Segunda-feira, 31 de Maio de 2010

RICARDO MACHADO VOLUME 2 - DESENHOS DE VOZ

 

Após a produção do álbum, “Corra e Olhe o Céu”, trabalho coeso, de imponente beleza lírica, apesar de um certo academicismo, Ricardo Machado lançou o segundo álbum, tendo como título apenas o seu nome, fugindo do intimismo do primeiro, trazendo uma obra mais ousada e aguda, mostrando-se solto e com coragem de cantar no tom que se lhe acentua a verdadeira acepção do timbre metálico, sem recorrer a histrionismos, ou perder a suavidade lírica com a qual torna as melodias em agradáveis cantos que se nos seduzem os sentidos.
Mais seguro em cantar, Ricardo Machado, neste volume 2 de uma obra incipiente, propõe-se a mostrar sem máscaras a arte de interpretar. Não sendo fácil sobreviver apenas como intérprete em um mercado fechado, preconceituoso e aberto ao medíocre, o cantor compensa as limitações como compositor, escolhendo um repertório eclético e centrado no bom gosto, percorrendo canções clássicas, mas pouco exploradas, corajosamente tomando-as como suas, criando momentos únicos, impregnando-lhes uma identidade própria.
Ricardo Machado, volume 2, não traz um repertório tão vincado nas profundezas dos sentimentos como no primeiro álbum, mas não foge da obsessão sublime do cantor em cantar o amor, munindo-se do que há de melhor dentro da Música Popular Brasileira, sem jamais se mostrar meloso ou recorrer ao drama, ou ao canto fácil. Traz, principalmente, a afirmação de uma voz, que se mostra mais potente e com vontade de arriscar tons, navegar na que se lhe torna imprescindível, os agudos, dom que as vozes masculinas muitas vezes não se sentem à vontade em explorar.
Mais leve que o primeiro, este álbum consolida-se pela beleza estética de uma voz esculpida em um ínfimo procurar pela perfeição técnica, quebrando-se em metal suave quando traduzida na mais límpida emoção.
Concluído o que se iniciou com o artigo “Corra e Olha o Céu – Ricardo Machado”, aqui a apresentação de um jovem e promissor cantor, numa época em que se tem carência de boas produções musicais e de novos talentos que se propõem a soprar um canto de beleza dentro de um cenário enevoado e demarcado por nuvens de produções instantâneas. Aqui, análise contundente do álbum “Ricardo Machado – Volume 2”.

Agudos Fulminantes em Proposta Romântica

Com uma capa que fragmenta várias fotografias do cantor trazendo o microfone como apresentação da sua proposta, acentuando o contraste entre o azul do fundo do cenário, a camisa preta e a pele branca, o álbum, em uma primeira visitação ao invólucro, mostra-se discreto. Produzido e idealizado pelo próprio cantor, traz os arranjos coesos de Ricardo Calafate, o mesmo que se lhe apresentou no primeiro trabalho.
Seduzir” (Djavan), cantado em capela, surge em forma de vinheta, mostrando a delicadeza da voz de Ricardo Machado. Em um convite suave, ouve-se:

“Cantar é mover o dom
do fundo de uma paixão (...)
(...) Revelar todo o sentido”


E será do fundo das paixões, do âmago do dom do canto, que se erguerá todo o álbum. Após o singelo, mas contundente convite da vinheta, entramos na atmosfera do disco propriamente dito. “Quem Tem a Viola” (Zé Renato – Chico Chaves – Cláudio Nucci – Juca Filho), abre-se surpreendente. Ricardo Machado chega seguro, límpido, longe do intimismo lírico que a canção proporciona, arriscando um tom mais alto e o metal da voz, dando ritmo aos violões, eclipsando agudos e cordas de aço e nylon, num contraste atraente, quebrando a limitação de toada épica do original, fazendo-a mais pop e moderna. Já no início, percebe-se que a ousadia vence o medo de querer acertar, e a vontade de mostrar o que se manteve escondido até então, a força de uma voz liricamente vibrante. Quando pronuncia as palavras “metal” e “cristal”, os agudos fulminam os violões, sendo suavizados nos vocais do próprio cantor, que nos mostram as possibilidades de uma voz privilegiada.

“Quem tem a viola
Pra se acompanhar
Não vive sozinho
Nem pode penar
Tem som de rio
Numa corda de metal
Tem o mar num acorde final”


Sem Dizer Adeus” (Paulinho Moska), uma canção que toca na mais profunda emoção dos sentimentos, numa veia dramática latente, que, de tão rascante na mensagem contundente, chega a beirar às raias do brega se interpretada de forma errada. Ricardo Machado não tem medo de ir ao romantismo mais vincado das canções, mergulhando de cabeça, emergindo sóbrio, lírico, apaixonante. A voz está límpida, não abusa dos agudos, não percorre as feridas da letra, vai ao fundo da emoção, ampliando a latente lírica da voz, traduzida em pura beleza que de suave, corta como uma lâmina.

“Eu
Chorei até ficar debaixo d’água
Submerso por você
Gritei até perder o ar
Que eu já nem tinha pra sobreviver (Eu andei...)”


Um Clássico Imprescindível do Jazz

Vamos desaguar, surpreendentemente na mítica “My Funny Valentine” (Richard Rodgers – Lorenz Hart). Feita para um musical da Brodway, “Babes in Arms”, em 1937, a canção tornou-se um clássico do jazz, passando pelos repertórios de Chet Baker, Frank Sinatra, Ella Fitzgerald e Jimmy Giuffre.
Ao contrário do que se pensa, é uma mulher quem canta para o seu amado, Valentine (palavra muitas vezes erroneamente traduzida como namorada [o]), onde acentua os defeitos do amado, mostrando-o não belo ou inteligente, mas que no final, pede para que não mude um fio de cabelo se a amar. São Valentino, Valentine, em inglês, é o santo dos casais apaixonados, sendo o dia dos namorados comemorado no seu dia em muitos países. Daí o arremate final da canção, “Each day is Valentines’s Day” (todo dia é dia dos namorados). Sabendo-se da origem da canção, fica mais fácil situá-la dentro do contexto do álbum. O que parece ser algo “cool” e isolado, interliga-se na proposta que Ricardo Machado quer dar, cantar o amor. Começa intimista, opta por uma canção em inglês que, aparentemente doce, é uma sátira ao amado, e ao mesmo tempo, uma declaração de amor sincera, sem máscaras. É este tipo de amor que canta Ricardo Machado, que se expõe em rasgos abertos e despidos, mas que se retrai ao dramático, fincando-se no lírico, na suavidade da poesia.
Interpretação aparentemente “cool”, ele vai, aos poucos, intencional ou intuitivamente, atingindo o universo dos autores, Richard Rodgers e Lorenz Hart, traduzindo aquela atmosfera do jazz branco dos judeus de Nova York. Se o intimismo inicial sugere a interpretação politicamente correta, Ricardo Machado agarra a atmosfera, solta-se na emoção do verso final “Stay little Valentine, Stay” (Fique, pequeno namorado, ou pequeno Valentine, conforme o jogo de palavras). Neste momento a voz vem quente, embriagante, mostrando porque “My Funny Valentine”, uma canção feminina, tornou-se através do tempo, essencial nas vozes masculinas. Ricardo Machado consegue manter o segredo da usurpação pelos homens do clássico. Numa primeira leitura do disco, perguntamos o que esta música está ali a fazer, no meio do repertório. Numa segunda audição, vamos perceber o elo, a essência do cantor, que mesmo quando se quer revelar docemente marginal, é vencido pela estética lírica inconfundível do seu canto.

“But don’t change your hair for me
Not if you care for me
Stay little Valentine, stay!
Each day is Valentine’s Day”


Prelúdio e Primeiro Clímax

Primavera” (Cassiano – Silvio Rochael), acentua a clareza da pronúncia das palavras na voz do cantor, que elimina qualquer sotaque regionalista, ampliando a beleza estética da poesia, milimetricamente articulada. Mais uma vez os vocais do cantor embelezam a canção, proporcionando-lhe um toque melódico envolto na extensão da sua voz. O passionalismo à flor da pele emerge quando o cantor pronuncia “meu amor”, numa verdade que se amplia incontestável, chegando aos nossos ouvidos diluída mais uma vez, pelo lirismo que provoca, fazendo do drama uma paisagem primaveril suave, do amor com o gosto quente do sangue e da carícia poética de uma brisa macia. Não é o melhor momento do disco, que ainda estar por vir, mas é o prelúdio, é a voz que já não se contenta em ser comportada, que quer subverter o potencial que se lhe negam os sofismas dos professores de música. É o canto já amadurecido, pronto para hipnotizar quem que se lhe ouse a ouvir.

“Eu, é primavera, te amo
É primavera, te amo meu amor
Trago esta rosa para te dar
Trago esta rosa para te dar
Meu amor”


E para quem percorreu todas as faixas à procura de um momento que se atinja o ápice, “Autonomia” (Cartola) proporciona a concretização deste instante. Ricardo Machado já havia navegado com segurança no universo de Cartola, gerando bons momentos no álbum anterior com “Corra e Olhe o Céu” (Cartola – Dalmo Casteli) e “Acontece” (Cartola). Mas é nesta faixa que se revela um profundo tradutor da emoção do velho mestre, e, brinda-nos com uma das mais sublimes, senão a melhor, interpretação de “Autonomia”. O amor como prisão consentida, o sentimento que de opção, torna-se o ar, a perda da liberdade ante outra vida. Cartola sabe como ninguém tocar na sensibilidade das relações, das paixões sinceras. Ao contrário do que aconteceu no disco anterior, aqui Ricardo Machado não se atém ao acadêmico, entrega-se de corpo e alma à canção. Faz da poesia a palavra cantada, dilacerada pela emoção. A sua voz alcança a beleza estética que tanto foi sugerida, em um momento de pura emoção lírica, atingindo um apogeu no fim das estrofes, revelando finalmente o timbre ideal, perseguido e traduzido na essência. Nesta interpretação, o cantor é revelado em seu esplendor vocal.

“É necessário a nova abolição
Pra trazer de volta a minha liberdade
Se eu pudesse gritaria, amor
Se eu pudesse brigaria, amor
Não vou, não quero”

E o bom momento do álbum segue com “Fadas” (Luiz Melodia), atingindo outro ápice. Luiz Melodia é daqueles compositores que crava no existencialismo solto em palavras que sugerem imagens, fragmentos de momentos. Suas canções têm um toque que se casam com a voz feminina. Ricardo Machado mostra-se extremamente seguro, em um à vontade que lhe permite conduzir com brilho os fragmentos poéticos da mensagem do autor. Os bandolins simulam as guitarras portuguesas, dando um toque de fado contemporâneo, leve e sem o gosto da lágrima. Suave, de ritmo que se mescla entre uma valsa e um fado, proporcionando um dos pontos altos do cantor, que aqui já se faz soberano, encantador, usando do privilégio rítmico que só os que nascem com o dom do cantar conseguem atingir sem que se esforce muito. Ricardo Machado absorve todos os movimentos de idas e vindas da poesia rabiscada do compositor das quadras do Estácio.

“Devo de ir, fadas
Inseto voa em cego sem direção
Eu bem te vi, nada
Ou fada borboleta, ou fada canção”


Visita aos Anos Oitenta e Um Outro Momento Mágico

Noite do Prazer” (Arnaldo Brandão – Cláudio Zolli – Paulo Zdanowski) dá uma quebra momentânea ao clima alcançado pelas faixas anteriores. Traz a leveza estética que lhe é peculiar. Exercício contundente para a voz, que desde a primeira faixa mostrou-se ancha. Sucesso dos anos oitenta, a canção não se furta em deixar um leve trave de uma época que já se foi. Ricardo Machado consegue articular todas as palavras, principalmente no verso “tocando B. B. King sem parar”, desfazendo a ambigüidade que sempre se lhe ficou enraizada, quando todos cantaram “trocando de biquíni sem parar”. Cumpre bem a proposta, mas não empolga. É o momento menor de um disco brilhante. É como se o cantor deixasse nos anos oitenta o seu fascínio pela canção. “Noite do Prazer” chega sem fôlego, visivelmente datada, presa aos resquícios da geração do desbunde, que dava os seus últimos suspiros na década da queda das ideologias.

“A noite vai ser boa
De tudo vai rolar
De certo que as pessoas
Querem se conhecer
Se olham e se beijam
Numa festa genial”


Mas as surpresas não se findaram, pelo contrário, chega com fôlego um outro grande momento, “Desenho de Giz” (João Bosco – Abel Silva). Cantando inicialmente em um tom mais grave, Ricardo Machado navega na canção com domínio técnico, perdendo-o por instantes para a emoção, alcançado o lirismo supremo vociferado por agudos perfeitos, magnetizando o metal da voz, atraindo como um ímã os ouvintes. Veste-se de sublime coragem para cantar o amor e os seus labirintos, sem fazê-lo extenuante, sem que lhe embace a delicadeza poética. As palavras sopradas e articuladas com perfeição, uma característica do cantor, perdem o academicismo proposto no primeiro álbum, ganhando a dimensão lírica do timbre metálico, a emoção vincada quando traduzidas na melodia, diluindo-se em efeitos provocados pelas várias vozes aqui por ele usadas. Consegue conciliar a pronúncia silábica com o lirismo extenuante da voz, unindo de forma estética definitiva a poesia e a melodia, impregnando-lhe a suavidade de um canto conduzido pelo etéreo. Assim como em “Autonomia”, a voz de Ricardo Machado expele beleza, desenhando não uma estética de giz, mas de sofisticada nanquim tatuada na pele dos sentimentos.

“Quem quer viver um amor
Mas não quer suas marcas, qualquer cicatriz
A ilusão do amor
Não é risco na areia, é desenho de giz
Eu sei que vocês vão dizer
A questão é querer desejar, decidir
Aí diz o meu coração
Que prazer tem bater se ela não vai ouvir”


Frenética Arrancada Final

Perdão Você” (Carlinhos Brown – Alaim Tavares) ressalta a verve de cantor lírico que Ricardo Machado traz na bagagem. Dando um toque de sofisticação, ele dispensa os instrumentos musicais, ousando interpretar toda a canção em capela, acrescentando-lhe um vocal próprio de fundo. Para completar o efeito, convida Ana Cláudia Casaca, com quem divide um delicado dueto. Desenhando uma erudição moderna, a ousadia não chega a traduzir um momento de grande esplendor, mas não decepciona em sua beleza estética. Ana Cláudia Casaca mostra com segurança a beleza da sua voz. Ricardo Machado consegue um bom momento, mas que nada evidencia a genialidade que já alcançou até aqui. Talvez seja o único momento do disco que traz aquele intimismo academicista do primeiro disco, sem que risque em nada toda a proposta aguda e ousada aqui diluída.

“Sei que a tendência
Anda nas frestas
No decidir da mente
É como se perder de Deus
E eu não quero
Eu não quero me perder
Eu não quero te perder
Perdão Você”

Surpreendentemente, o disco chega ao fim com uma velocidade estonteante, através da irreverente “Não Enche” (Caetano Veloso), uma daquelas canções de Caetano Veloso de tirar o fôlego de quem a canta. Letra provocativa, com termos que satirizam a amada, quase que ofensivamente, traz quilômetros de palavras vociferadas em tom frenético. Ricardo Machado aceita o desafio e freneticamente, não perde nenhuma sílaba das palavras arrancadas em uma melodia que não se deixa pausar, numa pulsação veloz. A canção surge divertida, agradável, de fácil assimilação não fosse uma letra sem fim, labiríntica, difícil de ser cantada e assimilada no todo. Ricardo Machado passa por todas as armadilhas dos ritmos, por todas as palavras de uma poesia quase psicodélica. Mostra-se tranqüilo, seguro, num prelúdio de despedida do álbum que lhe garante a qualidade de um grande intérprete, já maduro e pronto.

“Harpia! Aranha!
Sabedoria de rapina
E de enredar, de enredar
Perua! Piranha!
Minha energia é que
Mantém você suspensa no ar
Pra rua! Se manda!
Sai do meu sangue
Sanguessuga
Que sabe sugar
Pirata! Malandra!
Me deixa gozar, me deixa gozar
Me deixa gozar, me deixa gozar...


O disco é encerrado como foi iniciado, com “Seduzir” (Djavan), em forma de vinheta, cantada em capela:

“Cantar é mover o dom
do fundo de uma paixão (...)
(...) Revelar todo o sentido”


Nunca os versos de Djavan foram cantados com tanta sinceridade e, sinceridade, é a palavra chave do canto de Ricardo Machado, em um trabalho delicado, de sofisticada composição estética, de precisão na escolha de um repertório que não se perde, mas que se acrescenta a cada faixa, de uma voz que já se mostra técnica e emotivamente conciliada, expandido-se nas suas possibilidades, cada vez mais buscando por novos desafios. “Ricardo Machado – Volume 2” empolga pela honestidade de um trabalho límpido, pela tenacidade de um artista que tenta superar as limitações de um mercado fechado e cruel, pela tradução de que o cenário musical brasileiro tem muito a oferecer por aí, em sensíveis obras de autores independentes. Cabe a nós descobrirmos e divulgar estas pérolas tão docemente escondidas dentro de uma ostra de carcaça sólida chamada MPB.

