Domingo, 25 de Outubro de 2009

BATMAN - SETE DÉCADAS DO HOMEM MORCEGO

 

Em maio de 1939, o número 27 da revista norte-americana Detective Comics publicava a história do Batman, o Homem Morcego, codinome do milionário Bruce Wayne, defensor da justiça e dos oprimidos. Sete décadas depois, Batman é um dos mais bem-sucedidos heróis das histórias em quadrinhos, da televisão e do cinema. Sua fama atravessou as fronteiras do país em que foi criado, conquistando o mundo inteiro.
Batman foi uma criação do desenhista Bob Kane e do escritor Bill Finger, embora só seja creditada ao primeiro. Há rumores de que personagem semelhante teria aparecido em desenhos de Frank Foster, em 1932, daí uma corrente dar a ele os créditos de um terceiro criador.
Nascido um ano depois do Superman, cuja primeira história publicada foi em 1938, Batman é um herói oposto ao homem de aço. Ele não possuí poderes sobrenaturais, não é de outro planeta, para derrotar os vilões conta com a sua inteligência e astuciosos planos regados de lutas marciais e técnicas de combate, além de criações tecnológicas desenvolvidas para este fim, como o bat-cinto e o bat-móvel.
Se Clark Kent é o herói que luta incessantemente contra os criminosos, Bruce Wayne não lhe fica atrás. A diferença é que o primeiro executa cabalmente a linha politicamente correta de combater o mal, enquanto que o Batman combate o mal com o próprio mal, não se importando com o caminho, mas com os resultados. O Super-Homem já nasceu com os super poderes, sua trajetória já foi definida no planeta de onde veio, enquanto que o Batman foi feito em cima dos traumas de Bruce Wayne. Ele é o ego da criança que testemunhou o assassínio dos pais, que cresceu com a necessidade de vingar as mortes, combatendo os criminosos que possam produzi-las na sociedade. O Batman não é só o paladino da justiça, mas o vingador do seu criador. A sua conduta reflete a psicologia dos seus atos, tudo nele está voltado para a mente, sua personalidade dupla é fruto do ambiente, da cidade – Gotham City – que o viu nascer.
Batman é obscuro, como é o morcego, animal vampiresco, que tem as trevas como guia. Batman transita através de todos os medos de Bruce Wayne, fazendo-o sobrevivente dos traumas e da fúria vingativa que lhe queima a mente. A inteligência é o seu maior trunfo. Não utiliza armas, mas é capaz de usar toda a força física do seu corpo. Sem a máscara é um homem fútil e de vida cerceada pelo glamour social, visto como um playboy e conquistador de belas mulheres; mascarado é um homem destemido, justiceiro e amigo dos desvalidos, visto como um misterioso sedutor, arrebatador de corações sonhadores. Se Clark Kent ao transforma-se no Super-Homem é quase que imperceptível à dualidade da sua personalidade, com Bruce Wayne isto não acontece, porque o Batman afasta-se do milionário, o herói é o oposto do homem, só se igualando a ele numa coisa, ambos são mortais, sobrevivem da força da mente.
Sete décadas depois, o homem morcego assumiu várias faces, mudou o comportamento conforme quem desenhava as suas histórias ou as contava quer no cinema, quer na televisão. Mesmo assumindo tantas faces, a sua principal característica, que é a mente, o perfil psicológico, jamais foi perdido, e ele continua a seduzir e a conquistar o mundo inteiro.

A Criação do Homem Morcego

Nos Estados Unidos, as histórias em quadrinhos tornaram-se um grande sucesso na década de 1930, com tiras publicadas regularmente nos jornais e em revistas autônomas, sendo amplamente lidas por crianças e adultos. No fim desta década, a DC Comics pediu a um jovem desenhista, Bob Kane, que criasse um herói para ser lançado nas páginas da sua revista em quadrinhos.
Em 1938 tinha sido lançado o Super-Homem, herói com super poderes, como visão de raios-X, capacidade de voar, além de ter vindo de outro planeta. Para opor-se ao Super-Homem, Kane pensou em um herói nascido na Terra, vivendo em uma grande cidade corrompida pelo crime e por perigosos bandidos. Várias são as influências atribuídas a Kane na criação do Batman. Alguns dizem que ele era um aficionado das histórias vampirescas e no mito do Drácula. Outros afirmam que se baseou no Zorro, homem fanfarrão e fútil durante o dia, mas um exímio defensor dos fracos e oprimidos durante a noite. Outra influência teria sido a dos filmes negros de detetives, gênero de grande sucesso da época, que traziam cenas a preto e branco, recheadas de crueldade e sombras assustadoras. Há ainda, a versão de que teria sido uma inspiração vinda de um desenho renascentista do gênio Leonardo Da Vinci. Sejam quais forem as influências, Batman nasceu com um pouco de cada uma das aqui citadas.
Mas a evidência mais clara na criação de Bob Kane foi a de um herói próximo do Drácula, e o símbolo criativo, o morcego, resumia o caráter dúbio da personagem que nascia. O morcego é visto desde a antiguidade como um animal maldito, meio rato, meio ave. Os hábitos noturnos, a alimentação do sangue de animais de algumas espécies, fizeram dos morcegos animais associados às trevas. Batman traria a personalidade dúbia e sombria do morcego, suas histórias seriam escuras e próximas do gênero de terror.
Assim como Drácula, o herói imaginado por Kane traria roupas negras, capa vermelha e mente sombria, sendo representante de um sonho ruim. Foi esta a idéia que Bob Kane levou a um amigo, o roteirista Bill Finger, na época com 22 anos. Finger acrescentou à personagem uma capa esvoaçante, mudou a cor das roupas para cinza e negra e aumentou o tamanho da máscara, dando à personagem o formato que o iria consagrar.
Bob Kane é oficialmente creditado como o criador do Batman, apesar de ter confirmado sempre a participação de Bill Finger. Além dos dois, os desenhos de Frank Foster, artista ligado à industria de publicações de Nova York, criados no inicio da década de 1930, foram considerados como autênticos pela DC Comics, embora não creditados.
Concluído o aspecto do Batman, ele foi inserido na cidade de Gotham City, pronto para enfrentar todos os bandidos que ameaçavam a metrópole. Respaldada a criação, no dia 18 de maio de 1939, a história do Homem Morcego foi publicada pela primeira vez no número 27 da “Detective Comic Magazine”, inaugurando a saga de um dos heróis mais emblemático da chamada “Época de Ouro dos Quadrinhos”.

Batman Apresenta-se a Gotham City

Gotham City era um retrato das grandes cidades norte-americanas pós-depressão. Após a queda da Bolsa de Valores, em 1929, o país mergulhara numa recessão econômica que levara grande parte dos seus habitantes à miséria. A depressão, aliada ao período da Lei Seca, que proibia a venda de bebidas alcoólicas no país, suscitou a violência, a consolidação da Máfia nos Estados Unidos, além de criar o mito de grandes criminosos como Al Capone, Frank Nitti, Paul Ricca ou Tony Accardo. Esta atmosfera de gangster é recriada em Gotham City, e os vilões que o Batman combate refletem a sombra dos grandes mafiosos.
Se em 1939 a América ainda vivia dos escombros do colapso da Bolsa de Valores, a Europa vivia a ascensão do nazismo na Alemanha, do fascismo na Itália, além dos prelúdios daquela que seria a sua maior catástrofe no século XX, a Segunda Guerra Mundial. É neste contexto histórico que nasce o Batman.
Batman surge dos escombros da mente de Bruce Wayne, herdeiro único de uma grande fortuna que lhe deixara os pais. O empresário milionário revela para a sociedade ser um homem superficial, playboy inveterado, amigo da caridade e da filantropia, mas de idéias rasas quando chamado para opinar sobre os problemas de Gotham City.
Mas a mente de Bruce Wayne é mais complexa do que a imagem que deixa transparecer. O milionário é um homem solitário, atormentado pelas lembranças da infância, encerrada mentalmente aos oito anos, no dia em que ele assistiu ao assassínio dos pais, o médico Thomas Wayne e a esposa Martha Wayne, vítimas de um assalto, executado pelo criminoso Joel Chill. Este testemunho perturba para sempre o herdeiro dos Wayne, fazendo-o caminhar errante por todo o mundo, em viagens de fuga e aprendizados constantes. Já adulto, Bruce Wayne volta a Gotham City, encontrando uma cidade violenta e corrompida em todas as suas vertentes, seja políticas ou empresariais. Na sua mente atormentada, Bruce Wayne jura vingar a morte dos pais, decidindo combater o mal, nem que para isto ele próprio lance mão do mesmo mal.
Em suas viagens pelo mundo, Bruce Wayne tenta obsessivamente compreender a mente assassina, além de querer vencer os traumas que não lhe abandona os pesadelos. Em seu aprendizado, ele treinou técnicas de combate e todos os tipos de artes marciais, numa construção da perfeição física associada à inteligência intelectual. Para combater o crime, Bruce Wayne inspira-se nos morcegos, animais que o traumatizara quando criança, dos quais tem medo. Num paradoxo psicológico, ele cria vestes baseadas nos morcegos, para que assim possa amedrontar os seus inimigos com o bicho que mais o amedrontava. Aterrorizar os outros com os seus próprios medos, faz com que ele os exorcize de dentro da alma. O que o acovardava torna-se instrumento da sua coragem e sede de justiça. Cada inimigo derrotado faz dele um vingador do assassínio dos pais, redimindo-o dos traumas infantis. A máscara desaparece com todos os medos, tornando-o um homem insuperável.
Sem os poderes sobrenaturais do Super Homem, Batman conta com as suas habilidades de exímio lutador, com a tecnologia vinda das suas fábricas, com o seu físico forte e atlético, com uma inteligência imaginativa e incomum, e, principalmente, com a grande fortuna que tem à disposição. Por debaixo da máscara, o herói é, acima de tudo, humano e mortal.

Surge a Figura de Robin

Quando o Batman surge no cenário da caótica Gotham City, combatendo o mal com o mal, ele suscita o medo e a desconfiança da população e da lei. Ao ver surgir um homem vestido de morcego, portando gestos bruscos e determinados em combater os seus inimigos, a fragilizada população, refém da violência, do medo e da corrupção que se instaurara sobre Gotham City, sente-se confusa, sem saber em quem confiar.
Mas Batman é um herói seguro da finalidade para a qual se atirara, e logo conquista a simpatia dos cidadãos de Gotham City, e de parte da polícia, que passa a não classificá-lo como um dos criminosos que andam pelas ruas, mas como um aliado no combate aos mesmos. Inicia-se um pacto entre a população, a polícia e o Homem Morcego, traduzida em um sinal de morcego no céu (o bat-sinal), que representa um pedido de socorro ao mascarado paladino da justiça.
No decorrer das histórias, a identidade de Bruce Wayne vai ficando cada vez mais definida. Tem como marco o seu nascimento, em 1910, a vida feliz na mansão da família, até os oito anos, quando teve os pais assassinados, a criação solitária e infeliz na mansão, sob a tutela do tio Philip Wayne, ou do mordomo Alfred, conforme as versões e seguimentos da história.
Em 1940, Batman deixa de ser um herói solitário, quando lhe foi criado um companheiro, o menino prodígio, Robin. A idéia foi de um assistente de Bob Kane, Jerry Robinson. A história da dupla começou quando Bruce Wayne adotou o jovem Dick Grayson, órfão dos Graysons Voadores, trapezistas assassinados durante uma apresentação no circo. Bruce Wayne sente no drama de Dick Grayson uma identificação com a sua própria história. Ao levá-lo para viver na mansão, ele quebra com a solidão, vivida na companhia do fiel mordomo Alfred. O órfão adquire o codinome de Robin, tornando-se o fiel parceiro do Batman.
A leveza da personagem do menino prodígio, um rapaz valente e atrapalhado, quebrou a atmosfera soturna das histórias do Batman, acrescentando-lhes mais humor e mais diálogos. É desta época o surgimento dos maiores inimigos do Homem Morcego, o Coringa e o Pingüim, vilões perigosos e bem humorados que tornaram as histórias mais engraçadas, conquistando imediatamente os leitores, que os faziam revezar nas tramas.
O menino prodígio cumpriu a sua função de companheiro do Batman até as histórias de 1969, quando foi para a faculdade. Durante a década de 1970, as histórias do Batman mostravam-no solitário, algumas vezes juntando-se com Robin, outras vezes com a Batgirl. Na faculdade, Robin uniu-se à turma dos Titãs, mudou o seu uniforme e assumiu a identidade do Asa Noturno. Para suprir a falta do menino prodígio, foi criado Jason Todd, também ele um órfão adotado por Bruce Wayne. O novo Robin acabaria por morrer nas mãos do Coringa.

As Várias Faces do Batman ao Longo das Décadas

Desde que foi criado, em 1939, o Batman passou por profundas transformações, tanto no aspecto visual das suas roupas, até as mais complexas evoluções psicológicas, ou mesmo na troca dos parceiros.
Se Jerry Robinson deu um aspecto mais leve às histórias do Homem Morcego, esta atmosfera desapareceu com o desenhista Neal Adams. Quando assumiu as aventuras do Batman, Neal Adams voltou às origens, trazendo de volta um Batman sombrio, com histórias violentas, mostrando um herói pouco convencional, que se utilizava da sua lógica para vencer os inimigos, e não das normas éticas vigentes. Este Batman sombrio e solitário percorreu a década de 1960, chegando com sucesso aos anos oitenta.
Várias faces da vida do Batman foram exploradas pelas décadas, revelando diversos aspectos criativos da sua saga. Numa dessas fases, Bruce Wayne casou-se com Selina Kyle, a mítica Mulher Gato, já aposentada do seu codinome para contrair matrimônio e parceria com o paladino da justiça. Nesta fase nasceu Helena Wayne, filha do casal, e Batman estava quase que aposentado, resolvendo apenas casos esporádicos. Bruce Wayne assume o posto de comissário com a aposentadoria do Comissário Gordon. Quando ficou viúvo de Selina, o milionário aposentou definitivamente o Batman, só voltando quando surgiu um terrível vilão, Bill Jensen, chamado de Frederic Vaux. Nesta aventura contra Jensen, Batman é morto, e Bruce Wayne é enterrado ao lado de Selina. O feiticeiro Senhor do Destino derrota Jensen, e faz com que a população esqueça que Bruce Wayne era o Batman, cuidando para que todos acreditem que eles morreram simultaneamente.
Na década de 1980 Batman e Robin entram para o grupo dos “Superamigos”, ao lado do Super-Homem e da Mulher Maravilha, entre outros heróis, numa série de desenhos animados feita para a televisão. Batman, por não ter poderes sobrenaturais, desaparece no meio dos outros heróis, tornando-se superficial e sem atrativos, gerando a indignação dos fãs.
Em 1985, Batman volta reformulado pelas mãos do desenhista Frank Miller, através de uma série de histórias intitulada “O Cavaleiro das Trevas”, feitas para a D.C. Comics. Assume um aspecto de anti-herói, sendo a sua personalidade de morcego superior a do homem. É mais vampiro do que humano, usa todos os métodos sombrios do mal para vencê-lo. Batman explora os mais diluídos aspectos da sua alma, o que o leva a não distinguir o que é o bem e o que é o mal. Miller usa cores excessivas, com sombras dilacerantes. Sua genialidade traz de volta um Batman visceral, além dos limites de um herói, quase a beirar as raízes profundas do mal. O mundo interior da personagem é o de um homem vingativo e infinitamente distante da moral, quebrada por ele e pelos que violam a lei e assassinam inocentes.
Seja qual for a linha que se seguiu na longa saga do Homem Morcego, a verdade é que ele jamais perdeu o fascínio dos fãs, tornando-se um dos maiores mitos da ficção moderna, um ícone dos heróis nascidos das bandas desenhadas.

Batman no Cinema e na Televisão

Batman, ao lado de Robin, chegou pela primeira vez às telas de cinema, em 1943, através de “O Morcego” (Batman), filme em forma de seriado, realizado pela Columbia Pictures, com quinze episódios, protagonizados pelos atores Lewis Wilson e Douglas Croft, respectivamente Batman e Robin. Feito no auge da Segunda Guerra Mundial, o principal vilão era um espião japonês, Dr. Daka (J. Carrol Naish), naquele momento histórico o Japão era o principal inimigo dos EUA. Em 1949, veio “A Volta do Homem Morcego” (Batman and Robin), também produzido pela Columbia Pictures, tendo no elenco Robert Lowery (Batman) e John Duncan (Robin). Tal como o de 1943, foi feito em forma de seriado, tendo quinze episódios. Aqui os dois heróis enfrentam um raio elétrico que torna invisível as pessoas e os objetos, lançado pelo vilão, O Mago.
Os dois filmes foram decepcionantes, trazendo péssimos atores no papel de Batman, além de um guarda-roupa que transformava os uniformes de Batman e Robin em caricatas fantasias.
Em 1966 Batman chegou à televisão, na série “Batman”, trazendo Adam West como Batman, e Burt Ward como Robin. A série transformou a sombria história do Homem Morcego em uma hilariante comédia, com vilões fascinantes. Se os protagonistas eram dois atores praticamente desconhecidos, a galeria dos vilões era interpretada por um luxuoso elenco, trazendo nomes estelares como Cesar Romero (Coringa), Burgess Meredith (Pingüim), George Sanders (Sr. Frio 1), Otto Preminger (Sr. Frio 2), Eli Wallach (Sr. Frio 3), Vincent Price (Cabeça de Ovo), Anne Baxter (Olga, esposa do Cabeça de Ovo), Zsa Zsa Gabor (Minerva), Tallulah Bankhead (Viúva Negra), Van Johnson (Menestrel) e Shelley Winters (Mãe Parker). Na última temporada da série foi criada a personagem de Barbara Gordon, filha do Comissário Gordon, que tinha o codinome de Batgirl, misteriosa mulher que ajudava Batman e Robin no combate ao crime. Yvonne Craig foi a atriz convidada para viver a sensual e sedutora heroína mascarada. Sua presença causou alvoroço nos telespectadores, pois trazia um uniforme colado ao corpo, transformando-a em uma bela e atraente justiceira. Burt Ward teve o seu uniforme censurado, pois o calção pequeno e apertado do Robin evidenciava por demais a genitália avantajada do ator, obrigando-o a pôr gelo no pênis durante horas, para ver se ele encolhia; não obtendo resultados, foi administrada uma droga ao ator, que segundo os produtores, diminuía temporariamente o tamanho do seu órgão. Temendo que o procedimento o afetasse para sempre, o ator passou a recusar a ingerir a droga, e os censores deixaram-no em paz.
O tom humorístico da série criou a atmosfera dos desenhos animados, quando utilizava nas lutas travadas por Batman e pelos seus inimigos, onomatopéias escritas na tela, como “POW!”, “BAM!”, “ZOKK!”, conseguindo ótimos e divertidos momentos. A série foi ao ar de 1966 a 1968. O grande sucesso que fez deu origem ao filme “Batman: O Homem Morcego”, de 1966, tendo no elenco os atores da televisão.
Mesmo criticada pelos fãs do Batman, por descaracterizar a personagem, a série tornou-se cult, tendo vários seguidores e adeptos no mundo inteiro.
Quando Batman completou cinqüenta anos, em 1989, Tim Burton levou-o ao cinema, num primoroso filme, “Batman”, com Michael Keaton (Batman) e Jack Nicholson (Coringa) como protagonistas. Era a volta triunfante do Homem Morcego às telas, iniciando uma saga brilhante nas salas de cinema do mundo inteiro, sucesso que persiste até os dias de hoje. Além de Michael Keaton, que viveu o Batman em dois filmes, o cinema trouxe no papel do Homem Morcego os atores Val Kilmer, George Clooney e Christian Bale.

Filmografia do Batman

1943 – O Morcego (The Batman) – Lewis Wilson (Batman), Douglas Croft (Robin)
1949 – A Volta do Homem Morcego (Batman and Robin) – Robert Lowery (Batman), John Duncan (Robin), Jane Adams (Vick Vale)
1966 – Batman: O Homem Morcego (Batman – The Movie) – Adam West (Batman), Burt Ward (Robin), Cesar Romero (Coringa), Burgess Meredith (Pingüim), Lee Meriwether (Mulher Gato), Frank Gorshin (Charada)
1989 – Batman (Batman) – Michael Keaton (Batman), Jack Nicholson (Coringa), Kim Basinger (Vick Vale), Michael Gough (Alfred)
1992 – Batman: O Retorno (Batman Returns) – Michael Keaton (Batman), Michelle Pfeiffer (Mulher Gato), Danny DeVito (Pingüim)
1995 – Batman Eternamente (Batman Forever) – Val Kilmer (Batman), Chris O’Donnell (Robin), Tommy Lee Jones (Duas Caras), Jim Carrey (Charada), Nicole Kidman (Chase Meriddian)
1997 – Batman & Robin (Batman & Robin) – George Clooney (Batman), Chris O’Donnell (Robin), Alicia Silverstone (Batgirl), Arnold Schwarzenegger (Sr. Frio), Uma Thurman (Hera Venenosa)
2005 – Batman Begins (Batman Begins) – Christian Bale (Batman), Michael Caine (Alfred), Liam Neeson (Henry Ducard), Ken Watanabe (Ra’s Al Ghul), Gary Oldman (Jim Gordon), Katie Holmes (Rachel Dawes), Morgan Freeman (Lucius Fox)
2008 – Batman – O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight) Christian Bale (Batman), Heath Ledger (Coringa), Michael Caine (Alfred), Morgan Freeman (Lucius Fox)

publicado por virtualia às 17:29
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Sábado, 26 de Setembro de 2009

UM LUGAR AO SOL

 

 

Um Lugar ao Sol” (“A Place in the Sun”) é daqueles filmes que se assiste e jamais se esquece. Sua dimensão humana atravessa as telas, atingindo e perturbando todos nós. Baseado no livro de Theodore Dreiser, “Uma Tragédia Americana” (An American Tragedy), esta versão de 1951, é a segunda feita pelo cinema, conseguindo dar uma visão cinematográfica própria e definitiva à obra de Dreiser. A tragédia de George Eastman, Clyde Griffith no romance de Dreiser,desperta no público a comoção, a indignação e até o desejo do assassínio, quem não se deixou conduzir por ele com a mesma idéia obscura de assassinar a namorada, um acidente em sua vida, que atrapalha o amor verdadeiro e os sonhos da ambição concretizada?
O filme, considerado por Charles Chaplin “... o melhor que assisti na vida. Registra a supremacia do cinema sobre todas as outras forma de arte”; é o desenho mágico dos belos rostos dos atores Montgomery Clift e Elizabeth Taylor, o casal perfeito, mas impedido pelos erros e opções de vida de alcançar a plenitude do amor e da felicidade; a química sublime entre os dois mudaria para sempre o conceito dos casais românticos do cinema.
Personagens inesquecíveis criados por Montgomery Clift, um dos maiores talentos do cinema americano, cuja insatisfação latente ultrapassa os sentidos, dando vida à personagem; por Elizabeth Taylor, que aqui traz a sua beleza na mais intocável plenitude, como a promessa do verdadeiro éden a quem ganhar o seu amor; por Shelley Winters, na sua beleza discreta, na representação da mulher comum, de vida difícil e sofrida, cujo único sonho é o amor do belo rapaz, afastado dos seus braços pelo desamor pelos ardis da vida.
Montgomery Clift empresta uma angústia comovente à personagem, fazendo dele não um assassino, mas um jovem desprotegido diante dos sonhos e da promessa cruel que a vida faz quando os oferece a alguém que nada possui. Quando dentro do carro, adormece nos ombros da bela Angela, a platéia sente vontade de protegê-lo, de aninhá-lo nos braços como uma criança travessa, não como um homem cuja ambição levou-o a conduzir a namorada indiscreta ao lago, deixando-a para sempre nas profundezas das águas. George era culpado ou inocente? Assassino ou vítima? Sonhador ou cruel? Era tudo isto, era um retrato de todos nós, marionetes perfeitas de uma sociedade que nos cobra o amor, a beleza, a ascensão social, a perfeição, mas que dá apenas a sensação etérea de cada desejo de um lugar ao sol.

