Quinta-feira, 31 de Dezembro de 2009

A NOITE, O CÉU, A LUA, AS ESTRELAS E OS POETAS

 

 
Quando o silêncio cobre a cidade adormecida, faço uma visita a todas as noites do mundo. Não me perco em trevas, porque tenho as estrelas a iluminar os becos em que me perco. Se na desordem do dia não tive a mesma inspiração, é porque a intensidade do Sol queimou o frio que só a lua sabe apaziguar.
Noites estreladas, noites de lua minguante, noites de festas, de solidão ou de paixão profunda. Na noite de natal bebo o vinho da confraternização do renascer das tradições, na noite de reveillon brindo à esperança de quebrar os dogmas. Nas noites atéias, perco o meu corpo em leitos clandestinos ou assinalados pela poesia dos amantes.
Conta a história que homens pisaram na Lua, chegaram com as suas bandeiras e empáfias e nada viram, a não ser crateras inóspitas. Nada poderiam ver, porque a Lua não é dos astronautas, é dos poetas, que sem nunca tocar o seu solo, conhecem todos os seus segredos, são cúmplices dos seus mistérios.
A noite, a Lua, as estrelas, amigas das canções de amor; dos amantes que se entregam antes do Sol clarear as verdades. São as estrelas que iluminam o soldado em seu último suspiro, revelando-lhe o brilho quando tomba em campos inimigos, fazendo-o descobrir tardiamente que a guerra não lhe pertencia.
Não temo a noite, não me assusto com o seu silêncio perturbador, com a sua escuridão murmurante. Aqueço-me com o pulsar dos meus sentidos, com as palavras dos poetas que cantaram a Lua, as estrelas, o céu, o amor; com os abraços que me apertaram, com as pernas que entrelacei em um tango erótico, com o suor que me desenhou os pêlos em pinturas ilógicas; com os sons ilegíveis, quase indecentes de bocas que se perdem nos beijos.
Na noite de reflexão, de paixão ou de solidão, encontro-me com todos os poetas que deles roubei uma poesia para encantar, seduzir, ou simplesmente, retocar os meus atos amor.

Nesta Noite de Natal - Jeocaz Lee-Meddi

Nesta noite de Natal sem fim...
Quero mergulhar contigo nos pensamentos que trazem mais soluções do que tormentos;
Correr riscos mais próximos dos sentimentos;
Não ter tempo para as mágoas e para a fugacidade da juventude.

Nesta noite de Natal sem chuva...
Quero decifrar os códigos dos meus mais antigos mistérios;
Flutuar na magia de um desconhecido amanhecer sereno;
Aconchegar a suavidade de uma brisa a soprar outras esperanças.

Nesta noite de Natal sem sombras...
Quero contigo, apenas encontrar um momento de beleza;
Respirar sem medo as necessidades de existir;
Refletir no espelho as mais cristalinas e dúbias verdades.

Nesta noite de Natal itinerante...
Quero contigo recompor os rostos que nos esculpiu o tempo;
Ser mais uma essência humana do que uma personalidade vincada;
Traduzir o mundo em atos e motivos da construção do ser;
Sem ter que me perder na dissociação das mais tênues tradições;
Arriscar ser feliz, ainda que numa noite sem fim.

He Wishes for the Cloths of Heaven – W. B. Yeats

Had I the heavens’ embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half-light,

I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.

Ele Deseja os Tecidos do Céu (tradução)

Tivesse eu os tecidos bordados dos céus,
Lavrados com a prata e o ouro da luz,
Os tecidos azuis e foscos e de breu
Que têm a noite, a luz e a meia luz,

Estenderia esses tecidos a teus pés:
Mas eu, que sou pobre, apenas tenho sonhos;
São os meus sonhos que eu estendi a teus pés;
Sê suave no pisar, que pisas os meus sonhos.

Tradução de J. M. Magalhães e M. L. Telles

Abdicação – Fernando Pessoa


Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho.

Eu sou um rei
que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.

Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mãos viris e calmas entreguei;
E meu cetro e coroa – eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços

Minha cota de malha tão inútil,
Minhas esporas de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.

Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.

Canto de Mim Mesmo - XXI – Walt Whitman

Sou o poeta do Corpo e o poeta da Alma,
As aventuras do Céu estão em mim e as penas do Inferno estão em mim,
As primeiras enxerto e reforço em mim mesmo, as últimas traduzo para uma nova língua.

Sou o poeta da mulher e do homem,
E digo que é tão grande ser mulher como ser homem,
E digo que não há nada maior que a mãe dos homens.

Canto o canto do crescimento ou do orgulho,
Já baixamos bastante a cabeça, já imploramos,
Provo que a medida é apenas desenvolvimento.

Já excedeste o resto? És o Presidente?
É uma ninharia, eles excederão isso e muito mais.

Eu sou o que caminha com a crescente e terna noite,
Convoco a terra e o mar meio abraçado pela noite.

Aperta-me, noite, no teu peito nu – aperta-me, noite magnética e abundante!
Noite dos ventos do sul – noite das grandes estrelas raras!
Noite silenciosa e sonolenta – louca e nua noite de verão!

Sorri, oh voluptuosa terra fresca!
Terra das árvores adormecidas e cintilantes!
Terra do sol posto – terra das montanhas cobertas de névoa!
Terra do fluir vítreo da lua cheia e azul!
Terra de luz e sombra derramadas sobre a maré do rio!
Terra de límpidas nuvens pálidas resplandecendo para mim!
Terra de braços arrebatados ao longe – rica terra de macieiras em flor!
Sorri, que aí vem o teu amante.

Pródiga, deste-me amor – e assim te dou amor!
Oh, indizível e apaixonado amor.

Tradução de José Agostinho Baptista

Quatro Baladas Amarelas – Federico Garcia Lorca

No alto daquele monte
há uma arvorezinha verde.

Pastor que vais,
pastor que vens.


Olivais sonolentos
baixam à planície quente.

Pastor que vais,
pastor que vens.


Nem ovelhas brancas nem cachorro
nem cajado nem amor tens.

Pastor que vais.

Como uma sombra de ouro,
no trigal te dissolves.

Pastor que vens.

II

A terra estava
amarela.

Ourinho, ourinho,
pastorzinho.


Nem lua branca
nem estrelas luziam.

Ourinho, ourinho,
pastorzinho.


Vindimadora morena
corta o pranto da vinha.

Ourinho, ourinho,
pastorzinho.


III

Dois bois vermelhos
No campo de ouro.


Os bois têm ritmo
de sinos antigos
e olhos de pássaros.
São para as manhãs
de névoa, e sem embargo
perfumam a laranja
do ar, no verão.
Velhos desde que nascem
não têm amo
e recordam as asas
de seus costados.
Os bois
sempre vão suspirando
pelos campos de Ruth
em busca do vau,
do eterno vau,
ébrios de luzeiros
a ruminar seus prantos.

Dois bois vermelhos
No campo de ouro.


IV

Sobre o céu
das margaridas ando.


Nesta tarde imagino
que sou santo.
Puseram-me a lua
nas mãos.
Eu a pus outra vez
no espaço
e o Senhor me premiou
com a rosa e o halo.

Sobre o céu
das margaridas ando.


E agora vou
por este campo
a livrar as meninas
dos galãs maus
e dar moedas de ouro
a todos os rapazes.

Sobre o céu
das margaridas ando.


Texto de: Jeocaz Lee-Meddi

Fotos: Paulo César (1 Um Mundo Melhor, 3 Especialmente Para Ti, 7 Uma Flor Por Cada Vida Contigo), Sandro Mattiolli (2 Jeocaz Lee-Meddi Mensagem de Natal), Luís Lobo Henriques (4 Liturgia), Alba Luna (5 Poema Para Joana), João Rodrigues Simões (6 Natureza Humana) e grENDel (8 Rebirth)
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Quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

O MONTE DOS VENDAVAIS - EMILY BRONTË

 

 
Quando “O Morro dos Ventos Uivantes” – “Wuthering Heights” no título original – foi publicado, em 1847, chocou a conservadora sociedade inglesa, diante de uma história de amor instigante, que quebrava com todos os estilos da época. O amor era retratado à flor da pele e do ódio, na sua mais selvagem concepção, descrito em páginas de atmosfera arrebatadora, onde a crueldade humana é relatada de forma explícita, debatendo-se com a sensualidade e os sentimentos, a moral vigente e a moral imposta, feita pelos traumas e pelo desejo da vingança, entre momentos ternos ou de pura violência cotidiana, arraigados na falta de contemplação diante da brutalidade humana.
Emily Brontë, mulher taciturna e introspectiva, revelou nas páginas da sua obra-prima uma criatura explosiva, além do seu tempo e das suas concepções morais. “O Morro dos Ventos Uivantes” não debate a moralidade da época, mas a desfaz diante dos sentimentos incontroláveis da mente humana, arrebatada pela falta de razão e pelos impulsos das paixões. Heathcliff, a personagem central masculina, é o próprio anti-herói, movido pelo amor que tem por Catherine e pelo desejo de vingança aos que o humilhou pela vida e contribuíram para a perda física deste amor. No seu mundo não há limites para a crueldade, ele usa da tortura física e mental para destruir todos que se lhe puseram à frente. Nada o detém, a não ser o seu amor incondicional por Catherine, amor que vence à morte e ao tempo, mas que também é responsável por sua degradação moral, loucura e morte física. Heathcliff é uma das personagens mais inquietantes da literatura universal. Desperta ódio e paixão entre os leitores, é a própria essência bruta de todos os sentimentos.
O Morro dos Ventos Uivantes” foi tido como maldito quando do seu lançamento, com severas críticas à autora, que se escondia sob um pseudônimo masculino. Para muitos críticos era impossível uma história tão densa ter saído da mente de uma mulher, vista por alguns como se tivesse um demônio dentro de si para criar tão amoral personagem. Ao contrário de “Jane Eyre” e “Agnes Grey”, romances de Charlotte Brontë e Anne Brontë respectivamente, irmãs da autora, que se tornaram sucesso de critica e leitores, “O Morro dos Ventos Uivantes” sofreu com a rejeição dos leitores ingleses, que não sabiam onde situar a obra, com sua trama complexa transitando entre um romantismo desconstruído e um realismo silvestre.
O Morro dos Ventos Uivantes” causou não só um mal-estar nos leitores, como no próprio gênero literário da época, com sua temática e estilo despidos do maniqueísmo moralista vigente, onde os bons e os maus não se distinguiam entre as personagens. O livro quebrava com o retrato literário do seu tempo, fugia ao romantismo estilizado e sucumbia ao realismo literário puro, desfazendo o momento literário em que foi escrito. Com o passar do tempo, quebraram-se os preconceitos e “O Morro dos Ventos Uivantes” tornou-se imprescindível, a obra mais importante escrita na literatura inglesa daquele tempo.
Obra única de Emily Brontë, ela não sobreviveria para ver a sua história com o passar do tempo, ser classificada como uma das mais belas da literatura inglesa e universal; morreria um ano depois da sua publicação.

Heathcliff, a Criança Órfã Vinda das Ruas

O Morro dos Ventos Uivantes” narra de forma arrebatadora e apaixonante, a saga de Heathcliff, do seu amor e, principalmente, do seu ódio secular pela humanidade. A história atinge a duas gerações de personagens, inseridas em ambientes hostis, de paisagens sombrias, destiladas pelos ventos gelados dos invernos da Inglaterra, cuja paisagem tempestuosa traz os murmúrios das lembranças, os mistérios de uma existência dilacerada pelo amor e pelo ódio.
A narrativa é feita por uma personagem neutra, o Sr. Lockwood, o novo inquilino da granja Thrush Cross (Granja da Cruz), que em um dia de tempestade de neve, decide fazer uma visita de cortesia ao seu senhorio e vizinho, Heathcliff, morador de Wuthering Heights. Recebido com frieza, quase com hostilidade, o visitante depara-se com Heathcliff e um casal de jovens, que lhe desperta a curiosidade. É a partir desta visita, que Lockwood detém-se em saber mais sobre aquelas personagens, para isto conta com a velha governanta Ellen Dean, conhecida por Nelly, personagem que servira a duas gerações daquela família.
Nelly Dean, que segundo alguns historiadores, foi uma singela homenagem de Emily Brontë à fiel empregada da sua casa, Thabitha, ou Taby. Persuadida por Lockwood, Nelly, testemunha ocular de tudo que se passou naquelas terras, passa a narrar para o inquilino a história de Heathcliff e de todos que o ladearam.
O lapso do tempo é feito através das lembranças de Nelly, que retroage, voltando ao momento em que o dono de Wuthering Heights, o Sr. Earnshaw, regressa de uma das suas viagens a Liverpool, trazendo consigo um menino órfão de sete anos, que encontrara faminto e abandonado nas ruas da cidade. Era Heathcliff, uma criança obscura, cuja origem não nos é revelada. De aspecto assustado, mas sombrio, o menino é visto por todos os habitantes da casa como um cigano bastardo. A chegada de Heathcliff ainda menino a Wuthering Heights, embora menosprezada por todos, traz o presságio definitivo das mudanças que transformariam o lugar e atingiriam todos os moradores.
O Sr. Earnshaw tem dois filhos, Hindley, já um rapazinho, e Catherine, que possui pouca diferença de idade de Heathcliff. O temperamento do patriarca é rude, feito na solidão dos ventos daquele lugar isolado, sem qualquer lapidação cultural. Sua generosidade é fugaz, mas existente. Decide adotar Heathcliff, a ele afeiçoando-se e identificando-se com o seu temperamento bruto. Esta identificação com Heathcliff afasta o Sr. Earnshaw de Hindley, que se sente preterido ao amor do pai. Hindley passa a nutrir um ódio reprimido ao órfão, sentimento que causaria estragos indeléveis, responsáveis por uma amargura ressentida que no futuro traria dor a ele e aos seus descendentes.
Ao contrário do irmão, Catherine nutre um fascínio por Heathcliff, unindo o seu destino ao do estranho numa espécie de pacto dissimulado, beirando ao amor eterno e à redenção da alma e da moral. Heathcliff idolatra Cathy, fazendo dela a sua referência aos sentimentos. Ambos desenvolvem uma cumplicidade que só eles percebem, tecendo-a com frágeis fragmentos do amor e da volúpia caprichosa.

O Amor Entre Heathcliff e Catherine

O ódio contido de Hindley vem à tona quando o Sr. Earnshaw morre. Como herdeiro de Wuthering Heights, será ele quem ditará as regras do lugar, comandará os servos e o destino de todos que ali vivem. De uma forma vingativa, Hindley submete Heathcliff a grandes humilhações, impedindo a sua educação, impregnando a sua alma com a rudeza perene, quase selvagem. Submete o órfão a todos os trabalhos servis e degradantes.
A amizade exacerbada entre Catherine e Heathcliff incomoda profundamente a Hindley, que tenta afastá-los de todas as formas. Para isto investe nos maus tratos ao rapaz, tratando-o injustamente, criando barreiras e evidenciando as diferenças de classe social e de educação.
No meio da paisagem inóspita do morro dos ventos uivantes, surge vizinho, a granja Trush Cross, habitada pelos Linton, entre eles os irmãos Edgar Linton e Isabella Linton, que tinham idades aproximadas as de Heathcliff e Catherine. Gentis e educados, os irmãos Linton aproximam-se de Catherine. Esta amizade é incentivada por Hindley, que quer ver a irmã afastada da rudeza de Heathcliff.
O tempo passa, Catherine e Heathcliff crescem, nutrindo uma paixão incontida um pelo outro. À medida que crescem, as diferenças culturais entre ambos aumentam, sendo mais evidenciadas diante da amizade de Catherine com os irmãos Linton. Se as diferenças são claras, os sentimentos entre eles tornam-se obscuros, aflorando entre desejos contidos e uma paixão avassaladora.
Hindley fizera de Heathcliff um ser selvagem, com uma delicadeza voltada apenas para Catherine. Diante da brutalidade do amado, ela vacila com os sentimentos. Catherine é voluntariosa, dona de uma índole instável e de uma moral construída sem grandes alicerces, fazendo com que a ventania a derrube. Quanto mais ama Heathcliff, mais vê a sua vida encerrada em um isolamento social, longe da convivência, sua personalidade apesar de forte, perde-se nas indecisões que se lhe apresentam a vida e as condições sociais.
Entre as indecisões de Catherine, Edgar Linton surge como jovem apaixonado e disposto a desposá-la. Dividida entre a quase selvageria de Heathcliff e a ternura educada de Edgar, entre as origens ciganas de um e a riqueza familiar de outro, Catherine opta pela segurança social. Decide-se pelo jovem Linton, aceitando o seu pedido de casamento.
Heathcliff sofre diante da ameaça de perder a mulher que ama. Silenciosamente, ouve Catherine confessar a Nelly que ela se decidira por Edgar Linton, apenas por achar que Heathcliff não era um cavalheiro, que um casamento com ele estragaria a sua reputação, minando a sua real posição social. Heathcliff sente-se ferido de morte. Decide deixar Wuthering Heights, desaparecendo no meio da noite. Catherine sofre com a partida do amado, para amenizar a dor, abraça o destino que escolhera, casando-se com Edgar Linton, indo viver na granja do marido. O vento cortante sopra sobre Wuthering Heights, já lá não habitam Heathcliff e Catherine.

Fragmentação Emocional e Morte de Catherine

O tempo passa monótono, quase feliz para Catherine, que vive submersa em sua inquietação íntima. Sua vida de casada sofre a violência dos ventos, quando estes trazem de volta Heathcliff. O retorno não é de um homem rude, mas de um cavalheiro rico e dissimulador dos sentimentos.
A autora não revela por onde andou Heathcliff, muito menos como alcançara fortuna, deixando no ar não só um mistério, como a certeza de que a personagem enriquecera através de negócios escusos e poucos esclarecedores. Debaixo da máscara de cavalheiro, Heathcliff ocultava o homem amargurado, disposto a vingar-se de todos que lhe maltrataram, principalmente de Hindley e de Edgar Linton.
Catherine deixa-se seduzir pelo novo Heathcliff, agora um cavalheiro digno da sua condição social. Mas ela já está casada com Linton, uma verdade que não pode esquecer. Inconseqüente e voluntariosa, Catherine quer os dois homens da sua vida ao seu lado. Mas os mundos de Heathcliff e Linton são inconciliáveis, ambos sentem ciúmes um do outro, e a própria Catherine é a razão do distanciamento que se interpõe em suas vidas. O frágil caráter emotivo de Catherine a desequilibra, ferindo o marido e a ela própria.
A convivência entre a paixão devastadora de Heathcliff e o amor brando de Linton torna-se insuportável. A disputa psicológica entre os dois homens gera discussões, levando Catherine a um redemoinho emocional do qual não se consegue desvencilhar, responsável por sua debilitação mental e física. Catherine não resiste às contradições da sua vida, morrendo ao dar à luz a uma filha, fruto do seu casamento com Edgar Linton.
Ao matar Catherine, a heroína da trama, no meio da história, Emily Brontë quebra com toda a estrutura do romance de gênero romântico, fazendo do seu livro a inovação de um estilo, sem classificá-lo em gênero literário algum, estabelecendo-o em uma verve atemporal, órfão do romantismo e do realismo do século XIX.

A Vingança Implacável Contra Hindley Earnshaw e Edgar Linton

A morte de Catherine quebra o único vínculo que Heathcliff tinha com a sensibilidade e com os sentimentos humanos. A partir de então, tornar-se-á um algoz dos seus inimigos. Ver a amada morta desperta-lhe a fúria de um leão ferido. Heathcliff culpa Hindley e Edgar Linton pela morte da amada e, por ela ter sido dele afastada. Diante de todos, jura vingança aos dois. Já não existe Catherine, o motivo do seu amor e da sua contemplação; restam vivos aqueles que eram o motivo do seu ódio.
Para começar a sua vingança, Heathcliff traça um plano dividido em dois atos:
Primeiro, vingar-se de Edgar. Aproxima-se de Isabella Linton, irmã de Edgar, seduzindo-a e com ela fugindo. Após a sedução, ele fará da vida da mulher um inferno, maltratando-a, desprezando-a e fazendo-a infeliz, até que definhe de tristeza. Isabella foge do marido, vivendo longe dele até a sua morte. Ela deixa um filho, o único herdeiro de Heathcliff, a quem chamou de Linton.
O segundo ato do plano, vingar-se de Hindley. Para isto, volta a morar no morro dos ventos uivantes, na casa do seu inimigo, outrora algoz. Hindley tornara-se um bêbado após a morte da mulher, tornando-se endividado, tendo Heathcliff como o seu grande credor. Humilhado por Heathcliff, que lhe tomara todos os bens, Hindley morre na mais completa miséria, deixando um filho, Hareton.
A vingança de Heathcliff está confirmada, ele torna-se o dono de Wuthering Heights, lugar que um dia o recebera como lar, onde conhecera o grande amor da sua vida e onde sofrera todas as humilhações. Daquele tempo restara a lembrança mórbida de Catherine, o seu amor fantasmagórico, que não lhe deixa à memória um só dia. O amor que o consome e destrói a sua vida e a de todos à volta, é a força que encontra para seguir em frente, sendo o ódio o movimento vital que o faz caminhar. A vingança poderia ter encerrado após as mortes de Hindley e Edgar, mas ela continuaria, estender-se-ia sem perdão para a nova geração.

