Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

O DIA EM QUE SÃO PAULO PAROU

 

 

A cidade de São Paulo é um dos maiores centros urbanos do mundo. Maior cidade brasileira, responsável por 12,26% do PIB do país, abrigando 63% de todas as multinacionais estabelecidas no Brasil. Por todas estas razões e tantas outras, São Paulo recebeu no século passado, o estigma de que não pára, dando veracidade à célebre frase: “São Paulo não pode parar”.
Parar uma cidade como São Paulo parecia impossível sob todos os aspectos, tanto econômicos, quantos sociais, certeza traduzida pela dinâmica que conduz a cidade e os seus habitantes. Mas um país de contrastes como o Brasil, a ilicitude marginal gerada por uma justiça lenta e capenga, pelas diferenças sociais e pela certeza da impunidade, muitas vezes assume aspectos de um poder paralelo, desafiando as instituições públicas e as suas leis.
Numa sociedade formada por um governo pouco comprometido com os seus cidadãos e com a sua evolução educacional e a sua saúde física, ciclicamente marginais assumem-se como falsos justiceiros sociais, delegando para si poderes que se elevam aos da própria justiça. De Lampião, feroz assassino e bandoleiro nascido sob o sol da caatinga, ao Primeiro Comando da Capital (PCC), organização criminosa liderada das prisões de segurança máxima; o Brasil sofre com este poder paralelo que se estabelece à face da justiça, tendo como resultado a violência e o sangue derramado de inocentes. Foi justamente uma série de atos de violência provocados pelo poder paralelo do PCC para medir forças com a polícia do Estado, que levou ao colapso a capital paulistana. Contrariando a todas as previsões ou estatísticas, São Paulo, o coração financeiro do Brasil, literalmente parou no dia 15 de maio de 2006.

Breves Exemplos do Poder Paralelo no Brasil

A democracia de uma nação é garantida pela liberdade que o seu cidadão tem em poder exercer a sua cidadania, quer sob os aspectos do cumprimento dos direitos que ele tem, como do cumprimento dos seus deveres para com a sociedade. Mas os princípios éticos que constroem os elos morais de uma sociedade mostram uma ínfima diferença entre os direitos e os deveres de um cidadão, tão estreitos são eles, que ao se confundirem, esvaem-se literalmente, dando passagem para o chamado “poder paralelo”, totalmente desprovido de senso moral, mas travestido de uma linguagem popular que o confunde com a “justiça pelas mãos”, já que a justiça do Estado não satisfaz a sociedade.
O poder paralelo pode emanar de qualquer parte da sociedade, quer por organizações de criminosos e contraventores, como pela própria polícia criada para a defesa da sociedade, ou mesmo pelo Estado.
Em quase 190 anos da sua existência como nação, o Brasil exerceu poucas vezes a tão sonhada liberdade democrática. Desde a sua independência, em 1822, que se desenhou um estado pouco voltado para a democracia. Dom Pedro I, foi primeiro a dissolver a constituição e exercer o seu poder autoritário e absolutista. A República foi formada por um golpe contra a Monarquia e por muito tempo, sustentando-se com os contra-golpes, gerando os males da nação, como a República do Coronelismo (1889-1930), ou das oligarquias rurais; a ditadura do Estado Novo (oficialmente iniciada em 1937, mas nascida com a ascensão de Getúlio Vargas, em 1930); e a ditadura militar (1964-1985).
O Estado autoritário, por se manter aquém dos princípios democráticos e construído ilegitimamente, mas legitimado pela repressão e pela força bruta, gera um estado paralelo a ele mesmo. Nas duas fases de ditadura vividas pelo Brasil no século XX, este poder paralelo do Estado foi vergonhosamente exercido na forma de tortura e de assassínio clandestino dos opositores ao regime.
Se o próprio Estado, movido pelo autoritarismo, cria o seu poder paralelo, a sociedade reage, sentindo-se no direito de ela também fazer o mesmo. Foi assim com o cangaço, surgido durante a ditadura do Estado Novo, em que matadores profissionais (os jagunços), sustentados pelas oligarquias que se rivalizavam, ladrões e assassinos em nome da honra, uniram-se em bandos, saqueando e trazendo o terror para as cidades nordestinas. Protegidos pelos interesses dos coronéis, esses bandos de criminosos criaram verdadeiros mitos como o de Lampião, e quando o mito incomodou a própria oligarquia que dele se beneficiava, tornou-se necessário que o Estado demonstrasse ser mais forte, eliminando o bando. Assim aconteceu com Lampião e o seu bando, sendo morto pela polícia em 1938, tendo as cabeças cortadas e expostas em praça pública para que se evidenciasse o poder do Estado contra o poder paralelo.
Numa guerra ideológica, os princípios éticos, morais e de justiça, muitas vezes confundem-se tanto da parte dos opressores, como da parte dos oprimidos. O Partido Comunista Brasileiro (PCB), foi o partido que mais fez parte da história do Brasil no século XX, apesar de ter permanecido grande parte da sua existência na clandestinidade. Erigido sob a direção da extinta União Soviética, os seus militantes tomavam-se por revolucionários, tendo estatuto próprio, que além das ordens vindas de Moscou, não aceitavam o poder emanado do Brasil. Dentro do PCB vários “tribunais revolucionários” foram formados, algumas vezes condenando pessoas à morte. Foi o caso do “tribunal revolucionário” de 1936, realizado logo após o fracasso da Intentona Comunista de 1935, que condenou à morte Elvira Cupelo Coloni, militante conhecida como Elza Fernandes. Elza era namorada de Miranda, um dos membros do Comitê Central do PCB. Com a prisão de Miranda, Elza foi condenada a morte por seus companheiros, que entenderam que ela representava perigo para eles. Foi executada a machadadas. Outro tribunal famoso da esquerda foi o que decretou a morte do capitão estadunidense Charles Rodney Chandler, executado pelo grupo de Carlos Marighela (futura Aliança Libertadora Nacional – ALN) e pelo grupo de Onofre Pinto (futura Vanguarda Popular Revolucionária – VPR), em 1968. Bolsista no Brasil, o capitão Chandler foi condenado pela esquerda por suspeita de colaborar com os militares.
Dentro da polícia, de tempos em tempos surgem grupos de extermínios, conhecidos como “esquadrões da morte”. Geralmente apresentam-se como justiceiros e exterminadores de bandidos, o que lhes confere forte respaldo popular. Na maioria das vezes são grupos liderados por policiais corruptos, que usam de um poder paralelo para eliminar possíveis delatores e silenciar testemunhas. Os esquadrões da morte fazem parte do imaginário popular há várias décadas, tendo visibilidade maior ou menor em determinadas épocas.
As favelas e as periferias das grandes cidades brasileiras, principalmente as de São Paulo e do Rio de Janeiro, foram durante décadas esquecidas pelo Estado e legadas à miséria e ao ostracismo sócio-cultural. Esquecidas pelo poder público, as favelas foram tomadas pela marginalidade, pelo tráfico e pelo consumo de drogas. Tidas como terra de ninguém, muitas dessas favelas vivem sob a opressão e sob o poder de traficantes, que estabelecem as próprias regras e “leis” dentro dessas comunidades. Movidos pelo tráfego de drogas e por leis próprias, os marginais mais perigosos do Brasil criaram dentro das prisões ou fora delas, poderosas organizações criminosas, formando verdadeiras irmandades, como o Comando Vermelho no Rio de Janeiro e o PCC em São Paulo. Também estas organizações têm o seu próprio tribunal, definindo como deve viver ou morrer não só os seus membros, como também os integrantes da sociedade. Em 2002 o Comando Vermelho, liderado na época por Elias Maluco, condenou à morte o jornalista da Rede Globo, Tim Lopes, executando-o de forma cruel, enterrando-o em uma vala cheia de corpos também por ele sentenciados.

O Primeiro Comando da Capital

De todas as rebeliões e atrocidades cometidas pelo poder paralelo estabelecido por marginais no Brasil, o que mais causou constrangimento ao poder público e ao Estado, foi sem dúvida o que atingiu o Brasil em maio de 2006, que culminou com o colapso que parou a cidade de São Paulo.
O PCC, a maior facção criminosa do país, numa demonstração clara de medição de forças com o poder público, iniciou na noite de 12 de maio, uma série de ataques contra as forças de segurança e a alvos civis, causando a maior onda de violência urbana da história brasileira, que se iniciou no estado de São Paulo e em poucos dias, espalhou-se como um rastilho pelo Paraná, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo, Minas Gerais e Bahia, deixando a população civil ilhada e aterrorizada.
O Primeiro Comando da Capital (PCC), surgiu como organização criminosa em 1993. Fundado no dia 31 de agosto daquele ano, no Anexo da Casa de Custódia de Taubaté, no estado de São Paulo, nasceu durante uma partida de futebol, onde vários presos brigaram, e temendo retaliações, punições e mortes como as acontecidas em 2 de outubro de 1992, no sangrento e histórico massacre do Carandiru; firmaram entre si um pacto de ajuda mútua.
Criado no rescaldo da tragédia do pavilhão 9 do Carandiru, no início era chamado de Partido do Crime, sendo formado por Misa (Misael Aparecido da Silva), Cesinha (César Augusto Roris da Silva), Geleião (José Márcio Felício), Eduardo Gordo (Wander Eduardo Ferreira), Paixão (Antonio Carlos Roberto da Paixão), Bicho Feio (Antonio Carlos dos Santos), Dafé (Ademar dos Santos) e Isaías (Isaías Moreira do Nascimento). No início a organização proclamava-se como defensora das injustiças e dos maus tratos carcerários. Usava como símbolo o yin-yang chinês. Para manter a organização, os membros do grupo pagam uma taxa de cerca de 50 reais se estiverem presos e 500 reais se estão em liberdade. Além do dinheiro arrecado com os membros, promovem o tráfego de drogas, seqüestros e assaltos a bancos; compram armas e executam o resgate de alguns prisioneiros membros do grupo. Cada membro tem que cumprir um estatuto de 16 itens, que estabelece entre outras coisas, a lealdade, o respeito e a solidariedade entre os membros, além de prever a “execução sem perdão” aos que não cumprirem o estatuto quando livres.
Desde que foi criado o PCC teve várias lideranças, entre as mais famosas estão a do Sombra (Idemir Carlos Ambrósio), que liderou de dentro de uma cela, em 2001, através de um celular, a rebelião em 29 presídios. Sombra foi morto dentro da prisão, cinco meses depois, sendo substituído por Geleião e Cesinha, que promoveram uma união provisória com o Comando Vermelho (CV) do Rio de Janeiro. Sanguinários e radicais, foram substituídos na direção do PCC em 2002, por Marcos Willians Herbas Camacho, conhecido como Marcola. Foi sob o comando do Marcola que as autoridades públicas sofreram a maior humilhação da sua história, em maio de 2006.