O Envolvimento de George com Alice

Trazendo imagens a preto e branco, “Um Lugar ao Sol” abre as suas cortinas de épico, ao focalizar o jovem George Eastman (Montgomery Clift), vindo do interior em uma carona de carro, de onde vê passar um Cadillac branco, dirigido por uma bela jovem. George é deixado à porta de uma fábrica. O jovem traz um olhar sonhador e ambicioso, vendo naquele momento a ruptura com o passado humilde, rumo à ascensão e conquista do sonho americano de prosperidade e enriquecimento. O dono da fábrica é o empresário Charles Eastman (Herbert Heyes), seu tio. Se George vinha de um lar humilde e de forte religiosidade, o tio representava o homem bem sucedido, rico e influente.
Mal chega à cidade e aos lugares que lhe serão comuns, George depara-se com a bela Angela Vickers (Elizabeth Taylor), a mesma do Cadillac branco. Um olhar rápido cruza o destino de ambos, mas a jovem, sempre de passagem, corre antes que se conheçam.
George conquista a simpatia do tio, que o emprega em sua fábrica em uma função modesta, empilhador de trajes de banho. O empresário aconselha ao sobrinho a agir como um Eastman, não se envolvendo com nenhuma das mulheres da fábrica. O conselho surge como um presságio. Naquele instante já os olhos sonhadores da funcionária Alice Tripp (Shelley Winters) não resistem ao fascínio do novo funcionário.
George é inteligente, determinado e ambicioso, aos poucos, vai sugerindo ao tio melhorias na produtividade da fábrica, mostrando grande competência. Enquanto sonha com a ascensão, a solidão do jovem atira-o para o convívio com Alice. Será em uma sessão de cinema que ele encontrará a jovem sentada quase que ao seu lado. Ele aproxima-se da jovem, envolvendo-a com o seu carisma. Após o filme, passeiam juntos. Alice conta detalhes da fábrica que serão fundamentais para George poder ter idéias de melhorias. O momento é de solidão de ambas as partes. George está longe de casa, sem amigos, sem o calor da família, a sua referência na cidade é o tio, mas a influência dele mina a afeição mais cristalina. Alice sobrevive do seu emprego humilde, hospedada em um pequeno quarto, sonha com o amor e dias mais suaves. George vê na jovem um sopro leve na sua solidão, Alice vê no rapaz a paixão ardente e o amor eterno. Em um momento de solidão, beijam-se ternamente. O destino de cada um estará, para o bem e para o mal, entrelaçado para sempre.

Início da Saga Rumo ao Sol

Apesar da recomendação do tio, para que não se envolva com as funcionárias da fábrica, a solidão de George é determinante na sua aproximação com Alice. Após o trabalho, tomam juntos uma bebida. Alice fala dos seus medos, do abismo que há entre ambos, ele é um Eastman, ela uma simples operária da fábrica. Mas George, que se vê sozinho e distante do mundo social de Charles Eastman, diz à jovem que só esteve na mansão do tio uma vez. Começa a chover, George leva Alice para casa, molham-se no seu carro conversível.
Silenciosamente, os dois entram no quarto de Alice, alugado de uma ríspida e exigente senhoria, que não lhe permite receber visitas ou ascender a luz a partir de determinadas horas. A magia que naquele momento une os dois jovens, faz com que rompam as mesquinharias humanas, as suas limitações sociais e econômicas. George a toma nos braços, iludidos pelas armadilhas dos sentimentos, dançam na escuridão do quarto, aliviando a solidão diferente de ambos. George só deixa Alice já de manhã, quando o sol rompe todo o romantismo de uma noite de tempestade.
Se a solidão de George é amenizada, também a vida profissional tece a sua teia da sorte. Charles Eastman promove o sobrinho, em conseqüência, convida-o para uma festa em sua casa. George inicia o seu caminho para o infinito, a trajetória rumo ao sucesso, à ascensão, que desde o início, tende a tragá-lo em suas armadilhas.

Entre o Amor de Duas Mulheres

Nos labirintos por um lugar ao sol, George depara-se novamente com Angela, que vem a descobrir, é namorada do primo Earl Eastman (Keefe Brasselle). A identificação dos dois é imediata. Angela é o símbolo da beleza, da mulher que representa a vitória verdadeira do homem diante do amor e da sociedade. Aos poucos, ambos aproximam-se um do outro, dançam juntos, conversam, decifram as linhas tênues dos sentimentos.
A presença de Alice na vida do rapaz torna-se distante, cada dia menor, em paralelo, os sentimentos por Angela explodem, tornando-se o que ele tem de mais sublime. Angela confessa o seu amor, tudo parece perfeito, um idílio na vida de George.
Alice, por sua vez, sente o amor de George esvair-se. Sofre com a distância, com o abandono. Se para o amado o mundo mostra as estrelas, para ela resta apenas as trevas, a avareza de Deus para com o seu destino. A sua solidão é comovente na interpretação irrepreensível de Shelley Winters.
George, por sua vez, nutre pela namorada um carinho, mas a sua vida mudara. Tornara-se um homem promissor, amava uma bela e fascinante mulher e era por ela amado. O menino pobre, filho de uma mãe missionária e extremamente religiosa, desfruta das delícias da alta sociedade americana. Não há nada que lhe impeça de penetrar neste mundo de glamour que se lhe abre. A ilusão de felicidade de George é ameaçada pela atmosfera do filme, que deixa transparecer que uma terrível verdade cairia sobre o protagonista a qualquer instante.
Seria fácil encerrar a sua relação com Alice. Namoros vão e vêm pela vida. Tudo era contornável, exceto a fatalidade de Alice descobrir-se grávida. George ouve a revelação de Alice, feita aos prantos, seu olhar perturbado oscila entre uma frieza superficial e uma angústia profunda. Os sonhos de uma vida melhor e do amor verdadeiro distanciam-se do rapaz, era preciso segurá-los, não se importando com o preço a ser pago. George leva a jovem a um médico, que se recusa a ajudá-lo, o que se percebe implicitamente que a solução esperada por ele era a de um aborto.
George sente-se acossado. Montgomery Clift conduz com maestria as mudanças que ocorrem na personalidade da personagem durante a evolução do filme. Seus olhos falam durante os silêncios de George. Ele ouve no rádio sobre uma série de afogamentos que se tem dado pelo país. O público advinha na intensidade do olhar de Clift os anseios de George, ele não fala, mas todos na platéia percebem, o jovem ambicioso deseja matar Alice.

Filhos da Depressão Econômica Americana

O peso do mundo cai sobre os sonhos de George. Ele tem a certeza do seu amor por Angela, o que lhe faz ter desprezo por Alice. O rapaz isola-se na aflição de ter que renunciar a este amor para assumir as responsabilidades com Alice. É preciso que se tenha em mente a sociedade que se vivia na época e a sua moral vigente. A solução para uma mulher solteira e grávida, era um aborto clandestino ou o casamento, não se admitia uma mãe solteira. Theodore Dreiser situara a narrativa do seu livro na década de 1920, George Stevens, o diretor do filme, ao adaptar o romance para o cinema, transportara a história para o início da década de 1950, mesmo assim, o preconceito era igual ao de trinta anos atrás.
A transposição da história para a década de cinqüenta ajudou na construção do caráter e na compreensão da ambição de George Eastman. Afinal a sociedade americana era sobrevivente das conseqüências do grande colapso da bolsa de valores, em 1929, o país viu a miséria a assolar os seus cidadãos. Ascender socialmente era mais do que manter vivo o sonho americano, era consolidar uma nação de vencedores, varrendo para debaixo do tapete a imensa depressão que soprou por duas décadas, trazendo a fome e a miséria. George Eastman emergira dos escombros, assim como a maior parte da juventude da época, inclusive o ator, Montgomery Clift.
Acossado, George aceita o convite de Angela para que passem juntos a noite de sexta-feira. A amada sente o pesar nos olhos do rapaz, a sua angustia e melancolia latentes. Aos seus olhos, ele parece distante, imerso em um mundo misterioso e sedutor. George declara o seu amor eterno, dizendo que a amara desde o momento que lhe pusera os olhos. Angela revela sentir o mesmo. Por uns instantes, o jovem estranho adormece no seu ombro. A belíssima química dos atores proporciona um dos momentos mais sublimes do filme, em que se acredita que qualquer atitude de George é válida para que não se interrompa tão belo amor. Inclusive o assassínio.

Morte no Lago

Angela convida George para passar um feriado na sua casa do lago. Seria um pretexto para que o rapaz fosse apresentado oficialmente a sua família e o namoro tornar-se consentido. Não havia porque adiar a felicidade de ambos.
Já não havia mais tempo para George solucionar o seu impasse com Alice. Cada vez mais a idéia de levá-la a um passeio no lago torna-se uma obsessão, uma fria solução. Alice torna-se um fardo em sua vida, aquela que lhe impedia de alcançar a felicidade e o amor, tão próximos; era o entrave para ele prosperar e ser um homem influente. Eclode dentro dele a vontade de tirar Alice da sua vida, engendrando dentro de si um plano macabro.
Mas a vida não espera pelos planos, segue o seu curso sem olhar para trás ou para as mentiras. Alice vê no jornal, uma fotografia do amado ao lado de Angela. Encontra-se em segredo com George, exigindo-lhe que se case com ela imediatamente. O rapaz vê-se preso entre dois caminhos, de um lado estava Angela, o sonho, a esperança de uma vida próspera e de glamour, o amor e a paixão, à sua espera para concretizar o romance diante da família; do outro lado estava Alice, a crueza da vida, a obrigação de assumir um filho que viera de um acidente, de uma armadilha. George teria o feriado para decidir qual dos dois caminhos seguir, já não poderia mais sufocar naquela angústia.
Já na casa do lago, com Ângela e todos os seus convidados, George diz à amada que a mãe está doente, que lhe irá fazer uma visita, voltando mais tarde. Mas o seu corpo segue os pensamentos obscuros da sua mente. Encontra-se com Alice, aluga um barco, leva-a para um passeio no lago. Está silencioso, a falar apenas com os olhos.
Durante o passeio no barco, George distancia-se das margens do lago. Alice fala dos seus sentimentos, enquanto os olhos de George estão envoltos em pensamentos cada vez mais voltados para a solução dos seus problemas. Uma das cenas mais marcantes do filme, não há palavras nos lábios da personagem, mas os olhos de Montgomery Clift revelam as intenções de homicídio, cortando o seu silêncio implícito. Uma estrela cadente cai. George faz um pedido, que não nos é revelado, mas Alice deduz qual teria sido o pedido. Exaltada, acusa o rapaz de desejar à estrela a sua morte. George parece arrependido de ter pedido a morte da namorada, como se mudasse de idéia no último instante. Mas Alice discute com ele, acusa-o de todos os pensamentos ruins que teve em relação a ela, balança o barco, que capota, ela cai no lago e morre.
George não atirou Alice do barco. Mas ela não sobreviveu. Deixara que se afogasse? Tentara salvá-la, o breve momento de hesitação foram suficientes para a sua morte? Teria sido calculada esta hesitação? O filme não nos revela esses detalhes, apenas uma certeza, o desejo de George atirara Alice para as profundezas das águas. Se ele não a empurrara com os braços, fizera-o sem piedade com os pensamentos. O momento de tensão em que o barco capota é assinalado por um longo plano, George Stevens usa de trevas na imagem para desfocar o momento. Não vemos o que aconteceu, sabemos apenas que Alice tinha medo de George, que o seu medo foi responsável pelo barco capotar, na ambivalência dos valores, o público tem medo da fúria final de Alice, não dos planos macabros de George. Sem saber dos fatos do momento final, resta ao público fazer o seu próprio julgamento da culpa ou da inocência de George.

A Breve Conquista do Lugar ao Sol

George nada até as margens do lago. Passa por alguns camponeses, que mais tarde o irão identificar. Se não matara Alice com as mãos, não se sentia um assassino. Voltou para os braços da bela Angela. Ironicamente ele ouve de Anthony Vickers (Shepperd Strudwick), pai de Angela, elogios ao seu caráter, à sua honestidade, por tudo isto, concordava que ele namorasse a sua filha. O jovem recebe elogios de todos à sua volta. George vai passear com Angela no lago, o mesmo lago que escondia o seu mais perverso segredo. Ele relaxa e usufrui daqueles instantes de glamour e de ascensão social. Momentos que, assim como vieram, terminariam tão logo o corpo de Alice emergisse com a fúria da vingança, das profundezas do logo que lhe tragara a vida.
Quando o corpo de Alice é encontrado, começam a ser reveladas as verdades da sua morte e as mentiras da sua vida. A senhoria da morta revela à polícia que ela tinha tido um caso amoroso com George Eastman.
As investigações chegam finalmente, ao jovem rapaz. Angela volta para casa com George, quando são surpreendidos por uma unidade policial à espera. Se para a bela jovem há uma grande inquietude e surpresa, para George a verdade era uma só, tinha sido descoberto. Desesperado, ele foge, correndo pela floresta, mas é capturado pela polícia, sendo preso.
O agente de polícia (Raymond Burr), revela o crime de George à família Vickers, como se desmascarasse as ambições do rapaz. Ao saber da verdade, Angela tem um colapso e entra em choque. Também a vida com ela estava ser cruel, fazendo com que deixasse o destino de glamour, para amar um homem misterioso, possivelmente um assassino. Amor que ela jamais negara, não se importando com o desvio concreto do seu destino diante da sociedade em que estava inserida.

O Caminho da Cadeira Elétrica

George é levado a julgamento. Várias testemunhas, dos camponeses que o viram, ao homem que lhe alugara o barco, todos confirmam a sua culpa. Um médico legista afirma que a vítima tinha sido espancada, o que não nos foi revelado em momento algum. O promotor acusa George de mentir e ser um frio assassino. Ele traz o barco para o tribunal, causando um grande mal estar no réu, visivelmente mostrado pela interpretação visceral de Montgomery Clift. Num momento de fúria dramática, o acusador bate com o remo sobre o barco, quebrando-o diante do tribunal, como se revelasse a pancada que Alice sofrera na hora da sua morte.
George é considerado culpado, declarado como assassino de Alice Tripp. É condenado à morte na cadeira elétrica. Para George, não ter protegido Alice quando ela estava a afogar-se bastava para que fosse culpado. Para o público, a sua culpa residia em levar Alice ao trágico passeio, o que poderia ter sido um acidente, tornava-se um assassínio não através dos atos de George, mas dos seus pensamentos.
O amor de Angela por George não era fútil, tanto que ela vem visitá-lo momentos antes da sua execução. Mais uma vez ela declara o seu amor. A beleza etérea do casal fica presa na lembrança do público. George Stevens iria eternizar o beijo entre Montgomery Clift e Elizabeth Taylor com uma lente de seis polegadas, em um grande plano, a lembrar um tiro nos sentimentos, intensificando a paixão sensual existente entre o casal, o que jamais ocorrera entre George e Alice. O encontro entre Elizabeth Taylor e Montgomery Clift, um dos mais bem sucedidos da história do cinema americano, repetir-se-ia por mais duas vezes, em 1956, em “A Árvore da Vida” (Raintree County) e em 1959, em “De Repente, No Último Verão” (Suddenly, Last Summer). Uma grande amizade nascia entre os atores, só sendo interrompida pela morte precoce de Montgomery Clift, em 1966.
A última cena do filme mostra George a ser conduzido para a cadeira elétrica, após despedir-se de Angela. Para ele não importa o que tenha acontecido, não importa o seu fim, o seu amor por Angela era maior do que o seu castigo, era a única verdade que conquistar em vida. O único sentido diante da tragédia iminente. Enquanto caminha para morte, ouve-se os versos bíblicos com citações de Jesus Cristo. George Eastman leva consigo os pecados de uma sociedade hipócrita que representa, leva a ilusão de todos aqueles como ele, pobre e de uma educação moralista, que em conflito com a possibilidade de ter sucesso, leva-o à ruína. George caminha para a morte a sonhar com a bela Angela, com a certeza de que estava condenado desde o início a ser assassinado pela sociedade que o criara.

Ficha Técnica:

Um Lugar ao Sol

Direção: George Stevens
Ano: 1951
País: Estados Unidos
Gênero: Drama
Duração: 122 minutos / preto e branco
Título Original: A Place in the Sun
Roteiro: Harry Brown e Michael Wilson, baseado no livro de Theodore Dreiser
Produção: George Stevens
Música: Franz Waxman
Direção de Fotografia: William C. Mellor
Direção de Arte: Hans Dreier e Walter H. Tyler
Figurino: Edith Head
Edição: William Hornbeck
Efeitos Especiais: Gordon Jennings, Loyal Griggs e Farciot Edouart
Estúdio: Paramount Pictures
Distribuição: Paramount Pictures
Elenco: Montgomery Clift, Elizabeth Taylor, Shelley Winters, Anne Revere, Keefe Brasselle, Fred Clark, Raymond Burr, Herbert Heyes, Shepperd Strudwick, Frieda Inescort, Kathryn Givney, Walter Sande, Ted de Corsia, John Ridgely, Lois Chartrand, Paul Frees, Ken Christy, Charles Dayton, Marilyn Dialon, Al Ferguson, Bess Flowers, Ian Wolfe
Sinopse: George Eastman (Montgomery Clift), um jovem ambicioso do interior da Georgia, vai trabalhar na fábrica do tio rico. Ele acredita que alcançará na fábrica do tio um futuro promissor. Na fábrica ele envolve-se com a funcionária Alice Tripp (Shelley Winters), moça humilde que trabalha na linha de montagem. George é introduzido pelo tio na alta sociedade, onde conhece a bela e aristocrática Angela Vickers (Elizabeth Taylor), por quem se apaixona e é correspondido. Distancia-se de Alice, mas ela está grávida e não aceita a situação com passividade. George chega à conclusão de que Alice poderá frustrar os seus planos de ascensão social e o seu relacionamento com Angela. George tem a idéia de matar Alice.

George Stevens

George Stevens nasceu em Oakland, Estados Unidos, em 18 de dezembro de 1904. Era filho de um casal de atores, portanto pisou muito cedo nos palcos
teatrais. Começou a sua carreira cinematográfica aos 17 anos, quando se empregou como assistente de operador de câmera, daí evoluindo para um dos maiores diretores de Hollywood.
George Stevens teve a sua estréia como diretor em 1930, quando dirigiu em simultâneo os curtas-metragens “The Kickoff” e “Ladies Last”. Em 1933 foi contratado pelos estúdios da RKO, realizando o seu primeiro longa-metragem, “The Cohens and Kellys in Trouble”. Desde então, tornou-se um dos diretores mais bem-sucedidos do cinema, realizando vários clássicos de Hollywood.
Entre os grandes sucessos de Stevens está o clássico “Woman of the Year” (A Mulher do Ano), de 1942, que reuniria pela primeira vez um dos maiores casais de Hollywood, Spencer Tracy e Katharine Hepburn; o inesquecível “A Place in the Sun” (Um Lugar ao Sol), em 1951, grande sucesso que reuniu Elizabeth Taylor e Montgomery Clift, consolidando as suas carreiras, o filme arrebataria seis Oscars e Stevens ganharia o seu primeiro Oscar.
Em 1953, criou o western “Shane” (Os Brutos Também Amam), com Alan Ladd, outro grande sucesso. Em 1956 dirigiu aquele que seria considerado a sua obra-prima, “Giant” (Assim Caminha Humanidade), último filme de James Dean, que atuava ao lado de Rock Hudson e Elizabeth Taylor. O filme rendeu-lhe o segundo Oscar.
O último filme de George Stevens foi “The Only Game in Town”, de 1970. Morreu em Lancaster, em 8 de março de 1975, vitimado por um ataque cardíaco.