Ficha Técnica:

Ricardo Machado 2
Produção Independente

Produção e Seleção de Repertório: Ricardo Machado
Direção Musical: Ricardo Machado e Ricardo Calafate
Técnico de Estúdio: Ricardo Calafate e Ricardo Cidade
Técnicos de Mixagem e Masterização: Ricardo Calafate e Ricardo Cidade
Arranjos: Ricardo Calafate
Arranjos Vocais: Ricardo Machado e Ricardo Calafate
Fotos: Jorshey Stúdio
Projeto Gráfico: Ricardo Machado
Processamento de Imagens: Gabriel Nunes
Arte Final: Gabriel Nunes
Realização Gráfica: Artes Gráficas e Editora Exímia
Idealização de Texto: Ricardo Machado
Colaboração: Nelson Almeida, Leandro Marzulo, Fernanda Veloso, Solange V. Santos, Rogério M. Santos
Gravado no Estúdio Usina
Agradecimentos Especiais de Ricardo Machado: Ricardo Calafate, Ana Cláudia Casaca, Ricardo Cidade, Nelson Almeida, Gabriel Nunes, Márcio Amorim, Afonso Martins, Leandro Marzulo, Fernanda Veloso, Filipe Affonso, Rogério Machado, Solange Veloso, Lúcia Regina, Odete Faria, Adyl Faria, Augusto Santos e a todos que apoiaram este projeto. Agradeço a Deus

Músicos Participantes:

Violão Aço: Ricardo Calafate (Faixas “Quem Tem a Viola”, “Sem Dizer Adeus”, “Primavera” e “Noite do Prazer”)
Violão Nylon: Ricardo Calafate (Faixas “Sem Dizer Adeus”, “Fadas”, “Desenho de Giz” e “Não Enche”)
Violão 7 Cordas: Ricardo Calafate (Faixas “Autonomia” e “Fadas”)
Guitarra Solo: Ricardo Calafate (Faixas “Quem Tem a Viola”, “My Funny Valentine”, “Noite do Prazer”, “Desenho de Giz” e “Não Enche”)
Guitarra Base: Ricardo Calafate (Faixas “My Funny Valentine”, “Desenho de Giz” e “Não Enche”)
Baixo Elétrico (Synti): Ricardo Calafate (Faixa “Quem Tem a Viola”) e Afonso Martins (Faixa “Noite do Prazer”)
Baixo Acústico: Afonso Martins (Faixa “My Funny Valentine")
Triângulo: Ricardo Calafate (Faixa “Sem Dizer Adeus”)
Bandolim: Ricardo Calafate (Faixa “Fadas”)
Programação de Bateria: Afonso Martins (Faixa “Noite do Prazer”)
Percussão: Afonso Martins e Ricardo Calafate (Faixa “Noite do Prazer”)
Surdo, Caixa, Tamborim, Xique-Xique e Reco-Reco: Ricardo Calafate (Faixa “Não Enche”)
Vocais: Ricardo Machado
Participação Especial: Ana Cláudia Casaca (voz em “Perdão Você”)

Faixas:

1 Seduzir (Djavan) (vinheta), 2 Quem Tem a Viola (Zé Renato – Chico Chaves – Cláudio Nucci – Juca Filho), 3 Sem Dizer Adeus (Paulinho Moska), 4 My Funny Valentine (Richard Rodgers – Lorenz Hart), 5 Primavera (Cassiano – Silvio Rochael), 6 Autonomia (Cartola), 7 Fadas (Luiz Melodia), 8 Noite do Prazer (Arnaldo Brandão – Cláudio Zolli – Paulo Zdanowski), 9 Desenho de Giz (João Bosco – Abel Silva), 10 Perdão Você (Carlinhos Brown – Alaim Tavares) Participação Ana Claudia Casaca, 11 Não Enche (Caetano Veloso), 12 Seduzir (Djavan) (vinheta)

RICARDO MACHADO - SITES:

http://ricardomachadocantor.blogspot.com/


http://ricardomachadocantor.multiply.com/
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Quinta-feira, 27 de Maio de 2010

CORRA E OLHE O CÉU - RICARDO MACHADO

Numa época que o cenário musical brasileiro mostra-se instável e sem direção, que a MPB sobrevive do que se ergueu nos últimos quarenta anos, sem que se apresente criatividade e trabalhos consistentes; que o mercado assiste ao colapso das grandes gravadoras, ultrapassadas pelo fenômeno da era digital, limitadas pela falta de qualidade do que apresentou ao público nos últimos vinte anos, transformando os sertanejos em ais medíocres do brega romântico, a música de raiz afro e seus axés em movimentos vulgares de glúteos e quadris pululantes, visando assim, o lucro fácil e o sucesso instantâneo; eis que surgem trabalhos sinceros, feitos para um mercado fechado, que se nega a abraçar o medíocre, mas que paga o preço de não conseguir patrocínios, condenando boas produções ao ostracismo, sem alcançarem um grande público, mostrando-se fechadas em circuitos restritos, sem que se consiga formar uma vanguarda que dê uma lufada no óbvio.
De tempos em tempos, descobre-se uma Maria Gadu pelos bares da vida e, percebe-se que dentro da carência de uma MPB estagnada no âmago da sua genialidade temporal, existem talentos que se mantêm intactos à corrosão da falta de qualidade e ao declínio de um dos gêneros musicais mais apreciados no mundo.
É neste contexto atribulado que se me aparece Ricardo Machado, cantor carioca, dono de uma voz consistente, de timbre metálico que quando se propõe a desafiar os seus agudos, transforma a palavra dentro da melodia de uma forma estética admirável, alcançado ápices primorosos que nos trazem o puro prazer em se ouvir a boa Música Popular Brasileira.
Com dois álbuns independentes, “Corra e Olhe o Céu” e “Ricardo Machado”, o cantor oferece um trabalho límpido e de sensível sinceridade, sem em momento algum, fugir da proposta ou cair no vão dos projetos pretensiosos. Ricardo Machado propõem-se a cantar a MPB, mostrando que as canções não têm tempo e intérpretes definitivos, e que dentro de um acervo infinito, redescobrir sucessos vestindo uma voz bonita, torna-se novo e único, quase com cheiro de inédito.
Neste artigo, o primeiro álbum de Ricardo Machado se nos será apresentado, proporcionando a quem correr o risco, uma agradável surpresa dentro da arte de cantar, sem os resquícios do compromisso com as exigências do mercado. Singela, sincera, de uma beleza tênue e límpida, a obra de Ricardo Machado é um verdadeiro convite ao bom gosto, ao prazer de ouvir a Música Popular Brasileira.

Abrem-se as Faixas em Suave Romantismo

Ricardo Machado, carioca que se divide entre cantar e a profissão de dentista, traz na bagagem as raízes do cantor lírico, que se deixou seduzir pela música popular, demarcando esta característica na suavização do seu canto. Vindo do Coral da Universidade Gama Filho, foi desde sempre um apaixonado pela MPB, em especial por Gal Costa, uma influência que se estende na interpretação, vincada no lirismo melódico, distanciando-se da latência passional.
O álbum de estréia, aqui renomeado “Corra e Olhe o Céu”, traz um repertório conciso, com canções suaves, feitas por diversos autores, que se interligam em um todo, onde a melodia e a poesia são indivisíveis. Letra e melodia nivelam-se, sem jamais uma sobressair-se à outra, ponto de partida para o estilo pessoal de Ricardo Machado. Poucos como ele pronunciam todas as sílabas da canção, diluindo-as na melodia com clareza, sem arranhar a delicadeza musical, fazendo a felicidade de qualquer letrista, muitas vezes ofuscado pela música, iluminando assim, a poesia que há nas composições da MPB.
Canção da Manhã Feliz” (Haroldo Barbosa – Luiz Reis), abre o álbum. Canção que exalta o amor, que chega suave depois das tempestades, que entra como uma luz radiante em um coração discreto. Ricardo Machado sabe dosar o lirismo exato da canção, optando por um intimismo lírico, ameaçando, por alguns momentos, lançar-se na beleza metal da sua voz, contendo-se da explosão estética que pode e quer atingir, mas sem se perder da delicadeza do momento. A voz abre-se para a emoção.

“Eu abri a janela
E este sol entrou
De repente em minha vida
Já tão fria e sem desejos
Estes festejos
Esta emoção
Luminosa manhã
Tanto azul tanta luz
É demais pro meu coração”


Todo Azul do Mar” (Ronaldo Bastos – Flávio Venturini) chega como um sopro, ampliando o proposto na primeira faixa, transformando a poesia em melodia, sem ela, o canto de Ricardo Machado não faz sentido. Os floreados são salpicados como atenuantes ao convite lírico.

“Quando eu dei por mim
Nem tentei fugir
Do visgo que me prendeu
Dentro do seu olhar”


Rasgos Viscerais

O amor suave cantado nas primeiras faixas dá passagem para o existencialismo pulsante, à flor da pele de “Resposta ao Tempo” (Aldir Blanc – Cristóvão Bastos). Canção forte, que beira o precipício dos sentidos, num diálogo dilacerante entre o tempo e um sobrevivente das grandes paixões. Aparentemente simples, a canção requer fôlego para que se suba às escadas do diálogo, onde as palavras são mais amplas que a melodia, que muitas vezes mostra-se tolhida dentro das grandes frases. Nana Caymmi atravessou com passionalismo a canção. Ricardo Machado suaviza o diálogo, estreita-se nos seus labirintos e sai com maestria dos becos que se lhe abrem, mantendo o fôlego das palavras, ao contrário da interpretação de Nana, que às vezes o parece perder. A veia passional exacerbada que a canção sugere passa longe da suavidade estética que Ricardo Machado insiste em transformar aquilo que canta. Como discípulo de Gal Costa, prefere transformar o trágico em suportável, a dor em beleza solitária, o desespero em ludismo, a palavra em melodia sincronizada, interligada num poema cantado.

“Respondo que ele aprisiona, eu liberto
Que ele adormece as paixões, eu desperto
E o tempo se rói com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor pra tentar reviver”


Se até o momento o cantor mostrou-se comportado, sedutoramente acadêmico, na quarta faixa, “Me Chama de Chão” (Paulinho Moska – Fernando Zarif – Branco Melo), ele apaga tudo e solta toda a verve escondida, sem qualquer pudor em arriscar o metal da voz em momentos que os agudos expandem as frases mais constrangedoras da música, numa deliciosa malícia. De forma visceral, ousada, ele desnuda a canção, rasga a sua mensagem, fazendo-a adoravelmente crua, desconcertante aos ouvidos mais pudicos e, arrebatadora aos que sabem os vários caminhos que se conduz o amor na sua forma bruta, na sua essência tão primitiva quanto o próprio lapidar do sentimento. Um dos melhores momentos do álbum. E também onde se revela um pouco do potencial da voz que Ricardo Machado sabe guardar tão bem, como uma surpresa em um invólucro súbito.

“Bate que sou tua porta
Bate que sou teu bife
Bate que sou teu homem
Sou teu cão (...)
(...) Me chama de chão
Me chama
Come que eu sou teu rabo
Cospe, que eu sou teu prato”


No Lirismo dos Autores do Clube da Esquina

Nascente” (Flávio Venturini – Murilo Antunes) restabelece a suavidade, chegando mansa, macia. Se as sereias trazem um canto hipnótico e fatal, os tritões sopram a melodia em um precipício que se nos arremessa aos rochedos dos sentimentos. Ricardo Machado, no seu intimismo domesticado, transforma-se no tritão em alto mar, cantante e solitário!

“Clareia manhã
O sol vai esconder a clara estrela
Ardente
Pérola do céu refletindo
Teus olhos”

Travessia” (Milton Nascimento – Fernando Brant), a mais definitiva canção de Milton Nascimento, passou pelas mais diversas vozes da MPB, vestindo desde a densidade claustrofóbica de Elis Regina à interpretação em estilo épico do autor. Foi tão explorada, que por muito tempo tornou-se sem novidades. Ricardo Machado propõe-se em transformar o óbvio em algo seu, conseguindo dar uma identidade própria, o que lhe acentua a intuição e o estilo. Atravessa toda a dor pungente da canção e, quando o desabrochar da melodia eleva a voz no verso “vou soltar o meu pranto” e se espera o ápice de “vou querer me matar”, ele quebra o tom, baixando-o subitamente, fazendo com que o ouvinte desenhe na mente uma imagem a cair no vão de um precipício. Efeito notável, mostrando como o cantor resiste ao passionalismo erguido, optando pelo lirismo poético.

“Solto a voz nas estradas, já não quero parar
Meu caminho é de pedras, como posso sonhar
Sonho feito de brisa, vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto, vou querer me matar”


De Paulinho da Viola a Cartola

Deixando o universo dos mineiros do Clube da Esquina, Ricardo Machado mergulha no samba macio de Paulinho da Viola. “Coração Leviano” (Paulinho da Viola), é interpretada com concisão, preservando a delicadeza da beleza estética que o cantor impõe. Discretamente, murmura alguns agudos, retraindo-se para não desconstruir a proposta inicial. Insere no final, um rasgo meteórico de “Insensatez” (Vinícius de Moraes – Tom Jobim), num arremate entre o samba e a Bossa Nova cariocas.

“Ah coração teu engano foi esperar por um bem
De um coração leviano que nunca será de
Ninguém”


Corra e Olhe o Céu” (Cartola – Dalmo Casteli), amplia a proposta do álbum. A voz mostra-se quente, transitando as possibilidades, arriscando os graves, concebendo um ludismo romântico, vertido nas sílabas melódicas, na percepção da sensibilidade autoral. A canção alinhava toda a proposta do álbum, selando os vários universos de autores diferentes apresentados por Ricardo Machado. É o momento que se identifica com precisão o intimismo do cantor e a expansão da sua sensibilidade, a sofisticação na escolha do repertório e a sua paixão pela genuína MPB.

“Linda!
No que se apresenta
O triste se ausenta
Fez-se a alegria
Corra e olhe o céu
Que o sol vem trazer
Bom dia”


Ricardo Machado mostra-se seguro e à vontade no universo de Cartola. Segue o rastro do mestre com a faixa “Acontece” (Cartola). Mais uma vez deixa fluir o timbre metálico, que emerge quase que sufocado dentro do intimismo acadêmico que mantém coerente, sem nunca ferir a beleza exposta e a subtender a que se esconde no mais sublime âmago. Apesar de mais duas faixas, é como se ele se despedisse aqui, encerrando o delicado e sofisticado repertório, no qual transitou com domínio pleno e suavidade envolvente.

“Esquece o nosso amor, vê se esquece
Porque tudo na vida acontece
E acontece que eu já não sei mais amar
Vai chorar, vai sofrer, e você não merece
Mas isso acontece”


A décima faixa talvez seja o grande equívoco do álbum. “Canção da Manhã Feliz” (Haroldo Barbosa – Luiz Reis), volta em um dueto com Márcia Coelho, que apesar da beleza da voz, mostra-se menor quando Ricardo Machado entra, reforçando o tom lírico que impregnou na primeira faixa, fazendo deste curto momento um ápice isolado. Uma terceira voz (Eduardo Coelho), junta-se aos dois, num encerramento bonito, mas que nada acrescenta à sofisticação do repertório e à beleza das interpretações solitárias de uma grande voz.
E o ápice final vem com “Bachianas Brasileiras nº 5” (Heitor Villa Lobos), onde Ricardo Machado acentua as raízes de cantor lírico. A ousadia não torna a proposta do álbum pretensiosa, imprime-lhe o carimbo do bom gosto, afirma toda a sofisticação que se manteve da primeira à última faixa. Encerra um trabalho ímpar, de um cantor que ao penetrar com coragem no universo da MPB, dá ao repertório escolhido uma identidade própria, despindo-o de qualquer estigma que se lhe exija um repertório próprio, feito de inéditas.
Longe de se mostrar “crooner”, Ricardo Machado revela-se um cantor de personalidade arraigada, de timbre agradável e de possibilidades múltiplas. O álbum é acadêmico, por ser o primeiro, aquele em que o cantor quer e precisa acertar. Mas dentro deste academicismo, há uma beleza rara, uma promessa de uma grande voz, um gostinho de quero mais aos ouvintes.