São Paulo, Maio de 2006

Com o objetivo de desarticular o PCC, no dia 11 de maio de 2006, o governo de São Paulo decidiu transferir 765 presos para presídios de segurança máxima. A operação foi desencadeada, quando os presos foram enviados para Presidente Venceslau, no interior de São Paulo. No dia 12, 8 líderes do PCC, entre eles o líder máximo, o Marcola, foram levados para a sede do DEIC (Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado), localizada na zona norte da capital paulista. No dia anterior, Marcola havia reivindicado 60 aparelhos de televisão para que os prisioneiros assistissem aos jogos da copa de futebol daquele ano, o que lhe foi veementemente negado.
No dia 13 de maio, Marcola foi transferido para a penitenciária de Presidente Bernardes, no interior paulista, sendo esta considerada uma das mais seguras prisões do Brasil. Como represália à transferência dos líderes, principalmente a de Marcola, o PCC decidiu intervir, intimidando a polícia, organizando uma onda de violência que aterrorizaria o país, tirando toda a beleza do dia das mães daquele ano, expondo a fragilidade da segurança no país diante do mundo.
Os ataques começaram a tomar forma justamente durante a realização dos benefícios que os prisioneiros tinham pela comemoração ao dia das mães. Nesta data é costume os prisioneiros receberem visitas nas celas ou indulto. Os que visitaram seus presos saíram com a missão de organizar ataques à polícia, e os que receberam indultos do dia das mães, a de comandar esses ataques.
Na noite de 12 de maio, sexta-feira, começaram os ataques, sendo os primeiros alvos o 55º DP , no Parque São Rafael, e um policial civil atingido próximo à sua casa em Guaianazes. Estava estabelecido o objetivo principal dos ataques, delegacias e policiais tornam-se os alvos. Os primeiros atentados não ficam esclarecidos a quem pertence à sua autoria, suspeitando-se que sejam promovidos pelo PCC. Até a meia-noite a cidade de São Paulo registraria 8 policiais feridos e outros 7 mortos.
Já no dia 13, vários presídios de São Paulo rebelam-se. Os ataques, que desde o dia anterior tornaram-se contínuos, são finalmente atribuídos ao PCC. No domingo, 14, dia das mães, a onda sucessiva da violência intensifica-se, começando a tomar conta da mídia sensacionalista, gerando o pânico geral na população. Fala-se dos ataques e das mortes, mas a imprensa não relata à população a ofensiva da polícia, e que vários dos mortos já fazem parte de integrantes do próprio PCC. Para a população assustada, apenas os policiais estão a morrer. O governo cala-se diante da mídia e da população.

O Dia em que São Paulo Parou

No dia 15 de maio, segunda-feira, a falta de uma resposta imediata e contundente do governo do estado de São Paulo e da polícia, torna a população paulistana refém dos ataques criminosos e da imprensa sensacionalista.
Começam a correr boatos de que as estações do metropolitano de São Paulo seriam os próximos alvos. Tiros atingem a estação de Artur Alvim, na zona leste. Ônibus são incendiados, deixando a população sem condução em plena segunda-feira. As limitações de carros em São Paulo, conhecidas como rodízio, são suspensas, o que causa um dos maiores congestionamentos de automóveis registrados na cidade.
À tarde, para completar o caos, sem informar a fonte e deixando-se conduzir pelo sensacionalismo, a Rede Record anuncia que haveria um toque de recolher às 20 horas. Estava lançado o pânico. O que se viu a seguir foi a maior cidade da América do Sul entrar em colapso. As empresas liberaram, na parte da tarde, os seus funcionários; metropolitano e ônibus foram retirados de circulação; os shoppings foram fechados. Acossadas e sem transporte, milhares de pessoas transitavam a pé pelas ruas da metrópole, tentando desesperadamente chegar em casa e, principalmente, evitar passarem próximas às delegacias, que se tornaram alvos do PCC. Temendo retaliações, os policiais andavam pelas ruas da cidade em comboios, evitando assim, que se tornassem alvos fáceis dos bandidos.
São Paulo viveu, naquela segunda-feira, um clima de terrorismo comparável aos de uma guerra. No fim da tarde, a maioria da população está presa dentro de casa, a ouvir, finalmente as explicações do então governador Cláudio Lembo e dos chefes de segurança do estado, a revelar que estavam reagindo aos ataques, desmentindo o toque de recolher e acusando a imprensa de promover e acirrar o pânico entre a população.
Às 20 horas da noite de 15 de maio, as ruas de São Paulo ficaram desertas, como jamais acontecera na sua história. Ninguém ousou a sair de casa naquela triste segunda-feira. Reféns do medo e do poder paralelo, os paulistanos preferiram ficar em casa, a esperar o desfecho da impotência do estado e da sua polícia. Naquele dia, São Paulo parou.

Após o Fim dos Ataques

No dia 16 de maio, incitada pelo governo, a população voltou às ruas e ao trabalho, decidida a não mais ficar refém do poder paralelo dos bandidos. Naquele dia, o saldo era 128 mortos e 59 feridos. Entre os mortos estavam: 23 policiais militares, 6 policiais civis, 3 guardas municipais, 8 agentes penitenciários, 4 civis, 71 suspeitos e 13 presos. No balanço da tragédia, alguns dos suspeitos foram inocentemente mortos pela polícia. Aos poucos o estado controlava e dissipava a rebelião, que tornara o mês de maio de 2006, ano de eleições presidenciais e para governadores de estado, em um dos mais sangrentos e negros da história da violência e do poder paralelo no Brasil.
Em agosto daquele ano, o PCC ensaiou um novo ataque de pânico à população, desta vez divulgando a sua mensagem através da maior emissora de televisão do Brasil, a Rede Globo. Na manhã do dia 12 de agosto dois funcionários da emissora, o repórter Guilherme Portanova e o técnico Alexandre Coelho Calado, foram seqüestrados pelo PCC. A organização criminosa exigiu que a Rede Globo divulgasse um DVD, levado aos estúdios por Alexandre, enquanto Guilherme era mantido refém. Para não pôr em risco a vida do repórter, após consultar organizações jornalísticas internacionais, a emissora transmitiu o vídeo, que trazia uma mensagem pronunciada por um integrante do PCC, a pedir revisão de penas e melhorias carcerárias. Era obvio que mais uma vez, o PCC queria medir forças, disseminar o pânico. O repórter foi libertado 40 horas após a transmissão do vídeo, que não atingiu às massas, a tentativa de pressionar a população falhara. O que não falhou foi o registro histórico feito a 15 de maio de 2006, o dia que São Paulo parou.
publicado por virtualia às 07:33
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Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

A ORCHESTRE DES CHAMPS-ÉLYSÉES NO BRASIL

 

 
Em 2005 foi realizado o “Ano do Brasil na França”, com eventos culturais brasileiros que eclodiram por terras francesas, marcando momentos de grande sucesso no intercâmbio, Em 2009 chegou a vez do Brasil retribuir, assim, em abril, foi aberto o “França.Br 2009 - Ano da França no Brasil”, com uma programação de mais de 600 eventos culturais a acontecer por todo o país tropical.
Na leva do “França.Br 2009 - Ano da França no Brasil”, pôde ser visto, pela primeira vez em solo tupiniquim, a apresentação de uma das mais conceituadas e famosas orquestras da Europa e do mundo, a Orchestre des Champs-Élysées de Paris, sob a regência do genial maestro Philippe Herreweghe.
A orquestra é conhecida pela pluralidade da sua formação, comportando cerca de 172 músicos, com idades distintas e nacionalidades diversas, como franceses, bósnios, alemães, romenos, norte-americanos, italianos, colombianos, belgas, holandeses, e muitas outras, o que lhe traz esta atmosfera universal e de unidade musical sempre a surpreender e fascinar a platéia. Pela quantidade de músicos e instrumentos, torna-se difícil trazer uma orquestra deste porte. Este obstáculo foi possível de ser vencido devido à generosidade do maestro Philippe Herreweghe, que abriu mão de grande parte dos músicos, criando um concerto grandioso com apenas 81 componentes da orquestra original.
Os momentos da Orchestre des Champs-Élysées no Brasil foram marcados por quatro concertos, sendo três em São Paulo, dois na Sala São Paulo, iniciando a temporada da Sociedade Cultura Artística; e, um no Sesc Itaquera; e um em Brasília, no Teatro Nacional Cláudio Santoro. Com exceção das apresentações na Sala São Paulo, as demais tiveram entrada franca, sendo patrocinadas pelo “França.Br 2009 - Ano da França no Brasil”.
Mesmo com noventa músicos a menos, Philippe Herreweghe regeu um espetáculo monumental, com três concertos distintos, “Escocesa - Sinfonia nº 3 em La Menor, Op. 56”, de Felix Mendelssohn; “Sinfonia Fantástica – Episódios da Vida de um Artista, Op. 14”, e “Lélio ou Retorno à Vida - Op. 14”, criação de Hector Berlioz. A dimensão apoteótica dada pelo maestro, parecia que mais de uma centena de músicos enchiam as salas por onde passou a orquestra, como se os contrabaixos fossem mais de uma dúzia, e os violinos infinitos. O apogeu foi alcançado com a “Sinfonia Fantástica” de Berlioz, momento sublime de uma concepção que transcendia a platéia, fazendo-a ardorosa e emocionada. Grandiosa, eloqüente, emocionante, e vários adjetivos afins, são poucos para descrever as apresentações da Orchestre des Champs-Élysées no Brasil, deixando-nos com a perspectiva do porque de ser uma das maiores orquestras do mundo, e com a certeza do seu retorno em solo brasileiro.

A Orchestre des Champs-Élysées

A Orchestre des Champs-Élysées foi fundada em 1991, numa iniciativa de Alan Durel, diretor do Théâtre des Champs-Élysées, e de Philippe Herreweghe, que se fez desde então, o seu diretor musical e regente. Ao longo de quase duas décadas, a orquestra acumulou prestígio, sendo uma das mais conceituadas e admiradas no mundo.
Após a sua fundação, a orquestra esteve residente por muitos anos no Théâtre des Champs-Élysées em Paris, e, no Palais des Beaux-Arts de Bruxelas, na Bélgica. Tornou-se uma orquestra com características distintas, que se especializou na interpretação da música que se estende desde a metade do século XVIII ao início do século XX. Os instrumentos tocados pelos músicos são originais da época, com cordas especiais feitas das tripas de ovelhas, o que lhe concebe a originalidade garantida do som que se fazia pelos séculos passados. A dimensão musical tornar-se, através da Orchestre des Champs-Élysées, uma concepção única, que passa por um vasto repertório, de Mahler a Berlioz, de Haydn a Mendelssohn.
Formada por músicos de nacionalidades plurais, o que lhe confere uma lufada de constante renovação e aprimoramento vindos de várias partes do mundo, garantindo-lhe uma erudição internacional, a Orchestre des Champs-Élysées já se apresentou nas principais salas de concertos da Europa e do mundo, entre elas, a Musikverein de Viena, Gewandhaus de Leipzig, Alter Oper de Frankfurt, Barbican Center de Londres, Philharmonic Hall de Berlim e Munique, Concertgebouw de Amsterdã e tantas outras. Além do circuito europeu, a orquestra apresentou-se com exímio sucesso, no Lincoln Center de Nova York, no Teatro Nacional de Brasília, e diversos países como Austrália, Japão, China e Coréia.
Desde a fundação, a orquestra esteve sempre sobre a direção artística de Philippe Herreweghe, com o seu perfeccionismo caracterizado pela execução de um repertório tecido por instrumentos de época. A Orchestre des Champs-Élysées esteve, ocasionalmente, sob a regência de famosos maestros convidados, entre eles Louis Langrée, Daniel Harding, Christophe Coin, Christian Zacharias, René Jacobs e Bruno Weil.
A Orchestre des Champs-Élysées produziu, ao longo da sua trajetória, uma extensa obra discográfica, que incluí interpretações de Mozart (“Grande Messe en ut Mineur”, “Requiem”), Mendelssohn (“Elias”, “Paulus”), Beethoven (“Missa Solemnis”), Brahms (“Un Requiem Allemand”), Schumann (“Symphonie nº 2 e 4”), Bruckner (“Symphonie nº 7”) e Mahler (“Des Knaben Wunderhorn”), entre tantos.

