
Todo dia eu sonho alguém pra mim
Acredito em Deus, gosto de baile, cinema
Admiro Caetano, Gil, Roberto, Erasmo,
Macalé, Paulinho da Viola, Lanny,
Rogério Sganzerla, Jorge Ben, Rogério Duprat,
Waly, Dircinho, Nando,
E o pessoal da pesada
E se um dia eu tiver alguém com bastante amor pra me dar
Não precisa sobrenome
Pois é o amor que faz o homem
"

Ao fechar o lado A do LP, ninguém mais se esqueceria daquela que gritava “Meu Nome é Gal”.
Na época Gal Costa refletia os dois lados da sociedade brasileira: a mulher que era reverenciada por uma juventude massacrada pela ditadura, remanescentes dos ventos vindos do Maio de 1968, de Paris, que trazia cabelos e roupas exóticas, que ousava confrontar os costumes e abraçar as novas tendências do mundo, que era convidada para fazer o show de moda Stravaganza, ao lado de Raul Cortez, na Fenite, e a mulher odiada pelos conservadores, que falavam para as suas filhinhas bem-comportadas: “Se não pentear os cabelos vai virar uma juba que nem os da Gal Costa”.
Gal”, o psicodélico, é tropicalista? É. É rock? É. É o Woodstock tupiniquim? É. É hippie, jopliniano? É tudo isto e mais um pouco. É Gal. O que faz o álbum “Gal”, o psicodélico, diferente do primeiro álbum solo da cantora? O romantismo. Nele não há tempo para as músicas românticas. É tempo de sobreviver, de gritar, contestar, portanto não há espaço para as músicas românticas. É a grande diferença dos dois álbuns de 1969 de Gal Costa.
Gal” 1969 é a intervenção mais radical da carreira de Gal Costa. Mostra uma cantora ímpar e sem limitações de carreira. No distanciamento do tempo, é um álbum amado ou odiado, sem meios termos. De uma atualidade incondicional. Virou o álbum mais cult da carreira da cantora. Depois deste álbum nada mais fez sentido na Tropicália. Encerrou-se aqui!

Release do Disco – Por Caetano Veloso

Você precisa saber que Gal Costa é um dos acontecimentos mais importantes da música brasileira de hoje. Na Bahia havia a Graça e uma sala profunda, enraizada, recôncava de cachoeiras mortas, uma voz guardada apenas ali, absoluta. Gal nunca teve medo. Eu não tenho medo de saber que é difícil para o artista assumir sua própria grandeza. Ela ouviu João Gilberto mais e melhor do que ninguém. Não acredito que alguém ainda tenha medo de guitarras elétricas. WOW! Acho que o nosso trabalho não estabelece um universo para Gal que o nosso experimentalismo necessariamente desorganizado... SNIF, SNIF, tudo é perigoso, "Why Each time Superman appears at that window, Clark Kent is not at his desk?", Janis Joplin, Jackson do Pandeiro, Cool, Paulinho da Viola, a legião dos Sub- heróis. Mas Gal EXPLODIU sozinha, muito acima de tudo. João Gilberto havia se comovido com a Graça, descobrindo sua voz guardada. Ninguém pode deplorar nosso Vale-Tudo: quando Gal canta, ele vale-nada. Gal EXPLODIU sozinha. Só vale Gal.
Eu sei que é assim
Caetano Veloso

Ficha Técnica:

Gal
Philips
1969

Direção da produção: Manuel Barenbein
Arranjos e direção musical: Rogério Duprat
Técnicos: João Kibelkstis e Stélio Carlini
Estúdio: Scatena - SP
Fotos da contracapa: Freitas
Capa: Dicinho

Músicos Participantes:
Baixo, guitarra solo e guitarra base: Lanny Gordin
Bateria: Eduardo Portes de Souza e Diógenes Burani Filho
Violão: Jards Macalé
Baixo: Rodolpho Grani Júnior

Faixas:

1Cinema Olympia(Caetano Veloso),2 Tuareg(Jorge Ben),3 Cultura e civilização(Gilberto Gil),4 País tropical(Jorge Ben)Participação: Caetano Veloso / Gilberto Gil,5 Meu nome é Gal(Erasmo Carlos - Roberto Carlos),6 Com medo, com Pedro(Gilberto Gil),7 The empty boat(Caetano Veloso),8 Objeto sim, objeto não(Gilberto Gil),9 Pulsars e quasars(Capinan - Jards Macalé)

 


 

 
publicado por virtualia às 00:51
link | comentar | favorito
Sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2009

SONIA BRAGA & GAL COSTA SOB AS LENTES DE ANTONIO GUERREIRO

 

 
Nos anos setenta e oitenta, as mulheres mais bonitas do país foram fotografas pelas lentes do fotógrafo Antonio Guerreiro, o preferido de nove entre dez celebridades. Fernanda Montenegro, Leila Diniz, Vera Fischer, Lucélia Santos, Tônia Carrero, Zezé Motta, Sandra Bréa, Dina Sfat, Priscila Fantin, Betty Faria e muitas outras, nenhuma mulher famosa escapou aos olhos e à câmera do artista. Dentre tantas beldades, duas estrelas eram as musas preferidas de Antonio Guerreiro: a atriz Sonia Braga, com quem viveu um romance, e a cantora Gal Costa. Estas duas mulheres que têm vários pontos comuns entre si, como a sensualidade e a beleza quente que retrata a mulher brasileira, além das personagens para as quais Sonia Braga emprestou o corpo, e Gal Costa a voz; foram registradas no esplendor da juventude por Antonio Guerreiro.
Belíssimas, míticas, emblemáticas, Gal Costa e Sonia Braga, sob as lentes mágicas do fotógrafo, um momento etéreo de beleza e de ludismo, para sempre eternizados. As fotografias apresentadas neste artigo, com exceção da de Gal Costa e Sonia Braga juntas, são todas de Antonio Guerreiro. Façamos um zoom às musas do fotógrafo.

Sonia Braga e Gal Costa, Corpo e Voz de Grandes Personagens



A emblemática parceria que colaria para sempre o corpo de Sonia Braga à voz de Gal Costa aconteceu em 1975, quando a telenovela “Gabriela”, adaptação do romance “Gabriela, Cravo e Canela”, de Jorge Amado, foi produzida pela tevê Globo. Centenas de testes foram feitos para que se escolhesse uma atriz para viver Gabriela. No seu livro “O Circo Eletrônico”, Daniel Filho conta-nos sobre a escolha da intérprete da personagem de Jorge Amado:
Quem faria o papel título de Gabriela? Pensei em algo inusitado, afinal tínhamos uma Gabriela no imaginário do público brasileiro: Gal Costa. Ela não aceitou. ‘Sei representar não’, disse com aquela malícia baiana e olhar de Gal/Gabriela.".
Com a recusa de Gal Costa, a escolha recaiu sobre Sonia Braga. Gal Costa ficaria com a interpretação da música “Modinha Para Gabriela”, tema de abertura da novela, feita por Dorival Caymmi especialmente para ela. Todos os dias, durante a exibição da novela, o público ouvia a voz de Gal Costa, que abria os capítulos, e o sorriso sedutor de Sonia Braga, que apaixonou o Brasil.
Em 1983, o romance de Jorge Amado ganhou uma versão para o cinema. Sonia Braga voltaria a viver a personagem e Gal Costa a interpretar a trilha sonora, desta vez feita por Tom Jobim. Na ocasião do lançamento da trilha sonora do filme "Gabriela" (primeira parceria entre Tom Jobim e Gal Costa, compositor que reflete até hoje na carreira da cantora), Jorge Amado declarou:
"O corpo de Gabriela pode ser de qualquer atriz, mas a voz é de Gal Costa".
Em 1984 Jorge Amado declararia, outra vez, em entrevista para à revista Manchete:
Olhe Gal, para mim foi você que botou voz na Gabriela. Eu não botei... "
“...Mas a voz da Gabriela foi Gal quem botou, correndo na praia, cantando pra televisão.”
Gal Costa não interpretou Gabriela como atriz, mas como cantora eternizou a voz da morena com cheiro de cravo e cor de canela. A fusão Sonia Braga-Gal Costa deu-nos a imagem exata e definitiva de uma Gabriela de corpo e voz sensuais, para sempre gravado no imaginário brasileiro, nesta tão bem sucedida união entre imagem-música- literatura.

Outros Encontros de Gal Costa e Sonia Braga

"Tigresa", música de Caetano Veloso, reza a lenda, foi feita para Sonia Braga. Lenda ou fato, há versos que mostram nitidamente fatos afins à carreira da atriz: "Ela me conta que era atriz e trabalhou no Hair". "Hair" foi um musical de grande impacto, encenado em 1970, que tinha, entre outras provocações, os atores atuando completamente nus no palco. Sonia Braga fazia parte do elenco. Também os versos que diz: "íris cor de mel", evidenciam os olhos de Sonia Braga. "Tigresa”, na voz de Gal Costa , foi tema da personagem de Sonia Braga na novela “Espelho Mágico", de Lauro César Muniz, que estreou em horário nobre em junho de 1977, na tevê Globo. Novamente a associação Gal Costa/Sonia Braga foi um sucesso. A voz da cantora traduzia bem a performance da atriz, mesclando canto e interpretação como se fossem apenas uma. "Tigresa" tem na voz da Gal Costa a interpretação sensual, intimista e forte que a música exige.
Esta associação voltaria a acontecer em 1997, quando Sonia Braga viveu nas telas de cinema “Tieta do Agreste”, outra personagem mítica de Jorge Amado, e Gal Costa deu vida à voz e à luz de Tieta, interpretando a trilha sonora composta por Caetano Veloso.

Capas de Discos e Cartazes de Cinema de Antonio Guerreiro

As belezas agrestes, brasileiras, de Sonia Braga e Gal Costa, trespassam as luzes da objetiva. Vistas aos olhos de Antonio Guerreiro, o corpo toma formas mais sedutoras, a nudez é um todo da alma. Os cabelos longos das duas caem como um véu sobre a luz, que contrasta com a pele. As belezas da cantora e da atriz não sofrem as alterações dos Photoshops de hoje, contam com a maquiagem, a luz e o carisma das modelos.
A nudez estonteante de Sonia Braga mostra-nos a beleza fogosa dos seus seios, que derrubam qualquer ilusão de que a mulher nasceu para ter silicone no peito.
Também os seios e as pernas de Gal Costa nos faz caminhar por caminhos agrestes, de uma beleza selvagem, abrandada na sua voz doce de sereia.
O olhar de cada uma das modelos é um convite aos mistérios que as envolvem. Antonio Guerreiro manipula esses doces mistérios das musas, através das lentes de ludismo etéreo, ele extrai a beleza na sua forma mais perfeita, dando a certeza de que a mulher é infinita quando reveladas à luz das suas imagens.
Antonio Guerreiro fez além dos ensaios fotográficos, registros de várias capas míticas dos álbuns de Gal Costa, entre elas, a polêmica capa de “Índia”, de 1973, que trazia a cantora de seios nus, vestida de índia na contra-capa, e em close frontal vestida apenas de uma minúscula tanga. É de Antonio Guerreiro a famosa fotografia da cantora com rosas nos cabelos, do álbum “Gal Tropical”, de 1979, outra capa marcante da carreira da artista. A sofisticação de Gal Costa no auge dos seus 35 anos, é registrada com elegância pelo fotógrafo em “Aquarela do Brasil”, de 1980. Também são de Guerreiro as fotografias das capas dos álbuns: “Fantasia”, de 1981 e “Minha Voz”, de 1982.
A musa Sonia Braga foi fotografada por Antonio Guerreiro para a famosa revista masculina Status, para o calendário da Pirelli. Também foi ele quem fez os famosos cartazes dos filmes “A Dama do Lotação”, de 1978, de Neville de Almeida, e “Eu Te Amo”, de 1981, de Arnaldo Jabor, ambos estrelados pela atriz.

