Sexta-feira, 28 de Agosto de 2009

SÃO PAULO, SÃO PAULO

 

 

A cidade de São Paulo nasceu modesta, mantendo-se como uma vila pobre e sem atrativos por séculos. Sua fundação, oriunda da construção de um barracão de pau-a-pique coberto de sapê, que servia ao mesmo tempo, de capela e de abrigo aos jesuítas. No dia 25 de janeiro de 1554, data que se festeja na igreja católica a conversão do apóstolo Paulo de Tarso ao cristianismo, o sacerdote Manuel de Paiva celebrada uma missa neste barracão construído entre os rios Anhangabaú e Tamanduateí; na sua presença estavam os padres José de Anchieta e Manuel da Nóbrega, João Ramalho e a sua esposa Bartira e os índios Caiubi e Tibiriçá. Nascia a povoação de São Paulo de Piratininga, aquela que estava destinada para ser a maior metrópole do Brasil.
A vida pulsante da cidade de São Paulo traz o poder, o dinheiro, os sonhos e as esperanças para os seus quase vinte milhões de habitantes, formados por imigrantes de todas as partes do Brasil e de grande parte do planeta. A metrópole assusta no seu gigantismo de concreto, fascina nas milhares de pessoas que transitam por suas ruas e por sua ebulição constante, fazendo dela o principal centro financeiro, cultural, corporativo, político e mercantil não só do Brasil, mas de toda a América Latina. São Paulo em sua veia urbana e universalidade vincada, é a décima quarta cidade mais globalizada do planeta, sendo a décima mais rica.
Caminhando para quase cinco séculos da sua fundação, a São Paulo do século XXI nada lembra a aglomeração de padres, índios e bandeirantes humildes que se constituiu em torno do Pátio do Colégio Jesuíta, muito menos aquela cidade pobre e esquecida pelo progresso por tantos séculos. A Paulicéia atual fascina, atrai e seduz não só os seus habitantes, mas todo o Brasil. Na data de aniversário da cidade, ela recebe os beijos apaixonados dos cidadãos brasileiros, que prestam homenagens a mais amada, idolatrada ou odiada das suas cidades. E o nome da cidade ecoa pela poluição perene que cobre seu o céu. São Paulo, São Paulo! Este artigo é um convite para uma visita pitoresca às várias fases da cidade, em imagens de ontem, numa São Paulo para sempre gravada no coração da memória.

Vila Pobre e Adormecida

Quando os padres jesuítas Manuel da Nóbrega e José de Anchieta ergueram um barracão de taipa entre os rios Tamanduateí e Anhangabaú, tinha por finalidade catequizar os índios que habitavam naqueles vales longe do litoral. A primeira missa no humilde barracão, que se transformaria no colégio jesuíta, foi realizada no dia 25 de janeiro de 1554, um dia quente dos verões dos trópicos, em que se comemorava a conversão de Paulo de Tarso ao cristianismo. Em homenagem ao apóstolo, a vila que ali nascia, foi chamada de São Paulo de Piratininga.
Em 1560 o governador geral da colônia, Mem de Sá, ordenou que a população da vila de Santo André da Borda do Campo fosse para os arredores do Colégio de São Paulo de Piratininga. Com a transferência da população, a vila de Santo André da Borda do Campo foi extinta, e São Paulo de Piratininga foi elevada à condição de vila, expandindo finalmente, o seu povoamento.
Por encontrar-se longe do litoral, a vila permaneceu pobre e isolada do resto da colônia por dois séculos consecutivos. Com a expansão para o interior do país, a cidade passou a servir de entroncamento para os que vinham do litoral e que se adentravam na mata. Homens pobres, em busca de fortunas, transformaram-se nos bandeirantes, que a partir da vila de São Paulo de Piratininga, conquistaram o interior do Brasil colônia, caçando e escravizando índios, descobrindo diamantes e ouro. São Paulo transformou-se na capital dos bandeirantes.
A intensidade das bandeiras, a descoberta de ouro na região das Minas Gerais, aumentou a importância da vila no cenário da colônia, já que ela era o ponto principal de partida para o interior, fazendo com que fosse elevada à categoria de cidade em 1711.

O Despertar do Progresso Paulistano

Com o fim do ciclo do ouro, São Paulo continuou a ser uma cidade pobre e pouco desenvolvida, tendo como principal objetivo ecoar a produção de açúcar para o porto de Santos, que seguia para a capital da colônia, em Lisboa.
No século XIX São Paulo é uma cidade pacata e provinciana, cercada por várzeas alagadiças, ribeirões e brejos. Vista ao longe, mantinha a sua estrutura de fundação sobre uma colina, o que lhe dava um aspecto de acrópole. Trazia inúmeras igrejas, parcos sobrados e inúmeras casas baixas, apoiadas umas às outras, com grandes beirais.
Em 1823, já o Brasil era uma nação independente, e o imperador Dom Pedro I conferiu à cidade o título de “Imperial Cidade”. Pouco depois, em 1827, seriam criados cursos jurídicos no convento de São Francisco, que iria originar a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. São Paulo, aos poucos, tornar-se-ia um burgo de estudantes, que juntamente com os professores, dariam um grande impulso de crescimento cultural à cidade.
Mas o grande despertar da cidade, dantes pobre e sossegada, deu-se com o cultivo do café, que encontrou no interior paulista solo ideal e clima propício. No interior paulistano passam a proliferar grandes plantações cafeeiras, que produziam grãos de qualidade apreciados pelo mundo inteiro. O ciclo do café era inaugurado, transformando-se no século XIX, na principal riqueza do país, condição que iria prevalecer até os anos vinte do século seguinte.
A grande produção do café gerou grande necessidade de mão-de-obra, obrigando o governo a abrir as suas fronteiras para os imigrantes. São Paulo passou a receber milhares de imigrantes, principalmente italianos, que dali eram encaminhados para as lavouras cafeeiras do interior paulista.
Com o dinamismo do comércio do café, era preciso ecoar o produto, transpondo a difícil barreira que se impunha através da Serra do Mar. Para esta finalidade deu-se início à construção de ferrovias, que interligariam São Paulo ao interior paulista e ao litoral santista. Em 1860 o Barão de Mauá associa-se a capitalistas ingleses, organizando a Estrada de Ferro Inglesa, The São Paulo Railway, unindo Santos a Jundiaí, que inauguraria em 16 de fevereiro de 1867, a primeira Estação da Luz, um prédio arquitetonicamente modesto. Nas proximidades da estação foram desenvolvendo-se, aos poucos, pequenas indústrias e bairros operários como o Brás e o Bom Retiro. Em 1901, foi inaugurada a imponente Estação da Luz, em um prédio estilo neoclássico, inspirado na estação de Sidney, Austrália. Este prédio é o mesmo dos dias atuais, tendo, ao longo dos anos, apenas o acréscimo de um pavilhão, quando da sua reinauguração em 1950, após uma reforma que apagou as marcas de um incêndio acontecido em 1946.
Na década seguinte à inauguração da Estrada de Ferro dos Ingleses, viriam a Estrada de Ferro Sorocabana, que servia de ligação entre São Paulo e as províncias do sul, e, a Central do Brasil (ou Estação do Norte), que a partir de 1887, comunicava São Paulo ao Rio de Janeiro. Com as ferrovias, São Paulo tornou-se um grande nó viário, trazendo para a cidade indústrias e um progresso cada vez mais latente.

Novos Bairros e Ruas

Adormecida durante dois séculos, com a explosão do comércio cafeeiro, São Paulo viu-se subitamente invadida por um compulsivo progresso e grande riqueza. A face da antiga e pobre vila bandeirante mudou, adquirindo um desenho arquitetônico de feição européia, e um estilo de vida nos mesmos moldes. Proprietários rurais, enriquecidos com o café, passam a ser chamados de “barões do café”. São eles que vão gerar a riqueza da cidade e transformar de vez a sua paisagem urbana. Os barões do café passam a viver na capital, construindo grandes casarões e imponentes palacetes, inaugurando novas artérias na cidade, como a elegante Avenida Paulista.
Com a ida dos barões para a capital, foram instaladas fábricas, necessárias ao atendimento da crescente demanda de insumos manufaturados. Com as novas indústrias, foi gerada uma necessidade de mão-de-obra especializada, logo ocupada pelos imigrantes, excepcionalmente pelos italianos. Antigas regiões de chácaras foram transformadas em bairros industriais e operários, como o Brás, a Mooca, Belém e Ipiranga. Imigrantes italianos e espanhóis estabeleceram nestes bairros.
Com o progresso, uma nova cidade forma-se aos poucos, expandindo-se para locais ainda rurais, como o Morro do Chá, sítio de cultivo de chá, onde as crianças iam caçar pequenos pássaros e os adultos pescar lambaris. Em 1888, após a expropriação do sobrado do Barão de Tatuí, foram iniciadas as obras do Viaduto de Chá, que seria inaugurado em 1892, dando um imponente ar de modernidade à cidade.
O que foi chamado de Bairro do Chá, tinha como proprietário da área o Barão de Itapetininga, que cedeu parte do terreno na encosta, para a construção da Rua Formosa. Posteriormente, a viúva do barão permitiu em suas terras a abertura de novas ruas, como as atuais Xavier Toledo, Barão de Itapetininga e 7 de Abril, formando o que foi chamado de Cidade Nova.
Com a Cidade Nova (ou Centro Novo), o tradicional centro econômico de São Paulo deixa de ser exclusivamente nas ruas do Triângulo (Rua Direita, Rua São Bento e Rua 15 de Novembro), mudando-se para áreas a oeste. Surge a imponente Avenida Paulista, que com o decorrer do século XX, deixa de ser local de palacetes de barões e banqueiros, para dar passagem aos prédios e a tornar-se um importante centro econômico.

São Paulo, Uma Cidade Que Não Pode Parar

Com o fim do ciclo do café, São Paulo transformou-se em uma cidade de grandes indústrias, atraindo para si um imenso número de migrantes de todo o país, especialmente nordestinos, que participaram da vertiginosa verticalização da cidade, gerando grandes arranha-céus que mudaram de vez a paisagem da Paulicéia. Aos poucos, os casarões são demolidos, substituídos por prédios cada vez mais altos, e uma população urbana cada vez maior.
Transformada em metrópole no século XX, São Paulo passa a ser conhecida como a cidade que não pode parar. Em 1916 foi criado o brasão oficial da cidade, que seria oficializado em 8 de março de 1917. O brasão traz o lema em latim “Non ducor, duco” (Não sou conduzido, conduzo), que traduz a imagem exata da Paulicéia como capital de Estado e maior metrópole do Brasil.
Desde que fundada, em 1554, a cidade assumiu vários aspectos. Nascida de um colégio de jesuítas, com a finalidade de catequizar os índios da Serra do Mar, passou a ser uma vila pobre e tacanha, gerando ferozes e ambiciosos caçadores de índios e de pedras preciosas, os bandeirantes, que se adentraram pelo interior das matas brasileiras, derrubando o Tratado de Tordesilhas e alargando as fronteiras da colônia portuguesa. Construída por modestas casas de barro, por dois séculos esteve adormecida, até que sucessivamente, passou a ser a cidade do burgo dos estudantes, a capital dos barões do café, a cidade dos imigrantes (italianos, portugueses, espanhóis, alemães, judeus, japoneses...), a cidade modernista do Brasil, a capital da indústria, o coração econômico do Brasil. Para assumir as várias faces da sua história, São Paulo foi inteiramente construída e demolida várias vezes.
São Paulo da garoa, do trânsito caótico, da poluição institucionalizada, da cultura latente, que transformou o Brasil do século XX, do poder objetivo do concreto das suas construções, dos sonhos realizados e desfeitos dos que ousaram tentar domar a metrópole. São Paulo é a concretização mais perfeita do sonho brasileiro de ser um país do futuro, exercendo este sonho perenemente no presente.