Philippe Herreweghe, o Regente

Conheci Philippe Herreweghe em Lisboa, em fevereiro de 1994, em um concerto do Ensemble Musique Oblique, da qual ele era regente, e que marcava a abertura do evento “Lisboa Capital Européia da Cultura – 1994”, realizado no Centro Cultural de Belém (CCB). Na noite que precedeu ao concerto, estivemos em uma tertúlia no Bar Mahjong, no Bairro Alto, ao lado do músico e amigo Michel Maldonado, da assessora de imprensa Sylvia Vaez, e do fotógrafo Stanislas Kalimerov. Dono de um humor agradável e de uma erudição cultural despida de pedantismos, Philippe Herreweghe conquista com o seu carisma particular, às pessoas que o ladeiam, mostrando-se afável e generoso.
Nascido na Bélgica, na cidade de Ghent, Herreweghe traz a simpatia sofisticada e arraigada dos flamingos. Foi na sua cidade natal, na Flandres, que estudou piano no conservatório. Desviou-se da música para que se pudesse dedicar aos estudos de medicina, especializando-se em psiquiatria. Já na faculdade, Philippe Herreweghe fundou o Collegium Vocale de Ghent, chamando para si as atenções de Nikolaus Harnoncourt e Gustav Leonhardt, fascinados pela qualidade do conjunto vocal por ele fundado, convidando-o de imediato para que se unisse a eles e participasse da gravação completa das “Cantatas de Bach”.
Desde então, Philippe Herreweghe empenhou-se em trazer para a sua regência um amplo repertório que vai do Renascimento à música erudita contemporânea, o que o levou a criar várias orquestras (ensembles), com integrações distintas e plurais, com as quais fez cerca de sessenta gravações em disco. Entre os ensembles estão: Ensemble Vocal Européen, especializado na interpretação da música polifônica renascentista; o Collegium Vocale de Ghent, que há trinta anos dedica-se à música de Bach e seus precursores; a Chapelle Royale, dedicada à Música Barroca Francesa; a Orchestre des Champs-Élysées, especializada em música clássica e romântica, e a Ensemble Musique Oblique, especialista em música erudita contemporânea.
Além de ser um dos fundadores da renomada Orchestre des Champs-Élysées, em 1991, é desde então, o seu diretor artístico e regente. Philippe Herreweghe costuma reger como convidado, outras grandes orquestras de prestígio internacional, como a Orquestra do Concertgebouw de Amsterdã; a Orquestra Rotterdam Philharmonic, de Roterdã; a Orquestra da Gewandhaus de Leipzig; a Mahler Chamber Orchestra; a Stavanger Symphony Orchestra; a Royal Flandres Philharmonic Orchestra, da qual é diretor desde 1997. Dirigiu também, as orquestras Filarmônicas de Berlim e de Viena.
Philippe Herreweghe participou como diretor artístico do prestigiado Festival de Saintes, no sudoeste da França, no período de 1982 a 2002. Em 1990 foi agraciado com o título de Personalidade Musical do Ano; Músico Europeu do Ano, em 1991; Embaixador Cultural da Flandres através do Collegium Vocale de Ghent, em 1993. Foi-lhe outorgado, em 1994, a Orden de Officier des Arts et Letters; nomeado Doctor Honoris Causa da Universidade da Lovaina, em 1997. Em 2003, foi nomeado Cavalheiro da Legião de Honneur, sendo-lhe concedido um título nobiliárquico pelo rei da Bélgica.
Pelo talento, por todas as qualidades mencionadas, Philippe Herreweghe é hoje um dos maiores nomes da música clássica, erudita e contemporânea do mundo, sendo um dos maiores regentes das últimas décadas.

A Orchestre des Champs-Élysées em São Paulo

Apesar de ter se apresentado nas maiores salas de espetáculos do planeta, a Orchestre des Champs-Élysées só aportou no Brasil graças às comemorações do “França.Br 2009 - Ano da França no Brasil”. Com cerca de 172 músicos, o deslocamento da orquestra exige uma grande infraestrutura, tornando-se demasiadamente dispendiosa, o que necessita sempre de mecenas e patrocinadores.
A negociação com os organizadores do “Ano da França no Brasil” e a Orchestre des Champs-Élysées foram longas, feitas em mais de um ano. Graças à generosidade de Philippe Herreweghe, que aceitou cortar substancialmente no número de músicos e, principalmente, conseguiu manter o nível de qualidade erudita com uma orquestra desfalcada de mais de noventa dos seus membros integrantes, que o Brasil pôde, finalmente conhecer este imponente ícone da música erudita mundial.
Feitos os cortes, a Orchestre des Champs-Élysées chegou ao Brasil no fim de abril de 2009, com 81 músicos, o ator argentino Marcial Di Fonzo Bo, um grupo de bailarinas, o tenor Robert Getchell e o barítono Pierre-Yves Pruvot, todos sob a regência e direção de Philippe Herreweghe.
Na programação, a orquestra tinha a função de abrir oficialmente o “França.Br 2009” no Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. Mas os problemas de infraestrutura estavam longe de uma solução definitiva. Curiosamente, uma cidade como o Rio de Janeiro não ofereceu recursos para que se recebesse uma orquestra deste porte. O Teatro Municipal, uma das mais belas casas de espetáculos do país, foi fechado em outubro de 2008 para restauração. Como solução, chegou a ser anunciada a apresentação da orquestra no Teatro João Caetano, mas os organizadores chegaram à conclusão de que o teatro estava degradado, a necessitar de obras, não oferecendo condições para receber um concerto da grandiosidade da Orchestre des Champs-Élysées. Assim, uma cidade da importância do Rio de Janeiro, foi excluída do roteiro da orquestra, uma vergonha para os governantes e representantes da cultura carioca.
Em São Paulo, a orquestra apresentou-se ao ar livre, no Sesc Itaquera, brindando o paulistano com a belíssima apresentação de “Lélio ou Retorno à Vida - Op. 14", de Hector Berlioz. A apresentação contava com intervenções narrativas do ator argentino Marcial Di Fonzo Bo, dois cantores e um coro, tendo entrada franca, sendo registrada pela TV Cultura, que transmitiu o concerto ao vivo, alcançando grande sucesso e receptividade do público. A apresentação musical, a cenografia e a encenação foram complementadas por projeções em vídeo criadas por Jean-Philippe Clarac e Olivier Deloeuil. Foram feitas outras duas apresentações na Sala São Paulo, para um público pagante, iniciando a temporada da Sociedade Cultura Artística. Concebido exclusivamente para São Paulo, quando a Orchestre des Champs-Élysées deixou a cidade, o ator, os cantores e bailarinos não os acompanharam até o Distrito Federal, antecipando a volta para a França.

A Orchestre des Champs-Élysées em Brasília

Após o contratempo que excluiu a cidade do Rio de Janeiro do roteiro, e o grande sucesso em São Paulo, a orquestra partiu para o Distrito Federal, com 81 músicos, tendo o honroso compromisso de abrir oficialmente o “França.Br 2009” na capital do Brasil.
Já familiarizados com o país, os músicos sentiram-se confortáveis em Brasília, o que contribuiu para que se pudessem entregar sem medos à composição de um grande concerto, que conquistaria a platéia brasiliense.
Em Brasília, o concerto foi organizado com grande pompa, com a presença de Antoine Pouillieute, embaixador da França no Brasil, a discursar na abertura. Para esta apresentação, Philippe Herreweghe preparou um concerto dedicado a Félix Mendelssohn e a Hector Berlioz.
Na primeira parte da apresentação, Mendelssohn abria o espetáculo, com “Escocesa – Sinfonia nº 3 em Lá menor, Op.56”. O perfeccionismo de Herreweghe dilatava-se logo à entrada, com a sua obsessão perene pela autenticidade do som e dos instrumentos de época. O toque precioso da emoção contagiava o público da Sala Villa-Lobos, do Teatro Nacional de Brasília, que aplaudia com veemência a cada movimento encerrado. A “Sinfonia nº 3”, devidamente intitulada “Escocesa”, alcançou com Herreweghe a conotação precisa da mobilidade da música de Mendelssohn, um romântico que nos dá um à vontade em suas fugas.
Ao fim da primeira parte, um breve intervalo foi regado por um autêntico Champagne oferecido ao público. Apesar de longo, o intervalo não quebrou a atmosfera que se conseguiu durante a execução da obra de Mendelssohn.
Na segunda parte do concerto, estava o momento mais esperado, a “Sinfonia Fantástica – Episódios de uma Vida, Op. 14”, de Hector Berlioz. A sinfonia conta a história de um jovem compositor que, por amor, envenena-se com ópio, mas ao ingerir uma dose não suficiente para matar, faz com que ele mergulhe em um estado letárgico repleto de visões. As visões apresentam-se na sinfonia, originalmente chamada de “Episódio da Vida de Um Artista”, que se desenvolve em cinco movimentos.
A apresentação econômica da orquestra desaparece diante das mãos decididas de Philippe Herreweghe, que faz com que a dimensão sonora seja grandiosa, e que a platéia pense que ali estão mais de 40 violinos, quando eram apenas 24. Ao fim de cada movimento, novos aplausos eclodiam de uma platéia totalmente rendida à orquestra. Os instrumentos usados são os mesmos que Berlioz idealizou e tocou, em 1830, quando escreveu a Sinfonia. Ao final suntuoso, com o último movimento, “Sonho de Uma Noite de Shabat”, a platéia foi ao delírio. Quando o concerto foi encerrado, a generosidade do público mostrou os resultados de um grande trabalho, os aplausos eclodiram incessantemente por longos dez minutos, obrigando Philippe Herreweghe a voltar ao palco por duas vezes. Encerrava-se assim, de forma apoteótica, a vinda da Orchestre des Champs-Élysées ao Brasil, deixando um gosto de quero mais e a imensa expectativa de que ela retorne muitas vezes, e brevemente, quem sabe, com todos os músicos.
Ao fim dos concertos, uma grande excursão de músicos fez-se presente pelas ruas e pelos monumentos da cidade inventada por Oscar Niemeyer. Em um ano que se programou mais de 600 eventos artísticos vindos da França, a Orchestre des Champs-Élysées foi o presente de estréia, em um momento de puro êxtase cultural e reverências a Philippe Herreweghe e aos seus 81 músicos.


Orchestre des Champs-Élysées – Composição

Original

Regente: Philippe Herreweghe

Violinos: Alessandro Moccia (violino solo), Roberto Anedda, Assim Delibegovic, Virginie Descharmes, Philippe Jegoux, Marion Larigaudrie, Corrado Lepore, Baptiste Lopez, Martin Reimann, Nicole Tamestit, Enrico Tedde, Marie Viaud, Bénédicte Trotereau, Marieke Bouche, Adrian Chamorro, Isabelle Claudet, Federica della Janna, Jean-Marc Haddad, Pascal Hotellier, Clara Lecarme, Corrado Masoni, Giorgio Oppo, Andreas Preuss, Sebastiaan van Vucht, Catherine Arnoux, Marieke Blankestijn, Alessandro Braga, Karine Crocquenoy, Ilaria Cusano, Maud Giguet, Elisabeth Glab, Charlotte Grattard, Solenne Guilbert, Peter Hanson, Alexander Janiczek, Matilda Kaul, Thérèse Kipfer, Bérénice Lavigne, Catherine Montiers, Liesbeth Nijs, Aki Saulière, Henriette Scheytt, Kio Seiler, George Willms

Violas: Jean-Philippe Vasseur, Marie-Elsa Bretagne, Maïlyss Cain, Brigitte Clément, Delphine Grimbert, Lika Laloum, Lucia Peralta, Catherine Puig, Silvia Simionescu, Bonoit Weeger, Agathe Blondel, Mathilde Bernard, Laurent Bruni, Blandine Faidherbe, Jean-Charles Ferreira, Laurent Gaspar, Dorothée Leclair, Luigi Moccia, Wendy Rymen

Violoncelos: Vincent Malgrange, Ageet Zweistra, Hilary Metzger, Michel Boulanger, Arnold Bretagne, Andrea Pettinau, Gesine Queyras, Harm-Jan Schwitters, Hager Spaeter-Hanana, Florent Audibert, Julien Barre, Fabrice Bihan, Claire Giardelli, Jennifer Morsches

Contrabaixos: Michel Maldonado, Joseph Carver, Elise Christiaens, Damien Guffroy, David Sinclair, Christine Sticher, Massimo Tore, Axel Bouchaux, Clothilde Guyon, Marion Mallevaes, James Munro, Francis Palma-Pelletier, Alessio Povolo, Jean-Baptiste Sagnier, Miriam Shalinsky, Maria Vahervuo

Flautas: Mathias von Brenndorff, Amélie Michel, Giulia Barbini, Laura Colucci, Oeds van Middelkoop, Jane Mitchell, Takashi Ogawa, Jan de Winne

Oboés: Marcel Ponseele, Taka Kitazato, Pier-Luigi Fabretti, Christian Moreaux, Rafaël Palacios, Antoine Torunczyk, Stefaan Verdegem

Clarinetes: Nicola Boud, Daniele Latini, Benjamin Dieltiens, Luca Luchetta, Markus Springer, Marc Withers