Filmografia de George Stevens:

Curta-Metragem

1930 – Ladies Last
1930 – The Kickoff
1931 – Blood na Thunder
1931 – High Gear
1931 – Air-Tight
1931 – Call a Cop
1931 – Mama Loves Papa
1932 – Who, Me?
1932 – The Finishing Touch
1932 – Boys Will Be Boys
1933 – Family Troubles
1933 – Rock-a-Bye Cowboy
1933 – Should Crooners Marry
1933 – Room Mates
1933 – Quiet Please!
1933 – Flirting in the Park
1933 – What Fur
1933 – Grin an Bear It
1933 – A Divorce Courtship
1934 – The Undie-World
1934 – Cracked Shots
1934 – Ocean Swells
1935 – Hunger Pains
1945 – That Justice Be Done

Longa-Metragem

1933 – The Cohens and Kellys in Trouble
1934 – Kentucky Kemels
1934 – Hollywood Party
1934 – Bachelor Bait
1935 – Laddie
1935 – The Nitwites
1935 – Alice Adams (Sonhos Dourados)
1935 – Annie Oakley
1936 – Swing Time (Ritmo Louco)
1937 – Quality Street
1937 – A Damsel in Distress
1938 – Vivacious Lady
1939 – Gunda Din
1940 – Vigil in the Night
1941 – Penny Serenade (Serenata Prateada)
1942 – Woman of the Year (A Primeira Dama)
1942 – The Talk of the Town (E a Vida Continua)
1943 – The More the Merrier (Original Pecado)
1945 – Nazi Concentration Camps
1945 – The Nazi Plan
1948 – I Remember Mama
1951 – A Place in the Sun (Um Lugar ao Sol)
1952 – Something to Live For
1953 – Shane (Os Brutos Também Amam)
1956 – Giant (Assim Caminha a Humanidade)
1959 – The Diary of Anne Frank (O Diário de Anne Frank)
1965 – The Greatest Story Ever Told (A Maior História de Todos os Tempos)
1970 – The Only Game in Town (Quando o Jogo é o Amor)



 
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Terça-feira, 25 de Agosto de 2009

... E TUDO O VENTO LEVOU

 


Há sete décadas começavam as filmagens do mais bem sucedido dos filmes feito pelo cinema, “... E o Vento Levou(Gone With The Wind), monumental obra de um dos mais célebres produtores da época de ouro de Hollywood, David O. Selznick, o fabricante de sonhos. De um esplendor mítico, trazendo uma beleza fotográfica avançada para a época, uma trilha sonora que se tornou parte dos clássicos do cinema, um elenco carismático e interpretações inesquecíveis; “... E o Vento Levou” é o filme que mais tempo demorou a ser exibido na televisão, e um dos poucos que ainda hoje obtém lucro ao ser exibido.
Baseado no romance homônimo da escritora Margaret Mitchell, escrito entre 1926 e 1929, o filme traz a história da saga da voluntariosa Scarlett O’Hara (Vivien Leigh), filha de um rico fazendeiro do sul dos Estados Unidos. Mimada e atrevida, Scarlett vive na fazenda do pai, a sonhar com o amor de Ashley Wilkes (Leslie Howard), que se casa com a doce Melanie Hamilton (Olivia de Havilland). É através desse amor platônico que ela encontra forças para enfrentar uma guerra civil, que leva a família à ruína. Por dez anos Scarlett O’Hara segue a sua paixão, sobrevive à guerra, mente, trai, casa-se três vezes para fugir à miséria. Na trajetória, envolve-se com o cínico Rhett Buttler, homem audaz, único que lhe conhece a verdadeira essência. É nas nuances do casal Scarlett e Buttler que se constrói um dos mais belos romances do cinema, numa arrebatadora história que prende gerações, sem nunca perder a grandiosidade de épico, construindo o maior filme feito pelo cinema americano.
Vivien Leigh vive uma inesquecível Scarlett O’Hara, a força que traz ao falar com os olhos, dá a intensidade perfeita à personagem. Mais de 1400 atrizes foram entrevistadas para viver o papel e cerca de 400 chegaram a fazer a leitura do roteiro. A procura pela atriz que daria rosto e corpo a Scarlett O’Hara ainda não tinha chegado ao fim, e as filmagens foram iniciadas. Sem saber quem seria a protagonista, a primeira cena do filme foi feita, trazia um grande incêndio em Atlanta, com 113 minutos rodados. Para produzir a cena que se tornaria antológica, foi posto fogo em cenários de filmes antigos da MGM (como os da primeira versão de King Kong). O incêndio foi tão intenso, que vizinhos do estúdio pensaram que ele estava pegando fogo, acionando os bombeiros. Assim, no dia 26 de janeiro de 1939, sob um grande incêndio, iniciava-se a saga daquele que seria considerado o mais grandioso de todos os filmes de Hollywood. 70 anos depois, “... E o Vento Levou” nada perdeu do seu glamour épico, muito menos a sua capacidade de conquistar um público que, mesmo diante das quatro horas da duração do filme, não se deixa cansar, fascinando-se com a sua beleza narrativa.

O Rosto de Scarlett O’Hara

Na procura de um rosto para Scarlett O’Hara, mais de 1400 atrizes foram candidatas à intérprete da heroína de Margaret Mitchelll. No meio da intensa disputa pelo papel, Bette Davis deu-se ao luxo de recusá-lo, por não querer contracenar com Errol Flynn, ator que acabou não fazendo parte do elenco. Katharine Hepburn fez de tudo para ganhar o papel, mas David O. Selznick teria comentado ironicamente, que não conseguia ver um homem correndo atrás dela por dez anos. Mesmo achando que a atriz não servia para o papel, Selznick estava inclinado aceitá-la, quando surgiu pelas mãos de Laurence Olivier, a atriz britânica Vivien Leigh, sua mulher na época. Ao fazer o teste, Vivien Leigh conquistou o tão cobiçado papel, apesar de severas críticas contra uma atriz de sotaque britânico a fazer o papel de uma mulher do sul dos Estados Unidos.
No corpo de Vivien Leigh surgiu Scarlett O’Hara, que começa o filme como uma mimada adolescente de 16 anos, filha mais velha de um fazendeiro sulista, plantador de algodão no norte da Georgia. É em Tara, propriedade dos O’Hara, onde Scarlett vive os seus sonhos juvenis. Vive inquieta ao lado dos pais, de duas irmãs e dos fiéis escravos. O pai explica a ela o valor da terra, a força que Tara exerce na vida de quem a lavrou e dela colheu as plantações.
A bela jovem nutre uma paixão platônica por Ashley Wilkes, filho de um fazendeiro vizinho do seu pai. Mas a sua paixão é atravessada pela súbita notícia do casamento do amado com a doce e aristocrática Melanie Hamilton. Durante a festa na casa dos Wilkes, na qual será anunciado o casamento, Scarlett decide declarar-se a Ashley, na esperança de que ele a ame e desista da noiva, para isto espera que todos tirem a sesta, encontrando-se furtivamente com Ashley na biblioteca. Mesmo depois de ouvir a declaração de amor, o rapaz está decidido a casar, diz amá-la como irmã, que ama a noiva Melanie. Irritada, Scarlett joga um vaso sobre Ashley, que a deixa sozinha. É neste momento que um misterioso cavalheiro, Rhett Buttler, visto como um homem de péssima reputação pelas mulheres, revela estar escondido na sala, e que acompanhou a revelação do segredo de Scarlett. Rhett sente-se irremediavelmente atraído por aquela bela e voluntariosa mulher. Começa o jogo de ódio e amor que os irá unir por toda a vida.
No meio de todos os imprevistos, a guerra civil bate às portas dos fazendeiros plantadores de algodão. A festa na casa do Wilkes traz a atmosfera do perigo e da conspiração dos sulistas, que se rebelariam contra o norte.
Menosprezada por Ashley, ironizada por Buttler e falada pelas moças que estão na festa, intempestivamente Scarlett decide, na esperança de atingir o amado e provocar-lhe ciúmes, seduzir Charles Hamilton, irmão de Melanie. Assim, ela rouba o pretende de India Wilkes, irmã de Ashley, aceitando casar-se com ele. Um cavaleiro surge no meio da festa, anunciando que a guerra chegara àquelas bandas. Os homens montam os seus cavalos, com a intenção de alistarem-se e seguirem para o conflito. Melanie e Ashley casam-se no meio do tumultuado momento. O casamento de Scarlett e Charles Hamilton realiza-se minutos antes do jovem partir para a guerra, onde morrerá, deixando uma viúva sem o mínimo apego e que jamais verterá uma lágrima por ele.
As seqüências da jovem e sonhadora Scarlett O’Hara, as cenas da festa na casa dos Wilkes, assim como o grande incêndio da primeira cena gravada, são dirigidas por George Cukor, que se desentenderia com o produtor, afastando-se das filmagens. 4% do filme foi dirigido por Cukor, mas o seu nome não consta nos créditos. Ele ainda dirigiria secretamente as atrizes Vivien Leigh e Olivia de Havilland, que perdidas a certa altura, procurou-o para orientações sobre as suas personagens.

Cenas Épicas de uma Guerra Sangrenta

Com a saída de George Cukor, a realização do filme passou a ser feita por Victor Fleming. Sua direção não agradaria a Vivien Leigh, com quem teve um desgaste, e nem a Olivia de Havilland.
Na precipitação que se casara, Scarlett O’Hara jamais se sentiu como esposa. Um casamento feito alguns minutos antes do marido partir para a guerra ao lado do seu amor, Ashley. Ao voltar da festa, Scarlett percebe que tudo mudara, pois como mulher casada, já não lhe era permitido qualquer diversão. Entediada em Tara, ela consegue convencer a mãe a deixá-la partir para Atlanta, para ajudar a cunhada Melanie. As intenções de Scarlett não são tão nobres, ela aproxima-se da mulher de Ashley com o objetivo de reencontrá-lo, podendo dele ficar mais próxima. Melanie está grávida. Num breve intervalo da guerra, Ashley visita a família em Atlanta, conseguindo a promessa de Scarlett que ela cuidará da mulher até que lhe nasça o filho.
A guerra chega a Atlanta, destruindo a cidade, balas de canhões explodem por todos os lados, inicia-se uma fuga em massa. Quando Scarlett está pronta para a fuga, Melanie entra em trabalho de parto. Presa à promessa que fizera a Ashley, ela fica, mesmo a odiar a cunhada.
A nesta parte do filme, a destruição de Atlanta, que surgem as míticas cenas que dão a dimensão de um grande épico. Desesperada, Scarlett caminha entre milhares de corpos dos sobreviventes da batalha de Gettysburg. Mais de mil figurantes misturam-se com bonecos de cera, dando a dimensão de milhares de mortos e feridos, numa tomada da câmera que acompanha a personagem numa grande viagem aérea, conseguida pela utilização de um guindaste de 43 metros de altura, que rolava por uma rampa de cimento armado. A seqüência pioneira foi desenvolvida por William Cameron Menzies, com efeitos especiais de Jack Cosgrove e Lee Zavits, entre outros.

Amargo Regresso a Tara

Nos tumultuados labirintos da guerra, encontros esporádicos entre Rhett e Scarlett prendem o público, num verdadeiro desafio de amor e ódio que os une. Será o capitão Buttler que retirará Scarlett, Melanie e o filho recém-nascido do meio do furacão das balas de canhões.
Depois de testemunhar os horrores da guerra, Scarlett só quer voltar para Tara, para o recanto da família. Rhett conduz Scarlett para fora de Atlanta, mas no meio do caminho, decide finalmente ir lutar na guerra, ao lado dos confederados. Toma Scarlett nos braços, roubando-lhe um beijo, para que tenha coragem de partir para o conflito, deixando-a sozinha com Melanie no meio da estrada. Scarlett tem medo, grita, chora, amaldiçoa Rhett por deixá-la ali, perdida no meio do caminho.
Enfrentando chuva, frio e os saqueadores das estradas, Scarlett só tem um objetivo, chegar a Tara. Quando finalmente consegue, encontra a fazenda do pai em ruínas, totalmente destruída pela guerra. Não há frutos no pomar, não há suprimentos na dispensa, não há alimentos plantados nos campos, animais nos pastos. Não há mais escravos a servir. Há apenas a miséria da guerra, a fome e a dor da perda. No meio da tragédia, Scarlett descobre que a mãe está morta, o pai ficara perturbado, perdendo a sanidade mental.
Os sonhos de Scarlett O’Hara sucumbem diante da tragédia que se abateu sobre Tara. Faminta, ela sai durante a noite, procurando por algum alimento que tenha restado nas plantações da fazenda. Encontra um único pé de cenoura. Arranca-a da terra e a come. Chora sobre a terra, depois se levanta. É neste momento que uma nova Scarlett nasce, Com o braço erguido, ela jura que jamais voltará a passar fome, que reerguerá Tara, que sobreviverá a todas as diversidades, que tirará daquela terra não só o sustento, como a força que a manterá viva. Uma nova fase da sua saga será contada. Uma nova Scarlett O’Hara surgiu.

Outra Vez Casada, Novamente Viúva

A guerra chega ao fim. Voltam os seus sobreviventes, entre eles Ashley. Scarlett, como filha mais velha dos O’Hara, luta para conseguir reerguer Tara. Para defender a sua terra, fora capaz de tudo, inclusive de matar um saqueador de guerra. É este clima que Ashley encontra ao retornar. Encontra a mulher, Melanie, agradecida a Scarlett por tudo que ela fez. Também Ashley perdera as suas terras. A mulher convence-o a ficar ao lado de Scarlett e ajudá-la a reerguer a fazenda. Com a volta de Ashley, Scarlett declara novamente o seu amor a ele, propondo que fugissem. Mas ele diz que não pode abandonar a mulher e o filho. Scarlett vê na recusa de Ashley apenas uma gratidão a Melanie, não o amor. Pensa que ele pode amá-la, apesar de não o fazer em respeito à mulher. É nesta esperança que mais uma vez, Scarlett conduz a sua vida e a expectativa do amor.
Scarlett descobre que Tara tem uma grande dívida de impostos com a união, que se não saldá-la, perderá as terras. Tenta seduzir Rhett para que lhe empreste o dinheiro, mas ao saber das intenções, o capitão mais uma vez é irônico, mandando-a embora. Scarlett descobre que o noivo da sua irmã Suellen, Frank Kennedy, agora um próspero comerciante, tem o dinheiro que ela precisa. Ela não pensa duas vezes, rouba o noivo à irmã, casando-se com ele e salvando Tara dos impostos.
Scarlett consegue convencer o marido a abrir uma serraria, onde passa a explorar os miseráveis da guerra. Torna-se uma mulher importante e odiada por todos. Para ela trabalham Ashley e o marido. Numa noite, ao voltar para casa, Scarlett é assaltada por dois homens, sendo salva por um antigo escravo do seu pai. Ao reportar os acontecimentos, Ashley e Frank decidem vingar a honra de Scarlett, atacando aqueles que planearam o assalto a ela. Mas Ashley é ferido e Frank morto. Scarlett está viúva novamente.
Sentindo-se culpada pela morte do marido, Scarlett entra em depressão, passando a beber. É assim que Rhett reencontra a mulher pela qual se apaixonara há muitos anos. Encontrando-a frágil, o capitão a beija mais uma vez, propondo-lhe casamento. Scarlett aceita, apesar de confirmar que não o ama. Scarlett casa-se pela terceira vez.

Amor e Ódio Unem Rhett Buttler e Scarlett O’Hara

Uma nova fase de riqueza surge na vida de Scarlett. O marido refaz Tara, deixando-a com o fausto de antes da guerra. Rhett compra uma mansão em Atlanta, para onde se muda com a mulher. O casal tem uma filha, Bonnie Blue Buttler.
Scarlett torna-se uma mulher fútil, fria e distante. Ao nascer a filha, para não perder a beleza do corpo, decide que não mais irá engravidar. Friamente comunica a Rhett que decidiu pela abstinência sexual, pois não deseja ter outro filho dele. Distanciam-se cada vez mais.
Mesmo casada, Scarlett jamais abandonou a ilusão do seu amor por Ashley. Em visita a serraria, ela encontra o amado melancólico. Juntos, eles relembram as suas vidas, antes e depois da guerra. Ashley abraça Scarlett em um tom fraternal, que é visto por sua irmã. Interpretando mal aquele ato, India Wilkes conta a Rhett o que presenciara, despertando-lhe o ciúme, a descrença em um dia conquistar o coração da mulher.
A irmã de Ashley espalha o que viu para todos. O amor de Scarlett por Ashley torna-se público. Todos comentam. Ao saber dos comentários, Scarlett recusa-se a ir ao aniversário de Ashley, temendo que Melanie soubesse dos boatos e a sua reação. Mas Rhett obriga Scarlett a ir à festa e enfrentar a todos. Melanie recebe Scarlett como uma irmã, de braços abertos, escandalizando a todos com a sua atitude.
Ao voltar da festa, Rhett e Scarlett discutem, brigam, num ato de fúria, ele a beija, leva-a a força para o quarto. Na manhã seguinte Scarlett acorda feliz, depois daquela noite de amor, ela começa a ver o marido com outros olhos. Mas Rhett diz à mulher que está pensando no divórcio, que viajará para Londres com a filha Bonnie, quando voltar, será para consolidar o divórcio.
Mas a noite de amor entre os dois deixou as suas conseqüências, quando Rhett volta, sabe que a mulher está grávida. Têm uma nova discussão, que termina com Scarlett a rolar pelas escadas, abortando o filho durante a queda. Melanie ajuda Scarlett a recuperar as forças. Entre ela e Rhett a distância é cada vez maior. Uma outra tragédia abate-se sobre o casal, a filha Bonnie cai de um cavalo, quebra o pescoço e perde a vida. O sentimento de culpa do casal leva-os a uma agressão mútua. Mais uma vez Melanie é chamada para intervir, para confortá-los e ajudá-los a superar a tragédia.
Tempos depois Melanie adoece. No leito de morte, as pessoas tentam impedir que Scarlett a visite, por considerá-la indigna da moribunda. Mas Melanie recebe Scarlett, num ultimo suspiro, pede a ela que cuide de Ashley. Ao ouvir o pedido final de Melanie, Rhett, que estava próximo, vai embora, sem que Scarlett perceba. Melanie morre.
Ashley desespera-se, chora a morte da esposa, afirmando o seu amor por ela. Scarlett percebe que ele jamais teve olhos que não fossem para a mulher. Percebe que o seu amor por Ashley fora uma ilusão juvenil, consumida pelo tempo, que não o ama. Ashley está livre, e ela também, livre daquela ilusão. Percebe que o amor que sente é pelo marido, Rhett. Procura por ele, mas não o encontra. Rhett retirara-se silenciosamente do quarto de morte de Melanie. Scarlett precisa dizer ao marido que o ama. Sai correndo desesperada pelas ruas, cobertas por um denso nevoeiro.
Ao chegar em casa, chama por Rhett, tem pressa em declarar o seu amor por ele. Encontra Rhett a arrumar as malas, pronto para partir. Por dez anos correra atrás daquela mulher, estava cansado de mendigar-lhe o amor. Por mais que ela, aos prantos, declare o seu amor, ele está decidido a deixá-la. Já à porta, Scarlett chora, pergunta a Rhett o que vai ser dela, que ficará sozinha. Ouve-se a frase que se perpetuaria pela história do cinema:
Francamente querida, eu não me importo.”
Rhett parte, desaparece no meio de um denso nevoeiro. Scarlett chora. De repente pára, pensa em como trazer o marido de volta, como resposta repete a frase que sempre dissera durante todo o filme, durante toda a sua vida: “Não quero pensar agora, penso amanhã.”
Mas não consegue deixar de pensar. Já não consegue adiar as decisões e o encontro com a sua consciência, com os seus sentimentos, já não pode deixá-los para o outro dia. Deixa-se cair de joelhos nas escadas, a chorar. De repente ouve as vozes dos homens que passaram por sua vida, de Rhett e do pai. Ambos dizem que é em Tara que retira as suas forças. As vozes tornam-se cada vez mais altas, repetem –se várias vezes, um eco ecoa um nome: Tara... Tara... Tara...
Scarlett ergue-se do desespero que o abandono de Rhett lhe deixara. Percebe que Tara é o ponto de partida da sua vida. É lá que ela encontra a sua força. Será para lá que voltará, e será lá que, se reconquistar Rhett, conseguirá fazê-lo. Ela repete em voz alta:
Tara! ... Lar! Irei para o meu lar e pensarei numa forma de tê-lo de volta! Afinal, amanhã é um novo dia!”
Numa última cena, Scarlett aparece debaixo da imensa árvore plantada em Tara, de onde a sua história foi vista, o vento bate sobre as folhas, formando uma grande silhueta daquela que passara por toda a saga da sua história sem jamais se deixar vencer. Num plano com um imenso céu laranja, com as silhuetas negras da árvore e de Scarlett O’Hara, encerra-se o maior de todos os filmes da época de ouro de Hollywood, ou talvez, o maior da sua história.