Ficha Técnica:

Ricardo Machado – Corra e Olhe o Céu
Produção Independente

Produção, Coordenação e Seleção de Repertório: Ricardo Machado
Técnico de Estúdio: Ricardo Calafate
Técnicos de Mixagem e Masterização: Vanderlan Júnior e Cláudio Louro
Arranjos: Vanderlan Júnior
Concepção da Capa: Ricardo Machado
Fotos: Jorshey Stúdio
Arte Final: Cláudio Louro
Gravado no Estúdio Usina
Mixado e masterizado no Estúdio Groove
Agradecimentos Especiais de Ricardo Machado: À minha família, Cláudio Louro, Vanderlan Júnior, Ricardo Calafate, Maurício Capistrano, Maurício Rizzo, Márcia Coelho, Dudu e a todos que apoiaram a realização deste trabalho

Músicos Participantes:

Violão Eletro-Acústico: Ricardo Calafete (Faixas “Canção da Manhã Feliz”, “Todo Azul do Mar”, “Resposta ao Tempo”, “Me Chama de Chão” e “Nascente”) e Maurício Rizzo (Faixa “Acontece”)
Violão Acústico: Maurício Capistrano (Faixas “Travessia”, “Coração Leviano”, “Corra e Olhe o Céu”, e “Bachianas Brasileiras número 5”)
Teclados e Programação de Bateria: Vanderlan Júnior
Vocais: Ricardo Machado
Participações Especiais: Márcia Coelho (voz e vocal em “Canção da Manhã Feliz”) e Eduardo Carvalho – Dudu (vocal em “Canção da Manhã Feliz”)

Faixas:

1 Canção da Manhã Feliz (Haroldo Barbosa – Luiz Reis), 2 Todo Azul do Mar (Ronaldo Bastos – Flávio Venturini), 3 Resposta ao Tempo (Aldir Blanc – Cristóvão Bastos), 4 Me Chama de Chão (Paulinho Moska – Fernando Zarif – Branco Melo), 5 Nascente (Flávio Venturini – Murilo Antunes), 6 Travessia (Milton Nascimento – Fernando Brant), 7 Coração Leviano (Paulinho da Viola), 8 Corra e Olhe o Céu (Cartola – Dalmo Casteli), 9 Acontece (Cartola), 10 Canção da Manhã Feliz (Haroldo Barbosa – Luiz Reis) Participação Especial Márcia Coelho, 11 Bachianas Brasileiras nº 5 (Heitor Villa Lobos)


RICARDO MACHADO - SITES:

http://ricardomachadocantor.blogspot.com/

http://ricardomachadocantor.multiply.com/




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Quinta-feira, 31 de Dezembro de 2009

A NOITE, O CÉU, A LUA, AS ESTRELAS E OS POETAS

 

 
Quando o silêncio cobre a cidade adormecida, faço uma visita a todas as noites do mundo. Não me perco em trevas, porque tenho as estrelas a iluminar os becos em que me perco. Se na desordem do dia não tive a mesma inspiração, é porque a intensidade do Sol queimou o frio que só a lua sabe apaziguar.
Noites estreladas, noites de lua minguante, noites de festas, de solidão ou de paixão profunda. Na noite de natal bebo o vinho da confraternização do renascer das tradições, na noite de reveillon brindo à esperança de quebrar os dogmas. Nas noites atéias, perco o meu corpo em leitos clandestinos ou assinalados pela poesia dos amantes.
Conta a história que homens pisaram na Lua, chegaram com as suas bandeiras e empáfias e nada viram, a não ser crateras inóspitas. Nada poderiam ver, porque a Lua não é dos astronautas, é dos poetas, que sem nunca tocar o seu solo, conhecem todos os seus segredos, são cúmplices dos seus mistérios.
A noite, a Lua, as estrelas, amigas das canções de amor; dos amantes que se entregam antes do Sol clarear as verdades. São as estrelas que iluminam o soldado em seu último suspiro, revelando-lhe o brilho quando tomba em campos inimigos, fazendo-o descobrir tardiamente que a guerra não lhe pertencia.
Não temo a noite, não me assusto com o seu silêncio perturbador, com a sua escuridão murmurante. Aqueço-me com o pulsar dos meus sentidos, com as palavras dos poetas que cantaram a Lua, as estrelas, o céu, o amor; com os abraços que me apertaram, com as pernas que entrelacei em um tango erótico, com o suor que me desenhou os pêlos em pinturas ilógicas; com os sons ilegíveis, quase indecentes de bocas que se perdem nos beijos.
Na noite de reflexão, de paixão ou de solidão, encontro-me com todos os poetas que deles roubei uma poesia para encantar, seduzir, ou simplesmente, retocar os meus atos amor.

Nesta Noite de Natal - Jeocaz Lee-Meddi

Nesta noite de Natal sem fim...
Quero mergulhar contigo nos pensamentos que trazem mais soluções do que tormentos;
Correr riscos mais próximos dos sentimentos;
Não ter tempo para as mágoas e para a fugacidade da juventude.

Nesta noite de Natal sem chuva...
Quero decifrar os códigos dos meus mais antigos mistérios;
Flutuar na magia de um desconhecido amanhecer sereno;
Aconchegar a suavidade de uma brisa a soprar outras esperanças.

Nesta noite de Natal sem sombras...
Quero contigo, apenas encontrar um momento de beleza;
Respirar sem medo as necessidades de existir;
Refletir no espelho as mais cristalinas e dúbias verdades.

Nesta noite de Natal itinerante...
Quero contigo recompor os rostos que nos esculpiu o tempo;
Ser mais uma essência humana do que uma personalidade vincada;
Traduzir o mundo em atos e motivos da construção do ser;
Sem ter que me perder na dissociação das mais tênues tradições;
Arriscar ser feliz, ainda que numa noite sem fim.

He Wishes for the Cloths of Heaven – W. B. Yeats

Had I the heavens’ embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half-light,

I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.

Ele Deseja os Tecidos do Céu (tradução)

Tivesse eu os tecidos bordados dos céus,
Lavrados com a prata e o ouro da luz,
Os tecidos azuis e foscos e de breu
Que têm a noite, a luz e a meia luz,

Estenderia esses tecidos a teus pés:
Mas eu, que sou pobre, apenas tenho sonhos;
São os meus sonhos que eu estendi a teus pés;
Sê suave no pisar, que pisas os meus sonhos.

Tradução de J. M. Magalhães e M. L. Telles

Abdicação – Fernando Pessoa


Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho.

Eu sou um rei
que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.

Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mãos viris e calmas entreguei;
E meu cetro e coroa – eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços

Minha cota de malha tão inútil,
Minhas esporas de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.

Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.

Canto de Mim Mesmo - XXI – Walt Whitman

Sou o poeta do Corpo e o poeta da Alma,
As aventuras do Céu estão em mim e as penas do Inferno estão em mim,
As primeiras enxerto e reforço em mim mesmo, as últimas traduzo para uma nova língua.

Sou o poeta da mulher e do homem,
E digo que é tão grande ser mulher como ser homem,
E digo que não há nada maior que a mãe dos homens.

Canto o canto do crescimento ou do orgulho,
Já baixamos bastante a cabeça, já imploramos,
Provo que a medida é apenas desenvolvimento.

Já excedeste o resto? És o Presidente?
É uma ninharia, eles excederão isso e muito mais.

Eu sou o que caminha com a crescente e terna noite,
Convoco a terra e o mar meio abraçado pela noite.

Aperta-me, noite, no teu peito nu – aperta-me, noite magnética e abundante!
Noite dos ventos do sul – noite das grandes estrelas raras!
Noite silenciosa e sonolenta – louca e nua noite de verão!

Sorri, oh voluptuosa terra fresca!
Terra das árvores adormecidas e cintilantes!
Terra do sol posto – terra das montanhas cobertas de névoa!
Terra do fluir vítreo da lua cheia e azul!
Terra de luz e sombra derramadas sobre a maré do rio!
Terra de límpidas nuvens pálidas resplandecendo para mim!
Terra de braços arrebatados ao longe – rica terra de macieiras em flor!
Sorri, que aí vem o teu amante.

Pródiga, deste-me amor – e assim te dou amor!
Oh, indizível e apaixonado amor.

Tradução de José Agostinho Baptista

Quatro Baladas Amarelas – Federico Garcia Lorca

No alto daquele monte
há uma arvorezinha verde.

Pastor que vais,
pastor que vens.


Olivais sonolentos
baixam à planície quente.

Pastor que vais,
pastor que vens.


Nem ovelhas brancas nem cachorro
nem cajado nem amor tens.

Pastor que vais.

Como uma sombra de ouro,
no trigal te dissolves.

Pastor que vens.

II

A terra estava
amarela.

Ourinho, ourinho,
pastorzinho.


Nem lua branca
nem estrelas luziam.

Ourinho, ourinho,
pastorzinho.


Vindimadora morena
corta o pranto da vinha.

Ourinho, ourinho,
pastorzinho.


III

Dois bois vermelhos
No campo de ouro.


Os bois têm ritmo
de sinos antigos
e olhos de pássaros.
São para as manhãs
de névoa, e sem embargo
perfumam a laranja
do ar, no verão.
Velhos desde que nascem
não têm amo
e recordam as asas
de seus costados.
Os bois
sempre vão suspirando
pelos campos de Ruth
em busca do vau,
do eterno vau,
ébrios de luzeiros
a ruminar seus prantos.

Dois bois vermelhos
No campo de ouro.


IV

Sobre o céu
das margaridas ando.


Nesta tarde imagino
que sou santo.
Puseram-me a lua
nas mãos.
Eu a pus outra vez
no espaço
e o Senhor me premiou
com a rosa e o halo.

Sobre o céu
das margaridas ando.


E agora vou
por este campo
a livrar as meninas
dos galãs maus
e dar moedas de ouro
a todos os rapazes.

Sobre o céu
das margaridas ando.


Texto de: Jeocaz Lee-Meddi

Fotos: Paulo César (1 Um Mundo Melhor, 3 Especialmente Para Ti, 7 Uma Flor Por Cada Vida Contigo), Sandro Mattiolli (2 Jeocaz Lee-Meddi Mensagem de Natal), Luís Lobo Henriques (4 Liturgia), Alba Luna (5 Poema Para Joana), João Rodrigues Simões (6 Natureza Humana) e grENDel (8 Rebirth)
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Sexta-feira, 12 de Junho de 2009

ENCONTRO NO JARDIM DO ÉDEN - JEOCAZ LEE-MEDDI

 

 

“E Deus prosseguiu dizendo:
‘Façamos homem à nossa imagem, segundo a nossa semelhança,
e tenham eles em sujeição os peixes do mar,
e os animais domésticos, e toda a terra,
e todo animal movente que se move sobre a terra.’
E Deus passou a criar o homem à sua imagem,
a imagem de Deus o criou;
macho e fêmea os criou.”
(Gênesis 1:26-27)

Quando a canção dos ventos faz dos mil dias os mil anos, dos mil anos o princípio do passado, onde a confusão do futuro continua a arremessar o nosso ser nas incertezas de Deus. Assim a noite torna-se a máquina do tempo, e o corpo as moléculas das ideologias.
Nas incertezas da minha mente, fugir para os jardins públicos nunca arrebatou os meus desejos. Naquela noite de estrelas e de galáxias sobre as cabeças, entrei pelo Jardim do Trianon. Tudo era escuro, e um cheiro nauseante de flores confundia a primavera. Sempre tive medo de atravessar o coração do jardim. Medo das surpresas, ali assaltantes, drogados e bichas dançavam um tango perigoso com cheiro de sangue e esperma. Não resisti ao cheiro das flores, teria que vomitar. Talvez fosse do absinto, mas preferia acreditar que era das flores, intelectualizava melhor os vícios. Entrei no coração do jardim para vomitar. Poderia tê-lo feito nos urinóis dos cães por ali espalhado, mas a minha condição de cão sem dono não me deixou fazer isto.
Quanto mais penetrava no interior do jardim, mais a noite corria, as nuvens no céu passavam por mim em grande velocidade. As estrelas davam passagem ao Sol, que por sua vez brilhava de um tom pastel, dando à paisagem cores tranqüilas, cromaticamente perfeitas. O jardim foi ampliando-se, tornara-se infinito, já não conseguia ver os prédios. Na minha boca o gosto do absinto dava passagem a um bem-estar quase bucólico. Já não tinha coragem de vomitar.
Caminhei pelo imenso jardim. Por mim passaram plantas, árvores, pássaros, formas da natureza que jamais tinha visto. Quanto mais caminhava, mais me perdia dentro do jardim. Andei alguns minutos, quando vi ao longe um lago. Parecia calmo, convidativo para beber água. Caminhei até o lago, na certeza de querer ver a minha imagem nele refletida. Debrucei-me sobre as margens. Bebi um pouco da água, era saborosa, fresca, pura. Molhei com as minhas mãos o meu rosto. Olhava-me no espelho das águas, quando uma outra imagem formou-se no reflexo das mesmas. A imagem tremia com o movimento das águas. Mas podia ver o corpo de um homem, um rosto a olhar-me. Uma beleza que jamais vi em revistas ou filmes. Levantei-me, vi atrás de mim o homem da imagem nas águas. Sorria-me com um sorriso quase ingênuo, talvez puro. Olhei para o seu corpo, estava nu, completamente nu. Um corpo perfeito, de uma beleza que jamais encontrei nos ginásios de atletas. Trazia músculos exatos, sem nunca ter recorrido aos alteres. Levantei-me, se aquele homem não era uma miragem, com certeza que atenderia a todos os engates de jardins, sem jamais sair dali. Toquei-lhe no ombro. A pele era perfeita, passei-lhe a mão pelo peito. Olhei para ele. Era real.
-Quem és tu, um anjo? - Perguntou-me.
Um anjo? Eu, um anjo? Sim, anjo, querubim, serafim, arcanjo, o que ele quisesse. Para quê dar títulos às coisas? Eu era a ilusão que me quisessem dar, seria difícil de explicar isto?
-Porque me fazes esta pergunta?
-És um anjo? Trazes vestes, deves ser um anjo de Deus.
-Um anjo de Deus? E tu quem és?
-Não sou nada, sou apenas a imagem da obra de Deus. Mas deves saber quem sou. Não fazes parte do jardim, fazes parte do conhecimento que eu ainda não tive, mas que procuro. Fazes parte dos anjos.
-Como te chamas?
-Não sabes? Todos os anjos sabem. Todos me chamam Adão, e não sei porque, todos eles, filhos de Deus, como eu, mas mais poderosos, invejam-me como criação perfeita. Acho que a inveja deles trará um dia o meu fim.
Adão. O jardim não era o Trianon? Olhei à minha volta. Tudo era perfeito, a harmonia da paisagem confundia-se com os animais que passeavam mansamente pelo jardim. Não, definitivamente aquele homem era por demais perfeito para ser um de nós. O seu corpo trazia a beleza divina, sim, agora percebia a inveja dos anjos que queriam ser como Adão. A beleza da criação de Deus ainda perfeita. O corpo como símbolo de beleza, não de desejo. De repente senti-me envergonhado por trazer roupas. As roupas traziam-me o pecado, trazia-me a traição àquela perfeição da obra de Deus.
-Sim, em parte tens razão, não sou um anjo, mas sou o resultado da luta dos anjos com Deus. Um anjo caído, porque sou o teu espelho desfocado, o teu filho mais distante, sem a importância que tens, sem a grandiosidade de ti. Olha o meu corpo. Traz marcas, é imperfeito, perecível, quase um monstro perto do teu. Olha bem o meu corpo, és tu futuramente, sou o que fizeste, sou a tua escolha. A tua liberdade diante da escolha. Mais do que tu, sou pó, porque assim mo fizeste.
Ele olhou-me. Tocou-me. Parecia sentir uma certa repugnância. Repugnância nas imperfeições dos corpos. Por mais que tentasse, não conseguia ver-se assim. Era uma visão hecatômbica diante da criação. Mas comoveu-se com a minha imperfeição. Reconhecia em mim o filho bastardo, mesmo a julgar-me indigno do seu Éden. Sorriu-me, estendeu-me a mão.
-Queres visitar o meu jardim?
-Sim, acho que é o sonho de todos nós, imperfeitos, mas filhos de uma obra perfeita.
Caminhamos pelos jardins. Mostrou-me todas as plantas, todos os animais. Disse-me dos anos de solidão que ali esteve a aprender, a fazer conhecimento com a natureza, com tudo o que estava à sua volta. Falou-me dos anos que passou a dar nome às coisas. A tudo dera um nome e um significado. Contou-me da companheira que agora habitava o seu mundo, da felicidade de ser a mais bela obra de Deus, sem talvez, aperceber-se da responsabilidade. Caminhamos até uma árvore. Ali encontramos um pássaro morto. Um melro. Ele debruçou-se sobre o cadáver do pássaro, apanhou-o nas mãos. Dedos longos, elegantes, onde o cadáver da ave quase desaparecia entre as linhas das mãos. Depois enterrou o corpo da ave ali, perto da árvore.
-Viste aquela ave?
-Sim, era bela. Gosto das aves.
-Nela já não havia o sopro de vida, a sua alma estava morta. É assim que acontece com todos os animais. Vês a árvore onde a enterrei?
-Sim.
-É a árvore da vida. Sou imortal, por este motivo sou diferente de todas as almas viventes. Aos animais não foi concedida a imortalidade. Se comer do fruto da árvore da vida, também eu morrerei, serei igual aos outros animais.
-Então tens conhecimento do que é a morte?
-Sim, vejo a morte todos os dias a abraçar os animais que ladeiam o Éden.
-Gostas de viver?
-Gosto, sou feliz, viver é ser feliz. Para que morrer se os sopros de todas as promessas percorrem os meus sentidos? Aprendo a sabedoria todos os dias. Às vezes tenho pressa, mas se tenho a eternidade, para que a pressa? Dizem que se comer da árvore da vida morro, mas dizem-me também, que saberei todos os segredos do mundo. Às vezes tenho fome do saber, por isto tenho medo da minha curiosidade ante ao que me é oculto.
-Não te preocupes, ainda somos assim, cheios de pressa, talvez por não termos a eternidade como a tens tu, para nós ela é apenas uma promessa. Mas somos tão imperfeitos que não acreditamos nas promessas, temos pressa de sabermos dela, mas, quanto mais pressa nós temos, mais próximos do fim caminhamos. Se tu que és perfeito tens pressa em abraçar a imperfeição, que posso fazer se não esperar pela eternidade de Deus?
Caminhamos por várias horas. Por fim o meu corpo cansou-se. Encostei-me a uma árvore e dormi. Não sei quanto tempo, quantas horas, só sei que dormi. Dormi no Éden, como um errante cuco, a invadir ninhos que não são seus. Acordei com alguém a me sacudir os ombros. Era Adão. Trazia no rosto um ar pesado. Olhei para ele e já não vi o seu sexo. Estava escondido, fazendo dele não um símbolo de beleza, mas um símbolo de desejo. Agora que não via o seu sexo, em mim um desejo louco ardia, queria vê-lo. Então me apercebi que ele já não era perfeito, já era como eu. Trazia o pecado no sexo, ladeado pela serpente, não pela pureza.
-O que aconteceu? - Perguntei-lhe.
-Temos que partir, fomos expulsos do jardim. A minha sede de conhecimento levou-me a ter pressa. Comi do fruto da árvore da vida. Agora fui amaldiçoado. Traí toda a obra do Criador. A sua obra era perfeita, mas eu a fiz imperfeita. Tornei-me apenas uma peça no jogo de Deus e de Satanás. Tenho pena de deixar o jardim, mas não posso aqui ficar. O meu sangue já traz a morte como herança. Manchei o meu sangue, está contaminado pela mortalidade dos sonhos. Perdi a eternidade para mim e para os meus descendentes. Nada deixarei de mais marcante aos meus herdeiros do que a morte. Eu fui perfeito porque fui gerado do pó, não do ventre que traz os genes da morte. Vou-me embora, para longe do jardim.
-E agora?
-Agora? Terás que esperar outro homem perfeito. A lei é sangue por sangue. Enquanto não for derramado o sangue do homem perfeito, teremos que expiar o pecado através de oferendas do sangue dos animais. Mas o sangue de um animal não é perfeito. Não basta, acalma a ira de Deus, mas não basta na lógica exata da sua lei, do seu senso de justiça. Agora somos apenas dignos da sua piedade, portanto quem é digno de piedade contenta-se com as sobras que lhe são oferecidas. Agora teremos que nos contentar com as sobras de Deus, somos apenas pobres mortais a não adorá-lo, mas a clamar pela sua misericórdia. Deus foi feito para ser amado, porque é amor, não para ser incomodado com lamúrias de alguém digno de piedade. O que fiz da curiosidade de obter sabedoria? Já não me achas belo, pois não?
-Ainda és o mais belo de todos. Mas já não és o que eu vi há pouco. Não, mudaste, tornaste-te mais um, causas-me desejo, não admiração. És como eu, agora és como eu.Assim partimos, ele seguiu uma direção e eu outra. Não sei onde foi dar o seu caminho, mas já sabia do resultado. Caminhei um pouco e fui sentar em um banco do jardim que já era o Trianon. Pessoas passavam por mim, com perfumes suaves, um cheiro atraente, o sexo escondido entre roupas que contornavam a promessa do corpo. Sim, por mim passavam os filhos de Adão. Tão obcecados pela perfeição dos corpos, pela pressa do conhecimento das verdades, pelo desajuste do desejo. Mas os que estavam escritos na eternidade de Deus, só Ele sabia. Nós, tal qual Adão, desfilávamos nossos corpos sem a grandiosidade de Deus.