Fagotes: Julien Debordes, Jean-Louis Fiat, Philippe Miqueu, Robert Percival, Margreet Bongers, Alain de Rijckere, Jani Sunnarborg, Javier Zafra

Trompas: Rafaël Vosseler, Christiane Vosseler, Jean-Emmanuel Prou, Frank Clarysse, Luc Bergé, Jeroen en Billiet, Mark De Merlier, Miek Laforce, Ursula Monberg, Martin Mürner, Martin Roos

Trompetes e Cornetas: Steven Verhaert, Andreas Bengtsson, Leif Bengtsson, Alain de Rudder, Guy Ferber, Patrick Henrichs, Femke Lunter, Thibaud Robinne, Geerten Rooze

Trombones: Dennis Close, Wim Becu, Charles Toet, Guy Hanssen, Saman Maroofi, Harry Ries

Oficleides, Tuba, Serpent: Marc Girardot, Stephen Wick, Erhard Schwartz

Tímpanos 1: Marie-Ange Petit, Peppie Wiersma

Tímpanos 2: Hervé Trovel, David Joignaux

Percussão: François Garnier, Antoine Siguré, David Joignaux, Hélène Brana, Bernard Heulin, Hervé Trovel

Harpas: Pascale Schmitt, Aurélie Saraf

No Brasil

Regente: Philippe Herreweghe

Primeiros Violinos: Alessandro Moccia (violino solo), Roberto Anedda, Assim Delibegovic, Virginie Descharmes, Philippe Jegoux, Marion Larigaudrie, Corrado Lepore, Baptiste Lopez, Martin Reimann, Nicole Tamestit, Enrico Tedde, Marie Viaud

Segundos Violinos: Bénédicte Trotereau, Marieke Bouche, Adrian Chamorro, Isabelle Claudet, Federica della Janna, Jean-Marc Haddad, Pascal Hotellier, Clara Lecarme, Corrado Masoni, Giorgio Oppo, Andreas Preuss, Sebastiaan van Vucht

Violas: Jean-Philippe Vasseur, Marie-Elsa Beaudon, Maïlyss Cain, Brigitte Clément, Delphine Grimbert, Lika Laloum, Joël Oechslin, Lucia Peralta, Catherine Puig, Silvia Simionescu, Bonoit Weeger

Violoncelos: Vincent Malgrange, Ageet Zweistra, Hilary Metzger, Michel Boulanger, Arnold Bretagne, Andrea Pettinau, Gesine Queyras, Harm-Jan Schwitters, Hager Spaeter-Hanana

Contrabaixos: Michel Maldonado, Joseph Carver, Elise Christiaens, Damien Guffroy, David Sinclair, Christine Sticher, Massimo Tore

Flautas: Mathias von Brenndorff, Amélie Michel

Oboés: Marcel Ponseele, Taka Kitazato

Clarinetes: Nicola Boud, Daniele Latini

Fagotes: Julien Debordes, Jean-Louis Fiat, Philippe Miqueu, Robert Percival

Trompas: Rafaël Vosseler, Christiane Vosseler, Jean-Emmanuel Prou, Frank Clarysse

Trompetes: Steven Verhaert, Andreas Bengtsson

Cornetas: Leif Bengtsson, Alain de Rudder

Trombones: Dennis Close, Wim Becu, Charles Toet

Oficleides: Marc Girardot, Stephen Wick

Tímpanos: Marie-Ange Petit, Hervé Trovel

Percussão: François Garnier, Antoine Siguré, David Joignaux

Harpas: Pascale Schmitt, Aurélie Saraf

Discografia da Orquestra

1992 – Wolfgang Amadeus Mozart – Grande Messe en ut Mineur
1993 – Felix Mendelssohn – Elias
1994 – Felix Mendelssohn – Le Songe D’Une Nuit D’Été
1995 – Hector Berlioz – Nuits D’Été Herminie
1995 – Ludwig van Beethoven – Missa Solemnis
1996 – Felix Mendelssohn – Paulus
1996 – Johannes Brahms – Un Requiem Allemand
1997 – Wolfgang Amadeus Mozart – Requiem
1997 – Wolfgang Amadeus Mozart – Gran Partita K. 361 / Sérénade pour Vents K. 388
1997 – Robert Schumann – Symphonie nº 2 / Symphonie nº 4
1997 – Robert Schumann – Concerto pour Violoncelle / Concerto pour Piano
1997 – Hector Berlioz – L’Enfance du Christ
1998 – Robert Schumann – Scènes de Faust
1999 – Ludwig van Beethoven – Symphonie nº 9
2002 – Gabriel Fauré – Requiem (Version pour Grand Orchestre) / César Franck – Symphonie en Ré
2002 – Franz Schubert – Messe en La Bémol / Feliz Mendelssohn – Psaume 42
2004 – Anton Bruckner – Symphonie nº 7
2006 – Anton Bruckner – Symphonie nº 4 “Romantique”
2006 – Gustav Mahler – Des Knaben Wunderhorn
2007 – Robert Schumann – Symphonie nº 1 “Printemps” / Symphonie nº 3 “Rhénane”
2008 – Anton Bruckner – Messe nº 3 en Fa Mineur
2009 – Anton Bruckner – Symphonie nº 5
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Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009

ISRAEL 60 ANOS, A REALIZAÇÃO DA UTOPIA SIONISTA

 

 


Há sessenta anos a ONU dava um novo destino à Palestina, idealizando a criação de dois estados, um judeu e outro muçulmano. Nascia o Estado de Israel, que trazia uma luz sobre o estigma da sombra do holocausto. Conflitos deflagrados entre a nova nação e as nações árabes da região, fizeram com que só o estado judeu prevalecesse.
A Segunda Guerra Mundial ainda ardia na lembrança das pessoas, com o seu fim, em 1945, ficou um saldo de 6 milhões de judeus mortos nos campos de concentração nazistas. O mundo apercebeu-se da necessidade da criação de um estado judeu, restituindo a este povo uma indenização histórica devida às perseguições e ao genocídio que sofreram ao longo dos séculos. Seguindo o lema sionista “uma terra sem povo para um povo sem terra”, criou-se o estado judeu, que contrariamente a este lema, encontrou uma terra com uma população disseminada de palestinos, que com a chegada em massa dos judeus, com as guerras que se seguiram, resultou a este povo uma grande tragédia individual e coletiva, sustentada por ódios seculares.
Israel surgiu do conceito utópico do movimento sionista de Theodore Herzl, dentro de todas as catástrofes sofridas pelo povo hebreu no século XX, é um exemplo de como esta utopia superou os sofrimentos, a intolerância, o genocídio, e tornou-se uma realidade, talvez a única utopia bem sucedida no século passado. O jovem Estado de Israel, na sua comemoração de 60 anos, é um dos estados mais desenvolvidos do mundo, moderno, com mais de 6 milhões de habitantes, mas que ainda procura uma identidade, visto que foi formado por pessoas vindas de todas as partes do mundo, inseridas nos mais diversos costumes. Nesta busca por uma identidade, terá que aprender a conviver com os vizinhos da região, formada pelos árabes. Ainda há muitas arestas do ódio a ser limadas, para que se comemore verdadeiramente a criação desta nação e a volta dos hebreus à terra prometida, à terra dos seus antepassados.

Os Hebreus na Palestina

Abraão, considerado o pai das grandes religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo e islamismo), teria migrado de Ur, sua terra natal, na Mesopotâmia, por ordem de Deus, para a região habitada pelos cananeus, situada entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo. À sua prole foi prometida habitar toda a terra. Do seu filho Isaac, fruto que teve com a mulher Sara, surgiria o povo hebreu, e do filho Ismael, que teve com a sua escrava Hagar, surgiria os ismaelitas, dos quais surgiria o povo árabe.
As escrituras bíblicas relatam que Abraão, provado por Deus, recebeu a ordem de executar o filho Isaac em honra ao Criador. O holocausto de Isaac seria no afloramento de rocha no monte Moriá. Quando já se preparava para nesta rocha sacrificar o filho, foi impedido por um anjo enviado por Deus. Provados o amor e a fidelidade de Abraão a Deus, ele foi recompensado, tornando-se o pai de nações e de religiões. Este relato mostra a presença mais antiga dos hebreus na Palestina.
Os netos de Isaac, os doze filhos de Jacó, teriam migrado para o Egito por volta de 1300 antes de Cristo, devido à fome que assolava a Palestina. José, um dos filhos de Jacó, abandonado quando criança pelos irmãos, ali vivia, a desfrutar dos favores do faraó. Restabelecida a amizade com os irmãos, José possibilitou que o clã vivesse confortavelmente no Egito. Com a morte de José, algumas gerações depois, os hebreus seriam feitos escravos do faraó Ramsés.
Moisés, o grande profeta de Israel, foi o escolhido para livrar os hebreus da escravidão no Egito, conduzindo-os em uma das maiores sagas da humanidade. Da fuga do Egito, da perambulação no deserto do Sinai por quarenta anos, surge a utopia da terra prometida de Canaã. É através de Moisés que Deus transmite as leis que os judeus deveriam cumprir para que se diferenciassem dos outros povos, tornando-se o povo eleito do Criador. Moisés morreu antes de entrar na terra prometida. Coube a Josué conduzir o seu povo, que lutou com várias tribos por aquelas terras. De 1220 a 1200 a.C. os hebreus conquistaram Canaã, atual Palestina. Uma vitória que nunca foi absoluta, pois viviam em guerras constantes com as tribos vizinhas dos moabitas, dos filisteus, dos amonitas, dos amalecitas, dos idumeus e dos arameus.
Na virada do primeiro milênio antes de Cristo, o rei Davi conquistou Jerusalém aos seus habitantes originários, os jebuseus. É nesta época que o rei dos judeus compra ao jebuseu Onã, o terreno onde Abraão sacrificaria Isaac, para que ali fosse construído um templo para abrigar a Arca da Aliança. Este templo só seria construído no reinado do seu filho, o rei Salomão.
A nação hebraica tem o seu apogeu tanto econômico, quanto em extensão territorial, no reinado de Salomão. Após a morte deste rei, o reino é dividido em dois: o de Judá e o do Israel. Assim permanece até a sua queda, quando os caldeus, sob o comando de Nabucodonosor, conquistaram a terra prometida, destruindo o Templo de Salomão, levando os judeus como escravos para a Babilônia, encerrando-se de vez a existência de um estado judeu independente. Os judeus só voltariam à Terra Prometida em 515 antes de Cristo, quando os persas conquistaram a região, e o rei Ciro permitiu que retornassem e que reconstruíssem um novo Templo em Jerusalém.
Mesmo de volta à Palestina, os judeus permaneceram sob o domínio de vários povos. Os macedônios, sob a espada de Alexandre, o Grande, conquistaram a região aos persas. Com a morte prematura de Alexandre, seu vasto império é dividido entre os seus generais. Por anos o antigo reino de Israel é disputado pelos ptolomeus, baseados no Egito, e pelos selêucidas, baseados na Mesopotâmia. Sem ter um rei, os judeus eram direcionados pelo sumo sacerdote em Jerusalém, que assumia algumas funções reais.
Mesmo sob o domínio de vários povos, os hebreus não aceitam pacificamente nenhum dos povos dominantes, mantendo a sua religião e os seus costumes. É assim com os gregos e, a seguir, com os romanos. Quando a região é dominada pelos romanos, é dado a Herodes o poder de rei dos judeus. Este homem, um rei cruel e tirano, tentou conciliar o poder submisso a ele, por sua vez submisso a Roma, com as tradições judaicas, ampliando o Segundo Templo, aumentando os seus alicerces pela construção de gigantescos muros de retenção a oeste, ao sul e a leste. O Templo foi uma das mais belas realizações do mundo antigo. Herodes alçou Israel a um nível de esplendor poucas vezes alcançado pela nação hebraica. Mas os seus feitos não foram suficientes para conter as insubordinações de um povo que ansiava por uma nação livre do domínio dos gentios e dos seus costumes pagãos. Com a morte de Herodes, a incompetência dos seus sucessores durante nove anos, fez com que Roma colocasse a Judéia sob o governo direto de um procurador romano, entre eles Pôncio Pilatos.
Sob o domínio das várias nações, surgiu aos hebreus a expectativa das promessas da vinda de um messias, que redimiria o povo de Israel, tornando-o uma nação livre outra vez, sob um reinado que se estenderia para sempre, e, conseqüentemente, redimir-se-ia através dos judeus, o próprio mundo. Na época do domínio romano, vários foram os homens que se proclamaram o messias, entre eles Yeshua Ben Yossef, ou Jesus Cristo, cuja pregação resultaria na seita dos cristãos, e futuramente, no cristianismo.
A intensa expectativa messiânica, juntamente com a certeza de ser o povo eleito de Deus desde os primórdios da história, fizeram com que o povo hebreu acirrasse a sua rebelião contra os romanos, que deflagraria a guerra total. No ano de 66, os judeus expulsaram os romanos, tornando-se senhores das suas próprias terras, organizando a sua defesa contra o retorno dos algozes. Sob o comando de Tito, eles voltariam, trazendo uma guerra sangrenta, que reduziria os redutos dos judeus a algumas fortalezas longínquas e à cidade de Jerusalém. A resistência feroz que os romanos encontraram, fez com que, em setembro de 70, quando finalmente entraram em Jerusalém, após seis meses de lutas intensas, despejassem todo o seu ódio sobre aquele povo, massacrando a população. Tito ordenou que toda a cidade fosse destruída, inclusive os escombros do Segundo Templo. Calcula-se que mais de um milhão de pessoas morreram no cerco de Jerusalém, sendo escravizados os sobreviventes. Um grupo de rebeldes ainda resistiu na fortaleza de Massada. Quando finalmente os romanos entraram em Massada, encontraram quase mil pessoas mortas, elas mataram-se umas as outras, evitando assim, tornarem-se escravas dos romanos.
Com a destruição de Jerusalém e do Segundo Templo, iniciava-se a diáspora pelo mundo do povo hebreu. Cerca de sessenta anos após a queda de Massada, Simeon ben-Koseba foi reconhecido pelo rabi Akiba como o messias prometido. O novo “messias” iniciou uma outra rebelião contra os romanos, que apesar de ter êxito no início, duraria dezoito meses, até agosto de 135. A rebelião foi esmagada e Simeon ben-Koseba executado. A punição a esta rebelião foi severa, os judeus cativos eram mortos ou feitos escravos. A Judéia foi definitivamente abolida, tornando-se a província da Síria-Palestina. Todos os judeus foram excluídos da cidade de Jerusalém. No local do Templo, foram erguidos santuários ao imperador Adriano e ao deus Júpiter.