Dois Fantasmas Vagam Pelo Morro dos Ventos Uivantes

A fúria vingativa de Heathcliff não conhece limites, estendendo-se à nova geração, nascida dos enlaces das personagens durante a saga: Hareton Earnshaw, filho de Hindley Earnshaw; Catherine Linton, filha de Edgar Linton e Catherine; e, Linton, filho de Isabella e do próprio Heathcliff. Os três tornar-se-iam vítimas da vingança implacável de Heathcliff.
hareton, o verdadeiro herdeiro de Wuthering Heights, cresceu sem a herança do pai, tornando-se um simples servo da casa, sofrendo de Heathcliff todas as humilhações que Hindley lhe impusera no passado. hareton cresce sem acesso à educação e a qualquer direito social, vivendo na mais completa servidão. Ironicamente, ele apegara-se a Heathcliff, não se apercebendo que era fruto de uma vingança, achando que o amo e senhor livrara-o da miséria deixada por um pai alcoólico, dando-lhe casa e proteção. Hareton torna-se fiel a Heathcliff, sendo a única pessoa que lhe tem afeto.
Linton, o herdeiro de Heathcliff, é um jovem inseguro, de índole fraca e saúde debilitada. Viveu protegido pela mãe, longe do pai, até que esta morreu. Ao contrário de hareton, foi criado com todos os mimos e recebendo uma educação sofisticada. Foi arrebatado pelo pai logo que lhe morreu a mãe, odiando viver no ambiente sombrio e rural de Wuthering Heights. Sua fragilidade excessiva irrita Heathcliff, que tem planos para ele.
Catherine Linton, a única filha de Catherine, herdara a beleza física da mãe, sendo parecida com ela. Criada pela doce Nelly, ela foi atraída da granja do pai para Wuthering Heights, diante da curiosidade de conhecer o primo Linton. A ela não se foi revelada a verdade sobre Heathcliff e à mãe morta. Linton, obrigado pelo pai, seduz a prima, com quem se casa. Esta união é o ápice da vingança de Heathcliff sobre Edgar Linton, que vê a sua única filha a ir viver na degradada casa de Earnshaw, agora pertencente ao seu maior inimigo. Quando Edgar Linton morre, a sua propriedade passa para as mãos de Linton, marido de Cathy. Mas Linton, covarde e desprovido de uma personalidade vincada, morre jovem, assim, o pai, Heathcliff, passa a ser tutor de Cathy e herdeiro da granja dos Linton. A sua vingança estava consolidada. Era senhor absoluto dos bens e das propriedades daqueles que outrora o humilhara.
Cumprida a vingança final, nada resta a Heathcliff, a não ser a lembrança obsessiva do fantasma de Catherine. Ele entrega-se cada vez mais a essas lembranças, tendo a razão tragada por elas. Heathcliff jamais deixa de ser um homem atormentado, vivera uma vida voltada para a paixão que sentira por Catherine. Amara e odiara com tanta intensidade, que perdera os limites morais, beirando à loucura. Seu amor incondicional por Catherine dera-lhe a intensidade destruidora dos que o ladeava e de si mesmo. A solidão final leva-o ao delírio de uma loucura anunciada, levando-o a morte. Como último desejo, é sepultado ao lado de Catherine, seu grande amor. Desejo que não choca os habitantes de Gimmenrton. Para os moradores do povoado, ambos eram sombrios, almas gêmeas e destrutivas, fantasmagóricos... Todos juram que eles emergem da sepultura, vagando pelas charnecas do morro, eternamente cortado pela ventania, sob ecos murmurantes...
Ironicamente, no meio a tantas mortes, dor e destruição, a autora termina o livro com a esperança triunfante no amor inesperado de hareton e Cathy, que se casam, voltando a herdar o que lhes tirara a vingança de Heathcliff.

Emily Brontë

Emily Jane Brontë nasceu em Thornton, Yorkshire, na Inglaterra, em 30 de julho de 1818. Era a quinta filha do casal Patrick Brontë e Maria Branwell, em uma prole de cinco mulheres e um homem.
Aos três anos ela perdeu a mãe, sendo criada pela Tia Branwell, que contou com a ajuda de uma empregada doméstica, Thabitha, carinhosamente chamada de Taby, de quem se afeiçoaria por toda a vida. Foi através das histórias de Taby que as irmãs Brontë puderam desenvolver as suas verves literárias, criando brincadeiras infantis repletas de personagens imaginárias.
Em 1824, Emily e as suas três irmãs mais velhas foram enviadas pelo pai para estudar em Cowan Bridge. No ano seguinte, Maria, a irmã mais velha, foi acometida de febre e definhou até a morte, o mesmo acontecendo com Elizabeth, um mês depois. Temendo pela saúde das filhas em Cowan Bridge, Patrick Brontë as trouxe de volta para casa.
Nos serões em casa, os irmãos Brontë costumavam ler em voz alta “As Mil e Uma Noites”. Quando o irmão Patrick Branwell ganhou do pai uma caixa com soldadinhos de chumbo, Charlotte, Emily e Anne desenvolveram a partir deles, histórias que registraram em forma de jornal, ao qual chamaram de Angria. Anne e Emily criaram histórias, situando-as na ilha de Gondal.
Dos quatro irmãos sobreviventes, três, Emily, Charlotte e Anne tornaram-se escritoras, enquanto que Patrick Branwell tornou-se um talentoso pintor, é dele o famoso retrato de perfil de Emily Brontë e o das três irmãs Brontë; mas o alcoolismo destruiu uma carreira promissora, e Branwell morreria prematuramente, aos 31 anos, em setembro de 1848.
Em 1846, Emily concordou em que Charlotte publicasse, sob pseudônimo, uma coletânea de poemas. Assim, em maio daquele ano, foi publicada uma coletânea de poemas de Currer Bell, Ellis Bell e Acton Bell, pseudônimos respectivamente, de Charlotte Brontë, Emily Brontë e Anne Brontë. Naquele mesmo ano, os manuscritos de “Agnes Grey”, de Anne Brontë, e de “O Morro dos Ventos Uivantes”, de Emily Brontë, foram aceitos por um editor.
Em 1847, Charlotte Brontë teve publicado, em outubro, o romance “Jane Eyre”, que entraria para sempre para a literatura inglesa. Em dezembro eram publicados “O Morro dos Ventos Uivantes”, de Emily Brontë, e “Anne Grey”, de Anne Brontë.
A obra de Emily Brontë sofreu grande rejeição, enquanto que “Jane Eyre” tornou-se um grande sucesso na época.
Emily Brontë morreu de tuberculose, aos trinta anos, em 19 de dezembro de 1848, três meses após a morte do irmão. Jamais imaginou que o seu único romance escrito transformar-se-ia em um dos mais consagrados da literatura inglesa e universal. A escritora foi enterrada na igreja de St. Michael and Angels Cemetery, em Haworth, Yorkshire, lugar que viveu desde os dois anos de idade, dele saindo por curtos períodos. Sua personalidade aparentemente introspectiva, revelou-se infinita diante das personagens inesquecíveis de “O Morro dos Ventos Uivantes”. Ícone único da literatura inglesa, a obra teve várias adaptações para o cinema e traduções em diversas línguas.

CRONOLOGIA

1812 – Casamento, em 29 de setembro, do reverendo Patrick Brontë com Maria Branwell.
1818 – Nasce em Thornton, Yorkshire, em 30 de julho, Emily Jane Brontë, filha do reverendo Patrick Brontë.
1820 – A família muda-se, em abril, para Haworth.
1821 – Morre a mãe de Emily, Maria Branwell.
1824 – Emily e as suas três irmãs vão estudar em Cowan Bridge.
1825 – Morre, em maio, a irmã Maria. Em junho morre outra irmã, Elizabeth.
1826 – As crianças ganham soldadinhos de chumbo de presente, que seriam o ponto de partida para os relatos de Angria e Gondal.
1829 – Têm início os jornais de Angria.
1831 – Charlotte, uma das irmãs Brontë, vai estudar em Roe Head.
1835 – O irmão Patrick, vai estudar em Londres. Charlotte e Emily partem para Roe Head, a primeira como professora, a segunda como aluna.
No mesmo ano, Emily volta para Haworth.
1837 – Emily vai lecionar em Law Hill, mas volta para casa alguns meses depois.
1842 – Emily viaja com Charlotte para Bruxelas, em fevereiro, retornando à Inglaterra em novembro.
1846 – Em maio é publicada a coletânea de poema de Currer Bell, Ellis Bell e Acton Bell, pseudônimos respectivamente, de Charlotte Brontë, Emily Brontë e Anne Brontë. Os manuscritos de “Agnes Grey”, de Anne Brontë, e de “O Morro dos Ventos Uivantes”, de Emily Brontë, são aceitos.
1847 – Publicado em outubro, “Jane Eyre”, de Charlotte Brontë. Publicados em dezembro, “O Morro dos Ventos Uivantes”, de Emily Brontë, e “Anne Grey”, de Anne Brontë.
1848 – Morre, em 24 de setembro, Patrick Branwell Brontë, irmão da escritora. Morre em 19 de dezembro, de tuberculose, Emily Brontë.
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Sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

LIVROS SAGRADOS

 

 
Nos primórdios das grandes civilizações da humanidade, as religiões eram essencialmente politeístas. Eram passadas pelas gerações através de rituais considerados sagrados, sem uma tradição escrita. A partir do momento que o monoteísmo expandiu a sua fé, o registro das leis sagradas e dos princípios da fé começou a fazer parte destas religiões. A cultura escrita passou a ser a principal forma de não se deixar perder os ensinamentos das religiões. Surgiu a literatura sagrada, os livros sagrados.
Atualmente, as principais religiões do mundo, monoteístas ou politeístas, transmitem as suas tradições e ensinamentos através da escrita, com livros considerados sagrados, revestidos de grande cultura erudita, sabedoria existencial, doutrina, ecumenismo religioso e intelectual.
A Bíblia, o livro sagrado mais conhecido no mundo ocidental, é a literatura fundamental do cristianismo, sendo composto pelos livros judaicos (Antigo Testamento) e pelos princípios da doutrina cristã (Novo Testamento). Sobre o livro, conceitos fundamentais do islamismo foram estabelecidos, traduzidos pelo Alcorão, escrito sobre as recitações reveladas ao profeta Maomé. A Torá, gênese das religiões abraâmicas, é o livro sagrado dos judeus, sendo identificada na Bíblia cristã como Pentateuco. Religiões politeístas também trazem registros escritos dos seus ensinamentos, como o Bhagavad Gita, o livro mais influente do hinduísmo; e, o Dhammapada, que traz a essência dos ensinamentos básicos do budismo.
Sagrados, sábios, eruditos, históricos, os livros religiosos têm como função transmitir os ensinamentos milenares da fé humana, assegurando-a para as gerações futuras, evitando que se deturpe as tradições, e fazendo que se conheça a saga dos homens que, em um momento único de inspiração, receberam a palavra divina e os seus preceitos.

Torá, a Escrita Sagrada do Judaísmo

Torá, que em hebraico significa “Lei”, é um conjunto de cinco livros escritos originalmente em rolos, trazendo os preceitos principais da legislação mosaica. Segundo a tradição histórica, o texto de inspiração divina, foi transmitido diretamente por Deus a Moisés. Cada livro é denominado pela primeira palavra do texto em hebraico: Berechit, Chemol, Vayiqrá, Bammidbar e Elleh hadevarim. Na tradução grega das escrituras hebraicas, os livros passaram a ser chamados de Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio, respectivamente, de forma que sintetizasse o assunto dominante. Esta denominação passou para a versão latina, sendo assim chamados na Bíblia cristã, constituindo o Pentateuco do Antigo Testamento.
Os livros sagrados do judaísmo estão divididos em três partes: a Lei (Torá), os Profetas (Nebiím) e os Escritos (Ketubim). Juntando as iniciais destas três designações, forma-se o conjunto chamado em hebraico, de Tanak.
A Torá, responde aos questionamentos fundamentais da existência humana e das religiões, como a criação do mundo, a origem da morte. É o livro das promessas de Deus, do código da aliança entre Deus e Israel. Traz a história da origem do povo judeu, desde a criação do mundo, ao exílio e escravidão no Egito, o êxodo através do deserto, e a revelação das palavras divinas a Moisés, no Monte Sinai. Os cinco livros que compõem a Torá têm a sua origem e redação atribuída a Moisés, apesar de ser contestada. Há teorias que admitem que a sua composição foi feita oralmente e por escritos anteriores a Moisés, assim como adições posteriores a ele. Mas, tradicionalmente, Moisés é o autor e o legislador da Torá.
A partir deste livro sagrado, nasceu a religião monoteísta do mundo ocidental, dando origem ao judaísmo, cristianismo e islamismo. Os comentários e preceitos que envolvem a mística divina da Torá foram compilados em um conjunto de textos do judaísmo, o Talmude, um legislador e intérprete dos problemas judeus no seu dia a dia, harmonizando com a essência da Lei.

A Bíblia, o Grande Livro do Cristianismo

Bíblia, do grego byblos, significa “livro”, designado de “Livro por excelência”, tido como sagrado, quer pelos judeus, quer pelos cristãos.
A Bíblia reconhecida pelos judeus é dividida, como foi dito acima, em três partes (Torá – a Lei, Nebiím – os Profetas e, Ketubim – os Escritos), chamadas de Tanak.
A Bíblia cristã é formada pelo Antigo Testamento, ou seja, os escritos judaicos (Tanak), anteriores a Cristo; e pelo Novo Testamento, que traz os escritos sagrados a partir de Jesus Cristo. Os judeus não reconhecem Jesus Cristo como o profeta messiânico, portanto recusam o Novo Testamento.
Dentro dos livros do Antigo Testamento, sete não são aceitos pelos judeus, pelos cristãos evangélicos e ortodoxos russos: Tobias, Judite, Sabedoria, 1 Macabeus, 2 Macabeus, Eclesiástico e Baruc; sendo todos eles reconhecidos pela igreja católica e pela igreja ortodoxa. Estes livros são chamados de apócrifos, ou seja, não-inspirados por Deus, com um sentido apenas histórico.
Também a classificação judaica dos livros do Tanak diverge da classificação da Bíblia cristã. Depois do Pentateuco (os cinco livros atribuídos a Moisés), os judeus classificam seis livros chamados de Profetas Anteriores (Josué, Juízes, 1 Samuel, 2 Samuel, 1 Reis, 2 Reis), seguindo-se-lhes os Profetas Posteriores (Isaías, Jeremias, Ezequiel e os doze profetas menores). Os Escritos trazem, nesta ordem, os Salmos, os Provérbios, , Cântico dos Cânticos, Rute, Lamentações, Eclesiastes, Ester, Daniel, Esdras, Neemias, 1 Crônicas e 2 Crônicas.
O Novo Testamento traz os livros evangélicos (Mateus, Marcos, Lucas e João), que contam a vida de Cristo, sua pregação, parábolas, ensinamentos, sua morte e a sua ressurreição; além de livros doutrinais e epístolas, que dão continuação à palavra de Cristo após a sua morte, formando um conjunto de preceitos essenciais para a base do cristianismo, nascido da velha profecia messiânica judaica, tendo como Cristo o cumpridor desta profecia. O Novo Testamento encerra-se com a visão apocalíptica do apóstolo João, e das revelações feitas a partir deste livro. Esta parte da Bíblia surgiu na segunda metade do século I, dando origem aos alicerces cristãos e ao rompimento com o judaísmo.
Grande parte do Antigo Testamento foi escrito em hebraico, com exceção de alguns trechos dos livros de Daniel e Ester, redigidos em aramaico. Na época que Cristo viveu, o aramaico havia suplantado o hebraico (confinado à liturgia) como língua falada na Palestina. Jesus ensinou em aramaico, mas a língua desapareceu diante da disseminação das línguas grega e latina. Os livros do Novo Testamento, com exceção do de Mateus, escrito em aramaico, foram todos redigidos em grego.
Os livros da Bíblia teriam sido escritos em 1300 anos, abrangendo um período de mais de 2000 anos de duração, sendo que mais de 3300 anos decorreram até os tempos atuais.
A Bíblia prega no seu todo, um Deus único e universal, tendo como mensagem fundamental os princípios do homem atrelados à Lei, aos ensinamentos, aos códigos morais, que traduzem da fraternidade, humildade, simplicidade e felicidade, nas promessas de uma ressurreição dos mortos e da vida eterna, perdidas pela desobediência de Adão, redimidas na promessa messiânica. Dentro desta obra monumental da literatura universal, encontramos vários gêneros literários: histórico, poético, épico, jurídico, sapiencial e de teor sagrado.

Alcorão, o Livro Sagrado do Islamismo

O Alcorão, que quer dizer recitação ou leitura, do árabe qur’ãn, teria sido composto a partir das revelações de Deus a Maomé, mediadas pelo arcanjo Gabriel. Abraçado pelo anjo, Maomé recitou uma primeira vez, continuando a fazê-lo por 23 anos, a cada vez que lhe falava o anjo. As palavras divinas recitadas por Maomé (Muhammad ibn Abdallah), foram reunidas versículo por versículo no livro sagrado do Alcorão.
O livro é composto por 114 capítulos (ou textos), designados de suras, que traz textos longos, seguidos de capítulos mais breves, ordenados por temas, não por uma narrativa cronológica como na Bíblia.
Todo muçulmano deve conhecer profundamente o Alcorão, em árabe, língua original do profeta Maomé e dos ensinamentos por ele proferidos. Apenas em árabe é que se reconhece o livro sagrado como Alcorão, sendo as suas traduções chamadas de “significado do Alcorão”. As palavras ganham musicalidade em árabe, tendo um estilo belíssimo entre a prosa e a poesia, sendo consideradas sagradas todas as palavras que nele se encontram.
No Alcorão, Deus é único e onipotente. Seu sentido monoteísta foi herdado do judaísmo, sendo Ismael, filho de Abraão e da escrava Agar, o pai de todos os árabes. O anjo que ditou as palavras a Maomé foi Gabriel, o mesmo que avisara Maria da sua gravidez. O livro admite que Abraão, Moisés e Jesus são profetas que tiveram inspiração divina. Assim, o islamismo, o judaísmo e o cristianismo, fazem parte das religiões monoteístas do grupo abraâmico.
Apesar das controversas históricas atuais, geradas principalmente, pelos conflitos entre árabes e judeus, onde muitos tentam atribuir a violência ao livro sagrado, o Alcorão traz como mensagens principais: a justiça, a generosidade, a bondade e igualdade entre os homens, sem lhes distinguir por raça, cor e condição social, sendo composto por preceitos universais, iguais para qualquer homem.
Além do livro sagrado do Alcorão, Maomé, ao morrer em 632, deixou seu exemplo de vida para ser seguido. Esta tradição é chamada em árabe de suna, sendo composta pelos atos e dizeres de Maomé, chamados de hadiths (ditos e feitos).

Mahabharata, o Grande Épico do Hinduísmo

Traduzido como “A Grande História dos Bharatas”, é um dos grandes épicos da literatura religiosa universal, o maior da civilização indiana, sendo ainda, considerado o maior poema de todos os tempos, com cerca duzentos mil versos. Segundo a tradição, originalmente bharatas queria dizer em sânscrito, “saqueadores”, termo que teria dado nome às tribos arianas que teriam ocupado a península da Índia por volta de 1700 a.C. Esta suposta invasão não é consenso para os historiadores atuais.
Acredita-se que a sua tradição oral seja bem mais antiga, e, que a maioria dos versos do livro foram compilados no século IV a.C., mas foi no século II d.C. que ganhou a sua estrutura definitiva. O Mahabharata, assim como outras escrituras sagradas do hinduísmo, como os Vedas e os Puranas, tem a sua coletânea creditada ao mítico sábio Vyasa.
O épico narra a guerra entre as famílias Karauvas e Pandavas, que apesar de laços próximos de parentesco, enfrentavam-se pela posse de um reino no norte da Índia. É o confronto final desta guerra, a Batalha de Kurukshetra, ocorrida na cidade deste nome, que dá origem ao Bhagavad Gita, o livro mais influente do hinduísmo. Parte essencial do Mahabharata, o Bhagavad Gita (Canção do Divino Mestre ou Canção do Senhor), narra as indagações de Arjuna, nos momentos que antecedem a uma batalha na Índia antiga. Arjuna, um príncipe que tem a consciência abalada por combater amigos e familiares, hesita em continuar a luta, dialogando com o deus Krishna o sentido da vida. O deus convence-o de que aquela guerra faz parte do destino do seu povo e não pode ser evitada. A narrativa centra-se na ética do guerreiro, que impelido pelo destino, trava uma sangrenta batalha final, que após 18 dias de conflito, deixa apenas cinco sobreviventes para perpetuar a dinastia dos Pandava.
Escrito em sânscrito, o Bhagavad Gita, traz como essência a alma como o verdadeiro eu, não o corpo físico. Incita o ascetismo, à devoção e à busca humana como caminho da evolução do indivíduo. É neste livro que aparece a teoria do Karma, fundamental para a compreensão do hinduísmo, e o grande diferencial das religiões politeístas para as monoteístas. O Bhagavad Gita teria sido escrito no século III a.C. Os hindus acreditam que a leitura dos seus versos é capaz de aniquilar todos os pecados e impurezas.

Dhammapada, os Provérbios de Siddharta Gautama

No budismo, vários livros são tidos como essenciais para a sua compreensão. O Dhammapada, que em língua páli pode ser traduzido como “caminho da virtude”, é um conjunto de ensinamentos básicos do budismo.
Segundo a tradição, o Dhammapada seria uma coletânea de provérbios proferidos por Siddharta Gautama, o Buda, durante os 45 anos da sua pregação espiritual pelo mundo. Está escrito em uma linguagem simples e sintética, elucidando que cada ser humano é o único que se pode ajudar, sendo a presença dos Budas apenas um sinal de orientação no meio dos esforços pessoais de cada um. Os escritos condenam tenazmente o ascetismo e grandes sacrifícios físicos. A força pessoal é o maior credo budista.
O Dhammapada debruça-se sobre temas como severidade, maldade, amizade, castigo e pensamento, e, essencialmente, a obra dedica-se à bondade que há em todos os seres, pregando a não violência entre os homens.A origem e autoria da obra jamais chegaram a ser estabelecidas, sendo a sua essência principal talhada na mensagem espiritual dos ensinamentos de Siddharta Gautama, o Buda, que viveu entre os anos 560 e 480 a.C.
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Sábado, 19 de Setembro de 2009

JOGOS DE AZAR - JOSÉ CARDOSO PIRES

 

 

Juntamente com José Saramago, José Cardoso Pires é um ícone na literatura contemporânea portuguesa. Tendo uma vasta obra literária que abrange o romance (“O Delfim” - 1968 - , “Balada da Praia dos Cães” - 1982) , o teatro (“Corpo-Delito na Sala de Espelhos” - 1980), contos (“Os Caminheiros e Outros Contos” - 1949 -, “Histórias de Amor” - 1952 - , “O Burro em Pé” - 1979 - , “A República dos Corvos” - 1988) e ensaios. Em 1997 foi galoardo com o prêmio Pessoa e, em 1998, com um prêmio de reconhecimento por toda a sua obra literária.
Em 1963 foram fundidos os dois livros “Os Caminheiros e Outros Contos” e “Histórias de Amor”, com prefácio do autor, dando origem ao livro de contos intitulado “Jogos de Azar”. É justamente “Jogos de Azar” (6ª edição - Publicações Dom Quixote - 1993), que utilizaremos como análise dos contos de José Cardoso Pires. Considerando as datas dos contos, publicados pela primeira vez em 1949, vamos encontrar uma linguagem que rebuscava os contornos do então dominante neo-realismo (há reflexos evidentes deste estilo no conto “Os Caminheiros”), e a fase final deste. Portanto é uma linguagem de transição de estilos. Na escrita elaborada de José Cardoso Pires o universo proposto é quase marginal, de personagens saltimbancos a fazer do neo-realismo a ilusão dos sonhos. As personagens são descritas em determinado momento das suas vidas, ou seja, o tempo nos contos de José Cardoso Pires surge através de ações sucedidas em breve espaço de tempo do cotidiano da personagem. Pode ser numa tarde quente de verão, como numa noite de amor em um quarto de pensão, num simples momento de discussão banal e eufórica entre duas personagens, ou mesmo dentro de um comboio, ainda que por algumas horas. A personagem está presa no devir temporal do momento da ação, o passado quase nunca é importante, o futuro também não nos será revelado, o momento em que a vida da personagem é transformada é que nos será contado. Aqui o conto assume a sua forma mais tradicional. A personagem é-nos descrita num lapso de tempo em que a sua vida muda bruscamente.