Conto: Jeocaz Lee- Meddi
Fotografias: Paulo César (1 - One of the Angels, 2 - Orion e as Saudades, 3 - Alma por Inteiro, 5 - Life Can Be Strange); Guilherme Santos (4 - Os Homens Morrem no Chão), Nuno Manuel Baptista (6 - S/T) e DDiArte (7 - Laocoonte)
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Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

A ORCHESTRE DES CHAMPS-ÉLYSÉES NO BRASIL

 

 
Em 2005 foi realizado o “Ano do Brasil na França”, com eventos culturais brasileiros que eclodiram por terras francesas, marcando momentos de grande sucesso no intercâmbio, Em 2009 chegou a vez do Brasil retribuir, assim, em abril, foi aberto o “França.Br 2009 - Ano da França no Brasil”, com uma programação de mais de 600 eventos culturais a acontecer por todo o país tropical.
Na leva do “França.Br 2009 - Ano da França no Brasil”, pôde ser visto, pela primeira vez em solo tupiniquim, a apresentação de uma das mais conceituadas e famosas orquestras da Europa e do mundo, a Orchestre des Champs-Élysées de Paris, sob a regência do genial maestro Philippe Herreweghe.
A orquestra é conhecida pela pluralidade da sua formação, comportando cerca de 172 músicos, com idades distintas e nacionalidades diversas, como franceses, bósnios, alemães, romenos, norte-americanos, italianos, colombianos, belgas, holandeses, e muitas outras, o que lhe traz esta atmosfera universal e de unidade musical sempre a surpreender e fascinar a platéia. Pela quantidade de músicos e instrumentos, torna-se difícil trazer uma orquestra deste porte. Este obstáculo foi possível de ser vencido devido à generosidade do maestro Philippe Herreweghe, que abriu mão de grande parte dos músicos, criando um concerto grandioso com apenas 81 componentes da orquestra original.
Os momentos da Orchestre des Champs-Élysées no Brasil foram marcados por quatro concertos, sendo três em São Paulo, dois na Sala São Paulo, iniciando a temporada da Sociedade Cultura Artística; e, um no Sesc Itaquera; e um em Brasília, no Teatro Nacional Cláudio Santoro. Com exceção das apresentações na Sala São Paulo, as demais tiveram entrada franca, sendo patrocinadas pelo “França.Br 2009 - Ano da França no Brasil”.
Mesmo com noventa músicos a menos, Philippe Herreweghe regeu um espetáculo monumental, com três concertos distintos, “Escocesa - Sinfonia nº 3 em La Menor, Op. 56”, de Felix Mendelssohn; “Sinfonia Fantástica – Episódios da Vida de um Artista, Op. 14”, e “Lélio ou Retorno à Vida - Op. 14”, criação de Hector Berlioz. A dimensão apoteótica dada pelo maestro, parecia que mais de uma centena de músicos enchiam as salas por onde passou a orquestra, como se os contrabaixos fossem mais de uma dúzia, e os violinos infinitos. O apogeu foi alcançado com a “Sinfonia Fantástica” de Berlioz, momento sublime de uma concepção que transcendia a platéia, fazendo-a ardorosa e emocionada. Grandiosa, eloqüente, emocionante, e vários adjetivos afins, são poucos para descrever as apresentações da Orchestre des Champs-Élysées no Brasil, deixando-nos com a perspectiva do porque de ser uma das maiores orquestras do mundo, e com a certeza do seu retorno em solo brasileiro.

A Orchestre des Champs-Élysées

A Orchestre des Champs-Élysées foi fundada em 1991, numa iniciativa de Alan Durel, diretor do Théâtre des Champs-Élysées, e de Philippe Herreweghe, que se fez desde então, o seu diretor musical e regente. Ao longo de quase duas décadas, a orquestra acumulou prestígio, sendo uma das mais conceituadas e admiradas no mundo.
Após a sua fundação, a orquestra esteve residente por muitos anos no Théâtre des Champs-Élysées em Paris, e, no Palais des Beaux-Arts de Bruxelas, na Bélgica. Tornou-se uma orquestra com características distintas, que se especializou na interpretação da música que se estende desde a metade do século XVIII ao início do século XX. Os instrumentos tocados pelos músicos são originais da época, com cordas especiais feitas das tripas de ovelhas, o que lhe concebe a originalidade garantida do som que se fazia pelos séculos passados. A dimensão musical tornar-se, através da Orchestre des Champs-Élysées, uma concepção única, que passa por um vasto repertório, de Mahler a Berlioz, de Haydn a Mendelssohn.
Formada por músicos de nacionalidades plurais, o que lhe confere uma lufada de constante renovação e aprimoramento vindos de várias partes do mundo, garantindo-lhe uma erudição internacional, a Orchestre des Champs-Élysées já se apresentou nas principais salas de concertos da Europa e do mundo, entre elas, a Musikverein de Viena, Gewandhaus de Leipzig, Alter Oper de Frankfurt, Barbican Center de Londres, Philharmonic Hall de Berlim e Munique, Concertgebouw de Amsterdã e tantas outras. Além do circuito europeu, a orquestra apresentou-se com exímio sucesso, no Lincoln Center de Nova York, no Teatro Nacional de Brasília, e diversos países como Austrália, Japão, China e Coréia.
Desde a fundação, a orquestra esteve sempre sobre a direção artística de Philippe Herreweghe, com o seu perfeccionismo caracterizado pela execução de um repertório tecido por instrumentos de época. A Orchestre des Champs-Élysées esteve, ocasionalmente, sob a regência de famosos maestros convidados, entre eles Louis Langrée, Daniel Harding, Christophe Coin, Christian Zacharias, René Jacobs e Bruno Weil.
A Orchestre des Champs-Élysées produziu, ao longo da sua trajetória, uma extensa obra discográfica, que incluí interpretações de Mozart (“Grande Messe en ut Mineur”, “Requiem”), Mendelssohn (“Elias”, “Paulus”), Beethoven (“Missa Solemnis”), Brahms (“Un Requiem Allemand”), Schumann (“Symphonie nº 2 e 4”), Bruckner (“Symphonie nº 7”) e Mahler (“Des Knaben Wunderhorn”), entre tantos.

Philippe Herreweghe, o Regente

Conheci Philippe Herreweghe em Lisboa, em fevereiro de 1994, em um concerto do Ensemble Musique Oblique, da qual ele era regente, e que marcava a abertura do evento “Lisboa Capital Européia da Cultura – 1994”, realizado no Centro Cultural de Belém (CCB). Na noite que precedeu ao concerto, estivemos em uma tertúlia no Bar Mahjong, no Bairro Alto, ao lado do músico e amigo Michel Maldonado, da assessora de imprensa Sylvia Vaez, e do fotógrafo Stanislas Kalimerov. Dono de um humor agradável e de uma erudição cultural despida de pedantismos, Philippe Herreweghe conquista com o seu carisma particular, às pessoas que o ladeiam, mostrando-se afável e generoso.
Nascido na Bélgica, na cidade de Ghent, Herreweghe traz a simpatia sofisticada e arraigada dos flamingos. Foi na sua cidade natal, na Flandres, que estudou piano no conservatório. Desviou-se da música para que se pudesse dedicar aos estudos de medicina, especializando-se em psiquiatria. Já na faculdade, Philippe Herreweghe fundou o Collegium Vocale de Ghent, chamando para si as atenções de Nikolaus Harnoncourt e Gustav Leonhardt, fascinados pela qualidade do conjunto vocal por ele fundado, convidando-o de imediato para que se unisse a eles e participasse da gravação completa das “Cantatas de Bach”.
Desde então, Philippe Herreweghe empenhou-se em trazer para a sua regência um amplo repertório que vai do Renascimento à música erudita contemporânea, o que o levou a criar várias orquestras (ensembles), com integrações distintas e plurais, com as quais fez cerca de sessenta gravações em disco. Entre os ensembles estão: Ensemble Vocal Européen, especializado na interpretação da música polifônica renascentista; o Collegium Vocale de Ghent, que há trinta anos dedica-se à música de Bach e seus precursores; a Chapelle Royale, dedicada à Música Barroca Francesa; a Orchestre des Champs-Élysées, especializada em música clássica e romântica, e a Ensemble Musique Oblique, especialista em música erudita contemporânea.
Além de ser um dos fundadores da renomada Orchestre des Champs-Élysées, em 1991, é desde então, o seu diretor artístico e regente. Philippe Herreweghe costuma reger como convidado, outras grandes orquestras de prestígio internacional, como a Orquestra do Concertgebouw de Amsterdã; a Orquestra Rotterdam Philharmonic, de Roterdã; a Orquestra da Gewandhaus de Leipzig; a Mahler Chamber Orchestra; a Stavanger Symphony Orchestra; a Royal Flandres Philharmonic Orchestra, da qual é diretor desde 1997. Dirigiu também, as orquestras Filarmônicas de Berlim e de Viena.
Philippe Herreweghe participou como diretor artístico do prestigiado Festival de Saintes, no sudoeste da França, no período de 1982 a 2002. Em 1990 foi agraciado com o título de Personalidade Musical do Ano; Músico Europeu do Ano, em 1991; Embaixador Cultural da Flandres através do Collegium Vocale de Ghent, em 1993. Foi-lhe outorgado, em 1994, a Orden de Officier des Arts et Letters; nomeado Doctor Honoris Causa da Universidade da Lovaina, em 1997. Em 2003, foi nomeado Cavalheiro da Legião de Honneur, sendo-lhe concedido um título nobiliárquico pelo rei da Bélgica.
Pelo talento, por todas as qualidades mencionadas, Philippe Herreweghe é hoje um dos maiores nomes da música clássica, erudita e contemporânea do mundo, sendo um dos maiores regentes das últimas décadas.

A Orchestre des Champs-Élysées em São Paulo

Apesar de ter se apresentado nas maiores salas de espetáculos do planeta, a Orchestre des Champs-Élysées só aportou no Brasil graças às comemorações do “França.Br 2009 - Ano da França no Brasil”. Com cerca de 172 músicos, o deslocamento da orquestra exige uma grande infraestrutura, tornando-se demasiadamente dispendiosa, o que necessita sempre de mecenas e patrocinadores.
A negociação com os organizadores do “Ano da França no Brasil” e a Orchestre des Champs-Élysées foram longas, feitas em mais de um ano. Graças à generosidade de Philippe Herreweghe, que aceitou cortar substancialmente no número de músicos e, principalmente, conseguiu manter o nível de qualidade erudita com uma orquestra desfalcada de mais de noventa dos seus membros integrantes, que o Brasil pôde, finalmente conhecer este imponente ícone da música erudita mundial.
Feitos os cortes, a Orchestre des Champs-Élysées chegou ao Brasil no fim de abril de 2009, com 81 músicos, o ator argentino Marcial Di Fonzo Bo, um grupo de bailarinas, o tenor Robert Getchell e o barítono Pierre-Yves Pruvot, todos sob a regência e direção de Philippe Herreweghe.
Na programação, a orquestra tinha a função de abrir oficialmente o “França.Br 2009” no Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. Mas os problemas de infraestrutura estavam longe de uma solução definitiva. Curiosamente, uma cidade como o Rio de Janeiro não ofereceu recursos para que se recebesse uma orquestra deste porte. O Teatro Municipal, uma das mais belas casas de espetáculos do país, foi fechado em outubro de 2008 para restauração. Como solução, chegou a ser anunciada a apresentação da orquestra no Teatro João Caetano, mas os organizadores chegaram à conclusão de que o teatro estava degradado, a necessitar de obras, não oferecendo condições para receber um concerto da grandiosidade da Orchestre des Champs-Élysées. Assim, uma cidade da importância do Rio de Janeiro, foi excluída do roteiro da orquestra, uma vergonha para os governantes e representantes da cultura carioca.
Em São Paulo, a orquestra apresentou-se ao ar livre, no Sesc Itaquera, brindando o paulistano com a belíssima apresentação de “Lélio ou Retorno à Vida - Op. 14", de Hector Berlioz. A apresentação contava com intervenções narrativas do ator argentino Marcial Di Fonzo Bo, dois cantores e um coro, tendo entrada franca, sendo registrada pela TV Cultura, que transmitiu o concerto ao vivo, alcançando grande sucesso e receptividade do público. A apresentação musical, a cenografia e a encenação foram complementadas por projeções em vídeo criadas por Jean-Philippe Clarac e Olivier Deloeuil. Foram feitas outras duas apresentações na Sala São Paulo, para um público pagante, iniciando a temporada da Sociedade Cultura Artística. Concebido exclusivamente para São Paulo, quando a Orchestre des Champs-Élysées deixou a cidade, o ator, os cantores e bailarinos não os acompanharam até o Distrito Federal, antecipando a volta para a França.