Canaã, Judéia ou Palestina, a Terra Sagrada das Religiões Monoteístas

No século VII surgiu o islamismo, através do profeta Maomé, um descendente de Ismael, filho de Abraão. Em 620, Maomé teve uma visão, na qual cavalgava um corcel celestial, el-Buruq, com o anjo Gabriel, até o monte do Templo, em Jerusalém, para encontrar Abraão, Moisés e Jesus, e daí ascendia ao trono de Deus, passando pelos sete céus. Maomé morreu na Arábia, em 632, após liderar uma peregrinação a Meca. Pela visão que teve, para o islamismo a sua ascensão aos céus teria sido feita no monte do Templo, da rocha onde Abraão sacrificaria o filho Isaac. Por este motivo, ao lado de Meca e Medina, Jerusalém foi considerada cidade sagrada para os muçulmanos.
Foi em Jerusalém que Jesus Cristo entrou, celebrou a Páscoa com os seus apóstolos, onde foi preso, julgado e executado na cruz, no ano 26 (ou 33 do calendário gregoriano). Ali teria ressuscitado e numa descrição parecida com a visão de Maomé, também teria ascendido aos céus. Com a separação do cristianismo do judaísmo, Jerusalém tornou-se uma cidade santa também para os cristãos.
Com a diáspora do povo judeu, surgiu a designação de Palestina às terras do antigo reino de Israel, ou Judéia. Com a cristianização de Roma, Jerusalém esteve por anos sob o domínio do Império Bizantino. Sendo chamada pelos cristãos de Terra Santa. Com o surgimento do islamismo, a Palestina é tomada pelos seguidores do profeta Maomé. Desde então, aos poucos, a maioria da sua população é constituída por árabes. Na Idade Média, a igreja, aliada aos nobres dos reinos cristãos da Europa, promove as Cruzadas, ou guerras para a conquista da Terra Santa. Os cruzados tomam Jerusalém e a Palestina aos sarracenos por várias vezes, originando várias cruzadas. Por fim, a região cairia definitivamente sob o domínio do Império Otomano.

O Surgimento do Estado de Israel

No século XIX, surgiu a utopia de um estado judeu, propagada pelo movimento sionista, com o objetivo de reunir o povo hebreu que estava espalhado pelo mundo, vítima de várias perseguições através dos séculos. Durante a Idade Média, os filhos de Israel foram expulsos de muitos dos reinos cristãos da Europa, além de se tornarem o alvo predileto do Tribunal da Inquisição, que resultou em forçadas conversões, torturas e condenações à morte nas fogueiras. No início do século XX a idéia do estado judeu começou a desenhar um esboço, e com o incentivo do movimento sionista, deu-se início a uma migração para a Terra Santa. Em julho de 1906, na Convenção dos Judeus de Yafo, feita no Yeshurun Club, Arieh Akiva Weiss, que tinha acabado de chegar à Palestina, propôs a criação de um novo bairro fora de Yafo. Em 1909, no segundo dia da Páscoa judaica, é feita a cerimônia do sorteio de lotes de terra, que marca oficialmente a fundação de Tel Aviv, bairro que se iria separar de Yafo, tornando-se a maior cidade judaica do mundo.
Com o fim da Primeira Guerra Mundial, o já decadente Império Otomano fragmenta-se por completo. A Inglaterra herda deste império a Palestina e a península do Sinai (hoje parte do Egito), tomando-os como uma colônia britânica. A população árabe, maioria na região, não reagiu pacificamente à colonização européia. Também os judeus, que chegavam todos os dias de todas as partes do mundo, desejavam um estado judaico independente.
O movimento sionista pregava que só um estado judeu poderia evitar as perseguições e as tragédias como as que aconteceram durante o tempo que predominou a Inquisição. Com a deflagração da Segunda Guerra Mundial, uma outra tragédia aconteceria aos israelitas: o holocausto promovido pelos nazistas, causando a morte de seis milhões de judeus. Por causa do holocausto, uma migração em massa dos israelitas europeus assolou a Palestina. Diante da divulgação do genocídio nazista ao povo judeu, o mundo indignou-se, a ONU viu-se pressionada a reparar a injustiça nazista. A Inglaterra deixava definitivamente a colônia da Palestina. Em 14 de maio de 1948, os judeus ganharam um estado independente. Nascia também um pequeno estado árabe, que descontentou os islâmicos.

Uma Nação Construída às Margens das Guerras e do Terrorismo

A criação de um estado judaico nunca agradou aos países árabes vizinhos. Mais do que criar um estado para o povo palestino, Jordânia, Síria e Egito estavam interessados em “varrer Israel para o mar”. Em 1948, 24 horas após ter sido criado, o Estado de Israel é invadido pelas nações árabes da Jordânia, Egito, Síria, Líbano e Iraque. A Jordânia conquista para si a Cisjordânia e parte de Jerusalém. Israel, com o apoio dos Estados Unidos, em 1949, vence a guerra e ainda expande as suas fronteiras. A anexação da Cisjordânia pela Jordânia e da Faixa de Gaza pelo Egito, deixa claro que a criação de um estado palestino não é o objetivo dos países árabes da região.
Os conflitos não se encerram em 1949. Egito, Jordânia e Síria proclamam internacionalmente, em 1956, o fim de Israel. Alertado para uma nova invasão, pouco antes de ela acontecer, tropas israelitas avançam e derrotam os inimigos. Uma paz passageira é obtida meses depois. Perduraria até 1967, quando novamente Egito, Síria e Jordânia lideram uma nova invasão para riscar Israel do mapa. Israel contra-ataca e toma da Jordânia, a Cisjordânia e Jerusalém. Da Síria anexa as colinas de Golã. Do Egito toma a Faixa de Gaza e a península do Sinai.
Outra investida do Egito, Jordânia e Síria foi tentada em 1973, desta vez sem que os países árabes anunciassem a invasão, mas novamente são derrotados.
A animosidade e a tensão com o Egito findaram, quando em 1978, após uma reunião em Camp Davis, foi assinado um acordo de paz entre as duas nações em 1979, chancelado por Anwar Al-Sadat, do Egito, e Menachen Béguin, de Israel. Este acordo possibilitou que Israel devolvesse a península do Sinai ao Egito, em 1982, mas custou o assassínio de Sadat, em 1981. Em 1994 um acordo de paz foi assinado com a Jordânia.
O maior avanço para solucionar o problema dos palestinos foi feito em 13 de setembro de 1993, com o acordo de paz entre Israel e a OLP de Yasser Arafat, o que valeu o Prêmio Nobel da Paz em 1994, para Yasser Arafat, Yitzak Rabin e Shimon Perez . A situação do conflito árabe-israelense tomava novos rumos, até então considerados inimagináveis. Com o acordo, vislumbrava-se a criação do estado palestino, engatinhando como nação em Gaza e no enclave de Jericó. Em 1995 radicais judeus assassinaram Yitzak Rabin. Em 2000 uma nova infantada palestina originou ataques terroristas, deixando mais distante o sonho de paz entre os dois povos, e a autodeterminação do estado da Palestina. A situação é agravada pelas dificuldades financeiras do incipiente estado palestino, pelos ataques dos grupos extremistas, quer de judeus, como a Espada de Davi, quer de islâmicos, como o Hamás e a Jihad Islâmica, que não aceitam sequer a existência do Estado de Israel, e pela disposição de Israel implementar, no futuro, a completa devolução da Cisjordânia.

Israel, 60 Anos

Israel é um estado diferente dos outros, não se formou naturalmente, não se desenvolveu gradualmente ao longo dos séculos, em redor de uma mesma população e de uma mesma história. Quando foi criado, em 14 de maio de 1948, era um pequeno país atrasado, com uma população de cerca de 600 mil judeus, que dependia para sobreviver, da generosidade do judaísmo mundial. 60 anos depois, é um país industrializado, tendo um PIB mais elevado que a soma dos PIB de todos os seus vizinhos árabes, que têm uma população 15 vezes superior ao estado judeu.
Israel desde que foi criado, viveu sempre no limiar da sua sobrevivência, passando por quatro guerras, vários atentados terroristas, e muitas hostilidades dos vizinhos. Para desenvolver e assegurar um futuro a esta nação, é preciso uma integração progressiva com os vizinhos árabes, uma capacidade maior para negociar a paz, e, principalmente, fazer uma integração irrestrita e bem sucedida de todos os cidadãos árabes que habitam o seu território. Quem sabe assim, quando completar 70 anos, a utopia sionista tornada realidade, veja finalmente a paz florir sobre Israel.

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Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008

OS 100 ANOS DA IMIGRAÇÃO JAPONESA NO BRASIL

 

 

Quando o navio Kasato Maru atracou no porto de Santos, no dia 18 de junho de 1908, trazia a bordo 165 famílias, camponeses pobres, oriundos do norte e do sul do Japão. Vinham de um Japão assolado por uma crescente explosão demográfica, e incapaz de gerar empregos para toda esta população efervescente. 781 pessoas aventuravam-se naquela empreitada ambiciosa e imprevisível às terras do ocidente. Os imigrantes japoneses chegaram ao Brasil em busca de melhores meios de vida, e de enriquecimento que os possibilitasse de voltar para a terra do sol nascente.
Além da esperança de uma vida melhor, os japoneses traziam na bagagem a certeza de que voltariam à terra natal. Não voltaram, com perseverança, sabedoria, trabalho e determinação, construíram uma identidade própria, que atingiu a cultura brasileira; marcada pela assimilação de costumes e tradições, e, principalmente, pela miscigenação deste povo com os nativos do Brasil.
O Kasato Maru trouxe consigo, uma das mais bem-sucedidas imigrações que aportaram no Brasil. 100 anos depois, a colônia japonesa conta com cerca de 1,5 milhão de pessoas que fazem parte da população brasileira, seus descendentes estão inseridos como brasileiros, formando uma parte das várias digitais que identificam a população plural do Brasil.