Os Bastidores das Filmagens

No dia 1 de julho de 1939 foram encerradas as filmagens de “... E o Vento Levou”. No final, o produtor David O. Selznick tinha 28 horas de projeção, com cerca de 60.000 metros de filme.
Diante de tanto material, Selznick trancou-se por vários dias com o montador Hal C. Kern e o seu assistente James Newcom. A montagem foi feita sem que nenhum dos cinco diretores (Victor Fleming, George Cukor, Sam Wood, William Cameron Menzies e Sidney Franklin), fosse consultado. Feita a montagem final, Selznick chamou Vivien Leigh de volta aos sets e filmaram a cena que Scarlett, abandonada por Rhett durante a fuga de Atlanta, esconde-se com a carroça debaixo de uma ponte, durante uma tempestade, enquanto uma tropa de nortistas passava sobre a mesma.
Estava concluído o filme que se tornou símbolo do glamour do cinema na sua época de ouro. Vários foram os que o dirigiram. Primeiro foi George Cukor, responsável por 4% do filme, principalmente pelo início. Victor Fleming substituiu Cukor, dirigindo 45% de “... E o vento Levou”. A sua direção foi contestada pelas atrizes Vivien Leigh e Olivia de Havilland, que passaram a ensaiar em sigilo na casa de Cukor. Diante dos aborrecimentos com as atrizes e da pressão das reclamações de Selznick, Fleming teve um colapso nervoso, sendo substituído por Sam Wood, que assumiu a direção em 1 de maio de 1939, dirigindo 15% do filme. Fleming recuperou-se, quando voltou, Wood continuou na direção, ambos em horários diferentes das filmagens. Também dirigiram “... E o Vento Levou”, William Cameron Menzies e Sidney Franklin. Somente o nome de Fleming foi creditado. Apesar de tantas trocas na direção, o filme, em momento algum, perdeu a coerência, tornado-se um patrimônio do cinema. Graças a uma montagem coesa, estas diferenças de estilos de direção desaparecem ao longo das quatro horas de duração, sem deixar que se torne cansativo.
Os diálogos de “... E o vento Levou” produziram frases célebres e antológicas, disseminadas por todos aqueles que o assistiram. A trilha sonora, composta por Max Steiner, é símbolo de reconhecimento aos ouvidos das mais diferentes gerações que se deixaram seduzir pela saga de Scarlett O’Hara. Finalmente, a fotografia, pioneira na época, traz uma concepção pictórica, traduzida em um fenomenal uso do Technicolor, fazendo do filme um primor técnico que não se desgastou ao longo das décadas.
Nunca uma escolha, diante de centenas de opções, de uma atriz foi tão perfeita quanto à de Vivien Leigh para interpretar Scarlett O’Hara. O olhar de fogo da atriz deu ênfase ao temperamento da personagem, uma mulher mimada, voluntariosa, manipuladora e de uma sedução irresistível. Reza a lenda que a atriz não suportava as cenas de beijos com Clark Gable, culpando um suposto mau hálito do ator. Intrigas a parte, a química dos atores fez do filme uma história apaixonante, mesmo diante de um amor que se distancia cada vez mais das personagens, que quando aumenta de uma das partes, repele a outra, criando um jogo de impossibilidades diante dos sentimentos. A atriz recebeu vinte e cinco mil dólares pela atuação no filme, em contrapartida com os cento e vinte mil dólares recebidos por Clark Gable. Mesmo diante da diferença salarial, Vivien Leigh viveu a mais fascinante das mulheres do cinema, ganhando o Oscar de melhor atriz por esta excepcional atuação.
Além do Oscar de melhor atriz, o filme arrebatou mais nove estatuetas: melhor filme, melhor diretor (Victor Fleming), melhor atriz coadjuvante (Hattie McDaniel), melhor direção de arte, melhor edição, melhor fotografia, melhor roteiro, Oscar honorário para William Cameron Menzies e Oscar técnico para Don Musgrave. Além dos prêmios, recebeu outras cinco indicações, entre elas a de melhor ator (Clark Gable) e melhor atriz coadjuvante (Olívia de Havilland). Hattie McDaniel foi a primeira atriz negra a receber um Oscar, ironicamente ela não pôde comparecer à estréia do filme em Atlanta, justamente por ser negra. “... E o Vento Levou” foi o primeiro filme colorido a receber um Oscar.
À época, a produção de “... E o Vento Levou” custou mais de cinco milhões de dólares, tendo alcançado quatro anos depois do seu lançamento, uma bilheteria de mais de trinta e dois milhões de dólares. Continua a ser o filme que ainda gera lucros em suas exibições pelo mundo.
Outros filmes foram lançados como continuação de “...E o Vento Levou”, mas passaram despercebidos diante da sua mediocridade e ante a grandiosidade do original. Acadêmico, repleto de mensagens de racismo, duração quilométrica, nada disso ofuscou o carisma do filme, a sua beleza épica, tão pouco diminuiu a força telúrica das suas personagens. O filme é o mais pleno retrato de uma Hollywood repleta de glamour, e é principalmente, a face iluminada de um fabricante de sonhos, o genial produtor David O. Selznick.

Ficha Técnica:

... E Tudo o Vento Levou

Direção: Victor Fleming
Ano: 1939
País: Estados Unidos
Gênero: Drama
Duração: 241 minutos / cor
Título Original: Gone With The Wind
Roteiro: Sidney Howard, baseado no livro de Margaret Mitchell
Produção: David O. Selznick
Música: Max Steiner
Direção de Fotografia: Ernest Haller e Ray Rennahan
Desenho de Produção: William Cameron Menzies
Direção de Arte: Lyle R. Wheeler
Figurino: Walter Plunkett
Edição: Hal C. Kern
Estúdio: Selznick International Pictures
Distribuição: MGM
Elenco: Clark Gable, Vivien Leigh, Leslie Howard, Olivia de Havilland, Hattie McDaniel, Thomas Mitchell, Barbara O’Neil, Evelyn Keys, Ann Rutherford, George Reeves, Fred Crane, Butterfly McQueen, Victor Jory, Everett Brown, Howard C. Hickman, Alicia Rhett, Rand Brooks, Carrol Nye
Sinopse: Uma reunião social acontece numa grande plantação na Georgia, Tara, cujo dono é Gerald O'Hara (Thomas Mitchell), um imigrante irlandês. Na mansão está Scarlett (Vivien Leigh), sua bela e teimosa filha adolescente. Scarlett ama obsessivamente Ashley (Leslie Howard), o primogênito do patriarca de Twelve Oaks. Ashley está comprometido com Melanie Hamilton (Olívia de Havilland). Scarlett acha a vida em Tara monótona, mas seu pai diz que Tara é uma herança inestimável, pois só a terra é um bem que dura para sempre. Ela revela um inapropriado comportamento nas festas, apesar das objeções de Mammy (Hattie McDowell), sua protetora escrava. Em Twelve Oaks Scarlett é o centro das atenções, em razão dos vários pretendentes que lhe ladeiam. Mais tarde Scarlett ouve os cavalheiros discutindo acaloradamente sobre a guerra eminente que acontecerá entre o norte e o sul, crendo que derrotarão em meses os ianques. Só Rhett Buttler (Clark Gable), um aventureiro que tem o hábito de ser franco, não concorda com estas declarações movidas mais pelo orgulho do que pela lógica. Um jovem, Charles Hamilton (Rand Brooks), sentindo-se insultado, tenta desafiar Rhett para um duelo, mas ele se esquiva. Scarlett procura Ashley, declarando-se a ele. Ashley diz que ama Melanie, entretanto admite que ama Scarlett fraternalmente. Ela fica irritada, esbofeteando-o. Ashley deixa a biblioteca. Ela lança um vaso contra a lareira e descobre que atrás de um sofá estava Rhett. Quando Scarlett lhe diz que não é um cavalheiro, Rhett retruca dizendo que ela não é uma dama. Rhett fica atraído pela beleza de Scarlett. Em Twelve Oaks chega um cavaleiro, para dizer que a guerra começou. Charles vai dizer a Scarlett que a guerra foi declarada, com todos os homens indo se alistar. Enquanto via Ashley se despedir de Melanie, Scarlett ouve Charles lhe pedir em casamento. Movida pela mágoa, ela aceita e diz que quer casar antes que ele parta. Melanie e Ashley casam-se num dia e Scarlett e Charles no outro. O que Scarlett desconhecia é que o futuro lhe reservava dias muito mais amargos, pois durante a Guerra Civil Americana, várias fortunas e famílias seriam destruídas.
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Quinta-feira, 30 de Julho de 2009

ADEUS, MENINOS

 

 

Há momentos da história que a força bruta, a crueldade opressiva, o preconceito e a insensatez dos homens vingam sobre a humanidade, gerando guerras sangrentas e de efeitos irreversíveis. Adeus, Meninos (Au Revoir les Enfants), escrito, produzido e dirigido por Louis Malle, é um filme que com sensibilidade expressiva, mostra um desses momentos negros da história, a Segunda Guerra Mundial.
Filme de 1987, Adeus, Meninos é o retrato de uma França ocupada pelos nazistas, dividida entre os que resistiam à ocupação e os que a aceitavam passivamente, até colaborando com os invasores, delatando e denunciando vizinhos, amigos e patriotas.
No meio do preconceito gerado pela insanidade nazista, esteve a perseguição e o extermínio ao povo judeu. O filme de Louis Malle traz uma história delineada em fatos reais, vividos pelo diretor aos 12 anos, quando ele estudava em um colégio carmelita perto de Fontainebleau. Traz a Segunda Guerra Mundial como pano de fundo, mas o cenário é um colégio católico, internato de crianças ricas francesas. A amizade de Julien Quentin (Gaspard Manesse) e Jean Bonnet (Raphael Fejto), o primeiro, um menino cristão de família rica, o segundo um menino judeu refugiado no colégio para fugir à perseguição nazista, comove pela sua ingenuidade juvenil, sincera diante de tempos de preconceito e obscuridade. O perigo é iminente, mas a amizade de ambos suaviza o fantasma devastador da guerra. Mesmo diante da tragédia que se instalará a qualquer momento, há tempo para a descoberta da amizade, da adolescência que assim como os nazistas, está à porta, da intelectualidade da vida, das diferenças culturais e, principalmente, do grande amor fraterno que une as pessoas em momentos de penúria e perigo. Mesmo diante de uma temática com um fim pungente, Louis Malle constrói uma história forte e lírica, com uma sensibilidade ímpar e delicada, sem em momento algum se prostrar diante do melodrama, sem recorrer ao sentimentalismo óbvio, fazendo do filme um dos melhores da década de 1980, e um dos melhores do cinema francês de todos os tempos.

Amizade Nascida à Sombra da Guerra

No inverno francês de 1943-44, a França está completamente ocupada pelas tropas de Hitler, sendo os seus habitantes submetidos ao poder nazista, sofrendo grandes dificuldades por conta dessa ocupação. A Segunda Guerra Mundial está em sua plenitude. É neste cenário histórico movido pela guerra que nos surge Julien Quentin, menino de 12 anos, filho de uma rica família do norte da França. Após as festas natalinas em casa, ele retorna ao colégio interno católico de St. Jean-de-la-Croix, lugar que considera tedioso, de uma rotina asfixiante, onde a maioria dos colegas lhe tem animosidade, pois Julien leva os seus estudos a sério, recebendo elogios dos professores. Oitenta meninos estudam no colégio, numa época de inverno, enfrentam não só o frio rigoroso, mas os bombardeios, a opressão dos nazistas, a falta de abundância de comida, até mesmo o mercado negro que controla os produtos essenciais.
Julien sente a falta de casa. Suas aulas parecem sem novidades até o padre Jean (Philippe Morier-Genoud), o diretor, aceitar três novos alunos. Entre os novos está Jean Bonnet, da mesma idade e turma que Julien.
O entediado Julien fica intrigado com Bonnet, por sua introspecção e assim como ele, também marginalizado pelo resto da classe. Se a princípio os dois não se dão bem, com o tempo eles se aproximam, criando um ínfimo vínculo próximo da amizade.
Estreitados laços entre dos dois meninos, uma noite Julien descobre que Bonnet usa um solidéu e faz uma oração em hebraico. A revelação é simples, Bonnet é judeu, ele e vários outros meninos do colégio são acolhidos pelos padres para protegê-los da perseguição dos nazistas, evitando que sejam enviados como prisioneiros para os campos de concentração. A descoberta de Julien não o afasta de Bonnet, não influencia a amizade de ambos, pelo contrário, a sensação do perigo envolvendo o segredo, une-os ainda mais.

O Católico e o Judeu em Tempos da Ocupação Nazista

Feita a revelação do segredo de Bonnet, são delineados o motivo e as personagens do filme. Julien é católico, filho de uma tradicional família francesa, dono de uma excepcional força de personalidade e carisma, que emprestará ao solitário companheiro. Bonnet é judeu, a condição diante da guerra acentua-lhe a inteligência e a disciplina como vertentes de sobrevivência, é apaixonado por livros, por onde tenta decifrar o mundo dos adultos. Bonnet está no colégio com nome falso e foragido, vivendo no limiar de uma situação de pânico
Se Julien vive a saudade da família, que viu recentemente no natal, quando esteve em casa, com Bonnet não acontece o mesmo. O pequeno judeu está sozinho, perdera a direção da família, levada pelos nazistas, não sabe do paradeiro dos entes queridos, mas a platéia que assiste ao filme desconfia, pois sabe da existência dos campos de concentração da história.
Na força que traz a amizade de Julien, Bonnet vence a solidão, voltando a ser ele mesmo, resgatando sonhos juvenis, de uma infância que se esvai diante de uma adolescência que se desponta. A inocência infantil dilacerada pela crueza da guerra, é devolvida diante da amizade dos dois. Por alguns instantes, em meio a um tempo asfixiante, tornam-se dois meninos normais, sonhadores, donos de uma beleza de personalidades ímpares, longe do cenário da guerra.
A história cresce diante da visão de dois jovens, nas sensações que vivenciam, na metamorfose da criança para o adolescente. Juntos, Julien e Bonnet visitam, às escondidas, a sala de música; lêem secretamente o livro “Arabian Nights”, procuram com afinco um tesouro nas matas aos arredores do colégio.
Louis Malle relata com rara beleza a amizade profunda de Julien e Bonnet, sem esquecer em momento algum a época de medo que se vive, repleta de angústias e incertezas. Não nos deixa distrair que se vive em um mundo transformado pela guerra, dos efeitos devastadores que ela trouxe para as pessoas que faziam parte daquele tempo. Esta sensação é captada pelo expectador, que sente as tensões humanas vividas pelas personagens, traduzidas pelas sombras da adolescência e da guerra, aqui indivisíveis. Malle não relata um filme de guerra, mostra-nos uma história de amizade passada durante a guerra e o preço que se paga diante dela.

O Adeus aos Companheiros

A amizade entre Julien e Bonnet é breve, mas intensa, definitiva, como todos os grandes acontecimentos que envolvem a infância. É esta infância perdida em todos nós, que acentua tão bem o filme, que faz dele uma comovente e nostálgica ode à amizade, que será interrompida bruscamente, mediante a denúncia de um rancoroso empregado do colégio à Gestapo, revelando-lhes que ali havia a presença de crianças judias.
A partir daí o desfecho é inevitável, quase uma tragédia anunciada. Se a crueldade da guerra e os efeitos de uma nação ocupada são apenas sugeridos, a partir da denúncia, elas tornam-se paradoxalmente mais onipresentes do que se Malle trouxesse imagens explícitas.
Julian e Bonnet serão cruelmente afastados, quando soldados nazistas invadem o colégio, prendendo Bonnet, dois alunos judeus e o padre Jean, diretor responsável pelo internato. Neste momento dramático final, quase que se respira a tragédia, que é captada com extrema delicadeza por Malle através dos olhares e silêncios repletos de significados. Trejeitos arrancados dos atores revelam a indignação sugerida, a opressão sem limites, e, finalmente, a perda da inocência. Julien, ao ver o seu amigo ser levado pelos nazistas, já não é a criança inocente de outrora, entra definitivamente na adolescência. Bonnet, ao lançar um olhar de despedida para Julien, é definitivamente arrastado pela guerra, a caminho de uma morte que não se vê, mas que bem é sabido, aconteceu a milhares de judeus. É o momento silencioso de Bonnet dizer adeus.
No pátio, as crianças estão alinhadas, ao ver o padre Jean e os três meninos conduzidos pelos nazistas, começam a gritar: “Au revoir, seg. Pére (adeus, senhor padre)”, ao que ele responde: “Au revoir les enfants. A bientôt!”. Revela-se o eufemismo do título. Numa narrativa final, um Julien mais velho, conta que jamais se esqueceu daquele dia, que das três crianças enviadas para os campos de concentração, nenhuma sobreviveu, assim como padre Jean. Encerra-se uma obra-prima do cinema, e como diriam alguns críticos, de um grande humanista.

Um Filme Humanista

Adeus, Meninos é um dos mais belos filmes de todos os tempos. Louis Malle viveu esta história aos 12 anos, levou 43 anos para conseguir contá-la diante dos ecrãs do cinema. Com grande sensibilidade, a sua memória não se esqueceu em momento algum de reproduzir os encantos da infância e as amizades nela feita, mesmo diante de situações de hostilidade política e opressão ideológica.
O filme é um encontro da própria França com a sua história, um acerto de contas de uma nação que ocupada pelos nazistas de 1940 a 1944, teve grande parte da sua população a colaborar com os invasores, perseguindo e delatando muitos que fizeram parte da resistência. O próprio cinema francês, vê no filme de Malle uma análise de consciência do seu povo, numa época dúbia do comportamento de muitos patriotas que, em nome da sobrevivência, perderam a identidade de uma nação e renderam-se aos invasores, muitos por medo, outros tantos por simpatia ao regime de Hitler.
A beleza do filme de Louis Malle está em um roteiro bem estruturado, numa esmerada e natural direção de fotografia de Renato Berta, numa direção afiada e competente, além de um excelente elenco, que trouxeram interpretações simples e contidas, mas encantadoras. É o filme de estréia no cinema da bela Irène Jacob, então com 21 anos, que se tornaria a musa de Krzysztof Kieslowski.
Adeus, Meninos concorreu e ganhou vários prêmios por todo o mundo, entre eles: o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 1987; concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro, perdendo para o não menos belo “A Festa de Babette”; ao Globo de Ouro, também como melhor filme de língua estrangeira; arrebatou sete Prêmios César, na França, entre eles o de melhor filme e o de melhor diretor.
Merecidamente galardoado com vários prêmios, é um dos mais belos filmes de todos os tempos, conseguindo ser poético ante a um ambiente inóspito de guerra. Sua atmosfera nostálgica vai além do lirismo que se emana, fazendo-o grandioso, sem ser uma grande produção. Um filme humanista.

Ficha Técnica:

Adeus, Meninos

Direção: Louis Malle
Ano: 1987
País: França, Alemanha Ocidental
Gênero: Drama
Duração: 103 minutos / cor
Título Original: Au Revoir les Enfants
Roteiro: Louis Malle
Produção: Louis Malle
Música: Franz Schubert e Camille Saint-Saens
Direção de Fotografia: Renato Berta
Desenho de Produção: Willy Holt
Direção de Arte: Willy Holt
Figurino: Corinne Jorry
Edição: Emmanuelle Castro
Estúdio: Stella Films / MK2 Productions / NEF Filmproduktion / Nouvelles Éditions de Films
Distribuição: Orion Classics
Elenco: Gaspard Manesse, Raphael Fejto, Francine Racette, Stanislas Carré de Malberg, Philippe Morier-Genoud, François Berléand, François Négret, Peter Fitz, Pascal Rivet, Benoît Henriet, Richard Lebouef, Xavier Legrand, Irène Jacob
Sinopse: França, inverno de 1944. Julien Quentin (Gaspard Manesse) é um garoto de 12 anos que freqüenta o colégio St. Jean-de-la-Croix, que enfrenta grandes dificuldades devido a Segunda Guerra Mundial. Lá ele se torna o melhor amigo de Jean Bonnet (Raphael Fejto), um introvertido colega de classe que Julien posteriormente descobre ser judeu. A tragédia chega à escola quando a Gestapo invade o local, prendendo Jean, outros dois alunos e ainda o padre responsável pelo colégio.

Louis Malle

Louis Malle, francês, grande diretor de cinema, nasceu em Thumeries, a 30 de outubro de 1932. Formou-se em Ciências Políticas, na Sorbonne, mas foi no cinema que se revelaria para a França e para o mundo. No início da carreira foi assistente de Robert Bresson e de Jacques Cousteau, com quem dirigiu o documentário O Mundo do Silêncio, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, em 1956.
Por possuir um estilo diferente da geração de cineastas de seu país que formavam a nouvelle vague, Malle conviveu à margem, sendo rejeitado por Claude Chabrol, Jean-Luc Godard, Eric Rohmer e Françoise Truffaut.
Louis Malle dirigiu trinta longas-metragens, construindo uma carreira cinematográfica sólida, retratando filmes com temas polêmicos, críticos aos valores burgueses do século XX. Conseguiu emoldurar as angústias sociais humanas geradas por um século dividido entre guerras e revoluções de costumes. Nos seus filmes encontramos temas como o suicídio (Trinta Anos Esta Noite, 1963), a liberação feminina (Os Amantes, 1958), o incesto (O Sopro no Coração, 1971) e a pedofilia (Menina Bonita, 1978). Suas obras sofreram cortes da censura, algumas causaram constrangimentos os seus compatriotas, como Lacombe Lucien.
Louis Malle foi um dos poucos diretores franceses bem sucedidos em Hollywood. Foi casado com a atriz Candice Bergen. Morreu em Beverly Hills, EUA, em 23 de novembro de 1995, vítima de um câncer.