Antonio Guerreiro, Pequena Biografia

Antonio Guerreiro nasceu em Madrid, na Espanha. Filho de pais imigrantes portugueses, veio para o Brasil ainda criança. Saiu de Juiz de Fora, Minas Gerais, mudando-se para o Rio de Janeiro, ainda adolescente. Foi na cidade maravilhosa que começou a sua brilhante carreira. No início, depois de um estágio no “Jornal do Brasil", como colunista, foi convidado pelo fotógrafo David Zingg para trabalhar na revista Setenta, iniciando-se como profissional, em 1967.
Em 1972 foi trabalhar como fotógrafo de moda da Editora Bloch, em Paris. Quando voltou ao país, tornou-se um dos maiores fotógrafos da década de setenta no Brasil. Fotografou com arte e beleza, as celebridades do país, principalmente as mulheres. Virou o fotógrafo preferido das mulheres, que diziam, sob a lente de Antonio Guerreiro, jamais ficavam feias. Trabalhou para a revista Homem, futura Playboy, e para a Status. Nos ensaios para estas revistas, as mais desejadas mulheres foram desnudadas por sua câmera.
Foi das lentes de Antonio Guerreiro que surgiram mais de 50 capas de discos de cantores brasileiros, entre eles, Gal Costa, Simone, Maysa, Alcione, Beth Carvalho, Gonzaguinha, Baby Consuelo, Elba Ramalho, Joanna, Marina, Jorge Benjor, Nelson Gonçalves.
Tido como um bon vivant, Antonio Guerreiro ficou famoso também, pelos romances que viveu com as mais belas mulheres do Brasil, como Sonia Braga, Sandra Bréa, Silvia Bandeira, Denise Dumond, entre tantas. Todas elas passaram por sua objetiva. Sobre as mulheres e a relação com elas e com a sua câmera, ele diz:
Eu amei muitas das mulheres que fotografei, mas muitas também não foram amadas. E Isso não impediu que elas fossem bem fotografadas”.



Exposições de Antonio Guerreiro

1978 - Fotofantasia - Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro
1980 - Individual - Sheraton Lisboa - PORTUGAL
1981 - Mostra Livre de Slides - Núcleo de Fotografia Funarte RJ
1983 - Individual - GB Arte - Shopping Casino Atlantico RJ
1985 - Quadrienal de Fotografia - Museu de Arte Moderna de São Paulo
1986 - Polaroid - Imagens Instantâneas - Galeria de Fotografia Funarte RJ
1988 - Orquestra de Câmeras - Casashopping RJ
1989 - Orquestra de Câmeras ll - Casashopping RJ
1990- Coletiva de Fotógrafos do The Image Bank em SP
1991 - Shopping Rio Sul - Exposição fotográfica individual nos 4 andares em homenagem à mãe brasileira no mês de maio
1995 - Casa do Arquiteto RJ - Projeção de slides
1996 - Museu Nacional de Belas Artes - 30 anos de Olhar e Paixão - Rio de Janeiro
1997 - Diamond Mall - Belo Horizonte - 100 Portraits
1999 - Palácio das Artes - BH - 30 Anos de Olhar e Paixão
1999 - Diamond Mall - BH - Personas 99
2000 – Tropical Manaus – 30 anos de Olhar e Paixão
2000 – Tropical Manaus – Personas Manaus
2001 – Castro’s Park – Goiânia – 30 anos de Olhar e Paixão
2001 – Beco das Garrafas – Rio de Janeiro – 2001 The Stars



Premiações

1980 - Menção Honrosa da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA)
1981 - Premio Editora Abril - Melhor foto em cores do ano
1983 - Premio Editora Abril - Melhor produção fotográfica do ano



Trabalhos Publicitários

- Faet - Embratur - Dijon - Blu 4 - Hotel Nacional - Du Loren - Jeans Inega
- De Millus - Rio Sul Shopping Center - Petrobras - Raquel Presentes - Canecão
- Gazeta Mercantil - Grendene - Companhia Souza Cruz - Tavares Roupas
- Helena Rubinstein - Walita - TV Globo - Orquestra Sinfonica Brasileira - Dimpus
- Roditi Joias - Hollywood Sports Line - Pierre Cardin - Newman - Maria Bonita - Kendall do Brasil - Rio Grafica e Editora - Jornal O Globo - Jornal do Brasil
- Socila - Wella - Farmitalia Carlo Erba - Chase Manhattan Bank - De Beers - Celular e Celular



Antonio Guerreiro (em uma fotografia em preto e branco de 1972, e em outra colorida, de 2008) pode ser visto em seu site na internet. Além do site, em 2007, criou o blog fotográfico "Antonio Guerreiro - 40 Anos de Fotografia". Visitar a sua obra é sempre uma belíssima e agradável descoberta.

Site: http://www.antonioguerreiro.fot.br/
Blog: http://antonioguerreiro1.blogspot.com/
 


 

tags: ,
publicado por virtualia às 02:06
link | comentar | favorito
Domingo, 25 de Janeiro de 2009

PEDAÇOS - O ÁLBUM DE CONSOLIDAÇÃO DE SIMONE

 

 

Dentro da Música Popular Brasileira, há álbuns que se tornaram fundamentais não só pela sua qualidade musical, ou pela beleza das suas canções, mas por ter sido lançado em um determinado momento histórico do país, e as suas canções fizeram parte da trilha sonora deste momento. “Pedaços”, da cantora Simone, é um desses álbuns. Lançado no ano de 1979, teve faixas que acompanharam a construção da história que se fazia naquele momento, tanto política como social. 1979 era o ano da consolidação da abertura política dentro da ditadura militar, que culminou com a Anistia, lei promulgada naquele ano, que possibilitou à volta dos exilados políticos.
Em 1978, o Ato Institucional número 5 (AI-5), teve o seu fim decretado pelo então presidente Ernesto Geisel, em seu último ano de mandato. Com o fim do AI-5, várias canções proibidas durante a ditadura puderam, finalmente, ser gravadas e lançadas, entre elas “Cálice” (Chico Buarque – Gilberto Gil). A MPB volta a ganhar uma força de conotação política que teve durante os festivais, no fim dos anos sessenta, pré-AI-5. Assim, os álbuns lançados no fim de 1978 e no ano de 1979, já mostram esta nova vitalidade contestatória da MPB. “Chico Buarque 1978”, de Chico Buarque ou “Álibi”, de Maria Bethânia, são exemplos desta nova tendência. “Pedaços” faz parte desses álbuns. Traz Simone, uma cantora com seis anos de carreira, que apesar de muito prestigiada pelos colegas da MPB, nos primeiros anos era pouco conhecida do grande público. Simone teve a sua primeira explosão popular quando gravou “O que Será?”, de Chico Buarque, para a trilha sonora do filme “Dona Flor e os Seus Dois Maridos”. Com “Pedaços” a cantora assume lugar de destaque na MPB, rumando à ascensão meteórica de uma carreira brilhante, que só declinaria no início dos anos noventa. “Pedaços” é um dos álbuns que, a partir de 1978, transformariam a nossa MPB em vozes femininas, tendo até os dias atuais, esta característica.
 

Pedaços, o Álbum
 

Simone chegava ao ano de 1979 numa grande fase da sua carreira. Os dois últimos álbuns, “Face a Face” (1977) e “Cigarra” (1978), traziam uma consistência inequívoca ao trabalho da cantora, com canções belíssimas e bem interpretadas, além de uma boa aceitação pelo público. Um ano fértil para a MPB e fundamental para a história do Brasil, 1979 seria o ano em que Simone seria elevada definitivamente, à categoria de grande estrela da MPB. Já no início do ano, a TV Globo inseriu “Jura Secreta” (Abel Silva – Sueli Costa), faixa do álbum “Face a Face”, na abertura da novela “Memórias de Amor”. O sucesso da canção levou o grande público a querer conhecer melhor a obra da cantora. Era só o começo. Em maio, a Globo lançou o seriado “Malu Mulher”, com Regina Duarte como protagonista. Maria Bethânia, recém-elevada à categoria de estrela máxima da MPB, pelo surpreendente “Álibi”, que bateu todos os números de vendas, não aceitou gravar o tema de abertura do seriado, a canção “Começar de Novo” (Ivan Lins – Vitor Martins), feita para este fim. Simone gravou a música. O seriado foi o grande sucesso da televisão brasileira de 1979, e, conseqüentemente, “Começar de Novo” explodiu, tocando em todas as rádios e mídias da época.
O sucesso de “Começar de Novo” antecipou o lançamento do álbum “Pedaços”, um dos mais belos e consistentes álbuns da cantora Simone. “Pedaços” trazia onze faixas. Iniciava-se com “Começar de Novo”, música que virou hino da liberação feminina proposta pelo seriado “Malu Mulher”. Vista através do tempo, “Começar de Novo” chegou aos dias atuais sem muita relevância, como mais uma bela canção de amor, desgastada pelo tempo. Em 1979 a canção era um hino. “Malu Mulher” trazia no seu conteúdo não só temas tabus à época, como o divórcio, a emancipação feminina, a masturbação da mulher oi o homossexualismo, como também inaugurava uma nova linguagem para as personagens femininas no universo da teledramaturgia brasileira. “Começar de Novo”, na voz de Simone, estava imarcescivelmente ligada ao seriado e àquele momento de transformação na conduta social da mulher brasileira. O seriado originou ao mítico “Mulher 80”, especial dirigido por Daniel Filho, que foi ao ar no fim do ano de 1979, tendo a presença de grandes cantoras como Gal Costa, Elis Regina e Maria Bethânia, além de Simone, a interpretar “Começar de Novo”, a canção principal do programa, que servia para lançar em disco, a trilha sonora do seriado.
Começar de Novo” é uma das mais belas parcerias de Simone com Ivan Lins. O compositor tem no canto da Cigarra, um apogeu da sua obra. Além desta canção, “Pedaços” traz outra canção belíssima de Ivan Lins, “Saindo de Mim (Dois Gumes)" (Ivan Lins – Vitor Martins), ao contrário de “Começar de Novo”, que traz o rompimento dos sentimentos através da determinação de um dos lados, que decide sobreviver ao amor, a viver sem ele, “Saindo de Mim” é o abandono, a constatação de que o amor foi embora sorridente, sem deixar avisos, mas certo de que não mais voltaria, deixando as lembranças, a dor rasgada pela faca de dois gumes. Magnífico momento de Simone, literalmente em pedaços diante das dores do amor.
Ainda sob a pulsação das dores do amor, e das suas lembranças perenes, Simone regrava um grande sucesso do repertório de Roberto Carlos: “Outra Vez” (Isolda), a música foi lançada pelo rei em 1977. Foi o primeiro sucesso de Isolda sem a parceria do irmão Milton Carlos, morto em acidente de automóvel, no fim de 1976. A interpretação de Simone é econômica, mas sincera. Não acrescenta ao clássico, mas também não lhe causa estragos, pelo contrário. Arremata brilhantemente a proposta do álbum.
Deixando um pouco as angústias do amor, o álbum segue com um dos seus momentos mais altos: “Sob Medida” (Chico Buarque), música feita para a trilha sonora de “A República dos Assassinos”, de Miguel Faria Jr, cantada no filme pela bela e inesquecível Sandra Bréa. Fafá de Belém gravou esta música. Há versos diferentes na versão de Simone e na de Fafá de Belém, como “eu sou seu incesto", cantado apenas pela segunda. A interpretação de Fafá de Belém traz uma sensualidade lasciva que prejudica a ironia a letra. Simone consegue dar o tom vingativo da música, é a melhor interpretação que esta canção tem. A Globo aproveitou a canção para fazer parte da trilha sonora da novela “Os Gigantes” (1979/1980), o que, reza as lendas de bastidores, gerou ciúmes de Fafá de Belém, que queria exclusividade sobre a música. Para compensar a cantora paraense, a Globo fez um clipe com ela no “Fantástico”, na época da novela, em vez de fazê-lo com Simone.
Povo da Raça Brasil” (Milton Nascimento – Fernando Brant), traz uma brasilidade pulsativa, muito comum na época, quando já se via a ditadura militar em seu limiar. Uma brasilidade que Milton Nascimento perdeu com o tempo, quando deixou a musicalidade jazistica americana tomar conta da sua obra. A música retrata o povo além do litoral, cheio de tradições e esperanças. Simone, que tinha participado de um festival cubano de música em 1979, engajava-se na proposta política que a MPB de então tomou como bandeira. Mais do que um retrato político, “Povo da Raça Brasil” é um retrato do brasileiro.
Itamarandiba” (Milton Nascimento – Fernando Brant) é uma viagem solitária através das cidades mineiras com nome de pedras. A canção começa com uma versão da famosa frase de Carlos Drumond de Andrade “No meio do meu caminho sempre haverá uma pedra”. A letra segue pelas cidades das pedras: Turmalina, Diamantina, Pedra Azul, retratando o rosto da gente e da vida que as paisagens da canção nos mostra. Delicada interpretação de Simone dentro de um universo de Milton Nascimento que já não existe.
Vento Nordeste” (Sueli Costa – Abel Silva) é uma canção intimista, introspectiva, que se encaixa com perfeição no repertório bem costurado do álbum, sem lhe impregnar de melancolia. Talvez este seja o grande segredo de “Pedaços”, tocar nas feridas do amor e da existência, sem impregnar-se de melancolia.
Condenados” (Fátima Guedes), canção de uma sensualidade à flor da pele, traz uma Simone safada, sedutora, verve que ela exploraria à exaustão nos anos oitenta. Fátima Guedes tornar-se-ia uma jovem compositora muito prestigiada, tendo canções gravadas no ano seguinte por Elis Regina. Esta canção jamais foi revisitada, é uma das mais belas da sua autora. Simone deixa aqui, os males do amor, para deliciar-se nos seus prazeres, na sua beleza, sem medo de ser censurada.
Cordilheira” (Sueli Costa – Paulo César Pinheiro), é o grande momento do disco. Música de um impacto poético poucas vezes revelado na MPB, a sua inclusão no álbum é resultado do fim do AI-5, pois ela esteve anos proibida pela censura da ditadura militar. A canção foi tocada pelas FMs da época, mas não atingiu as AMs, que eram as rádios mais populares.