A Bordo do Kasato Maru

Com a abolição da escravatura no Brasil, em 1888, os negros libertos, na sua maioria, marcados pelas cicatrizes profundas deixadas da relação senhor-escravo, abandonaram as lavouras, espalhando-se pelas cidades, em busca de uma nova vida. Esta fuga de mão-de-obra deixou as lavouras de café, principal riqueza do Brasil da época, carentes de quem nela trabalhasse. A solução foi o governo subsidiar e incentivar as migrações de mão-de-obra estrangeira. A imigração italiana foi a que trouxe mais mão-de-obra para as lavouras brasileiras. Mas a decepção dos italianos com a forma de vida que aqui encontraram, o não cumprimento dos contratos prometidos, causaram grandes problemas, o que levou o governo da Itália a proibir, em 1902, a imigração subsidiada.
Na mesma época, o Japão vivia a crise de uma explosão demográfica. O país nipônico deixava, no fim do século XIX, o feudalismo, mecanizava as lavouras, o que gerou a ociosidade da mão-de-obra nos campos japoneses. Milhares de pessoas migraram para os centros urbanos do Japão, causando um colapso de pessoas nas cidades. A solução encontrada para o problema, foi a emigração dos japoneses para o mundo. Esta emigração encontrou dificuldades na Austrália, onde sofreu com os maus tratos. Muitos foram para os Estados Unidos, que a partir de determinado momento, vetou a migração japonesa.
Diante da carência de mão-de-obra nas lavouras brasileiras, e da grande explosão demográfica pela qual passava o Japão, os dois países incentivaram a migração do povo nipônico para a América do Sul. Em novembro de 1907, Ryu Mizuno, diretor da Companhia de Migração do Império (Kokoku Shokumin Kaisha), assinou o acordo que foi o responsável pela primeira leva de imigrantes japoneses vinda para o Brasil.
Selado o acordo com o governo brasileiro, no dia 28 de abril de 1908, saía do porto de Kobe, o navio Kasato Maru, com 781 passageiros a bordo. Pelo acordo assinado, o governo brasileiro só aceitava os imigrantes casados, vetando veementemente a entrada de solteiros no país. No dia 28 de junho de 1908, o Kasato Maru chegou ao porto de Santos, em São Paulo. De Santos seguiram para a cidade de São Paulo, sendo hospedados na Pensão dos Imigrantes, de onde foram distribuídos pelas lavouras do país.
A imigração japonesa encontrou no solo brasileiro, condições para que se estabelecesse. Donos de uma exemplar aptidão para trabalhar a lavoura, não foi difícil desenvolver este talento nas férteis terras brasileiras, tornaram-se especialistas no cultivo de lavouras de hortaliças e legumes. Essencialmente agrícola nos seus primórdios em solo brasileiro, com o passar dos anos a colônia japonesa alcançou os centros urbanos, em destaque para a cidade de São Paulo.

O Período Negro da Segunda Guerra Mundial

De 1908 a 1930, a imigração japonesa tornou-se intensa, principalmente depois da Primeira Guerra Mundial. Em 1932, os imigrantes nipônicos no Brasil passavam dos 130 mil. Em 1934, o presidente Getúlio Vargas, movido por sua política nacionalista, impõe cotas para esta imigração.
Concentrada no isolamento das colônias rurais, os imigrantes japoneses preservaram as suas tradições, continuando a falar a língua japonesa em suas casas. Criaram escolas japonesas para onde enviavam os filhos.
Às vésperas da Segunda Guerra Mundial, em 1938, novamente o governo do presidente Vargas impõe medidas que atingem a colônia japonesa, desta vez restringindo às atividades culturais e educacionais dos imigrantes italianos, alemães e japoneses. Deflagrada a guerra, só em 1942 o Brasil é obrigado a participar dos seus conflitos, combatendo ao lado dos aliados, declarando assim, guerra ao eixo Alemanha-Itália-Japão. É o período mais conturbado da história da imigração japonesa no Brasil.
Declarada a guerra ao Japão, o governo brasileiro rompe relações com aquela nação, fecha definitivamente as escolas japonesas no país, em todo o território nacional é proibido que se fale à língua nipônica.
Durante a guerra, há cerca de 200 mil imigrantes japoneses no Brasil. Destes, a maioria não aceitou a derrota do Japão, em 1945. A colônia dividiu-se em duas, os "derrotistas" (makegumi), que representavam menos de 20% dos imigrantes, e os "vitoristas" (kachigumi). Foi criada a organização Shindo Renmei, após a rendição do Japão, com o propósito de propagar no Brasil a idéia de que o Japão não tinha perdido a guerra, que as notícias da rendição era uma invenção dos EUA para enfraquecer o Japão. O Shindo Renmei perseguiu os japoneses que acreditaram que o Japão realmente tinha perdido a guerra, com o objetivo de matar os “derrotistas”, também chamados de “corações sujos”. Entre kachigumis e makegumis, oficialmente, 23 pessoas foram mortas entre 1946 e 1947. A organização só foi desfeita em 1947, quando o presidente Dutra mandou interrogar mais de 30 mil pessoas, prendendo 300 suspeitos, ameaçando com a expulsão, a 155 indivíduos da colônia.

Brasil e Japão, Parceiros Financeiros

O Brasil e o Japão só viriam a retomar as suas relações diplomáticas em 1952. É no fim desta década, que o Japão, já reerguido do colapso econômico no qual fora lançado durante a Segunda Guerra Mundial, começa a investir economicamente no Brasil. Em 1958, o estaleiro Ishikawajima do Brasil, conhecido como Ishibras, começou as suas operações. Este foi o primeiro de vários investimentos industriais que vieram através de acordos bilaterais entre Brasil e Japão. Em 1967, empresas japonesas, como a Toshiba e a NEC, começaram a investir no Brasil.
Nos anos oitenta, devido à crise gerada pela instabilidade financeira pós-ditadura militar, aconteceu o inverso na migração japonesa, descendentes brasileiros dos japoneses, emigraram para o Japão, à procura de melhores oportunidades de trabalho. Os emigrantes brasileiros no Japão, conhecidos na sua maioria por dekasseguis (brasileiros de origem japonesa). Cerca de 2500.00 emigrantes brasileiros vivem atualmente no Japão.
Desde 1908, a imigração japonesa no Brasil vai na sua quarta geração. A cada geração, há um termo japonês para designá-la:

Isseis – Japoneses da primeira geração, nascidos no Japão – 12,51%
Nisseis – Filhos de japoneses – 30,85%
Sanseis – Netos de japoneses – 41,33%
Vonseis – Bisnetos de japoneses – 12,95%

Cerca de 1,5 milhão de pessoas fazem parte da colônia japonesa no Brasil, a maior colônia de japoneses fora do Japão. Quando chegaram ao porto de Santos, em 1908, a maioria vinha com o propósito de passar apenas alguns anos no Brasil, voltando logo a seguir. Não voltaram. Fizeram do Brasil uma segunda pátria, introduzindo aqui a sua cultura, a sua miscigenação. Deram à cultura do Brasil, uma identidade ainda mais plural, com traços da cultura oriental.
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Terça-feira, 2 de Dezembro de 2008

SIDA, UM FLAGELO CONTEMPORÂNEO

 

 

Em 1988, há vinte anos, a OMS (Organização Mundial da Saúde), instituiu o Dia Mundial de Combate a SIDA, 1 de dezembro. Numa época em que ser declarado portador do vírus HIV constituía uma sentença de morte, era preciso que se chamasse a atenção do mundo para o maior flagelo do final do segundo milênio. Longe ia a descoberta de um tratamento eficaz, muito menos uma esperança de cura. O mundo assistia às imagens de pessoas debilitadas pelo flagelo, cadavéricas a definhar, cujo único destino era a morte. A face da SIDA assustava o mundo! A tragédia era iminente.
Longe vai da atualidade a imagem dos flagelados da SIDA dos anos de 1980 e da primeira metade da década de 1990. Tratamentos adormeceram o vírus, mas não o eliminou. Estudos sobre o HIV ainda vão longe de encontrar uma cura. Se a sobrevida dos portadores aumentou com as drogas, não os livrou da sina da doença. A SIDA não desapareceu do planeta, pelo contrário, está camuflada diante das terapias disponíveis. Tão perigosa quanto dantes, a doença mata silenciosamente os seus portadores, sem as imagens trágicas que se repetia no início da sua descoberta.
Relatórios recentes apontam que 33 milhões de pessoas estão infectadas pelo HIV em todo o planeta. O continente africano é o mais afetado pela epidemia. O tratamento é de alto custo, o que impossibilita que chegue aos países pobres do planeta. Nos países desenvolvidos a epidemia está camuflada pelas drogas terapêuticas, fazendo com que uma nova geração que não viu as mortes trágicas de outros tempos não a tema, descuidando-se da prevenção. Na primeira década de 2000 diminuiu o número de mortes causadas pela SIDA, em 2001 foram 2,2 milhões de mortos, em 2007 caiu para 2 milhões. Mas a ONU admite que a guerra está longe de ser vencida, e com a crise econômica mundial, teme que falte verba para o financiamento do tratamento em todo o planeta.
A SIDA hoje não tem cura, continua a matar silenciosamente. O melhor caminho para evitá-la continua a ser a prevenção, daí grandes campanhas pelo uso do preservativo nas relações sexuais. Desde o primeiro caso detectado no fim dos anos 1970 até os tempos atuais, a SIDA continua a ser um grande flagelo da humanidade.

Os Primeiros Anos da Epidemia

Em 12 de dezembro de 1977 morria, aos 47 anos, Margrethe P. Rask, médica e pesquisadora dinamarquesa, vítima de estranhos sintomas para a sua idade. Uma autópsia revelaria que os pulmões da médica estavam cheios de microorganismos que ocasionaram um tipo agressivo de pneumonia. Margrethe P. Rask tinha estado na África, a estudar o Ebola. Teria sido uma das primeiras vítimas da SIDA, mesmo não se tendo a certeza até os dias de hoje. Há relato ainda, de uma amostra sanguínea de um homem de Kinshasa, Congo, morto em 1959, que analisada recentemente ter-se-ia revelado soropositiva.
Em 1981 começaram a aparecer vários casos de doenças oportunistas em grupos de homossexuais americanos, principalmente na cidade de São Francisco, e em menor incidência, em Los Angeles e Nova York. A estranha doença chamou a atenção do centro de controle de doenças dos EUA. Descrevia-se pela primeira vez a Síndrome de Imunodeficiência Adquirida, sem nomeá-la cientificamente. A doença foi erroneamente vista como um mal que afetava apenas aos homossexuais, fazendo que o preconceito do governo Reagan ignorasse-a, não liberando verbas para um estudo mais profundo. Esta postura reacionária de Ronald Reagan, mantida por vários anos, atrasaria as descobertas de tratamentos por uma década, causando uma das maiores catástrofes de todos os tempos, a propagação da epidemia e, conseqüentemente, a morte de milhões de pessoas.
Em 1982 o centro de controle de doenças norte-americano começou a colher dados relacionados aos homossexuais, seus nomes e os nomes dos que com eles mantiveram relações sexuais, na tentativa de mapear a doença apenas em um determinado grupo de risco. Durante as entrevistas com os homossexuais, vários declararam ter tido relações sexuais com um mesmo homem, o comissário de bordo franco-canadense Gaetan Dugas. Este homem seria conhecido mais tarde como o paciente zero, teria sido através dele que a doença cruzou o Atlântico. Gaetan Dugas, o paciente zero, acusado pela história de ter trazido o vírus do HIV para os EUA, morreria em 1984.
A doença desconhecida começou a tomar proporções de uma epidemia iminente, atingido ainda em 1982, pessoas tóxico-dependentes, e as primeiras transmissões detectadas em transfusões sanguíneas. 14 países relataram ainda neste ano, casos da doença. Também no Brasil sete casos foram confirmados, todos em São Paulo e em pacientes homo ou bissexuais. Sem ainda ter um nome cientifico, a doença era chamada pela imprensa como GRID (Gay Related Immune Deficiency), ou como “Peste Gay”.
Completamente desconhecida, a doença causou pânico no mundo quando, em 1983, foram relatados casos de infecção em crianças nos EUA, sendo posta a hipótese de que poderia ser transmitida pelo ar e por utensílios domésticos comuns. Diante do alastramento epidemiológico, foi realizada em Denver, EUA, a primeira conferência sobre SIDA, chegando à triste conclusão de que 3000 casos da doença atingiam os americanos, com um total de 1283 mortos. A doença era ainda relatada em 33 países.
A identificação do agente etiológico da SIDA, um retrovírus, só foi feita em 1984, quando dois grupos de cientistas reclamaram para si a descoberta: o grupo do Dr. Luc Montagnier, do Instituto Pasteur de Paris e o grupo do Dr. Robert Gallo, do Instituto de Virulogia Humana da Universidade de Maryland, Estados Unidos. Na França o agente etiológico da SIDA foi reconhecido como LAV, associado a linfadenopatia; nos EUA foi chamado de HTLV-3. Após uma longa disputa entre as comunidades científicas pelos louros da descoberta, chegou-se ao consenso de denominá-lo HIV (em português vírus da imunodeficiência humana).
Já nesta época 7000 norte-americanos tinham a doença, obrigando o governo Reagan a dar maior atenção à epidemia, fazendo com que a secretária de saúde e serviços humanos da época, declarasse que antes de 1990 haveria uma vacina e a cura da SIDA. A esta altura a população homossexual de São Francisco está em grande número infectada, como medida preventiva, todas as saunas gays da cidade, ponto de encontros sexuais, são fechadas. Esta medida estender-se-ia por várias cidades da Europa.