Explorados e Exploradores

No conto “Os Caminheiros”, o mais neo-realista de todos, surge-nos a figura saltimbanco de um cego (Cigarra), que para ganhar a vida, canta com uma caixa de esmolas de terra em terra, é conduzido por um “empresário” (António Grácio), que farto de estar com o cego, consegue “vendê-lo” para um compadre. É a exploração da miséria humana que aqui nos é contada com a crueza do neo-realismo. A história é toda relatada numa caminhada das personagens pelas estradas numa tarde quente, onde é feita a transação. A vida das três personagens irá sofrer uma alteração brusca, o futuro nós podemos imaginar qual será. Cigarra é deixado no meio da estrada pelo amigo António Grácio, que o vende para o compadre Miguel, que cuidará de explorar o cego e o seu destino saltimbanco. O narrador heterodiegético aqui apresentado mostra-nos o estilo transitório de José Cardoso Pires, que nos será familiar mesmo depois do seu rompimento com o neo-realismo.

“Dum modo geral, António Grácio conversava com o companheiro sem o olhar. Assim aconteceu agora. Disse o que tinha a dizer e, depois assoprou duas ou três fumaças desesperadas. Não tardou muito, já estava outra vez a falar mas para dentro, em silêncio. Discutia possivelmente com ele mesmo e com o seu destino traidor. «Vida dum capado», repontava a meio dessa conversa que só ele sabia; e continuava em frente, a cabeça enterrada nos ombros, os olhos fitos nas duas sombras atarracadas que deslizavam no alcatrão.”

No conto “Amanhã, Se Deus Quiser”, vamos encontrar um narrador autodiegético, com as características semelhantes aos das personagens do conto anterior, Miguel e António Grácio. A personagem central, o Chico, conta-nos a sua vida com a irmã Odete e a mãe. A irmã é a figura explorada no conto, a única que trabalha na casa a coser fardas para os militares. O pai é um bêbedo inveterado, sempre perdido pelas tascas. Chico é o jovem que está sempre em busca de emprego, à espera do fim da recessão da guerra (a história passa-se na época da Segunda Guerra Mundial) e das promessas de pessoas conhecidas. A sua vida muda no dia em que a irmã descobre que ele a roubou, sendo o Chico expulso de casa pelo pai, apesar das súplicas da mãe. O drama familiar é visto com ironia, e com o mesmo olhar de José Cardoso Pires para os eternos bons malandros. É comum as suas personagens serem desocupadas, mesmo que as causas sejam exteriores a eles. O Chico, apesar de tomar a figura da personagem sem sorte e arcar com as conseqüências de todo o conflito familiar, tem uma vida mais tranqüila do que a irmã Odete, que para sobreviver sacrifica a saúde fortemente abalada, e a própria vida. A mãe agüenta o alcoolismo do marido e a presença de um hóspede na casa. O Chico simplesmente vive na tranqüilidade psicológica que tem diante da vida, à espera sempre de um amanhã melhor.

“Agora há não sei quantos dias que não vejo a minha velhota. Da última vez que ela me procurou conversámos como duas pessoas que se encontram com mil precauções, ou então como um preso que é visitado pela mãe, estando o preso neste caso em liberdade. Trazia-me alguma roupa, dinheiro e cigarros.”

Jogos Psicológicos da Existência Narrativa

Mais complexo, surge-nos o conto “Dom Quixote, as Velhas Viúvas e a Rapariga dos Fósforos”. O que poderia ter sido um romance, surge-nos como um conto psicológico e de estrutura social cáustica. O narrador autodiegético, transporta-nos para o mundo da rapariga narrada, Esmeralda, uma mulher que vive com uma velha repressora e que tem uma vida dupla. O narrador apaixona-se pela personagem narrada, vê nela a mulher inocente que a vida transforma, mas que não domina. Esmeralda apesar de ter relações (ou não teria?) com homens, nunca se deixa beijar por eles. É a forma de ser possuída sem se deixar possuir, ser amada, sem nunca amar. A personagem do narrador, quase um Dom Quixote, que por coincidências do destino ou por motivos que lhe são superior e inexplicáveis, segue toda a degradação física e psicológica de Esmeralda, culminada pela sua morte violenta. A velha senhora, mesquinha com a idade e com a neta, é quase que alheia a todo o drama. O mais psicológico de todo o conto, a morte de Esmeralda pode ser fantasia do narrador como pode ser real, tudo é visto como uma análise dos comportamentos, a rapariga pode ser uma prostituta, como uma mulher que simplesmente passa pela noite impune, pode ter sido violada, pode ter-se matado, a visão não é do que aconteceu, mas a que o narrador imagina e acredita ter visto. Para ele Esmeralda é eternamente a Zita, a sua miúda, aquela por quem sonhou e rebuscou o retrato. Mas a Zita era a estranha Esmeralda, uma vez revelada, ele próprio fugiu da rapariga, dentro dele o sentimento era o inatingível, o nunca alcançado, uma vez revelado o mistério de Esmeralda, dentro dele também os mistérios do fogo da paixão sucumbiram, e da sua miúda apenas a certeza da lembrança de uma pessoa inadaptada:

“Dona Augusta e a matilha de viúvas que a acompanhava permaneciam de mandíbulas escancaradas para o céu. Mesmo em frente, tinham o esquife branco de Esmeralda, toda de mármore virgem e de palmito enfeitada. “

Uma Simples Flor nos Teus Cabelos Claros” traz-nos dois pólos narrativos. O primeiro, a parte romântica de um livro que lê uma das personagens, o segundo é o mundo das mesmas personagens, resumido no espaço do quarto e em uma cama de casal. Enquanto a mulher discute o marasmo do dia e a distância do marido, este lê sobre um outro casal que fazem amor em um quarto de hotel. Enquanto as personagens da leitura do livro estão apaixonadas, a personagem que lê o livro sente-se incomodada pelas lamúrias da mulher. Enquanto o marido sonha com os banhos de mar dos jovens amantes do livro, a mulher pensa apenas na sua insônia, nas persianas da sala, nos colegas do trabalho, na falta de atenção do marido, que prefere estar a ler um livro a falar com ela. Há um desencontro de mundos dentro do quotidiano do casal. O conto é justamente esta comparação entre um e outro casal, a ficção dentro da ficção. A história do livro lida pela personagem é-nos descrita quase com um certo romantismo, enquanto que a história do homem que lê o livro é feita por diálogos. A técnica é perfeita, a forma narrativa adquire duas dimensões, dois espaços de tempo e de focalização narratória. O conto em si é brilhante tecnicamente, apesar de ser banal como ficção, sem uma profundidade no caráter das personagens, sem a veia dramática e literária que faz com que sejamos seduzidos pelas personagens. Os diálogos são simples e pobres psicologicamente e a nível literário. Lemos o conto e quando chegamos ao fim, achamos que nos escapou algo, sem pensarmos que fomos nós os culpados desta lacuna:

“«Quim...»
«Outra Vez?»
«Desculpa, era só para baixares o candeeiro. Que maçada, estou a ver que tenho de tomar outro comprimido.»
«Lê um bocado, experimenta.»
«Não vale nada de nada, filho. Tenho a impressão de que estes comprimidos já não fazem efeito. Talvez mudando de droga... É isso, preciso de mudar de droga.»


Os Costumes Morais na Interpretação das Personagens

No volume ainda podemos voltar a encontrar os saltimbancos malandros de José Cardoso Pires. Aparecem novamente no conto “Ritual dos Pequenos Vampiros”, três homens combinam entre si a violação de uma rapariga que um deles seduziu. Aqui somos confrontados com um estupro, mas que na visão das personagens era apenas um momento de prazer. Um mundo sórdido onde o que conta não é a realidade e a ética dos fatos, mas a interpretação deles na óptica das personagens, a brutalidade do ato é atenuada pela interpretação própria do mundo hostil das personagens.
Também inadaptados, mas desocupados, são os presos militares do conto “Carta a Garcia”, a ação é toda centrada dentro de um comboio que leva dois desertores do serviço militar escoltados pelos colegas de farda. No centro das atenções um melão que traz um dos militares, o leitor é posto em paralelo com as razões pelas quais os prisioneiros desertaram, os jogos de sedução e medo feitos por um dos desertores com uma navalha na mão, teoricamente para cortar um melão.
Jogos de Azar” é um livro de transição de estilos literários na carreira de José Cardoso Pires, uma característica constante da sua obra. Aqui encontramos o escritor em início de carreira e na sua fase neo-realista. O escritor dos anos noventa já traz uma maturidade contemporânea e diferente deste livro. Menos efêmero no devir temporal e mais profundo no perfil psicológico das personagens.

José Cardoso Pires

José Augusto Neves Cardoso Pires, considerado um dos maiores escritores portugueses do século XX, nasceu em 2 de outubro de 1925, na aldeia de São João do Peso, distrito de Castelo Branco. Acompanhou a família, que se mudou para Lisboa quando era criança, vivendo na capital portuguesa até a sua morte.
Em Lisboa, o escritor freqüentou o tradicional Liceu Camões; ingressou no curso de Matemática, na Faculdade de Ciências de Lisboa, mas não o concluiu.
De oficial da Marinha Mercante a jornalista e redator de publicidade, José Cardoso Pires recolheu experiência para a sua obra, tendo debutado esporadicamente por cada uma das profissões acima, dedicando-se definitivamente à arte da escrita, tornando-se um dos maiores nomes da literatura portuguesa, sendo indicado pelos portugueses para receber o Prêmio Nobel de Literatura, sendo preterido por José Saramago, em 1998.
A obra de José Cardoso Pires é marcada pelo seu trajeto pessoal, por suas deambulações na boemia noturna pelas ruas de Lisboa; pela sua inquietação diante da vida. É uma obra que não se identifica com nenhum grupo ou gênero literário português. É sobretudo, um grande romancista. Do seu primeiro trabalho, o livro de contos “Os Caminheiros e Outros Contos”, publicado em 1949, ao último, “Lisboa, Livro de Bordo”, publicado em 1997, o autor relacionou a sua obra com diversos seguimentos, sendo o mais longo com o neo-realismo. Cada livro do autor era um recomeço, uma nova proposta literária.
José Cardoso Pires morreu em Lisboa, em 26 de outubro de 1998, sendo sepultado naquela cidade, no Cemitério dos Prazeres. Em vida, o autor recebeu vários prêmios tanto como escritor quanto pela obra, entre eles o Prêmio Pessoa de 1997.

OBRAS:

Contos

1949 – Os Caminheiros e Outros Contos
1952 – Histórias de Amor
1963 – Jogos de Azar
1979 – O Burro em Pé
1988 – A República dos Corvos

Romance

1963 – O Hóspede de Job
1968 – O Delfim
1982 – Balada da Praia dos Cães
1987 – Alexandra Alpha

Crônicas

1991 – Cardoso Pires por Cardoso Pires
1994 – A Cavalo no Diabo
1997 – De Profundis, Valsa Lenta
1997 – Lisboa, Livro de Bordo

Ensaio

1960 – Cartilha do Marialva
1977 – E Agora, José?

Novela

1958 – O Anjo Ancorado
2008 – Lavagante (edição póstuma)

Teatro

1960 – O Render dos Heróis
1980 – Corpo-Delito na Sala de Espelhos

Sátira

1972 – Dinossauro Excelentíssimo

CRONOLOGIA

1925 – Nasce em São João do Peso, Castelo Branco, no dia 2 de outubro, José Cardoso Pires; filho de José António Neves e de Maria Sofia Cardoso Pires Neves.
1932 – Freqüenta a escola primária nº 14, no Largo do Leão, em Lisboa.
1943 – Publica em “Cidade dos Rapazes”, o ensaio “Loti, o Sonhador”.
1945 – Alista-se na Marinha Mercante como praticante de piloto.
1946 – Publica o conto “Salão de Vintém” no volume “In Bloco, Antologia de Jovens Universitários”.
1947 – Presta serviço militar em Vendas Novas e na Figueira da Foz.
1948 – Torna-se correspondente de inglês e intérprete de uma companhia de aviação.
1949 – Publica o seu primeiro livro, “Os Caminheiros e Outros Contos”. Trabalha como chefe de redação da revista “Eva”. Ao lado de Victor Palla, funda a coleção de bolso “Os Livros das Três Abelhas”.
1952 – Publica “Histórias de Amor”, que é apreendido pela ditadura salazarista, sendo o autor detido.
1953 – Morre-lhe o irmão, em acidente de aviação em cumprimento do serviço militar.
1954 – Publicado em Londres, na revista “Argosy”, o conto “Os Caminheiros”, com o título “The Outsiders”.
1958 – Publica “O Anjo Ancorado”. Participa do Congresso Mundial da Paz, em Estocolmo, Suécia.
1959 – Coordena a redação da revista “Almanaque”. Faz um breve exílio na França e no Brasil.
1961 – Regressa a Portugal, retomando a direção da revista “Almanaque”. Torna-se membro da Sociedade Portuguesa de Escritores.
1963 – Tem o primeiro romance publicado fora de Portugal, “O Hóspede de Job”, que sai em Milão, Itália, com o título “L’Ospite di Giobbe”.
1964 –O Hóspede de Job” recebe o Prêmio Camilo Castelo Branco.
1965 – Estréia no Teatro Império de Lisboa, a peça “O Render dos Heróis”.
1968 – Dirige o “Suplemento Literário” do “Diário de Lisboa”.
1974 – A Revolução dos Cravos põe fim à ditadura salazarista, José Cardoso Pires passa a dedicar-se aos estudos políticos de Portugal.
1975 – Torna-se vereador da Câmara Municipal de Lisboa.
1983 – Grande Prêmio do Romance é atribuído à “Balada da Praia dos Cães”.
1989 – O romance “Alexandra Alpha” recebe o Prêmio Especial da Associação de Críticos de São Paulo, Brasil.
1994 – Reúne as crônicas que escreveu semanalmente para o jornal “O Público”, publicando “A Cavalo no Diabo”.
1996 – É vitimado por um acidente vascular cerebral, que servirá de relato para o livro “De Profundis, Valsa Lenta”, publicado no ano seguinte.
1997 – Publica o seu último livro em vida, “Lisboa, Livro de Bordo”. Recebe o Prêmio Pessoa e o Prêmio Dom Dinis.
1998 – Morre em Lisboa, no dia 26 de outubro. Enterrado no Cemitério dos Prazeres.
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Quarta-feira, 12 de Agosto de 2009

NASCI COM PASSAPORTE DE TURISTA E OUTROS CONTOS - ALVES REDOL

 

 

Alves Redol deixou para o acervo da literatura portuguesa uma vasta obra que incluí desde escritos para o teatro, roteiros para filmes, livros para crianças, estudos, notas ensaístas, contos, romances, pequenas novelas e crônicas. É um dos representantes mais sólido do neo-realismo em Portugal. Por anos, graças à perseguição política, a sua extensa obra esteve dispersa, tendo sido feito nos últimos tempos um trabalho minucioso desses seus dispersos, onde podemos encontrar volumes intitulados de “Obras Completas”. É justamente um destes volumes que aqui tomamos como base: “Nasci Com Passaporte de Turista e Outros Contos” (1ª edição - Editorial Caminho - 1991). Através desta coletânea teremos uma noção da representatividade de Alves Redol como escritor neo-realista, embora nos fuja a sua importância como figura histórica da época em que fez delirar as crianças nas escolas com os seus contos, marcando uma vasta geração.
A coletânea traz-nos os contos de Alves Redol selecionados cronologicamente de 1940 a 1968. Num período de vinte e oito anos essenciais na história da Europa e de Portugal, vamos conseguir transportar-nos para aquele momento através do seu universo revelador e de denúncia latente. Numa viagem de tirar o fôlego nas páginas neo-realistas de Alves Redol, a descoberta da sua obra através dos contos é gratificante, empolgante. Percorrer quase três décadas da sua narrativa, é redescobrir uma página virada da história portuguesa, mas que as marcas ainda se fazem recentes, compondo sem máscaras a essência de um povo.

Os Contos da Década de 1940

1940 foi o ano do auge da Segunda Guerra Mundial, com uma Alemanha armada e temível, uma França de rastos, uma Inglaterra a resistir, uma Espanha num caos, totalmente desfeita pela guerra civil, uma Itália fascista e totalitarista, um Portugal neutro, mas com uma política de melhor situação diante do conflito. Apesar da neutralidade do país, a miséria da guerra era sentida pelas classes menos favorecidas.
É justamente da miséria humana que nos fala os contos de 1940. A mais profunda miséria do ser humano, retratada de uma forma dramática, muitas vezes a tocar no melodrama. Os contos de Alves Redol são recheados de personagens sem saída, marcadas pelo fatalismo da vida e, principalmente, pela condição social. Talvez seja este o ponto fulcral dos seus contos, ao contrário de Manuel da Fonseca que descreve as suas personagens cobertas de um saudosismo infindável e melancólico, cuja fatalidade não trespassa o estado inerte da melancolia e o olhar latente da saudade; Alves Redol cria um ambiente angustiado, tenso, denso, quase a mergulhar no caos da sobrevivência social e humana, como o ambiente vivido pelos anos de guerra, onde estar vivo hoje é o futuro de amanhã, mas a incerteza do agora.
Nos seis títulos escritos em 1940 (“A Marca”, “Aquela História”, “A Corneta de Barro”, “Lua de Pé”, “Rafeiros” e “Nasci Com Passaporte de Turista”), que encontramos no livro, a sombra da guerra está por detrás deles, sempre refletidos pela miséria do tempo. Também a linguagem é a mais diversificada, o estilo de Alves Redol é inconfundível, por talvez fugir de criar estilizações e técnicas, pois a linguagem muda de ambiente para ambiente, onde o universo das palavras do cotidiano das personagens é cabalmente retratado, podemos assim, encontrar termos populares, diálogos com os erros do português falado diante do escrito, portanto a linguagem é diferente se uma história é de pescadores e outra é de um empregado de escritório. Para compreendermos melhor, vejamos as palavras de José Manuel Mendes, que fez o prefácio de “Nasci Com Passaporte de Turista e Outros Contos”:

“(...) De “A Marca” a “Tatuagem” ou “Dois Pássaros Nocturnos” não surpreendemos só o transcurso de decênios de inconformismo oficinal, na constância de um núcleo ideológico de reiterações; apreendemos o universo compósito de uma atitude que se não deixou muralhar pela esclerose nem alijou o convívio com linguagens, técnicas e movimentos que ousavam além do mimético neonaturalista, do representativismo esquemático, da própria consecução mais perdurável dos neo-realistas.(...)”

Também as personagens de Alves Redol têm características muito próprias. As mulheres vêem sempre sem dote para o casamento, trazendo sempre uma estrutura forte para o trabalho, são normalmente mulheres sem a vaidade feminina habitual, são mais companheiras do que esposas. O universo feminino traz-nos sempre a matriarca da família, pobre, resignada, submissa e colaboradora do homem. A vida para elas é o suor do trabalho, o sorriso dos filhos, a angústia com as aflições do marido, normalmente explorado, desempregado, quase frágil diante delas, mas sempre com a última palavra.
As crianças do universo de Alves Redol são inteligentes, trazendo maliciosamente a marca do inconformismo do autor. Não são raras às vezes que o mundo é visto pela óptica de uma criança (“A Corneta de Barro”, “Os Sonhos” ou “O Comboio das Seis”), onde mergulhamos nos seus sonhos e esperanças diante das limitações sociais e econômicos.
Também o Ribatejo é uma constante na sua obra, já que ali nasceu (Alves Redol é vilafranquense). As histórias passam-se normalmente entre o Vale do Tejo nas mediações de Vila Franca de Xira, da Chamusca, da Golegã, de Salvaterra dos Magos, de Samora Correia, de Alverca, enfim, de uma zona ainda pouca urbana como é atualmente. Para dar mais impacto dramático, normalmente repete parágrafos inteiros, onde traduz-nos uma idéia da consciência ou ironia do tema. O seu explicit é dado em duas linhas, sem maiores reflexões ou meditações.
Dos contos de 1940, podemos dividi-los em três universos de espaço: o mar, o campo e a cidade. Nos contos do mar ou com a temática sobre a miséria dos pescadores, se assim quisermos designá-los, encontramos “A Marca” e “Lua de Pé”. No primeiro - mais uma noveleta do que um conto -, encontramos a descrição das lotas do Tejo, do seu movimento de comércio. Aqui os pescadores sofrem na carne os perigos da profissão, a exploração social é ideologicamente descrita, apesar dos condicionalismos político-ideológicos vividos na época, onde a apertada censura fazia com que o autor usasse de artifícios melodramáticos para fugir talvez dos olhos da repressão. O texto é coberto por metáforas que fogem do naufrágio da redundância para, como já foi dito, o melodrama, a densidade deixa no ar uma sombra de tragédia iminente, como se um acidente fosse acontecer a qualquer momento e a morte tragar a vida de qualquer uma das personagens ultrajadas, exploradas, humilhadas. É como se uma revolução social estivesse próxima de acontecer, mas a força do poder é mais tenaz e a revolta é engolida, mastigada, quase com um gosto de veneno. Logo o clímax da revolta é substituído pelos gritos dos vendedores, das varinas, o anúncio do preço do peixe a mostrar o dia a dia, levando embora qualquer revolta:

A Gracinda do Manco vem à lota pela primeira vez, depois que o marido se finou. Traz com ela os dois filhitos, ensonados e rabugentos. O mais velho, agarrando-lhe as saias, a tiritar, encolhido, camisita rota a cobrir-lhe a barriga bojuda e tostada das soalheiras, sexo destapado, pernas finas e arqueadas. O mais novo - poucos meses ainda - enrola-se-lhe no xaile, rosto sujo de quanta porcaria lhe veio à mão, rameloso, olhos azuis a fixarem-se no Tejo, como retendo lá dentro a miragem de uma tragédia que um dia lhe contarão, quando começar na labuta do rio, como moço de fragata ou aprendiz de pescador.

A linguagem é a do dia a dia dos pescadores, muitas vezes coberta de erros gramaticais pouco inteligíveis para alguém que não viva naquele cotidiano. Encontramos em “Lua de Pé”, o Manco vivo e sem dinheiro, sem pão, sem peixe para pescar. A Gracinda a dar aos filhos o último pedaço de pão, no dia seguinte não iria às compras, pois o crédito nas mercearias tinha-lhe sido cortado. É no meio de todo esse melodrama que o Manco sai para pescar. Numa noite que ninguém se atreveria a sair, lá vai ele, desafiando a todos os perigos para trazer o pão do dia seguinte. A miséria está diante de cada movimento das personagens. A fome é uma sombra devastadora das limitações do mundo e da ideologia da cada personagem. A mulher que sem saída apenas reza aos santos, sem convicção, mas com fé, porque a fé vence as convicções quando estas não superam o vazio da sobrevivência humana. Uma gente abandonada pelo mundo, à deriva dos ventos:

Nossa Senhora na moldura de conchas com o seu menino ao colo. A lamparina a iluminá-la no seu pingo de claridade. E Nossa Senhora sorria-lhe.
Cerrou as portas e caiu de joelhos defronte da cômoda. Silêncio em toda a casa. Os rapazes adormecidos, a pêndula do relógio sem movimento.
Ela e Nossa Senhora. Nossa Senhora a sorrir-lhe.”