“Eu quero ver a procissão dos suicidas, caminhando para a morte pelo bem de nossas vidas
Eu quero crer na solução dos evangelhos, obrigando os nossos moços ao poder dos nossos velhos
Eu quero ler o coração dos comandantes, condenando os seus soldados pela orgia dos farsantes


Com os seus versos pungentes, refletindo uma rebeldia latente, “Cordilheira” retratava a juventude que conquistara a Anistia e estava pronta para derrubar definitivamente, a ditadura militar. É um hino cáustico, de uma beleza quase cruel.
Tô Voltando” (Maurício Tapajós – Paulo César Pinheiro), agradável samba, foi outra canção que fez parte da trilha sonora da história do Brasil da época. Com a consolidação da anistia, tornou-se o hino dos anistiados:

"Pode ir armando o coreto
E preparando aquele feijão preto
Eu tô voltando
Põe meia dúzia de Brahma pra gelar
Muda a roupa de cama
Eu tô voltando"

Permeada de símbolos nacionais, como o feijão preto, o defumador, a marca da cerveja, a canção caía como uma luva aos sofridos exilados, que obrigados pela ditadura, estavam espalhados pelo mundo. Curiosamente, com o tempo, esta canção, hino da anistia, foi esquecida, preterida à “O Bêbedo e a Equilibrista” (João Bosco – Aldir Blanc), graças à grande popularidade de Betinho (o irmão do Henfil da canção) e à morte de Elis Regina.
Pedaço de Mim” (Chico Buarque), canção que deu nome ao disco, escolhida para encerrá-lo, é o momento mais frágil do álbum. Esta mesma canção, no mesmo ano, além do álbum de Simone, deu título ao álbum de Zizi Possi “Pedaço de Mim”. Canção da peça “A Ópera do Malandro”, feita para ser cantada em dueto, tem, em 1979, as interpretações solitárias de Zizi Possi e Simone. A primeira dá uma interpretação lírica à canção, de uma beleza ímpar. Simone optou por uma interpretação dramática, ao som de sinos e de um órgão, dá a sensação de estarmos em uma igreja, a assistir a um funeral do amor. Torna-se pungente. É o único momento de pouco brilho de “Pedaços”.
Pedaços” deu origem ao famoso show que Simone estrearia no Canecão, no fim de 1979. O show seria registrado no álbum “Simone Ao Vivo” (1980). Além de grande parte das canções citadas, no show Simone ressuscitou um velho sucesso proibido pela ditadura militar: “Pra Não Dizer que Não Falei das Flores” (Geraldo Vandré). No seio da ditadura, a abertura política estava consolidada, já não tinha volta. A MPB tornar-se-ia a porta-voz da abertura. A carreira de Simone estava consolidada. Com “Pedaços” nascia a superestrela Simone, que depois de “Pedaços”, trocou o pingo do i do nome por uma estrela.

Ficha Técnica:

Pedaços
Emi-Odeon
1979

Direção de produção: Renato Corrêa
Foto: Fernando Carvalho
Capa: Noguchi
Produtor Fonográfico: EMI-ODEON
Arranjos e Regências: Nelson Ayres e Gilson Peranzzetta
Guitarra: Alemão (Olmir Stocker)
Percussão: Chico Batera
Piano: Gilson Peranzzetta
Baixo Elétrico: Ivani Sabino
Violinos: Pareshi (Spala), Vidal, Walter Hack, Carlos Eduardo Hack, Lana, Francisco Perrotta, Piersanti, Luiz Carlos, Astrogildo, Marcelo Pompeu, Wilson Teodoro, Virgílio Arraes
Violas: Penteado, Nelson Macedo, Stephany, Nathércia
Cellos: Watson, Alceu de Almeida Reis, Iura, Bariola

Faixas:

1 Começar de Novo
(Ivan Lins-Vitor Martins)
2 Sob Medida
(Chico Buarque)
3 Povo da Raça Brasil
(Milton Nascimento - Fernando Brant)
4 Condenados
(Fátima Guedes)
5 Cordilheira
(Sueli Costa - Paulo César Pinheiro)
6 Outra Vez
(Isolda)
7 Vento Nordeste
(Sueli Costa - Abel Silva)
8 Saindo de Mim (Dois Gumes)
(Ivan Lins - Vítor Martins)
9 Tô Voltando
(Maurício Tapajós - Paulo César Pinheiro)
10 Itamarandiba
(Milton Nascimento - Fernando Brant)
11 Pedaço de Mim
(Chico Buarque)

 
 

 
 
 
publicado por virtualia às 04:36
link | comentar | favorito
Quarta-feira, 14 de Janeiro de 2009

LENDAS INDÍGENAS

 

 


Todas as civilizações que se espalharam pela Terra, fossem elas mais avançadas ou primitivas, tinham a necessidade de explicar as suas origens, explicar os ciclos da vida do homem, como o nascimento, o viver e a morte. Através das religiões, os homens encontravam sentido na natureza e nos seus fenômenos, associando-as às suas necessidades. Misticamente podiam explicar as estrelas no céu, as árvores, os bichos, os alimentos. Quanto mais primitiva a civilização, mais frágil era a sua sobrevivência, os seus costumes, as suas religiões.
Nas terras novas descobertas pelos europeus, que formavam o imenso continente americano, várias foram as civilizações indígenas encontradas por eles. Civilizações de religiões primitivas, que através da força bruta e da catequização européia, viram as suas crenças perseguidas, dilaceradas e transformadas em lendas.
Das antigas civilizações indígenas brasileiras, várias tradições traduziram-se em belíssimas lendas que nos ficaram. Três dessas lendas serão contadas aqui:
Cobra Norato”, vinda dos povos catequizados das margens do grande rio Amazonas, já é uma lenda do caboclo filho do índio. Os jesuítas, na tentativa de alertar os índios sobre os pecados do cristianismo, incutiam-lhes os medos medievais, como a cobra que engolia os índios, e o perigo dos filhos do pecado das mulheres, que se deitavam com homens e com eles não eram casadas, os seus filhos seriam amaldiçoados e transformados em cobras.
A Criação do Mundo”, uma lenda que é o gênesis dos índios Carajás, habitantes do centro-oeste do Brasil. Nesta lenda temos a origem do dia sobre a noite eterna.
A Gruta dos Amores”, velha lenda dos índios Tamoios, habitantes das ilhas da Baía de Guanabara, índios que durante a colonização européia, chegaram a apoiar os franceses e a lutar contra os portugueses. É deles a lenda da gruta dos amores, em Paquetá.
Tão belas quanto as lendas européias, as lendas indígenas trazem uma epopéia singela dos primeiros habitantes das terras brasileiras.

A Criação do Mundo

Os índios Carajás, no princípio do mundo, viviam dentro do furo das pedras. Não conheciam a Terra. Eram felizes e tinham a eternidade, vivendo até avançada velhice, só morrendo quando ficavam cansados de viver.
Um dia, os Carajás decidiram abandonar o furo das pedras, na esperança de descobrir os mistérios da Terra. Apenas um deles, por ser muito gordo, não conseguiu passar pelo furo da pedra, ficando nele entalado.
Na Terra, que trazia uma escuridão sem fim, os índios percorreram todos os lugares. Descobriram frutos e comidas. Compadecidos do companheiro que ficara entalado no furo da pedra, levaram-lhe os mais saborosos frutos e um galho seco. Ao ver aquele galho seco, o índio entalado observou:
O lugar por onde vocês andam não é bom. As coisas envelhecem e morrem. Veja este galho, envelheceu. Não quero ir para um lugar onde tudo envelhece. Vou voltar. E vocês deviam fazer o mesmo!
E robusto carajá voltou para dentro da pedra. Os outros continuaram a percorrer a Terra, que se encontrava nas trevas. Um menino carajá, junto com a amada, percorria a Terra em busca de alimentos. Como não havia luz, a amada sangrou as mãos nos espinhos, quando colhia frutos. O menino, na escuridão, comeu mandioca brava. Envenenado pela raiz, o menino carajá deitou-se de costas, a passar mal. Vários urubus começaram a andar em volta do seu corpo. Um dos urubus disse:
“Ele não está morto, ainda move o corpo.”
Outro urubu replicou:
Não, ele está morto.”
Todos os urubus opinavam, uns achavam que o menino estava morto, outros achavam que não. Para que a dúvida fosse esclarecida, foi chamado o urubu-rei, com o seu bico vermelho e penugem rala na cabeça. Considerado o mais sábio dos urubus, a ave imponente declarou:
Ele está morto.”
E foi pousar na barriga do menino. Inesperadamente, o menino carajá, que se fingia de morto, pegou o urubu-rei pelas pernas e o prendeu nas mãos. A ave esperneou, debateu-se, mas não se libertou das mãos do menino.
Quero os mais belos enfeites.” Disse o menino ao urubu-rei.
A ave, para ser libertada, trouxe as estrelas no céu como enfeites aos olhos do menino. As estrelas eram belas, mas o mundo continuava escuro.
Quero outro enfeite.
O urubu-rei trouxe a lua. E a Terra continuava escura.
Ainda é noite. Quero outro enfeite, este também não serve.”
Então o urubu-rei trouxe o sol. E o mundo ficou cheio de luz.
O urubu-rei ensinou ao pequeno índio a utilidade de todas as coisas do mundo. Feliz, o menino soltou a sábia ave. Só então o carajá se lembrou de perguntar ao urubu-rei o segredo da juventude eterna. No alto do céu, a ave contou-lhe aquele segredo, mas voava tão alto, que todos ouviram a resposta, as árvores, os animais, menos o menino. E por não ter ouvido o urubu-rei, todos os homens envelhecem e morrem.