Rock Hudson, o Primeiro Rosto da SIDA

Já identificado, o HIV continuava a ser visto pejorativamente como o “Câncer Gay”. Esta concepção gerou o estigma da doença. Já se identificava que a principal via de transmissão era a sexual. A SIDA revelava-se como uma doença de comportamento, o que trazia para quem a contraía, além do sofrimento físico, a discriminação e a culpa. Para o portador do HIV, desmoronava-se muitas vezes, a imagem de uma vida escondida, camuflada pela pressão social. Esta culpa comportamental atinge até os dias atuais os infectados pelo HIV, causando o isolamento social dos mesmos.
Se a SIDA parecia atingir somente os homossexuais, aos poucos ela foi mostrando-se sem limites de classes, raças ou opções sexuais. Já em 1985, dois outros grupos de pessoas padecem com a epidemia, o dos dependentes químicos e o dos hemofílicos. Já a SIDA há muito fazia parte do mundo e as transfusões de sangue eram feitas sem a menor preocupação com a doença. Os bancos de sangue isolavam apenas os grupos de homossexuais, os únicos apontados como possíveis transmissores do HIV. Só em 1985 chegava ao mercado um teste sorológico de metodologia imunoenzimática para diagnosticar a infecção causada pelo HIV, podendo ser utilizado para triagem nos bancos de sangue. Este teste passou a ser usado em todo o mundo, diminuindo o risco de transmissão do HIV através de transfusões sanguíneas.
É em 1985 que a epidemia toma proporções que comovem e assustam o mundo. A contaminação do astro de Hollywood, Rock Hudson comove o planeta, e a mídia explora a exaustão, o definhar de um grande ídolo. O ator fazia a série “Dinastia”, quando revelou a doença ao mundo. O pânico instalou-se no meio das atrizes que em cena, trocaram beijos apaixonados com ele. A descoberta fez com que os estúdios norte-americanos obrigassem os atores a um teste de HIV para que pudessem fazer cenas mais quentes entre si. A medida causou pânico e discriminação entre a classe artística. Enquanto a polêmica corria o mundo, Rock Hudson definhava a olhos vistos diante dos fãs e do mundo.
Em julho de 1985, os jornais anunciavam a chegada de Rock Hudson à França, para submeter-se a tratamento. Era a primeira vez que uma figura pública conhecida em todo o planeta padecia do flagelo do fim do século. A SIDA deixava de ser uma doença de vítimas anônimas para adquirir um rosto, uma expressão que causaria a comoção de todos. Esta identificação entre a SIDA e a celebridade revela ao mundo a sua homossexualidade, a necessidade de aceitação desta condição pela sociedade, já não é o “gay” anônimo das saunas de São Francisco que está morrendo, mas um homem com uma história e uma dignidade, mais definida pela luta contra a doença. Luta em vão, pois não há cura para tão trágico flagelo. A celebridade de Rock Hudson faz da sua morte anunciada uma causa que toma proporções políticas. Torna-se o primeiro militante anti SIDA apontado pela cronologia histórica da doença.
Pela primeira vez desde que detectada, a SIDA, refletida na figura de Rock Hudson, desperta a atenção além da maldição e do terror, gera-se nas pessoas princípios como a solidariedade e a coragem lúcida para enfrentar o flagelo. Pela primeira vez celebridades de todo o mundo, como Elizabeth Taylor (amiga pessoal do ator), mobilizam-se para apoiar os doentes. Uma militância densa anti SIDA espalha-se pelo mundo, sendo amplamente apoiada e divulgada pela imprensa. Ao mesmo tempo em que a militância solidária expande-se pelo mundo, o medo da doença aumenta. Afinal, se uma celebridade era infectada por uma doença mortal, qualquer pessoa estaria sujeita a ela. A SIDA torna-se uma realidade temida. Já não se pode ignorá-la, ou achar que se está imune não tendo relações homossexuais. A SIDA torna-se uma doença de risco em todas as vertentes das sociedades do planeta.
Os curtos meses de agonia e de luta de Rock Hudson, fez dele uma figura exemplar da luta contra a SIDA. No dia 3 de outubro de 1985, o jornal francês “Libération” anunciava a morte do ator de forma contundente: “Rock Hudson é o primeiro rosto vivo da SIDA (...) existira então a SIDA antes de Rock Hudson e a SIDA depois de Rock Hudson”.

As Primeiras Drogas Anti-Virais

Só em 1986, na segunda conferência internacional da SIDA, em Paris, foi reportada experiências iniciais com a primeira droga antiviral, a azidotimidina (AZT). Neste mesmo ano o FDA (Food and Drug Administration) aprovou o seu uso. Pela primeira vez uma droga revelava um impacto, ainda que discreto, sobre a mortalidade dos infectados pelo HIV.
No mesmo ano a OMS lançou uma estratégia global de combate à SIDA. Seringas e agulhas foram recomendadas que fossem esterilizadas. Também o uso do preservativo passou a ser estimulado entre as pessoas como medidas preventivas. Controles mais rígidos foram impostos aos bancos de sangue. Mesmo assim a epidemia avançava e a morte dos portadores era uma questão de tempo tão logo recebesse o diagnóstico. O AZT era uma luz ínfima dentro de um túnel sombrio e sem fim.
Após a morte de Rock Hudson, várias celebridades abraçaram a causa da militância a favor dos portadores do HIV e contra a discriminação dos mesmos. Em 1987 a princesa Diana abriu o primeiro hospital especializado em tratamento da AIDS na Inglaterra. Durante a inauguração, a princesa não usou luvas quando apertou as mãos de pessoas com SIDA, fato que suscitou comentários de toda a imprensa mundial, ajudando a dissipar as atitudes preconceituosas das pessoas.
Para intensificar mais a militância e o apoio aos portadores do HIV, a OMS instituiu em 1988, o Dia Mundial da Luta Contra SIDA, em 1 de dezembro. A primeira edição do Dia Mundial da AIDS teve como tema: “Junte-se ao esforço mundial”. Neste mesmo ano, os irmãos Henfil e Chico Mário (irmãos de Herbert de Souza, o Betinho), hemofílicos e contaminados pelo HIV, morreriam.
Em 1989 algumas drogas estão disponíveis no mercado, entre elas o DDI. O alto preço do AZT torna-se 20% mais barato. No dia 1 de dezembro o tema do Dia Mundial da SIDA era: “Cuidemos uns dos outros”. A década de 1980 era encerrada tendo a SIDA como o maior flagelo da humanidade, e com um número cada vez maior de infectados pelo planeta. Falar sobre cura era uma utopia distante a anos-luz.

Uma Luz Sobre o Tratamento

A década de 1990 começou com a morte de grandes celebridades, como o cantor e compositor brasileiro Cazuza, o cantor britânico Freddie Mercury e o bailarino soviético Rudolf Nureyev. O mundo parece incapaz diante do flagelo. Programas de trocas de seringas nas farmácias pelos dependentes químicos como meios de prevenção são criticados, causando polêmicas, assim como a distribuição de preservativos pelas escolas e locais públicos. A epidemia é uma realidade, assim como os costumes morais vigentes. Era preciso que se conscientizasse que a SIDA era a própria contestação dos costumes, e para combatê-la era preciso que se modificasse hábitos e preconceitos seculares.
Enquanto a luta contra os costumes e os preconceitos, como a resistência do uso dos preservativos pelos homens e pela igreja, está acirrada, também a luta nos laboratórios é tenaz, mas lenta diante das mortes causadas pela SIDA. Em 1991 um outro antiretroviral, o DDC, é autorizado para pacientes intolerantes ao AZT. Mesmo diante de novas drogas, constatava-se que a eficácia do tratamento era limitada, criando a resistência do vírus com o passar do tempo. Só em 1992 começa a ser usado a combinação de duas drogas (AZT e DDC), com relativo sucesso. Em 1994 é que se passou a estudar um novo grupo de drogas, os inibidores da protease, que demonstraram um potente efeito contra a infecção quando associados com drogas do grupo inibidor da transcriptase reversa (AZT). Esta associação passou a ser chamada de “coquetel”. Mas esta descoberta não chegou cedo aos pacientes, devido aos custos elevados do tratamento. Além disso, para que se formasse a combinação ideal para obter resultados eficazes, um grande número de comprimidos tinha que ser ingeridos pelos infectados, o que dificultava imensamente o tratamento e a tolerância dos mesmos.
Os inibidores da protease só foram aprovados pela primeira vez pelo FDA em 1995. A esta altura a SIDA era a principal causa de morte entre americanos com idade entre 25 e 44 anos. A epidemia atingira, desde o início da infecção, 400 mil pessoas nos EUA, com 250 mil mortes.
A luz sobre o tratamento dos infectados pela SIDA chegou finalmente, em 1996, quando um grande número de drogas foi aprovado pelo FDA, fazendo que diminuísse o preço, facilitando os governos dos países a assumirem os custos do tratamento de cada infectado. Neste ano, na conferência internacional da SIDA, ocorrida em Vancouver, foi anunciada que a combinação de três drogas tinha efeitos mais eficazes do que a terapia dual. Estava lançado o tratamento que aumentaria a sobrevida dos infectados, melhorando a sua qualidade de vida e terminando com a sentença de morte que o diagnóstico da SIDA trazia para quem contraía o vírus.
No fim da década de 1990, a SIDA adquiria uma outra face, o rosto de uma doença que já não se mostrava fulminantemente mortal. Passou a ser vista como uma doença crônica, que poderia ser tratada por muitos anos. Foi nesta década, em 1994, que se criou o UNAIDS, integrado por cinco agências de cooperação de membros da Organização das Nações Unidas (Unesco, Unicef, OMS, UNDP e UNFPA), além do Banco Mundial, com o objetivo de defender e garantir uma ação global para prevenção da SIDA.