A Orchestre des Champs-Élysées em Brasília

Após o contratempo que excluiu a cidade do Rio de Janeiro do roteiro, e o grande sucesso em São Paulo, a orquestra partiu para o Distrito Federal, com 81 músicos, tendo o honroso compromisso de abrir oficialmente o “França.Br 2009” na capital do Brasil.
Já familiarizados com o país, os músicos sentiram-se confortáveis em Brasília, o que contribuiu para que se pudessem entregar sem medos à composição de um grande concerto, que conquistaria a platéia brasiliense.
Em Brasília, o concerto foi organizado com grande pompa, com a presença de Antoine Pouillieute, embaixador da França no Brasil, a discursar na abertura. Para esta apresentação, Philippe Herreweghe preparou um concerto dedicado a Félix Mendelssohn e a Hector Berlioz.
Na primeira parte da apresentação, Mendelssohn abria o espetáculo, com “Escocesa – Sinfonia nº 3 em Lá menor, Op.56”. O perfeccionismo de Herreweghe dilatava-se logo à entrada, com a sua obsessão perene pela autenticidade do som e dos instrumentos de época. O toque precioso da emoção contagiava o público da Sala Villa-Lobos, do Teatro Nacional de Brasília, que aplaudia com veemência a cada movimento encerrado. A “Sinfonia nº 3”, devidamente intitulada “Escocesa”, alcançou com Herreweghe a conotação precisa da mobilidade da música de Mendelssohn, um romântico que nos dá um à vontade em suas fugas.
Ao fim da primeira parte, um breve intervalo foi regado por um autêntico Champagne oferecido ao público. Apesar de longo, o intervalo não quebrou a atmosfera que se conseguiu durante a execução da obra de Mendelssohn.
Na segunda parte do concerto, estava o momento mais esperado, a “Sinfonia Fantástica – Episódios de uma Vida, Op. 14”, de Hector Berlioz. A sinfonia conta a história de um jovem compositor que, por amor, envenena-se com ópio, mas ao ingerir uma dose não suficiente para matar, faz com que ele mergulhe em um estado letárgico repleto de visões. As visões apresentam-se na sinfonia, originalmente chamada de “Episódio da Vida de Um Artista”, que se desenvolve em cinco movimentos.
A apresentação econômica da orquestra desaparece diante das mãos decididas de Philippe Herreweghe, que faz com que a dimensão sonora seja grandiosa, e que a platéia pense que ali estão mais de 40 violinos, quando eram apenas 24. Ao fim de cada movimento, novos aplausos eclodiam de uma platéia totalmente rendida à orquestra. Os instrumentos usados são os mesmos que Berlioz idealizou e tocou, em 1830, quando escreveu a Sinfonia. Ao final suntuoso, com o último movimento, “Sonho de Uma Noite de Shabat”, a platéia foi ao delírio. Quando o concerto foi encerrado, a generosidade do público mostrou os resultados de um grande trabalho, os aplausos eclodiram incessantemente por longos dez minutos, obrigando Philippe Herreweghe a voltar ao palco por duas vezes. Encerrava-se assim, de forma apoteótica, a vinda da Orchestre des Champs-Élysées ao Brasil, deixando um gosto de quero mais e a imensa expectativa de que ela retorne muitas vezes, e brevemente, quem sabe, com todos os músicos.
Ao fim dos concertos, uma grande excursão de músicos fez-se presente pelas ruas e pelos monumentos da cidade inventada por Oscar Niemeyer. Em um ano que se programou mais de 600 eventos artísticos vindos da França, a Orchestre des Champs-Élysées foi o presente de estréia, em um momento de puro êxtase cultural e reverências a Philippe Herreweghe e aos seus 81 músicos.


Orchestre des Champs-Élysées – Composição

Original

Regente: Philippe Herreweghe

Violinos: Alessandro Moccia (violino solo), Roberto Anedda, Assim Delibegovic, Virginie Descharmes, Philippe Jegoux, Marion Larigaudrie, Corrado Lepore, Baptiste Lopez, Martin Reimann, Nicole Tamestit, Enrico Tedde, Marie Viaud, Bénédicte Trotereau, Marieke Bouche, Adrian Chamorro, Isabelle Claudet, Federica della Janna, Jean-Marc Haddad, Pascal Hotellier, Clara Lecarme, Corrado Masoni, Giorgio Oppo, Andreas Preuss, Sebastiaan van Vucht, Catherine Arnoux, Marieke Blankestijn, Alessandro Braga, Karine Crocquenoy, Ilaria Cusano, Maud Giguet, Elisabeth Glab, Charlotte Grattard, Solenne Guilbert, Peter Hanson, Alexander Janiczek, Matilda Kaul, Thérèse Kipfer, Bérénice Lavigne, Catherine Montiers, Liesbeth Nijs, Aki Saulière, Henriette Scheytt, Kio Seiler, George Willms

Violas: Jean-Philippe Vasseur, Marie-Elsa Bretagne, Maïlyss Cain, Brigitte Clément, Delphine Grimbert, Lika Laloum, Lucia Peralta, Catherine Puig, Silvia Simionescu, Bonoit Weeger, Agathe Blondel, Mathilde Bernard, Laurent Bruni, Blandine Faidherbe, Jean-Charles Ferreira, Laurent Gaspar, Dorothée Leclair, Luigi Moccia, Wendy Rymen

Violoncelos: Vincent Malgrange, Ageet Zweistra, Hilary Metzger, Michel Boulanger, Arnold Bretagne, Andrea Pettinau, Gesine Queyras, Harm-Jan Schwitters, Hager Spaeter-Hanana, Florent Audibert, Julien Barre, Fabrice Bihan, Claire Giardelli, Jennifer Morsches

Contrabaixos: Michel Maldonado, Joseph Carver, Elise Christiaens, Damien Guffroy, David Sinclair, Christine Sticher, Massimo Tore, Axel Bouchaux, Clothilde Guyon, Marion Mallevaes, James Munro, Francis Palma-Pelletier, Alessio Povolo, Jean-Baptiste Sagnier, Miriam Shalinsky, Maria Vahervuo

Flautas: Mathias von Brenndorff, Amélie Michel, Giulia Barbini, Laura Colucci, Oeds van Middelkoop, Jane Mitchell, Takashi Ogawa, Jan de Winne

Oboés: Marcel Ponseele, Taka Kitazato, Pier-Luigi Fabretti, Christian Moreaux, Rafaël Palacios, Antoine Torunczyk, Stefaan Verdegem

Clarinetes: Nicola Boud, Daniele Latini, Benjamin Dieltiens, Luca Luchetta, Markus Springer, Marc Withers

Fagotes: Julien Debordes, Jean-Louis Fiat, Philippe Miqueu, Robert Percival, Margreet Bongers, Alain de Rijckere, Jani Sunnarborg, Javier Zafra

Trompas: Rafaël Vosseler, Christiane Vosseler, Jean-Emmanuel Prou, Frank Clarysse, Luc Bergé, Jeroen en Billiet, Mark De Merlier, Miek Laforce, Ursula Monberg, Martin Mürner, Martin Roos

Trompetes e Cornetas: Steven Verhaert, Andreas Bengtsson, Leif Bengtsson, Alain de Rudder, Guy Ferber, Patrick Henrichs, Femke Lunter, Thibaud Robinne, Geerten Rooze

Trombones: Dennis Close, Wim Becu, Charles Toet, Guy Hanssen, Saman Maroofi, Harry Ries

Oficleides, Tuba, Serpent: Marc Girardot, Stephen Wick, Erhard Schwartz

Tímpanos 1: Marie-Ange Petit, Peppie Wiersma

Tímpanos 2: Hervé Trovel, David Joignaux

Percussão: François Garnier, Antoine Siguré, David Joignaux, Hélène Brana, Bernard Heulin, Hervé Trovel

Harpas: Pascale Schmitt, Aurélie Saraf

No Brasil

Regente: Philippe Herreweghe

Primeiros Violinos: Alessandro Moccia (violino solo), Roberto Anedda, Assim Delibegovic, Virginie Descharmes, Philippe Jegoux, Marion Larigaudrie, Corrado Lepore, Baptiste Lopez, Martin Reimann, Nicole Tamestit, Enrico Tedde, Marie Viaud

Segundos Violinos: Bénédicte Trotereau, Marieke Bouche, Adrian Chamorro, Isabelle Claudet, Federica della Janna, Jean-Marc Haddad, Pascal Hotellier, Clara Lecarme, Corrado Masoni, Giorgio Oppo, Andreas Preuss, Sebastiaan van Vucht

Violas: Jean-Philippe Vasseur, Marie-Elsa Beaudon, Maïlyss Cain, Brigitte Clément, Delphine Grimbert, Lika Laloum, Joël Oechslin, Lucia Peralta, Catherine Puig, Silvia Simionescu, Bonoit Weeger

Violoncelos: Vincent Malgrange, Ageet Zweistra, Hilary Metzger, Michel Boulanger, Arnold Bretagne, Andrea Pettinau, Gesine Queyras, Harm-Jan Schwitters, Hager Spaeter-Hanana

Contrabaixos: Michel Maldonado, Joseph Carver, Elise Christiaens, Damien Guffroy, David Sinclair, Christine Sticher, Massimo Tore

Flautas: Mathias von Brenndorff, Amélie Michel

Oboés: Marcel Ponseele, Taka Kitazato

Clarinetes: Nicola Boud, Daniele Latini

Fagotes: Julien Debordes, Jean-Louis Fiat, Philippe Miqueu, Robert Percival

Trompas: Rafaël Vosseler, Christiane Vosseler, Jean-Emmanuel Prou, Frank Clarysse

Trompetes: Steven Verhaert, Andreas Bengtsson

Cornetas: Leif Bengtsson, Alain de Rudder

Trombones: Dennis Close, Wim Becu, Charles Toet

Oficleides: Marc Girardot, Stephen Wick

Tímpanos: Marie-Ange Petit, Hervé Trovel

Percussão: François Garnier, Antoine Siguré, David Joignaux

Harpas: Pascale Schmitt, Aurélie Saraf

Discografia da Orquestra

1992 – Wolfgang Amadeus Mozart – Grande Messe en ut Mineur
1993 – Felix Mendelssohn – Elias
1994 – Felix Mendelssohn – Le Songe D’Une Nuit D’Été
1995 – Hector Berlioz – Nuits D’Été Herminie
1995 – Ludwig van Beethoven – Missa Solemnis
1996 – Felix Mendelssohn – Paulus
1996 – Johannes Brahms – Un Requiem Allemand
1997 – Wolfgang Amadeus Mozart – Requiem
1997 – Wolfgang Amadeus Mozart – Gran Partita K. 361 / Sérénade pour Vents K. 388
1997 – Robert Schumann – Symphonie nº 2 / Symphonie nº 4
1997 – Robert Schumann – Concerto pour Violoncelle / Concerto pour Piano
1997 – Hector Berlioz – L’Enfance du Christ
1998 – Robert Schumann – Scènes de Faust
1999 – Ludwig van Beethoven – Symphonie nº 9
2002 – Gabriel Fauré – Requiem (Version pour Grand Orchestre) / César Franck – Symphonie en Ré
2002 – Franz Schubert – Messe en La Bémol / Feliz Mendelssohn – Psaume 42
2004 – Anton Bruckner – Symphonie nº 7
2006 – Anton Bruckner – Symphonie nº 4 “Romantique”
2006 – Gustav Mahler – Des Knaben Wunderhorn
2007 – Robert Schumann – Symphonie nº 1 “Printemps” / Symphonie nº 3 “Rhénane”
2008 – Anton Bruckner – Messe nº 3 en Fa Mineur
2009 – Anton Bruckner – Symphonie nº 5
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Sábado, 10 de Janeiro de 2009

HOMEM DO TERCEIRO MILÉNIO, A DESCONSTRUÇÃO DO MACHO

 

 
No fim do milênio passado, ouvir falar no ano 2000 era imaginá-lo de um futurismo inatingível, e de completa certeza tecnológica. Para o século XXI estava predestinado à humanidade um homem de uma racionalidade sensata, como um Spock de “Jornada nas Estrelas”, dono absoluto das suas emoções e de um corpo próximo da eternidade salutar. Era a visão da perfeição do macho como espécime e do homem como ser intelectual do universo, pai eterno de uma humanidade herdada de um Adão degenerado.
E veio o ano 2000. A primeira década do novo século desconstruiu a imagem do macho procriador de gente e de tabus, fazendo-o perdido em uma crise existencial da sua verdadeira função dentro da família, da vida da mulher, dentro do planeta Terra. A igualdade contemporânea dos sexos surgiu como a contestação absoluta do patriarcado histórico. Disperso dentro da sua secular condição de sexo forte, o homem vê-se naufragado, perdido e nu, sentado no meio de um asfalto quente de uma nebulosa estrada sem fim, a repensar os seus valores, sem saber onde está, para onde ir ou onde lançar o seu grito.
Longe da racionalidade do Spock, surge um homem moldado nos ginásios de educação física, pronto para construir corpos perfeitos e músculos exatos. O homem atlético povoa o imaginário do macho, perdido no poder retirado do seu sexo, às vezes escondido pela exuberância da inexatidão abdominal, ou nos músculos atrofiados diante da sua vida sedentária, presa nas armadilhas da arte que a tecnologia nos vomita todos os dias, através da televisão, do computador, das imagens estampadas pelos outdoors da cidade. E os músculos exatos que se lhe aparece nas revistas, na televisão, no filmes, leva-o à obsessão de ser um homem objeto, delineado pela mídia, pelos conceitos da erudição primária das telenovelas.
O homem do terceiro milênio foi feito para ser o super-herói na cama, o atleta sexual. Ao vislumbrar os astros dos filmes pornográficos, sem pêlos e tão bem-dotados, fazendo do seu sexo um arpoador de circo, o macho 3000 cresce e salta nas emoções, mas a ilusão de uma performance perfeita na cama esvai-se no olhar de decepção da companheira, que tanto sonhou com o prelúdio do amor, e este homem, eterno coração de adolescente, frustra-a com uma desajeitada e inesperada ejaculação precoce. Ou a irrita quando, depois de vê-lo louco, a jurar-lhe a eternidade das paixões no momento exato do seu prazer, tornar-se o mais frio dos homens a recusar-lhe um beijo depois do ápice, pedindo-lhe apenas o número do telefone, com a certeza de que nunca irá ligar.
Todas às vezes que o macho do terceiro milênio admira-se ao espelho, imagina-se um dia transformar o corpo na exatidão perfeita de um David de Michelangelo, mas sabe que jamais atingirá a beleza sublime do mármore da estátua. Triste? Nem tanto, ao olhar para o centro anatômico da estátua, a perfeição do David sucumbe drasticamente, e o homem do terceiro milênio sorri, descobre onde é superior àquela perfeição idealizada.
E o mundo passa à sua volta. A mulher já não precisa da sua participação na criação dos filhos, na emancipação das suas idéias e crescimento como fêmea. Na confusão dos sentimentos, o macho do terceiro milênio continua lúcido nos eu objetivo de caçador de corpos e cópulas. Faz parte da sua evolução biológica, da sua condição de perpetuador da espécie. Solteiro e caçador, masturba-se em frente ao computador, anda nu pela casa para demarcar o seu território e sentir-se livre. Balançar o sexo e os pêlos ao vento remete-o para um torpor edênico que se dilui através de uma mão insaciável e irracional, própria da solidão que lhe devora a alma, uma solidão profana a aviltar-lhe o corpo. Quantas vezes este homem quis que saltasse do seu peito um coração valente e terno, e saltava-lhe os pêlos , revelando-lhe apenas a condição de primata evoluído.
Insaciável na desconstrução da sua imagem de senhor do próprio destino, o homem do terceiro milênio vê o tempo passar corrido, como corrida é a vida que exala dos concretos das grandes cidades. Acompanhar as loucuras de uma humanidade que tem pressa em chegar a lugar algum, é tirar a máscara e mostrar um rosto sensível, multiplicar-se, ser dois e vários ao mesmo tempo, viver a era do que não faz sentido, ter ideologias de vida retiradas das páginas da internet. Ser todos e não ser ninguém. Percorrer o palco e atirar-se à platéia para ouvir os seus próprios aplausos. Nada mais difícil do que ser a estátua derrubada de um pedestal milenar, a estátua apedrejada junto com as ideologias falidas, até que se desfaça a carne que lhe cobre os ossos e a sensatez. Muito além de ser herói, ser forte ou musculado, o homem do terceiro milênio é um sobrevivente dos soutiens queimados em praça pública, da pílula que fez da mulher senhora absoluta do seu corpo e da sua concepção. Sobrevivente da sua tecnologia independente de si mesmo nas teclas da comunicação. Sobrevivente de novos costumes e novos conceitos, das imagens virtuais a rondar a sua essência, desfazendo-lhe as lendas. Sobrevivente de bombas terroristas, atiradas no âmago dos seus preconceitos, das ideologias caídas, das famílias desfeitas, das doenças contagiosas, dos preservativos que lhe tiraram de vez o verdadeiro sabor do seu sexo. Soberbo sobrevivente dos tempos. E a estrada continua coberta por uma densa névoa. Acossado, nu diante da vida? Melhor abrir o guarda-chuva e esperar o temporal passar.