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Sábado, 27 de Junho de 2009

AS ELEGANTES RUAS DA SÃO PAULO DOS BARÕES DO CAFÉ

 

 

São Paulo de Piratininga foi fundada pelos jesuítas sobre uma colina, tornando-se um marco de partida para a conquista do interior do país. O aspecto urbano da cidade foi adquirido através dos séculos, mais das necessidades que se lhe impunham do que de um planejamento que construísse harmonicamente a maior cidade da Brasil.
Da vila que nasceu de uma missão jesuítica, saíram em busca de riquezas e sonhos, as entradas e bandeiras que conquistaram o sertão e o interior do Brasil, alargando conseqüentemente, as fronteiras coloniais e derrubando o Tratado de Tordesilhas, fazendo do território nacional algo muito próximo dos dias atuais. Passada a fase da conquista dos bandeirantes, a cidade esteve politicamente estagnada, o progresso adormecido do século XVIII à primeira metade do século XIX, quando foi despertada pelo ciclo do café. Constituindo a principal riqueza econômica do Brasil até 1930, o café transformou a cidade em uma metrópole, que mesmo depois do fim do ciclo, jamais deixou de crescer, erguendo-se numa das maiores cidades do planeta.
Com a riqueza do café vieram os barões, fazendeiros que enriqueceram cultivando a planta, sendo grande parte deles agraciados com títulos nobiliárquicos dado pelo Império. Se os títulos de nobreza e o dinheiro corriam soltos, a cidade que abrigava esta riqueza precisava deixar de vez o aspecto de lugar ilhado, cercado por várzeas alagadiças, brejos e ribeirões. Aos poucos, o dinheiro do café trouxe à velha Piratininga o glamour importado diretamente de Paris. Se a Praça da Sé era o pulsar da cidade, ponto de encontro de toda a população, nascia no fim do século XIX, no Vale Intransponível (hoje Vale do Anhangabaú), a parte sofisticada e elitizada de São Paulo, chamada de Ruas do Triângulo, perímetro delimitado pelas Ruas 15 de Novembro, Direita e São Bento. Nas Ruas do Triângulo, os barões de São Paulo fizeram a sua própria Paris, e a beleza sem harmonia da cidade deu passagem para uma desordenada, mas pulsante vida de ferveção populacional digna das ruas européias. Era a elitização dos trópicos, que começara na capital do país, o Rio de Janeiro e alcançaria São Paulo de forma indelével.

As Ruas do Triângulo

O centro histórico da paulicéia, também chamado de centro velho, surgiu na colina central da cidade, ladeado pelo Vale do Anhangabaú e pela Várzea do Carmo, encerrando ali o que se chamava de Triângulo. O Triângulo originou-se nos tempos coloniais através das sendas que serviam de comunicação entre os largos São Bento, da Sé e São Francisco.
Na segunda metade do século XIX as ruas de São Paulo eram estreitas, de terra batida e não iam além dos vales do rio Anhangabaú e do rio Tamanduateí. A cidade estava longe de ser comparada com a capital do Império, Rio de Janeiro, ou com Recife, ou com Salvador. O comércio do café, a importância que ele começaria a ter na economia do país foi o grande passo para tirar São Paulo da condição de capital periférica. Em 1867 a inauguração da ferrovia Santos-Jundiaí começou a mudar o destino da cidade. Em 1872, foi inaugurada a primeira linha de bondes, que eram puxados por animais. Era o começo da expansão das ruas do centro, a chegada da riqueza do café que começava a ser canalizada para o Estado e para a sua capital.
Se o Pátio do Colégio foi onde São Paulo nasceu, o Triângulo foi onde a cidade consolidou-se. Delimitado pelas Ruas Direita, São Bento e 15 de Novembro, o Triângulo tornou-se o ponto de concentração da grande vida social e comercial da cidade na época faustosa do ciclo do café, confinando lojas luxuosas, cafés sofisticados, que faziam para ali convergir a elite da sociedade paulistana, além dos cidadãos comuns, dos visitantes da cidade, dos estrangeiros e dos imigrantes que começavam a chegar para trabalhar nas lavouras do café ou nas fábricas que despontavam pela velha Piratininga.
O comércio latente e o luxo explícito das lojas das Ruas do Triângulo davam uma nova paisagem ao centro, até então evidenciado apenas pela beleza discreta das suas igrejas ou conventos seculares, como o de São Francisco, o de São Bento e o do Carmo. As três ruas que formavam o Triângulo foram, durante o governo de João Teodoro (1872-1875), devidamente calçadas, novidade que se estendeu para o Largo do Rosário e à Praça da Sé. Ao longo do tempo, por serem demasiadamente estreitas, as Ruas do Triângulo transformaram-se em ruas estritamente para pedestres.
O esplendor trouxe às ruas do Triângulo a luxuosa concentração de pessoas abastadas. Também a juventude com os seus arroubos de paixão, passeavam por lá, passando a utilizar a expressão “Fazer o Triângulo”, ou seja, transitar pelas ruas numa elegante caminhada de rapazes pelas ruas Direita, 15 de Novembro e São Bento, enquanto belíssimas moças faziam o sentido inverso, trocando olhares furtivos e apaixonados.
A vida era intensa no triângulo, que além de concentrar as casas de comércio mais importantes, traziam os principais bancos nacionais e estrangeiros, as agências marítimas, as casas de câmbio, as redações dos jornais, importantes escritórios de diversas companhias e casas de moda.
Neste sofisticado centro paulistano, o Largo do Rosário seria transformado na Praça Antônio Prado, que se tornaria o coração do Triângulo. Também um outro ponto do Triângulo há de ser mencionado, os “Quatro Cantos”, formado no cruzamento entre a Rua São Bento e a Rua Direita, local que se ergueria a Praça do Patriarca, que abrigaria o mais famoso e elegante magazine paulistano, o Mappin Stores, mais tarde transferido para a Praça Ramos de Azevedo.

Rua Direita, Grandes Vitrinas e Quiosques

Uma das mais importantes ruas históricas da capital paulistana, a Rua Direita já era citada em documentos do século XVII, como uma rua que seguia para a igreja de Santo Antônio. Esta igreja, erguida em homenagem a Santo Antônio de Lisboa, após grandes reformas, chegou aos dias atuais, situada na Praça do Patriarca. É justamente a igreja de Santo Antônio que será responsável pela toponímica da rua, chamada assim por ser o caminho que dava “direito” do terreiro da Sé à igreja de Santo Antônio. Por este motivo a rua chamou-se Rua Direita de Santo Antônio. Teria sido chamada ainda de Direita de Santo e Direita da Misericórdia. Com o passar do tempo o nome foi encurtado para Rua Direita.
Na época da explosão da economia cafeeira, a Rua Direita desembocava na esquina da Rua da Imperatriz (atual Rua 15 de Novembro). Pequenos prédios com lojas de armarinho tomaram conta da rua. Casas foram adquirindo nome, como a famosa e conceituada Casa Baruel. Suas vitrines atraíam os mais abastados, sendo local de passeio dos estudantes. A exemplo do Rio de Janeiro, vários quiosques foram erguidos, além de anúncios coloridos por toda a rua, dando a São Paulo, finalmente, o aspecto de uma grande cidade.
Tornando-se ao final do século XIX o maior componente das ruas do Triângulo, a Rua Direita foi tomada por grandes casas, entre elas a famosa Casa Lebre, que se tornou a de maior movimento na cidade; a Casa Alemã, a Casa Kosmos; as confeitarias Fasoli e Nagel; o Grande Hotel da França, situado no conhecido “Quatro Cantos”; a charutaria Nunes; o atelier do retratista Henschel, sucedido por Vollsack, que passou o negócio para o alemão Baumgarten; a sapataria A Bota Gigante e o joalheiro Birle. Além de todas as lojas de comércio, a Rua Direita abrigava o Bar Viaduto, que com a apresentação de uma orquestra todas as noites, era o local preferido para os encontros dos apaixonados.

Rua 15 de Novembro, a Mais Sofisticada da Cidade

Já no século XVII há documentos referentes à Rua do Paço Manoel Paes de Linhares, que seria a atual Rua 15 de Novembro. Esta rua não passava de pouco menos de meia dúzia de casas de taipa. No final dela, entre 1711 e 1715 foi erigida a igreja do Rosário (na atual Praça Antônio Prado), mais tarde dedicada à Irmandade do Rosário dos Homens Pretos, importante confraria que lutaria no fim do século XIX pela abolição da escravatura. Assim a Rua do Paço Manoel Paes de Linhares, na verdade uma trilha que servia de comunicação entre o Largo da Sé e a igreja do Rosário, passou a ser chamada de Rua do Rosário dos Pretos. O nome permaneceu até fevereiro de 1846, quando a família imperial brasileira visitou São Paulo, como homenagem à visita de dom Pedro II e de sua esposa, o local passou a chamar Rua da Imperatriz. Assim permaneceu até a proclamação da República, em 1889, passando a ter o nome definitivo de Rua 15 de Novembro.
De origem rural e humilde, que abrigou casas de taipa no início da sua história, tornou-se a mais nobre e cosmopolita das três ruas do Triângulo. A paisagem arquitetônica passou a imitar à parisiense. Aos poucos, a rua foi ladeando-se de uma vizinhança sofisticada, lojas com conteúdo aristocrático, além de abrigar os mais caros estabelecimentos comerciais e as então florescentes casas bancárias.
O paulistano abastado encontrava na Rua 15 de Novembro, todos os acessórios e procedimentos para trazer glamour à sua nova condição de habitante de uma metrópole que começava a borbulhar como tal; desde as mais caras jóias, às roupas sob os moldes europeus, os perfumes mais delicados e suaves, até o corte de cabelos e barba. Desde alfaiates, tecidos, cabeleireiros, sapatarias, joalherias e costureiras, tudo que se comercializava na Rua 15 de Novembro, era anunciado como procedente de Paris. Também aqui estavam estabelecidos: o London Bank, o Banco do Comércio e Indústria, o Banco Alemão e Credit Foncier.
Já no início do século XX, a Rua 15 de Novembro tornou-se a mais sofisticada da Paulicéia, sendo visto nela desfilar bondes, carruagens faustosas, conduzidas por cavalos de raça. Era para esta rua que convergiam os jornalistas, os políticos, os barões do café, os banqueiros e os intelectuais, tornando-se os seus cafés pontos de tertúlia e de transações comerciais. Na paisagem da rua, diferentes pessoas eram vistas, desde a fina sociedade paulistana, aos visitantes estrangeiros e os imigrantes que chegavam para conquistar um lugar ao sol. Mulheres elegantes, trajando toaletes e jóias que em nada deixavam a desejar a mais fina sociedade européia.
Era na Rua 15 de Novembro que se encontrava o escritório fotográfico de Guilherme Gaensly, de onde foram feitos os principais registros fotográficos da emergente sociedade paulistana que enriquecia com o café. Outro pioneirismo da arte visual foi visto pela primeira vez nesta rua, a chegada da “lanterna mágica”, também conhecida como “fotografia animada”, que mais tarde seria chamado de cinema. A primeira animação cinematográfica foi apresentada em um salão da 15 de Novembro. A bela iluminação noturna da rua ajudava a manifestação do que seria o futuro cinema.
Prédios suntuosos passaram a construir a paisagem da Rua 15 de Novembro. Neles charmosos cafés foram abertos, faustosas casas de modas e joalherias traziam os mais belos mostruários, os mais ricos e luxuosos objetos de consumo. Com prédios de estilo arquitetônico florentino, esta rua era a transposição definitiva da lapidação da velha São Paulo de Piratininga.

Rua São Bento, Estreita e Longa

O nome desta rua está diretamente ligado com a ermida erigida no seu extremo, que se abria em largo. A ermida daria origem ao mosteiro da ordem de São Bento, assim sendo, era chamada de “rua que vai para São Bento”, nome que iria persistir por quase três séculos. Finalmente passou a chamar Rua São Bento. Há uma declaração de Frei Gaspar Madre de Deus que dizia que a rua era inicialmente chamada de Rua Martim Afonso Tibiriçá, uma homenagem ao sogro de João Ramalho, que teria residido no Largo de São Bento. Mas documento algum foi encontrado que comprovasse a veracidade desta declaração.
A Rua São Bento era (e ainda é) uma estreita artéria de comunicação entre o Largo de São Bento e o Largo de São Francisco. É a terceira vertente das ruas do Triângulo, tida como a sua base. Sua característica sempre foi eminentemente comercial, mas com artigos menos sofisticados do que os encontrados na Rua 15 de Novembro e na Rua Direita. Uma das mais famosas casas de comércio ali aberta era a Casa Fuchs, especialista em artigos de couro, que na época produziam os arreios, malas e objetos artísticos. Outra loja famosa era Ao Grande Amazonas, especializada em exóticos produtos caipiras como ponchos de boiadeiros, chapelões de campeiros e perneiras, além de comercializar roupas para meninos. As agências de viagens constituíam outra parte do comércio que ali era oferecido ao paulistano.
A Rua São Bento, em sua grande extensão, trazia as mais diversificadas lojas de comércio, atraindo para si um grande número de pessoas de todas as classes sociais. Nesta rua foi aberto o maior café da cidade, que servia a bebida expressa para os seus freqüentadores em pé, deixando assim, o paulistano degustar a preciosa bebida responsável pelo enriquecimento e prosperidade da Paulicéia. Em 1998 o Café Girondino foi inaugurado na Rua de São Bento nos moldes dos antigos cafés ali existentes no início do século XX.
Se a primeira apresentação de uma animação de cinema aconteceu na Rua 15 de Novembro, na Rua São Bento foi construído o primeiro cinema da cidade, que recebeu o nome de Íris. Historicamente, a rua é considerada o berço do cinema. Mais diversificada no seu comércio, esta longa e estreita rua selava a base do elegante Triângulo paulistano.