Filmografia de Louis Malle:

1953 – Crazeologie
1954 – Station 307
1956 – Le Monde du Silence (O Mundo do Silêncio) - Co-Direção com Jacques Cousteau
1958 – Ascenseur pour l’Échafaud (Ascensor para o Cadafalso)
1958 – Les Amants (Os Amantes)
1960 – Zazie dans le Mètro (Zazie no Metro)
1962 – Vie Privée (Vida Privada)
1962 – Vive le Tour
1963 – Le Feu Follet (Trinta Anos Esta Noite)
1964 – Bons Baisers de Bangkok (TV)
1965 – Viva Maria!
1967 – Le Voleur (O Ladrão Aventureiro)
1968 – Histoires Extraordinaires
1969 – L’Inde Fantôme
1969 – Calcutta
1971 – Le Souffle au Coeur (O Sopro do Coração)
1974 – Place de la République
1974 – Humain, Trop Humain
1974 – Lacombe Lucien
1975 – Black Moon (Lua Negra)
1976 – Close Up
1977 – Dominique Sanda ou Le Revê Éveillé (TV)
1978 – Pretty Baby (Menina Bonita)
1980 – Atlantic City
1981 – My Dinner with André (Meu Jantar com André)
1984 – Crackers
1985 – Alamo Bay (A Baía do Ódio)
1986 – God’s Country (TV)
1986 – And the Pursuit of Happiness (TV)
1987 – Au Revoir, les Enfants (Adeus, Meninos)
1990 – Milou en Mai (Loucuras de Primavera)
1992 – Damage (Perdas e Danos)
1994 – Vanya on 42nd Street (Tio Vânia em Nova York)
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Terça-feira, 26 de Maio de 2009

MONTGOMERY CLIFT, ERRÁTICO E TALENTOSO

 

 

Desde que o cinema foi inventado, luz, imagem e vindo mais tarde, o som, tornaram-se elementos de sedução e paixão que fez sonhar multidões de platéias. O ator deixava os palcos para despontar o seu rosto e interpretação em uma grande tela. Carreiras cinematográficas tornaram-se ícones de um estrelato de atores que se fizeram deuses. Muitas dessas carreiras sublimemente confundiram-se com a vida dos seus ídolos, às vezes essa vida tornava-se maior do que a própria carreira. Uma das maiores lendas do cinema norte-americano, Montgomery Clift, foi um dos atores que a vida pessoal e a carreira travaram lutas muitas vezes diluídas nas angústias da existência. Se a vida privada e trágica de Marilyn Monroe foi maior do que os papéis que ela viveu na grande tela, a de Montgomery Clift desenhou-se na dimensão etérea, e muitas vezes, perdeu para o talento insuperável de um homem errático.
De uma angústia latente, um carisma enigmático, uma tristeza realçada por uma beleza rara, Montgomery Clift passou a vida a tentar equilibrar-se diante dos caminhos por estradas sinuosas que percorreu. O ator pertenceu à geração que revelou Marlon Brando, James Dean e Rock Hudson. Além de uma carreira de sucesso, ele tinha em comum com os três atores citados a homossexualidade que, ao contrário dos outros, ele jamais negou ou tentou lutar contra. Na época exigia-se que um astro de cinema escondesse a sua condição sexual através de um casamento, Clift preferiu ignorar a regra, vivendo a sua essência sem trair a si próprio. Esta condição, uma saúde debilitada, o vício pelo álcool e pelos barbitúricos, fizeram de Montgomery Clift um homem frágil, que despertava nas pessoas um sedutor sentimento de querer protegê-lo, por vê-lo tão vulnerável diante da vida. Esta vulnerabilidade transbordava por todas as personagens que o ator viveu tão bem, transformando-o em um dos maiores atores que o cinema norte-americano, ainda em sua fase criativa, já revelou. Rever os filmes de Montgomery Clift é sempre uma agradável descoberta, um convite ao sublime, ao belo e ao trágico, como foi a vida deste ator desaparecido ao 45 anos.

Primeiros Sucessos na Brodway

Edward Montgomery Clift, nasceu em Omaha, Nebraska, no dia 17 de outubro de 1920. Gêmeo de uma irmã, Roberta, nasceu no seio de uma rica e tradicional família estadunidense. O pai, William Brooks Clift, era um banqueiro e investidor da bolsa, que retrata bem a chamada “Geração Perdida” ou “Geração do Jazz”, período tão bem descrito nas obras de F. Scott Fitzgerald, que se encerra com o colapso das bolsas e instituições financeiras em 1929, originando uma grande depressão econômica. Até então, o pequeno Monty, a mãe e os irmãos, viveram uma vida de faustas viagens à Europa, muitas vezes ao lado de preceptores. Mas a fartura chegaria ao fim em 1929, quando falidos, a família é obrigada a mudar de cidade e reduzir drasticamente o nível de vida.
Montgomery Clift moldou uma personalidade rebelde, muitas vezes vividas nas esquinas que transitava. Aos treze anos descobriu a sua aptidão para ator, estreando-se na Brodway com a peça “Fly Away Home”. Mostrou-se tão bem sucedido, que a mãe, Ethel Fogg Clift, incentivou-o a abraçar os palcos e a tornar-se ator. Iniciava-se uma das mais magníficas carreiras do século XX. Aos 17 anos, ele ganha o estatuto de grande estrela da Brodway ao protagonizar “Dame Nature”. O sucesso nos palcos continuaria por longos anos, com peças como “There Shall be No Night”, “The Mother” e “Trincheira na Sala”.
Mas a saúde do ator mostrou-se frágil muito cedo. Em 1939, de férias no México, ao lado dos amigos, o compositor Lehman Engel e o ator John Garfield, foi obrigado a interromper a viagem quando acometido de disenteria amébico, doença que seria a responsável por sua dispensa do exército, considerado incapacitado, e que voltaria a incomodá-lo por toda a sua vida, evoluindo para uma colite ulcerosa.

Indicado ao Oscar na Estréia no Cinema

Dono de uma beleza etérea e de um grande talento, logo o ator atraiu os diretores e produtores de cinema, ávidos por revelar novos astros. Montgomery Clift foi convidado para fazer vários filmes, mas declinou a todos os convites por não ver nenhum papel interessante. Continuaria a dizer não ao cinema durante anos. Quando o ator decidiu negociar com os grandes de Hollywood, começou pela MGM, mas fez exigências que não foram atendidas e ele abandonou os estúdios. Foi imediatamente contratado pela United Artists, em 1948, para contracenar com John Wayne em um dos maiores westerns de todos os tempos “Rio Vermelho” (Red River), de Howard Hawks. Ainda naquele ano, o ator faria “Perdidos na Tormenta” (The Search), dirigido por Fred Zinnemann, que lhe valeria a primeira indicação para o Oscar de melhor ator e uma grande popularidade diante de platéias do mundo inteiro. O sucesso imediato valeu-lhe a capa da famosa revista “Life”, que em suas páginas mostrava-o como integrante de uma nova safra de grandes atores. Estava iniciada uma brilhante carreira cinematográfica.
Montgomery Clift passou a ser um dos homens mais assediado e desejado pelas mulheres, fato que lhe constrangia. A fama não o transformou no estereótipo do astro de Hollywood de então. Não adquiriu grandes mansões em Beverly Hills, preferindo os bairros de Nova York, não era um homem receptivo à idolatria e aos cortejos da fama, assim como não se rendeu às extravagâncias da moda ou dos hábitos de quem começava a aparecer constantemente nas revistas e nos jornais, ilustrando as páginas da fama.
Rígido em suas escolhas de personagens, o ator sofreria reveses por isto, como a que aconteceu em 1950, quando assinou contrato para fazer o filme “Crepúsculo dos Deuses” (Sunset Boulevard), de Billy Wilder, e faltando duas semanas para o início das filmagens, rescindiu o contrato, sendo substituído por William Holden no papel de Joe Gillis. O filme foi um dos maiores sucessos do cinema, constituindo uma perda para a carreira do ator.

Composição de Personagens Inesquecíveis

Após recusar fazer o filme de Billy Wilder, Montgomery Clift faria em 1951, “Um Lugar ao Sol” (A Place in the Sun), de George Stevens. O filme constitui uma das mais soberbas interpretações do ator, valendo-lhe nova indicação ao Oscar como melhor ator. Contracenando com Elizabeth Taylor, iniciar-se-ia uma longa amizade entre os atores, com vínculos que só seriam interrompidos com a morte prematura de Clift. A intensidade angustiante que empresta à personagem, faz com que o público esqueça da sua condição de assassino e queira apenas protegê-lo dos males do mundo. Será assim para sempre, os olhos intensos e atormentados de Clift darão esta sensação de desproteção diante da vida, como se não fosse resistir às suas armadilhas. A química entre Elizabeth Taylor e Montgomery Clift cria cenas antológicas de amor que mudariam a linguagem dos casais da grande tela. Os dois ainda voltariam a fazer mais dois filmes juntos.
Após “Um Lugar ao Sol”, Montgomery Clift ficaria afastado do cinema por algum tempo. Voltaria em 1953 com três filmes, sob a direção de três grandes diretores: “A Tortura do Silêncio” (I Confess), dirigido por Alfred Hitchcock; “Quando a Mulher Erra” (Indiscretion of an American Wife), de Vittorio de Sica, que seria o primeiro filme de baixa bilheteria do ator; e o clássico e inesquecível “A Um Passo da Eternidade” (From Here to Eternity).
O filme “A Um Passo da Eternidade” tornou-se uma das mais belas incursões do cinema à temática da Segunda Guerra Mundial. Repleto de fatos pitorescos e obscuros, os bastidores da película tiveram, entre tantas curiosidades, a oposição de Harry Cohn, poderoso executivo da Columbia à época das filmagens, ao nome de Montgomery Clift para o papel de Robert E. Lee Prewitt. O ator só ganhou o papel graças à intervenção do diretor Fred Zinnemann, que ameaçou abandonar o projeto caso não tivesse Clift no papel. O filme, composto por grandes estrelas como Burt Lancaster, Deborah Kerr e Frank Sinatra, traz o ápice da interpretação do ator para o cinema, que lhe valeu outra indicação para o Oscar de melhor ator. O consenso de que Clift levaria o prêmio era tão grande, que foi com surpresa e decepção que todos assistiram William Holden conquistar a estatueta pelo desempenho em “Inferno 17”. Culpa-se a aversão de Montgomery Clift a render-se ao glamour de Hollywood a não conquista de nenhum Oscar, apesar das várias indicações durante o percurso da sua carreira no cinema.
A solidão inacessível de um soldado, que vê a sensibilidade fugir diante das imposições de um universo cruelmente feroz, que se recusa a voltar a ser boxeador para preservar-se diante da crueza do mundo, às vésperas das bombas japonesas que se iriam chover sobre Pearl Harbor, abatendo-o de vez. É esta personagem fascinante que toma o rosto e a voz de Montgomery Clift. Assim como a personagem, também o ator seria arrebatado pela crueza de um mundo no qual ele sempre lutou para sobreviver, jamais para percebê-lo ou integrá-lo como um todo.
Depois das filmagens, Montgomery Clift construiu uma amizade com Frank Sinatra, que arrebataria o Oscar de melhor ator coadjuvante, e com James Jones, autor do livro do qual inspirara o filme. Segundo relatos, muitas foram as noites que os três saíram para beber juntos.

O Acidente

Depois de “A Um Passo da Eternidade”, o ator desapareceria das telas de cinema por um longo período. Neste período, apega-se cada vez mais ao consumo de álcool e ansiolíticos, tentando aliviar uma personalidade frágil e cada vez mais depressiva, que se refletiria no trabalho, isolando-o em um comportamento pouco social, obsessivo e cada vez mais solitário. Esta tendência iria piorar quando sofreria um terrível acidente que quase lhe custaria a vida.
Em 1956 Clift aceitou fazer o filme “A Árvore da Vida” (Raintree County), de Edward Dmytryk, sem sequer ler o roteiro, só pelo fato de saber que iria contracenar com a amiga Elizabeth Taylor. Seria uma volta às telas após três anos de ausência.
As filmagens corriam tranqüilas, já iam adiantadas quando Elizabeth Taylor decidiu dar uma festa em sua casa. Clift entrega-se à bebida e, após cansar-se da festa, saiu completamente embriagado, tentando em vão, dirigir o seu automóvel. Sem condições, o ator bateu violentamente o carro em um poste telefônico a poucos metros de distância da casa da amiga. Ao ser informada do acidente, a atriz correu até o local, chegando a tempo de salvar Clift de morrer sufocado pelo próprio sangue e ao tirar dois dentes presos na sua garganta. O resultado do acidente deixou uma profunda mutilação no rosto do ator, que além da falta dos dois dentes, quebrou a mandíbula, o nariz foi esmagado e lacerações faciais o obrigaram a submeter-se a uma cirurgia plástica.
O acidente deixou-o longe das filmagens de “A Árvore da Vida” por oito semanas. Quando se assiste ao filme, percebe-se nitidamente os dois rostos do ator, dantes e depois do acidente. As marcas indeléveis não ficaram gravadas apenas na face de Montgomery Clift, mas também nos seus hábitos, para fugir às dores, ingeria álcool e pílulas, que o deixou dependente de drogas, estimulantes e barbitúricos. A partir de então, a colite, a dependência química e as seqüelas do acidente, contribuíram para que a sua saúde começasse a deteriorar-se gradativamente.
Mesmo diante dos problemas e atrasos nas filmagens que a tragédia do acidente provocara, o diretor Edward Dmytryk, declararia que Clift tinha sido o ator mais criativo com o qual ele já trabalhara, e voltaria a dirigi-lo em 1958, em “Os Deuses Vencidos” (The Young Lion).

A Agonia Existencial do Ator

Após o acidente, a dependência química afetaria a cada dia o comportamento do ator, que o faria ser considerado uma pessoa difícil, avesso às badalações, mas vítima da sua própria inconstância emotiva. Este período foi maldosamente visto em Hollywood como o mais longo suicídio de um homem. Cada dia mais errático, em pouco tempo nenhum produtor queria contratá-lo. Montgomery Clift fugiu dos holofotes da fama, mas bateu de frente com os escândalos de si próprio, quando era visto bêbado e perdido, a correr nu pelas ruas e pelos corredores de alguns hotéis.
Cada vez mais isolado dos estúdios de cinema, por influência da eterna amiga Elizabeth Taylor, Clift foi convidado para fazer ao seu lado, em 1959, “De Repente, No Último Verão” (Suddenly, Last Summer), de Joseph L. Mankiewicz, uma versão cinematográfica da peça de Tennesse Williams. Os atrasos constantes às filmagens irritaram o diretor, que por várias vezes quis demitir o ator, só não o fazendo por imposição de Elizabeth Taylor. O sucesso do filme valeu todos os dissabores das filmagens.
Em 1960, Elia Kazan convidou Clift para protagonizar, ao lado da bela Lee Remick, o filme “Rio Violento” (Wild River). A atriz declararia mais tarde sobre Montgomery Clift: “Sua falta de auto-estima era muito comovente, muito comovente, muito triste... Havia um elemento de tristeza nele o tempo todo”.
Em 1960 John Huston reuniu Montgomery Clift, Marilyn Monroe e Clark Gable, naquele que seria o último filme dos dois últimos atores, “Os Desajustados” (The Misfits). A instabilidade emocional de Clift e Marilyn Monroe fez com que as suas cenas fossem refeitas várias vezes, causando atrasos nas filmagens. A atriz comentaria que na vida só Clift estava pior do que ela. Clark Gable morreria dias depois de encerrar as filmagens.
John Huston voltaria a dirigir Clift a interpretar o famoso pai da psicanálise, Sigmund Freud, no filme “Freud – Além da Alma” (Freud). O filme levou John Huston, Montgomery Clift e a Universal aos tribunais, por causa dos constantes atrasos nas filmagens que causaram grande prejuízo aos estúdios. Diante dos tribunais, tentaram culpar somente o ator, tentando que ele alegasse os problemas com a sua saúde ser a causa dos atrasos, recebendo assim, a indenização da cobertura do seguro. Clift recusou-se, alegando que os atrasos tinham sido responsabilidade de todos. Teve o salário cortado e gerou uma crise com os produtores. O ator ganharia a causa em 1963, mas os danos foram irreversíveis para a sua carreira, que ficou prejudicada diante dos produtores que se recusavam a chamá-lo para novos trabalhos. Durante o processo, ficou exposto a sua vida particular, o seu comportamento e a sua dependência diante do álcool, o que causou uma grande publicidade negativa à sua carreira.
Mesmo isolado, o ator faria uma participação brilhante no filme “O Julgamento em Nuremberg” (Judgment at Nuremberg), de Stanley Kramer. Sua participação era inferior a dez minutos, mas tão marcante, que lhe valeu a quarta indicação para o Oscar, desta vez como melhor ator coadjuvante.

Uma Morte Anunciada

Cada vez mais tido como praticante de um suicídio lento, o envolvimento do ator com o álcool e com os barbitúricos levou-o a uma depressão que o afastou das telas por outros longos anos. Em 1966 Elizabeth Taylor convenceu John Huston a chamar Clift para protagonizar ao seu lado, o filme “O Pecado de Todos Nós” (Reflections in a Golden Eye). Como a atriz estava presa às filmagens de um outro filme na Europa, há um atraso no início das filmagens, e a fatalidade impediria que Clift viesse a atuar ao lado da sua maior companheira em cena e na vida.
Enquanto esperava por Elizabeth Taylor, Montgomery Clift fez “Talvez Seja Melhor Assim” (The Defector), de Raoul Lévy. Este seria o seu último filme, pois morreria dias após a conclusão das filmagens.
No dia 22 de julho de 1966, Montgomery Clift recolheu-se à sua casa, em Nova York. Silencioso e solitário, assim o ator viveu o seu último dia de vida. À noite, o amigo e secretário pessoal, Lorenzo James foi ao seu quarto para desejar boa noite e dizer que a televisão passaria “Os Desajustados”, perguntando se ele queria ver, ao que o ator respondeu: “Absolutamente não!”. Foram as últimas palavras em vida dirigidas pelo ator a alguém. Na manhã seguinte, dia 23, Lorenzo James encontraria Clift nu e de costas sobre a cama, trazia os óculos e os punhos cerrados, sem vida. Uma autópsia ao corpo do ator revelou que a sua morte prematura, a poucos meses de completar 46 anos, não se devia a qualquer ato de suicídio, mas a uma doença arterial coronária, que o levou a um ataque cardíaco, provocando-lhe uma morte súbita.
Montgomery Clift faz parte daqueles homens que tentam sobreviver à sensibilidade fatal de si mesmo. De uma beleza bíblica, olhar de uma solidão latente e de uma tristeza intransponível, ele sobrevive da enorme empatia que tem com a arte, fazendo dela o refúgio e o talento magnificente. Sua vida confunde-se com as tragédias que viveu no cinema, onde a morte quase sempre vem precedida de um sonho e determinação. Clift teve as mais belas mulheres aos seus pés, e numa época que o ídolo de cinema tem que ser perfeito no seu glamour efêmero, ele prefere não se render ao óbvio, trilhando os caminhos mais difíceis e vivendo os meandros da essência da sua verdadeira sexualidade. Mesmo assim, Clift declara que o seu maior sonho é trazer para casa uma mulher como esposa e ter muitos filhos. A realidade entre o sonho e as suas verdades faz com que a sua sensibilidade seja constantemente agredida. A embriaguez da alma, regada a álcool e a barbitúricos, impulsiona-o a saltar em um precipício de calma momentânea, sem que se importe com os efeitos da queda.
Gêmeo de uma irmã, Montgomery Clift não nasceu sozinho, mas assim viveu a vida inteira, mesmo ladeado por uma legião de fãs, de gente que o amava e desejava. Errático na forma de caminhar, punia-se por se sentir culpado e envergonhado diante de seu comportamento com o álcool e da forma que conduzia a verdadeira face da sua sexualidade. Se a sua morte foi lenta, anunciada, a sua obra é eterna, cristalizada em um sublime momento do tempo. Dilacerado por uma sensibilidade comovente, Montgomery Clift morreu assim como viveu, sozinho e nu diante da vida e dos sentimentos.

FILMOGRAFIA E PEÇAS DE TEATRO

Filmes:

1948 – Red River (Rio Vermelho)
1948 – The Search (Perdidos na Tormenta)
1949 – The Heiress (Tarde Demais)
1950 – The Big Lift (Ilusão Perdida)
1951 – A Place in the Sun (Um Lugar ao Sol)
1953 – I Confess (A Tortura do Silêncio)
1953 – Indiscretion of an American Wife (Quando a Mulher Erra)
1953 – From Here to Eternity (A Um Passo da Eternidade)
1957 – Raintree County (A Árvore da Vida)
1958 – Lonleyhearts
1958 – The Young Lions (Os Deuses Vencidos)
1959 – Suddenly, Last Summer (De Repente, no Último Verão)
1960 – Wild River (Rio Violento)
1961 – Judgment at Nuremberg (O Julgamento de Nuremberg)
1961 – The Misfits (Os Desajustados)
1962 – Freud (Freud – Além da Arma)
1966 – The Defector (Talvez Seja Melhor Assim)

Teatro:

1934 – Fly Away Home
1935 – Jubilee
1938 – Your Ibedient Husband
1938 – Eye on the Sparrow
1938 – The Wind and the Rain
1938 – Dame Nature
1939 – The Mother
1940 – There Shall be No Night
1942 – Mexican Mural
1942 – The Skin of Our Teeth
1944 – The Searching Wind
1945 – Foxhole in the Parlor
1945 – You Touched Me!
1954 – The Seagull

CRONOLOGIA

1920 – Nasce, no dia 17 de outubro, em Omaha, Nebraska, Edward Montgomery Clift, gêmeo de Roberta Clift.
1929 – Colapso na bolsa leva William Brooks Clift, pai de Montgomery, à falência.
1934 – A família muda-se para Sharon, Massachusetts. Estréia aos 13 anos, na Brodway em “Fly Away Home”.
1938 – Ao fazer “Dame Nature”, torna-se, aos 17 anos, grande astro da Brodway.
1939 – É vitimado por uma doença, disenteria amébico, que o perseguiria para o resto da vida, evoluindo para colite crônica. Por este motivo, é dado como incapaz para servir o exército.
1948 – Estréia no cinema, ao lado de John Wayne, no filme “Rio Vermelho”, de Howard Hawks. Faz o filme “Perdidos na Tormenta”, de Fred Zinnemann, que lhe valeria uma indicação para o Oscar de melhor ator.
1950 – Rescinde contrato e desiste de fazer “Crepúsculo dos Deuses”, sendo substituído por William Holden.
1951 – Protagoniza “Um Lugar ao Sol”, de George Stevens, ao lado de Elizabeth Taylor, com quem inicia uma longa e comovente amizade, que o acompanharia até a sua morte. É indicado para o Oscar de melhor ator.
1953 – Trabalha com o mestre Alfred Hitchcock no filme “A Tortura do Silêncio”. É dirigido por Vittorio de Sica no filme “Quando a Mulher Erra”. Volta a trabalhar com Fred Zinnemann no mítico “A Um Passo da Eternidade”. É indicado para o Oscar de melhor ator por esta atuação.
1954 – Volta aos palcos com “The Seagull”.
1956 – Após alguns anos de afastamento, volta a filmar “A Árvore da Vida”, ao lado de Elizabeth Taylor. Durante as gravações sofre um grave acidente, ao dirigir bêbedo um automóvel. Tem parte do rosto desfigurado, sendo obrigado a uma cirurgia corretiva para reconstrução do mesmo.
1959 – Volta a contracenar com Elizabeth Taylor, no filme “De Repente, no Último Verão”, filme de Joseph L. Mankiewicz, inspirado na peça de Tennesse Williams. No elenco a presença luxuosa da atriz Katharine Hepburn.
1960 – Protagoniza “Rio Violento”, de Elia Kazan, ao lado de Lee Remick. Faz “Os Desajustados”, filme que iria estrear em 1961, ao lado de Clark Gable e Marilyn Monroe, que se tornaria o último filme destes atores.
1961 – Faz uma participação especial no filme “O Julgamento de Nuremberg”, de Stanley Kramer, que lhe valeria a quarta indicação para o Oscar.
1962 – Protagoniza o tumultuado “Freud – Além da Alma”, de John Huston, que terminaria com grandes atrasos nas filmagens e em tribunal.
1966 – Convidado para fazer o filme “O Pecado de Todos Nós”, de John Huston, ao lado de Elizabeth Taylor. Enquanto aguardava a volta da atriz, que estava filmando na Europa, para iniciar as filmagens, fez o último filme da sua vida, “Talvez Seja Melhor Assim”. Morre a 23 de julho, pouco depois de encerrar as filmagens, vítima de uma doença arterial da coronária, que lhe causou parada cardíaca e morte súbita. Da sua vida, a frase pronunciada por ele, definiu a sua visão de ser ator: “Olha, eu não sou esquisito. Só estou a tentar ser um ator, não um ator de cinema, mas um ator.”
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Quarta-feira, 15 de Abril de 2009

O CARTEIRO DE PABLO NERUDA

 

 

O cinema italiano de tempos em tempos, brinda o mundo com obras de linguagens lírica e emocionante, que transcendem tão singular estilo na sétima arte. O Carteiro e o Poeta (Brasil) ou O Carteiro de Pablo Neruda (Portugal), é um desses momentos mágicos vindos das lentes itálicas, que funde a imagem e as palavras em um poema lúdico, fazendo dele um filme de ode às metáforas. Baseado no romance do escritor chileno Antonio Skármeta, “Ardiente Paciencia”, o filme de Michael Radford transformou a personagem Mario Jimenéz, um chileno de 17 anos, em Mario Ruoppolo, um italiano de pouco mais de trinta anos.
O sucesso do filme foi imediato, emocionando as platéias de todo o mundo. Concorreu a cinco indicações do Oscar, entre elas a de melhor ator, melhor filme e melhor diretor. Ganharia apenas uma estatueta, a de melhor trilha sonora.
Ao transportar a personagem chilena para uma ilha no sul da Itália, o filme assume uma ruptura genial com o livro em que foi baseado, assumindo uma identidade itálica transposta no rosto e nos gestos do ator Massimo Troisi. A conjunção Mario Ruoppolo-Massimo Troisi desenha uma das mais belas criações do cinema universal, revelada em uma fina tela de emoções refletidas nos olhos do ator. Se o filme é um momento de beleza que encanta, para o ator Massimo Troisi é um momento definitivo. Através da personagem, Troisi tem a maior e derradeira interpretação da sua carreira, perseverantemente lutou contra a saúde debilitada durante as gravações, vindo a falecer pouco depois de concluí-las. Personagem e ator fundem-se na vida e na morte, não sabemos onde um encerra e o outro prossegue. Troisi sabia que aquele era o momento de acertos entre a vida e a arte, ludicamente despede-se das duas, deixando impregnado a imagem do carteiro de um dos maiores poetas do século XX. Il Postino, no título original, é um momento raro de encontro entre a palavra e a imagem, na metáfora mais perfeita entre Mario Ruoppolo e Massimo Troisi, registrando um dos mais belos filmes já feitos pelo cinema italiano.