FRASES: (O Homem Visto Através das Palavras)


"A obsessão do homem pelo momento supremo da ejaculação leva-o a derrubar impérios, fazer guerras, até matar ou morrer." JEOCAZ LEE-MEDDI

"Dois homens olharam através das grades da prisão; um viu a alma, o outro as estrelas." SANTO AGOSTINHO

"Os homens ficam terrivelmente chatos quando são bons maridos, e abominavelmente convencidos quando não o são." OSCAR WILDE

"Os homens erram, os grandes homens confessam que erraram." VOLTAIRE

"Os homens mentiriam menos se as mulheres fizessem menos perguntas." NELSON RODRIGUES

"Até Deus tem um inferno: é o seu amor pelos homens" FRIEDRICH NIETZSCHE

"Se todo animal inspira ternura, o que houve, então, com os homens?" GUIMARÃES ROSA

"Os homens distinguem-se entre si também neste caso: alguns primeiro pensam, depois falam e, em seguida, agem; outros, ao contrário, primeiro falam, depois agem e, por fim, pensam." LEÓN TOLSTOI

"Os homens são fáceis de afastar. Basta não nos aproximarmos." FERNANDO PESSOA

"Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde." DALAI LAMA

"Os homens distinguem-se pelo que fazem, as mulheres pelo que levam os homens a fazer." CARLOS DRUMOND DE ANDRADE

"Os homens de poucas palavras são os melhores." WILLIAM SHAKESPEARE

"O pessimismo torna os homens cautelosos, enquanto, o otimismo torna os homens imprudentes." CONFÚNCIO

"O ódio é o prazer mais duradouro; os homens amam com pressa, mas odeiam com calma." LORD BYRON

"Nada descreve melhor o caráter dos homens do que aquilo que eles acham ridículo." JOHANN WOLFGANG GOETHE

"Há duas coisas infinitas: o Universo e a tolice dos Homens." ALBERT EINSTEIN

"É pensando nos homens que eu perdôo aos tigres as garras que dilaceram." FLORBELA ESPANCA

"Os homens quando não forçados a lutar por necessidade, lutam por ambição." NICOLAU MAQUIAVEL

"Os homens se dividem em duas espécies: os que têm medo de viajar de avião e os que fingem que não têm. " FERNANDO SABINO

"A imaginação consola os homens do que não podem ser, o sentido de humor consola-os do que são." WINSTON CHURCHILL

"A vida é um paraíso, mas os homens não o sabem e não se preocupam em sabê-lo." FIÓDOR DOSTOIEVSKI

"Existem infinitamente mais homens que aceitam a civilização como hipócritas do que homens verdadeiramente e realmente civilizados." SIGMUND FREUD

"Não nego que as mulheres sejam tolas: Deus criou-as para que combinassem com os homens." GEORGE ELIOT

"Há poucos homens capazes de prestar homenagem ao sucesso de um amigo, sem qualquer inveja." ÉSQUILO

"Os homens honrados casam-se rapidamente, os inteligentes nunca. " MIGUEL CERVANTES

"Os homens são animais muito estranhos: uma mistura do nervosismo de um cavalo, da teimosia de uma mula e da malícia de um camelo. " ALDOUS HUXLEY

"A maioria dos homens gasta a melhor parte da vida a tornar a outra miserável. " MARCEL PROUST

"As mulheres, durante séculos, serviam de espelho aos homens por possuírem o poder mágico e delicioso de refletirem uma imagem do homem duas vezes maior que o natural. " VIRGINIA WOOLF

"O destino é cruel e os homens são dignos de compaixão." ARTHUR SCHOPENHAUER


"As mulheres amam muito tempo antes de confessá-lo; os homens têm já deixado, há muito, de amar, quando continuam a confessá-lo ainda." EMANUEL WERTHEIMER

"De qualquer palavra profunda todos os homens são discípulos." VICTOR HUGO

"Entre os homens, na maioria dos casos, a inatividade significa torpor, e a atividade, loucura." EPICURO

"Muitos são os homens que falam de liberdade, mas poucos são os que não passam a vida a construir amarras." GUSTAVE LE BON

"O desejo sexual de um homem é muito mais convicto do que a sua própria essência." JEOCAZ LEE-MEDDI

"É a imaginação que governa os homens." NAPOLEÃO BONAPARTE

"Os grandes homens não nasceram na grandeza, engrandeceram." MARIO PUZO

"Os homens preferem geralmente o engano, que os tranqüilizam, à incerteza, que os incomada." MARQUÊS DE MARICÁ

"Os homens que se tornam arrogantes com o sucesso têm o mau hábito de odiarem aqueles a quem ofenderam. " SÊNECA

"As desventuras que mais atingem os homens são aquelas que são escolhidas por eles. " SÓFOCLES

"Há homens que devem à esposa tudo o que são, mas em geral, os homens devem à esposa tudo o que devem." MILLÔR FERNANDES

"Nada é feito neste mundo até que os homens estejam prontos a se matarem uns aos outros para que seja feita alguma coisa." BERNARD SHAW

"Só os homens que não se interessam por mulheres interessam-se pelas suas roupas. Os homens que realmente gostam de mulheres nem percebem o que elas estão a usar." ANATOLE FRANCE

"A aptidão para a felicidade não é igual em todos os homens. Ela é mais forte nos medíocres, do que nos homens superiores ou imbecis. " HENRIK IBSEN

"A verdade é muito nua, não excita os homens." JEAN COCTEAU

"O sexo pelo sexo só é bom para o homem até ele ejacular, torna-se a seguir, um constrangimento sem fim." JEOCAZ LEE-MEDDI

"No amor, as mulheres são profissionais; os homens, amadores." FRANÇOIS TRUFFAULT

"O mais livre de todos os homens é aquele que consegue ser livre na própria escravidão." FRANÇOIS FÉNELON

Texto de: Jeocaz Lee-Meddi

Fotos: Davide Poggi (1 Way-17, 8 2005-06-05 059, 9 Skinout), J. P. Sousa (2 Statue, 3 Colour versus BW, 4 Nude Outside, 7 Human Sculpture), José Ferreira (5 A Espera do Amanhã), Paulo César (6 Performing) e Claudio Poblete (10 img_5354)
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Quarta-feira, 12 de Novembro de 2008

FATAL, A HORA AZUL - JEOCAZ LEE-MEDDI

 


Existe um momento de transição entre o dia e a noite, que se dá um minuto de silêncio entre os seres do dia e os seres da noite. Um único minuto! Este momento é chamado de Hora Azul! A partir desta idéia corre a trama do romance Fatal – A Hora Azul, de Jeocaz Lee-Meddi. Transitando entre o psicológico das personagens, e um fundo histórico que nos contempla com um realismo profundo, algumas vezes atropelado pelo ludismo e o maravilhoso, pontos de misticismos e mistérios que assola a humanidade.
Quatro personagens contam a história: o jovem idealista e aventureiro Mateus Vera Cruz, a sensata e bela Isadora Sotto Real, a sofrida e perturbada Irena Klein, e o mistério e cruel Michel Cegalerba. Onde começa a história de um termina a do outro. Presos por um passado movido pelas ideologias de esquerda que se fizeram com a guerra fria. A queda dessas ideologias remete os quatro ao vazio e às armadilhas de sobreviver ao psicológico de cada um, às mentiras construídas sobre as ideologias mortas. Não é difícil sobreviver aos regimes autoritários, difícil é sobreviver à verdade de cada um, sobreviver à queda das máscaras, arrancada suma a uma durante o decorrer da narrativa.

Um Romance Fatal

A história começa nos cárceres do Chile em 1973, quando Salvador Allende foi deposto e uma sangrenta ditadura militar é instalada naquele país. Apanhados pela fatalidade da história, Eduardo Vera Cruz e Irena Klein, amantes e companheiros, que se refugiavam no Chile, exilados pela ditadura militar brasileira, são presos e torturados. É durante a prisão dos dois que um acontecimento afetará o futuro de todas as personagens da história.
Nove anos depois, em 1984, Mateus Vera Cruz, sobrinho de Eduardo, que vive em Santos, litoral paulista, torna-se líder estudantil no Brasil e é atropelado pela frustração de ver enterrado o sonho das Diretas Já! Sem a coerência das dialéticas ideológicas, Mateus resolve deixar o país, indo de encontro à paixão que nutria pela bela jovem portuguesa Isadora Sotto Real, que vive em um Portugal pós a Revolução dos Cravos. Quando o amor parece perfeito, a ideologias são superadas e os impérios caem com o fim do comunismo, surge das trevas a figura enigmática de Michel Cegalerba, francês de Paris, para cobrar uma velha dívida a Mateus Vera Cruz.
No início, o livro não revela para o que veio. A sensação é de que tudo já aconteceu, pistas são dadas desde a primeira página, mas um envolvente e perigoso labirinto psicológico vai se formando, a história vai ficando densa e atinge um ápice de cortar o fôlego do leitor. Fatal – A Hora Azul, é daqueles romances que a partir de determinado ponto, já não se consegue parar de ler. E quanto mais esperamos que o desemboque vá dar em uma avenida central iluminada, somos surpreendidos por becos imprevistos e ruas estreitas e inesperadas.
O desenrolar da história propriamente dita, vai de 1984 a 1994. Dez anos na vida de quatro personagens que nos surpreendem sempre. Quando tudo parece estabilizado, um furacão assola a mente de cada um, e um terremoto psicológico deixa mortos e feridos nessa imensa aventura que é a vida humana. Fatal para quem ousa a viver a sua essência.

Um Romance Premiado

Fatal – A Hora Azul, ganhou o Prêmio de Literatura Joaquim Câmara Filho, da Fundação Jaime Câmara, como o melhor romance. Sobre ele escreveu a comissão julgadora da Fundação Jaime Câmara:
“Por se tratar de narrativa original, bem estruturada, com domínio pleno de linguagem, apresentando inovação em uma temática já explorada anteriormente por outros escritores, transitando paralelamente entre a ficção e a história.
Nota-se pela leitura desta obra que o escritor dispõe de bagagem literária e cultural imprescindíveis à criação do romance. Por isso percebemos que o autor Jeocaz Lee-Meddi possui boa carpintaria estrutural para a realização de narrativa de fôlego.”
Na contra-capa do livro já nos é revelado o que nos espera dessa leitura agradável e de surpresas inesquecíveis:
"Jeocaz Lee-Meddi é um escritor brasileiro que viveu em Lisboa. Essa Lisboa que tão bem conhece e onde culmina essa aventura Fatal. Com a mesma elegância que caminham por Lisboa, Paris, Santos ou São Paulo, as personagens seguem intuitivamente num labirinto que traz uma surpresa revelada em cada esquina, cada paisagem, como se a alma enganasse as máscaras, como se o destino já tivesse sido escrito nos frios calabouços do Chile, deixando a ilusão das ideologias mortas pela história e as mentiras reveladas pela queda dos ideais. Nada mais fatal do que o doce encontro da hora azul.”

Jeocaz Lee-Meddi

Depois desta estréia bem sucedida, Jeocaz Lee-Meddi, que viveu muitos anos em Portugal e na Itália, de volta ao Brasil, trabalha hoje em um antigo projeto, escrever sobre os sefaradins, judeus originários da Sefarad, região que corresponde à península Ibérica. Novamente ficção e história se confundem para contar um novo romance de fôlego.
Durante anos Jeocaz Lee-Meddi trabalhou em bancos na Europa, mas nos últimos tempos abandonou a profissão para poder dedicar-se à literatura.
Nascido em Goiás, Brasil Central, ainda criança Jeocaz Lee-Meddi foi viver na Bahia, especificamente em Madre de Deus e Salvador, onde foi alfabetizado. Passou a infância, vivida nos loucos anos setenta, a morar por várias cidades brasileiras, como Mangaratiba (Rio de Janeiro), Itaúna (Minas Gerais), Jequié (Bahia) e Santos (São Paulo). Muitas cidades e estados diferentes, deixaram no autor uma pluralidade de culturas que fizeram dele um eterno viajante pelo mundo, um apaixonado pelo gênero humano e por suas histórias. Assim, como as suas personagens que habitam vários lugares físicos no decorrer da trama, Jeocaz Lee-Meddi continua a ser um viajante compulsivo. Das suas viagens, considera Lisboa a sua casa principal, lugar que traz como a consolidação da sua forma de pensar.

 
Pensamentos de Jeocaz Lee-Meddi

 
"A velhice não está nas rugas que o espelho nos mostra, mas na alma que precisa do espelho para ser feliz."

 
"Os militares não gostavam dos imbecis, dos apáticos, gostavam dos espertos, mas menosprezavam os inteligentes."

 
"Todos os homens deveriam ter como primeira amante uma mulher infeliz, elas são mais sinceras e ardentes."

 
"Só as mulheres infelizes não têm medo de amar a plenitude de um homem."

 
"Casamento é uma troca de várias razões, para dar certo temos que fazer concessões, seguimos fazendo tantas concessões que um dia não sabemos se ainda respiramos as mesmas idéias ou se apenas fingimos."

 
"O mundo admira a arrogância nos homens, mas não a suporta."

 
"No mundo da escrita não há direita ou esquerda, existe o homem, pleno e único, ditador de todas as personagens possíveis de serem criadas."

 
"A obsessão do homem pelo momento supremo da ejaculação leva-o a derrubar impérios, fazer guerras, até matar ou morrer."

 
"Aos vinte anos podemos tudo, inclusive pensar. Mas se não o fizer, ninguém vai culpá-lo."

 
"Quanto mais penso nas memórias de uma vida, mais piegas parecem os historiadores."
 
 
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Sábado, 1 de Novembro de 2008

AL BERTO


Há pouco mais de dez anos Portugal perdia um dos seus maiores poetas da nova geração, Al Berto. Alberto Raposo Pidwell Raposo, ou Al Berto, como ele assinava a sua obra, partiu no maior feriado religioso de Lisboa, no dia de Santo Antonio, 13 de junho, em 1997.
Dono de uma personalidade singular, amante da noite e do Bairro Alto, foi nas ruas estreitas desse bairro que nos conhecemos. Era um homem amável, de um cavalheirismo que lhe identificava o lado britânico da sua ascendência, de agradável convivência. Por dentro era um poeta em ebulição, muitas vezes acusado de morbidez e de profunda melancolia na forma de escrever os seus versos. Mas como poderia ser diferente em um homem amante da noite lisboeta e das suas armadilhas amorosas? Um poeta de alma portuguesa, tão saudosista quanto a força dos ventos que sopraram as caravelas de Cabral no Restelo, rumo à aventura lusitana pelo mundo. Sua poesia traz a ambigüidade do cotidiano, um olhar sobre a luz e os objetos, a mente e os desejos, fragmentos entre a poesia e a prosa, o mundo e o espanto poético de dele fazer parte.