Praça Antônio Prado, o Coração do Triângulo

Não se pode falar nas três ruas do Triângulo, Rua Direita, Rua 15 de Novembro e Rua São Bento, sem falar na Praça Antônio Prado, considerada o coração desta sofisticada região da São Paulo dos barões do café.
No século XVII foi erigida a igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, para que os negros da cidade, libertos ou escravos, pudessem freqüentar, visto que este procedimento era proibido às igrejas dos brancos. O local da igreja ficou conhecido como Largo do Rosário. Era no largo que Irmandade do Rosário dos Homens Pretos, dirigida por juiz e juíza, rei e rainha e outros membros menores, promoviam grandiosas procissões, às quais se seguiam em frente à igreja grandes congadas, maçambiques e batuques, animados ao som da música dos atabaques. No interior da igreja à noite, eram feitos os enterros dos cadáveres. À medida que socavam a terra sobre o morto, os negros entoavam estranhas melopéias. No início do século foi decidida a remoção da igreja para o Largo do Paissandu. Assim, em junho de 1904 a velha igreja do largo foi demolida, abriu-se ali uma passagem para a Avenida São João, até então um barranco com ladeira para o Paissandu. No lugar da velha igreja do Rosário (aqui em uma fotografia do princípio do século XX) surgiu a sofisticada Praça Antônio Prado, uma homenagem a prefeito que dirigiu São Paulo de 1899 a 1911. A nova praça ficou conhecida como o “Coração do Triângulo”.
No local exato onde ficava a igreja, foi erguido o primeiro prédio de escritórios da cidade, o Palacete Martinico, sede central da Ligth entre 1907 e 1929; também sede em diversas épocas, do jornal “O Estado de S. Paulo”, do City Bank e da Bolsa de Mercados & Futuros. Os atabaques da Irmandade do Rosário deram passagem para os pregões frenéticos da Bolsa, tornando-se um dos mais movimentados locais de negócio de São Paulo, onde foram erguidos altíssimos edifícios como o Martinelli, o Banco do Brasil e a torre do Banespa.
Tido como ponto borbulhante e de encontro de todas as personalidades de São Paulo, a Praça Antônio Prado assistiu nos encontros ali promovidos, a ascensão e queda do ciclo do café, que culminaria com a queda da Bolsa de Nova York, em 1929, levando ao suicídio ou à miséria vários dos chamados barões. Enquanto durou o glamour desta época da história paulistana, a Praça gerou a sua volta, um intenso mundo cosmopolita que traduzia a essência da riqueza paulistana e o seu modo de vida. À noite era descrita a presença de mulheres elegantes, vestidas de sedas e chapéus vistosos, percorrendo com tranqüilidade às ruas à volta da Praça.
No comércio local destacava-se a Casa Seleta, que vendia charutos, cigarros, cachimbos e piteiras; o famoso Café Brandão, que ocupava o primeiro andar de um prédio demolido para a construção do edifício Martinelli; a bem freqüentada Brasserie Paulista, que também cedeu lugar para a construção do prédio do Banco do Brasil; e ainda, a Confeitaria Castellões, famosa por suas irresistíveis empadinhas e croquetes de camarão, servidos quentes, feitos à hora.
Ainda hoje, mesmo com os rumores tétricos de que por baixo dos seus jardins, os cadáveres dos antigos negros sepultados na igreja do Rosário ainda lá estão; mesmo que já longe vão os tempos dos barões do café, a Praça Antônio Prado continua a ser um seleto e agradável local da Paulicéia, sem perder a sofisticação de outrora.
 
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Sexta-feira, 27 de Março de 2009

PIAZZA NAVONA - TEATRO DE BERNINI E BORROMINI

 

 

Roma é uma das cidades mais míticas do mundo. Dona de uma história glamorosa, que reflete na herança religiosa e cultural dos países cristãos ocidentais, a cidade é um convite para que descubramos as suas ruas, os seus monumentos, a sua história. Conhecida como a Cidade Eterna, na sua paisagem mesclam-se monumentos da Idade Antiga, da época do poderoso Império Romano, com monumentos medievais, renascentistas e barrocos, da época que a cidade estava sob o domínio dos papas e da igreja, antes da reunificação da Itália, e que formavam os Estados Pontifícios.
Na faustosa Roma barroca, encontramos a mítica Piazza Navona (Praça Navona), um dos locais mais visitados do mundo. Sua estrutura barroca é ornamentada por três fontes: a Fontana Dei Quattro Fiumi (Fonte dos Quatro Rios), de Bernini ao centro, a Fontana Del Moro (Fonte do Mouro) e a Fontana Del Nettuno (Fonte de Netuno), nas extremidades. No lado ocidental da praça, ao centro, encontra-se a igreja barroca Santa Agnese in Agone, de Borromini e a seu lado, o belo palácio Pamphili, sede da embaixada brasileira em Roma.
Na Piazza Navona, vislumbra-se um dos pontos mais pulsantes de Roma, percebendo-se o poder que a cidade exerceu sobre o resto do mundo. Vê-se a marca inconfundível de Bernini sobre a cidade; as igrejas e os palácios que a circundam, além dos cafés, nos quais se pode sentar calmamente e sentir-se no centro do charme da história. Descobrir a Piazza Navona é deixar-se seduzir por uma Roma que se mantém eterna no imaginário dos povos há mais de 2000 anos.

Origens da Piazza Navona

A Piazza Navona teve as suas origens quando Tito Flávio Domiciano, imperador de Roma de 81 a 96, mandou que se construísse um estádio para corrida e jogos de competições. O local foi palco de lutas contra animais e entre gladiadores. Os combates de animais puderam ser assistidos até por volta de 1500, quando o local começou a ser visto de fato como uma praça e não um estádio.
Por causa das suas origens, a Piazza Navona preservou as formas de um estádio, com extensão longa e retangular de 240m x 65m, de extremidades estreitas ao norte da praça. As cavea antigas podiam receber 30 mil espectadores, que ali se sentavam para assistir aos combates. Atualmente, os edifícios ao redor da praça foram erguidos nos terraços ou nos alicerces dessas cavea.
O Estádio de Domiciano, com o tempo passou a ser chamado por outro nome. O nome atual teria derivado do fato de ali os romanos assistirem os jogos (agone), ou seja, “in agone” (local de combate), juntamente com “navis” (navio), por causa da forma de sua extremidade arredondada, o que formaria a corruptela posterior de nagone e navone, que em italiano significa “grande navio”.
No século XV, durante o pontificado de Sisto IV (1471-1484), em 1477, o mercado do Capitólio foi transferido para a Piazza Navona, fazendo com que se tornasse um bairro povoado. Diversos palácios foram construídos na área, como o Pallazo Madama, de Sinulfo, tesoureiro de Sisto IV, que seria arrendado ao então cardeal Giovanni de Médici, futuro papa Leão X, e, futuramente, residência da família Médici em Roma.

As Intervenções Arquitetônicas

No século XVI o local já era a área residencial favorita dos nobres que habitavam Roma. Neste século surgem os esboços das duas fontes que hoje fazem parte das extremidades da praça: a Fontana Del Nettuno e a Fontana Del Moro. As fontes foram instaladas no pontificado do papa Gregório XIII (1572-1585).
É no século XVII, durante o pontificado de Inocêncio X (1644-1655), que a Piazza Navona atinge o ápice do seu desenvolvimento arquitetônico e urbano. Em 1645 o papa começa a remodelar a praça. O desenvolvimento arquitetural culminou durante o pontificado de Inocêncio X (1644-1655) que começou a remodelá-la em 1645. Para isto convocou Gian Lorenzo Bernini (1598-1680), autor das colunas da praça São Pedro, no Vaticano, e Francesco Borromini (1599-1667), de origem suíça e responsável por alguns dos maiores exemplos do barroco romano. A Bernini coube restaurar as fontes instaladas por ordem de Gregório XIII, e, construir no centro da praça, a enorme Fontana Dei Quattro Fiumi. A Borromini coube a igreja de Santa Agnese in Agone. Inocêncio X renovaria ainda, o palácio de sua família. É desta época a imponente estrutura barroca que eternizou a arquitetura da Piazza Navona.

As Três Fontes

Três fontes traduzem a beleza barroca da Piazza Navona: a Fontana Dei Quattro Fiumi, a Fontana Del Nettuno e a Fontana Del Moro. Entre elas há uma harmonia arquitetônica que foi formada por um planejamento urbano bem sucedido através dos séculos.
A Fontana Dei Quattro Fiumi, é maior das três fontes, localizada no centro da praça. Na fonte dos rios, Bernini projetou quatro estátuas representando os rios dos quatro continentes: o Nilo, o Danúbio, o rio da Prata e o Ganges. As estátuas estão montadas sobre um obelisco egípcio, sendo circundadas por leões e outros animais fantásticos, tendo no cume uma pomba em bronze, símbolo da paz no mundo e da família Pamphili. Para realçar a rivalidade entre Bernini e Borromini, que fez a igreja de Santa Agnese, os romanos criaram uma lenda em torno da fonte dos rios, que fica em frente a esta igreja. Segundo os romanos, as estátuas duvidam da solidez do projeto de Borromini. A que retrata o rio da Prata, tem a mão erguida, a proteger o corpo do desabamento da igreja; a que retrata o Nilo, traz a cabeça coberta por um véu, a recusar a ver a obra de Borromini.
A Fontana del Nettuno, também conhecida como Chafariz de Calderai, foi construída em 1574, com projetos e desenhos de Giacomo Della Porta. Está situada na parte norte da praça. Em 1878 foi lançado um concurso para que se criasse estátuas que harmonizassem esta fonte com a de Bernini. Venceram o concurso Gregory Zappala e Antonio Della Bitta. Zapalla criou a escultura “A Nereida com Querubins e Cavalos Marinhos”, e, Bitta criou a escultura “Netuno Luta Contra um Polvo”, que traz como tema um confronto físico, já existente na estátua da Fontana Del Moro. Criou-se assim, uma consonância estilística entre as estátuas desta fonte e às das outras duas. Depois das intervenções de Zapalla e Bitta, a fonte passou a chamar-se Fonte de Netuno.
A Fontana del Moro está localizada ao sul da Piazza Navona. Tem este nome devido à representação de um etíope (mouro) a lutar com um golfinho. A obra foi projetada por Bernini, para dar conclusão à fonte de Giacomo Della Porta, construída em 1576, e esculpida por Giovanni Antonio Mari, em 1654. A estátua do etíope é acompanhada por tritões e máscaras, que são cópias das originais hoje postas em algumas fontes dos jardins da Villa Borghese.

A Igreja de Santa Agnese

Além das fontes, a igreja de Santa Agnese faz da Piazza Navona um dos pontos emblemáticos de Roma. Nas linhas barrocas da sua arquitetura, a tradução de um desafio arquitetônico ímpar entre Bernini e Francesco Borromini, artistas imprescindíveis na história da capital italiana, que na primeira metade do século XVII redesenharam lugares míticos de Roma.
Borromini trabalhou sobre um projeto inicial de Carlo Rainaldi, fazendo uma intervenção decisiva e singular no que é igreja de Santa Agnese in Agone, entre 1653 e 1657. Ao construir a fachada da igreja de forma côncava para criar um efeito óptico que ampliasse o desenho da cúpula, gerou-se uma controversa na ocasião, que por ser uma novidade arquitetônica, desencadeou críticas mordazes, e a suspeita popular de que a fachada da igreja não se sustentasse diante do peso. O tempo provou o contrário, quase quatro séculos depois de construída, Santa Agnese in Agone continua imponentemente de pé. Emblemática, a Piazza Navona, é visitada por turistas de todo o mundo. Além das fontes e monumentos, vendedores ambulantes, pintores, artistas de entretenimento, compõem a paisagem do local. A Piazza Navona continua a ser um grande teatro fulgente da Cidade Eterna.
 