Ao deixarmos os contos do mar, vamos encontrar os contos do campo: “Rafeiros” e “A Corneta de Barro”. No primeiro surge-nos a figura de um capataz (Feliciano) e de um cão rafeiro (Tejo), ambos fiéis servidores de um patrão latifundiário. Feliciano e Tejo eram denominados de rafeiros por toda a Vila, devido à sua fidelidade ao patrão. É o exemplo típico da repressão e do canalizador da repressão. O patrão é a repressão e Feliciano o executor da mesma. Novamente a ideologia a ser invocada, de uma forma ainda que velada, mas muito fácil de ser percebida. Feliciano é odiado por todos, até pelas mulheres consideradas da noite, que paradoxalmente entregam-se não a ele, mas àqueles que ele oprime. Ao canal da repressão resta o paradoxo da solidão, compensada pela fidelidade que lhe deposita Tejo, o cão. Daí os dois rafeiros:

Um trazia-lhe as carícias das patas e da língua, e os seus ladridos de júbilo. O outro vinha dar-lhe novas de searas e gados ou de algum alugado mais respingão ou mais sorna no trabalho.”

Em “A Corneta de Barro” novamente o tema do desemprego, do homem agricultor sem terra para cavar. Retrato vivo da época da guerra, onde o trabalho daqueles que serviam nas quintas dos senhores de posse era cada vez mais escasso. No meio de todo o drama social, encontramos a figura obstinada de uma criança que, após ganhar algum dinheiro na vindima, sonha em ter uma corneta de barro. Agarra este sonho com ansiedade e obsessão. Vai até a feira com o pai na mais completa embriaguez do sonho. Finalmente compra com o seu dinheiro o seu primeiro brinquedo. Mas como a fatalidade é a constante nos contos de Alves Redol, ao correr para abraçar a mãe cai e parte a corneta, partindo também o seu sonho. É um conto que poderíamos comparar com “O Cavaquinho” de Miguel Torga, onde uma criança sonha com uma prenda de natal, que o pai, também miserável trabalhador do campo, promete trazer-lhe quando voltar. Como no conto de Alves Redol, o de Torga também termina em tragédia, pois o pai morre quando trazia um cavaquinho para o filho. As duas vertentes dos anos difíceis de Portugal retratadas em temas semelhantes por dois autores contemporâneos: Miguel Torga e Alves Redol.

‘Caminho comprido. Mais comprido que na vinda. Era o primeiro brinquedo seu. E ganho por ele. Bem empregadas canseiras no rabisco. Na Boiça haveria mais brincadeira. Tocaria para o toiro e como os militares. E como o homem do circo, a chamar todo o mundo para a entrada. Mandaria nas brincadeiras, porque a corneta era sua. Acabavam-se os empurrões do Pipio. Se quisessem corneta seria homem da unha, capinha e até cavaleiro. Estava farto de ser boi. Deitado para o chão nas pegas, picado nas esperas. Agora a coisa mudara.’

O Conto dos Sobreviventes da Guerra

E nesse tumultuado 1940 que surge a surpresa do conto “Nasci Com Passaporte de Turista”. Aqui um tema que na época estava no limiar daquela que seria a maior catástrofe da guerra, o anti-semitismo do nazismo. Momento dramático da história, a fuga de judeus da Alemanha de Hitler para os países da Europa Ocidental estava a ser duramente controlada e limitada pelas fronteiras, nenhuma autoridade dos países do ocidente quiseram saber das conseqüências que teria esta recusa, colaborando de uma forma indireta com o grande holocausto. Em Portugal, que devido a sua localização geográfica era o principal país de fuga para o Novo Mundo (América do Norte e América do Sul), Salazar limitou vistos de entrada aos flagelados da Europa ocupada pelos nazistas. Houve um comboio cheio de judeus que ao chegar à fronteira portuguesa, foi selado e mandado de volta para a Alemanha, o seu destino todos nós sabemos qual foi. Em Bordéus, o cônsul português na altura, Aristides de Sousa Mendes, contrariando as ordens de Salazar, forneceu vários vistos que salvaram a vida de muitos judeus. O cônsul foi desonerado pela insubordinação e morreu no desemprego em Portugal, vítima do sistema repressivo que nunca o perdoou, mesmo a saber do extermínio de seis milhões de judeus nos campos de concentração alemães, quando a guerra acabou.
Alves Redol conta-nos a história de Edith, uma jovem judia que é vítima da mudança dos ventos na Alemanha, quando vê da noite para o dia o seu povo ser responsável por todos os males do país. É o conto mais psicológico de Redol, a personagem central é uma mulher diferente das habituais do universo redoliano. A personagem é intimista, o psicológico vai além do ambiente que a gera. A morte da mãe, a prisão no tempo através das lembranças, a sua forma de recomeçar longe do prédio e da janela de onde viu o mundo transformar-se. A linguagem já não é a dos pescadores ou a dos homens do campo. É uma linguagem de uma mulher inteligente, da cidade e do mundo. Edith foge da Alemanha, mas não consegue visto de trabalho para outro país, só consegue visto de turista. É com a amargura da desilusão (não a da guerra, pois o ano é de 1940 e as atrocidades cometidas contra o povo judeu ainda não tinham vindo à luz) que ela vê que jamais irá obter um visto de trabalho, e será nas ruas, com uma identidade qualquer que poderá trabalhar, nas ruas, nas noites, como companheira de ninguém. Certamente se o conto fosse escrito cinco anos depois a denuncia seria outra, a tragédia também. Neste conto a tragédia habitual dá passagem para a realidade da guerra, mais melancólica aqui do que trágica.

Naquela janela da esquerda passei longas horas de meditação, devorando páginas de livros que me emprestavam. Que abismo se abria, se me debruçava no parapeito da janela e olhava os que iam e os que vinham. Aqueles livros não me diziam dos que voltavam a casa de camisolas ensopadas, rostos negros e mãos a abanar.”

Retratos da Miséria Portuguesa na Época do Salazarismo

E os anos quarenta corriam. A guerra exigia definições de posturas de Salazar. Só a partir da invasão da Normandia pelas forças aliadas é que Salazar deixou a neutralidade, apoiando os aliados. Em 1944 surge-nos o conto “Espólio”, onde vamos encontrar a figura caricata e decadente de um velho montado na sua égua, também velha e sem forças. O velho sonha com a mulher morta, nele há a vontade de juntar-se a ela. Do seu espólio só lhe restara a égua Judia e uma casa a ruir. Sonha com a morte, mas não tem coragem para tanto, sonha em vender ou matar a égua, também não tem coragem. Surge-nos um Dom Quixote ribatejano, sem sonhos bons, sem moinhos para voar, sem guerras para fazer, apenas com a companhia da égua:

“Que passassem os outros e se rissem. Ele também se ria deles, pois bem conhecia da vida para ter a certeza que iam enganados. Fossem andando agora, a folgar enquanto era tempo. 'Atrás de tempo, tempo vem'.

Em 1945 iremos encontrar o conto “Os Sonhos”. Um vadio escreve uma carta imaginária da prisão onde está para a sua mãe. Na suposta carta ele relembra da infância miserável, da noite em que a mãe fez sonhos para que ele fosse vender pelo Cais do Sodré. A criança vai vender os sonhos, única fonte que iria gerar comida para o dia seguinte. No caminho encontra um velho mendigo que tem fome, com ele divide os sonhos. Ao chegar em casa sem os sonhos e sem o dinheiro, é castigado pela mãe. Na prisão ele ri da ironia da única vez que fora bondoso e que fora castigado por ser bondoso. Longe de ser um conto de Dickens, é uma ironia portuguesa, sem paga, onde a prisão parece ser a única recompensa:

Diz lá, não te confranjas em confessá-lo. O que lá vai, lá vai. Mas tu achas realmente que eu fui malandro e mereci aquela tareia, quando dei sonhos a um velho desiludido?... Quando dei sonhos a uma criança sem jantar e cheia de tentações?...”

Outra noveleta nos surge em 1946: “O Comboio das Seis”. O comboio é a personagem central. O mesmo comboio que atravessa o Ribatejo, indo parar em Lisboa. Personagens do dia a dia são nos atiradas página a página. Por fim, concentra-se na figura de um menino e a sua primeira viagem de comboio. Primeira e última, pois ao tentar descer do comboio, a criança cai na linha e é atropelada pela máquina, a tragédia novamente faz o explicit da história.
Chegamos a 1949 com dois contos: “O Cravo” e “Romaria”. No primeiro, um rapaz do campo é levado por uma mulher para Lisboa, sendo enfiado nas obras a trabalhar e em um pátio a viver. A inadaptação à vida da cidade é visível, mas ele nada diz. Por fim fica desempregado. Passa o seu tempo de vadiagem a cultivar um cravo, com o qual sente-se transportado outra vez para a vida do campo. A mulher acha-o um vagabundo, e num momento de mesquinhez da alma, parte-lhe o cravo. E toda a revolta do homem concentra-se no cravo despedaçado, que faz com que agrida violentamente a mulher. Em conseqüência ao ato de violência, vai preso por agressão e fica sem os filhos e sem a mulher.
Romaria” traz-nos as festas das aldeias Ribatejanas e a sua importância cultural. Aqui o relato de uma procissão, com todos os seus rituais, crenças e costumes; descrita cabalmente. Assim termina a década de 1940 para o nosso estudo.

A Ebulição dos Tempos no Último Conto

Em 1950 “Tatuagem” traz-nos o inconformismo de Alves Redol. Dez anos depois e as personagens continuam fiéis a si próprias, e o autor mais mordaz na descrição da miséria da comédia humana. O conto retrata os homens que são levados presos para longe das suas aldeias. No caminho encontram um deles que passa o tempo a fazer tatuagens, o que dá uma outra “marca” na vida dos homens. Aqui o paradoxo de “A Marca” e “Tatuagem”, todas elas a cravar na pele a dor da miséria.
Finalmente chegamos a 1968. Tal como a guerra, o salazarismo também começava a ser cercado. A doença do ditador traz esperanças para um momento de liberdade e democracia, mas o povo português teria que passar pela humilhação de uma feroz guerra colonial por mais alguns anos, até que uma primavera de Abril encerrasse de vez um mundo antigo. O último conto de Alves Redol a ser analisado é justamente deste ano, “Três Contos de Dentes Para o Ofício 4001”. Ao contrário da tragédia que sempre utilizou nos seus contos, aqui a sátira aos costumes é o ponto principal. Um presidente de câmara que terá a visita de um governador, mas que não pode sorrir porque tem os dentes em estado lastimável. Daí resolve tirar todos os dentes e pôr uma placa, que irá lhe custar três contos. É justamente a adaptação à placa que é satirizada, quando este tenta fazer um discurso, não conseguindo, pois a placa ou foge-lhe da boca ou quase é engolida. Alves Redol está atento ao tempo e às mudanças, o filho do presidente de direita, que é de esquerda, pois tem um retrato de Che Guevara no quarto. O pai que espanca o filho por este ‘sacrilégio’, mas este foge para a França, justamente a França de 1968. O conto traduz de uma forma brilhante uma época em ebulição, à procura de futuras primaveras democráticas. Assim chegamos à conclusão da importância de Alves Redol como representante do neo-realismo e de uma época que soube sempre se mostrar inconformista, utilizando a escrita, literária ou não, como veículo.

Alves Redol

António Alves Redol é o escritor que sintetiza o movimento Neo-Realista em Portugal, sendo o seu principal representante. Nasceu no dia 29 de dezembro de 1911, em Vila Franca de Xira, distrito de Lisboa. Filho de uma família pobre e humilde, começou a trabalhar muito cedo para manter o seu sustento. Aos 16 anos migrou para Angola, em busca de maiores oportunidades. Ficaria três anos na então colônia portuguesa da África.
Em Portugal, Alves Redol faz oposição ao regime salazarista, integrando-se ao MUD (Movimento de Unidade Democrática). Mais tarde filia-se ao PCP (Partido Comunista Português). Em 1936 passa a colaborar com o jornal “O Diabo”, para o qual escreve contos e crônicas.
Em 1939 publica o seu primeiro romance, “Gaibéus”, nome dado aos camponeses que faziam a ceifa do arroz no Ribatejo, em meados do século XX. Para escrever o livro, o autor chegou a morar no campo, colhendo dado sobre o trabalho daqueles homens. A obra revela uma profunda preocupação social, ainda que restringida pela censura e perseguição política do regime do Estado Novo. “Gaibéus” além de marcar oficialmente o início da carreira de escritor de Alves Redol, consolida também, o Neo-Realismo em Portugal.
Alves Redol tem em suas obras a denúncia das injustiças sociais, transformando-as em um retrato fiel da sociedade que viveu. Graças à militância simpatizante ao PCP, à denúncia latente que ele insistia em acusar para transformar uma sociedade injusta, chegou a ser preso e torturado. Foi o único autor português a ter os seus livros revisados por uma censura prévia. Mesmo perseguido, jamais deixou de militar contra o salazarismo, o que lhe custou a restrição da sua obra, tendo que recorrer a outras atividades para sobreviver.
Alves Redol morreu em 29 de novembro de 1969, sem ver o fim do Estado Novo.

OBRAS:

Romance

1939 – Gaibéus
1941 – Marés
1942 – Avieiros
1943 – Fanga
1945 – Anúncio
1946 – Porto Manso
1949 – Horizonte Cerrado
1951 – Os Homens e as Sombras
1953 – Vindima de Sangue
1954 – Olhos de Água
1958 – A Barca dos Sete Lemes
1959 – Uma Fenda na Muralha
1960 – Cavalo Espantado
1962 – Barranco de Cegos
1966 – O Muro Branco
1972 – Os Reinegros (Publicação Póstuma)

Teatro

1945 – Maria Emília
1948 – Forja
1967 – O Destino Morreu de Repente
1972 – Fronteira Fechada

Contos

1940 – Nasci com Passaporte de Turista
1943 – Espólio
1946 – Comboio das Seis
1959 – Noite Esquecida
1962 – Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos
1963 – Histórias Afluentes
1968 – Três Contos de Dentes

Literatura Infantil

1956 – Vida Mágica da Sementinha
1968 – A Flor Vai Ver o Mar
1968 – A Flor Vai Pescar Num Bote
1969 – Uma Flor Chamada Maria
1970 – Maria Flor Abre o Livro das Surpresas

Argumentos de Filmes

1952 – Nazaré
1975 – Avieiros

Estudos

1938 – Glória – Uma Aldeia do Ribatejo
1949 – A França – Da Resistência à Renascença
1950 – Cancioneiro do Ribatejo
1952 – Ribatejo (Em Portugal Maravilhoso)
1964 – Romanceiro Geral do Povo Português

Conferência

Le Roman de Tage (Edição da Union Française Universitaire – Paris)

CRONOLOGIA

1911 – Nasce, em Vila Franca de Xira, em 29 de dezembro, António Alves Redol.
1927 – Conclui o Curso Comercial.
1928 – Em 5 de abril, parte para Angola, onde fica por três anos.
1932 – Em 5 de junho, é publicado em “O Notícias Ilustrado” de Lisboa, a sua primeira novela, “Drama na Selva”.
1934 – Realiza no Grêmio Artístico Vilafranquense a sua primeira palestra, “Terra de pretos, ambição de brancos”.
1936 – Casa-se com Maria dos Santos Mota. Passa a colaborar para o jornal “O Diabo”. Participa da Conferência sobre arte em Vila Franca de Xira.
1939 – Publica o primeiro romance, “Gaibéus”, consolidando o movimento Neo-Realista em Portugal.
1943 – Nasce o seu único filho, António, em 13 de março, data que coincide com o lançamento do seu livro “Fanga”.
1944 – Preso pelo Estado Novo, em 12 de maio. Durante alguns anos, é o único escritor português a ter a obra submetida a uma censura prévia.
1945 – Em 10 de novembro, é pedido que faça parte da comissão central do MUD (Movimento de Unidade Democrática). Encenada a sua primeira peça, “Maria Emília”.
1947 – Nomeado Secretário Geral da Secção Portuguesa do Pen Club.
1948 – Integra a delegação portuguesa que intervém no Congresso dos Intelectuais para a Paz, em Wroclaw, Polônia. Encenada “Forja”.
1949 – Publica o romance “Horizonte Cerrado”, primeiro volume de uma trilogia sobre os vinhateiros do Douro, conhecida como “Ciclo Portwine” (“Horizonte Cerrado” – 1949, “Os Homens e as Sombras” – 1951, e “Vindima de Sangue” – 1953).
1950 – Recebe o prêmio Ricardo Malheiros pelo romance “Horizonte Cerrado”.
1962 – Publica o romance que é considerado pela crítica como o melhor da sua obra, “Barranco de Cego”.
1963 – Em outubro é preso novamente.
1964 – Mesmo a despeito do regime salazarista em relação à obra de Alves Redol, é iniciada em Vila Franca de Xira grandes comemorações para marcar os 25 anos do lançamento de “Gaibéus”, considerado o marco do Neo-Realismo português. As comemorações estendem-se por todo o país.
1969 – Morre em Lisboa, no dia 29 de novembro.
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Sexta-feira, 24 de Julho de 2009

A CANÇÃO DE AMOR DE J. ALFRED PRUFROCK - T. S. ELIOT

 

 

Um dos mais belos poemas produzidos na literatura inglesa do século XX, “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock”, com as suas imagens floridas em uma densa agonia destilada em versos livres, a traduzir um angustiante estado da alma, complexa, com palavras sopradas como uma canção simbolista, rumando ao vazio.
T. S. Eliot escreveu o poema em 1912, numa época de marasmo que se seguiu aos novos costumes trazidos pela Revolução Industrial, e o período de conturbações que culminaria com o início da Primeira Guerra Mundial. “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock” só seria publicado pela primeira vez em 1915, na revista “Poetry”, e lançado no livro “Prufrock e Outras Observações”, em 1917, que trazia uma recolha de poemas do autor. Uma vez publicado, o poema deu uma outra visão à poesia inglesa que se espalhou pelo mundo.
Longo, angustiado e angustiante, T. S. Eliot mostra o medo de existir no tédio, a luta entre o desejo e a impotência, a existência e o envelhecer, a ansiedade de transitar em um novo mundo urbano e a necessidade de alienar-se a ele. Numa concepção metafísica, sentimentos e idéias interligam-se aos objetos em volta.
Na seqüência da epígrafe de Dante, “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock” abre-se em um monólogo misterioso, quase familiar, nos antípodas da dicção vitoriana. Prufrock deambula entre imagens claras e sombrias, desenha-se o homem sensível, burguês, blasé, que oscila entre a erudição sublime dos sentimentos, traduzida por cantos de sereias e alusões a Michelangelo; e ao grotesco do cotidiano, revelado em imagens de hotéis baratos, de homens em mangas de camisa. Se ao início Prufrock conduz o desejo e a intenção de levar a amada para o quarto de hotel, por fim ele revela-se estéril diante do mundo.
O poema não deixa de ser uma canção de amor, bela e inquietante, que sopra sobre uma hesitação perene, os sentimentos parecem petrificados pela existência, oscilando entre o desejo e a estabilidade do tédio. As máscaras de Prufrock revelam-lhes os sentimentos e também o próprio T.S. Eliot.
A tradução do poema aqui apresentada é do português João Almeida Flor, que a designou como “uma ordem de construção musical”. Na transposição para a língua portuguesa, os versos ficaram maiores do que os do poema original. O tradutor preferiu estar atento aos ritmos sonoros e à musicalidade do poema.

T. S. Eliot

Thomas Stearns Eliot nasceu em St. Louis, Estados Unidos, a 26 de setembro de 1888. Mudou-se para a Inglaterra aos 25 anos, em 1914. Em 1927, aos 39 anos, tornou-se cidadão britânico, e como tal, tornou-se um dos maiores representantes do modernismo britânico, sendo um dos seus principais poeta e dramaturgo.
A poesia de T. S. Eliot revela uma originalidade profunda e singular, repleta de muitas influências, entre elas a dos simbolistas franceses. Ao ler o livro “The Symbolist Movement in Literature”, de Arthur Symons, revelou-se-lhe uma grande influência, que culminaria com a poesia de Laforgue. Os estudos de filosofia auxiliaram o escritor a ter uma sensível concepção metafísica, ligando assim as palavras e idéias a objetos singulares, traduzindo-as em linguagem falada.
T. S. Eliot rompeu com a tradição poética do século XIX. Os temas da sua obra eram o vazio, a penitência, a redenção, a futilidade da existência, a angústia, a incerteza do tédio e a morte.
O escritor recebeu o prêmio Nobel de literatura em 1948. Era um homem angustiado com o tédio, um denso propagador da desolação vincada pelas palavras livres, límpidas em seus símbolos. Morreu em Londres, em janeiro de 1965.


A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock (tradução)

S’i credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza più scosse.
Ma però che già mai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s’i’odo il vero,
Sanza tema d’infamia ti rispondo.


(Dante Alighieri, La Divina Commedia, Inferno)


Então vem, vamos juntos os dois,
A noite cai e já se estende pelo céu,
Parece um doente adormecido a éter sobre a mesa;
Vem comigo por certas ruas semidesertas
Que são o refúgio de vozes murmuradas
De noites em repouso em hotéis baratos de uma noite
E restaurantes com serradura e conchas de ostra:
Ruas que se prolongam como argumento enfadonho
De insidiosa intenção
Que te arrasta àquela questão inevitável...
Oh, não perguntes “Qual será?”
Vem lá comigo fazer a tal visita.

Passeiam damas na sala para além e para aqui
E falam de Miguel Ângelo Buonarroti
A névoa amarela que esfrega as costas nas vidraças
O fumo amarelo que esfrega o focinho nas vidraças
Passou a língua dentro dos recantos da noite,
Demorou-se nos charcos que ficam na sarjeta,
Deixou cair nas costas a fuligem solta das chaminés,
Deslizou pelo terraço, de repente deu um salto,
E, ao ver serena aquela noite de Outubro,
Deu uma volta à casa, enroscou-se e dormiu.

Haverá por certo um tempo
Para o fumo amarelo que desliza pela rua
E esfrega as costas nas vidraças;
Haverá um tempo, tempo
De compor um rosto para olhares os rostos que te olharem;
Tempo de matar, tempo de criar,
E tempo para todos os trabalhos e os dias, de mãos
Que se erguem e te deixam cair no prato uma pergunta;
Tempo para ti e tempo para mim,
E tempo ainda para cem indecisões
E outras tantas visões e revisões
Antes de tomar o chá e a torrada.

Passeiam damas na sala para além e para aqui
E falam de Miguel Ângelo Buonarroti.

Haverá por certo um tempo
De pensar se corro tal risco. “Corro tal risco?”
Tempo de virar costas e descer as escadas
Com esta clareira calva no meio do cabelo –
(Hão-de dizer: “Este já tem pouco cabelo!”)
Com a casaca, colarinho hirto subido até ao queixo,
Gravata distinta e discreta mas ornada de um sóbrio alfinete –
(Hão-de dizer: “Que magro está, nos braços e nas pernas!”)
Vou correr o risco
De perturbar o universo?
Num só minuto há tempo
Para decisões e revisões, a revogar noutro minuto.