Cobra Norato

A bela e fogosa cabocla, escondera por nove meses, o resultado do mau passo que dera durante as festas de Santo Antônio, ao pular a fogueira ao lado de um caboclo viril. Nove meses depois, acompanhada pela mãe índia, indo beber água no rio Amazonas, a cabocla sentiu fortes dores no ventre. Minutos depois, deu à luz a um casal de gêmeos. Tão logo os gêmeos choraram, a cabocla viu a prole transformar-se em duas cobras. Era o preço do seu pecado, gerar dois filhos encantados.
Arrependida do mau passo, a cabocla entregou os filhos à velha índia, que por sua vez, os foi entregar ao pajé, para que os matasse. O pajé sabia do encantamento dos filhos da cabocla. Não os matou, jogou as duas cobras nas águas do Amazonas, para que o grande rio os criasse.
No rio, Honorato e Maria Canina foram criados. Nas noites de luar pleno, os irmãos deixavam a pele de cobra e percorriam as festas dos homens, transformados ele em um belo homem, ela numa mulher feia e má. Honorato era de boa índole, Maria Caninana lançava a discórdia e o veneno aos homens. De tão má, um dia foi morta por pescadores, fazendo da sua pele de cobra belos cintos.
Nos bailes, Honorato roubava o coração das mulheres, tamanha a sua formosura e carisma de sedutor. Antes de o sol raiar, voltava para o rio, transformando-se na tal terrível cobra Norato.
Ao ver o sofrimento de Honorato, um dia o pajé revelou-lhe o segredo do seu desencantamento: somente um homem de coragem arrojada poderia fazê-lo, lançando gotas de leite na boca da cobra, dando-lhe, a seguir, um corte na cauda, para que o sangue amaldiçoado escorresse e o encantamento fosse desfeito.
Diante de tão horrendo e gigantesco monstro, não havia um homem à beira do Amazonas que ousasse desencantar Honorato.
Uma noite, o jovem encantando falou da sua desgraça a um valente soldado. Enternecido pela triste sina do jovem, o soldado prometeu livrar-lhe para sempre da maldição. Esteve com ele até o sol nascer, quando o viu transformar-se no mais feio e terrível monstro. O soldado encheu-se de coragem, abriu a boca da imensa cobra, que, já pronta para devorá-lo, sentiu as gotas de leite por ele lançadas em sua garganta. Antes que o animal cuspisse o leite, o soldado, empunhado de um sabre, abriu-lhe um corte na cauda. Tão logo o sangue molhou as águas do rio Amazonas, da pele fria da cobra, surgiu o belo e jovial Honorato.
Findava-se a Cobra Norato, que tanto causara medo e terror aos índios e caboclos que viviam às margens do grande rio Amazonas. Seguiu Honorato, belo e encantador, eternamente grato à coragem do soldado que o libertara. Desencantando para sempre.

A Gruta dos Amores

Itanhantã era um belo e forte índio tamoio, que provia o seu povo com a caça e a pesca que trazia para ele. Itanhantã remava, todos os dias, a sua canoa rumo à ilha de Paquetá. Na ilha caçava os mais perigosos animais, que tombavam diante das suas flechas certeiras.
Em Paquetá vivia Poranga, uma bela índia, que no esplendor dos seus quinze anos, encheu-se de amor pelo viril caçador. Apaixonada, a índia ajudava o amado, indo buscar-lhe a caça abatida. Olhava-o com ternura, falava-lhe com doçura, mas o valente caçador não lhe via os sentimentos, não se comovia com o amor e dedicação da índia.
Todos os dias, depois de caçar intensamente, Itanhantã repousava o corpo na sombra de uma gruta, adormecendo, até recuperar as forças. A pobre índia apaixonada, velava do alto da pedra que formava a gruta, o sono repousante do amado. Chorava as mais tristes lágrimas do amor não correspondido, que corriam pela pedra. Enquanto chorava, ou esperava pela vinda do amado, Poranga entoava o mais belo canto de amor, que ecoava por toda Paquetá.
O tempo passou, as lágrimas e o canto da bela índia não enterneceram o coração de Itanhantã, que continuava a caçar e repousar em Paquetá. Tantas foram as lágrimas de Poranga, que elas abriram a pedra da gruta, transpassando-a, vindo um dia, a cair sobre o rosto do tamoio. Assustado com aquela água que lhe molhou os olhos, Itanhantã fugiu da gruta, vindo a encontrar Poranga no caminho. Diante dos olhos lavados pela água da gruta, Itanhantã descobriu no rosto da índia a mais perene beleza, e no seu olhar, o amor eterno. Apaixonado, Itanhantã tomou Poranga nos seus braços e a beijou. Depois levou a índia na sua canoa, tomando-a como esposa, sendo felizes para sempre.
As lágrimas de Poranga transformaram-se na fonte da água que existe na Gruta dos Amores, em Paquetá. Até os dias de hoje, em Paquetá, quem beber da água da Gruta dos Amores ao lado da pessoa amada, terá o seu amor para sempre.


Ilustrações: José Lanzellotti
Adaptação livre de Jeocaz Lee-Meddi para textos de Brasil, Histórias, Costumes e Lendas
publicado por virtualia às 01:42
link | comentar | ver comentários (3) | favorito
Terça-feira, 30 de Dezembro de 2008

GAL COSTA 1969, O ÁLBUM QUE FECHOU 1968

 

 

Caetano Veloso e Gal Costa lançaram em 1967, o álbum “Domingo”, iniciando assim, duas das mais belas carreiras da história da MPB. Álbum delicado, de canções intimistas, de uma poesia que lembrava a Bossa Nova. “Domingo” não acenava para a explosão que viria pouco tempo depois do seu lançamento, quando os cantores mergulharam nas águas turbulentas da Tropicália.
1968 foi o ano do lançamento do primeiro álbum a solo de Caetano Veloso, mas o primeiro disco solo de Gal Costa só iria sair em 1969, devido às agitações políticas e sociais que assolaram o país naquele ano, envolvendo os tropicalistas na roda viva e na ventania histórica que se vivia intensamente. O álbum Gal Costa, que trazia o esplendor da Tropicália, foi todo produzido e feito em 1968, o atraso em seu lançamento, em 1969, oxigenou o movimento tropicalista, estrangulado pela prisão de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Este primeiro álbum solo da carreira de Gal Costa transformou-a em uma solitária musa do tropicalismo, cantando para os seus mestres, exilados ou calados pela ditadura militar. A diva Gal Costa nascia para o Brasil, perpetuando-se até os dias atuais.

Divino Maravilhoso, o Programa dos Tropicalistas

A apresentação de Gal Costa no IV Festival da Record, no dia 14 de novembro de 1968, foi o momento de ruptura total da sua imagem até então comportada, sempre de cabelos curtos e de estirpe bossa nova. A cantora surgiu nos palcos do festival vestindo roupas de hippie, cabelos black power e a ousar a soltar os agudos em gritos de protestos. Gal Costa defendeu a música "Divino, Maravilhoso" (Caetano Veloso - Gilberto Gil), que ficou em 3º lugar no festival, a vencedora foi "São Paulo Meu Amor", de Tom Zé, também ele um tropicalista.
1968 foi o ano dos maiores festivais da música brasileira, que se tornara porta-voz de uma juventude engajada politicamente, querendo derrubar a ditadura militar instaurada no país em 1964. As manifestações estudantis em Paris, em maio, a Primavera de Praga (movimento contra o socialismo soviético na Tchecoslováquia), a prisão dos estudantes da UNE em Ibiúna, todos estes acontecimentos refletiram no festival que Gal Costa cantou “Divino, Maravilhoso”.
Divino Maravilhoso” tornou-se o nome de um programa semanal de televisão da extinta Tupi, dirigido por Fernando Faro e Antonio Abujamra. Apresentado por Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa, o programa foi ao ar de outubro a dezembro de 1968. Um programa totalmente anárquico, com cenas antológicas de Caetano Veloso preso em uma jaula comendo bananas ou plantando bananeira. “Divino Maravilhoso” apresentou nomes de cantores então debutantes no cenário brasileiro, como Jorge Ben, Jards Macalé.
No dia 13 de dezembro, o governo militar decretou o Ato Institucional 5 (AI-5), que dava direito a dissolver o congresso, prender sem hábeas corpus, cassar mandatos e impor a censura, entre outras tragédias. Com o AI-5 a ditadura endureceu ainda mais. Na antevéspera do natal “Divino Maravilhoso” foi ao ar pela última vez, mostrando um provocante Caetano Veloso a cantar “Noite Feliz” com uma arma apontada na cabeça. A apresentação irritou aos militares e à família conservadora que sustentava o regime militar, após tirar o programa do ar, a polícia repressiva do governo prendeu, no dia 27 de dezembro, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Os cantores só seriam libertados na quarta-feira de cinzas de 1969, quando são escoltados pela polícia até Salvador, de onde partem para o exílio em Londres. Termina o tropicalismo.
Para não comprometer os apresentadores, as fitas do programa são totalmente destruídas por seus diretores, ficando apenas registrado na memória de quem o assistiu na época. “Divino Maravilhoso” era uma resposta aos bem comportados programas da TV Excelsior: “O Fino da Bossa”, comandado por Elis Regina e Jair Rodrigues, que foi ao ar de 1965 a 1967, e “Jovem Guarda”, comandado por Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa, de 1965 a 1969. Com “Divino Maravilhoso” o Brasil assistiu à ascensão e à queda do Tropicalismo.

Gal Costa 1969, a Tropicália Pós-1968

Apesar de ter sido lançado em 1969 com o nome de “Gal Costa”, este álbum deve tomar como referência o ano de 1968, pois sua gravação e o seu repertório só poderiam ter acontecido naquele tumultuado ano.
1968 trouxe a Tropicália para o cenário musical. Um movimento que mudou a estética bem-comportada da nossa MPB, sendo uma alternativa à Jovem Guarda e à Bossa-Nova, mesclando as duas e o que havia de mais antigo e de mais novo na nossa MPB. O movimento repercute na era dos festivais, levando uma juventude militante contra a ditadura ao delírio. Caetano Veloso romperia com esta esquerda militante ao apresentar "É Proibido Proibir", no teatro TUCA, no meio de uma grande vaia, urros e protestos ele é impedido de cantar e faz um discurso histórico, definitivo, rompendo de vez com a chamada "caretice" da juventude engajada que queria tomar o poder.
O álbum de Gal Costa foi gravado meses antes de ser lançado, pois o clima de insegurança provocado em 1968 adiou esse lançamento. A cantora havia mudado os cabelos curtos, trocou os vestidos tubinhos bem comportados por plumas e um visual hippie. Deixou os agudos tomar conta da voz intimista.
Ainda em 1968 participou do lançamento do álbum manifesto "Tropicália ou Panis et Circenses", nome tirado de uma tela de Hélio Oiticica, ao lado de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Os Mutantes e Nara Leão, participando de três faixas, entre elas a mítica "Baby".
O álbum “Gal Costa”, lançado em 1969, trazia em seu repertório toda a essência da Tropicália, agonizante naquele momento. Inesperadamente o álbum venderia mais de 100 mil cópias, um grande feito para a época, transformando Gal Costa na única representante da Tropicália. A direção musical do disco é de Rogério Duprat.
O álbum traz a mesma versão gravada no "Tropicália Panis Et Circenses" da canção urbana "Baby" (Caetano Veloso), com a participação de Caetano Veloso, tornando-se a canção mais tocada do disco, revelando a jovem cantora para todo o Brasil, transformando-se no seu primeiro grande sucesso. "Baby" tinha sido feita para Maria Bethânia, que não quis gravá-la. “Baby” fez parte da trilha do filme "Copacabana me Engana", de Antonio Carlos Fontoura.
No álbum, Caetano Veloso participa ainda da balançada e doce "Que Pena - Ela Já Não gosta Mais de Mim" (Jorge Ben), dueto eloqüente, que nada lembra o encontro intimista da dupla nas faixas de “Domingo”.
Também Gilberto Gil participa em duas faixas: no alegre e provocante xaxado "Sebastiana" (Rosil Cavalcanti), e na adolescente "Namorinho de Portão" (Tom Zé), canção regravada pelo Pato Fu que de tão atual, poderia ser tema da novela adolescente “Malhação”.
Gal Costa grava duas canções da dupla que se tornara fundamental nos bastidores da MPB, Roberto Carlos e Erasmo Carlos: o roque "Se Você Pensa" e a reflexiva "Vou Recomeçar", que estrategicamente terminava o lado A e começava o lado B do LP, respectivamente.
Um dos pontos altos do álbum é "Não Identificado" (Caetano Veloso), numa época em que o homem estava preste a descer na Lua, uma bela canção na voz de Gal Costa, confirmando aqui o título de maior intérprete de Caetano Veloso. Momento sublime da cantora "caetaneando".
Na Tropicália há espaço para o protesto, a palavra de ordem, como na provocante "Divino, Maravilhoso" (Gilberto Gil - Caetano Veloso), que por si só daria teses de discussão e, ao mesmo tempo, para canções cantadas em inglês como a pré Flower e Power "Lost in The Paradise" (Caetano Veloso).
Um ícone do álbum é a bossa-tropical "Saudosismo" (Caetano Veloso), que Gal Costa canta com a voz de uma musa da Bossa Nova. Aqui há alusões a várias músicas da Bossa Nova: "Eu, você, nós dois", verso que alude ao começo de "Fotografia" (Tom Jobim). Os refrões da canção são referências explícitas aos sucessos da Bossa-Nova ("Lobo Bobo", "A Felicidade"), e João Gilberto girava na vitrola, mas a voz era da embriagante Gal Costa.
Uma das mais belas canções do álbum é a urbana "A Coisa Mais Linda Que Existe" (Gilberto Gil - Torquato Neto), uma viagem romântica pela cidade de uma juventude que fazia "...festa e comício" numa época que o grito era encerrado pelo Ato Institucional 5 (AI-5), deixando a Tropicália agonizante.
"Gal Costa", de 1969, é a Tropicália que ressurge das cinzas com, segundo Eduardo Logullo: "canções de temáticas urbanas, doces reflexões anarquistas, constatações, citações, provocações, balanço.."
Como era preciso ter atenção, tudo era perigoso, já nada era tão divino ou maravilhoso. Os iconoclastas Gilberto Gil e Caetano Veloso deixavam o Brasil. Sem os amigos, Gal Costa ficava solitária na representação da Tropicália, e encerrava o mais tropicalista de seus álbuns com a confiante e espiritualista "Deus é o Amor" (Jorge Ben):