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Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009

HOSPITAL REAL DE TODOS OS SANTOS

 

 

Quando em 1755, um grande terremoto assolou a cidade de Lisboa, a catástrofe levou a maior parte medieval da cidade. Entre os monumentos perdidos, estava o Hospital Geral de Todos os Santos, que por mais de 250 anos foi o maior hospital de Portugal. Além de ter sido um grande monumento arquitetônico, o hospital foi responsável pelo desenvolvimento da medicina no país lusitano.
Nascido de uma antiga concepção de Dom João II, em 1479, o Hospital Real de Todos os Santos teve algumas lendas criadas em torno da sua construção, como a de que fora amaldiçoado pelos mouros e judeus, porque as pedras da sua construção teriam vindo em parte, de campas e cabeceiras de jazigos de mouros e do cemitério dos judeus, o que não é verdade, visto que a sua construção iniciou-se em 1492. Quando da expulsão dos mouros e judeus de Portugal, em dezembro de 1496, as obras já iam adiantadas, o que inviabiliza esta hipótese.
Amaldiçoado ou não, a verdade é que, coincidentemente, o hospital foi destruído em 1 de novembro de 1755, após o grande terremoto, seguido por um incêndio, ou seja, no seu dia, o dia de todos os santos. Pouco mais de cinco séculos após a sua construção, o Hospital Real de Todos os Santos merece ser lembrando pelo seu esplendor arquitetônico e pela sua imensa importância histórica.

Um Longo Caminho Até o Lançamento da Primeira Pedra

Com o fim da Idade Média, as pequenas instituições de beneficência, sustentadas por conventos ou de legados pios deixados por nobres beneméritos, entram em decadência, dando lugar a grandes hospitais centrais. Essas instituições rudimentares medievais eram, ao mesmo tempo, hospitais, albergarias e hospícios. Os hospitais centrais tinham rendimentos próprios, acrescidos dos rendimentos dos pequenos hospitais neles incorporados. Os primeiros hospitais centralizados surgiram nos reinos italianos, como o Hospital de Santa Maria Nuova, de Florença, que surgiu no século XIII, sendo modernizado no século XV. Havia ainda, o Hospital do Espírito Santo, em Roma, o Hospital Maggiore de Milão, e o Hospital de Santa Maria, em Siena. Estes hospitais serviram de modelo para o (ainda) príncipe Dom João, que idealizou fundar um grande hospital em Lisboa, reunindo os bens de 43 instituições de assistência existentes em Lisboa e nos arredores. Como os rendimentos dessas instituições eram próprios e geridos pela igreja, era preciso da autorização papal para concentrá-las em uma só. Em 1479, o Príncipe Perfeito consegue autorização concedida pelo papa Sisto IV, através da bula Ex debito sollicitudinis officio pastoralis, para a construção de um grande hospital real.
O Príncipe Perfeito sobe ao trono em 1481, como Dom João II, já com a idéia da construção do “Hospital Grande”. A demora na concretização do projeto, faz com que a bula assinada por Sisto IV não tenha mais valor depois da sua morte, em 1484. Somente em 1486 a autorização é confirmada, através da bula Iniunctum nobis desuper, chancelada pelo papa Inocêncio VIII. Concentrar todas as instituições em uma só levaria o seu tempo. Em 15 de Maio de 1492, numa cerimônia no Rossio, Dom João II lança a primeira pedra para a construção do Hospital Real de Todos os Santos.

Pleno Funcionamento em 1504

O local escolhido para a edificação do hospital foi nos terrenos da horta do mosteiro de São Domingos, lado oriental do Rossio. O autor de tão imponente monumento, não se sabe ao certo, mas há um consenso de historiadores que seria de Diogo Boytoc, o arquiteto do mosteiro dos Jerónimos.
Desde a sua fundação, no início da sua construção, em 1492, por nomeação régia, foram escolhidos o provedor, o vedor e o escrivão, sendo o primeiro provedor Estevão Martins, mestre da Escola da Sé de Lisboa.
As obras já iam adiantadas, quando Dom João II morreu, em 1495, cabendo a seu sucessor, Dom Manuel, terminar o hospital. Fazia parte das disposições testamentárias de Dom João II que o seu sucessor concluísse o “Hospital Grande” de Lisboa, e que o seu regimento fosse inspirado nos hospitais de Florença e Siena.
Dom Manuel continuou as obras do hospital, concluindo as instalações hospitalares e construindo a fachada voltada para o Rossio. Já em 1497 o provedor despachava do hospital, apesar de ele levar alguns anos para ser inaugurado. Há documentos que registram que em 1498, houve ali uma reunião da Câmara. Neste ano as obras seriam novamente interrompidas devido à ausência de Dom Manuel, que acompanhou a sua mulher grávida, a rainha Dona Isabel, filha dos reis católicos, Fernando e Isabel, à Espanha. Ali a Dona Isabel seria jurada herdeira do trono dos reinos da Espanha unificada.
Não se sabe ao certo em que ano o hospital começou a receber os primeiros doentes. Há registros que apontam para o ano de 1501, quando teria recebido os desalojados dos hospitais extintos. É de 1502 a data da nomeação da maioria do pessoal que trabalharia no hospital: um físico (mestre Delymilam, que por não ser suficientemente competente, seria substituído por mestre Jorge Físico Solorgião, em 1509), dois cirurgiões, um boticário, quatro enfermeiros e uma enfermeira, além dos seus ajudantes. Mas a data de seu pleno funcionamento seria 1504.

Consumido Pelos Incêndios e Pelo Terremoto

Quando em pleno funcionamento em 1504, o edifício do Hospital Real de Todos os Santos ocupava um quadrilátero aproximadamente coincidente com os limites da antiga Praça da Figueira e a atual Praça Dom João I, ficava enquadrado, a poente, pela Praça do Rossio (sobre o qual avançava a sua escadaria); a norte, pelo convento de São Domingos com o qual se ligava através do alpendre de arcarias, interpondo-se, entretanto, entre os dois monumentos, um conjunto de edificações, dos quais sobressaía a ermida de Nossa Senhora do Amparo; ao sul, pela Rua da Betesga; pelo nascente, entestava com as casas dos condes de Monsanto.
O Hospital Real de Todos os Santos era um dos mais antigos da Europa, com uma planta cruciforme, adotou as inovações introduzidas em estabelecimentos congêneres dos reinos italianos no decurso do século XV, e era, para a sua época, uma grandiosa e moderna instituição, de um belo edifício arquitetônico.
O imponente hospital serviu à medicina e aos doentes de Lisboa por mais de 250 anos. No decorrer desses anos a sua riqueza e beleza foram sendo consumidas, aos poucos, pelos sucessivos incêndios de 1601, 1750 e 1755. Depois do terremoto de 1755 e do incêndio que se lhe seguiu, o hospital ficou profundamente danificado, ficando os seus enfermos sob as barracas do Rossio, e, depois, nas cocheiras do Palácio do Conde de Castelo-Melhor. Foram feitas algumas obras de remedeio, que lhe permitiu funcionar até 1963. Após um período de hesitação entre a restauração do hospital ou a sua transferência para outro local, optou-se em 1775, pela transferência para o antigo Colégio de Santo Antão-o-Novo, que ficou devoluto desde a expulsão dos jesuítas. Em homenagem ao rei da época, Dom José I, que executou a transferência e as obras de adaptação, o Hospital Real passou a denominar-se Hospital de São José.
O antigo Hospital Real de Todos os Santos, fundado em 15 de Maio de 1492, por Dom João II, no Rossio, foi definitivamente extinto, melancolicamente, no dia 1 de Novembro de 1755, dia do grande terremoto que assolou Lisboa, dia de todos os santos.
 
 
 
 

 

 
 
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Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009

OS TEATROS DA SÃO PAULO DOS BARÕES DO CAFÉ

 

 

Em meados do século XIX, São Paulo era uma cidade bucólica, a sua população dormia cedo, e tinha como atração principal da sua vida noturna, os saraus de poesia na casa das moçoilas. Com o poder econômico gerado pelo ciclo do café, e mais tarde, com chegada da luz elétrica, os paulistanos passaram a conhecer novos hábitos noturnos, com uma boemia centrada nos bares e nos cabarés. A época dos barões do café muda drasticamente a arquitetura da cidade, feita de ruas estreitas, iluminadas a gás, transitadas por pequenos bondes carregados por burros. A partir da segunda metade do século XIX, São Paulo atinge o porte de uma cidade média. A cidade cresce culturalmente, procurando assimilar e adaptar para si os modismos internacionais. É a descoberta do teatro e da ópera, que se tornam imprescindíveis na construção cultural de uma nova sociedade ascendente.
É nesta época que São Paulo ganha casas de teatros famosas, que darão forma ao conteúdo da sua nova forma de delinear e de viver a boemia, a noite cultural. Em 1864, no local onde é hoje a Praça João Mendes, nos fundos da catedral da Sé, é aberto o Teatro São José, o mais famoso teatro que a cidade já tinha visto até a inauguração do Teatro Municipal, em 1911. Em 1873, viria o Teatro Provisório, na rua Boa Vista, que deu lugar ao Teatro Santana. O Politeama, na Ladeira do Acu, depois rua São João, e finalmente, avenida São João, surgiu em 1892. O Moulin Rouge, nas imediações do Largo do Paissandu. Em 1908, foi a vez do Teatro Colombo, no largo da Concórdia, no Brás. Com o incêndio do Teatro São José, em 1898, um novo prédio é feito no Morro do Chá, onde o teatro é inaugurado em 1909. Em 1911, o paulistano tem a sua apoteose teatral com a inauguração do Teatro Municipal. Na década dos 1920 surgiria o belíssimo Teatro Santa Helena. Com a vinda do cinema, muitos teatros tornaram-se salas de exibição da sétima arte. Dos velhos teatros paulistanos descritos aqui, apenas o Teatro Municipal sobreviveu até os dias atuais, os outros tiveram os seus prédios demolidos ou incendiados, ou simplesmente desapareceram, engolidos pelo tempo e pela história.

Casa da Ópera, o Primeiro Teatro de São Paulo

A história do teatro em São Paulo está ligada à sua fundação, que remete ao padre Anchieta. O jesuíta fundador utilizava recursos teatrais na catequização dos índios, encenando para eles autos de cunho religioso. As encenações dos autos ocorriam ao ar livre, no local genético da cidade de São Paulo, o Pátio do Colégio. Muitos anos separariam a data da fundação da cidade, as encenações teatrais de Anchieta e a primeira casa de teatro. Relatos apontam para o século XVII, o aparecimento do primeiro prédio de teatro da capital paulista, chamado de Casa da Ópera, localizado no que é hoje a rua de São Bento. Segundo relatos, o prédio ficava entre São Bento e o antigo Largo do Rosário, hoje praça Antônio Prado. Por questões morais e preconceitos da época, em meio aos manifestos contrários ao seu funcionamento, este pequeno teatro foi obrigado a fechar.
No século XVIII, quando dom Luís Antonio de Sousa Botelho e Mourão, o Morgado de Mateus, era governador general da capitania de São Paulo (1965 a 1775), famoso por conceder em 1767, o título de coronel a Santo Antonio, surgiria aquele que é considerado o primeiro teatro oficial de São Paulo. Seria instalada na Casa da Fundição, nos baixos do Palácio do Governo, no Pátio do Colégio, uma sala de espetáculos para 350 pessoas, chamada de Casa da Ópera.
A Casa da Ópera do Pátio do colégio (local aproximado de onde está instalada a Caixa Econômica Estadual), tinha uma construção rudimentar para uma casa de espetáculos, com três portas no rés do chão e três janelas no primeiro andar. Trazia no interior, à altura do saguão, duas escadas, que davam, uma para o camarim governamental e outra aos 28 camarotes, divididos em três ordens. Na platéia havia bancos simples. A iluminação era feita por velas de cera e candeeiros de azeite doce.
Foi na Casa da Ópera, do Largo do Colégio (na fotografia acima, do Pátio do Colégio, a igreja e o colégio, tendo à esquerda, o prédio da Casa da Ópera, em 1861), que dom Pedro I, ao proclamar a independência do Brasil, em 7 de setembro de 1822, foi aclamado pelo povo, rei do Brasil. Com a inauguração do Teatro São José, em 1864, e outras casas de diversão em São Paulo, a Casa da Ópera entrou em decadência, sendo decretado por volta de 1870, que seria demolido o seu prédio. No seu lugar, em 1881, foi lançada a pedra fundamental do prédio da Tesouraria da Fazenda.