Pois já as conheço todas bem, conheço todas –
Sei as noites, as tardes, as manhãs,
Às colheres de café andei medindo a minha vida;
Sei que em breve agonia se esvaem as vozes
Abafadas na música de um quarto mais além.
Como havia eu de ousar, assim?

E já conheço os olhares, conheço todos –
Olhares que te reduzem a fórmulas e a dizeres,
E quando eu for apenas fórmula, esticado em alfinete,
Quando estiver na parede, trespassado, contorcido,
Como haverei então de começar
A cuspir as pontas de cigarro dos meus dias e jeitos?

E como havia eu de ousar, assim?
E já conheço os braços, conheço todos –
Braceletes nos braços brancos e nus
(Mas com uma penugem loira à luz do candeeiro)
Será pelo perfume de um vestido
Que sou levado assim a divagar?
Braços estendidos na mesa ou envoltos num xaile.
E havia eu de ousar assim?
Por onde havia eu de começar?

E se eu disser que dou passeios por becos quando anoitece,
E vou fitando o fumo que sobe do cachimbo
De homens em mangas de camisa, à janela, solitários?...

Eu devia ter sido um ferro de duas garras
A rasgar o fundo desses mares de silêncio.

E a tarde, a noite, a dormir tão sossegada!
Afagada por dedos esguios,
A dormir... exausta... ou a fingir,
Estirada aqui no chão, à beira de nós dois.
Depois do chá, dos bolos, dos gelados, eu tinha ainda
Aquela força que provoca a crise do instante?
Mas apesar de lágrimas e jejuns, lágrimas e preces,
E apesar de ter visto a minha cabeça (um tanto calva já) ser entreguenuma salva,
Não sou nenhum profeta – e isso pouco importa;
Já vi tremer o meu instante de esplendor
E vi o eterno lacaio agarrar-me a casaca, rindo sorrateiro,
E bastará dizer que tive medo.

E tinha valido a pena, depois de tudo isto,
Depois da geleia, das xícaras, do chá,
Entre porcelanas, a meio de qualquer conversa de nós dois,
Tinha valido a pena
Ter rematado o assunto com um sorriso,
Ter estreitado o universo numa bola
E fazê-la rolar, rumo a qualquer questão inevitável,
E dizer: “Sou Lázaro e venho de entre os mortos.
Voltei para vos contar tudo, vou contar-vos tudo” –
Se alguém, ajeitando a cabeça dela numa almofada,
Dissesse: “Não era nada disso que eu queria dizer
Não é isso, nada disso.”

E tinha valido a pena, depois de tudo,
Tinha mesmo valido a pena,
Depois dos pátios, dos poentes, das ruas chuviscadas,
Dos romances, das xícaras de chá, das saias arrastando pelo chão –
E depois disto e tantas coisas mais? –
Não é possível dizer mesmo o que quero dizer!
Mas se uma lanterna mágica mostrasse na tela a imagem dos nervos:
Tinha valido a pena
Se alguém, compondo a almofada ou tirando um xaile,
Dissesse, ao voltar-se para a janela:
“Não é isso, nada disso,
Não era nada disso que eu queria dizer.”

Não! Não sou o príncipe Hamlet e nem tinha que ser;
Sou um fidalgo da corte, desses que servem
Para aumentar a comitiva, abrir uma ou duas cenas,
Dar conselhos ao príncipe; instrumento dócil, é claro,
Reverente, satisfeito por ser prestável,
Político, meticuloso e avisado;
Cheio de sentenças doutas, um tanto obtuso todavia;
Às vezes, por sinal, quase ridículo –
Quase o bobo, às vezes.

Estou a ficar velho... Estou a ficar velho...
Hei-de andar com a dobra da calça revirada.

E se eu puxar atrás o risco do cabelo? Arrisco-me a trincar
um pêssego?
Hei-de vestir calça de flanela branca e passear na praia.
Já ouvi as sereias cantando, umas às outras.

Creio que para mim não vão cantar.
Tenho-as visto na direcção do mar a cavalgar as ondas
Penteando crinas brancas de ondas encrespadas
Quando o vento revolve as águas escuras e brancas.

Ficámos nas mansões do mar nós dois em abandono
Entre as ondinas com grinaldas de algas castanhas purpurinas
Até que vozes humanas nos despertam e morremos naufragados.

Tradução: João Almeida Flor

The Love Song of J. Alfred Prufrock (original)

S’i credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza più scosse.
Ma però che già mai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s’i’odo il vero,
Sanza tema d’infamia ti rispondo.

(Dante Alighieri, La Divina Commedia, Inferno)

Let us go then, you and I,
When the evening is spread out against the sky
Like a patient etherized upon a table;
Let us go, through certain half-deserted streets,
The muttering retreats
Of restless nights in one-night cheap hotels
And sawdust restaurants with oyster-shells:
Streets that follow like a tedious argument
Of insidious intent
To lead you to an overwhelming question. . .
Oh, do not ask, "What is it?"
Let us go and make our visit.

In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.

The yellow fog that rubs its back upon the window-panes
The yellow smoke that rubs its muzzle on the window-panes
Licked its tongue into the corners of the evening
Lingered upon the pools that stand in drains,
Let fall upon its back the soot that falls from chimneys,
Slipped by the terrace, made a sudden leap,
And seeing that it was a soft October night
Curled once about the house, and fell asleep.

And indeed there will be time
For the yellow smoke that slides along the street,
Rubbing its back upon the window-panes;
There will be time, there will be time
To prepare a face to meet the faces that you meet;
There will be time to murder and create,
And time for all the works and days of hands
That lift and drop a question on your plate;
Time for you and time for me,
And time yet for a hundred indecisions
And for a hundred visions and revisions
Before the taking of a toast and tea.

In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.

And indeed there will be time
To wonder, "Do I dare?" and, "Do I dare?"
Time to turn back and descend the stair,
With a bald spot in the middle of my hair -
[They will say: "How his hair is growing thin!"]
My morning coat, my collar mounting firmly to the chin,
My necktie rich and modest, but asserted by a simple pin -
[They will say: "But how his arms and legs are thin!"]
Do I dare
Disturb the universe?
In a minute there is time
For decisions and revisions which a minute will reverse.

For I have known them all already, known them all;
Have known the evenings, mornings, afternoons,
I have measured out my life with coffee spoons;
I know the voices dying with a dying fall
Beneath the music from a farther room.
So how should I presume?

And I have known the eyes already, known them all -
The eyes that fix you in a formulated phrase,
And when I am formulated, sprawling on a pin,
When I am pinned and wriggling on the wall,
Then how should I begin
To spit out all the butt-ends of my days and ways?
And how should I presume?

And I have known the arms already, known them all -
Arms that are braceleted and white and bare
[But in the lamplight, downed with light brown hair!]
Is it perfume from a dress
That makes me so digress?
Arms that lie along a table, or wrap about a shawl.
And should I then presume?
And how should I begin?

Shall I say, I have gone at dusk through narrow streets
And watched the smoke that rises from the pipes
Of lonely men in shirt-sleeves, leaning out of windows? . . .

I should have been a pair of ragged claws
Scuttling across the floors of silent seas.

And the afternoon, the evening, sleeps so peacefully!
Smoothed by long fingers,
Asleep . . . tired . . . or it malingers,
Stretched on the floor, here beside you and me.
Should I, after tea and cakes and ices,
Have the strength to force the moment to its crisis?
But though I have wept and fasted, wept and prayed,
Though I have seen my head (grown slightly bald) brought in upon a platter,
I am no prophet–and here's no great matter;
I have seen the moment of my greatness flicker,
And I have seen the eternal Footman hold my coat, and snicker,
And in short, I was afraid.

And would it have been worth it, after all,
After the cups, the marmalade, the tea,
Among the porcelain, among some talk of you and me,
Would it have been worth while,
To have bitten off the matter with a smile,
To have squeezed the universe into a ball
To roll it toward some overwhelming question,
To say: "I am Lazarus, come from the dead,
Come back to tell you all, I shall tell you all"
If one, settling a pillow by her head,
Should say, "That is not what I meant at all.
That is not it, at all."

And would it have been worth it, after all,
Would it have been worth while,
After the sunsets and the dooryards and the sprinkled streets,
After the novels, after the teacups, after the skirts that trail along the floor -
And this, and so much more? -
It is impossible to say just what I mean!
But as if a magic lantern threw the nerves in patterns on a screen:
Would it have been worth while
If one, settling a pillow or throwing off a shawl,
And turning toward the window, should say:
"That is not it at all,
That is not what I meant, at all."

No! I am not Prince Hamlet, nor was meant to be;
Am an attendant lord, one that will do
To swell a progress, start a scene or two
Advise the prince; no doubt, an easy tool,
Deferential, glad to be of use,
Politic, cautious, and meticulous;
Full of high sentence, but a bit obtuse;
At times, indeed, almost ridiculous -
Almost, at times, the Fool.

I grow old . . . I grow old . . .
I shall wear the bottoms of my trousers rolled.

Shall I part my hair behind? Do I dare to eat a peach?
I shall wear white flannel trousers, and walk upon the beach.
I have heard the mermaids singing, each to each.

I do not think they will sing to me.

I have seen them riding seaward on the waves
Combing the white hair of the waves blown back
When the wind blows the water white and black.

We have lingered in the chambers of the sea
By sea-girls wreathed with seaweed red and brown
Till human voices wake us, and we drown.

Cronologia

1888 – Nasce a 26 de setembro, em St. Louis, Missouri, EUA, Thomas Stearns Eliot.
1898 – Torna-se estudante da Smith Academy, em St. Louis.
1905 – Freqüenta a Milton Academy, em Massachusetts.
1906 – Entra para Harvard. Lê o livro “The Symbolist Movement in Literature”, de Arthur Symons. Conhece a poesia de Laforgue.
1910 – Termina licenciatura em Harvard.
1912 – Termina o poema “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock”.
1914 – Muda-se para a Inglaterra. Reúne-se com Ezra Pound.
1915 – Casa-se com Vivien Haigh-Wood. Publica “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock” pela primeira vez, na revista “Poetry”.
1916 – Trabalha como professor em Highgate Junior School.
1917 – Publica “Prufrock e Outras Observações”.
1922 – Publicado “A Waste Land”.
1927 – Torna-se cidadão britânico.
1928 – Publica “Lancelot Andrewes”.
1933 – Separa-se judicialmente de Vivien Haigh-Wood.
1940 – Publicado “East Coker”.
1941 – Publicado “A Dry Salvages”.
1947 – Morre Vivien Eliot.
1948 – Laureado com o Prêmio Nobel de Literatura.
1957 – Casa-se com Valerie Fletcher.
1965 – Morre em 4 de janeiro. Suas cinzas são levadas para East Coker.
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Terça-feira, 30 de Junho de 2009

MARIDO E OUTROS CONTOS - LÍDIA JORGE

 

 

Cronologicamente, a obra de Lídia Jorge faz parte da literatura portuguesa mais recente. Começa exatamente nos últimos vinte anos do século XX. O seu primeiro livro “O Dia dos Prodígios”, foi publicado em 1980. Também a sua obra mais conhecida, “A Costa dos Murmúrios”, data de 1988. Nos anos oitenta a história portuguesa, sofreria as alterações que se explodiram pelo mundo. Apesar da década começar com a ameaça de um novo conflito entre as potências, devido às disputas da já tão desgastada guerra fria, onde a invasão do Afeganistão por tropas soviéticas fez o mundo tremer, será nos anos oitenta que uma das duas ideologias que dividem o mundo irá ruir. Com a morte de Brejnev em 1982, o império da União Soviética será totalmente reformulado. Em 1985 o líder soviético Mikhail Gorbachev viabiliza um programa de reformas econômicas e políticas que conduz ao fim do comunismo soviético. Com a queda do Muro de Berlim em 1989, a Revolução Bolchevique de 1917 no leste europeu é definitivamente enterrada. A Alemanha é reunificada em 1990. Em 1991 a União Soviética sofre um colapso econômico-político e desaparece como país, deixando à deriva e independentes de Moscou as ex-repúblicas da antiga potência. O mapa da Europa é refeito. A Iugoslávia é desmantelada e em 1992, assistimos uma das mais violentas guerras feitas no continente, a Guerra da Bósnia.
Em Portugal, depois de anos de instabilidade política (nenhum governo teve maioria na Assembléia desde o 25 de Abril de 1974), eis que na década de 1980 surge um governo estável e de maioria, liderado por Aníbal Cavaco Silva. Este período conhecido por “cavaquismo”, iria durar dez anos (1985-1995). Também nos anos oitenta os militares deixam de vez o governo, o “eanismo” é encerrado com o fim político do ex-presidente, o General Ramalho Eanes. Mário Soares assume durante o cavaquismo a presidência da República, tornando-se naqueles dez anos, o maior estadista português da época democrática. A estabilidade de governo é possibilitada pela entrada definitiva de Portugal na União Européia, concretizada no dia 1 de Janeiro de 1986. Uma vez incluído definitivamente na Europa, é preciso rever os valores culturais e históricos. É preciso ter consciência de que o idioma português é falado por mais de duzentos milhões de pessoas em todo o mundo. Pela primeira vez os países de língua portuguesa sentam-se na mesma mesa e tentam chegar a um acordo ortográfico para preservar a hegemonia lingüística. A segunda metade dos anos oitenta é toda voltada para uma adaptação à economia comunitária, e uma europarização crescente. Surgem os anos do consumismo de massas, dos grandes empreendimentos imobiliários, afinal o panorama arquitetônico português ainda tinha o seu auge na época da monarquia, com algumas realizações pouco artísticas nas construções do Estado Novo. A paisagem urbanística é recuperada, sem grandes danificações do patrimônio histórico. Nas periferias das cidades surge o império dos grandes centros comerciais, dos hipermercados, cada vez mais inseridos no quotidiano português. A bolsa de valores, apesar do grande susto de 1987, é uma nova fonte de investimento. As privatizações são cada vez mais comuns. As grandes obras urbanas da segunda metade dos anos noventa são efetuadas em grandes construções aparecem: Ponte Vasco da Gama, expansões metropolitanas em Lisboa, criação do metropolitano do Porto e, principalmente a Expo’98, a grande obra iniciada na época do cavaquismo e a grande realização do Portugal pós União Européia.
É nesse período que nos surge a obra de Lídia Jorge, profundamente marcada por esses anos, apesar de totalmente alheia aos fatos históricos, mas presa aos resultados sociais dos mesmos. Portanto não conseguimos imaginar as personagens dos contos que aqui analisaremos, a transitarem em outros tempos, os mesmos contos a serem escritos em outra época, pois se tornam frutos irremediáveis dos dias atuais e só o tempo irá poder provar-nos a intemporalidade histórica da autora sem que, no século XXI, quando sentirmos necessidade de reler Lídia Jorge, não nos depararmos com a sensação de encontrarmos uma literatura datada.
É a partir dos sete contos reunidos em “Marido e Outros Contos” (1ª edição - Publicações Dom Quixote - 1997), que traçaremos um breve perfil da contista. São contos escritos ao longo de quase uma década: “António” (1988), “Marido” (1989), “A Instrumentalina” (1992), “Testemunha” (1993), “A Prova dos Pássaros” (1993), “O Conto do Nadador” (1994) e “Espuma da Tarde” (1996).

Duas Crônicas Metamorfoseadas de Conto

Foi no “Jornal de Letras” de 9 de Agosto de 1988 que “António” veio a ser publicado pela primeira vez. O conto fala-nos da importância psicológica que pode exercer um cabeleireiro nas clientes dos dias atuais. Quase de uma forma sádica, Antínoo ou António, o cabeleireiro, afugenta as clientes que ele, por um capricho da sua personalidade egocêntrica, não suporta. O salão do António é freqüentado por figuras públicas, por gente famosa, daí ser um privilégio ser atendida por ele. A personagem central sujeita-se a todas as humilhações para passar no teste do cabeleireiro. Aqui a vida e o universo das personagens não vão além da futilidade, onde a crítica consegue ser mais superficial do que brilhante, e as personagens tornam-se banais, dentro de atitudes psicológicas de pouco carisma:

“«Mal?» - António suspendeu a tesoura como se surpreso ou ofendido. Quem melhor do que ele tem o sonho da absoluta beleza colocado sobre o crânio das mulheres? Quem melhor do que ele entende como os filhos da carne são escolhidos antes da nascença para serem filhos dos deuses ou seus desconhecidos? Ele é um mediador, a joalheira ofende-o. Mas António só diz - «Madame, a mulher portuguesa é encolhida, e a européia, ousada! A portuguesa não sabe usar a cabeça! Deixe-me modelá-la.» E a pouco e pouco, o crânio da joalheira começou a aparecer sob a tesoira. «Com um brinquinho longo, Madame, a sua cabeça e um brinquinho longo, Madame.» A joalheira entendeu. «É para eu não voltar mais, é ou não é, António?» Antínoo nunca foi um verdadeiro cínico, e num momento de franqueza disse - «Sim, é, Madame.» (...)”

Este conto não poderia representar melhor a idéia mediática da época, em que a Europa e Portugal eram dois mundos à parte, tão distanciados desde a forma de pensar à de vestir ou mesmo cortar o cabelo. O conto é fútil, a linguagem, apesar de literariamente bem elaborada, não consegue trazer personagens sólidas, apenas esboços humanos, quase caricatos. Apesar de uma certa estética, longe estão da estética perfeita de Sophia de Mello Breyner Andresen, e do carisma - apesar de maniqueístas - das personagens de “Contos Perfeitos”.
O conto que dá título à coletânea, “Marido”, veio publicado na revista Vértice, em abril de 1989. Aqui vamos encontrar a Lúcia, infeliz porteira de um prédio, que sofre com a bebedeira do marido, quando este volta para casa de madrugada, totalmente embriagado, fazendo dela o ridículo de todo o prédio. Acende velas para a “Regina”, e reza fervorosamente em latim (onde teria uma porteira aprendido latim? Na infância no interior?). Os vizinhos ouvem os gritos e os maus tratos do marido, tentam oferecer solidariedade à infeliz porteira, onde não faltam advogados e médicos como inquilinos, para prestarem os seus serviços a ela. Mas a porteira, que é extremamente católica e fiel ao casamento, vê nas intenções dos vizinhos uma blasfêmia. Só ela conhece o marido, sabe que no fundo, sem a bebida, é um homem bom, um excelente esposo. Assim, contra tudo e contra todos, iludida, ela acaba por ser queimada pelo marido, que ao pôr fogo nos seus cabelos, faz dela uma tocha viva a correr por todo o prédio. A visão da mulher submissa ao seu homem e, principalmente às suas tradições - mais vale um marido bêbedo do que um divórcio - , preferível ser infeliz do que ser uma mulher separada. A submissão é mais em forma de contrato social do que de personalidade. O conto é bem estruturado, de uma ironia à flor da pele diante das hesitações e das lamúrias da personagem. Mas não chega a mostrar-nos uma personagem brilhante, muito menos faz com que fiquemos comovidos com o drama da infeliz mulher. Apenas achamos a personagem a beirar à imbecilidade, que teve o destino que mereceu a sua estupidez:

“Ela vira-se, sai da cama, esfrega-se na parede, o fogo primeiro não alastra, depois de repente alastra, cola, passa ao cabelo, ela remove-se no chão, na carpete da sala, junto da porta, ainda abre a porta, mater, vita, ó doçura, ventris tui nobis post hoc exilium, ostende! Ó clemens, ó pia, advocata, em silêncio, dulcis Virgo Maria! A porta está aberta para toda a chama. A chama da porteira sai pela escada de serviço abaixo, correndo sem ruído até ao oitavo andar, ao sétimo, ao sexto. Só no quinto a chama da porteira pára. Crepita. É a porta do advogado do quinto. Sem barulho, fica à porta do advogado, das testemunhas e da lei. A Regina assim quer que fique. Regina acocarada sobre ela, no quinto, de asas abertas sobre o quinto, e o marido no décimo. Ainda terá a vela? Abre as asas advocata, levanta voo, leva a porteira, condu-la na maca, ergue-lhe a vista, Regina, separa-a definitivamente da cama, do balde e do fogão. (...)”

Adorável Momento das Lembranças

Ao contrário dos outros dois contos descritos acima, “A Instrumentalina” traz-nos um mundo carismático, quase lírico. A autora abandona aqui a crítica social que foram os outros dois contos, diga-se, mais próximos da crônica de costumes do que do conto, e mergulha em um universo literário sem restrições. As personagens saem de um mundo onde só a literatura pode criá-las, fazendo que cada página seja um prazer para o leitor. A narrativa é contada na primeira pessoa, por uma personagem que relembra os seus anos de infância numa grande casa do avô. A narradora começa a sua história trinta anos depois dos acontecimentos. Já adulta, ela tem um reencontro com o passado. Assim, as suas lembranças de infância surgem-nos numa linguagem em que o tempo é revisto de frente para trás. Encontramos no grande casarão quatro mulheres e oito crianças. As mulheres, todas abandonadas pelos maridos juntamente com os filhos, são acolhidas na casa do sogro. Ali a presença do jovem tio Fernando, faz da infância da personagem um sonho particular. O mesmo tio que a chama de Greta Garbo, que faz dele um ídolo, uma fonte inesgotável de admiração. A imagem do tio na sua bicicleta, a Instrumentalina, é o sinônimo de liberdade e felicidade, de aventura e de sonhos. Andar com o tio na Instrumentalina é a prova máxima de vitória diante de tudo e de todos. Uma vitória da liberdade. Mas a luta de Fernando para manter as obrigações para com a família, ele o único filho que ficou ao lado do pai, e a sua grande fome de aventura e liberdade contrastam. Um dia Fernando parte para sempre, deixando para a menina que o vê partir o fim da época mais bela da sua infância.
Trinta anos depois, reencontram-se, como se o tempo quebrasse um momento que ficara preso algures, talvez além da lembrança, além dos sentimentos. A transparência da personagem, juntamente com o seu mundo tão próprio, regido por ser importante para o tio, ter como recompensa um passeio na sua bicicleta, fazer das pequenas coisas do dia a beleza simples de uma vida. O conto consegue fazer com que o leitor seja transportado para aquela quinta e sinta-se, como a personagem, quase triste pela ameaça constante do findar daquele mundo, sempre pronto para mudar, deixando apenas a poesia como perfume:

“Nunca se sabe o que uma viagem pode trazer ao íntimo do coração. Como se o tempo de repente dum outro modo fluísse, ou mesmo a qualidade da sua hora mudasse, e uma coisa perdida aparecesse, uma dúvida se quebra, um amor acaba, e outro que nunca se tinha imaginado, de repente, nasce. Objectos que sempre tivemos por separados atam as pontas, imagens que bóiam nas nossas vidas sem ligação juntam-se e criam uma nova sequência com sentido. Outras vezes a clarividência da distância torna-se tão luminosa que se vê o fim do fim, e deseja-se regressar, ainda que não seja a lugar nenhum. (...) “

Entre a Superficialidade da Crônica Social e a Beleza do Conto

Em 1993, a autora apresenta-nos dois contos: “Testemunha” e “A Prova dos Pássaros”, no Colóquio-Letras e na revista Visão, respectivamente. “Testemunha”, mais crônica social do que conto, traz-nos Zuzete, uma emigrante que saudosamente, lembra os seus tempos de criança das aldeias e das humilhações que era vítima por causa da sua miséria. Zuzete é a prova da época dos hipermercados, do consumismo dos eletrodomésticos. Da infância miserável à vida confortável, casada ao lado de Sandro, um emigrante italiano. Zuzete lembra-se das tias, da miséria, chora de saudades, mas circula entre o conforto da sua casa, dos seus eletrodomésticos, da sua máquina de lavar louças. Uma crônica mordaz à miséria e a emigração, mas pouco conseguida diante da fragilidade psicológica das personagens:

“(...) Zuzete mostrava agora a cozinha, depois o fogão, o balcão lisíssimo onde era possível pentear a cabeça no seu espelho de brilho. E o parapeito, vem ver. O Parapeito. Era o rebordo da largura duma palmada onde batia o vidro, simplesmente. Mas nele se enfileiravam quatro vasos vermelhos e de terra, donde saíam umas begónias de folha esparramada a caminho da luz distante. Olhando para baixo, no fundo, perdia-se de vista quem entrava e saía, como se estivéssemos no pináculo dum sonho cinzento. Mas estou aqui e estou a pensar nas minhas tias, tão sós, no lameiro, a bater as anáguas. Devem estar muito curvadinhas. Estão estão, têm o queixo apontado para a terra, e quando põem a trouxa da roupa no planalto das costas, o bordão onde se apoiam fica com a tremura dos canaviais. Agora Zuzete mostrava, incrustada na cozinha, a máquina que lavava a loiça.”