Antes do Solstício de Verão
 
Conheci Al Berto através de um amigo em comum, o fotógrafo Stanislas Kalimerov. Ali travamos um conhecimento gentil, regado muitas vezes de um bom vinho nos jantares que tivemos pelos restaurantes do Bairro Alto ou nas longas e inesquecíveis noites de diversão no mítico Frágil, ainda quando pertencia ao Manuel Reis. Era um homem apaixonante e apaixonado. Gostava de ter a juventude ao seu redor. Magro, cabelos lisos e compridos, penteados para trás.
Ainda me lembro da noite que o seu amigo Alexandre Matos terminou o curso de estilista, fomos comemorar n’A Brasileira do Chiado. Al Berto sentia um grande orgulho de ter participado daquela conquista do amigo. Agradeceu-me por ter acolhido Alexandre Matos no meu apartamento na Luz Soriano, na noite anterior, quando depois de um jantar, ele tinha bebido demais e não conseguira voltar para casa.
No início de 1996, enviei os originais do romance “Fatal – A Hora Azul” para que ele lesse. Estava em Sines, a escrever aquele que seria o seu último livro em vida “Horto de Incêndio”, que marcaria a sua estréia na Assírio & Alvim. Para minha surpresa e alegria, Al Berto gostou do romance e fez várias anotações sobre o que achara. Combinamos um encontro em outubro de 1996 na A Brasileira, para que me entregasse os originais e comentasse as anotações. Al Berto não apareceu ao encontro. Horas depois, quando cheguei em casa, recebi um telefonema onde ele se desculpava, dizia que estava com um enorme caroço na bochecha, que lhe deformava o rosto e ele não sairia de casa enquanto não sumisse o caroço. Ainda brincou que estava muito feio para ser visto em público. Infelizmente não era um caroço comum. A partir daí Al Berto descobriu um linfoma que o iria matar em pouco mais de sete meses. Ainda no início da primavera de 1997 trocamos correspondência, ele estava em Lisboa na casa da irmã, em tratamento. Combinamos um encontro, mas também eu me envolveria em problemas de ordem amorosa que me consumiriam aquela primavera e o verão. Não teria mais tempo de rever Al Berto com vida, pois ele não sobreviveria àquela primavera. Morreu poucos dias antes do solstício de 1997.
Em agosto daquele ano, encontrei Alexandre Matos (na fotografia colorida ao lado de Al Berto), que na época vivia na Itália. Estava abalado com a morte do amigo. Entregou-me um texto que Al Berto lhe fizera, mais um ensaio fotográfico que fizera de Al Berto pelas ruas de Lisboa. O texto intitulava-se “Lisboa, Alexandre e Eu”. Alexandre queria que eu viabilizasse a publicação do pequeno texto. Mas estava numa roda viva decisiva e inesperada, que me fizeram deixar Lisboa, partindo para a Póvoa de Varzim. Por fim, deixei Portugal, e o texto inédito do Al Berto acompanhou o meu regresso ao Brasil. Curiosamente os meus originais ficaram nos seus pertences, com as suas anotações, e este texto continuou inédito em meu poder, a espera do meu regresso a Lisboa.
Publico aqui, no VIRTUÁLIA, algumas fotografias que Alexandre Matos fez de Al Berto. Nunca elas o definiram tão bem. É como se o visse a brincar e a contar as suas aventuras pelas quentes e infinitas noites do Bairro Alto.
Se estivesse vivo, Al Berto completaria este ano, no dia 11 de janeiro, 60 anos. Aqui a minha homenagem ao Al Berto, ao Alexandre Matos, a Lisboa e ao Bairro Alto, só quem traz a sensibilidade lisboeta na alma, compreende esses ícones que se prendem a nossa alma como uma tatuagem de desenhos existencialistas.

Um Poema de Al Berto


As Mãos Pressentem

As mãos pressentem a leveza rubra do lume
repetem gestos semelhantes a corolas de flores
vôos de pássaro ferido no marulho da alba
ou ficam assim azuis
queimadas pela secular idade desta luz
encalhada como um barco nos confins do olhar

ergues de novo as cansadas e sábias mãos
tocas o vazio de muitos dias sem desejo e
o amargor húmido das noites e tanta ignorância
tanto ouro sonhado sobre a pele tanta treva
quase nada

CRONOLOGIA


1948 – Nasce em 11 de janeiro, em Coimbra, Alberto Raposo Pidwell Tavares.
1949 – Vai viver em Sines, onde passa parte da infância e da adolescência.
1967 – Cursa em Bruxelas a École Nationale Supérieure d’Architecture et des Arts Visuels (La Cambre), onde faz pintura.
1971 – Abandona a pintura para se dedicar à literatura.
1974 – Regressa para Portugal e escreve o seu primeiro livro totalmente em língua Portuguesa.
1977 – Lança o seu primeiro livro “À Procura do Vento Num Jardim D’Agosto”.
1987 – É editado “O Medo”, uma antologia do seu trabalho de 1974 a 1986, que se tornaria o trabalho mais importante da sua obra.
1988 – Prêmio Pen Club de Poesia pela obra “O Medo”.
1995 – Escreve o texto para a exposição de Stanislas Kalimerov “A Última Cena – Um Olhar Português”.
1996 – Passa grande parte do tempo em Sines, a escrever o seu último livro “Horto de Incêndio”.
1997 – Morre em Lisboa, de linfoma, em 13 de junho.


OBRAS

Poesia:

1977 – À Procura do Vento Num Jardim D’Agosto
1980 – Meu Fruto de Morder, Todas as Horas
1982 – Trabalhos do Olhar
1983 – O Último Habitante
1984 – Salsugem
1984 – A Seguir o Deserto
1985 – Três Cartas da Memória das Índias
1985 – Uma Existência de Papel
1987 – O Medo (Trabalho Poético 1974-1986)
1989 – O Livro dos Regressos
1991 – A Secreta Vida das Imagens
1991 – Canto do Amigo Morto
1991 – O Medo (Trabalho Poético 1974-1990)
1995 – Luminoso Afogado
1997 – Horto de Incêndio
1998 – O Medo
2007 – Degredo no Sul

Prosa:

1988 – Lunário
1993 – O Anjo Mudo
2006 – Apresentação da Noite

Texto: Jeocaz Lee-Meddi
Fotos: Alexandre Matos


 
 

 
 

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Sexta-feira, 17 de Outubro de 2008

MARCELO RUBENS PAIVA EM SANTOS (1984) - POR JEOCAZ LEE-MEDDI

 

 

Outro dia, quando procurava por alguns documentos antigos, encontrei um relato histórico, perdido entre papéis antigos. No verão de 1984, Marcelo Rubens Paiva, então um jovem de 24 anos, era recebido em Santos, no auditório das Faculdades Santa Cecília. Relatei o debate, que seria matéria do jornal O Estudante, do Centro dos Estudantes de Santos (CES), do qual eu era secretário geral na época. O Estudante era o órgão oficial do CES, tinha uma tiragem de15 mil exemplares, impresso no jornal A Tribuna, sob a responsabilidade do jovem jornalista e meu amigo Raul Christiano, com distribuição gratuita para todas as faculdades existentes à época em Santos e no Guarujá. Por problemas com a diretoria e com os patrocinadores do jornal, cancelamos a tiragem, e o artigo com Marcelo Rubens Paiva nunca saiu. Ficou esquecido no meio de alguns documentos. 24 anos depois, a ler o artigo, vi que tinha um excelente documento histórico. Decidi finalmente publicá-lo aqui no VIRTUÁLIA.
É uma agradável viagem através do tempo, quando surgiu o fenômeno Marcelo Rubens Paiva e o seu livro Feliz Ano Velho, lançado em 1982, livro que se tornou um dos símbolos da década de oitenta. Na época questionava-se se o jovem autor ao relatar a sua vida até o acidente que o deixara paraplégico, seria um modismo ou se tínhamos um novo escritor. Tudo era especulação, que passadas mais de duas décadas, já temos as respostas. Marcelo Rubens Paiva hoje é um senhor que atinge a idade madura, com vários romances publicados e peças escritas para o teatro.
Com um atraso de 24 anos, segue o artigo que feitas as devidas correções de linguagem, procurei transcrevê-lo na íntegra, conservando aquela atmosfera do verão de 1984, momentos antes da explosão do movimento Diretas Já, que sacudiria o Brasil e a ditadura militar, já agonizante na UTI da história.

 

 


Artigo do Jornal O Estudante com Marcelo Rubens Paiva em 1984 – Por Jeocaz Lee-Meddi

Marcelo Rubens Paiva foi recebido no auditório do Santa Cecília, num cenário que se via de um lado espaços cobertos por faixas de propaganda do PT, e de um outro, pessoas sentadas ou em pé, lotando o auditório. Marcelo Rubens Paiva entrou, trazendo o seu olhar maroto, meio infantil, meio adolescente. Percebia-se a satisfação de encontrar tanta gente a sua espera. Correu com os olhos todo o salão, sorriu satisfeito com o que via, como se acumulasse uma certa vitória em voltar a Santos, lugar onde viveu há anos atrás, como um ídolo.
Nos últimos tempos falar de Marcelo Rubens Paiva tornou-se moda nos bastidores da juventude anos oitenta. Instantaneamente nasceu um novo ídolo nacional. O mais curioso é que não é um ídolo imponente e de vigor inatingível, mas frágil pelas limitações de se encontrar em cima de uma cadeira de rodas. Sua presença trouxe ao auditório além dos candidatos e militantes do PT, pessoas de várias tendências políticas do grande balaio que chamam de Frente Democrática, agregadas às diversas alas do PMDB. Divergências políticas à parte, todos estavam ansiosos para ouvir o filho de Rubens Paiva falar. Curiosos para saber suas posições políticas, sua visão de mundo e de Brasil, suas experiências como escritor, enfim, não havia uma pauta ou um tema escolhido. O debate era aberto, à deriva dos curiosos e da capacidade carismática do jovem escritor. Numa época em que os eleitos em 1982 começam a decepcionar, talvez ter um ídolo limitado pela deficiência física traga a esperança de que o brasileiro e a juventude sejam maiores do que o Brasil que se constrói debaixo de uma ditadura. Um ídolo sem a demagogia dos políticos é tudo que essa juventude anseia. Uma esperança além das limitações.
Como explicar o fenômeno Marcelo Rubens Paiva? Mesmo tão jovem, já com uma história que ao se olhar para o seu passado, podemos dividi-lo em antes e depois do acidente que o vitimou, deixando-o paraplégico. A primeira fase da sua vida foi marcada pelo desaparecimento do pai, o deputado Rubens Paiva, levado pela ditadura militar no início dos anos setenta. Apesar da subtração do pai na sua vida, viveu aqui por Santos uma adolescência tão comum quanto a de qualquer um de nós. Fez parte desta cidade, estudando inclusive no mesmo colégio que eu estudei. Santos é uma lembrança tenaz, conforme ele mesmo afirma:
“Santos para mim representa o meu passado. Representa os meus pais, os meus avós, os meus amigos. Eu passei a minha adolescência aqui, estudei no Tarquínio Silva. Minha relação com Santos é sexual. Aqui tive minhas primeiras relações.”
Ao ouvi-lo falar, parece que estamos a ouvir qualquer um de nós que tomou cerveja no Gonzaga e apanhou onda no José Menino. Não nos damos conta da roda-viva que de repente este jovem foi atirado, fazendo com que seja obrigado a tomar posições e ter idéias formadas sobre todos os temas, porque ser escritor neste país é sinônimo de engajamento intelectual.
Após a adolescência em Santos, Marcelo Rubens Paiva foi parar aonde a maioria dos jovens santistas vão, São Paulo. O fato de ter tido um pai deputado e assassinado pela repressão, fez com que crescesse tendo uma visão política consciente e engajada. Muito cedo descobriu o que significava o regime autoritário que se instaurou no Brasil desde 1964. Em 1977, freqüentava a UNICAMP, é das dificuldades no movimento estudantil dessa época que ele nos fala:
”Naquela época fazer movimento estudantil era difícil. Não havia liberdade. Havia liderança de verdade. Quando um líder estudantil falava em greve, havia greve. Só haviam dois partidos políticos. Hoje o estudante tem mais opções, isso dividiu o movimento, porque o estudante não faz só movimento estudantil, ele faz política partidária também.”
Há uma distância muito grande entre o estudante de engenharia da UNICAMP e o Marcelo Rubens Paiva atual, cerceado de jovens a idolatrá-lo e a fazê-lo um ídolo. Percebe-se que assim como o sucesso o fascina, causa-lhe uma ligeira intimidação e uma perturbação ao cotidiano. São tantas as cobranças de posições mais claras, definições mais elaboradas, obrigando-o a refletir sobre todos os temas impostos, que diante da pressão de tantas perguntas sobre temas diversos e delicados fazem com que se assuste e vocifere tenazmente:
“Oh gente, não sou nenhum gênio.”
A curiosidade em saber se ele já superou o fato de ter se tornado um deficiente físico incomoda-o, principalmente quando as pessoas olham-no com uma certa tristeza, comentam que moço tão bonito não deveria estar em cima de uma cadeira de rodas. Foi contra esse tipo de preconceito e comiseração humana que ele mais lutou. Lutar contra os preconceitos foi o ponto de partida que deu origem ao livro Feliz Ano Velho.
“Eu queria mostrar para todo mundo que queria ser tratado como normal, apesar de ser deficiente. Escrevi esse livro para mostrar o lado leve da minha deficiência física, que foi o lado que eu encontrei. De repente, é difícil ver alguém que anda em cadeira de rodas sorrindo. Eu tive muito preconceito. E ainda tenho. Eu não me sinto um deficiente, mas já me acostumei com isso. É claro que é um tabu. Na minha faculdade eu tenho um cara que anda de cadeira de rodas e eu digo ‘olha que coitado’, até me esqueço que eu também ando sobre uma. A vida do deficiente é uma barra, você não tem como sobreviver em uma cadeira de rodas, não dá, em São Paulo ou em qualquer lugar do país. Eles não oferecem condições para isso. Mesmo a medicina, é um lado da Ciência que é difícil, microscópica, e, no entanto, ninguém faz investimento nisso, pois um ataque cardíaco dá mais dinheiro do que um deficiente. Todos têm preconceitos. É uma vida difícil, sem futuro, a não ser quando você escreve um livro.”
Feliz Ano Velho tornou-se um dos maiores best-sellers do Brasil. Um fenômeno em vendas. Tornou-se leitura obrigatória entre os universitários brasileiros. Seu sucesso fabuloso ganhou uma adaptação para o teatro, a peça homônima do livro, dirigida por Paulo Betti, foi a maior revelação dos palcos paulistanos no ano passado. Há a cogitação de uma adaptação também para o cinema. O fenômeno Marcelo Rubens Paiva é uma exceção em um país que se fabrica ídolos através da música, do cinema e mais comumente, da televisão, mas nunca através de um livro. Tornar-se um escritor consagrado com um único livro publicado raramente aconteceu na história da literatura brasileira. Escrito como um relato pessoal, sem maiores pretensões literárias, traz uma história direta, sem utilizar uma linguagem rebuscada, pelo contrário, traz uma linguagem próxima da falada pelos jovens de hoje, com os seus tradicionais palavrões, aliás, palavrões que o próprio Marcelo Rubens Paiva usa em sua linguagem com o público. Tentar explicar o porque de Feliz Ano Velho ser um fenômeno editorial no Brasil daria páginas e páginas de teses, sem nunca se chegar a um consenso. Talvez seja um espelho que reflete imagens turvas da juventude atual. O próprio autor surpreende-se com este sucesso que o transformou em uma pessoa famosa tão repentinamente:
“Entrei na literatura por um lapso. De repente, passei por uma transformação de vida que me fazia sentir vontade de ficar só, e, passar para o papel o que eu sentia. Tive sorte de ter um amigo que era dono de uma editora. Isso já facilitou muito. Foi assim que me tornei um escritor.”
Já como uma celebridade, é hora de assumir bandeiras e posições em um país que luta pela volta da democracia e pela volta dos generais à caserna. E na sua escolha partidária, definiu-se pelo Partido dos Trabalhadores:
“O PT entra como um pedaço da nossa crise externa. Fazer política com toda essa confusão é um sacrifício. Hoje, eu nem sei o que eu quero, não sei mesmo. Há vinte anos nós tínhamos exemplos claros, como Cuba, onde poderíamos seguir. Hoje, nós só temos uma dívida enorme e não sei como vão pagar isso.”
Mesmo diante de uma suposta confusão ideológica dos modelos a ser seguidos dentro do atual panorama mundial, está muito seguro na escolha partidária que fez, considerando-a a mais viável:
“O PT não vai resolver as coisas, mas é uma pequena fatia. Quem vai resolver é você. É você reivindicando através da sua casa, do seu sindicato, é você mudar o micro para poder mudar o macro. Nós não somos operários e estamos num partido operário. Uma boa maneira que o Brasil, a Colômbia e a Venezuela tinha de pagarem a dívida externa era plantar cocaína e maconha e exportá-las para os EUA, porque lá eles adoram coca, seria uma forma da gente se vingar de tudo o que eles fizeram com a gente.”
Marcelo Rubens Paiva usa uma forma descontraída e irreverente para responder às questões que lhe são feitas, tratando-as com uma leveza latente. Quando o assunto é o pai, a leveza dá passagem para uma reflexão mais intimista, trazendo uma resposta mais contida:
“Fazer um paralelo entre o meu pai e eu é simples, é que ele mergulhou de cabeça no mundo da política e foi assassinado, e eu mergulhei de cabeça na juventude e aconteceu o que aconteceu.”
E parece mergulhar um pouco mais dentro de si, permitindo-se ir mais longe diante de um público tão afoito:
“Deus, para falar sinceramente, eu não acredito em Deus com D maiúsculo, um Deus como o que me apresentam. Acredito no acaso, na energia. Deus é um adjetivo. Sócrates para mim é deus, porque o que ele fez no campo de futebol é incrível.”
Novamente a leveza toma conta do seu discurso e entusiasma o auditório, que procuram arrancar mais conceitos do nosso jovem escritor, ansiosos para ouvir o que ele pensa sobre a liberdade, sem defini-la existencial ou ideológica:
“Liberdade? Não acho que liberdade ‘é uma calça velha, azul e desbotada’. A liberdade nunca vai existir totalmente. Eu não me considero livre. Calma, também não preciso saber de tudo.”
Pára e toma fôlego. Assustado ou cansado, prossegue após pedir calma. Se aquela juventude que ali está quer se espelhar nele, então dá mais pistas da sua forma de ver o mundo. Fala inclusive sobre o machismo:
“Por menos que a gente queira não ser machistas, não dá, nós fomos criados numa sociedade machista. O homem de hoje está numa crise profunda, o homem não é mais romântico, mas também não é aquele durão. Nós não queremos ser machistas, mas somos, não adianta. A gente continua cantando as mulheres nas ruas, mas não somos cantados por elas. Eu nunca fui. Até gostaria.”
Como insistiu em dizer que Feliz Ano Velho foi um relato, um desabafo de vida que deu certo, há a expectativa se continuará a escrever, seja relatos pessoais ou pura ficção. Mas ele prefere não fazer planos sobre a sua eventual carreira como escritor literário:
“Escrever sobre a minha vida foi fácil. Agora pretendo fazer personagens fictícios. Continuo escrevendo para a Veja, para a Status, até mesmo para a Capricho. A literatura no Brasil é uma coisa chata. O escritor de hoje, de repente, está tendo um descompromisso com o sério, deixando de ser apenas uma pessoa séria, que fuma cachimbo e está distante das pessoas. Ele é uma pessoa normal.”
Se entrará para a história da literatura ou não, Marcelo Rubens Paiva é hoje um fenômeno de consenso nacional. Nesse período do desgaste de vinte anos da ditadura, a juventude brasileira faz dele um símbolo de perseverança diante das limitações. O que era para ser um desabafo de vida, um grito diante da fatalidade humana, foi transformado em um grande acontecimento literário. Se o jovem autor fará novos best-sellers, ninguém sabe, segue o estigma do sucesso imediato da primeira obra que às vezes, persegue o seu autor para o resto da vida. Se nasceu um escritor ou um fenômeno fugaz, só o tempo o dirá. Entre a personagem agressiva, cáustica e revoltada de Feliz Ano Velho e o autor de hoje, encontramos um homem mais tranqüilo, mais leve e condescendente com a sua limitação física. Tenta ser apenas um jovem comum, que vive o seu tempo e o momento da sua juventude.
Já fora do auditório, longe das perguntas da platéia, encontro-o frente a frente, fazendo-lhe uma última pergunta: se Feliz Ano Velho fosse escrito hoje, seria diferente? Pela primeira vez não dá uma resposta de imediato, um breve silêncio parece revelar que ele prefere pensar antes de dar a resposta. Apesar de levar mais tempo para responder, dá a resposta mais curta:
“Seria.”
Não diz mais nada. Segue o seu caminho, levado por alguém que lhe empurra a cadeira de rodas. Vou seguindo com os olhos a cadeira de rodas se distanciar, ali vai a maior sensação revelada nos últimos anos através de um livro. Tem um ar de menino, uma juventude que pulsa além das suas mãos trêmulas e sem coordenação motora. Parece estar aliviado depois de responder a tantas perguntas. A fama tem o seu preço. Fazer-lhe reverências é como um acerto de contas que todo o país tem para com ele, afinal os pássaros amargos do Brasil tiraram-lhe o pai. A imensa fome de viver intensamente a sua juventude tirou-lhe os movimentos das pernas. Relatar os dissabores devolveu-lhe os sonhos da juventude. Fenômeno passageiro ou não, herói frágil ou leveza irreverente da alma, as nossas homenagens a este sobrevivente do Brasil.