Teatro São José

Criado para ser um teatro nos molde dos europeus, o Teatro São José, construído no Largo Municipal (atual Praça João Mendes), foi inaugurado na noite de 4 de setembro de 1864, com a apresentação da peça “A Túnica de Nessus”, do estudante de direito Sizenando Nabuco, irmão de Joaquim Nabuco.
O Teatro São José do Largo Municipal, ainda estava inacabado no dia da sua inauguração, só finalizando as obras dez anos depois.
Nos palcos do Teatro São José, grandes espetáculos de óperas e dramas foram encenados, por lá passaram as melhores companhias da época. No seu apogeu, o São José recebeu a famosa atriz de origem portuguesa, Eugênia Câmara e o seu grande amor, o poeta Castro Alves. Por lá também passaram: Sarah Bernhardt, as pregações abolicionistas de Antonio Bento e Arthuro Toscani.
Na noite de 15 de fevereiro de 1898, um grande incêndio destruiu o Teatro São José. São Paulo despertou com os sinos das igrejas a anunciar o grande incêndio, quando o sol nasceu, o Teatro São José já não existia, deixando a cidade desprovida de um grande teatro. A partir do incêndio, o Largo do Comércio passou a ser chamado de Largo do Teatro, mais tarde de Praça João Mendes.
Diante da catástrofe, um novo Teatro São José (foto ao lado) passou a ser construído. Feito do projeto do arquiteto Carlos Eckman, foi inaugurado no dia 28 de dezembro de 1909, em um novo local, no morro do Chá. O novo Teatro São José, ao lado do Viaduto do Chá, trazia um prédio imponente, com um grande salão, dois anos depois, em frente a ele, surgiria o Teatro Municipal. O São José do Viaduto do Chá existiu até 1924, quando foi demolido para a construção do Edifício Alexandre Mackenzie, nova sede da Light & Power, depois Eletropaulo, na esquina da Rua Coronel Xavier de Toledo com o Viaduto do Chá.

Teatro Politeama

Segundo cronistas, a antiga Ladeira do Acu, depois Rua de São João (atual Avenida São João), era uma rua estreita de velhas quitandas e botequins que ladeavam o Teatro Politeama, que trazia a paisagem bucólica de fogareiros de lata de querosene na porta, assando castanhas, costume herdado da colonização portuguesa.
Registra-se sobre o edifício do Teatro Politeama (na foto a segunda porta à direita, entrada do Politeama ao lado do Cassino Paulista), como um grande barracão acaçapado, coberto de zinco, com uma pequena porta de acesso na Rua São João, à altura da Avenida Anhangabaú, outra porta de serviço, na Rua Formosa. O barracão de zinco tinha sido construído para abrigar o circo de Frank Brown. Apesar de seu prédio sem glamour, era o teatro de melhor acústica de São Paulo. O Politeama foi palco dos melhores espetáculos que marcaram culturalmente a cidade, em especial o Vale do Anhangabaú, que a partir dele tornou-se sede da vida noturna da Paulicéia. Nele efetuaram-se os mais diversos gêneros de espetáculos: cafés-concerto, circenses, atuações de grandes companhias estrangeiras de todos os gêneros, dramático, lírico e de opereta. Foi nos palcos do Politeama que a grande Sarah Bernhardt, em outubro de 1905, faria a sua última apresentação em palcos paulistanos. Nessa tournée ao Brasil, a atriz sofreu um acidente nos palcos do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, responsável pela amputação futura da sua perna.
O Politeama foi a casa de espetáculos que mais caracterizou a cultura tipicamente paulistana da época.

Moulin Rouge

O antigo Rinque de Patinação, foi mais tarde transformado no Moulin Rouge, um cabaré que marcou a vida noturna de São Paulo na virada do século XIX e início do século XX. Localizava-se na Avenida São João, nas proximidades do Largo do Paissandu. Funcionava em um casarão onde hoje está o prédio da Secretaria de Cultura, na esquina com a rua Dom José de Barros.
O Moulin Rouge (fotografia ao lado, do casarão do Largo do Paissandu, de um cartão postal do início do séculoXX), devido à sua localização privilegiada, foi de grande importância para a vida noturna do centro de São Paulo, sendo frequentado por grande parte dos paulistanos. Tinha um estilo de café-concerto, inspirado nos cafés parisienses. Gerou personagens míticos da vida noturna paulistana, como Garibaldi, um italiano de longas barbas, taxista amigo de todos, transportava os freqüentadores da boemia da cidade, entre eles, os bêbados e os casais formados na noite.
O casarão do Moulin Rouge tornar-se-ia, em 1905, o Teatro Carlos Gomes, que por sua vez, cederia lugar ao Teatro Variedades. Quando a Rua de São João foi alargada, tornando-se uma avenida, novamente mudou o nome para Teatro Avenida, que finalmente, tornar-se-ia o Cine Avenida, famoso por suas sessões duplas.

Teatro Santana

O poder do café transformava a cidade de São Paulo. O apogeu do ciclo cafeeiro deu-se de 1880 a 1930. Com o dinheiro do café, a burguesia ascendente necessitava de uma lapidação cultural, para firmar-se e ser aceita pelas famílias tradicionais. O paulistano necessitava cada vez mais de abrir novos espaços culturais, que os fizesse similar às grandes culturas européias. O teatro, pouco antes da chegada dos animatógrafos, era uma busca constante da São Paulo dos barões do café.
No dia 23 de agosto de 1873, inaugurou-se mais um teatro, o Teatro Provisório Paulistano, situado em um casarão, na Rua Boa Vista. O teatro traz uma mudança sócio-cultural à rua durante décadas, que nos dias atuais esvaiu-se por completo. O antigo Teatro Provisório Paulistano foi comprado pelo industrial Antonio Álvares Penteado, que o demoliu, para a construção de um outro teatro em seu lugar.
Mal o século XX mostrava o seu alvorecer e, no lugar do Teatro Provisório Paulistano, surge o Teatro Santana, inaugurado na noite de 26 de maio de 1900. Ali permaneceria até 1911. O Teatro Santana, por iniciativa de Antonio Álvares Penteado, foi transferido do casarão da Rua Boa Vista (demolido em 1912), para um edifício com projeto de Max Hehl, situado na Rua 24 de Maio, sendo inaugurado em 25 de abril de 1921. Era um prédio pequeno e elegante, com três bares. Sem fins lucrativos, era alugado por seus donos, o Conde Silvio Álvares Penteado e Armando Álvares Penteado, diretamente para as companhias teatrais, sem empresários. O Teatro Santana da Rua 24 de Maio foi demolido em 1960.

Teatro Colombo

O Teatro Colombo foi uma resposta das classes menos favorecidas à elitização dos teatros paulistanos, e dos preços exorbitantes cobrados pelas bilheterias. Localizado no Largo da Concórdia, no Brás, o Teatro Colombo, foi inaugurado em 19 de fevereiro de 1908. Pertencia à Companhia Dramática Italiana, e resultou da adaptação de um antigo mercado que havia no local. Tinha uma capacidade de 1968 lugares, contando com 39 camarotes e 24 frisas. Tinha ainda, as cadeiras de platéia e três arquibancadas, comportando 260 lugares em pé.
O Teatro Colombo foi palco de grandes manifestações de trabalhadores e grupos de tendência anarquista. Era conhecido como o local de reunião das famílias dos bairros industriais e populosos, por praticar preços ao alcance das classes operárias. Por seus palcos passaram companhias dramáticas, líricas e de operetas. O famoso Caruso apresentou-se para a sua platéia.
Com chegada do cinema, o Teatro Colombo foi transformado em uma grande sala de exibição de filmes. Uma sala que fez parte da história do Brás e da cidade de São Paulo. Em 1966, um incêndio destruiu-o completamente.

Teatro Santa Helena

O Teatro Santa Helena estava localizado no térreo do Palacete Santa Helena, na Praça da Sé. O edifício foi iniciado em 1922, e concluído em 1925. Através do Palacete, podia definir-se a paisagem da arquitetura paulistana da década vinte. Foi projetado pelo arquiteto italiano Corberi, executado pelo escritório técnico de engenharia Luis Asson.
No prédio reuniam-se célebres artistas plásticos, formando o que ficou conhecido como Grupo do Santa Helena, composto por Francisco Rebolo, Di Cavalcanti, Mario Zanini, Alfredo Volpi, Clóvis Graciano, Manuel Martins, Aldo Bonadei, Penacchi e outros, cujo lema era romper com as regras do academismo e retratar temas do cotidiano popular.
Além do Teatro, o prédio abrigou em várias épocas distintas, ateliês, sedes de sindicatos (dos Metalúrgicos, dos Artistas Plásticos, dos Empregados do Comércio), além de uma célula do Partido Comunista Brasileiro.
O Teatro Santa Helena foi transformado em sala de cinema. Nos anos trinta, passear pela Praça da Sé fazia parte do lazer do paulistano. Assistir filmes no cine-teatro Santa Helena, era um salutar e agradável costume da elite. A sala possuía decoração art nouveau, com escadarias de mármore de Carrara, vidros e espelhos franceses. O cine-teatro foi fechado em 1971, pouco antes do Palacete Santa Helena ser demolido para dar lugar à Estação Sé do Metropolitano.

Teatro Municipal

Com o incêndio do Teatro São José, em 1898, a idéia da construção de um grande teatro em São Paulo cresceu, fazendo o paulistano ansiar por uma casa de espetáculos grandiosa, com inspiração no Teatro da Ópera de Paris.
Em 1903, a Câmara Municipal de São Paulo desapropriou o terreno do Morro do Chá, iniciando naquele ano, as obras de um grande teatro, sobre um projeto de Cláudio Rossi, com desenhos de Domiziano Rossi, sendo Ramos de Azevedo o responsável pela construção. As obras finalizariam em 30 de agosto de 1911. Surgia, assim, no coração de São Paulo, um edifício imponente e luxuoso, com armadura de ferro de Düsseldorf; ferro artístico de Frankfurt; bronze artístico de Berlim, Paris e Milão; mosaicos de Veneza; mosaicos de pavimento de Nova York e Berlim; mármores de Siena, Verona e Carrara.
No dia 12 de setembro de 1911, o Teatro Municipal foi inaugurado, com o drama lírico Hamlet, cantado pelo barítono italiano Titta Ruffo. Desde então, grandes artistas passaram pelos palcos do teatro: Enrico Caruso, Isadora Duncan, Anna Pavlowa, Nijinski, Mikhail Baryshnikov, Clara Della Guardia, Itália Fausta, Vivien Leigh, Arthur Rubinstein, Maria Callas, Duke Ellington e Ravi Shankar, entre tantos.
Quase 100 anos depois da sua inauguração, o Teatro Municipal, criado para atender principalmente, às óperas, continua a ser o maior teatro de São Paulo, e um dos melhores do mundo. Assim como no dia da sua inauguração, continua a ser um teatro voltado para a elite, devido ao valor cobrado ao público por seus espetáculos. Grande parte do paulistano nunca entrou no Teatro Municipal.
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Quarta-feira, 7 de Janeiro de 2009

SANTO ANTÓNIO E SÃO VICENTE, OS SANTOS PADROEIROS DE LISBOA

 

 

No dia 13 de Junho, data que se comemora o dia de Santo Antônio, acontece na cidade de Lisboa a sua maior festa. As chamadas marchas populares, que explodem em um grande desfile alegórico, do qual participa todos os bairros da cidade, desfilam na noite do dia 12 de junho pela Avenida da Liberdade. Pelos bairros de Lisboa, ainda é costume do povo reunir-se à porta de suas casas a assar sardinhas e reparti-las com quem por ali passar. Diz-se popularmente que toda a Lisboa cheira a manjericão e à sardinha assada durante as comemorações da maior festa da cidade. Além da apoteose das marchas populares, grupos folclóricos costumam fazer apresentações por diversos pontos de Lisboa. O feriado do dia 13 de junho é a homenagem do alfacinha (como é conhecido o lisboeta) ao Santo padroeiro da cidade.
Mas Santo Antônio é mesmo o santo padroeiro da capital portuguesa? Curiosamente a resposta é negativa. São Vicente é o verdadeiro santo padroeiro de Lisboa, apesar de grande parte da população lisboeta não saber. O dia de São Vicente, padroeiro de Lisboa, é comemorado em 22 de janeiro. Não fosse a celebração habitual da diocese da cidade, a data passaria em branco para a maioria dos lisboetas. Ao contrário do que acontece em outras cidades do mundo de identidade cristã católica, cujo dia do santo padroeiro é feriado, em Lisboa não o é. Santo Antônio é para o alfacinha, o seu santo padroeiro. Este equívoco histórico, religioso e popular tem as suas raízes nos primórdios da nação portuguesa, na época do seu primeiro rei, Dom Afonso Henriques, uma história que merece ser contada e conhecida por todos.