A Prova dos Pássaros” foge da crônica social e acaba por ser um hilariante conto, onde um professor paranóico procura contar todos os pássaros que voam nos céus de uma praia. A convicção de que, se não conseguisse contar o número de pássaros, era porque Deus não existia, mas se o conseguisse, era a prova da existência do Mesmo. A praia está sempre cheia de pessoas, o que torna impossível à contagem. Há uma hora que a praia fica deserta, mas é justamente nesta hora que uma jovem mãe passeia o filho num carrinho de bebês. Aqui o duelo do homem e da rapariga para que ela não viesse naquela hora é brilhante, o conto também:

“O Professor viu com desgosto a rapariga aproximar-se empurrando aquele terrível carrinho. Na verdade, alguém da família do bebé - um homem por certo - havia aplicado uma espécie de traga-areia à frente das rodas, o que permitia que ela o fizesse deslizar com extrema facilidade mesmo nos locais ondulados.”

Todas às vezes que Lídia Jorge foge à crônica de costumes, é mais brilhante. A prova é da narrativa de “O Conto do Nadador”, em que nos deparamos com cinco belas raparigas dos anos cinqüenta, que todos os dias se vão banhar em um local deserto, onde são observadas por um homem atlético. A partir daí todas elas têm pensamentos e desejos eróticos com o homem. Armam seduções com gestos, gritos, roupas de banho, quase despidas... Sonham com o corpo do homem, com os seus braços, a sua boca. Tudo correria bem se uma delas não se afogasse, quase morrendo. É salva pelo homem, que simplesmente acha a todas levianas. Humilhadas, voltam para o hotel e contam a história de uma forma totalmente diferente da realidade. Também aqui encontramos um momento de beleza e de literatura bem conseguida de Lídia Jorge. Ao contrário de “Espuma da Tarde”, onde a violência gratuita do dia a dia urbano nada tem de inteligente, e as personagens não vão além do seu vazio psicológico, da sua falta de carisma psicológico.
Ao analisarmos em um todo esta antologia de contos de Lídia Jorge, encontramos diferenças abismais entre eles. Em alguns momentos a desilusão é total, o distanciamento das personagens com a veia literária é quase predominante. Mas ao encontrarmos contos como “A Instrumentalina” e “O Conto do Nadador”, somos invadidos pela forte certeza de que estamos diante de uma grande contista e de uma escritora ímpar. Portanto a sua obra é um reflexo dos dias atuais, onde tudo passa como uma vitrine de modas, até mesmo a forma da autora retratar a sua obra.

Lídia Jorge

Lídia Jorge é considerada uma das maiores escritoras portuguesas da atualidade, destacando-se como uma romancista de sucesso. Nasceu em Boliqueime, Algarve, em 18 de junho de 1946. Licenciada em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa, fez-se professora secundarista por longos anos.
Lídia Jorge exerceu a profissão de professora nas então colônias portuguesas da África, em 1970. Sua passagem por Angola e Moçambique coincidiu com os últimos anos da guerra colonial, que culminaram com a independência dos países africanos em relação a Portugal. A visão deste período acompanhou a sua obra, inspirando alguns dos seus personagens.
Com uma obra publicada nos últimos do século XX, seu primeiro romance “O Dia dos Prodígios”, publicado em 1980 por indicação de Vergílio Ferreira, traduz um novo período que se vivia na literatura contemporânea portuguesa. O romance “A Costa do Murmúrio”, de 1988, um reflexo do período colonial vivido na África, consagrou-a de vez como uma das escritoras mais aclamadas e lidas de Portugal.
O romance “O Vale da Paixão”, de 1998 deu a Lídia Jorge o Prêmio Dom Dinis da Fundação Casa de Mateus, o Prêmio Bordallo de Literatura da Casa da Imprensa, o Prêmio de Ficção do Pen Clube e, em 2000, o Prêmio Jean Monet de Literatura Européia de escritor do ano.
Lídia Jorge tem a sua obra traduzida em vários idiomas e reconhecida em muitos países. Seu último romance foi publicado em 2007, “Combateremos a Sombra”.

OBRAS:

Romance

1980 – O Dia dos Prodígios
1982 – O Cais das Merendas
1984 – Notícia da Cidade Silvestre
1988 – A Costa dos Murmúrios
1992 – A Última Dona
1995 – O Jardim sem Limites
1998 – O Vale da Paixão
2002 – O Vento Assobiando nas Gruas
2007 – Combateremos a Sombra

Contos

1992 – A Instrumentalista
1992 – O Conto do Nadador
1997 – Marido e Outros Contos
2004 – O Belo Adormecido
2008 – Praça de Londres

Infanto-Juvenil

2007 – O Grande Vôo do Pardal

Teatro

1997 - A Maçon
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Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

FEDERICO GARCIA LORCA - UM HOMEM ANDALUZ

 

 

Federico García Lorca é, ao lado de Miguel de Cervantes, o escritor espanhol mais conhecido e lido tanto na própria Espanha, como no resto do mundo. Poeta e dramaturgo, de uma obra intensa, marcada por codificações simbólicas: a lua, a morte, a terra, a água, o cavalo, a criança...
Lorca criou um dos mais belos teatros do século XX, introduzindo em suas peças uma linguagem poética singular. Sua insatisfação diante da vida transformava os costumes abordados em sua tragédia. Centro de um grupo de intelectuais que passou para a história como a “Geração de 27”, congregou com os maiores nomes do universo da arte e cultura da Espanha do século passado, entre o solar dos seus amigos estavam: Luís Buñuel, Salvador Dali, Antonio Machado, Manuel Falla e Rafael Alberti.
Federico García Lorca foi um dos primeiros a ser vitimado pela Guerra Civil Espanhola, sendo abatido pelos nacionalistas, grupo liderado pelo general Franco, que uma vez no poder, levaria a Espanha a uma ditadura de quatro décadas. Durante a ditadura franquista, o nome do poeta andaluz foi banido e proibido em todo o país. Numa época de conservadorismo dos costumes católicos na Ibéria, as idéias de Lorca, juntamente com a sua homossexualidade latente, foram decisivas para o seu fuzilamento. Se a conduta de idéias e as assimilações de vida de Lorca bateram no preconceito de uma nação, assassinando o homem, o poeta e o dramaturgo eternizaram o mito. Mesmo calada a sua obra por décadas, ela voltou com os ventos da democracia, formando um grande vendaval que fizeram das palavras dilaceradas à luz da lua, um grito que ecoou por toda a península Ibérica, tornando-se um dos maiores nomes da literatura espanhola.

Tendências Musicais no Universo do Jovem Lorca

Federico García Lorca nasceu em 5 de junho de 1898, em Fuente Vaqueros, povoação próxima a Granada, na Andaluzia. Filho mais velho de quatro irmãos, viveu uma infância que marcaria para sempre a sua vida e, principalmente, a sua obra. Todas as vezes que questionado sobre o que escrevia, Lorca aludia à infância como fonte de inspiração. Sua família enriquecera com o negócio do açúcar, formando um núcleo de pequenos proprietários e funcionários administrativos. É na figura da mãe que o pequeno Federico mais se espelha, apesar da sua tendência para a depressão. É com ela que inicia os seus estudos e aprende as primeiras letras. A infância corre-lhe feliz dentro do seio desta família andaluz, que trazia homens que gostavam da vida boêmia e da música, e mulheres que liam Vitor Hugo como modismo.
O mundo da arte abraçou desde cedo “el niño“ andaluz, que se dedicava horas a tocar piano, numa demonstração clara de vocação para a música. Por algum tempo acreditou que o pai o enviasse para Paris, onde pretendia continuar os estudos musicais, mas com a morte de seu professor de piano, António Segura Mesa, não teve como convencer a família, que queria para o filho uma profissão mais “útil”.
Terminado o sonho de ser músico na adolescência, o jovem Lorca seguiu para Granada, matriculando-se em Direito e Filosofia. Sem aptidão para os cursos, logo deles se desinteressa. Concluiria com dificuldade o curso de Direito. É desta época o seu primeiro sucesso literário “Impressões e Paisagens”. É em Granada que começa a desenvolver o seu círculo intelectual, travando conhecimento com António Machado e Manuel Falla, estreitando com eles uma longa amizade.
Em 1919 Lorca seguiu para Madrid, para concluir o curso de Direito. As conturbações culturais assolavam a Europa, que acabara de viver os duros anos da Primeira Guerra Mundial. Era hora de refazer os escombros que a guerra deixara, inclusive o cultural. Sob os ecos do horror da guerra, tudo parecia finito, os ventos reluziam mudanças, os símbolos tomavam dimensões no jogo social e artístico, refletidos em Freud e Nietzsche, incitando códigos que respingariam na obra que o jovem García Lorca começava a traçar. Nesta época publica o seu primeiro poema na “Antologia de Poesia Espanhola”, e começa o projeto de um livro de poemas. O escritor matava de vez o músico. Os versos usurpavam as notas musicais, e o maior poeta da Espanha do século XX estava pronto.

Encontro com Salvador Dali

Em Madrid, por recomendação do amigo e antigo mestre, Fernando de los Rios, Lorca foi aceito na Residência dos Estudantes. O local era freqüentado por intelectuais, costumando receber palestrantes famosos, como H. G. Wells, Einstein, Paul Claudel, Bérgson, Paul Éluard, Louise Curie, Stravinsky e Paul Valéry.
Na Residência dos Estudantes, Lorca transforma o seu quarto em ponto de encontro de intelectuais e centro de longas tertúlias. É na capital madrilena que conhece Salvador Dali, Rafael Alberti e Luís Buñuel, que futuramente tornar-se-iam a mais fina flor de intelectuais espanhóis.
Do encontro de García Lorca com Salvador Dali surgiria uma grande amizade, movida por uma forte empatia. Se Lorca era um jovem sensível, de uma alma inquieta, Dali, não lhe ficava atrás, era um homem tímido, que se vestia de uma excentricidade perene. Se para Dali nascia uma grande e profunda amizade, para Lorca nascia algo mais, uma profunda paixão, cerceada pelos meandros sociais e pelos códigos morais que só eles ousavam decifrar além.
Se Madrid borbulha intelectualmente, também Lorca explode a sua obra. Estréia a sua primeira peça, “El Malefício de la Mariposa”, um ano depois de estar na capital espanhola. Apesar de ser sucesso de crítica, a peça é um fracasso, fazendo com que o autor volte-se para a poesia. Em 1921 lança “Libro de Poemas”, grande sucesso que o leva a publicar mais poesia. Nos três anos seguintes dedica-se a escrever várias peças e a elaborar outras tantas. Nesta fase descobre uma nova paixão, o desenho, que lhe rouba bastante do seu tempo.

Ruptura com Dali

O ano de 1927 é intenso para García Lorca. É nesta época que ele e o seu grupo de amigos passam a ser conhecidos como a “Geração de 27”. É o ano que estréia com a companhia da atriz Margarita Xirgú, de quem se torna grande amigo. Será para a amiga que Lorca escreverá, futuramente, as maiores personagens da sua obra teatral, como Yerma e Bernarda Alba.
Salvador Dali organizou, em 1927, os desenhos de Lorca, expondo-os nas míticas galerias Dalmau, em Barcelona. Logo a seguir, Lorca publicou aquele que se tornaria o seu livro mais famoso, “El Romancero Gitano”. O sucesso foi absoluto, sendo aplaudido por todos, aclamado o melhor livro na Espanha. Apesar de ser unanimidade, Luis Buñuel e Salvador Dali acharam o livro profundamente ruim.
A opinião desfavorável de Dali, emitida em uma carta que trazia um tom às vezes magoado, transtornara Lorca. Se a sua obra atingia com sucesso a Espanha, por outro lado Salvador Dali afastava-se cada vez mais. Lorca apercebera-se que Dali desenvolvia um interesse latente por Gala, mulher de Paul Éluard. Amargurado com a falta de solidariedade de Dali, Lorca entrou em depressão. Quando questionado, falava que era por problemas sentimentais por conta de uma desilusão amorosa. Por detrás da depressão, a verdade era só uma, o momento de ruptura com Salvador Dali.

Surge o Grande Dramaturgo

Se o momento era de conquista profissional, as perdas sentimentais eram irreversíveis, e Lorca deixa-se deprimir. É neste período que o antigo amigo e mestre Fernando de los Rios, com viagem marcada para os Estados Unidos, convida-o para acompanhá-lo. Lorca sabe que o momento é de rupturas, de transformações e ebulições interiores. Decide aceitar o convite do amigo e deixa a Espanha, partindo para Nova York.
Acostumado às tertúlias intelectuais de Madrid, aos salões culturais europeus, Lorca vê-se perdido e esmagado em Nova York. Rejeita tenazmente o olhar americano sobre a vida. Não só ele vivia uma depressão, como a própria Nova York explodirá a sua bolsa de valores, levando a recessão econômica para o resto do mundo.
Passada à primeira imagem depreciativa da cidade, e também a depressão por sua ruptura com Salvador Dali, Lorca abraçará Nova York com paixão. Entrará em uma grande fase criativa, escrevendo um ciclo de poemas que será agrupado sob o título de “Poeta em Nova York”, além da peça “Assim que Passarem Cinco Anos”.
Quando regressa à Espanha, Lorca entrega-se a um período de intenso trabalho. Ao lado de Eduardo Ugarte funda a companhia de teatro La Barraca. Encena vários dramaturgos espanhóis, percorrendo em itinerância com a companhia, várias regiões da Espanha. A partir de então, escreverá as peças que se irão compor as suas principais obras. Lorca mescla poesia e teatro em uma linguagem única, transformando a forma de encenação das peças nos palcos espanhóis. Sua dramaturgia é marcada pela obsessiva visão de que o desejo e o sexo são os fios condutores da vida e da morte. Lorca declararia que o público de teatro da época só tinha interesse pelos temas social e sexual, e que optara pelo segundo.
É neste contexto que o autor faz rupturas com o teatro burguês, enquadrando-o no seu misterioso mundo particular, jogando no palco a dolorosa e solitária visão da vida. É no palco que se despede dos amores impossíveis, da tragédia dos sentimentos escondidos em quartos clandestinos de amantes que desafiavam o mundo. Será assim em “Bodas de Sangue”, quando a mulher abandona o marido para seguir o amante, causando-lhes a morte; em “Yerma”, a esterilidade enlouquece a mulher, que termina por matar o marido; ou ainda, “A Casa de Bernarda Alba”, em que a defesa da honra caprichosa impede o avanço dos amores. Nas três tragédias, evidencia-se o autor diante do mundo, preso às impossibilidades sociais diante da sua forma de amar, à esterilidade que a sua homossexualidade o atira, e aos preconceitos que lhe irão, assim como na primeira peça citada, causar-lhe a própria morte.

Abatido Pela Guerra Civil

O último ano de vida de García Lorca é marcado por um fértil momento criativo e atividade profunda, quer como poeta, quer como dramaturgo. Neste ano estréia “Doña Rosita”, além de elaborar aquela que seria a sua última obra teatral acabada, “A Casa de Bernarda Alba”. A estréia da peça estava marcada para julho de 1936, mas alguns imprevistos causaram atrasos que empurraram a estréia para setembro. Por este motivo, Lorca seguiria para Granada para visitar a família.
Os tempos na Espanha traziam uma grande tempestade sobre a liberdade, atirando-a em uma trágica guerra civil.
Ingenuamente Lorca não acreditou que um conflito pudesse acontecer em seu país. Quando chegou a Granada, encontrou um clima tenso, pois a cidade tinha sido palco de alguns confrontos. Dois dias depois de ter chegado à terra natal, a guerra civil eclodiu.
A situação do poeta era delicada, suas posições políticas eram vistas com repúdio pelos conservadores direitistas, o suficiente para pôr a sua vida em perigo. Dias antes de regressar para Granada, subscrevera, a pedido do Comitê dos Amigos de Portugal, um abaixo-assinado em protesto à ditadura de Salazar. Sua homossexualidade era incômoda para os mais ortodoxos moralistas da época.
Sabendo que corria risco de ser morto, Lorca decide sair da Espanha, seguindo para o México, onde já estava a amiga Margarita Xirgú. Mas ele demora muito em executar o plano de fuga, em parte por ainda acreditar que o conflito talvez não se vá estender por muito tempo, ou por temer que a família sofresse retaliações. Por várias vezes teve a hipótese da fuga. Sejam quais forem os motivos, os questionamentos de Lorca naqueles momentos decisivos, a hesitação e demora em deixar a Espanha custar-lhe-ia a própria vida. Quando se sentiu acossado, Lorca refugiou-se na casa da família do poeta e amigo falangista, Luís Rosales. Estava decidida a sua sorte!
Um vulto negro surgiria na vida de Lorca, o sinistro Ramon Ruiz Alonso. Homem conhecido por ser um fervoroso católico, conservador e fascista, Alonso tinha um ódio natural por Lorca. Destacado para fazer a limpeza dos vermelhos de Granada, ele escreve um auto de denúncia contra Lorca, iniciando a sua caçada. Para Alonso, Lorca era “mais perigoso com a caneta do que outros com revólver”. O algoz inicia uma operação militar de captura a Lorca. As ruas foram fechadas, as casas cercadas e franco-atiradores foram postos nos telhados. Lorca foi preso.
Assustado, Lorca foi informado que Alonso decidira que seria executado. Ao saber do seu destino, Lorca chorou, fazendo um último pedido, que lhe fosse chamado um confessor, pedido que lhe foi negado. Solitário com os símbolos e as palavras que fizera da sua vida o sentido dos homens talhados para os mitos, Lorca passou a última noite de vida na prisão, a rezar, a esperar pela tragédia, vivida no seu próprio palco. Tão logo a lua, companheira eterna da sua obra, em quarto minguante, retirasse-se do céu, restar-lhe-ia a morte como sorte.
Logo pela manhã do dia 19 de agosto de 1936, Federico García Lorca, uma dos ícones da Espanha, foi levado da prisão pelos Nacionalistas do general Franco. Foi posto debaixo de uma oliveira e ali abatido com um tiro na nuca. Já no chão, ainda disse: “Todavia estoy vivo”. Foi quando um dos seus executores deu-lhe um tiro de misericórdia no ânus, porque assim deveria morrer os “maricones”.
Morto aos 38 anos de idade, García Lorca teve o corpo deixado em um ponto de Serra Nevada, em uma vala comum no barranco de Viznar, em Granada. Após o fim do franquismo, durante décadas a família de Lorca impediu que a vala onde o corpo foi deixado fosse aberta e o corpo exumado. Uma resolução do juiz Baltasar Garzón, de 2008, obrigou que a família voltasse atrás na sua decisão. Segundo o juiz, ali estão outros corpos de homens que também foram mortos pela guerra civil, e as famílias desses homens querem prestar-lhes uma homenagem justa e enterrá-los com dignidade cristã, o que era impedido pela recusa da família de Lorca.
O governo ditatorial de Franco tentaria explicar em vão a morte de Lorca diante da Espanha e do mundo. O assunto sempre foi tratado pelos franquistas com ressalvas e apontado como um lamentável acidente de guerra, já que Lorca era apartidário. Segundo os franquistas, o escritor caíra apanhado no turbilhão confuso dos primeiros dias de guerra. Se a morte de Lorca tinha sido um lamentável engano, como afirmavam, a proibição da encenação das suas peças durante o franquismo era uma realidade tenaz. Possuir livros do autor era considerado subversivo, trazendo perigo para quem teimava em ler o poeta andaluz. Mas a voz de Lorca ultrapassou a vala que seu corpo tinha sido atirado, cumprindo a profecia das suas palavras, que dissera anos antes de ser abatido: “Um morto na Espanha está mais vivo como morto que em nenhum outro lugar do mundo”.
Federico García Lorca, assim como as tragédias que escreveu, encerrou a vida dramaticamente, como mártir de uma sangrenta guerra que devastou a liberdade da Espanha. Em Granada ele encontrou a inspiração para a sua obra, a lua da Andaluzia iluminaria o palco das suas palavras. A mesma Andaluzia que lhe serviu de berço e de vala funerária, a mesma Granada que deu à luz e tragou um dos mais valorosos poeta e dramaturgo da literatura universal.