“Todo mundo vai embora
Mas a chuva não quer parar
Ninguém mais quer ficar
Só eu, sozinho, vou me molhar
Mas eu tenho fé que a chuva há de passar
E aquele sol tão puro
De manhãzinha bem quentinho há de chegar
E os passarinhos vão cantar
Pois a alegria vai voltar
E todo mundo que foi embora vai voltar
Agradecendo a Deus todo mundo vai rezar e cantar
Deus é a vida, a luz e a verdade
Deus é o amor, a confiança e a felicidade
Deus é a vida, a luz e a verdade
Deus é o amor, a confiança e a felicidade."

Ficha Técnica:

Gal Costa
Philips
1969

Direção musical: Rogério Duprat
Estúdios: Scatena e Reunidos
Arranjos: Rogério Duprat, Gilberto Gil e Lanny
Layout: Gian
Direção de produção: Manuel Barenbein

 
Faixas:

1 Não identificado (Caetano Veloso), 2 Sebastiana (Rosil Cavalcanti) Participação: Gilberto Gil, 3 Lost in the paradise (Caetano Veloso), 4 Namorinho de portão (Tom Zé) Participação: Gilberto Gil, 5 Saudosismo (Caetano Veloso), 6 Se você pensa (Erasmo Carlos - Roberto Carlos), 7 Vou recomeçar (Erasmo Carlos - Roberto Carlos), 8 Divino, maravilhoso (Caetano Veloso - Gilberto Gil), 9 Que pena (Jorge Ben) Participação: Caetano Veloso, 10 Baby (Caetano Veloso) Participação: Caetano Veloso, 11 A coisa mais linda que existe (Gilberto Gil - Torquato Neto), 12 Deus é o amor (Jorge Ben)
publicado por virtualia às 19:28
link | comentar | ver comentários (1) | favorito
Terça-feira, 23 de Dezembro de 2008

OS DEUSES DO OLIMPO

 

 

Com a cristianização do mundo grego, os seus deuses idealizados, por trazerem características por demais humanas (ódio, cólera, amor, alegria...), deixaram de ser venerados como divindades e tornaram-se mitos. A palavra mitologia (do grego mythos, significando fábula, e logos, tratado), designa o conjunto de fábulas e lendas que determinado povo imaginou e o estudo dos mesmos. Enquanto religião, os deuses gregos conciliavam o homem com a natureza, explicando princípios básicos da vida, como nascer, viver e morrer, sem criar vínculos do homem à divindade, sem codificações da deidade em um Livro Sagrado. Os deuses gregos isentam aquele povo dos conceitos do que é sacro e do que é pecado. Os deuses espelham os homens, com todas as suas qualidades e defeitos, tendo apenas na imortalidade a superioridade a eles.

As Gerações do Poder dos Deuses

No princípio, do misterioso Caos emanaram todas as formas materiais da vida. Dele emergiu Gaia, a mãe Terra, que sozinha gerou Urano (Céu). Gaia une-se a Urano, que a fecunda constantemente, e deles nascem os Titãs, os Ciclopes, monstros de um só olho, e os Hecatônquiros, gigantes de cem braços e cinqüenta cabeças. Urano reina ao lado dos doze filhos titãs, mas não suporta ver a face horrenda dos outros filhos, os ciclopes e os hecatônquiros, aprisionando-s no interior da Terra. Presos sem ver à luz, os filhos de Gaia e de Urano são responsáveis pela força indomável da natureza, causadores das desordens e cataclismos, como os vulcões, os terremotos, as tempestades e os furacões. A primeira geração de deuses governada por Urano e por sua mulher Gaia, personifica a força material da natureza, a sua desordem genetriz.
Desde que se unira a Urano, o ventre de Gaia não parou de gerar um único dia. Cronos (Saturno), o deus do tempo, um dos titãs, revolta-se contra o pai, por este fecundar incessantemente à mãe, trazendo-lhe sofrimentos com uma prole indomável e por ver os filhos prisioneiros. Para que Gaia não continue gerando infinitamente, Cronos corta, com uma foice afiada pela própria mãe, os testículos do pai. Sendo a foice o símbolo da morte para os gregos, quem morre não é Urano, visto que é imortal, mas o seu reinado.
Cronos, ao lado da titânia Réia (Cibele), sua esposa e irmã, estabelece o segundo reinado dos deuses sobre a Terra e os homens. Já não é o reinado da desordem criadora, e sim da era pré-consciente da humanidade. Cronos, o tempo, está cego, perdido na evolução da vida e da ordem natural. A vida não explica a si mesma, apenas fervilha.
Com Réia, Cronos gera três filhas, Héstia (Vesta), Deméter (Ceres) e Hera (Juno), e três filhos, Hades (Plutão), Poseidon (Netuno) e Zeus (Júpiter). Alertado pela profecia de um oráculo, que um dos filhos o iria destronar, Cronos devora cada um deles tão logo nascem. Réia salva Zeus de ser devorado, quando este nasce, entrega ao marido uma pedra enrolada em várias tiras de pano, para que ele o devore a pensar tratar-se do filho.
Salvo de ser devorado, Zeus seria criado pelas Ninfas em Creta, longe do pai. Crescido, Zeus destrona o pai, obriga-o a ingerir uma porção que o faz vomitar todos os filhos devorados, que cresceram dentro dele. Ao lado dos irmãos, Zeus trava uma luta de dez anos pelo poder, vencendo os Titãs e os Gigantes. Torna-se o senhor de todos os deuses, dividindo com os irmãos o domínio do mundo: a Zeus coube o reino do céu e da terra, a Poseidon o mar, e a Hades, as profundezas terrestres, chamadas de Érebo ou Infernos.
O terceiro e definitivo reinado dos deuses é feita por Zeus, casado com a sua irmã Hera. Zeus ordena o universo definitivamente, estabelecendo o princípio divino da espiritualidade, é afirmação da ordem sobre a desordem. No reinado de Zeus surgirá a geração dos deuses Olímpicos.
Zeus reina de cima do Monte Olimpo, o ponto mais alto de toda a Grécia. Outros deuses reinarão ao seu lado, formando os doze deuses do Olimpo, seis deusas e seis deuses. Há três listas diferentes referentes aos doze deuses do Olimpo:
1 – Zeus, Poseidon, Apolo, Ares (Marte), Hermes (Mercúrio), Hefestos (Vulcano), Hera, Héstia, Deméter, Afrodite (Vênus), Atena (Minerva) e Ártemis (Diana).
Nesta primeira lista Dioniso (Baco), o deus do vinho, não é considerado como um dos doze deuses do Olimpo.
2 – Zeus, Poseidon, Apolo, Ares, Hermes, Hefestos, Dioniso, Hera, Deméter, Afrodite, Atena e Ártemis.
Nesta lista, segue a versão de que, ao chegar ao Olimpo, Dioniso expulsou Héstia, a deusa do lar, de seu posto junto a Zeus, ocupando este lugar privilegiado, firmando-se para sempre como divindade. Aqui há um desequilíbrio em relação ao sexo dos deuses, há 7 deuses e 5 deusas, o que faz da lista a menos reconhecida.
3 – Zeus, Apolo, Ares, Hermes, Hefestos, Dioniso, Hera, Héstia, Deméter, Afrodite, Atena e Ártemis.
Nesta lista, Poseidon, senhor dos mares, governa de um castelo nas profundezas dos oceanos, não participando do reinado do irmão no Olimpo, apesar de integrar das decisões do conselho Olímpico.
Hades, senhor dos mortos, participa do conselho Olímpico, mas reina sozinho na escuridão do mundo, sobre os mortos, por isto não consta em nenhuma das listas.

Zeus, o Pai dos Deuses

Zeus, o Júpiter da mitologia romana, é o mais jovem dos crônidas (filhos de Cronos). Salvo por Réia de ser devorado por Cronos, cresce em Creta, aos cuidados das Ninfas e do Curetes, jovens sacerdotes da mãe. Zeus destrona o pai Cronos, obriga-o a ingerir uma porção que o faz vomitar os filhos devorados. Divide o domínio do mundo com os irmãos, cabendo-lhe o céu e a terra.
Como rei absoluto, Zeus comanda o Olimpo e os homens. É considerado o pai dos deuses, dos semideuses, dos heróis e dos homens. Para manter a prole e a paternidade que lhe garantem o poder sobre os deuses, o senhor do Olimpo une-se a um grande número de deusas e de mulheres mortais, desafiando os ciúmes da sua mulher Hera. Todas as grandes cidades da Grécia antiga tinham como patrono um filho de Zeus. O deus tem como arma os raios e os trovões, estabelece a disciplina entre os deuses e os homens, protegendo-os e assegurando-lhes a ordem.

Hera, a Ciumenta Esposa de Zeus

Hera, a Juno da mitologia romana, filha de Cronos e Réia, reina no Olimpo, ao lado do marido Zeus. Temida por seu caráter essencialmente vingativo e ciumento, Hera persegue todas as amantes e filhos do marido. A deusa é a imagem do caráter humano movido pelo ciúme, sendo a mais realista e humana dos mitos gregos. Hera é a personificação do elemento fundamental da família. Seu ciúme reflete o momento pelo qual a cultura grega passava, abandonando de vez a poligamia e adotando a monogamia na família. A deusa era cultuada principalmente pelas mulheres, representava a fidelidade e as boas relações entre os casais. Era a deusa do amor conjugal. Nas artes era representada como uma jovem mulher bela e um pouco severa. Seus poderes sobre o Olimpo e os demais deuses, são iguais aos do marido.

Deméter, a Deusa da Agricultura

Deméter, a Ceres da mitologia romana, uma das filhas de Cronos e Réia, ao nascer, foi devorada pelo pai, mais tarde é salva pelo irmão Zeus. É uma deusa de caráter agrário, responsável pela fertilidade da terra, das colheitas e da civilização. Representa a mulher da civilização helênica, que nos tempos mais remotos da sua história, tinha como costume a dedicação dos homens à caça, à pesca e às armas, enquanto as mulheres cuidavam da casa e do campo. Deméter ajuda os mortais a plantar os grãos e a cultivar a terra. Quando sua filha Core (Prosérpina) é raptada por Hades, o senhor dos infernos, e levada para o seu reino nas trevas, Deméter abandona o mundo à fome. Para que a humanidade não pereça com as trevas nos campos, Zeus interfere, fazendo um acordo entre a deusa da agricultura e o senhor dos mortos: Core ficaria seis meses ao lado de Hades, no mundo das trevas, e seis meses na terra, ao lado da mãe. Assim, quando Core retorna do Érebo, surge a primavera, Deméter volta aos campos e garante uma boa colheita no verão, quando Core retorna para junto do marido, Deméter deixa os campos para chorar a filha, surgindo o outono e o inverno das lágrimas da deusa.