São Vicente de Saragoça, Inspiração ao Brasão de Lisboa

São Vicente de Saragoça, ou São Vicente de Fora, nasceu em Huesca, em Aragão (atual Espanha). Não se sabe a data do seu nascimento, os relatos apontam a sua existência de vida no fim do século III e início do século IV. A história deste santo chegou aos dias de hoje mais em forma de lenda do que em dados documentais. Reza a lenda que Vicente teria deixado Huesca ainda criança para viver em Saragoça.
São Vicente foi contemporâneo do imperador romano Diocleciano. Roma estendia o seu vasto império até a península Ibérica. Durante o seu reinado, Diocleciano reabilitou as velhas tradições romanas, incentivando o culto dos deuses antigos, proibindo o culto do cristianismo, iniciando aquela que seria vista pelos historiadores como a penúltima perseguição do Império Romano ao cristianismo. Em fevereiro de 303, Diocleciano promulgou um edito imperial que ordenava a destruição geral de igrejas e objetos de culto dos cristãos, ordenou que toda a população do Império fizesse sacrifícios aos deuses romanos. Durante esta perseguição aos cristãos, Vicente, devotado cristão, recusou-se a obedecer às ordens imperiais de oferecer sacrifícios aos deuses pagãos. Por sua recusa, teria sido cruelmente martirizado até a morte, em 304. Após o martírio, o corpo de Vicente teria sido atirado aos animais, mas foi protegido por um corvo de ser devorado. Esta proteção teria sido vista pelos cristãos como um milagre, foi-lhe erguida em homenagem, uma igreja, e Vicente passou a ser cultuado como santo.
Com o fim do Império Romano, a península Ibérica sofreu a invasão dos mouros. Durante a época desta invasão, os muçulmanos, em 713, puseram o corpo de São Vicente em um barco e o deixaram à deriva no mar. O barco, levando as relíquias do martirizado, foi dar ao Promontorium Sacrum (Promontório Sacro, Cabo de Sagres, Portugal), que se passou a chamar Cabo de São Vicente. Os cristãos que aí viviam sob o domínio dos mouros, recolheram o corpo, transportando-o para uma ermida erguida em sua homenagem. Durante alguns séculos o culto a São Vicente alastrou-se por todo o território que seria futuramente o reino de Portugal.
Dom Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, foi quem decidiu resgatar o corpo de São Vicente aos sarracenos, que dominavam Sagres nessa época. Sob as ordens de Dom Afonso Henriques, as relíquias do santo foram levadas para Lisboa. Diz a tradição da lenda que, quando o corpo seguiu no barco, dois corvos o acompanharam a velar-lhe. As relíquias, transferidas de Sagres para uma igreja fora das muralhas de Lisboa, geraram uma intensa veneração dos habitantes daquela cidade por São Vicente, que em 1173, foi proclamado o santo padroeiro de Lisboa. O corvo, ave da lenda do santo martirizado em Valência, foi adotado como símbolo do brasão de Lisboa, permanecendo até os dias atuais.


Santo Antônio de Lisboa, Aclamado Padroeiro Pelo Povo

A história de Santo Antônio é quase da idade da história de Portugal. Oficialmente, o reino de Portugal teve a sua origem em 1139. Santo Antônio teria nascido no dia 15 de agosto de 1195, pouco mais de cinqüenta anos da formação da identidade da nação lusitana.
Nascido Fernando Martins de Bulhões, em Lisboa, no local onde hoje existe a cripta da sua igreja. Fernando era filho de uma família de pequena nobreza, foi batizado na Catedral de Santa Maria Maior, Sé de Lisboa. Aos 15 anos entrou para o mosteiro de São Vicente de Fora, pertencente à Ordem dos Cônegos Regrantes de Santo Agostinho.
Fernando, cônego professo, deixou Lisboa à procura de maiores conhecimentos teológicos, indo, aos 17 anos, para o mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, ordenando-se sacerdote, sendo-lhe destinado o cargo de irmão-porteiro. Teria sido em Coimbra que começara a preparação dos sermões. De volta a Lisboa, Fernando entrou em contacto com os frades mendicantes franciscanos, dessa aproximação, ele decidiu pelo seu projeto de vida, vencendo assim, a busca espiritual sobre a satisfação intelectual. Em 1220, Fernando Martins obteve autorização para passar de Cônego Regrante a Frade Menor, adotando definitivamente o nome de Antônio, em homenagem a Santo Antão Abade e Ermita.
É como frade menor, que Antônio parte como missionário para o norte da África. Em 1222 já está em Assis, durante o primeiro Capítulo Geral dos Franciscanos ou Capítulo das Esteiras, iniciado no Pentecostes de 1221. Investido pelo próprio São Francisco, que lhe chamou seu Bispo, percorreu o norte da Itália e o sul da França, com a missão de pregar e ensinar aos frades.
Já doente, em Pádua, Antônio reiniciou o ensino e a escrita dos seus Sermões Dominicais e Festivos. Em 1230 a debilitação da sua saúde obriga-o a pedir dispensa do cargo no Capítulo de Assis. Em 1231, morre a caminho de Pádua, em Arcella, numa sexta-feira de 13 de junho. A sua morte traz uma comoção entre a população, que lhe velam o corpo por cinco dias, sendo enterrado apenas na terça-feira, dia que foi definitivamente consagrado ao santo. Desde então, ficou a ser conhecido como Santo Antônio de Pádua, só sendo conhecido como Santo Antônio de Lisboa nos países de língua portuguesa.
A canonização de Santo Antônio aconteceu em maio de 1232, sendo a mais rápida da história da igreja romana, que lhe valeu uma menção no Guiness Book. Em 1934 o papa Pio XI proclamou o santo o segundo padroeiro de Portugal, ao lado de Nossa Senhora da Conceição. Em 1946, o papa Pio XII declarou-o Doutor da Igreja Católica. Com o correr dos séculos, os lisboetas passaram a cultivar seu santo nativo, popularizando o seu culto, que ofuscou ao culto a São Vicente. Santo Antônio foi proclamado pelo povo de Lisboa como o santo padroeiro. Para a igreja católica portuguesa, oficialmente São Vicente é o santo padroeiro da cidade de Lisboa. A perda de identidade deste santo com a população deve-se ao fato de Santo Antônio ter nascido em terras lusitanas, tornando-se uma das figuras mais importantes da história portuguesa. Mais de 800 anos se passaram do nascimento de Santo Antônio, tempo suficiente para o esquecimento a São Vicente, só revelada no registro do brasão de Lisboa, que traz o corvo como símbolo. Este desencontro histórico entre o padroeiro real e o padroeiro eleito pelo povo, acirra-se à medida que o tempo passa. Enquanto isto, Lisboa vive o ludismo religioso de ter os seus dois santos padroeiros.
 
 
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Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2008

O ENCANTO DE GAL COSTA NA VIRADA CULTURAL

 

 

Em 2005, São Paulo ganhou um grande presente, a Virada Cultural, que consiste em 24 horas seguidas de eventos culturais (shows de música, pirotécnicos, teatro, dança e muitas outras atrações), que acontecem por toda a cidade, transformando-a em uma grande atração cultural. Sua primeira realização foi de 19 a 20 de novembro daquele ano. O evento foi tão bem sucedido, que passou a ser tradição na cidade de São Paulo. Inspirada nas noites brancas européias, a Virada Cultural assumiu características tipicamente paulistanas e se tornou uma das maiores movimentações culturais do mundo. A Virada Cultural é uma iniciativa da Prefeitura de São Paulo, realizada pela Secretaria Municipal de Cultura, com o apoio da SPTuris, Sesc e Secretaria de Estado da Cultura. Tornou-se uma confraternização pacífica do paulistano, com exceção dos incidentes acontecidos na Praça da Sé, em 2007, que resultou em brigas e depredações de algumas lojas. Este ano, a Virada Cultural, na sua quarta edição, aconteceu de 26 a 27 de abril. A sua maior atração foi o show “Voz e Violão”, da cantora Gal Costa, acompanhada pelo violão de Luiz Meira. Um show intimista, em palco montado na Praça Júlio de Mesquita, na esquina com a Avenida São João, que comoveu os paulistanos. É da sensação causada pelo show, pela embriaguez da voz de sereia de Gal Costa, que faço o relato abaixo.

Gal Costa na Avenida São João, por Jeocaz Lee-Meddi

Quando cheguei à Avenida São João, vi um ambiente morno depois de um show da excelente cantora caboverdiana Cesária Évora. Temi pela segurança, pois o centro de São Paulo foi vítima do vandalismo de baderneiros no último show da Virada Cultural, em 2007. Temi por Gal Costa. Já a tinha visto em um show do gênero, no Ibirapuera, em um domingo de novembro de 2005, mas nunca na convulsão do centrão de São Paulo à noite.
Desde agosto do ano passado, quando deixei São Paulo para em Goiânia, com mais tranqüilidade, escrever o meu novo livro, que não via a cidade e trocávamos cumplicidades. Lembrei-me do ano de 1998, estava na cidade do Porto, em Portugal, quando Gal Costa iria com o seu show “Acústico”, fechar a Expo’98, grande evento cultural, o último do século XX na Europa. Não poderia deixar de ver Gal Costa. Para meu desespero, não consegui viajar em nenhum trem rápido do Porto a Lisboa, pois, devido ao encerramento da Expor, estavam lotados. Tive que me contentar em ir num trem que parava de aldeia em aldeia, fazendo uma viagem de quatro horas durar quase nove. Era outubro, de um outono frio do hemisfério norte. Cheguei à Expor, estava insuportável, abarrotada de gente. Debaixo de chuva assisti ao show de Gal Costa. Linda! Pensei comigo, é última vez que faço tanto sacrifício para ver um show de Gal Costa. Mero engano, neste fim de semana, vi-me a fazer exatos 900 quilômetros, de Goiânia a São Paulo, para mais uma vez, ver Gal Costa. Já tinha saudades de vê-la no palco. Saudades de uma vida, eternas, pois acompanho os seus shows desde os meus 16 anos. Aqui, na Europa, em qualquer lugar.
Cansado da viagem, encontrei-me com alguns amigos jornalistas e com amigos aqui da comunidade. Ansioso, não via a hora de começar o show. Pensei, que loucura, andar tanto para ver um show de voz e violão que até já vi. 21 horas da noite paulistana e ainda estava tudo calmo. Gal Costa chegou ao palco. Chegou toda de branco, jovial, alegre, como uma menina de 62 anos, a mostrar para nós o seu novo corte de cabelo. Parecia uma criança, como se a perguntar para o seu público: “Gostaram?” Se gostei. Via nela um brilho nos olhos que me acostumei a ver desde o primeiro show “Gal Tropical”. Pensei, esta é a minha Gal, está de volta. Mas me contive, era apenas o começo, ela apenas dizia feliz: “Eu Vim da Bahia” (Gilberto Gil). E que presente a Bahia dava para São Paulo!
Gal Costa estava segura, à vontade com o público paulistano, conforme comentamos, eu e os meus amigos. Parecia feliz de estar homenageando Sampa. E o público correspondia ao carinho da cantora. Quando olhei para o lado não acreditei, a praça Júlio de Mesquita estava repleta, a Avenida São João, coração pulsante do centro velho da cidade, estava radiante, brilhava ao som de Gal Costa.
Gal Costa deslumbrava, conduzia a platéia, fazia vibrar os fãs e uma juventude que nem sabia que gostava dela, mas que soube cantar várias das suas músicas, já que sempre estiveram impregnadas na história da MPB e na mente do brasileiro. Vê-la sensual cantar “Folhetim” (Chico Buarque) e, travestis e michês a cantar, dançar ao som da música, na Avenida São João, criava uma imagem que ia do underground ao mais belo poema que, deslumbrava a retina do paulistano. Cenas dignas de Almodóvar! Coisas de São Paulo, ali tão bem embalada na voz e na sensualidade da cantora. Ao fim de interpretar “Folhetim”, ela, menina-senhora, mulher-moleca, dizia:
A gente está aqui falando de Virada. E eu cortei o meu cabelo, o que é uma virada que a gente dá para a gente mesmo e para as outras pessoas. Hoje é uma noite de virada!"
E quem era fã, percebia o que ela dizia. Sim, ali, ao declarar o seu amor por São Paulo, Gal Costa estava disposta a dar uma virada, era uma promessa aos fãs, e feita na segurança dos seus olhos, na alegria contagiante do seu sorriso, da força da sua voz. Sensual, quase erótica, ela interpretou “Você Não Entende Nada” (Caetano Veloso), quase a levar ao delírio com a sua malícia nos gestos, nas mãos em volta da madrepérola da sua essência. Gal Costa voltava a ser fatal! A despertar o imaginário erótico dos que voltaram a desejar àquela mulher.
Divino, Maravilhoso” (Gilberto Gil – Caetano Veloso) teve o luxuoso coro das pessoas da janela dos seus prédios. “Chega de Saudade” (Vinícius de Moraes – Tom Jobim) parou a São João, que a esta altura, tinha gente cantando até em cima das árvores. Os meus amigos jornalistas, que eram mornos em relação a Gal Costa, tornaram-se de repente, ardorosos fãs, tamanho era o imã que emanava daquela mulher, sugando-nos como se fosse um zoom.
Ver Gal Costa cantar “Vapor Barato” (Jards Macalé – Wally Salomão) é uma emoção renovada a cada show que ela nos brinda com esta interpretação. A emoção mais uma vez atinge um clímax. Os floreados que a cantora dava às interpretações das músicas arrematavam e conduziam o público, como se o hipnotizasse com a sua voz de sereia, tão embriagantes, que não nos apercebíamos que só um violão acompanhava o repertório.
Meu Bem, Meu Mal” (Caetano Veloso), “Azul” (Djavan), “Samba do Grande Amor” (Chico Buarque), “London, London” (Caetano Veloso), “Vatapá” (Dorival Caymmi), “Wave” (Tom Jobim), “Baby” (Caetano Veloso), “Aquarela do Brasil” (Ary Barroso), de Caetano Veloso a Tom Jobim, de Djavan a Chico Buarque, de Wally Salomão a Ary Barroso, Gal Costa continuava plural. Encerrou o show com “Aquarela do Brasil”, mas voltou com os gritos que ansiavam pelo bis. E que bis. Voltou com “Trem das Onze”, do mais paulistano dos compositores, Adoniran Barbosa. Terminou apoteótica com “Sampa” (Caetano Veloso), emocionando quem estava ali, na Avenida São João, quase na esquina com a Ipiranga. Quando o show acabou, olhei para o lado. Estaria a perder a noção crítica? Tinha sido embriagado? Mas os que estavam do meu lado e as críticas da imprensa no dia seguinte, tranqüilizaram-me, não era delírio de fã confesso, apaixonado por Gal Costa, era a emoção mais cristalina que faz desta mulher quem é! Mais do que um simples “Voz e Violão”, Gal Costa deixou nítido que estava a iniciar uma nova fase da sua carreira. Bem-vinda Gal Costa! Valeu a pena os 900 quilômetros percorridos!
 