Obras de Marcelo Rubens Paiva:

Ficção:

1982 – Feliz Ano Velho
1986 – Blecaute
1990 – Ua: brari
1992 – As Fêmeas
1994 – Bala na Agulha
1996 – Não És Tu Brasil
2004 – Malu de Bicicleta
2006 – O Homem Que Conhecia as Mulheres

Teatro:

1989 – 525 Linhas
1998 – Da Boca Pra Fora (E Aí, Comeu?)
2001 – Mais Que Imperfeito
2003 – Closet Show
2003 – No Retrovisor
2006 – Amo-te
 
 
 
 
 
 
 
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Sábado, 16 de Agosto de 2008

A FACE DE EROS

 

 
Conto e Poema de:
JEOCAZ LEE-MEDDI


O barco deslizava calmamente por águas turvas, em que a cor da lama confundia-se com o brilho prateado da Lua. Atravessava cidades, costumes, gente. Em cada margem do rio um cheiro de vida. No barco a solidão dos meus sonhos. Não havia outra voz que não a minha, outro mundo que não o meu. No universo da solidão fria das ideologias, as palavras como magia. O que era eu além das palavras? Se fosse mudo seria poeta? Se fosse surdo seria sábio? Em mim a palavra superava a lógica. Na minha boca elas pareciam exóticas. Navegar entre costumes, seguir o São Francisco do sertão de Minas Gerais até o desembocar no Atlântico. O São Francisco era o rio da vida do sertão seco, em brasa, agonizante, cheio de mistérios. Nele voavam sacis, caiporas, fadas, duendes, gnomos, sátiros de insaciável presença fálica. Atravessar o São Francisco, como um navegante sem a responsabilidade de Cabral. Mas na certeza da agonia dos profetas. A verdade das horas deslizava pelas águas.
Quando entrei naquele barco que trazia na proa as carrancas com mitos antigos, rodei o relógio no tempo. Para frente, para trás, não sabia. Viajava pelo tempo a procura de uma promessa. A Lua queimava o meu rosto, mais forte do que o Sol. Apesar de uivos de lobos, não hesitei em ousar descer do barco, pisar em terra. Nas margens do rio uma sombra. Não lhe via o rosto, mas era um semblante bonito, sorria, mas no rosto a luz não chegava. Tal qual um Eros audacioso, ele estendeu-me a mão, convidou-me para acompanhá-lo:
– Vem. Não tenhas medo.
– Quem és?
– Não sabes? Sou o que sempre esteve, sou o que te queima a verdade, mas gostas das mentiras. Vem, persiga-me porque eu o fiz toda a minha vida.
Persegui-lo? Quem era? Por que não lhe via o rosto? Via-lhe a alma, era quase igual a minha. Via-lhe o sorriso. Sorria-me, estendia-me a mão. Toquei-lhe a mão. O meu corpo flutuou, os meus pés perderam o chão. Flutuei tal qual um Ícaro insaciável. Subi, sempre na direção da luz prateada. Era a Lua a brilhar sobre as águas do mundo. Do São Francisco ao Atlântico, do Atlântico ao norte das encostas frias de um povo, de um sonho.
Para ele era simples voar, para mim era quase um milagre. Tinha medo de cair. Quando o medo assaltou-me a alma fui perdendo altitude, cada vez mais, pousei desajeitadamente no solo coberto de rochas e pedras pontiagudas que feriam os meus pés. Dali via o mar que vinha em forma de ondas em fúria a agredir as rochas, queimando-as com o sal a terra.
– Por que paraste? - Perguntou-me.
– Porque me lembrei que o homem não foi feito para voar. Mas vôo sempre, estou sempre a voar nos meus sonhos, sempre, é quase uma obsessão. Salto dos arranha-céus de uma cidade de pedra, atravesso ruas, pouso em universos de concreto. Vôo, sempre com um pé sobre o chão e outro no precipício dos sonhos.
– Se voas, então por que paraste?
– Medo de cair.
– Cair? Não tens asas de cera, não tens asas, tens sonhos, podes voar que não perdes as asas. Não acreditas que me procuras?
– Sempre, toda uma vida. Mas perco-te nas sombras.
– Toca-me o rosto. Vá, toca-me o rosto.
Toquei-lhe o rosto. Senti-lhe a pele, o sangue, o calor, mas não conseguia ver-lhe o rosto, por mais que tentasse. Era Eros a não querer revelar-se.
– Quem és tu?
– Sou o que te espera no fim da tua solidão. Quanto mais procurares por mim, mais próximo da solidão ficarás. Quando derrubares a sombra do meu rosto, terás que me reconhecer. Eu espero-te há tantos anos. Por favor, reconheça-me, porque não saberei fazê-lo.
– Como farei para reconhecer-te?
– Saberás, perdoa ter chegado assim, uma eternidade antes de ti.
– Uma eternidade antes? Chegaste uma eternidade antes de mim? Não, estás a condenar-me à eternidade da procura prevista?
Olhei para a fúria do mar. Tinha frio. O tempo parecia cruel nas águas daquele mar. Ele abraçou-me, quase como um abraço do tempo. O seu calor fazia com que o frio fugisse do meu ser, com que sentisse um conforto no corpo, quase como uma paz que a vida não dava, mas que nele encontrava.
– O mar parece trazer o sangue dos homens. - Disse-lhe eu.
– Sim, porque banha ilhas cheia de calor humano, mas coberta por duendes, por gnomos, gênios do mal, gênios sanguinários e cruéis. Não reconheces a ilha? Não reconheces a tua poesia? Não reconheces o sangue dos poetas que dela surgiram? São os teus poetas, eles dirão onde me encontrar. Os teus poetas dirão o meu nome, nunca te esqueças. As ilhas, a poesia. Já sentes calor?
– Sim, o frio do mar passou, parece que se acendeu um braseiro.
– Então olha ao teu redor. Olha!
Já não estava na ilha do mar frio, de gênios furiosos e sanguinários. Lá embaixo via uma cidade na qual nunca estive, perdida milhares de anos no tempo. Parecia Atenas. Via as suas ruas sujas. Olhei por detrás de mim. Senti um frio de fogo no meu ser. Era a Acrópole, de cima da colina eu via os gregos e os seus deuses, os antepassados gloriosos nas páginas de Homero, bem antes de navegarem pelas páginas de Luís de Camões.
– Também aqui terás resposta. É aqui que encontraste todos os elementos da tua literatura. És uma tragédia grega, nunca um romance ocidental. Por favor, não me deixas fugir, tens que me reconhecer, só tu o farás.
– Quem és tu? Porque não somos apresentados? Porque tenho que saltar as noites e a eternidade? Que eternidade me resta depois de ti? Eu ainda nem sei que caminho percorrerei para cruzar o teu. Vá, revela-me o teu rosto, revela-me o teu nome. Revela-me porque eu já não me entendo, eu já não sei onde anda toda a minha paz, já não sei nada, estou cansado, cansado e saturado da paixão, mas nunca do amor. Se pelo menos soubesse a diferença entre a paixão e o amor. Mas no meu ser é tudo tão igual, quase natural a força e a paixão.
– Há tantos segredos que aprendi para contar-te. Nem sabes das aventuras que percorri, os ferimentos com os quais arranhei a minha alma para que me trouxesses os ungüentos que aliviariam toda a dor. E continuarei assim, ferindo-me de morte, até que me venhas salvar, porque eu já sou o teu ungüento. Não me deixa agonizar tantos anos, reconheça-me.
– Mas nem sequer sei aonde vou.
– Sabes, vais na direção da minha sombra. Mas se te matas não me acharás. Não ouses a enfrentar a tua sorte, serás infeliz.
– Tal como tu, ainda tenho que surrar a alma para reconhecer-te.
– És teimoso. Nem sabes das poesias que tenho para ler-te nas noites em que teimas em destruir o construído. Não sejas o eterno escorpião. O escorpião que numa margem do rio pediu a uma rã para atravessá-lo até o outro lado. Mas a rã respondeu-lhe que não, porque se o fizesse estaria a suicidar-se, pois o escorpião picar-lhe-ia a cabeça. O escorpião retrucou, argumentou que se picasse a cabeça da rã e ela morresse antes de chegar à outra margem, ele também morreria afogado. A rã achou coerente o argumento e aceitou atravessar o escorpião para o outro lado do rio. No meio da travessia o escorpião não resistiu e picou-lhe a cabeça. Antes de morrer a rã perguntou-lhe porque fazia aquilo. Ele apenas respondeu-lhe que não sabia, estava na sua natureza.
– E o que tem a ver comigo?
– Tem que se picas a cabeça da rã, não atravessas o rio sem ponte onde eu espero-te do outro lado.
– Quanto tempo estarás à minha espera?
– Até a eternidade. Se não chegares, a vida passará por nós sem sal, sem a promessa das horas. Passaremos, como passam as multidões sem nunca chegarem às promessas de vida que lhe são de direito.
– Queria fazer como fizeste, chegar antes. Tenho pressa, tenho sede de decifrar a esfinge, de ver o rosto do Eros.
– Não, se não revelas a sombra, viverás à margem dela. Viverás sem luz. Nem todas as sombras que encontrares terão luzes nos becos sem saída que te irão deixar. Nem todas as sombras escondem a luz, são simples sombras.
– Mais do que sombras, procuro vidas, calores, procuro a revelação dos poetas. Faço da minha vida a promessa de um poema, mas qualquer dia a poesia irá consumir-me e as palavras adormecerão. Vivo uma poesia comprometida com o cansaço da paixão, mas com a certeza do amor. Acho que vivo uma poesia de Yeats...Yeats... A ilha, a poesia, Yeats... O mar furioso, a ilha...
– Não digas o nome, sabes qual é. Tens que aprender com a dor para que me ensines. Reconheça-me, estarei entre ilhas, entre sonhos, entre correntes. Vê o mar, vê o tempo, descobre-me.
Abraçou-me outra vez, beijou-me. A lua refletiu-lhe o rosto. Eros revelado, finalmente. O seu rosto era igual ao meu. Uma vez revelado, ele voou para junto de uma mulher de asas com um cheiro de orquídeas no corpo. A mulher despejava pétalas de rosas na minha cabeça. Rosas azuis, quase infinitas, quase sem fim. Voei pelas ruas de cidades antigas e infinitas, percorri cada canto de ruelas estreitas, enfeitadas de orquídeas. A mulher levou-me a sombra. O calor desapareceu, a correnteza do mar voltou, as águas do Atlântico puxou-me como um zoom, as carrancas do São Francisco tragaram-me. A mulher tal qual Ícaro, perdeu as asas, foi caindo, caindo, afundou-se entre pétalas azuis.
Preso no tempo e pelas horas, perdi o sorriso da sombra. Já não precisa saber o seu nome. Um eco mais fundo levou-me à eternidade da espera. No meu corpo o calor daquele abraço, o calor da paz, do silêncio do mar, dos mistérios da Lua, dos pontos cardeais do planeta. A eternidade perdida entre o ontem e o hoje. Os dias, as noites, os anos, as ilusões. A ilha dos duendes, dos gnomos, dos poetas, de Yeats. As ilhas de Homero, a eternidade da minha agonia.



Talvez um dia, quem sabe,
Quando menos esperar,
Ou quem sabe até mesmo esperado,
Encontrarei essa porta procurada,
Entrarei brilhante e sorridente,
Como a saída triunfal e alucinante de um parto,
E de dentro um sorriso,
Esse olhar tantas vezes socorrido,
Esse sorriso largo e infantil,
Algumas vezes embaçado pelas lágrimas,
Esse corpo pequeno e louco,
Viajante intempestivo de alguns desejos,
Essas mãos leves e rápidas,
Tremidas na inconstância de ser feliz,
Esses pensamentos discretos e sutis,
Essa cara angelical e distraída,
Essa alma infinita e atormentada,
Esse braço, abraço,
Sim, esse abraço,
Esse velho amigo conhecido,
Como se fôssemos apenas um,
Encontrei a ti do outro lado,
Essa porta mágica que estava em cada esquina,
Em cada sonho, cada bar, cada mágoa,
Cada amor, cada momento fugitivo,
E finalmente a porta aberta,
E tu do outro lado,
Então sorrirei aliviado e direi:
Finalmente encontrei eu mesmo.

publicado por virtualia às 05:21
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