Héstia, a Fria Deusa da Castidade

Héstia, a Vesta da mitologia romana, a primeira filha de Cronos e Réia, foi devorada pelo pai quando nasceu. Bela e fria, Héstia foi cortejada e amada pelos deuses Apolo e Poseidon, mas não sentiu amor ou paixão por nenhum deles, recusando-os e fazendo voto de castidade. Recebeu de Zeus a honra de ser venerada em todos os lares, ser incluída em todos os sacrifícios e permanecer imóvel no seu palácio, cercada pelo respeito dos deuses e dos mortais. É a divindade do fogo que aquece os lares (héstia em grego significa o fogo da lareira), das virgens (as vestais da Roma antiga) e protetora da família, dos lares. Todas as cidades antigas possuíam o fogo de Héstia, mantido aceso nos palácios em que se reuniam os representantes das tribos. Héstia era representada como uma mulher jovem, com um véu sobre a cabeça e os ombros. Uma das lendas diz que Héstia, destronada por Dioniso, deixou de ser uma das doze divindades do Olimpo.

Poseidon, Senhor dos Mares

Poseidon, o Netuno da mitologia romana, filho de Cronos e Réia, é o deus dos oceanos, dos terremotos e dos maremotos. Grande parte do território grego é constituído por ilhas no Mar Egeu, daí a grande importância do culto a Poseidon pelos helenos. O senhor dos mares habita, segundo a tradição do mito, um palácio nas profundezas do Egeu. Percorre os mares numa carruagem atrelada a velozes cavalos de cascos de bronze e crinas de ouro, trazendo o tridente nas mãos, sendo acompanhado por uma comitiva de Sereias, Nereidas, Ninfas, Centauros marinhos e delfins. É o deus pai de Teseu, o mais célebre dos heróis de Atenas. Também é pai de monstros como a Medusa. É um deus impetuoso, venerado pelos pescadores, navegantes e mercadores dos mares. Apesar da sua grande influência sobre o Olimpo, às vezes não é identificado como um dos doze deuses Olímpicos, tendo o seu reinado sobre as águas dos mares.

Afrodite, a Deusa do Amor

Afrodite, a Vênus da mitologia romana, nasceu da espuma do mar. Quando Cronos cortou os testículos de Urano, atirando-os ao mar, formou-se uma enorme espuma dos órgãos arrancados, da qual surgiu Afrodite, a mais bela de todas as deusas. Afrodite é a deusa do amor, a maior força que conduz o homem. Esta força pode ser a do sentimento mais profundo, como a do desejo sexual insaciável e destrutivo, o amor pode engrandecer o homem, como levá-lo à loucura. É a deusa da força primaveril, que traz o esplendor anual das plantas e a renovação da vida pelo amor, sempre em paralelo com a vida humana e a vegetal, pois a agricultura conduz a força da civilização helênica. Sem a primavera não há a fertilidade, não há a renovação da vida, não há o futuro. Foi obrigada por Zeus a casar-se com Hefestos, o deus feio e coxo dos vulcões. Afrodite trai sem culpa o marido com os mais belos deuses: Ares, Hermes e Dioniso, ou com os mortais Adônis e Anquises.

Ares, o Cruel Deus da Guerra

Ares, o Marte da mitologia romana, filho de Zeus e Hera, é o deus da guerra, inseparável companheiro do Terror e da Discórdia, é a face destrutiva da guerra, representa a crueldade das batalhas, o sangue derramado, a discórdia sem lados, sem vencedores, apenas o ódio cego das batalhas. Os gregos relutavam em cultuar Ares, que não oferecia a sua proteção à cidade alguma, apenas dominava o ódio. O deus jamais foi aceito inteiramente pela sociedade grega, que não admitia a violência e a brutalidade. A origem ao seu culto provinha dos trácios, povo belicoso, considerado desprezível pelos helenos. Ares é o pai dos deuses que personificavam a discórdia: Fobos, Deimos e Éris. Da sua união com Afrodite nasceram Cupido e Harmonia.

Atena, a Deusa da Sabedoria

Atena, a Minerva da mitologia romana, nasceu da cabeça de Zeus. O senhor do Olimpo uniu-se a Métis e fecundou-a, mas o oráculo previu que o próximo filho desta união destronaria Zeus, assim como ele fizera a Cronos. Para evitar que a profecia viesse a se concretizar, engoliu Métis. Tempos depois, despontou da sua cabeça a bela Atena, deusa da guerra estratégica, da luta racional e justa. Ao contrário de Ares, que provocava o horror da guerra, Atena protegia o guerreiro. Protetora e sábia, era ela que conduzia os gregos na defesa dos nobres ideais, na difusão da cultura e na instauração da paz. Atena manteve-se virgem, jamais amou homem algum ou teve filhos. Era a deusa mais cultuada pelos gregos, principalmente na Acrópole, em Atenas, cidade que leva o seu nome.

Hefestos, o Artesão dos Deuses

Hefestos, o Vulcano da mitologia romana, filho de Zeus e Hera, nasceu coxo, envergonhando a mãe diante dos deuses do Olimpo. Para não apresentar o filho imperfeito aos deuses, a esposa de Zeus atirou-o do Olimpo ao mar. Hefestos teria sido salvo pela nereida Tétis e sua amiga Eurínome, que criaram o feio deus como um filho. Hefestos tornou-se um habilidoso artesão dos metais, senhor do fogo e da forja. Deus do fogo e dos vulcões, é a imagem divina do artesão perfeito. Quando adulto, presenteou a mãe Hera com um trono de ouro, ao sentar-se sobre o presente, a deusa ficou aprisionada. Era a vingança à mãe que o rejeitara. Só aceitou libertar Hera daquela prisão, quando Zeus deu-lhe como esposa a mais bela das deusas, Afrodite. Hefestos tinha a sua oficina na ilha de Lemnos, onde era auxiliado por divindades menores ligadas ao fogo e à metalurgia. O mito de Hefestos representava a preocupação dos gregos com a genética. Era uma forma de alertar para os perigos dos filhos deformados nascidos da união entre irmãos, como eram Hera e Zeus.

Hermes, o Mensageiro dos Deuses

Hermes, o Mercúrio da mitologia romana, filho de Zeus e Maia, é o esperto deus dos viajantes, dos mercadores e dos ladrões. Corredor infatigável, o deus viaja por todas as partes entre a Terra e o Olimpo, como mensageiro dos deuses. Por esta desenvoltura, era representado pelos gregos como viril, modelo de juventude e ideal de juventude, sua veneração era feita nos estádios e ginásios. Era tido como o deus que inventara o pugilato e as carreiras atléticas, sendo o patrono dos desportistas. Foi o deus que inventou a lira, sendo cultuado pelos poetas e cantores. Traz chapéu e sandálias providos de pequenas asas que o ajudam a correr como o vento. Pai de vários filhos, os mais conhecidos da sua prole são: Pã, fruto da sua união com a ninfa Driopéia, e Hermafrodito, ser de dupla natureza, homem e mulher ao mesmo tempo, da sua união com Afrodite.

Apolo, o Deus Solar

Filho de Zeus e Latona, irmão gêmeo da deusa Ártemis, Apolo era o cultuado deus da luz, rompendo a escuridão do mundo, iluminando a obscuridade da ignorância e tecendo o brilho do dom da poesia e das artes. O deus tinha muitas faces, múltiplas funções. Era o condutor dos pastores, multiplicador das colheitas, iluminava o caminho dos navegantes, protegia os médicos e a saúde, inspirava os artistas, e adivinhava o futuro dos homens em seus oráculos. Era visto como deus da perfeição da beleza grega. Apolo era a superioridade do belo sobre o feio, do sublime sobre o vulgar, do ideal de beleza absoluta. É pai de Esculápio, mítica figura de médico. Amou Dafne, ninfa que fizera voto de castidade aos deuses, perseguida pelo deus da luz, implorou a Gaia que lhe ajudasse, sendo transformada em um loureiro sagrado. Trágico também foi o seu amor pelo belo Jacinto, disputado com Zéfiro. Enciumado, Zéfiro fez com que Apolo atingisse mortalmente o amado quando arremessava um disco. Triste, o deus transformou o sangue do amante numa flor que leva o seu nome. Deus da poesia e da beleza, Apolo é sempre seguido pelas nove Musas e pelas três Graças, nos seus passeios pelos vales do Parnaso ou pelos bosques da Arcádia.

Ártemis, a Virginal Deusa da Caça

Ártemis, a Diana da mitologia romana, irmã gêmea de Apolo, filha de Zeus e da titânia Latona. A lenda dizia que Ártemis nascera no sexto mês de gestação e Apolo no sétimo. Era a deusa da Lua e da caça, pediu a Zeus que lhe desse como apanágio a virgindade eterna. Ártemis nunca amou nenhum mortal ou deus, nunca teve filhos, era a imagem da altiva rainha da natureza selvagem. Tem como animal símbolo o cervo. De uma beleza rara, a deusa emana o fulgor e vigor das caçadoras dos bosques, trazendo sempre consigo o arco e as setas. Como deusa da Lua, acreditava-se que exercia influência sobre alguns fenômenos naturais. A sua pureza virginal refletia o contato direto do homem com a natureza, sem destruí-la ou ofendê-la.

Dioniso, o Poderoso Deus do Vinho

Dioniso, o Baco da mitologia romana, filho de Zeus e da mortal Sêmele, uma princesa tebana. Sendo filho de pai divino e mãe mortal, Dioniso não era aceito como deus. A lenda do mito de Dioniso diz que ele descobriu a uva, uma fruta desconhecida, extraindo dela o vinho, bebida de efeitos poderosos. Dioniso utilizou-se dos efeitos do vinho para impor a sua divindade aos homens e aos seres olímpicos. Era o deus do vinho, da alegria, da embriaguez, das festas, da colheita e da fertilidade.O deus era seguido pelas Mênades (as Bacantes dos romanos), jovens mulheres que simulavam delírios dionisíacos, celebrando as orgias com gritos e danças desnorteadas. Com o seu cortejo, Dioniso viajava pela Grécia antiga, propiciando aos devotos alegria e felicidade. Através do vinho, as preocupações deixavam os corações humanos e os medos sucumbiam. A coragem crescia, a vida refulgia em seu esplendor. A embriaguez produzia além do prazer e da esperança, a selvageria e a loucura. O culto a Dioniso está ligado às origens do teatro. Com Afrodite, o deus gerou Príapo, famoso por seu vigor fálico. Uniu-se à Ariadne, com quem viveu para sempre.
 
publicado por virtualia às 21:50
link | comentar | favorito
Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2008

O ENCANTO DE GAL COSTA NA VIRADA CULTURAL

 

 

Em 2005, São Paulo ganhou um grande presente, a Virada Cultural, que consiste em 24 horas seguidas de eventos culturais (shows de música, pirotécnicos, teatro, dança e muitas outras atrações), que acontecem por toda a cidade, transformando-a em uma grande atração cultural. Sua primeira realização foi de 19 a 20 de novembro daquele ano. O evento foi tão bem sucedido, que passou a ser tradição na cidade de São Paulo. Inspirada nas noites brancas européias, a Virada Cultural assumiu características tipicamente paulistanas e se tornou uma das maiores movimentações culturais do mundo. A Virada Cultural é uma iniciativa da Prefeitura de São Paulo, realizada pela Secretaria Municipal de Cultura, com o apoio da SPTuris, Sesc e Secretaria de Estado da Cultura. Tornou-se uma confraternização pacífica do paulistano, com exceção dos incidentes acontecidos na Praça da Sé, em 2007, que resultou em brigas e depredações de algumas lojas. Este ano, a Virada Cultural, na sua quarta edição, aconteceu de 26 a 27 de abril. A sua maior atração foi o show “Voz e Violão”, da cantora Gal Costa, acompanhada pelo violão de Luiz Meira. Um show intimista, em palco montado na Praça Júlio de Mesquita, na esquina com a Avenida São João, que comoveu os paulistanos. É da sensação causada pelo show, pela embriaguez da voz de sereia de Gal Costa, que faço o relato abaixo.