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Sexta-feira, 26 de Setembro de 2008

BAIRRO ALTO

 

 

Provavelmente um dos lugares mais emblemático, sedutor e idolatrado de Lisboa, o Bairro Alto é o local dos movimentos e da vanguarda portuguesa. Talvez por ser um dos sítios onde transitam todas as tribos, toda a essência da moda ou gritos da contracultura lisboeta mesclada com os visitantes de todas as partes do mundo. Por lá encontramos turistas europeus, africanos, latino-americanos, ibéricos, portugueses do norte ou do sul, todos a dividir o mesmo espaço com moradores tradicionais, finos restaurantes e tascas populares. Há uma atmosfera romântica, marginal e contraventora que faz das suas ruas estreitas, com roupas estendidas nas varandas a disputar espaços com as flores e plantas, um local único, um sítio genuinamente português.

 
Origens Históricas do Bairro Alto

Nascido nos primórdios do século XVI, é a última conquista de uma das sete colinas de Lisboa. É um bairro pós Idade Média, já além das muralhas que cercavam a Lisboa Medieval. A primeira construção que se teve notícia foi uma ermida onde é hoje a Igreja de São Roque e a Santa Casa da Misericórdia. O sítio em sua origem mais remota foi originalmente ocupado por esta ermida dedicada a São Roque, fundada em 1506. Bairro da expansão quinhentista, foi o primeiro loteamento da Vila Nova de Andrade, em 1513. Fazia parte da cidade dos descobrimentos, programada com base numa malha urbana ortogonal moderna, onde se instalaram, lado a lado, populares (habitação de mercadores ligados às rotas marítimas) e aristocratas.
Com a chegada dos Jesuítas a Portugal, é na parte nova e alta da cidade de Lisboa que a prestigiada Companhia de Jesus se vai instalar. No lugar da ermida dedicada a São Roque é construída pelos jesuítas a Igreja de São Roque, entre 1565 a 1573. No local conhecido por Bairro Alto de São Roque, houve um grande desenvolvimento do que é hoje o Bairro Alto. Fora justamente o prestígio da ordem da Companhia de Jesus que atraíra para a colina a nobreza, que iria construir os seus palácios na parte norte, fazendo do local um bairro elegante.
Além dos palácios, o Bairro Alto foi tomado por habitações tradicionais e mais simples na parte ocidental, de vizinhança rural e mais elaborada nas zonas de inserção urbana. Essas construções deram expressão a este bairro popular e aristocrata. Com cantarias simples, cunhais de pedra, grades de ferro forjado, azulejos de padrão geométrico e janelas são aspectos que dão uma certa ambigüidade que estabelecem o equilíbrio entre a unidade e a diversidade, que sempre foram as características do bairro.

Do Terremoto ao Fado

Após o terremoto de 1755, a zona das Chagas foi completamente reorganizada, com destruição do tecido antigo e implantação de quarteirões pombalinos onde se inseriram prédios e palácios. A Rua da Misericórdia (antiga Rua Larga de São Roque) e a Rua do Século (antiga Rua Formosa) foram modernizadas com a reconstrução dos edifícios de forma mais imponente. O interior do Bairro Alto não sofreu transformações para além da desagregação das grandes edificações, como os palácios quinhentistas e seiscentistas.
Com a perseguição do Marquês de Pombal aos jesuítas e aos nobres de então, o Bairro Alto deixou de ser um local de elite e deu passagem para outra roupagem. No século XIX chegam os jornais, que tomam conta do bairro com as suas tipografias, os estúdios de fotografias e os restaurantes (Tavares em 1874 e Alfaia em 1880). O bairro começa a ser conhecido como típico de grande animação. Com a chegada dos jornalistas, escritores e intelectuais, o bairro liga-se para sempre à tradição literária, à imprensa e à vida boêmia, criando espaços de convívio que proporcionaram uma vivência cultural, que permanece até os dias de hoje.
Mas é durante o Estado Novo que o Bairro Alto transforma-se em um bairro popular, de expressiva vida noturna. Com a noite surgem as casas de fado, a vida marginal das prostitutas e dos seus proxenetas, que invadem as suas ruas estreitas. Essas mulheres belas e trágicas compõem a mística da boêmia que atrai marinheiros, fadistas e tantos outros. Em meio aos amores densos e populares, o fado acha um campo fértil para florir. As casas de fados trazem ícones da história de Lisboa, como a Amália Rodrigues em todo o seu esplendor de artista. É a essência do Bairro Alto da saudade lusitana, da repressão da ditadura de Salazar, não se pode falar sobre a política, mas cantar a fatalidade, a saudade, os amores impossíveis e trágicos são permitidos pelo Estado vigilante.

A Sétima Colina

É durante o Estado Novo que há uma degradação lenta dos prédios do Bairro Alto e de grande parte dos bairros históricos de Lisboa. O Bairro Alto é visto como zona de prostituição. Dos quartéis do Carmo emana a rendição da ditadura e os novos caminhos dos cravos surgem em 1974. Só nos anos oitenta é que vai sendo tomado por casas noturnas que se tornam parte da intelectualidade lisboeta. Casas como o emblemático Frágil de Manuel Reis, recebem gente dos espetáculos e da vida intelectual da cidade. Poetas, artistas e prostitutas ainda dividem a noite do Bairro Alto nessa década de transformações.
No fim da década de oitenta o Bairro Alto já é local preferido da vida noturna dos lisboetas. Começa a sua revitalização. Aos poucos a prostituição vai deixando definitivamente as suas ruas, empurrada para o Cais Sodré e para a Avenida da Liberdade. Nos anos noventa começa a ser um bairro procurado também para se viver, a população começa a ser renovada e os seus prédios restaurados. Em 1994 Lisboa torna-se a capital européia da cultura, o Bairro Alto é chamado de “Sétima Colina” e é um dos locais favoritos para os eventos culturais daquele ano. A Câmara Municipal promove a recuperação da maioria dos seus prédios, que voltam a ser coloridos imponentes. O Bairro Alto volta a ser um lugar da elite e das tribos e tendências diversas. Ateliers de moda de estilistas renomados invadem os prédios seculares. À noite as suas ruas ficam cheias, no verão é comum ver as pessoas nas portas dos bares a tomar as suas bebidas, em um convívio que se destaca pela diversidade. O costume de invadir as ruas começou no Portas Largas, na Rua da Atalaia, em 1994, e espalhou-se por todo o Bairro. O pão com chouriço de uma padaria da Rua da Rosa tornou-se o alimento principal nas madrugadas dos que muito beberam. Aqui é moda beber o absinto ou o vinho moscatel.
Mas o que mais seduz no Bairro Alto? Os bares? A noite? As pessoas? O fado? O gosto lacônico da tragédia das grandes paixões semeadas por cada esquina daquelas ruas? Ainda me lembro da primeira vez que um marinheiro falara-me do Bairro Alto, lá nos primeiros anos da década de oitenta. Citou as noites mundanas, as prostitutas, os amores fatais, o fado...
O Bairro Alto é de um ludismo cênico e de amores despidos, como nos fala o fado de Nuno de Aguiar/Calos Simões Neves e Oliveira Machado: “Bairro Alto, com seus amores tão delicados”, só quem os viveu sabe o que significam. E como um fado perdido e modernizado, quase Pop, em pleno século XXI, o coração ainda traça as armadilhas labirínticas nas suas ruas estreitas e iluminadas pelos candeeiros, seguidos pelos ventos noturnos que sussurram e sacodem as roupas nas janelas. Sem perder atmosfera tão particular, o Bairro Alto pulsa e desperta paixões de todos aqueles que freqüentam ou freqüentaram as suas ruas, sejam lisboetas, portugueses ou estrangeiros. Porque o Bairro Alto é tão português, tão lisboeta e tão universal.
 
 
 
 
 
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Segunda-feira, 8 de Setembro de 2008

PÁTIO DO COLÉGIO: LOCAL GENÉTICO DA PAULICÉIA

 


Quem tem a oportunidade de avistar a cidade de São Paulo do alto de um dos seus arranha-céus, dificilmente consegue pensar em um ponto de origem daquela enorme paisagem de concreto e asfalto. A cidade parece infinita, assim como a sua verticalidade, sem as digitais que a identifiquem.
Mas a metrópole aparentemente fria e imponente, traz os seus segredos perdidos por entre os prédios, os seus lugares recônditos e históricos. No coração da cidade vamos encontrar o Pátio do Colégio, local genético da Paulicéia.

São Paulo de Piratininga

A fundação da cidade de São Paulo é atribuída ao padre José de Anchieta, que após uma longa expedição, ao lado do padre Manuel da Nóbrega, decidiram que no alto de uma colina entre os rios Tamanduateí e Anhagabaú, seria um bom lugar para a construção de uma casa que serviria de alojamento aos jesuítas. Instalou-se ali um grupo de missionários jesuítas, construindo um barracão de pau-a-pique coberto de sapê, que serviria de moradia e capela. Em 25 de janeiro de 1554 é celebrada a primeira missa pelo sacerdote Manuel de Paiva, na presença dos padres Anchieta, à época um adolescente e ainda a estudar, e Manoel da Nóbrega, do bandeirante João Ramalho e sua esposa Bartira, e dos índios Caiubi e Tibiriçá. Nascia a povoação de São Paulo de Piratininga.
Sobre os acontecimentos José de Anchieta anotava em seu diário:
“Nós, os irmãos mandados para esta aldeia no ano do Senhor de 1554, chegamos a 25 de janeiro e celebramos a primeira missa em uma casa pobrezinha e muito pequena no dia da conversão de São Paulo, a quem a dedicamos.”
Em 1556 o padre Afonso Brás foi o encarregado da ampliação da antiga casa de barro socado para abrigar os catequizadores. No dia 1 de novembro deste ano é inaugurado o colégio.
O povoamento prosperou ao redor do Colégio dos Jesuítas, transformando-o no núcleo da cidade. Vários foram os acontecimentos ao longo do tempo, como brigas entre os colonos e religiosos que culminaram na expulsão dos jesuítas do local, para onde só retornariam treze anos mais tarde.

De Colégio a Palácio dos Governadores

O Colégio esteve sob o domínio dos jesuítas até 1760, quando por decreto do Marquês de Pombal, foram expulsos das terras de Portugal e Brasil. Saíram do local que fundaram dois séculos antes humilhados, acorrentados e escoltados pelas tropas. Por onde passavam o povo lhes beijava as mãos. Com a expulsão da Companhia de Jesus, em 1765 são lhes confiscados os bens, o governo da província transforma o Colégio em moradia do governador e em Palácio dos Governadores.
Passa-se mais de um século e o antigo Colégio dos Jesuítas sofre uma série de transformações arquitetônicas, chegando ao fim do século XIX, totalmente remodelado e com uma arquitetura neoclássica, como toda sede do executivo da época. Aos domingos as missas ali celebradas para o governador e a sua família, trazem a elite paulistana a esses cultos. A última missa rezada na capela foi em 1890. As diferenças entre o bispado e o governo culminam no abandono da velha capela, que se deteriora e desaba na noite de 13 para 14 de março de 1896. Com o desabamento da capela, a sua torre é transformada em um torreão do palácio.
Em 1912 o Colégio deixa de ser a residência oficial do governador da província. Em 1925 à frente do prédio, é inaugurado o monumento do italiano Amadeu Zani, uma coluna encimada pela figura de uma mulher de braços erguidos, simbolizando a glória. No seu pedestal a inscrição: “Glória imortal aos fundadores de São Paulo”. Em 1932 a sede do governo deixa definitivamente o antigo prédio, transferida para o Palácio dos Campos Elíseos. O velho prédio é ocupado pela Secretaria de Educação. Em 1953 o prédio neoclássico é demolido. Em 1954, durante os festejos do IV centenário da fundação de São Paulo, o Estado devolveu o imóvel à Companhia de Jesus, para que fosse feita a sua reconstrução como monumento histórico. Numa reviravolta da história, o Pátio do Colégio readquiriu em 1979 a sua feição primitiva.
Hoje funciona no local o Museu Padre Anchieta, a sua principal relíquia é uma parede de taipa de pilão de 1556. Também lá se encontram um manto e a parte do fêmur do Padre Anchieta. Para quem acha que São Paulo não tem uma identidade, que tudo é anonimato, o Pátio do Colégio traz uma aconchegante singularidade, a certidão de nascimento daquela que se tornou a maior cidade do Brasil e uma das maiores do mundo.