Surge o Carteiro de Neruda

O cenário é a Itália do pós-guerra, sobrevivente do fascismo e da humilhação de ter feito parte do eixo que apoiou o nazismo alemão. Empobrecida, esta Itália vê como saída a migração dos seus filhos para a América. O filme abre as suas lentes para aquele lugar pobre e esquecido pelo progresso, mas belo nas entrâncias do mar e de ilha paradisíaca no meio do nada. Emerge dali Mario Ruoppolo, um homem inquieto e retraído em uma existência demarcada pelas limitações e sobrevivência do local que vive. Lugar atrasado, onde o principal meio de sustento é ser pescador, Mario sofre com a incapacidade de cumprir este destino. De saúde frágil, não tem jeito para a pesca, sendo visto pelos outros como preguiçoso e inadaptado.
Em um mundo de homens rudes e sem cultura, a sensibilidade de Mario está escondida numa poesia que ele desconhece dentro de si mesmo, mas que pressente diante de um mar de pescadores. Mario é um dos poucos do lugar que sabe ler, e é este pouco saber que o faz diferente. Vive uma vida modesta e sem atrativos, quando o marasmo é interrompido por um acontecimento súbito, a chegada do poeta Pablo Neruda (Philippe Noiret), que por motivos políticos é obrigado a exilar-se naquela ilha. A chegada de Neruda à ilha é anunciada através do jornal do cinema, único meio de comunicação de tão inóspito lugar ao progresso. O diferencial de Mario Ruoppolo diante dos outros habitantes do vilarejo vale a ele um emprego singular, ser carteiro do poeta exilado. Sendo um homem erudito e conhecido em todo mundo, Neruda recebe uma grande quantidade de cartas. Como a casa onde está exilado é distante, isolada no alto de um morro, é preciso destinar alguém só para lá ir entregar tão numerosa correspondência. O pouco que Mario sabe ler e o fato de ter uma bicicleta, habilita-o para o cargo. É contratado como carteiro de Pablo Neruda.

Um Sentido de Vida Verdadeiro para Mario

Se a vida parecia perdida para Mario, ela começa a recuperar o verdadeiro sentido do que lhe estava destinado, quando ele tem o primeiro contacto com Neruda. Mario tem fome do saber, das palavras e da poesia. Neruda está longe do seu universo, dos seus seguidores e admiradores. O encontro é perfeito. Se Neruda está exilado do seu cotidiano e da sua vida, Mario está à procura de uma ruptura, de uma mudança que lhe satisfaça a existência miúda diante da miséria e mesquinhez da existência humana.
Mario dentro da sua simplicidade de vida, é um homem de alma complexa, obstinada e sempre pronta a aprender. Não se limita a ser um simples carteiro particular do poeta das mulheres. Aprofunda-se nos recursos escassos que tem, como olhar no mapa e aprender onde estava o Chile, terra natal de Neruda. Honesto, de personalidade inteligente, sensibilidade aguçada e emotiva, Mario trava um diálogo com Neruda, que simples ao começo, torna-se amplo. O carteiro sabe aproveitar todos os conhecimentos que lhe traz Neruda. Anota-os, estuda-os, aprende-os. Sua alma é fértil diante dos conhecimentos, todo o saber que nela é plantado germina, avança e evoluí para a erudição de uma existência persistente e honesta, demarcada pelas feições que traz no rosto e nos gestos.
A admiração de Mario por Neruda é real, profunda, é a razão da sua existência, até ali banal e desencontrada. Enquanto o chefe do correio chama Neruda de poeta do povo”, para o carteiro ele é o “poeta do amor”. Diante do espelho ele ensaia como deverá pedir que o poeta lhe autografe um livro, diante de Neruda pede simples e espontâneo. O contraste da alma aprendiz de Mario salta em paradoxo com o corpo do homem que montado em uma bicicleta, apresenta-se todos os dias bucolicamente ao poeta.
Mario vai além das suas limitações. Aprende com a poesia de Neruda. Toma-a para si e a declara a bela Beatrice Russo (Maria Grazia Cucinotta). Aqui ele mostra que a poesia só pertence ao poeta até transposta para o papel, depois é de todos os homens que precisam dela para amar e para que se seja amado. Quando questiona ao poeta certos poemas, recebe deste a mais verdadeira das explicações:
Quando explicamos a poesia ela torna-se banal. Melhor do que qualquer explicação é a experiência direta das emoções, que a poesia revela a uma alma predisposta a compreendê-la."
O carteiro aprende os labirintos das metáforas. Ajudado por Neruda, conquista o amor da mais bela mulher do lugar, a sua eterna Beatrice. Sob a benção e o apadrinhado do poeta, casa-se com ela.

Paradoxo Entre a Poesia, os Ideais e a Morte

Após conquistar Beatrice, Mario Ruoppolo descobre que diante dos conhecimentos, a vida torna-se ilimitada às ideologias humanas. Mario já não se restringe às metáforas da poesia ou da linguagem, mas aos meandros da política. A visão da esquerda comunista de Neruda contagia aquele homem simples, que salta para além daquele vilarejo governado por demagogos, que nem água traz ao lugar. Mario torna-se militante sindicalista. Leva consigo o ideal de Neruda, tantas vezes perseguido e dilacerado pela força bruta dos regimes totalitários da guerra fria.
Mas um dia os ventos mudam. Neruda já pode voltar do seu exílio. Antes de deixar a ilha, despede-se de Mario, prometendo mandar notícias, e um dia voltar para uma visita. Pede ao discípulo que lhe mande o que há mais bonito naquela ilha. Neruda parte, deixando para trás um novo Mario, casado com a mulher que ama, consciente dos valores políticos e sociais, muito além do homem simples e perdido que fora até o encontro com o poeta.
O tempo passa e Mario nunca esquece Neruda. Espera sempre por uma carta, uma notícia, uma visita, que nunca chega. Quando questionado pela indiferença do amigo, ele nunca o recrimina, justifica-se, dizendo que Neruda é um homem muito ocupado. Com uma paciência estóica, ele aguarda a volta do poeta. Enquanto espera por notícias de Neruda, Mario, apesar da militância política, jamais perdeu a sensibilidade da poesia, o sentido das metáforas. Decide cumprir a promessa que fizera ao poeta, registrar e enviar o que de mais belo tem na sua ilha. É aqui que surge uma das mais belas cenas do filme. Além da bela Beatrice, para Mario o registro das ondas do mar, o som do vento, tudo isto ele põe em gravador para enviar para Neruda. O poeta do filme já não Pablo Neruda, mas o próprio Mario Ruoppolo, que ao registrar o mar da sua ilha, mostra a palavra de todos os poetas analfabetos do mundo, muito além dos símbolos gráficos e das letras.
Passados muitos anos, um dia Neruda cumpre a promessa que fizera ao carteiro, retornando à ilha para rever o amigo. Neruda entra sorridente no bar que pertencia a Beatrice, procura saudoso pelo amigo. Tarde demais! Paradoxalmente, os conhecimentos e ideais que aprendera com Neruda, levaram Mario à morte. O homem sensível que só queria trazer água corrente para a sua ilha, tinha sido morto durante um comício do Partido Comunista Italiano, em uma grande cidade, que fora violentamente reprimido pela polícia de estado. Beatrice conta para Neruda a longa espera do marido pela sua volta. Entrega-lhe o registro poético das ondas que ele fizera em sua homenagem. Emocionado, Neruda vai ao lugar onde Mario gravara o som das ondas do mar. A poesia condensa-se com a imagem. Realidade e ficção unem-se em uma ode final. Morrera Mario Ruoppolo. Morrera doze horas depois de concluir o filme, Massimo Troisi. Surgem as letras na imensa tela, com a dedicatória “ao nosso amigo Massimo Troisi”.

Ficha Técnica:

O Carteiro e o Poeta

Direção: Michael Radford
Ano: 1994
País: Itália, França e Bélgica
Gênero: Drama, Romance
Duração: 109 minutos / cor
Título Original: Il Postino
Roteiro: Michael Radford, Anna Pavignano, Massimo Troisi, Giacomo Scarpelli e Furio Scarpelli, baseado no livro de Antonio Skármeta
Produção: Mario Cecchi Gori, Vittorio Cecchi, Gori e Gaetano Daniele
Música: Luiz Enríquez Bacalov
Direção de Fotografia: Franco Di Giacomo
Desenho de Produção: Lorenzo Baraldi
Figurino: Gianna Gissi
Edição: Roberto Perpignani
Estúdio: Miramax Films / Blue Dahlia Productions / Cecchi Gori Group Tiger Cinematografica / Esterno Mediterraneo Film / Penta Films, S.L.
Elenco: Massimo Troisi, Philippe Noiret, Maria Grazia Cucinotta, Renato Scarpa, Linda Moretti, Mariano Rigillo, Anna Bonaiuto, Nando Néri, Sergio Solli, Carlo Di Maio, Vicenzo Di Sauro, Orazio Stracuzzi, Alfredo Cozzolino
Sinopse: Por razões políticas o poeta Pablo Neruda (Philippe Noiret) exila-se em uma ilha na Itália. Lá um desempregado (Massimo Troisi) quase analfabeto é contratado como carteiro extra, encarregado de cuidar da correspondência do poeta, e gradativamente entre os dois se forma uma sólida amizade.

Michael Radford

Michael Radford é um diretor de cinema britânico. Filho de pai britânico e mãe austríaca, nasceu em 24 de fevereiro de 1946, em Nova Deli, Índia, quando esta ainda era uma colônia britânica. Radford trabalhou muitos anos para a BBC, fazendo vários documentários para a televisão (1976-1982).
No cinema, o primeiro filme que projetou Radford internacionalmente foi 1984, baseado na obra homônima de George Orwell, filme que seria o último da vida do ator Richard Burton. O filme foi realizado no ano que Orwell indicou no livro, escrito em 1948.
Sem dúvidas, o filme da carreira de Michael Radford é Il Postino, de 1994. Sensível adaptação ao livro de Antonio Skármeta. Um dos momentos mais brilhantes da sua carreira e do cinema europeu, culminando com uma indicação para o Oscar de melhor diretor.
Em 2004 Radford dirigiu o filme O Mercador de Veneza, baseado na obra homônima de William Shakespeare, que trazia um elenco de luxo, com nomes como Al Pacino e Jeremy Irons.

Filmografia de Michael Radford:

1980 – The White Bird Passes (televisão)
1980 – Van Morrison in Ireland
1983 – Another Time, Another Place
1984 – 1984
1988 – White Mischief
1994 – Il Postino
1998 – B. Monkey
2000 – Dancing at the Blue Iguana (Divas do Blue Iguana)
2002 – Tem Minutes Older: The Cello
2004 – The Merchant of Venice (O Mercador de Veneza)
2007 – Flawless (Um Plano Brilhante)
2008 – Mula, La
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Quarta-feira, 18 de Março de 2009

AS PONTES DE MADISON COUNTY

 

 

A cinematografia de Clint Eastwood como diretor de filmes é densa, rica e repleta de surpresas agradáveis. Seus filmes normalmente trazem uma realidade pungente, crua, coberta de paradoxos, onde transitam personagens vulneráveis às fatalidades da vida e à condição social que faz do homem um ser menor diante de uma sociedade de heróis, que quando confrontado com a subversão dos costumes, consegue ser sempre maior do que o sistema onde está inserido. Em “As Pontes de Madison County” (“The Bridges of Madison County”), de 1995, Clint Eastwood deixa o seu universo amargo e de moral intrínseca, para contar, atrás e na frente das câmeras, uma sensível história de amor. Baseado no romance homônimo de Robert James Waller, o filme retrata de forma delicada, o amor na maturidade da vida. É daquelas histórias que, se já não aconteceu a todos que assistem ao filme, pelo menos desperta o desejo e a esperança de que um dia acontecerá. É o amor marcando de forma indelével a vida do ser humano. O amor envolvido pela paixão, que depois de realizado, deixa as suas lembranças para os que sobreviveram a ele.
Clint Eastwood já tinha visitado esta temática antes, em 1973, quando dirigiu o belíssimo filme “Breezy”, com William Holden a viver um homem que se vê surpreendido na maturidade da vida, com a chegada do amor intenso por uma jovem, a inquieta Breezy (Kay Lenz). Entre “Breezy” e “As Pontes de Madison County” passaram-se 22 anos, o que lhe deu uma maturidade e sensibilidade para desta vez, trazer o amor na maturidade do casal principal.
Meryl Streep, ao viver a dona de casa Francesca Johnson, tem o seu melhor papel no cinema na década de 1990, trazendo a performance dramática que nos acostumamos a ver nas personagens míticas que ela viveu na década anterior. Por esta interpretação, a atriz recebeu a sua décima indicação ao Oscar.
As Pontes de Madison County” é essencialmente, o trabalho de dois grandes atores. Clint Eastwood e Meryl Streep emocionam com interpretações definitivas, eles conduzem, através de gestos, olhares, diálogos e emoções à flor da pele, quase toda a trama, não dando espaço para outras personagens. Conseguem arrancar a emoção exata da platéia, transformando o filme em um elogio ao amor e à vida, nem sempre duas coisas conciliáveis.

Um Encontro de Amor na Maturidade da Vida

O casal de filhos de Francesca Johnson (Meryl Streep), volta à casa da mãe para enterrá-la. Após a cerimônia fúnebre, descobrem um baú onde Francesca guardava os seus “detalhes” de vida. Encontram anotações que vão desvendar a eles uma mulher completamente diferente daquela que acostumaram a ver como mãe.
A partir dos pertences e do manuscrito de Francesca, a história começa a ser contada em flashbacks. Somos transportados para uma tarde quente do verão de 1965. Francesca, uma dona de casa do Iowa, despede-se do marido e dos dois filhos, ainda crianças, que partem para uma feira, que duraria todo o fim de semana.
Sozinha em sua fazenda, Francesca é surpreendida pela chegada de Robert Kincaid (Clint Eastwood), um jornalista fotográfico da revista National Geographic, que bate à sua porta à procura de informações sobre o caminho para as pontes de Madison County. Entre ambos surge uma cordialidade, que diante da formalidade, não revela a eles, de imediato, o emaranhado de emoções que a vida lhes reservava. Robert só quer uma informação, Francesca só quer ser hospitaleira como costumam ser as pessoas do campo. Mas a vida quer bem mais para os dois. No meio da sua gentileza de mulher bucólica, Francesca oferece-se para mostrar o caminho a Robert. Ao entrar na caminhonete do fotógrafo, ela embarcará no verdadeiro sentido da sua vida, muito além da maternidade e da simplicidade de uma mulher casada com um homem do comum.
Francesca e Robert já tinham passado dos 50 anos, já tinham uma vida estruturada e presumivelmente definida. O momento das surpresas já se tinha acabado para eles. Sonhos juvenis davam passagem para a segurança da maturidade, tanto financeira, como emocional. Nenhum deles procurava uma aventura.
Francesca acompanhou Robert mais de uma vez às pontes. Assistiu ao seu trabalho atrás das câmeras. Aquele mundo tão diferente do seu despertou-lhe a curiosidade. Surpreendentemente, ela foi descobrindo mais afinidades com o mundo incerto de Robert, do que com a sua bucólica vida sem brilho, ao lado do marido e dos filhos, supostamente feliz.
Aos poucos Francesca interessa-se pelo mundo de Robert, ouve a sua história de andarilho sem raízes, sem amarras. Assim como ela, o fotógrafo já abraçava o crepúsculo das ilusões de juventude, como se a vida fosse linear, e as expectativas pertencessem ao passado. Mas quanto mais são gentis e cordiais um com o outro, uma atração inexplicável vai tomando conta de ambos, trazendo uma atmosfera agradável e um brilho novo no olhar dos dois.
Quanto mais sabe da vida de Robert, mais Francesca recupera a sua. De repente quem fala ao estranho não é a mulher mãe de dois filhos, casada e isolada na sua pacata vida rural; é Francesca italiana, nascida em Bari, que sofrera os preconceitos de ser imigrante. Esta Francesca está além das limitações do seu cotidiano simplório. Ela aos poucos, compartilha com Robert o amor pela beleza e pela aventura. Ela vê através das andanças do fotógrafo pelo mundo, reflexos dos do que imaginara em seus sonhos.
Se no primeiro dia Robert vai dormir na cidade, no segundo Francesca, após ajudá-lo a fotografar as pontes cobertas, especialmente a Ponte Roseman, convida-o para jantar em sua casa. No limiar dos acontecimentos, Robert conhece em um bar da pequena cidade, uma mulher triste, isolada por toda a comunidade. Fica a saber que ninguém lhe dirige a palavra por ter sido adúltera com o marido. Preocupado que as pessoas possam vir a falar o mesmo de Francesca, Robert telefona para ela, disposto a recusar o convite, caso ela assim ache melhor. Francesca conhece a história da mulher. Não se intimida. Confirma o convite. A atração intelectual que ambos sentem um pelo outro já se tornara irresistível, emocional e física. Francesca compra um vestido novo e ousado para jantar com Robert. O Amor parecia chegar, quando a vida parecia terminar as aventuras.

Quatro Dias de Amor

Um dos momentos mais sublimes e delicados do filme, é quando o diretor conduz a nudez tênue dos apaixonados, mostrando a beleza madura dos corpos dos dois atores, sob uma luz suave, de um erotismo romântico, revelando o amor que transcende das personagens, fazendo com que se esqueçam, por uma noite, todas as barreiras da moralidade e do convencional. Do jantar à luz de duas velas à dança de rosto colado, do primeiro toque de Francesca em Robert, quando fala ao telefone com a sua realidade ao momento de ludismo sensual do banho, é desenhada no cinema uma das mais belas histórias de amor, tão arrebatadora quanto à interpretação dos atores.
Após a entrega à felicidade efêmera da paixão, vem o momento em que Francesca volta a ser a mãe, agarrando-se ao medo do fim daquela felicidade, ela transborda a dor do amor que chegou tão tarde e arrebatador, mas que já tem que ir embora. Movida pelo medo da perda, Francesca provoca uma grande discussão. É a dor da separação que já toma conta do seu ser. Pergunta, amargurada, a Robert, se foi mais uma de suas aventuras, ao que ele responde que percorrera todos os caminhos do mundo para um dia estar ali, diante dela. Propõe-lhe que fuja com ele. Mas Francesca sabe que tem dois filhos pequenos e um marido fiel. Diz a Robert que vive dos seus “detalhes” de vida, dos objetos, dos filhos, e que o amor lhe chegara finalmente, mas chegara tarde demais.
Passaram-se apenas quatro dias desde que se conheceram. Mas Francesca conseguira revelar em Robert a sua verdadeira face, escondida na força que o fazia um andarilho solitário, sem nunca enxergar alguém. Também ele revelara em Francesca uma mulher sensual, amante, sonhadora, pronta para viver um grande amor, pronta para ir além da libido apagada pela condição de mãe.
Robert parte. Hospeda-se em um hotel, à espera de Francesca. A família retorna, trazendo os “detalhes” e o cotidiano daquela mulher que ousou a sonhar com o amor e, encontrou-o finalmente. Com o marido de volta, Francesca acompanha-o da fazenda até a cidade. Uma grande tempestade apagava os dias quentes daquele verão. Dentro da caminhonete do marido, Francesca avista Robert. Ele, debaixo da chuva, olha profundamente para Francesca, a esperar que ela parta com ele. Francesca toca na maçaneta do carro do marido, há um momento de tensão, por um instante, ela pensa em sair do carro e correr para os braços de Robert. Não o faz. Robert desaparece entre a chuva. Francesca chora desesperada. O marido nada pergunta. Prefere deixar a mulher envolta em seus segredos. Robert e Francesca jamais se encontrarão outra vez. Teriam a vida inteira para lembrarem dos quatro dias que viveram, ligando-se um ao outro por toda vida.