Gal Costa na Avenida São João, por Jeocaz Lee-Meddi

Quando cheguei à Avenida São João, vi um ambiente morno depois de um show da excelente cantora caboverdiana Cesária Évora. Temi pela segurança, pois o centro de São Paulo foi vítima do vandalismo de baderneiros no último show da Virada Cultural, em 2007. Temi por Gal Costa. Já a tinha visto em um show do gênero, no Ibirapuera, em um domingo de novembro de 2005, mas nunca na convulsão do centrão de São Paulo à noite.
Desde agosto do ano passado, quando deixei São Paulo para em Goiânia, com mais tranqüilidade, escrever o meu novo livro, que não via a cidade e trocávamos cumplicidades. Lembrei-me do ano de 1998, estava na cidade do Porto, em Portugal, quando Gal Costa iria com o seu show “Acústico”, fechar a Expo’98, grande evento cultural, o último do século XX na Europa. Não poderia deixar de ver Gal Costa. Para meu desespero, não consegui viajar em nenhum trem rápido do Porto a Lisboa, pois, devido ao encerramento da Expor, estavam lotados. Tive que me contentar em ir num trem que parava de aldeia em aldeia, fazendo uma viagem de quatro horas durar quase nove. Era outubro, de um outono frio do hemisfério norte. Cheguei à Expor, estava insuportável, abarrotada de gente. Debaixo de chuva assisti ao show de Gal Costa. Linda! Pensei comigo, é última vez que faço tanto sacrifício para ver um show de Gal Costa. Mero engano, neste fim de semana, vi-me a fazer exatos 900 quilômetros, de Goiânia a São Paulo, para mais uma vez, ver Gal Costa. Já tinha saudades de vê-la no palco. Saudades de uma vida, eternas, pois acompanho os seus shows desde os meus 16 anos. Aqui, na Europa, em qualquer lugar.
Cansado da viagem, encontrei-me com alguns amigos jornalistas e com amigos aqui da comunidade. Ansioso, não via a hora de começar o show. Pensei, que loucura, andar tanto para ver um show de voz e violão que até já vi. 21 horas da noite paulistana e ainda estava tudo calmo. Gal Costa chegou ao palco. Chegou toda de branco, jovial, alegre, como uma menina de 62 anos, a mostrar para nós o seu novo corte de cabelo. Parecia uma criança, como se a perguntar para o seu público: “Gostaram?” Se gostei. Via nela um brilho nos olhos que me acostumei a ver desde o primeiro show “Gal Tropical”. Pensei, esta é a minha Gal, está de volta. Mas me contive, era apenas o começo, ela apenas dizia feliz: “Eu Vim da Bahia” (Gilberto Gil). E que presente a Bahia dava para São Paulo!
Gal Costa estava segura, à vontade com o público paulistano, conforme comentamos, eu e os meus amigos. Parecia feliz de estar homenageando Sampa. E o público correspondia ao carinho da cantora. Quando olhei para o lado não acreditei, a praça Júlio de Mesquita estava repleta, a Avenida São João, coração pulsante do centro velho da cidade, estava radiante, brilhava ao som de Gal Costa.
Gal Costa deslumbrava, conduzia a platéia, fazia vibrar os fãs e uma juventude que nem sabia que gostava dela, mas que soube cantar várias das suas músicas, já que sempre estiveram impregnadas na história da MPB e na mente do brasileiro. Vê-la sensual cantar “Folhetim” (Chico Buarque) e, travestis e michês a cantar, dançar ao som da música, na Avenida São João, criava uma imagem que ia do underground ao mais belo poema que, deslumbrava a retina do paulistano. Cenas dignas de Almodóvar! Coisas de São Paulo, ali tão bem embalada na voz e na sensualidade da cantora. Ao fim de interpretar “Folhetim”, ela, menina-senhora, mulher-moleca, dizia:
A gente está aqui falando de Virada. E eu cortei o meu cabelo, o que é uma virada que a gente dá para a gente mesmo e para as outras pessoas. Hoje é uma noite de virada!"
E quem era fã, percebia o que ela dizia. Sim, ali, ao declarar o seu amor por São Paulo, Gal Costa estava disposta a dar uma virada, era uma promessa aos fãs, e feita na segurança dos seus olhos, na alegria contagiante do seu sorriso, da força da sua voz. Sensual, quase erótica, ela interpretou “Você Não Entende Nada” (Caetano Veloso), quase a levar ao delírio com a sua malícia nos gestos, nas mãos em volta da madrepérola da sua essência. Gal Costa voltava a ser fatal! A despertar o imaginário erótico dos que voltaram a desejar àquela mulher.
Divino, Maravilhoso” (Gilberto Gil – Caetano Veloso) teve o luxuoso coro das pessoas da janela dos seus prédios. “Chega de Saudade” (Vinícius de Moraes – Tom Jobim) parou a São João, que a esta altura, tinha gente cantando até em cima das árvores. Os meus amigos jornalistas, que eram mornos em relação a Gal Costa, tornaram-se de repente, ardorosos fãs, tamanho era o imã que emanava daquela mulher, sugando-nos como se fosse um zoom.
Ver Gal Costa cantar “Vapor Barato” (Jards Macalé – Wally Salomão) é uma emoção renovada a cada show que ela nos brinda com esta interpretação. A emoção mais uma vez atinge um clímax. Os floreados que a cantora dava às interpretações das músicas arrematavam e conduziam o público, como se o hipnotizasse com a sua voz de sereia, tão embriagantes, que não nos apercebíamos que só um violão acompanhava o repertório.
Meu Bem, Meu Mal” (Caetano Veloso), “Azul” (Djavan), “Samba do Grande Amor” (Chico Buarque), “London, London” (Caetano Veloso), “Vatapá” (Dorival Caymmi), “Wave” (Tom Jobim), “Baby” (Caetano Veloso), “Aquarela do Brasil” (Ary Barroso), de Caetano Veloso a Tom Jobim, de Djavan a Chico Buarque, de Wally Salomão a Ary Barroso, Gal Costa continuava plural. Encerrou o show com “Aquarela do Brasil”, mas voltou com os gritos que ansiavam pelo bis. E que bis. Voltou com “Trem das Onze”, do mais paulistano dos compositores, Adoniran Barbosa. Terminou apoteótica com “Sampa” (Caetano Veloso), emocionando quem estava ali, na Avenida São João, quase na esquina com a Ipiranga. Quando o show acabou, olhei para o lado. Estaria a perder a noção crítica? Tinha sido embriagado? Mas os que estavam do meu lado e as críticas da imprensa no dia seguinte, tranqüilizaram-me, não era delírio de fã confesso, apaixonado por Gal Costa, era a emoção mais cristalina que faz desta mulher quem é! Mais do que um simples “Voz e Violão”, Gal Costa deixou nítido que estava a iniciar uma nova fase da sua carreira. Bem-vinda Gal Costa! Valeu a pena os 900 quilômetros percorridos!
 
publicado por virtualia às 22:57
link | comentar | favorito
Sexta-feira, 5 de Dezembro de 2008

TEMPORADA DE VERÃO - AO VIVO NA BAHIA: TRÊS VOZES DO BRASIL

 

 

A Tropicália estava no seu auge, quando foi interrompida, em dezembro de 1968, pela prisão de Gilberto Gil e Caetano Veloso, depois exilados em Londres. Na época o movimento caminhava para uma fase psicodélica, cada vez mais voltada para o rock, como refletiu o álbum “Gal”, de Gal Costa, de1969. O exílio duraria de 1969 a 1972, quando primeiro retornou Caetano Veloso, depois Gilberto Gil. Havia uma imensa expectativa do público, dos críticos e dos curiosos, para uma possível retomada da Tropicália. Mas os tempos eram outros, e as carreiras do trio tropicalista tinham passado por várias fases.
A grande expectativa era ver novamente Gal Costa, Caetano Veloso e Gilberto Gil juntos em um mesmo palco, que à exceção de uma apresentação de improviso, fora da programação, no festival da ilha de Wight, na Inglaterra, em 1970, e do grande evento do “Phono 73”, não acontecia desde os tumultuados idos de 1968. Quando voltaram do exílio, Gilberto Gil fez shows com Gal Costa e com Caetano Veloso, que por sua vez fez shows com Chico Buarque, além de um encontro histórico com João Gilberto e Gal Costa, em um programa de televisão que se deu pouco antes da volta de Londres, em 1971. Esta expectativa de ver os três juntos foi vislumbrada quando, em janeiro e fevereiro de 1974, foi gravada uma seqüência de shows individuais dos três cantores, em datas diferentes, feitas em um mesmo palco, no auge do verão, no Teatro Vila Velha, em Salvador, que se transformaria no álbum "Temporada de Verão – Ao Vivo na Bahia".
Temporada de Verão” é um registro à parte na carreira de Gal Costa, Gilberto Gil e Caetano Veloso, pois longe da psicodelia final do Tropicalismo, inaugura uma nova fase nas carreiras dos cantores, principalmente nas carreiras de Gal Costa e Caetano Veloso. Traz nove faixas, com interpretações únicas e definitivas na carreira de cada um. É um disco que reflete um momento de expectativa, que decepciona não pelo conteúdo, mas por não haver um encontro entre os três em nenhum momento do registro dos shows, também não há duos, são interpretações solitárias, de shows individuais, mas que se interligam, formando um conceito de disco próprio para a época. Gal Costa participa de duas faixas, Caetano Veloso de três e Gilberto Gil é contemplado com quatro faixas. “Temporada de Verão” em momento algum traz o saudosismo da época tropicalista dos cantores, mas consolida as carreiras que atingiriam o ápice nas próximas décadas, aqui com um gosto jovial de quem ainda não tinha dez anos de estrada, mas que já deixara marcas indeléveis na história da MPB.

Ao Vivo, Em Pleno Verão na Bahia

No verão de 1974, o Brasil ainda se recuperava do rescaldo que deixara o furacão Secos e Molhados, banda que, com a sua proposta irreverente vendera 800 mil cópias no álbum de estréia, feito que à época, era exclusividade de Roberto Carlos. Antes de o ano chegar ao fim, outra surpresa aconteceria no cenário musical brasileiro, o lançamento do álbum “Gita”, de Raul Seixas, que venderia 600 mil cópias.
É no meio desse turbilhão pelo qual passa a MPB, que surge o “Temporada de Verão”, de Caetano Veloso, Gal Costa e Gilberto Gil, álbum lançado em abril de 1974, gravado em Salvador, no Teatro Vila Velha, de janeiro a fevereiro daquele ano, com produção de Perinho Albuquerque e Guilherme Araújo. O álbum teve faixas gravadas na casa de Caetano Veloso, por não ter ficado tecnicamente boas na gravação ao vivo no Teatro Vila Velha. Para não perder a atmosfera do ao vivo, nessas faixas foi usado o som dos aplausos no final.
O álbum traz uma capa belíssima, com um horizonte laranja sob o mar, indicando um verão quente, no meio do horizonte, a cobrir o sol, surgem os rostos opostos de Caetano Veloso e Gilberto Gil, no meio do rosto dos dois, surge em três tiras de fotografias verticais, o rosto de Gal Costa, como o centro daquele sol. Na contra-capa, um texto sucinto de Guilherme Araújo revela o que é aquele álbum histórico:
Mais uma vez, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa juntos, como sempre, para deleite de seus inúmeros fãs e admiradores queridos, gravados ao vivo, na Bahia, no Teatro Vila Velha, no período de 10 de janeiro a 22 de fevereiro de 1974.”