 

 
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Sábado, 30 de Agosto de 2008

LISBOA EM CHAMAS - CHIADO, AGOSTO DE 1988

 

 

Lisboa foi, no decorrer dos séculos, uma cidade marcada por grandes incêndios. Muitos foram os que procederam aos terremotos, consumindo ou levando à ruína diversos prédios históricos, como o Hospital Real de Todos os Santos, no Rossio. Era comum a cidade ser acordada com os sinos a badalar, anunciando que o fogo ardia pelas ruas da capital lusitana. Século após século, a cidade cresceu, mudou a sua face urbana, modernizando-se pouco a pouco, sem perder sua arquitetura histórica. Se a cidade modernizou-se, abrindo novas artérias de bairros, os problemas com fogos no centro histórico continuam os mesmos há trezentos anos. Em pleno século XXI, na noite de 6 para 7 de julho de 2008, um incêndio consumiu inteiramente o prédio número 23 da Avenida da Liberdade, comprometendo os outros ao seu redor. O que parecia solucionado desde 7 de novembro de 1996, quando um incêndio atingiu os Paços do Concelho, prédio que abriga a Câmara Municipal de Lisboa, fechando as catástrofes do século XX que se abateram sobre a cidade, as chamas de fogos voltam à tona em plena Avenida da Liberdade, uma das mais importantes da capital portuguesa.
Mas nenhuma tragédia recente na Olisipo moderna foi pior do que o imenso incêndio que se abateu sobre o Chiado, em 25 de agosto de 1988, transformando uma das áreas mais elegantes e históricas da cidade em ruínas, que assim se estenderiam por mais de uma década. A reconstrução do Chiado após o incêndio, foi lenta, deixando o local à deriva de um futuro incerto, que jamais recuperaria a força que tinha na vida social de Lisboa. Vinte anos após o incêndio que mudou a face histórica de Lisboa, consumindo 18 prédios seculares, ainda podemos ver as marcas da tragédia no edifício situado na Rua do Crucifixo, que acolhe o restaurante Palmeira em seu rés-do-chão, único local do prédio poupado pelo fogo, e que pertence a Câmara de Lisboa. O prédio ainda está por recuperar.

Chiado Histórico e Intelectual

A importância cultural do Chiado para a história de Lisboa e de Portugal, está nas casas emblemáticas como A Brasileira, a Livraria Bertrand, nos teatros seculares que ele abriga, como o Teatro Nacional de São Carlos, o Teatro Municipal de São Luiz, o Teatro da Trindade, nas ruínas do Convento do Carmo, ou no elevador de Santa-Justa, só para citar alguns exemplos.
Historicamente o Chiado, localizado numa das sete colinas de Lisboa, teria surgido no século XII. Tradicional bairro de vida intelectual, foi o sítio que recebeu o primeiro Estudo Geral (universidade) em Portugal, em 1288. O local foi integrado a área urbana da cidade pela Muralha Fernandina, povoando-se de conventos e solares de nobres.
Somente no século XVI a história situa a origem toponímica do bairro. Chiado era a alcunha de Gaspar Dias, um taberneiro do local, e do poeta Antonio Ribeiro, que a recebeu por freqüentar a taberna do primeiro. Antonio Ribeiro passou para a história como o Chiado que apadrinhou o bairro, é em sua homenagem o nome que se deu ao largo, e a estátua ali existente.
O grande terremoto de 1755, que destruiria grande parte de Lisboa, mudaria para sempre a história do Chiado. Após a reconstrução, os nobres dos solares tradicionais deixaram o local. Chegaram os burgueses, os maçons, todos à sombra da influência do Marques de Pombal. Uma zona totalmente reconstruída e de fulgor exuberante surgia no bairro.
Em 1784, o Café Talão, de Nicolau Massa, foi transferido para o número 37 da Rua Larga de São Roque, atual Rua da Misericórdia. A partir de 1800, o Talão mudou várias vezes de proprietários, sendo adquirido, em 1823, pelos irmãos Manoel e António Tavares. Surgia o Café Tavares, que em 1861, transformar-se-ia no restaurante Tavares, mais tarde Tavares Rico. Sendo nos dias atuais, o restaurante mais antigo de Portugal.
Em 1846 foi fundado por Almeida Garret e Alexandre Herculano, entre outros, o Grêmio Literário. Instalou-se então, uma pulsante vida intelectual no bairro, o Chiado passou a ser freqüentado por poetas, escritores, jornalistas, políticos e artistas, ficando repleto de cafés, clubes, teatros e can-cans. O Chiado tornar-se-ia um moderno local do romantismo português. Eça de Queiroz, Guerra Junqueira, Ramalho Ortigão e tantos outros freqüentavam o Tavares, sendo conhecidos como os “Vencidos da Vida”.
Em 1906 foi inaugurada A Brasileira, que a partir da década de 20 do século passado, tornar-se-ia o grande centro de reunião e tertúlia de jornalistas e intelectuais. Pelos salões de A Brasileira desfilariam Fernando Pessoa, Almada Negreiros, José Pacheco e muitos outros representantes do modernismo português.
O Chiado tornou-se o ponto sofisticado e intelectual de Lisboa, local obrigatório para quem queria ser visto na cidade. O comércio será por décadas, o mais requintado e dispendioso da capital. Casas míticas e luxuosas compunham esse comércio, como a Paris em Lisboa, Ramiro Leão, Casa Batalha, Luvaria Ulisses, o Grandela, os Armazéns do Chiado, a Casa Havaneza, a Ferrari, o Martins & Filho.
A Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974, sairia do Largo do Carmo, onde Salgueiro Maia fixou a sua companhia, o povo concentrou-se no Chiado, fazendo das suas ruas o símbolo da liberdade da revolução.
Em 1988, um Chiado decadente foi assolado por um grande incêndio, tão profundo quanto o terremoto que o destruíra em 1755. Encerrava-se tragicamente, o glamour do bairro, que de forma indelével, ficaria marcado. Um novo Chiado teria que ser reconstruído. As ruínas do incêndio faziam a passagem do Chiado histórico para o Chiado contemporâneo.

O Chiado em Chamas

O Chiado e toda a Baixa Pombalina, chegaram ao ano de 1988 decadentes. Longe já se ia o requinte do comércio que marcara a história e tradição do bairro. Lisboa modernizara-se, sua população adquirira novas necessidades. Em 1985 um grande centro comercial, o das Amoreiras, fora inaugurado, marcando uma nova fase de comércio e hábitos na cidade. O comércio do Chiado sobrevivia da tradição de muitas das suas casas e das baixas rendas que se pagava pelas lojas. Os belos prédios pombalinos acumulavam, em seu interior, uma degradação camuflada, sem a atualização urbana necessária para a Lisboa que se preparava para entrar no século XXI.
Quem caminhava pelo Chiado à época que se precedeu ao incêndio, podia ver a elegância do bairro. Sentar nos banquinhos postos no meio da Rua do Carmo, uma rua fechada aos carros, com canteiros de cimento no meio, pequenos degraus e esplanadas. Foram justamente estes detalhes existentes naquela rua, feitos recentemente para torná-la um local de trânsito para peões, que se tornaram uma grande armadilha para os bombeiros, quando deflagrado o grande incêndio, dificultando a transposição dos bombeiros às ruas que ardiam.
O grande incêndio aconteceu no auge do verão de 1988. Começou entre às 3 horas e 4h30 da madrugada da quinta-feira de 25 de agosto, no interior dos Armazéns Grandela, na Rua do Carmo. O alarme só seria dado às 5h19, por um vigilante do Grandela. Naquela manhã de verão, as rádios acordavam a população a anunciar: “Lisboa está a arder”. O que se anunciava era pouco diante dos acontecimentos catastróficos. O fogo alastrava-se por toda a rua e adjacências. Enfrentando os obstáculos descritos acima em relação ao acesso à Rua do Carmo, 1680 bombeiros foram envolvidos para controlar o incêndio. Entre às 11 horas e o meio-dia e meio, o fogo foi dado por circunscrito, só declarado definitivamente dominado às 15 horas. O cenário era desolador. Vários feridos, entre eles estavam 60 bombeiros, 10 moradores e 3 policiais. 18 prédios tinham sido destruídos, como o dos Grandes Armazéns do Chiado, o da Valentim de Carvalho e o do Grandela. Quando a noite chegou, quatro quarteirões do Chiado tinham sido transformados em ruínas.

As Ruínas do Chiado

Ainda na tarde de 25 de agosto, o então presidente da Câmara de Lisboa, Krus Abecassis, criava o embrião do futuro Gabinete de Recuperação do Chiado, que prometia uma reconstrução do bairro em três anos. Um grande engano, a reconstrução das ruínas do Chiado seria lenta, sofrível, atravessaria os anos.
Após o grande incêndio, o trabalho de rescaldo dos bombeiros duraria onze dias, e neste período, a tragédia ficaria maior com a morte de um bombeiro. O local ficaria totalmente isolado por cerca de trinta dias.
Após um mês, a Rua do Carmo foi liberada. Para que se pudesse passar por suas ruínas, uma grande passarela de madeira foi posta, ligando-a a Rua Garret. Esta passarela grotesca, sem estética, ficaria por anos fazendo parte das ruínas. O arquiteto Siza Vieira foi chamado para desenhar a reconstrução do Chiado.
Aos poucos um novo Chiado foi surgindo. Prédios da Rua do Carmo foram reconstruídos, a passarela de madeira desapareceria após um novo asfaltamento da rua, que aboliu para sempre os banquinhos, as esplanadas, tornando-se mais ampla e preparada para receber tanques de bombeiros e carros, caso sucedesse uma nova catástrofe.
Quando completou a primeira década do incêndio do Chiado, o comércio local tinha sido esvaziado, devido à lentidão das obras de reconstrução que atravessaram toda a década de 90. Muitos dos novos prédios estavam vazios por causa das rendas exorbitantes que o novo Chiado exigia. Nos prédios reconstruídos, foram feitas galerias, e não estabelecimentos abertos para as ruas, com vitrines rasgadas. Esta nova forma deve-se não a Siza Vieira, mas à ganância dos proprietários, que queriam mais lojas em um mesmo espaço. Em 1998, apesar de uma nova estação do metropolitano ter sido aberta no bairro, dos 18 prédios destruídos, ainda faltava reconstruir três deles, o dos Grandes Armazéns do Chiado, o da Confepele, na esquina da Rua do Ouro, e o do Restaurante Palmeira, na Rua do Crucifixo. Em 1999 o prédio dos Grandes Armazéns do Chiado seria entregue, transformando-se em um grande centro comercial que leva o mesmo nome, trazendo grandes lojas, como a Fnac. Em 2008, vinte anos depois da tragédia, o prédio do Restaurante Palmeira ainda traz marcas do fogo, estando em ruínas, à espera de ser recuperado.Vinte anos depois, o Chiado é a zona mais cara de Portugal para a habitação. Sua vida noturna é inexistente. Estando totalmente adaptado à realidade contemporânea do século XXI, pouco lembra o local decadente antes do incêndio, muito menos o local tradicionalmente pulsante do seu apogeu. Durante o dia o Chiado pulsa com o seu novo fulgor, à noite adormece, desertificam-se as suas ruas, é no silêncio da penumbra noturna que se percebe o quão ainda lateja a cicatriz do grande incêndio que devorou séculos de tradição. O Chiado de Siza Vieira contrasta com o Chiado do Marquês de Pombal. O Chiado do século XXI é a sombra das labaredas da noite de 25 de agosto de 1988. Mesmo reconstruído!
 
publicado por virtualia às 20:36
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