Cinzas Sobre as Pontes

Francesca renunciou ao amor da sua vida, dedicando-se à família. Mas sua vida jamais foi a mesma. Surpreendentemente, quando Robert partiu, ela procurou a mulher que todos hostilizavam na cidade por causa do adultério, tornando-se para sempre a sua melhor amiga.
Passados os anos, Francesca já velha, torna-se viúva. Acompanhara Robert Kinkaid de longe, através das suas reportagens fotográficas. Um dia recebe em casa uma encomenda de Robert, que morto, deixara-lhe em testamento, as suas máquinas fotográficas, um medalhão que nunca tirou do pescoço, um livro de fotografias intitulado “Quatro Dias”, dedicado a ela. A velha mulher abraça-se àqueles objetos, como se recuperasse um pouco do amor perdido. Nas lágrimas de Francesca (momento sublime da interpretação de Meryl Streep), sente-se que também Robert renunciara a uma vida ao lado de qualquer outra pessoa, para trazê-la definitivamente dentro dele. Francesca chora, abraçada às lembranças e aos seus “detalhes” de vida.
O tempo passou. Também Francesca morreu. Os filhos encontram no baú os objetos de Robert Kinkaid, o vestido que Francesca usara na sua noite de amor e o manuscrito que revelava a sua verdadeira história, a sua verdadeira essência. Francesca explica aos filhos que dedicara a sua vida a eles, que depois de morta, deixasse que ela se presenteasse a Robert. Quer que o seu corpo seja cremado e as suas cinzas sejam jogadas nas pontes de Madison, onde foram jogadas as cinzas do fotógrafo.
Ao descobrir a verdadeira face da mãe, que deixa clara a sua insatisfação diante da vida medíocre que levou no campo, os filhos tomam decisões importantes e corajosas em suas vidas, entre elas, a da filha ter coragem de divorciar-se. Por fim, eles cumprem o último desejo da mãe. Juntos, atiram as cinzas de Francesca de uma das pontes de Madison, a Ponte Roseman. É o momento etéreo que a presença do amor nos faz crer que, um dia aconteceu ou acontecerá na vida de todos nós. Encerra-se esta história de um amor poderoso, que nos afeta em todos os seus detalhes. Mesmo quando este amor vem tão tarde, como veio para Robert e Francesca.

Ficha Técnica:

As Pontes de Madison County

Direção: Clint Eastwood
Ano: 1995
País: Estados Unidos
Gênero: Drama
Duração: 135 minutos / cor
Título Original: The Bridges of Madison County
Roteiro: Richard LaGravanese, baseado no livro de Robert James Waller
Produção: Clint Eastwood e Kathleen Kennedy
Música: Clint Eastwood e Lennie Niehaus
Direção de Fotografia: Jack N. Green
Desenho de Produção: Jeannine Claudia Oppewall
Direção de Arte: Jay Hart
Figurino: Colleen Kelsall
Edição: Joel Cox
Estúdio: Warner Bros. / Amblin Entertainment / Malpaso Productions
Elenco: Clint Eastwood, Meryl Streep, Annie Corley, Victor Slezak, Jim Haynie, Sarah Kathryn Schmitt, Christopher Kroon, Phyllis Lyons, Debra Monk, Richard Lage, Michelle Benes
Sinopse: Após a morte de Francesca Johnson (Meryl Streep), uma proprietária rural do interior do Iowa, seus filhos descobrem, através de cartas que a mãe deixou, do forte envolvimento que ela teve com um fotógrafo (Clint Eastwood) da National Geographic, quando a família se ausentou de casa por quatro dias. Estas revelações fazem os filhos questionarem seus próprios casamentos.

Clint Eastwood

Clint Eastwood nasceu em 31 de maio de 1930, em São Francisco, EUA. É um ator-diretor que galgou por muitos anos, uma imagem de intérprete monossilábico e de poucas expressões faciais, em filmes de western feitos na Itália, ou na pele do inspetor de polícia Harry Callahan, de Dirty Harry. A sua carreira parecia condenada a ser de sucessos fáceis e filmes superficiais de ação e pouca verve dramática, como os filmes de Sylvester Stallone ou Arnold Schwarzenegger. Mas o tempo e o talento provaram o contrário.
Se nos anos sessenta e setenta Clint Eastwood rendeu-se às limitações de uma imagem comprometida com os filmes de ação, já na década de oitenta vieram as transformações e o reconhecimento, tanto como ator, como diretor de cinema, com grandes filmes como “Bird” e “White Hunter Black Heart”.
Mas o respeito e a consagração final vieram na década de noventa. Em 1993 conquistou o Oscar de melhor diretor, com filme Unforgiven (Imperdoável), que também ganhou a estatueta de melhor filme daquele. Neste filme Clint Eastwood voltava a cavalgar em um western, só que desta vez rompia com a imagem dos westerns italianos que participara no início da carreira. Aparecia como um cowboy envelhecido e quase aposentado, rompendo de vez com a imagem de galã inexpressivo. É desta década um outro grande filme dirigido e interpretado por ele: “A Perfect World”. Em 2004 Clint Eastwood teve outro filme de sucesso, que arrebatou 4 Oscars, incluindo o de melhor diretor e o de melhor filme: “Million Dollar Baby
Clint Eastwood costuma ser discreto em sua vida pessoal, apesar de já se ter casado por cinco vezes. Quando jovem chegou a tocar piano em bares, é famoso por apreciar música e ter uma grande paixão pelo jazz. Chegou a compor a música de “As Pontes de Madison County” em parceria com Lennie Niehaus. Seu amor pelo jazz motivou seu filho Kyle, a ser músico de jazz.
Clint Eastwood tornou-se um diretor respeitável, um dos mais conceituados dentro do cinema norte-americano, responsável por grandes filmes de sucessos e de forte dramaticidade.

Filmografia de Clint Eastwood:

Ator:

1955 – Revenge of the Creature (A Revanche do Monstro)
1955 – Francis in the Navy
1955 – Lady Godiva
1955 – Tarantula
1956 – Never Say Goodbye
1956 – Star in the Dust
1956 – Away All Boats (Barcos ao Mar)
1956 – The First Traveling Saleslady
1957 – Escapade in Japan
1958 – Lafayette Escadrille
1958 – Ambush at Cimarron Pass
1959 – Rawhide
1964 – Per Un Pugno di Dollari (Por Um Punhado de Dólares)
1965 – Per Qualche Dollaro in Più (Por Qualquer Dólar a Mais)
1966 – Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo (O Bom, O Mau e o Vilão ou Três Homens em Conflito)
1967 – The Witches
1968 – Hang ‘Em High – (Território Sem Lei)
1968 – Coogan’s Bluff (Meu Nome é Coogan)
1968 – Where Eagles Dare (Desafio das Águas)
1969 – Paint Your Wagon (Os Aventureiros do Ouro)
1970 – Two Mules For Sister Sara (Os Abutres Têm Nome)
1970 – Kelly’s Heroes (Os Guerreiros Pilantras)
1971 – The Beguiled (O Estranho Que Nós Amamos)
1971 – Play Misty For Me (Perversa Paixão)
1971 – Dirty Harry (Perseguidor Implacável)
1972 – Joe Kidd
1973 – High Plains Drifter (O Estranho Sem Nome)
1973 – Magnum Force (Magnum 44)
1974 – Thunderbolt and Lighfoot
1975 – The Eiger Sanction (Escalado Para Morrer)
1976 – The Outlaw Josey Wales (Josey Wales – O Fora da Lei)
1976 – The Enforcer
1977 – The Gauntlet (Rota Suicida)
1978 – Every Which Way But Loose (Doido Para Brigar.. Louco Para Amar)
1979 – Escape From Alcatraz (Alcatraz – Fuga Impossível)
1980 – Bronco Billy
1980 – Any Which Way You Can (Punhos de Aço – Um Lutador de Rua)
1982 – Firefox (Raposa de Fogo)
1982 – Honkytonk Man
1983 – Sudden Impact (Impacto Fulminante)
1984 – Tightrope
1984 – City Heat
1985 – Pale Rider (O Cavaleiro Solitário)
1986 – Heartbreak Ridge (O Destemido Senhor da Guerra)
1988 – The Dead Pool (Dirty Harry na Lista Negra)
1989 – Pink Cadillac (O Cadillac Cor-de-Rosa)
1990 – White Hunter Black Heart (Caçador Branco Coração Negro)
1990 – The Rookie
1992 – Unforgiven (Imperdoável)
1993 – In the Line of Fire (Na Linha de Fogo)
1993 – A Perfect World (Um Mundo Perfeito)
1995 – The Bridges of Madison County (As Pontes de Madison County)
1997 – Absolute Power (Poder Absoluto)
1999 – True Crime (Crime Verdadeiro)
2000 – Space Cowboys (Cowboys do Espaço)
2002 – Blood Work (Dívida de Sangue)
2004 – Million Dollar Baby (Menina de Ouro)
2008 – Gran Torino

Diretor:

1971 – Play Misty For Me (Perversa Paixão)
1973 – High Plains Drifter (O Estranho Sem Nome)
1973 – Breezy
1975 – The Eiger Sanction (Escalado Para Morrer)
1976 – The Outlaw Josey Wales (Josey Wales – O For a da Lei)
1977 – The Gauntlet (Rota Suicida)
1980 – Bronco Billy
1982 – Firefox (Raposa de Fogo)
1982 – Honkytonk Man
1983 – Sudden Impact (Impacto Fulminante)
1985 – Pale Rider (O Cavaleiro Solitário)
1986 – Heartbreak Ridge (O Destemido Senhor da Guerra)
1988 – Bird
1990 – White Hunter Black Heart (Caçador Branco Coração Negro)
1990 – The Rookie
1992 – Unforgiven (Imperdoável)
1993 – A Perfect World (Um Mundo Perfeito)
1995 – The Bridges of Madison County (As Pontes de Madison County)
1997 – Midnight in the Garden of Good and Evil (Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal)
1997 – Absolute Power (Poder Absoluto)
1999 – True Crime (Crime Verdadeiro)
2000 – Space Cowboys (Cowboys do Espaço)
2002 – Blood Work (Dívida de Sangue)
2003 – Mystic River (Sobre Meninos e Lobos)
2004 – Million Dollar Baby (Menina de Ouro)
2006 – Flags of Our Fathers (A Conquista da Honra)
2006 – Letters From Iwo Jima (Cartas de Iwo Jima)
2008 – Changeling
2008 – Gran Torino

 
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Sábado, 27 de Dezembro de 2008

BELEZA AMERICANA

 

 

Ao contrário do cinema europeu, o cinema norte-americano sempre esteve mais preocupado em exaltar a identidade dos EUA, do que compreender a essência dos seus habitantes, em criar heróis admiráveis do que anti-heróis humanos. As poucas vezes que Hollywood traçou um perfil do desajuste dos americanos, foram feitas com maestria, como em “Táxi Driver” (1976), de Martin Scorsese, ou ainda, “Apocalypse Now” (1979), de Francis Ford Copolla. “Beleza Americana” surge como uma ácida e perturbadora crítica à mistificação da “american way of life” como a forma de vida a ser seguida pelo resto do mundo. A desconstrução das personagens atinge a todos os valores tidos como essenciais na sociedade americana: a família, o patriotismo exaltado, a estabilidade econômica, os valores de um país decadente em sua pseudomoral conservadora. Utilizando-se de várias personagens paralelas, todos os valores morais vão sucumbindo, expondo a essência de cada personagem, deixando-a nua das máscaras e à deriva da mesquinhez dos valores seculares. Para conduzir o emaranhado delicado das personagens, foi escolhido o diretor teatral Sam Mendes, um jovem realizador britânico, de origem lusitana, até então um ilustre desconhecido da sétima arte. Com “Beleza Americana”, o cinema americano fechou a década de noventa questionando a sociedade pós Monica Lewinsky e pré World Trade Center, fazendo-o através de um inteligente humor negro, uma dramaticidade à flor da pele, um erotismo latente, de rara beleza estética sensual. O resultado foi um dos melhores filmes da década e de todos os tempos, premiado com cinco Oscars.

Todas as Armas Apontadas Para Lester

Beleza Americana” gira em torno de Lester Burnham, personagem magistralmente vivido por Kevin Spacey. Lester, chega ao 43 anos como um frustrado pai de família, preso a um emprego que odeia, desprezado pela filha adolescente e pela mulher. Na acomodação que vive, Lester encontra mais prazer na masturbação solitária do que em fazer sexo com a mulher, a corretora de imóveis Carolyn (Annette Bening). No marasmo da sua vida, Lester desenvolve um desejo obsessivo pela bela Angela (Mena Suvari), uma ninfeta colega de sua filha Jane (Thora Birch). É esta paixão velada pela adolescente que acende uma chama na vida de Lester. Aos poucos, ele se rebela diante das imposições da vida e da sociedade, na sua rebelião, vai desconstruindo os valores essenciais da sociedade em que vive.
Lester rompe com o emprego medíocre que tem, pedindo demissão, muda a forma de vestir, faz musculação e transforma o corpo desgastado pela idade em atlético, desenvolve uma amizade sustentada pelo ato de fumar haxixe, com o vizinho, o jovem Ricky Fitts (Wes Bentley), ex-dependente químico que lhe fornece as drogas. Quanto mais rompe com a coerência social, mais Lester encontra o equilíbrio e a felicidade, não como um adulto a caminho da meia idade, mas como um adolescente a descobrir o mundo e a beleza que nele existe, mas que a perdemos na construção dos valores que fazem de um cidadão um vencedor diante da opinião pública. Lester descobre os tênues fios da felicidade, mas é tarde para ele. O filme começa e ele já avisa que irá morrer naquele dia.
As mudanças de Lester ferem o mundo de mentiras que há à sua volta. O país que vive é uma mentira, o bairro onde mora é de habitantes infelizes. Ironicamente, dos vizinhos de Lester, somente o casal gay Jim (Scott Bakula) e JB (Sam Robards), têm uma vida normal e familiarmente saudável. Na nova vida de Lester não há espaço para aquele mundo hipócrita. Quanto mais avança em direção de si próprio, mais os que estão à sua volta empunham uma arma, preste a atirar. Todos apontam para Lester, a mulher, a filha e o seu namorado, o vizinho, a sociedade, um deles irá matá-lo. A tragédia americana será consumada, sem beleza alguma. O tiro que mata Lester, atinge o espectador, a sociedade e os seus costumes.

O Mundo Dúbio de Cada Personagem

No mundo de “Beleza Americana” nada é politicamente correto, tudo é aparência. Todos mentem, todos traem, todos amam a hipocrisia. Cada personagem reflete uma máscara que se lhe veste a sociedade americana, feita para amar a América acima de Deus e da família, e para ser um vencedor de uma complexa sociedade convulsivamente moralista. É a era de Bill Clinton, que ao ser felado pelos lábios carnudos de sua estagiária, e ter deixado o sêmen da decadência dos costumes americanos no vestido azul da parceira, quase foi cassado pelo moralismo da política do seu país.
Carolyn, a insatisfeita mulher de Lester, é o exemplo da saga americana, que sonha com sucesso profissional e financeiro. A falta de ambição de Lester mata o seu apetite sexual por ele. É nos braços de Buddy Kane (Peter Gallagher), o rei dos corretores, que Carolyn vai saciar o seu desejo sexual. Não é o corpo de Buddy que atrai Carolyn, mas sim o seu sucesso profissional. Na sua obsessão cega pela vitória profissional, a mulher de Lester encontra um prazer quase que orgástico quando tem aulas de tiro e adquire uma arma. Este prazer é a imagem da sociedade americana, cada vez mais armada.
Angela, a menina-mulher pela qual Lester desenvolve a sua obsessão romântica e sexual, é o símbolo da beleza perfeita, do desejo, da falsa ingenuidade, da provocação. Angela é a adolescente mais desejada pelos colegas da sua escola. Provocante, ela esconde um doce segredo, ao contrário do que se imagina, a bela mulherzinha é virgem.
Jane, a adolescente que se revolta com o mundo, menospreza o pai por sua passividade diante da vida e pelo seu assédio à amiga Angela. Jane concentra todo o seu ódio em Lester, cogita inclusive matar o pai, contratando o jovem Ricky para fazê-lo.
Ricky é um jovem problemático, ex-dependente químico, que vende drogas para a vizinhança. A mãe (Allison Janney) é uma mulher ausente e submissa ao pai, o coronel Frank (Chris Cooper), homem rude, aposentado do exército, orgulhoso das suas medalhas, exemplo vivo do herói americano. Frank é um homem rígido em seus conceitos, trata o filho com mão pesada, numa agressiva tentativa de deixá-lo longe das drogas. É o porta-voz do pensamento do americano mediano, menospreza o casal gay da sua vizinhança, movido por um grande preconceito. Frank, o honrado aposentado do exército americano, traz surpresas de uma personalidade reprimida. Nos enganos da comédia humana, Frank acredita que o filho está a manter um relacionamento homossexual com Lester. O coronel procura Lester não para proteger o filho do que considera a mais abjeta escolha sexual, mas para revelar o seu desejo escondido pelo vizinho. A revelação gera o repúdio de Lester, rejeição que, um homem como Frank, não supera. Está apertado o gatilho que matará Lester.

Cinco Oscars e Três Globos de Ouro

Kevin Spacey consegue dar a Lester todas as nuances da personagem, desde a imagem do pacato e menosprezado pai de família do início do filme, ao obsessivo e lascivo homem que deseja ardentemente a ninfeta amiga da filha. O ator mostra a virada da personagem de uma forma contundente, sem exageros histriônicos, mas longe de ser intimista. Spacey nos traz na sua composição de Lester, a doce lembrança de Jack Lemmon, o ator que mais representou no cinema a imagem do bom americano. O próprio Spacey confessou que se inspirou em Lemmon para interpretar o emblemático personagem de “Beleza Americana”.
A interpretação de Lester Burnham obrigou Kevin Spacey a submeter-se a rigorosos e pesados exercícios físicos, para que tivesse os músculos que exigiam a segunda fase da personagem. Esta transformação física está explicita nas cenas de nudez da personagem, que se mostra a exercitar o corpo. A recompensa de Kevin Spacey veio com o Oscar de melhor ator, dado pela Academia de Hollywood no ano de 2000.
Além do Oscar de melhor ator, “Beleza Americana” arrebatou mais quatro estatuetas: Oscar de melhor filme, Oscar de melhor diretor para Sam Mendes, Oscar de melhor roteiro original e de melhor fotografia.
Além dos 5 Oscars, o filme ganhou três Globos de Ouro para melhor filme, melhor diretor e melhor roteiro original.

Ficha Técnica:

Beleza Americana

Direção: Sam Mendes
Ano: 1999
País: Estados Unidos
Gênero: Comédia, Drama
Duração: 121 minutos / cor
Título Original: American Beauty
Roteiro: Alan Ball
Produção: Bruce Cohen, Dan Jinks, Alan Ball e Stan Wlodkowski
Música: Thomas Newman e Pete Townshend
Direção de Fotografia: Conrad L. Hall
Desenho de Produção: Naomi Shohan
Figurino: Julie Weiss
Edição: Tariq Anwar e Christopher Greenbury
Elenco: Kevin Spacey, Annette Bening, Thora Birch, Wes Bentley, Mena Suvari, Peter Gallagher, Chris Cooper, Allison Janney, Scott Bakula, Sam Robards
Sinopse: Lester Burham (Kevin Spacey) não agüenta mais o emprego e se sente impotente perante sua vida. Casado com Carolyn (Annette Bening) e pai da adolescente Jane (Tora Birch), o melhor momento de seu dia é quando se masturba no chuveiro. Até que conhece Angela Hayes (Mena Suvari), amiga de Jane. Encantado com sua beleza e disposto a dar a volta por cima, Lester pede demissão e começa a reconstruir sua vida, com a ajuda de seu vizinho Ricky (Wes Bentley).

Sam Mendes

Sam Mendes até dirigir “Beleza Americana”, em 1999, era um conhecido encenador de peças teatrais em Londres. A encenação que Sam Mendes fez de “Cabaret”, foi decisiva para que Steven Spielberg e o produtor Bruce Cohen, que viram o espetáculo nos palcos londrinos, decidissem entregar a ele a direção do filme.
Sam Mendes nasceu em Reading, na Inglaterra, em 1 de agosto de 1965. Seus antepassados eram portugueses da Ilha da Madeira, que vieram de Trinidade e Tobago, quando dali expulsos. Atualmente é casado com a atriz Kate Winslet, estrela de "Titanic", com quem tem um filho.