Três Faixas com Caetano Veloso

Caetano Veloso vinha de um retumbante fracasso, o álbum “Araçá Azul”, lançado em 1973, considerado excessivamente experimental, tinha sido devolvido por várias lojas e tirado de catálogo. Só nos anos oitenta o álbum seria redimido e relançado. Esta fase da carreira do cantor transitava entre o que fora a época da Tropicália e a época do exílio, que resultara em grande produção de canções escritas em língua inglesa, refletidas nos álbuns “Caetano Veloso” (1971) e “Transa” (1972). Ainda não se conseguia ver qual o caminho que um dos inventores da Tropicália seguiria. A resposta viria neste disco.
Com a genial “De Noite na Cama” (Caetano Veloso), Caetano Veloso inicia a sua intervenção no álbum (é a segunda faixa do disco), canção já gravada por Erasmo Carlos, e que seria um grande sucesso na voz de Marisa Monte nos anos noventa. Com esta música, ressurge um Caetano Veloso despido da melancolia dos fogs londrinos (apesar da canção ter sido feita em Londres), pronto para retomar a sua carreira no Brasil não como experimental, mas definitiva. A música é agradável, sensual, existencial, jovial, mostra um compositor em sua essência, irreverente, apaixonado e apaixonante.
O Conteúdo” (Caetano Veloso) é a segunda intervenção de Caetano Veloso no álbum. A canção traz um ritmo que lembra as músicas de Jorge Ben, aqui homenageado, juntamente com outros dois Jorges (Mautner e Salomão). Alude à profecia que um vidente baiano tinha feito: que o autor morreria em 1975. Reflexiva, misto de existencialismo com a ironia do desbunde, em que tudo se pensa, mas nada se conclui. Caetano Veloso voltaria a fazer algo parecido em “Ele me Deu Um Beijo na Boca”, do álbum “Cores, Nomes” (1982). Os versos abaixo, traduzem a essência da canção:

Tudo vai bem, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo
E o divino conteúdo
A íris do olho de Deus tem muitos arcos


Felicidade” (Lupicínio Rodrigues), encerra a intervenção de Caetano Veloso, e também o disco (é a última faixa do álbum). Belíssima canção, é a surpresa do disco, torna-se um grande sucesso radiofônico, trazendo a voz do cantor de volta às rádios do país. Com duração de mais de seis minutos (6:29), era impossível prever a sua execução pelas rádios. Triste, poética, melancólica, a música às vezes parece que se irá transformar na clássica “Luar do Sertão” de Catulo da Paixão Cearense, numa intervenção incidental. Esta canção parece conciliar Caetano Veloso com o público brasileiro, saudoso do autor de “Alegria, Alegria”. Finalmente ele parece ter chegado ao Brasil, iniciando uma nova fase após a findada em “Transa” e a incompreendida em “Araçá Azul”.

Gilberto Gil, a Apoteose do Show

Gilberto Gil vinha de um grande sucesso em 1973, a canção do lado B de um compacto, “Xodó (Eu Só Quero Um Xodó)", de Dominguinhos e Anastácia. Um sucesso popular que o cantor não tinha desde “Aquele Abraço”, canção de 1969, hino da sua despedida quando rumou para o exílio. O movimento estudantil voltara a tomar fôlego em 1973, e com ele o endurecimento da ditadura, que resultou nas mortes por tortura, do presidente da UNE Honestino Guimarães e do estudante de geologia da USP Alexandre Vanucchi Leme (o Minhoca). Os estudantes convidaram Gilberto Gil para um show na Politécnica. O show que teria 30 minutos, durou 3 horas, e Gil apresentou a sua nova canção de protesto feita em parceria com Chico Buarque “Cálice”. Esta canção foi proibida pela ditadura militar e Gilberto Gil e Chico Buarque não a puderam cantar no evento “Phono 73”, festival promovido pela Polygram. É desse ano tumultuado que Gilberto Gil chega ao verão de 1974. Suas intervenções ao lado dos estudantes são claramente refletidas no show e no álbum “Temporada de Verão”.
Terremoto” (Paulo César Pinheiro – João Donato), inicia a intervenção espetacular, alegre, jovial e bicho grilo de Gilberto Gil. O cantor só entra a partir da quarta faixa, seguindo consecutivamente até a sétima faixa. Como o título sugere, Gilberto Gil entra como um terremoto, apagando as intervenções contidas de Gal Costa e Caetano Veloso. Após o exílio, a barra pesada que se vivia no país, aqui o cantor avisava, que diante da confusão dos tempos, por onde que andasse, deveria trazer os pés no chão.
O Relógio Quebrou” (Jorge Mautner), segue o aviso que o cantor dera no início. Divertida, interpretada por um Gilberto Gil cáustico, enérgico, que mostra os ratos nos porões das nossas mentes enquanto ela é silenciada pelo sistema, pelo mundo à nossa volta, preso nos ponteiros de um relógio quebrado, numa época da história em que não se sabe se a meia-noite era o meio-dia da existência. Gilberto Gil termina a canção perguntando para a platéia “Sacou o meu recado?”.
O Sonho Acabou” (Gilberto Gil) começa com Gilberto Gil assoviando “Carinhoso” e a chamar pelo nome de Pixinguinha, que naquele verão completava um ano de sua morte, e pelo nome de Clementina de Jesus. A música foi inspirada no que o cantor viu no mítico festival de Glastonbury, no interior da Inglaterra, feito na concepção esotérica para ser o festival dos festivais da era de aquário. Entre uma pirâmide, três palcos e gurus, por lá passaram todos os grupos alternativos, regados de ácidos lisérgicos. Para Gilberto Gil, ao ver o festival findar, as barracas desmontadas, era a certeza de que a frase de John Lennon “The dream is over”, da música “God”, fazia sentido, encerrando o fascínio do psicodelismo. A canção, ao contrário do que sugere o título, não é saudosista ou triste, é alegre, bicho grilo, quase que a fugir para um pseudo-psicodelismo.
Cantiga do Sapo” (Jackson do Pandeiro – Buco do Pandeiro) encerra a intervenção de Gilberto Gil, numa apoteótica interação com o público. É uma canção alegre, divertida, bucólica, que se intercala com “O Sonho Acabou”. Incisiva, alegre, a trazer uma dúbia interpretação entre o sistema vigente e a ideologia flower power, a intervenção de Gilberto Gil chega ao fim de uma forma contundente, mas com uma leveza que só um poeta como o cantor sabia galgar diante de um verão lacerante, sob uma ditadura militar.

Gal Costa, Nova Fase em Duas Canções Perenes

Gal Costa chegava em 1974, despida totalmente da imagem do auge do desbunde, quando fora eleita a sua musa. A cantora vinha do bem sucedido show “Índia”, com o qual excursionara por umas 40 cidades brasileiras e resultara em um álbum do mesmo nome. O show trazia uma atmosfera folk-glitter, a distanciar-se do sucesso de “Gal a Todo Vapor”, de 1971-72. O dueto que fizera com Maria Bethânia “Oração de Mãe Menininha”, de Dorival Caymmi, na apresentação do “Phono 73”, tornara-se um grande sucesso radiofônico.
No show do Teatro Vila Velha, Gal Costa começava a sua intervenção com a música “O Dengo que a Nega Tem”, de Dorival Caymmi, e terminava com a inédita “Flor do Cerrado”, que Caetano Veloso fizera para ela. Nenhuma das interpretações da cantora destas músicas foram registradas no álbum “Temporada de Verão”. A omissão de “Flor do Cerrado” compreende-se, pois foi guardada para o álbum que Gal Costa lançaria em maio daquele ano. Mas a subtração de “O Dengo Que a Nega Tem” é imperdoável. No álbum a cantora teria apenas duas músicas registradas.
Quem Nasceu” (Péricles R. Cavalcanti), é a canção escolhida para abrir o álbum, que se inicia com uma voz feminina. A canção nos traz uma Gal Costa já com uma interpretação contida, cool, que se refletiria no seu próximo álbum, o “Cantar”. A canção é doce, como a voz da cantora, que aqui é quase transformada em um templo colorido, traz um existencialismo com resquícios da filosofia dos hippies e da geração flower power, que busca a sua mística nas metáforas da natureza:

O sol nasceu, a lua nasceu
O dia nasceu, o sol nasceu
É tudo figura
É tudo mentira
Quem nasceu fui eu
Quem nasceu foi você
E a gente não sabe bem como
E nem sabe por que”

Acontece” (Cartola), é a segunda e última intervenção de Gal Costa no álbum “Temporada de Verão”. Um feliz encontro da cantora com o mestre Cartola. Todas às vezes que Gal Costa visitou o repertório deste compositor (“Cordas de Aço”, “As Rosas Não Falam”), produziu grandes obras-primas na sua carreira. “Acontece” é uma música melancólica, que traz a face final do amor, o triste reflexo de quando uma das partes já não tem paixão, quando o coração gela e já não há como fazê-lo renascer para o sentimento esgotado. A interpretação cool de Gal Costa acentua a melancolia de se esquecer da paixão pela estrada, e a dor de quem é esquecido. Com a gravação bem sucedida desta música por Gal Costa, o Brasil ganhou dois presentes: a belíssima interpretação da cantora e o primeiro disco gravado por Cartola, aos 65 anos de idade. O álbum “Cartola”, de 1974, produzido por Marcus Pereira, foi possível a partir desta redescoberta do mestre naquele verão da Bahia.
A forma considerada cool, de Gal Costa cantar a partir deste álbum, desagradaria totalmente aos que estavam acostumados com a fase visceral de “Fa-tal – Gal a Todo Vapor”, ou ainda com o folk-glitter de “Índia”. Aqui Gal Costa inaugura claramente uma nova fase, resgatando o que tinha sido proposto em “Domingo” (1967) e concretizado em “Cantar” (1974). O que parece cool é apenas o conter da leoa libertada em “Gal” (1969), a cantora torna-se mais intimista nos agudos, mas acende um lirismo mais doce, mais quente na voz de agudos domados, mas jamais esquecidos.
Temporada de Verão”, visto à luz de muitos verões que se passaram desde que foi lançado, é um álbum fundamental na carreira de Gal Costa, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Deixou-nos órfãos dos duetos que se esperava dele, mas registrou uma proposta de carreira que os cantores iriam seguir por algum tempo, até novas rupturas. Ele foi o embrião para a realização do refulgente “Doces Bárbaros”, de 1976, que acrescentaria Maria Bethânia ao trio, e presentear-nos-ia com duetos inesquecíveis, concretizando o que foi apenas sugerido no álbum de 1974.

Ficha Técnica:

Temporada de Verão - ao vivo na Bahia
Polygram
1974

Direção de produção: Guilherme Araújo e Perinho Albuquerque
Direção de estúdio: Perinho Albuquerque
Técnicos de gravação: Val Aliperti (ass. técnica)
Estúdio: Gravado ao vivo na Bahia
Arranjos: Gilberto Gil e Perinho Albuquerque
Corte: Joaquim Figueira
Capa: José Roberto Aguilar
Fotos: Tereza Eugênia

Gravado ao vivo na Bahia, Teatro Vila Velha, em janeiro e fevereiro de 1974


Caetano Veloso – Gal Costa – Gilberto Gil – Temporada de Verão - ao vivo na Bahia

1 - Quem nasceu
(Péricles R. Cavalcanti)
Interpretação: Gal Costa
2 - De noite na cama
(Caetano Veloso)
Interpretação: Caetano Veloso
3 - O conteúdo
(Caetano Veloso)
Interpretação: Caetano Veloso
4 - Terremoto
(Paulo César Pinheiro - João Donato)
Interpretação: Gilberto Gil
5 - O relógio quebrou
(Jorge Mautner)
Interpretação: Gilberto Gil
6 - O sonho acabou
(Gilberto Gil)
Interpretação: Gilberto Gil
7 - Cantiga do sapo
(Buco do Pandeiro - Jackson do Pandeiro)
Interpretação: Gilberto Gil
8 - Acontece
(Cartola)
Interpretação: Gal Costa
9 - Felicidade (Felicidade foi embora)
(Lupicínio Rodrigues)
Interpretação: Caetano Veloso

 
publicado por virtualia às 15:32
link | comentar | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Janeiro 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
30
31


.posts recentes

. DOMINGO - GÊNESIS DE GAL ...

. RICARDO MACHADO VOLUME 2 ...

. CORRA E OLHE O CÉU - RICA...

. O GRANDE CIRCO MÍSTICO - ...

. ÁLIBI - O ÁLBUM QUE TRANS...

. CASSIANO GABUS MENDES - O...

. ÁGUA VIVA, O ÁLBUM QUE MU...

. ÍNDIA - OS ÚLTIMOS AGUDOS...

. TROPICÁLIA OU PANIS ET CI...

. LUA DE MEL COMO O DIABO G...

.arquivos

. Janeiro 2015

. Maio 2010

. Março 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

.tags

. todas as tags

blogs SAPO

.subscrever feeds