OBRAS

Poesia:

1921 – Livro de Poemas
1926 – Ode a Salvador Dali
1927 – Canciones (1921-24)
1928 – El Romancero Gitano (1924-27)
1931 – Poema del Cante Jondo
1933 – Ode a Walt Whitman
1935 – Canto a Ignacio Sánchez Mejias
1935 – Seis Poemas Galegos
1936 – Primeiras Canções (1922)
1936 – Sonetos Del Amor Oscuro
1940 – Poeta em Nova York (1929-30) – póstumo
1940 – Divã do Tamarit – póstumo

Prosa:

1918 – Impressões e Passagens
1949 – Desenhos (publicados postumamente em Madrid)
1950 – Carta aos Amigos – póstumo

Teatro:

1920 – El Malefício de la Mariposa
1925 – Mariana Pineda
1928 – Oda al Santíssimo Sacramento Del Altar
1930 – La Zapatera Prodigiosa
1931 – Assim que Passarem Cinco Anos – Lenda do Tempo
1931 – Retábulo de Don Cristóvão
1931 – Amores de Dom Perlimplim e Belisa em seu Jardim
1933 – El Público
1933 – Bodas de Sangue
1934 - Yerma
1935 – Dona Rosita, a Solteira
1936 – A Casa de Bernarda Alba

CRONOLOGIA

1898 – Nasce a 5 de junho, em Fuente Vaqueros, Granada, Federico García Lorca, filho de Federico García Rodriguez e Vicenta Lorca Romero.
1906 – Vai para Almeria, para residir na casa do seu mestre Dom Antonio Espinosa Rodriguez.
1908 – Faz exames para ingressar no General y Técnico de Almeria.
1909 – Uma grave infecção bucal faz a família trazê-lo de volta para Granada. Passa a freqüentar o Colégio do Sagrado Coração de Granada. Passa a ter aulas de guitarra e piano.
1915 – Inicia estudos de Direito e Filosofia na Universidade de Granada.
1916 – No inverno, na passagem para 1917, escreve as primeiras poesias.
1917 – Publica no Boletín Del Centro Artístico de Granada, o seu primeiro trabalho literário, um artigo por ocasião do centenário de Zorrilla. Faz uma viagem de estudos com alguns colegas e o professor Martin Berrueta Dominguez, por Castela, Leão, Galícia e Andaluzia.
1918 – Publica o primeiro livro, “Impressões e Paisagens”, prosa sobre a sua experiência na viagem que fizera no ano anterior por diversas regiões da Espanha.
1919 – Muda-se para Madrid, instalando-se na Residência dos Estudantes. Em Madrid conhece Luis Buñuel, Eduardo Marquina, Juan Ramón Jiménez, Salvador Dali e outros.
1920 – Em 22 de março estréia a sua peça “El Malefício de la Mariposa”, no Teatro Eslava, em Madrid.
1921 – Publica o primeiro livro de poemas, “Livro de Poesia”, dedicado ao irmão Francisco. 10 de setembro, publica o poema “Balada de la Placeta”, na “Antologia de Poesia Espanhola”.
1923 – Adapta para o teatro várias obras de Cervantes. Termina o bacharelado de Direito, em Granada.
1924 – Conhece o pintor Gregório Prieto, com quem estabelece grande amizade. Conclui o livro “Canciones”. Começa a escrever “El Romancero Gitano”. Começa a trabalhar na idéia da obra “Doña Rosita la soltera o el lenguaje de las flores”.
1925 – Termina a peça “Mariana Pineda”. Visita a família de Salvador Dali, para quem lê a peça que terminara recentemente.
1926 – Publica “Ode a Salvador Dali”.
1927 – Projeta com Manuel Falla, uma nova linguagem do teatro infantil de marionetes. Publica em Málaga, o livro “Canciones”. Em 24 de junho estréia no Teatro Goya, em Barcelona, na companhia da atriz Margarita Xirgú, a peça “Mariana Pineda”; o palco foi decorado por Salvador Dali. De 25 de junho a 2 de julho faz uma exposição de seus desenhos em Barcelona, organizada por Salvador Dali. Publica de julho a setembro, vários poemas na revista “Verso e Prosa” de Múrcia. Em 12 de outubro estréia em Madrid, a peça “Mariana Pineda”, com Margarita Xirgú. Volta para Granada, onde pretende criar a revista “Gallo”.
1928 – Surge a primeira edição da revista “Gallo”, esgotando-se em dois dias. O sucesso da “Gallo” provoca os estudantes universitários de Granada, que se dividem em “gallistas” e não “gallistas”. Em abril surge o segundo número da “Gallo”, tornando-se um grande fracasso. O número 3 da “Gallo”, embora com os artigos elaborados, não consegue sair. Publicado “El Romancero Gitano”.
1929 – Viaja para Nova York. No verão faz curso na Columbia University.
1930 – Em Nova York conhece Andrés Segovia. Viaja para Cuba, onde faz quatro palestras. No verão regressa à Espanha. Em 24 de dezembro estréia pela companhia de Margarita Xirgú, em Madrid, “La Zapatera Prodigiosa”.
1932 – Funda e dirige o grupo de Teatro Español Universitario La Barraca.
1933 – Estréia em março, no Teatro Beatriz, em Madrid, a peça “Bodas de Sangue”. Viaja para a América do Sul, passando pela Argentina, Uruguai e Brasil. Estréia com grande sucesso, em Buenos Aires, as peças “Bodas de Sangue”, “Mariana Pinedo” e “La Zapatera Prodigiosa”. Discursa ao lado de Pablo Neruda no Pen Club, em memória de Rubén Dario. Publica no México “Ode a Walt Whitman”.
1934 – Morre o amigo Ignacio Sanchez Mejias. Lorca escreve “Llanto”. Em 29 de dezembro Margarita Xirgú estréia no Teatro Espanhol de Madrid, a peça “Yerma”.
1935 – Termina “Doña Rosita la Soltera”. Bate à máquina “Poeta em Nova York”, para ser impresso. Em dezembro a companhia de Margarita Xirgú estréia em Barcelona “Doña Rosita la soltera o el lenguaje de las flores”.
1936 – Publica “Bodas de Sangue”. Projeta uma viagem para Nova York e México, para discursar em uma conferência sobre Quevedo. Faz leitura de “A Casa de Bernarda Alba”. Começa os ensaios de “Assim que Passarem Cinco Anos”.
Lorca prepara a sua mais nova tragédia, “La Destrucción de Sodoma”. 16 de julho, viaja para Granada, para visitar a família. 18 de julho, eclode o levantamento militar. Aconselhado por amigos, refugia-se na casa da família Rosales, em Granada. É preso e posto à disposição do controle militar estabelecido em Granada. A 18 ou 19 de agosto, é executado sem nenhum julgamento, em Viznar, Granada.

Poemas de Garcia Lorca

Volta de Passeio

Assassinado pelo céu,
entre as formas que vão para serpente
e as formas que buscam o cristal,
deixarei crescer os meus cabelos.

Com a árvore de tocos que não canta
e o menino com o branco rosto de ovo.

Com os animaizinhos que a cabeça rota
e a água esfarrapada dos pés secos.

Com tudo o que tem cansaço surdo-mudo
e mariposa afogada no tinteiro.

Tropeçando com meu rosto diferente de cada dia.
Assassinado pelo céu!

Se Minhas Mãos Pudessem Desfolhar

Eu pronuncio teu nome
nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber a lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.

E eu me sinto oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.

Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as
estrelas
e mais dolente que a mansa
chuva.

Amar-te-ei como então
alguma vez?
que culpa
tem o coração?

Se na névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranqüila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua!



Romance Sonâmbulo
(trecho)

Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco vai sobre o mar
e o cavalo na montanha.
Com a sombra pela cintura
ela sonha na varanda,
verde carne, tranças verdes,
com olhos de fria prata.
Verde que te quero verde.
Por sob a lua gitana,
as coisas estão mirando-a
e ela não pode mirá-las.

 
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Sexta-feira, 12 de Junho de 2009

ENCONTRO NO JARDIM DO ÉDEN - JEOCAZ LEE-MEDDI

 

 

“E Deus prosseguiu dizendo:
‘Façamos homem à nossa imagem, segundo a nossa semelhança,
e tenham eles em sujeição os peixes do mar,
e os animais domésticos, e toda a terra,
e todo animal movente que se move sobre a terra.’
E Deus passou a criar o homem à sua imagem,
a imagem de Deus o criou;
macho e fêmea os criou.”
(Gênesis 1:26-27)

Quando a canção dos ventos faz dos mil dias os mil anos, dos mil anos o princípio do passado, onde a confusão do futuro continua a arremessar o nosso ser nas incertezas de Deus. Assim a noite torna-se a máquina do tempo, e o corpo as moléculas das ideologias.
Nas incertezas da minha mente, fugir para os jardins públicos nunca arrebatou os meus desejos. Naquela noite de estrelas e de galáxias sobre as cabeças, entrei pelo Jardim do Trianon. Tudo era escuro, e um cheiro nauseante de flores confundia a primavera. Sempre tive medo de atravessar o coração do jardim. Medo das surpresas, ali assaltantes, drogados e bichas dançavam um tango perigoso com cheiro de sangue e esperma. Não resisti ao cheiro das flores, teria que vomitar. Talvez fosse do absinto, mas preferia acreditar que era das flores, intelectualizava melhor os vícios. Entrei no coração do jardim para vomitar. Poderia tê-lo feito nos urinóis dos cães por ali espalhado, mas a minha condição de cão sem dono não me deixou fazer isto.
Quanto mais penetrava no interior do jardim, mais a noite corria, as nuvens no céu passavam por mim em grande velocidade. As estrelas davam passagem ao Sol, que por sua vez brilhava de um tom pastel, dando à paisagem cores tranqüilas, cromaticamente perfeitas. O jardim foi ampliando-se, tornara-se infinito, já não conseguia ver os prédios. Na minha boca o gosto do absinto dava passagem a um bem-estar quase bucólico. Já não tinha coragem de vomitar.
Caminhei pelo imenso jardim. Por mim passaram plantas, árvores, pássaros, formas da natureza que jamais tinha visto. Quanto mais caminhava, mais me perdia dentro do jardim. Andei alguns minutos, quando vi ao longe um lago. Parecia calmo, convidativo para beber água. Caminhei até o lago, na certeza de querer ver a minha imagem nele refletida. Debrucei-me sobre as margens. Bebi um pouco da água, era saborosa, fresca, pura. Molhei com as minhas mãos o meu rosto. Olhava-me no espelho das águas, quando uma outra imagem formou-se no reflexo das mesmas. A imagem tremia com o movimento das águas. Mas podia ver o corpo de um homem, um rosto a olhar-me. Uma beleza que jamais vi em revistas ou filmes. Levantei-me, vi atrás de mim o homem da imagem nas águas. Sorria-me com um sorriso quase ingênuo, talvez puro. Olhei para o seu corpo, estava nu, completamente nu. Um corpo perfeito, de uma beleza que jamais encontrei nos ginásios de atletas. Trazia músculos exatos, sem nunca ter recorrido aos alteres. Levantei-me, se aquele homem não era uma miragem, com certeza que atenderia a todos os engates de jardins, sem jamais sair dali. Toquei-lhe no ombro. A pele era perfeita, passei-lhe a mão pelo peito. Olhei para ele. Era real.
-Quem és tu, um anjo? - Perguntou-me.
Um anjo? Eu, um anjo? Sim, anjo, querubim, serafim, arcanjo, o que ele quisesse. Para quê dar títulos às coisas? Eu era a ilusão que me quisessem dar, seria difícil de explicar isto?
-Porque me fazes esta pergunta?
-És um anjo? Trazes vestes, deves ser um anjo de Deus.
-Um anjo de Deus? E tu quem és?
-Não sou nada, sou apenas a imagem da obra de Deus. Mas deves saber quem sou. Não fazes parte do jardim, fazes parte do conhecimento que eu ainda não tive, mas que procuro. Fazes parte dos anjos.
-Como te chamas?
-Não sabes? Todos os anjos sabem. Todos me chamam Adão, e não sei porque, todos eles, filhos de Deus, como eu, mas mais poderosos, invejam-me como criação perfeita. Acho que a inveja deles trará um dia o meu fim.
Adão. O jardim não era o Trianon? Olhei à minha volta. Tudo era perfeito, a harmonia da paisagem confundia-se com os animais que passeavam mansamente pelo jardim. Não, definitivamente aquele homem era por demais perfeito para ser um de nós. O seu corpo trazia a beleza divina, sim, agora percebia a inveja dos anjos que queriam ser como Adão. A beleza da criação de Deus ainda perfeita. O corpo como símbolo de beleza, não de desejo. De repente senti-me envergonhado por trazer roupas. As roupas traziam-me o pecado, trazia-me a traição àquela perfeição da obra de Deus.
-Sim, em parte tens razão, não sou um anjo, mas sou o resultado da luta dos anjos com Deus. Um anjo caído, porque sou o teu espelho desfocado, o teu filho mais distante, sem a importância que tens, sem a grandiosidade de ti. Olha o meu corpo. Traz marcas, é imperfeito, perecível, quase um monstro perto do teu. Olha bem o meu corpo, és tu futuramente, sou o que fizeste, sou a tua escolha. A tua liberdade diante da escolha. Mais do que tu, sou pó, porque assim mo fizeste.
Ele olhou-me. Tocou-me. Parecia sentir uma certa repugnância. Repugnância nas imperfeições dos corpos. Por mais que tentasse, não conseguia ver-se assim. Era uma visão hecatômbica diante da criação. Mas comoveu-se com a minha imperfeição. Reconhecia em mim o filho bastardo, mesmo a julgar-me indigno do seu Éden. Sorriu-me, estendeu-me a mão.
-Queres visitar o meu jardim?
-Sim, acho que é o sonho de todos nós, imperfeitos, mas filhos de uma obra perfeita.
Caminhamos pelos jardins. Mostrou-me todas as plantas, todos os animais. Disse-me dos anos de solidão que ali esteve a aprender, a fazer conhecimento com a natureza, com tudo o que estava à sua volta. Falou-me dos anos que passou a dar nome às coisas. A tudo dera um nome e um significado. Contou-me da companheira que agora habitava o seu mundo, da felicidade de ser a mais bela obra de Deus, sem talvez, aperceber-se da responsabilidade. Caminhamos até uma árvore. Ali encontramos um pássaro morto. Um melro. Ele debruçou-se sobre o cadáver do pássaro, apanhou-o nas mãos. Dedos longos, elegantes, onde o cadáver da ave quase desaparecia entre as linhas das mãos. Depois enterrou o corpo da ave ali, perto da árvore.
-Viste aquela ave?
-Sim, era bela. Gosto das aves.
-Nela já não havia o sopro de vida, a sua alma estava morta. É assim que acontece com todos os animais. Vês a árvore onde a enterrei?
-Sim.
-É a árvore da vida. Sou imortal, por este motivo sou diferente de todas as almas viventes. Aos animais não foi concedida a imortalidade. Se comer do fruto da árvore da vida, também eu morrerei, serei igual aos outros animais.
-Então tens conhecimento do que é a morte?
-Sim, vejo a morte todos os dias a abraçar os animais que ladeiam o Éden.
-Gostas de viver?
-Gosto, sou feliz, viver é ser feliz. Para que morrer se os sopros de todas as promessas percorrem os meus sentidos? Aprendo a sabedoria todos os dias. Às vezes tenho pressa, mas se tenho a eternidade, para que a pressa? Dizem que se comer da árvore da vida morro, mas dizem-me também, que saberei todos os segredos do mundo. Às vezes tenho fome do saber, por isto tenho medo da minha curiosidade ante ao que me é oculto.
-Não te preocupes, ainda somos assim, cheios de pressa, talvez por não termos a eternidade como a tens tu, para nós ela é apenas uma promessa. Mas somos tão imperfeitos que não acreditamos nas promessas, temos pressa de sabermos dela, mas, quanto mais pressa nós temos, mais próximos do fim caminhamos. Se tu que és perfeito tens pressa em abraçar a imperfeição, que posso fazer se não esperar pela eternidade de Deus?
Caminhamos por várias horas. Por fim o meu corpo cansou-se. Encostei-me a uma árvore e dormi. Não sei quanto tempo, quantas horas, só sei que dormi. Dormi no Éden, como um errante cuco, a invadir ninhos que não são seus. Acordei com alguém a me sacudir os ombros. Era Adão. Trazia no rosto um ar pesado. Olhei para ele e já não vi o seu sexo. Estava escondido, fazendo dele não um símbolo de beleza, mas um símbolo de desejo. Agora que não via o seu sexo, em mim um desejo louco ardia, queria vê-lo. Então me apercebi que ele já não era perfeito, já era como eu. Trazia o pecado no sexo, ladeado pela serpente, não pela pureza.
-O que aconteceu? - Perguntei-lhe.
-Temos que partir, fomos expulsos do jardim. A minha sede de conhecimento levou-me a ter pressa. Comi do fruto da árvore da vida. Agora fui amaldiçoado. Traí toda a obra do Criador. A sua obra era perfeita, mas eu a fiz imperfeita. Tornei-me apenas uma peça no jogo de Deus e de Satanás. Tenho pena de deixar o jardim, mas não posso aqui ficar. O meu sangue já traz a morte como herança. Manchei o meu sangue, está contaminado pela mortalidade dos sonhos. Perdi a eternidade para mim e para os meus descendentes. Nada deixarei de mais marcante aos meus herdeiros do que a morte. Eu fui perfeito porque fui gerado do pó, não do ventre que traz os genes da morte. Vou-me embora, para longe do jardim.
-E agora?
-Agora? Terás que esperar outro homem perfeito. A lei é sangue por sangue. Enquanto não for derramado o sangue do homem perfeito, teremos que expiar o pecado através de oferendas do sangue dos animais. Mas o sangue de um animal não é perfeito. Não basta, acalma a ira de Deus, mas não basta na lógica exata da sua lei, do seu senso de justiça. Agora somos apenas dignos da sua piedade, portanto quem é digno de piedade contenta-se com as sobras que lhe são oferecidas. Agora teremos que nos contentar com as sobras de Deus, somos apenas pobres mortais a não adorá-lo, mas a clamar pela sua misericórdia. Deus foi feito para ser amado, porque é amor, não para ser incomodado com lamúrias de alguém digno de piedade. O que fiz da curiosidade de obter sabedoria? Já não me achas belo, pois não?
-Ainda és o mais belo de todos. Mas já não és o que eu vi há pouco. Não, mudaste, tornaste-te mais um, causas-me desejo, não admiração. És como eu, agora és como eu.Assim partimos, ele seguiu uma direção e eu outra. Não sei onde foi dar o seu caminho, mas já sabia do resultado. Caminhei um pouco e fui sentar em um banco do jardim que já era o Trianon. Pessoas passavam por mim, com perfumes suaves, um cheiro atraente, o sexo escondido entre roupas que contornavam a promessa do corpo. Sim, por mim passavam os filhos de Adão. Tão obcecados pela perfeição dos corpos, pela pressa do conhecimento das verdades, pelo desajuste do desejo. Mas os que estavam escritos na eternidade de Deus, só Ele sabia. Nós, tal qual Adão, desfilávamos nossos corpos sem a grandiosidade de Deus.


Conto: Jeocaz Lee- Meddi
Fotografias: Paulo César (1 - One of the Angels, 2 - Orion e as Saudades, 3 - Alma por Inteiro, 5 - Life Can Be Strange); Guilherme Santos (4 - Os Homens Morrem no Chão), Nuno Manuel Baptista (6 - S/T) e DDiArte (7 - Laocoonte)
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Sexta-feira, 15 de Maio de 2009

OS AMANTES E OUTROS CONTOS - DAVID MOURÃO-FERREIRA

 

 

Quando comparamos a ficção com a história, podemos situar os autores no exato momento histórico da criação das suas obras, e assim compreendermos melhor a sua ficção. De uma forma ou de outra todos estão lá, inseridos no tempo e na história. Com os contos de David Mourão-Ferreira - que vamos analisar tal momento preso na história - não acontece este tempo histórico. Lemos os seus contos e chegamos a conclusão de que eles poderiam ter sido escritos hoje, ou amanhã, talvez ontem, enfim, são de uma atemporalidade que faz da sua obra algo fascinante e perturbador.
Da obra de David Mourão-Ferreira, destaca-se em poesia : Tempestade de Verão (1954), Cancioneiro de Natal (1971), No Veio de Cristal in Obra Poética 1948-1988 (1988), Música de Cama (1994); as novelas de Gaivotas em Terra (1959); os contos: Os Amantes (1968) E Outros Contos (1974), As Quatro Estações (1980); além de vários ensaios, crítica, crônica e teatro. Escreveu ainda o romance Um Amor Feliz (1986). Foi como contista que a crítica literária consagrou David Mourão-Ferreira, e será como contista que iremos também saudá-lo.
Tomaremos como referência o seu livro de contos Os Amantes e Outros Contos (7ª edição - Editorial Presença -1996). Curiosamente o livro teve a sua primeira edição no mês de Maio de 1968. Sobre a primavera deste ano não é necessário esclarecer a sua importância para a história, lembramos-nos automaticamente dos estudantes da Sorbonne, dos canhões soviéticos nas ruas de Praga, e da queda de Salazar da sua cadeira no fim do verão. Os ventos da história a soprarem mudanças. Inicialmente o livro era composto por cinco contos, chamava-se Os Amantes, que foram escritos ao longo dos anos sessenta: O Viúvo, em 1962; Nem Tudo é História, em 1966; A Boca, em 1967; Amanhã Recomeçamos e Os Amantes, em 1968. Os seis anos que há de espaço entre o primeiro e o último, são os perturbados anos sessenta, que a tudo transforma e a tudo agride. Nunca o conceito das tradições políticas, familiares, religiosas e morais foram tão contestadas, tão criticadas e mesmo desafiadas. Pelas ruas marchavam milhões de jovens de roupas coloridas e cabelos longos. Nos palcos dos teatros, o mundo parava para assistir ao Hair; os Beatles proclamavam-se “mais populares do que Jesus Cristo”. O mundo de ficção de David Mourão-Ferreira nesses contos é assim, perturbador, a quebrar tabus, a trazer-nos um cheiro de erotismo e violência onírica em cada conto. Em 1974, foi acrescentado à segunda edição mais três contos e este passou a chamar-se Os Amantes e Outros Contos. Os outros contos - Agora Que Nos Encontramos, Trepadeira Submersa e Ao Lado de Clara -, apesar de terem sido escritos entre 1973-1974, traziam a atmosfera (segundo o próprio autor), dos outros cinco.

Simulacros de Tempo e de Narrativas

A narrativa dos contos mostra-nos cenários e espaços perdidos em um universo mágico, em simulacros de tempo e de narrativa. Ao ler os contos de Miguel Torga, não conseguiríamos imaginar que aquelas personagens pudessem viver além das aldeias e das montanhas transmontanas. Com David Mourão-Ferreira o espaço é extratemporal, as personagens podem circular tanto pela Europa Central, como por Portugal, como pelo Leste Europeu, porque quem caminha não são os seus corpos, mas sim as suas mentes, as suas almas. Aqui o fantástico é quem impera.
Ao lermos os contos, não estamos a descobrir certezas e fatos históricos, estamos a ser transportados numa alucinante aventura da mente e do corpo à procura dos sentidos, todos eles aguçados. O cheiro, tanto do mar, como da carne, como do sangue, todos perdidos numa fusão do olfato. O tocar nos corpos, nos objetos, no inatingível de nós mesmos, no enganar do tato. Ver as sucessivas imagens da mente, quase a nos tragar em labirintos de fotografias a preto e branco, em lembranças envoltas por brumas, em prisões no tempo e no espaço, onde as cores são vivas e cinzas ao mesmo tempo. Talvez ouvir e sentir o gosto das coisas seja o enigma dos sentidos menos aguçados, mas sem dúvida os mais procurados.
Para explicar a narrativa de David Mourão-Ferreira, vejamos o que diz no livro o posfácio de Eduardo Prado Coelho:

Indiquemos ainda o jogo que entrelaça o tempo da narração, com os vários tempos da ficção. Aquele que conta instala-se num extratempo: e os vários tempos da ficção driblam, fintam, ultrapassam, esperam, serpenteiam o tempo da narração. Esse privilégio de extratemporalidade que o narrador adquire permite que ele continue a narrar depois da sua morte, sem que esse “depois” lhe venha sequer ferir o fluxo da voz narrativa, circulando ele sem entraves no espaço de ninguém onde estes contos nos transportam.”