Filmografia de Sam Mendes:

2005 – Jarhead
2002 – Road of Perdition
1999 – American Beauty
1996 – Company (Filme para a televisão)
 
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Terça-feira, 25 de Novembro de 2008

TRÊS CORES: AZUL - BRANCO - VERMELHO


 

Um dos momentos mais sublimes do cinema dos anos noventa e de toda a história do cinema, é a trilogia Três Cores: Azul, Branco e Vermelho, de Krzysztof Kieslowski. A idéia nasceu da vontade do realizador polonês homenagear a França, inspirou-se nas cores da bandeira daquele país e nos princípios da Revolução Francesa: liberdade (Azul), igualdade (Branco) e fraternidade (Vermelho). A partir desta idéia, mergulhamos no cinema intimista, repleto de simbolismos psicológicos e de imagens que é o universo de Kieslowski. Numa belíssima fotografia que joga com as cores retratadas, este universo é o próprio íntimo inatingível de cada personagem. A imagem revela a personalidade que cada um esconde. O acaso é menor do que o destino, que se vai tecendo até o ponto de cada um cumprir o seu, independente de se querer ou não vivê-lo.
Azul” (1993), “Branco” (1994) e “Vermelho” (1994), para além dos enredos particulares a cada um, trazem entre si, um fio condutor. O local onde todas as histórias se entrelaçam é o tribunal, onde uma mesma cena aparece nos três filmes em perspectivas diferentes. Os três filmes desnudam o universo psicológico de Krzysztof Kieslowski, que joga com as sensações, as cores, os objetos, os presságios, tudo trama para que a ação aconteça, os desencontros cessem, e a vida aconteça, independente das escolhas. Na associação da imagem sofisticada das cores com a interpretação de grandes atores e o encontro de personagens densos e humanos, surge um cinema de forte impacto e agradável descoberta, numa cumplicidade incondicional entre o filme e a platéia. Três Cores é a esperança que temos que a vida aconteça, apesar das dores, dos caminhos desembocarem em becos sem saídas, e com Kieslowski ela acontece, repleta de cores e de marcas indeléveis.

Azul 

Azul” gira em torno da personagem Julie, magistralmente interpretado por Juliette Binoche. Julie vê a sua vida aparentemente tranqüila, drasticamente mudada por um acidente de automóvel, onde perde o marido e filha de três anos. Viúva de um célebre músico, que deixara uma obra interrompida, uma música para festejar o ato que concretizaria a unificação européia. Julie empenha-se em completar a obra do marido, e para isto, conta com ajuda de Olivier, para que conclua a música do marido.
É neste percurso que a vida desmascara-se para Julie, derrubando-lhe todas as certezas vividas até então. É com muita dor que lhe é revelado o caso de amor que o marido teve durante anos com uma advogada, que lhe confessa, espera um filho do marido morto.
Perdida em suas descobertas, Julie sente-se órfã de uma mãe viva, que velha e sem memória, internada em uma clínica, confunde-a com a irmã, sem se lembrar dela. Sem a mãe, sem a filha, sem o amor do marido, Julie caminha em universo pungente e solitário. Torna-se amiga da sua vizinha prostituta. Provoca a paixão que Olivier sente por ela para que se sinta amada ou desejada, desemboca na mais profunda dor da existência humana.
Após atravessar todas as perdas e descobertas, Julie vai à casa de Olivier e aceita-lhe o amor oferecido. Desiste de vender a casa que o marido lhe deixara, transferindo-a para a amante do marido e o seu futuro filho, herdeiro legítimo do morto. Julie liberta-se finalmente da dor e da solidão. Na sua travessia, decide finalmente explodir em lágrimas. Depois de chorar, sorri para a câmara. Está livre novamente, pronta para a felicidade.
Juliette Binoche tem aqui uma das melhores interpretações da sua carreira. É o rosto suave e angustiado da atriz que empresta as emoções para Julie. Personagem e atriz assumem uma identidade movida por grandes planos, envolvidas nas cores da película, nos simbolismos inerentes de uma vida. A atriz foi premiada com o Cesar em 1994, na França, e com o Copa Volpi em Veneza.
Azul”, é o mais pungente de toda a trilogia. Ele investe no sofrimento mais recôndito da sua personagem, fazendo-a passar pela dor da perda, da traição, da solidão e pela arte de perdoar, libertar-se da depressão. Azul é denso, como o é a estrada que se cruza a caminho da liberdade.
Azul foi premiado com três Cesars: melhor atriz (Juliette Binoche), melhor edição e melhor som; Prêmio Goya, Espanha, de melhor filme europeu; três prêmios no Festival de Veneza: Prêmio Leão de Ouro (Krzysztof Kieslowski), Prêmio de melhor fotografia e Prêmio Copa Volpi de melhor atriz (Juliette Binoche).

Branco 

Dentro da trilogia, Branco é o mais leve e o mais imperfeito, mas não menos genial do que os outros. Sua verve gira em torno da vingança de uma paixão levada ao extremo. A complexidade das personagens é retratada quase que em tom de comédia, com lapsos dramáticos que dão uma passagem hipnótica para as seqüências de final imprevisível.
O filme começa com a separação em tribunal de um casal, ele um polonês, ela francesa. Logo de início a igualdade entre o casal é contestada. Marido e mulher se acusam em tribunal francês, as acusações da mulher são feitas por ela própria, as do marido são feitas por um interprete. Diante das dificuldades da língua do polaco, o juiz dá vantagem à francesa. Divorciado e com dificuldades de voltar para a sua terra, Karol (o polaco) segue para o seu país, leva consigo uma paixão que o consome. O que poderia ser o retrato de uma louca e atormentada paixão, torna-se o espelho que reflete a desigualdade. A narrativa assume uma forma de comédia satírica, interrompida às vezes, por flashs dramáticos. A paixão do polaco pela mulher, faz com que ele arquitete uma situação de vingança, levando-a à Polônia, envolvendo-a em uma teia que a fará passar pelo mesmo que ele passou na França. Essa trama culmina na prisão da mulher amada. E o princípio da igualdade é alcançado por uma velha lei dos povos semitas da antiguidade: Olho por olho, dente por dente”. Branco não empolga como Azul ou Vermelho, mas fascina pela surpresa do desfecho, o argumento poderia resultar em um filme que facilmente cairia no ridículo, mas que a direção genial de Krzysztof Kieslowski encontra um tom ideal, que transforma o princípio da igualdade em uma odisséia do amor que não pode ser esquecido, trazendo conseqüências que quebram fronteiras, mas não derrubam a burocracia das nações e suas leis de xenofobia. A troca final de gestos e olhares entre as personagens consolida a vingança, mas não derruba o amor, literalmente preso nos labirintos caprichosos da metáfora da igualdade.
Não tão premiado quanto Azul e ou indicado para o Oscar como Vermelho, Branco recebeu o Prêmio Urso de Prata no Festival de Berlim, em 1994, para Krzysztof Kieslowski como melhor diretor.

Vermelho 

Vermelho não é somente a concretização de uma trilogia, mas da obra grandiosa do seu autor, que morreria dois anos depois da sua conclusão. Mais do que nunca o universo de Kieslowski abre as portas da alma humana. A primeira imagem que se tem é de alguém a fazer uma chamada telefônica, a câmara segue os cabos que levam a mensagem, atravessa mares e terras, explodindo no telefone da outra pessoa. Há urgência na comunicação entre as pessoas, urgência em atingir o filtro que sorve os sentimentos, é hora das vidas se interligarem e cumprir os seus destinos. Vermelho é de uma imagem poética onde as sensações do ser e do sentir vencem as barreiras do acaso, do destino que não pode ser negado.
Valentine atropela um cão, na coleira descobre o endereço do seu dono, um juiz aposentado (brilhantemente interpretado por Jean-Louis Trintignant), que foge do marasmo e da solidão a ouvir escutas telefônicas dos vizinhos. Valentine, ao descobrir o ato de invasão de privacidade do juiz, sente repulsa por sua atitude, mas tem pena da solidão daquele homem. Inesperadamente os dois descobrem o universo solitário que ambos vivem, desenvolvendo uma sólida amizade, envolta no terno e tênue fio que conduz às raízes da fraternidade.
Enquanto Valentine desenvolve a sua amizade com o juiz, e sofre com a ausência do amor que está longe, não só fisicamente, como também vai se distanciando do seu coração; do outro lado da cidade, um homem luta com as frustrações do amor. Sofre pelas decepções, assim como Valentine. Ambos choram por amores mal vividos, lutam por amores infrutíferos, andam pelas mesmas ruas mas nunca se encontram. Suas almas procuram o mesmo, mas suas vidas distanciam-se rua a rua, mágoa a mágoa, dor a dor. É a vida que passa quando insistimos em não encontrá-la. Com Vermelho sentimos a vida a nos escorrer por bilhetes, telefonemas, desencontros, pelas rodas dos carros. Não há tempo de olhar para o lado e ver que o grande amor está ali, tão próximo, tão presente.
A beleza das imagens, que encontra a sofisticação no vermelho ao fundo. Cada cena, cada objeto, cada plano, formam uma metáfora, que só quem estava a despedir-se do cinema poderia criar tão magnífica obra, densa, bela, solitária, fraterna, resumida na esperança do acaso que a vida tece os seus mistérios.
Por fim Valentine deixa a cidade. O homem que sempre caminha paralelo ao seu destino também parte. Seguem em viagem pelo canal da Mancha. Um grande acidente faz o ferry-boat afundar. Só há 6 sobreviventes. Eles são: Valentine e o homem, que finalmente se encontram dentro daquela tragédia, e os casais dos outros dois filmes, do Azul e do Branco. Krzysztof Kieslowski encerra de maneira apoteótica a sua trilogia, todas as personagens principais dos três filmes encontram-se, são sobreviventes do acidente do canal da Mancha.
De maneira sensível e definitiva, a vida passou pelos filmes das cores, o destino venceu o acaso. Assim como as suas personagens, Krzysztof Kieslowski deixa a cena após vencer as angústias e o destino, como um sopro do acaso, é a beleza do ser humano e das suas infinitas portas abertas para os sentimentos.


Fichas Técnicas:

Três Cores: Azul

Direção: Krzysztof Kieslowski
Ano: 1993
País: França, Polônia, Inglaterra, Suíça
Gênero: Drama
Duração: 97 minutos / cor
Título Original: Trois Couleurs: Bleu
Elenco: Juliette Binoche, Benoît Régent, Florence Pernel, Charlotte Véry, Hélène Vincent, Philippe Volter, Claude Duneton, Hugues Quester, Emmanuelle Riva, Daniel Martín
Sinopse: Após um trágico acidente em que morrem o marido e a filha de uma famosa modelo (Juliette Binoche), ela decide por renunciar à sua própria vida. Após uma tentativa fracassada de suicídio, ela volta a se interessar pela vida ao se envolver com uma obra inacabada de seu marido, que era um músico de fama internacional.


Três Cores: Branco

Direção: Krzysztof Kieslowski
Ano: 1994
País: França, Polônia, Inglaterra, Suíça
Gênero: Comédia - Drama
Duração: 89 minutos / cor
Título Original: Trois Couleurs: Blanc
Elenco: Zbigniew Zamachowski, Julie Delpy, Janusz Gajos, Jerzy Stuhr, Aleksander Bardini, Jerzy Trela, Jerzy Nowak, Michel Lisowski, Cezary Harasimowicz, Juliette Binoche
Sinopse: Segundo episódio da série do diretor polonês Kieslowski dedicada aos ideais da Revolução Francesa (liberdade, igualdade e fraternidade), e o único da trilogia tratado de forma humorística. Dessa vez, apresenta um olhar irônico sobre como o vazio da vida pode ser profundamente afetado pelo amor. A esposa de Karol (Zbigniew Zamachowski) pede o divórcio e o trata com crueldade, pois ele está impotente. Sem dinheiro e sem ninguém, Karol, que é imigrante na França, retorna à Polônia. Aos poucos ele vai ganhando dinheiro e planeja uma doce vingança.


Três Cores: Vermelho

Direção: Krzysztof Kieslowski
Ano: 1994
País: França, Polônia, Suíça
Gênero: Drama
Duração: 99 minutos / cor
Título Original: Trois Couleurs: Rouge
Elenco: Irene Jacob, Jean-Louis Trintignant, Frédérique Feder, Jean-Pierre Lorit, Samuel Le Bihen, Marion Stalens, Teco Celio, Jean Schlegel, Juliette Binoche, Zbigniew Zamachowski
Sinopse: Valentine (Irène Jacob) atropela um cachorro que tem o endereço do dono na coleira. É dessa forma que ela conhece a pessoa que iria alterar o curso de sua vida: um juiz aposentado que vive espionando as conversas telefônicas de seus vizinhos. Por trás desse comportamento, esconde-se um homem que entra na intimidade das pessoas até saber o desenrolar de seus destinos. Apesar da repulsa que Valentine sente no início pela atitude do juiz, acaba se formando uma amizade. Neste último filme da trilogia das cores de Kieslowski, personagens dos dois filmes anteriores aparecem rapidamente, tendo suas vidas afetadas pela trama central.

Filmografia de Krzysztof Kieslowski:

1966 – Urzad
1966 – Tramwaj
1967 – Koncert Zyczen
1968 – Z Miasta Lodzi
1968 – Zdjecie (TV)
1970 – Bylem Zolnierzem
1971 – Robotnicy 1971 – Nic o Nas Bez Nas
1971 – Przed Rajdem
1971 – Fabryka
1972 – Refren
1972 – Podstawy BHP w Kopalni Miedzi
1972 – Miedzy Wroclawiem a Zielona Gora
1973 – Murarz
1974 – Przeswietlenie
1974 – Pierwsza Milosc (TV)
1974 – Przejscie Podziemme (TV)
1975 – Zyciorys
1975 – Le Personnel (Personel)
1976 – Szpital
1976 – Klaps
1976 – Blizna (A Cicatriz)
1977 – Nie Wiem
1978 – Siedem Kobiet w Róznym Wieku
1978 – Z Punktu Widzenia Nocnego Portiera
1979 – Amator (Amador)
1980 – Spokój (TV)
1980 – Dworzec
1980 – Gadajac Glowy
1981 – Krótki Dzien Pracy (TV)
1985 – Bez Konca (Sem Fim)
1987 – Przypadek (O Acaso)
1988 – Dekalog (TV) (O Decálogo) : série de dez filmes, de duração com aproximadamente 60 minutos
1988 – Siedem Dni w Tygo Dniu
1988 – Krótki Film o Milosci (Não Amarás) : oriundo da série Decálogo, 6º mandamento, expandido para longa metragem
1988 – Krótki Film o Zabijaniu (Não Matarás): filme também expandido para longa metragem
1989 – Dekalog, Dziesiec (TV)
1990 – La Double Vie de Véronique (A Dupla Vida de Véronique)
1990 – City Life
1993 – Trois Couleurs: Bleu (Trilogia das Cores: Azul)
1994 – Trois Couleurs: Blanc (Trilogia das Cores: Branco)
1994 – Trois Couleurs: Rouge (Trilogia das Cores: Vermelho)
 


 
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Terça-feira, 4 de Novembro de 2008

A RAINHA MARGOT

 


Um dos filmes mais densos dos anos noventa, A Rainha Margot, de 1994, trouxe para as telas o romance homônimo de Alexandre Dumas, que nas páginas da literatura relata de forma romanceada, a história Marguerite de Valois, filha de Catarina de Médici, conhecida como rainha Margot.
O filme de Patrice Chéreau abstrai-se totalmente da atmosfera do romantismo que traz o livro de Dumas, para torná-lo coberto de imagens impactantes, movidas por um furor histórico estonteante, onde a nudez e o sangue se interligam em cores fortes, em contraste com a imagem barroca de reconstrução de época. Ao assistirmos ao filme, quase que sentimos o cheiro do sangue, o cheiro dos corpos, prontamente preparados para trazer líquidos seminais no meio da guerra e da intolerância.
Isabelle Adjani é a uma bela e sensual rainha Margot, impregnando ao personagem a malícia, a intriga e o romantismo passional que afloram em tão inesperada personagem, uma sobrevivente de um destino político e dos acordos que revelam os bastidores sórdidos do poder que sustentaram as monarquias absolutistas nos primórdios dos estados modernos.
A Rainha Margot traz para o cinema um jeito psicológico de contar um épico histórico. Fascina pelas personagens ambíguas e desprovidas de uma moral vigente, de uma consciência aquém do poder e da ambição humana.

Um Cartaz Coberto de Sangue

Patrice Chéreau enche de beleza a paisagem humana, totalmente violada pelas atrocidades da guerra civil e dos envenenamentos provocados pela ambição do poder, onde o corpo perfeito desfaz-se, definha-se ao sabor do veneno.
Com as suas externas gravadas em Portugal, no Convento de Mafra, Chéreau usou vários modelos lisboetas como figurantes, dando uma idéia de perfeição estética aos rostos e corpos atrás dos protagonistas, quase que a vislumbrar ao ideal grego. No famoso convento português, a França do século XVI renasce em uma paisagem barroca.
O uso do sangue a marcar certas cenas pode ser visto já nos cartazes dos filmes, que trazem Isabelle Adjani vestida em trajes de bodas, com o vestido totalmente coberto pelo sangue. Mas o filme não perde o seu fio histórico, muito menos traz cenas de violência sem sentido, pelo contrário, apesar de manchadas de vermelho, as cenas são menores do que a realidade histórica, uma das mais negras do povo francês. A paisagem humana sobressai à paisagem histórica. Não são corpos assassinados pela intolerância religiosa que vemos, mas rostos humanos cobertos de vida psicológica latente.

A Noite de São Bartolomeu

No século XVI a hegemonia da igreja católica é abalada pelo surgimento do protestantismo. A França, que sempre teve a nobreza voltada e complementada pelo poder da igreja, vê a sua população aderir ao protestantismo. A convulsão permanente entre católicos e protestantes cria um clima minado, que pode explodir a qualquer momento. Em 1572, Marguerite de Valois, irmã do rei da França, é dada como esposa para o protestante Henrique de Navarra, em um casamento real feito para que se acalmassem os ânimos entre os huguenotes (como eram conhecidos os protestantes) e os católicos.
Na noite das bodas de Margot e Henrique de Navarra, em 22 de agosto, um agente de Catarina de Médici (no filme magistralmente interpretada por Virna Lisi), mãe do rei da França, Carlos IX (que tinha apenas 22 anos e não detinha verdadeiramente o controle), um católico chamado Maurevert, tentou assassinar o almirante Gaspard de Coligny, líder huguenote de Paris, o que enfureceu os protestantes, apesar de ele ter ficado apenas ferido. Nas primeiras horas da madrugada de 24 de agosto, o dia de São Bartolomeu, dezenas de líderes huguenotes foram assassinados em Paris, numa série coordenada de ataques planejados pela família real. Este massacre, que passou para a história como A Noite de São Bartolomeu, é retratado com extremo realismo por Chéreau, dando às imagens um tom épico, arrancando-lhe a violência crua e sem sentido. O massacre seguiria até outubro, durante o período, cerca de 70 a 100 mil huguenotes foram mortos.

A Paixão no Meio da Luta Pelo Poder

Os meandros da história são cobertos por mistérios e tramas perigosas. Virna Lisi traz uma Catarina de Médici perigosa e fria, que na tentativa de envenenar o genro Henrique de Navarra, outra composição magistral do ator Daniel Auteuil, para impedi-lo de herdar o trono (ele um huguenote), envenena o próprio filho, o rei Carlos IX (vivido pelo ator Jean-Huges Anglades), subindo ao trono o irmão, Henrique III, que seria assassinado futuramente, e Henrique de Navarra subiria ao trono, para desgosto de Catarina de Médici, que não teria a sua descendência no trono da França.
As tramas políticas, as mortes, os assassínios, dão passagem ao amor de Margot pelo moleiro La Molê (Vincent Perez). As cenas de amor entre Margot e La Molê dão o tom passional ao filme. Cobertos de um erotismo contundente (a cena de nudez do ator Vincent Perez causou impacto no nu frontal, devido à condição de bem-dotado do galã), dão sempre a sensação de perigo aos jovens amantes. Quando por fim La Mole é decapitado, acusado de conspiração, uma Margot infeliz e destronada das ambições de ser rainha, leva no colo a cabeça do amado, mais uma vez cobrindo-se de sangue. Esta cena Chéreau inspirou-se em “O Vermelho e o Negro”, de Stendhal. Imagens definitivas, entre o épico e o psicológico, fazem deste filme um dos melhores da década de noventa e do fim do século XX. O filme arrebatou 5 prêmios César (o César é o prêmio anual do cinema francês) e 2 prêmios no Festival de Cannes.
Isabelle Adjani consegue aqui uma das interpretações mais brilhantes da sua carreira, num dos papéis mais ambíguos da história do cinema francês. No papel da rainha Margot, ganhou o seu quarto César, feito até então inédito de uma atriz francesa. Isabelle Adjani tem uma antagonista à altura, Virna Lisi, que faz da sua Catarina de Médici uma das mais empolgantes e complexas vilãs do cinema, numa interpretação barroca, que lhe concedeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes, além do César como melhor atriz coadjuvante. Sem dúvida o encontro de Isabelle Adjani e Virna Lisi é o ponto alto do filme.
Patrice Chéreau, que além de cineasta, é ator de teatro e do cinema francês, conseguiu um momento de genialidade único, difícil de superar. Ficou marcado como o diretor de A Rainha Margot.

Ficha Técnica:

A Rainha Margot

Direção: Patrice Chéreau
Ano: 1994
País: França, Itália, Alemanha
Gênero: Drama
Duração: 136 minutos / cor
Título Original: La Reine Margot
Elenco: Isabelle Adjani, Daniel Auteuil, Virna Lisi, Vincent Perez, Jean-Hugues Anglade, Dominique Blanc, Pascal Gregory, Claudio Amendola, Miguel Bosé, Asia Argento, Julien Rassam, Thomas Kretschmann, Jean-Claude Brialy, Jean-Philippe Ecoffey, Albano Guaetta
Sinopse: Na França de 1572, a guerra religiosa está destruindo o país. Com o objetivo de dar fim aos conflitos, a católica Marguerite de Valois, também conhecida como Margot, e o protestante Henri de Navarre unem-se num casamento arranjado. Mas os resultados dessa união são ainda mais devastadores.

Filmografia de Patrice Chéreau:

Diretor:

1974 - La Chair de l'orchidée
1978 - Judith Therpauve
1983 - l'Homme blessé
1987 - Hôtel de France
1991 - Contre l'oubli (filme coletivo)
1994 - La Reine Margot
1998 - Ceux qui m'aiment prendront le train
2000 - Intimacy (Intimidade)
2003 - Son frère

Ator:

1982 - Danton
1999 - Le Temps retrouvé
2002 - Au plus près du paradis
2003 - Le temps du loup


 

 
 

 

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