Confrontos Entre a Vida Psicológica e a Morte Física

Para melhor compreendermos a linguagem dos contos, é preciso que nos deixemos guiar pelo universo deles. Comecemos pelo conto que dá título ao livro: “Os Amantes”. Talvez o que mais surpreenda, não pela atitude do homem diante da morte, mas da morte diante do homem. A narrativa mostra-nos um homem que foge das imediações de um quartel militar, após o falhanço de uma rebelião. Perseguido, ele tenta chegar à casa da mulher desejada. Depois de uma fuga alucinante, acorda nos braços da amante crioula. Passado o momento do idílio dos corpos, o homem acorda só e nu. De repente é prisioneiro em uma estranha sala, na qual encontra álbuns de fotografias que lhe revelam toda a sua vida. De uma forma fantástica a história do homem é contada através das fotografias. Aos poucos, ele revela-se em várias faces e fases, a que foi em criança, a que foi depois de uma plástica que lhe mudara o rosto (seria um fugitivo nazista?), a sua vida atual em um país tropical, os braços da amante, o seu corpo cor de ébano. Na tentativa de fuga da casa da amante, todos os quartos estão fechados. Ele está nu, pois as suas roupas desapareceram. Nu no confronto final consigo mesmo. Por fim, o homem descobre que não há saída, pois ao fugir do quartel, tinha sido abatido e morto. Não enganara a morte, mas fora enganado. Conformado, deita-se ao lado da amante, também ela morta, aceitando a vitória da sua última rebelião, ou seja, contra a morte. Ao narrar a sua história, ele o faz já morto, já do outro lado das fotografias:

Ajoelho e curvo-me sobre as folhas abertas, à espera de mais revelações. Ao contrário, porém, de todos os outros, este álbum encontra-se ainda intacto, sem uma única fotografia colada nas suas páginas. Muito mais me intriga, aliás, o modo como ele e o anterior aqui surgiram, o modo como ambos pareceram empurrados... E descubro, de súbito, que tanto esta como a outra estante, de escura madeira envernizada, se dispõem em torno de cilindros metálicos - que fortemente as prendem ao tecto, que certamente as ligam ao andar de cima, que porventura as tornam comandadas a partir daí. Fazem lembrar, na parte superior, periscópios de submarinos. E principiam agora a mover-se, numa lentíssima rotação... E a seguir mais depressa, cada vez mais depressa! E as estantes principiam a girar, a rodar, a rodopiar... Tão vertiginosamente a velocidade vai aumentando que já alguns álbuns começam a ser projectados, atirados para o chão, arremessados de encontro às paredes; e já outros se desconjuntam, se rasgam, se esfarrapam, ainda antes de saírem das prateleiras... Com semelhante ritmo, de segundo a segundo mais frenético, decerto que nem um permanecerá no seu lugar.

Se compararmos os contos de David Mourão-Ferreira com os contos de Sophia de Mello Breyner Andresen - nomeadamente “A Viagem” e “A História da Gata Borralheira” - , vamos encontrar o fantástico como ponto de convergência. Mas o fantástico de um difere largamente do outro. Enquanto que Sophia de Mello Breyner Andresen faz do universo fantástico dos seus contos algo assim como as fantasias dos contos infantis, ou a fantasia do popular, em que já ouvimos falar diversas vezes da visita do diabo à casa de um rico senhor, deparamos com o fantástico como técnica de escrita, mas com um conteúdo que traz sempre uma evidência religiosa, intencionalmente católica, onde o bem e o mal tecem dois muros distintos, quando um atravessa o outro, o efeito é sempre o castigo, a moral e os dogmas como tema. David Mourão-Ferreira faz da técnica do fantástico o pulsar dos sentimentos e das sensações, o saltar da alma entre o psicológico e o metafísico. No seu mundo fantástico o universo das personagens não acompanha os seus corpos, mas sim as suas almas, os seus sonhos, os seus medos. O homem não é um eterno viajante do bem e do mal, é apenas prisioneiro do seu vazio, do seu corpo a flutuar no nada, sente-se quase que o rodopiar da alma, a vertigem da morte, o latejar do sangue. Vida e morte, paixão e desejo, tudo a formar um emaranhado de emoções que se tornam um todo. A poesia é latente nas sucessivas palavras cobertas de labirintos caudalosos, de olhares presos nas imagens dispersas no infinito do nosso eu pleno, quase a flutuar no inatingível, na solidão suprema de cada ser, nascimento e morte tornam-se o redimir dessa solidão.

Armadilhas e Desejos nos Rostos das Mulheres

No conto “O Viúvo”, a narrativa do universo psicológico das personagens toma o lugar do fantástico. O conto é na terceira pessoa, e o que está em causa são os desencontros do amor. Novamente a morte como pano de fundo. Um homem (Adriano) de meia idade, que ao ter um caso extraconjugal com uma mulher (Paula), faz do seu prazer o universo, e quando perde a amante em um acidente de automóvel, percebe que o amor é mais ambíguo do que o prazer. Torna-se viúvo dos desencontros da vida e do amor. Viúvo dos seus sentimentos. Deixa Lisboa para passar o natal nas Berlengas, num hotel que costumava ir com os pais quando jovem. Encontra-se com Rita, uma amiga antiga, também ela perdida entre as confusões dos sentimentos e os desencontros da solidão. As personagens conhecem-se umas as outras, mas se revelam em cada gesto:

E há um ano? Precisamente há um ano, mas um pouco mais tarde (já então as rasgadas janelas do bar do hotel se afogueavam, por entre a chuva do crepúsculo, com o revérbero das luzes de Lisboa...), há um ano, precisamente há um ano, tudo teria sido porventura diferente - se houvesse chegado a murmurar, a sussurrar, a arremessar, de qualquer modo, o nome da Paula.

Ao deixarmos o universo de desilusões de “O Viúvo”, vamos percorrer o universo inquietante de “Agora Que Nos Encontramos”. Mais uma vez o fantástico é quem nos vai conduzir como uma brisa turva no universo das personagens. Uma viagem às vezes erótica, outras vezes acidentada, muitas vezes armadilhada. Aqui uma figura não identificada fala com um homem que está numa cama de hospital, após uma intervenção cirúrgica por causa de uma úlcera. A estranha personagem faz uma viagem ao passado do homem,. A figura de uma bela e sedutora mulher é mostrada nos momentos de maior perigo da vida do homem. A primeira imagem é a da mulher o mostrar os seios dentro de um vagão de comboio, antes de ele colidir e arremessar o homem para baixo dos destroços, sem sentidos, quase morto. A viagem continua por um cabaré de Amsterdã. Uma mulher a fazer strip-tease, a conduzir novamente para um desejo que não é concretizado. Todas as vezes que ele a tem, ele a perde, em cada encontro perde um pouco da vida. Agora, no hospital, quase moribundo, é o encontro decisivo com a figura da mulher, o encontro do mergulho no vazio, o encontro da morte na forma de mulher, a mesma mulher que sempre perseguiu a imagem durante toda a vida, quase como uma promessa nunca cumprida de possuir-lhe o corpo. Mais uma vez a certeza de que o homem mergulha dentro das suas obsessões de imagens e desejos, fazendo deles os mais íntimos prazeres da existência não vivida, onde o caminho conduz armadilhadamente ao nada da morte e do espaço que faz da alma um salto no éter:

É chegado o momento (vês?) de ser eu própria a abrir o casaco. Nada receies. Não se trata agora de nenhuma trucagem. Não vais tornar a ver - descansa! - o esqueleto que viste em vez do corpo da outra rapariga. Agora é diferente: agora não vês nada; não há nada. Mas talvez este nada seja tão ilusório como o tudo que sempre procuraste no corpo de tantas mulheres. Seja como for, sei que é a altura de ficar contigo. Nem seria possível - agora que nos encontrámos - que mais uma vez nos viéssemos a perder.”

Viagem Dentro de um De Soto Preto

Dois contos tocam por si mesmos, o lado exótico da sensualidade, aqui traduzida numa forma ínfima de prazer. Em “Trepadeira Submersa” e “Ao Lado de Clara”, o homossexualismo feminino é visitado de uma forma sensual, quase como numa pintura renascentista nas descrições de “Ao Lado de Clara”. No primeiro - “Trepadeira Submersa” -, a personagem que narra a história oculta o seu sexo quase até ao fim do conto, quando estamos iludidos de que quem narra é um homem, surge-nos o narrador a revelar-se atrás da personagem o seu sexo de mulher e a sua atração pela professora, mulher mais velha, mais conservadora. A aluna escreve poemas para a professora, e na sua coragem de ninfeta apaixonada e ardente, não tem medo de revelar-se, tem medo da desilusão da musa que esconde a luz que lhe revela os poemas. Mas a professora, sem nunca perder o título, critica os poemas, a escrita, o português mal trabalhado, menos os desejos da aluna. Pede-lhe de uma forma velada, nunca diga explicitamente, que esqueça tudo, pois não é possível correspondência, pede que ela leve embora os seus sentimentos, mas que lhe deixe os poemas, único motivo pelo o qual bastaria uma vida de enganos para tê-los:

Ás mãos tinham retirado, debaixo do pesa-papéis, um pequeno maço de folhas onde reconheci a minha letra. E não era só o meu rosto que me parecia ter ficado tão vermelho como o vestido que ela trazia, como o próprio pesa-papéis: era também o mar, era também a água do aquário, eram também as lombadas de todos os livros. Por outro lado, só então reparei como aquela ténue e caprichosa flora, lá dentro do aquário, sugeria o desenho de uma trepadeira submersa.

Ao Lado de Clara”, a vida do palco confunde-se com a vida cotidiana. Atores vivem em casa cenas repetidas do palco. Verdade e ficção caminham nas mais diversas formas. Obsessão e desejo confundem-se com o universo das personagens. A atriz e o autor, o homem e a mulher, a personagem que parece criar vida e emergir das páginas angustiadas do autor. Por todos os lados, os olhos do narrador deparam-se com ninfas a transbordar de desejo os seus corpos. Mulheres que encontram no desejo mais íntimo do corpo o olhar de voyeur dos sátiros e dos faunos, ou seja, dos homens sedentos de penetrar no universo do sexo do qual assistem calados, frustrados. O teatro e a vida a criar simulacros para quebrar com o marasmo, a tentar criar tentações e libertações do corpo e das máscaras. Cada personagem dissimula, como se estudasse um texto diante da vida. Aqui o psicológico é mais denso do que o fantástico, cada personagem traz dentro de si uma sutil armadilha, um forte desejo:

Em todas as ruas serão em número cada vez maior os automóveis abandonados. Aperceber-te-ás de como eles vão sendo cada vez mais aproveitados por amantes de acaso, para encontros de ocasião. E verás sempre, no banco traseiro do enorme De Soto negro, de antes da guerra, o mesmo grupo das duas mulheres de meia-idade, estreitamente enlaçadas, enquanto, no banco da frente, todo encolhido, um homenzinho lívido e calvo, que se parece com Giorgio, viciosamente as espreita pelo retrovisor.(...)”

Os contos são repletos de objetos que nos surgem como simbólicos. No texto acima - “Ao Lado de Clara” - , reencontramos neste conto de 1973, o mesmo automóvel preto, o De Soto, que nos foi revelado em 1966 no conto “Nem Tudo é História”. Este conto abre um leque no fantástico e no maravilhoso dos contos de David Mourão-Ferreira. Talvez o mais violento de todos eles, onde nascimento e morte têm um momento único, o sangue jorra das luvas da mulher misteriosa, as mesmas luvas que vamos encontrar na outra personagem de “Agora Que Nos Encontramos”, também de 1973. Em 1973 David Mourão-Ferreira voltava com estes dois contos ao universo iniciado em 1966. Um começa onde o outro termina, ou vice-versa. Sempre o meteoro inconstante das imagens diante dos delírios supremos da vida e da morte. “Nem Tudo é História” narra-nos a vida de um homem quase que vista em um ecrã gigante, em que ligamos a tela e diante dos nossos olhos passam guerras, um vulto de mulher, um braço e uma luva, um carro negro, bares, gritos, um parto, o sangue, a história, mesmo quando não nos é dada uma história:

Noites e noites a fio, quase de madrugada, desenrolava-se a mesma cena: um grande automóvel preto - um carro americano de antes da guerra, talvez um De Soto dos anos trinta - parava de repente ao pé de mim. O motorista, fardado de negro, mantinha-se muito hirto no seu lugar; eu não chegava sequer a ver-lhe o rosto. Mais me intrigava aliás o próprio carro, que parecia ter estado debaixo de água - ou ter sido fabricado no fundo do mar - , embora não apresentasse, na carroçaria, nenhum vestígio de humidade. Mas o capot faiscava, na sombra, como o dorso de um cetáceo; o flanco fusiforme dos faróis denunciava não sei que secreto comércio com os peixes; e a porta de trás, que vinha agora de entreabrir-se - sem que ninguém lhe houvesse tocado -, evocava irresistivelmente, pelo crebro palpitar em que ficara, o inquietante mistério de uma guelra.”

E é no interior de um automóvel preto, um De Soto dos anos trinta, que entramos no mundo dos contos de David Mourão-Ferreira. Nele percorremos as páginas de “A Boca”, onde uma boca oculta surge nas ancas de Rossana. Aqui temos a nítida sensação de mergulharmos num quadro surrealista, talvez numa aquarela de Dali. Mas o De Soto não pára e continuamos pelo universo de “Amanhã Recomeçamos”, um conto feito só com diálogos, cada diálogo é uma revelação perturbante, quase paranóica, de um teatro esquizofrênico em que as personagens fazem das deixas as armadilhas que nos arremessará para o abismo, sem que tenhamos dado por isso. Por fim o De Soto é deixado numa sucata presa no tempo, em nós a certeza de que a viagem foi poética, perturbadora, e o universo de David Mourão-Ferreira é quase um ícone nos contos portugueses nas últimas décadas do findar do segundo milênio.

David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira foi um dos maiores poetas contemporâneos portugueses, nascido em Lisboa, em 24 de fevereiro de 1927, destacou-se também como contista e já no fim da vida, revelou-se um grande romancista.
Além da literatura, teve uma vida dedicada ao magistério, sendo ao longo dos anos, professor dos ensinos técnico, liceal e universitário. Licenciado Filologia Românica, a partir de 1957 foi professor da Faculdade de Letras de Lisboa, tendo a carreira interrompida por questões políticas na época da ditadura salazarista. Neste período, em 1963, foi eleito secretário-geral da Sociedade Portuguesa de Autores. Após a Revolução dos Cravos, em 1974, que pôs fim ao salazarismo, o escritor ocupou várias vezes o cargo de secretário da cultura em diversos governos.
Poeta, romancista, crítico e ensaísta, David Mourão-Ferreira é dono de uma obra densa, de uma tensão lírica latente, onírica, sempre voltada para o maravilhoso e fantástico da mente humana, de uma linguagem rítmica e rica, repleta de imagens eróticas latentes, que o fez ser visto como o poeta do erotismo da literatura portuguesa. Sua obra está voltada para o inalcançável da alma humana, sempre em equilíbrio com a mente, mas jamais com o corpo e com a vida.
Vários poemas de David Mourão-Ferreira tornaram-se fados de sucessos interpretados pela incomparável Amália Rodrigues.
Desde cedo David Mourão-Ferreira ligou a sua vida à literatura, as suas primeiras poesias foram publicadas aos 18 anos, na Seara Nova, revista da qual seu pai era colaborador. Na década de 50 revela uma plenitude literária como poeta, ensaísta, crítico, dramaturgo e prosador. Em 1954 torna-se um dos diretores de Távola Redonda. Em 1986 publica o romance Um Amor Feliz, que lhe valeu a consagração como escritor, atraindo um grande número de leitores para a sua obra, o romance rendeu vários prêmios, entre eles o Grande Prêmio de Romance da APE e o Prêmio de Narrativa do Pen Clube Português.
David Mourão-Ferreira viria a falecer em 16 de junho de 1996, deixando uma belíssima e representativa obra da literatura contemporânea portuguesa.

OBRAS:

Poesia

1946 – Rumos (antologia de contos e poemas em co-autoria)
1950 – A Secreta Viagem
1954 – Tempestade de Verão
1958 – Os Quatro Cantos do Tempo
1962 – Infinito Pessoal
1962 – In Memoriam Memoriae
1966 – Do Tempo ao Coração
1967 – A Arte de Amar (antologia)
1969 – Lira de Bolso (antologia)
1971 – Cancioneiro de Natal
1973 – Matura Idade
1974 – Sonetos do Cativo (antologia)
1976 – As Lições do Fogo (antologia)
1980 – Entre a Sombra e o Corpo
1980 – Ode à Música
1980 – Obra Poética (antologia 2 volumes)
1980 – À Guitarra e à Viola (1º volume da antologia Obra Poética)
1980 – Órfico Ofício (2º volume da antologia Obra Poética)
1983 – Antologia Poética
1985 – Os Ramos Os Remos
1987 – O Corpo Iluminado
1987 – As Pedras Contadas (antologia)
1988 – Obra Poética 1948-1988
1988 – No Veio do Cristal in Obra Poética 1948-1988
1992 – Lisboa Luzes e Sombras
1992 – A Arte de Amar (antologia)
1994 – Música de Cama (antologia)

Conto e Novela

1959 – Gaivotas em Terra (novelas)
1968 – Os Amantes (contos)
1974 – Os Amantes e Outros Contos (contos)
1978 – Maria Antónia e Outras Mulheres (antologia de contos escolhidos)
1980 – As Quatro Estações (contos)
1987 – Duas Histórias de Lisboa
1992 – Maria da Luz e Outras Esfinges (antologia)

Romance

1986 - Um Amor Feliz

Teatro

1956 – Contrabando
1965 – O Irmão

Ensaio, Crítica, Crônica

1960 – Vinte Poetas Contemporâneos
1961 – Aspectos da Obra de Manuel Teixeira-Gomes
1962 – Motim Literário
1966 – Hospital das Letras
1969 – Discurso Direto
1969 – Tópicos de Crítica e de História Literária
1976 – Sobre Viventes
1977 – Presença da “Presença”
1979 – Lâmpadas no Escuro
1987 – O Essencial Sobre Vitorino Nemésio
1988 – Nos Passos de Pessoa
1988 – Marguerite Yourcenar: Retrato de Uma Voz
1989 – Os Ócios do Ofício
1989 – Sob o Mesmo Teto
1992 – Tópicos Recuperados
1992 – Terraço Aberto (antologia)
1992 – Elogio Acadêmico de Vitorino Nemésio
1993 – Evocação de Sebastião da Gama
1993 – Magia Palavra Corpo
1995 – Em Movimento

Divulgação e Tradução de Poesia

1972 – Imagens de Poesia Européia - Volume I (Grécia, Roma, Os Séculos Obscuros)
2003 – Vozes da Poesia Européia I (Colóquio-Letras, nº 163, Janeiro-Abril)
2003 – Vozes da Poesia Européia II (Colóquio-Letras, nº 164, Maio-Agosto)
2003 – Vozes da Poesia Européia III (Colóquio-Letras, nº 1645, Setembro-Dezembro)

Vários

1993 – Jogo de Espelhos – Reflexos para um Auto-Retrato

CRONOLOGIA:

1927 – Nasce no dia 24 de fevereiro, em Lisboa, David Mourão-Ferreira, filho de Teresa de Jesus Mourão-Ferreira e de David Ferreira.
1929 – Nasce Jaime Alberto, irmão de David.
1942 – Publica o seu primeiro artigo no jornal escolar Gente Moça, órgão do Colégio Moderno.
1945 – Inicia a carreira literária publicando os primeiros poemas nas páginas da revista Seara Nova.
1946 – Colabora com as revistas Seara Nova e Aqui e Além.
1947 – Estreita amizade com os escritores José Régio, José Rodrigues Miguéis e Antonio Manuel Couto Viana, entrando para o grupo de intelectuais que freqüentavam o Café Chave d’Ouro.
1948 – Colabora como ator e autor, sob a direção de Gino Saviotti, no Teatro-Estúdio do Salitre.
1949 – Publica na revista Ocidente o artigo Acerca de uma Trajetória na poesia de Cesário Verde.
1950 – Funda com Antonio Manuel Couto Viana e Luís de Macedo, as folhas de poesia Távola Redonda. Publica seu primeiro livro de poesia, A Secreta Viagem.
1951 – Licencia-se em Filologia Romana. Inicia uma longa amizade com Amália Rodrigues, para a qual escreveria a letra de muitos fados.
1953 – Casa-se com Maria Eulália de Carvalho.
1954 – Publica o livro de poesias Tempestade de Verão. Da união com Maria Eulália nasce o primeiro filho, David João.
1956 – Colabora com a revista Graal e com o jornal Diário Popular. Inicia amizade com Natália Correia.
1957 – Assistente da Faculdade de Letras de Lisboa. Nasce a filha Adelaide Constança.
1958 – Publica Os Quatro Cantos do Tempo (poesia).
1959 – Recebe pelo livro de novelas Gaivotas em Terra, o Prêmio Ricardo Malheiro, da Academia de Ciências de Lisboa.
1963 – Por perseguição do regime salazarista, não lhe renovam o contrato de professor da Faculdade de Letras de Lisboa.
1964 – Inicia com os programas radiofônicos Música e Poesia e Hospital das Letras a colaboração com a RTP (Rádio Televisão Portuguesa).
1965 – É afastado da RTP. Logo a seguir acontece um grande protesto contra o fechamento temporário da Sociedade Portuguesa de Escritores. Nomeado secretário-geral da Sociedade Portuguesa de Escritores.
1966 – Casa-se pela segunda vez, com Maria Pilar de Jesus Barata.
1968 – Publica o livro de contos Os Amantes.
1970 – É reintegrado na função de docente da Universidade de Lisboa.
1974 – Assume a direção do jornal A Capital.
1976 – Nomeado Secretário da Cultura.
1977 – Morre o irmão Jaime Alberto.
1981 – Assume a direção das Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste Gulbenkian.
1984 – Eleito presidente da Associação Portuguesa de Escritores.
1986 – Publica o seu único romance, Um Amor Feliz, pelo qual recebe vários prêmios, entre eles, o Grande Prêmio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores, o Prêmio de Narrativa do Pen Clube Português, Prêmio D. Dinis da Fundação Casa de Mateus e o Prêmio de Ficção do Município de Lisboa.
1991 – Nomeado presidente do Pen Clube Português.
1994 – Publica a antologia de poesia erótica Música de Cama.
1995 – É acometido de uma grave doença, com a qual luta com determinação.
1996 – Recebe o Prêmio de Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores. Morre em Lisboa, no dia 16 de junho, sendo sepultado no Cemitério dos Prazeres.
publicado por virtualia às 05:49
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