A Negação do HIV Como o Causador da SIDA

A epidemia chegou a ser negada por um grupo de cientistas, que afirmou em suas teorias que o HIV não era a causa da SIDA. Para os autores da hipótese, a SIDA não seria causada pelo HIV, e sim pela poluição, pela fome, pelas drogas e pela vida destrutiva do indivíduo. Alguns chegavam a afirmar que as drogas descobertas na terapêutica da doença eram ineficazes, outros que elas desenvolviam a doença.
Estas hipóteses nasceram com Peter Duesberg, em 1984, e alcançou grandes adeptos até a década de 1990, quando David Ho desenvolveu medicamentos potentes que destruíram 99% do vírus, proporcionando aos infectados uma vida quase normal.
Ainda hoje a teoria de que o HIV não causa a SIDA persiste como uma fagulha especulativa dentro do mundo científico. Recentemente, Robert Gallo, um dos descobridores históricos do HIV, alimentou na Austrália a polêmica, ao declarar que os seus estudos não comprovavam que o HIV causava a SIDA. Esta declaração contribuiu ainda mais para que Gallo fosse visto como um grande oportunista da ciência, sendo desacreditado pelo meio acadêmico.
A negação do HIV foi politicamente aproveitada por vários líderes políticos de países africanos, que usavam da teoria para não gastar com medicamentos para o povo infectado. Esta atitude causou uma grande catástrofe na África do Sul. O ex-presidente Thabo Mbeki por anos assumiu a teoria, tentando desacreditar a SIDA em seu país, minimizando o problema, como se ele não existisse, chegando a duvidar da relação entre o HIV e a SIDA. Com isto, o seu ministério da saúde recomendou ao povo sul-africano que incluísse alho e limão na alimentação para combater a doença, espalhando que os remédios de tratamento eram uma farsa. O resultado desta omissão pôs a África do Sul no topo das estatísticas, com 5,5 milhões de infectados, sendo hoje o país com o maior número absoluto de casos no mundo.

Em Memória dos que Foram Disseminados pela SIDA

Na primeira década do terceiro milênio a SIDA tornou-se uma doença silenciosa. Não se vê os infectados sucumbirem como foi visto no auge do flagelo. O controle da doença garante aos infectados um anonimato, algo impossível no início da descoberta da doença, que chegava fulminante, deixando exposta a vida e a saúde de quem padecia deste mal.
Os portadores sofrem com um tratamento difícil, repleto de efeitos colaterais, como a distribuição de peso corporal, transformando o corpo e o rosto dos portadores completamente, muitas vezes destruindo-lhes a auto-estima. Não há mais grupos de riscos, a SIDA afeta homens, mulheres, crianças, jovens, velhos, homossexuais, heterossexuais. Continua a ser uma doença de comportamento, onde o uso da camisinha é o método mais eficaz de combate. Verifica-se um aumento da infecção em pessoas com mais de cinqüenta anos, que motivados por tratamentos com drogas contra a impotência, passaram a ter novamente uma vida sexual ativa, mas se esqueceram da prevenção, algo que não lhes é tão familiar quanto aos jovens.
Sem cura, a SIDA está longe de ser uma epidemia controlada, tão pouco extinta. 33 milhões de pessoas estão infectadas no mundo. A crise financeira pela qual passa os países, ameaça que os governos continuem a gastar tanto com o tratamento da doença. A SIDA continua a ser uma grande sombra camuflada no âmago da humanidade. Basta um sopro para que ela volte a devorar vidas com a mesma voracidade que se assistiu por mais de uma década.
No Dia Mundial da Aids, em 2008, um imenso laço vermelho, símbolo da luta contra a doença, foi erguido em frente à Casa Branca, em Washington, numa clara demonstração de respeito e empenho em seu combate pelo governo norte-americano, um grande contraste com a época do governo Ronald Reagan, que fechou os olhos à doença, discriminando-a como um “câncer gay”, condenando assim, milhões de vidas. É neste dia que o mundo inteiro reúne-se em uma militância benéfica através do planeta. Nestes momentos de luta, nomes ainda rondam as nossas memórias, nomes de vítimas deste grande flagelo, que de uma forma ou de outra, devem sempre ecoar na lembrança de todos nós: Rock Hudson, Rudolf Nureyev, Cazuza, Freddie Mercury, Brad Davis, Sandra Bréa, Thales Pan Chacon, Mário Viegas, Carlos Augusto Strazzer, Anthony Perkins, Cláudia Magno, Lauro Corona, Zacarias, Antonio Variações, Renato Russo, Herbert de Souza (o Betinho), Henfil... ou o nome de um amigo ou parente próximo.

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Quarta-feira, 24 de Setembro de 2008

DECLARAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS - 60 ANOS

 

 

Durante os séculos a saga humana foi marcada por guerras e pela construção de impérios sobre os escombros dos dominados. Atrocidades de guerra alcançaram através dos tempos requintes de tortura e de genocídios dos quais alguns povos foram perseguidos, outros totalmente extintos. Com a evolução do maquinário de guerra e da tecnologia a favor do poder e a destruição, não só grupos étnicos e povos ficaram ameaçados de desaparecerem, como a própria humanidade passou a correr este risco. Numa época de tecnologia de armas nucleares e químicas, tornou-se necessária proteger a humanidade dela mesma.
O Século XX foi marcado pelas mais devastadoras guerras da humanidade (Veja o artigo: SÉCULO XX – CEM ANOS DE GENOCÍDIO, VIRTUÁLIA, 18/11/07). Com o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, surgiu a necessidade de se criar um órgão neutro que defendesse com parcialidade e justiça os interesses das nações, que intercedesse em conflitos belicosos como os que originaram as duas guerras mundiais.
Feito o balanço dos estragos da Segunda Guerra Mundial, foi criada a Organização das Nações Unidas (ONU), uma instituição internacional formada por 192 Estados soberanos, fundada em 1945, para manter a paz e a segurança no mundo, fomentar relações cordiais entre as nações, promover progresso social, melhores padrões de vida e os direitos humanos.
Mais de sessenta anos após a criação da ONU, o mundo está longe de ser perfeito e de encontrar a paz entre as nações. Conflitos entre a política econômica da globalização e os estados pobres, choque de interesses entre os EUA e os estados árabes, terrorismo ideológico ou religioso por parte de líderes separatistas de muitos países, diferenças culturais intransponíveis entre o ocidente e o oriente, são fatores que geram descrédito e desconfiança dos povos em relação à ONU e às suas diretrizes. Mas apesar de todos os obstáculos, a ONU continua a ser dentro de todos os interesses dos povos dominantes do século XXI, a maior conquista das nações em defesa de si mesmas.
Mas a maior conquista da humanidade foi sem dúvida a criação da carta que rege a ONU e os direitos humanos. Para evitar as atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial a ONU produziu em 10 de dezembro de 1948 o documento com a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Trata-se do documento que mais protege o homem em um planeta dividido entre conflitos políticos, sociais e econômicos. Todos nós deveríamos saber de cor os artigos e princípios que regem esta carta. E lutar para que não haja a violação desses princípios seja no nosso bairro, na nossa cidade, no nosso país, no planeta.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos
 

 

A Declaração Universal dos Direitos Humanos tem XXX artigos e é o documento mais importante produzido pela humanidade, sintetizando uma plataforma utópica com o que há de positivo na idéia de um mundo desejável. É uma declaração de amor ao homem e ao planeta Terra. Em 2008 completará 60 anos. E ainda é uma utopia tenaz da humanidade.

 

Artigo I.
Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.

Artigo II.
1. Todo ser humano tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.
2. Não será também feita nenhuma distinção fundada na condição política, jurídica ou internacional do país ou território a que pertença uma pessoa, quer se trate de um território independente, sob tutela, sem governo próprio, quer sujeito a qualquer outra limitação de soberania.

Artigo III.
Todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.

Artigo IV.
Ninguém será mantido em escravidão ou servidão; a escravidão e o tráfico de escravos serão proibidos em todas as suas formas.

 
Artigo V.
Ninguém será submetido à tortura nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante.

 
Artigo VI.
Todo ser humano tem o direito de ser, em todos os lugares, reconhecido como pessoa perante a lei.

Artigo VII.
Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei. Todos têm direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.

 
Artigo VIII.
Todo ser humano tem direito a receber dos tribunais nacionais competentes remédio efetivo para os atos que violem os direitos fundamentais que lhe sejam reconhecidos pela constituição ou pela lei.

 
 
 
 
Artigo IX.
Ninguém será arbitrariamente preso, detido ou exilado.

 
Artigo X.
Todo ser humano tem direito, em plena igualdade, a uma justa e pública audiência por parte de um tribunal independente e imparcial, para decidir sobre seus direitos e deveres ou do fundamento de qualquer acusação criminal contra ele.
 

Artigo XI.
1. Todo ser humano acusado de um ato delituoso tem o direito de ser presumido inocente até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa.
2. Ninguém poderá ser culpado por qualquer ação ou omissão que, no momento, não constituíam delito perante o direito nacional ou internacional. Também não será imposta pena mais forte do que aquela que, no momento da prática, era aplicável ao ato delituoso.
 

Artigo XII.
Ninguém será sujeito à interferência em sua vida privada, em sua família, em seu lar ou em sua correspondência, nem a ataque à sua honra e reputação. Todo ser humano tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques.
 

Artigo XIII.
1. Todo ser humano tem direito à liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras de cada Estado.
2. Todo ser humano tem o direito de deixar qualquer país, inclusive o próprio, e a este regressar.
 

Artigo XIV.
1. Todo ser humano, vítima de perseguição, tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países.
2. Este direito não pode ser invocado em caso de perseguição legitimamente motivada por crimes de direito comum ou por atos contrários aos objetivos e princípios das Nações Unidas.
 

Artigo XV.
1. Todo homem tem direito a uma nacionalidade.
2. Ninguém será arbitrariamente privado de sua nacionalidade, nem do direito de mudar de nacionalidade.
 

Artigo XVI.
1. Os homens e mulheres de maior idade, sem qualquer restrição de raça, nacionalidade ou religião, têm o direito de contrair matrimônio e fundar uma família. Gozam de iguais direitos em relação ao casamento, sua duração e sua dissolução.
2. O casamento não será válido senão com o livre e pleno consentimento dos nubentes.
3. A família é o núcleo natural e fundamental da sociedade e tem direito à proteção da sociedade e do Estado.
 

Artigo XVII.
1. Todo ser humano tem direito à propriedade, só ou em sociedade com outros.
2. Ninguém será arbitrariamente privado de sua propriedade.
 

Artigo XVIII.
Todo ser humano tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, em público ou em particular.
 

Artigo XIX.
Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras.

Artigo XX.
1. Todo ser humano tem direito à liberdade de reunião e associação pacífica.
2. Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma associação.

Artigo XXI.
1. Todo ser humano tem o direito de fazer parte no governo de seu país diretamente ou por intermédio de representantes livremente escolhidos.
2. Todo ser humano tem igual direito de acesso ao serviço público do seu país.
3. A vontade do povo será a base da autoridade do governo; esta vontade será expressa em eleições periódicas e legítimas, por sufrágio universal, por voto secreto ou processo equivalente que assegure a liberdade de voto.

Artigo XXII.
Todo ser humano, como membro da sociedade, tem direito à segurança social, à realização pelo esforço nacional, pela cooperação internacional e de acordo com a organização e recursos de cada Estado, dos direitos econômicos, sociais e culturais indispensáveis à sua dignidade e ao livre desenvolvimento da sua personalidade.

Artigo XXIII.
1. Todo ser humano tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego.
2. Todo ser humano, sem qualquer distinção, tem direito a igual remuneração por igual trabalho. 3. Todo ser humano que trabalha tem direito a uma remuneração justa e satisfatória, que lhe assegure, assim como à sua família, uma existência compatível com a dignidade humana e a que se acrescentarão, se necessário, outros meios de proteção social.
4. Todo ser humano tem direito a organizar sindicatos e a neles ingressar para proteção de seus interesses.

Artigo XXIV.
Todo ser humano tem direito a repouso e lazer, inclusive a limitação razoável das horas de trabalho e a férias remuneradas periódicas.

Artigo XXV.
1. Todo ser humano tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar-lhe, e a sua família, saúde e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência em circunstâncias fora de seu controle.
2. A maternidade e a infância têm direito a cuidados e assistência especiais. Todas as crianças, nascidas dentro ou fora do matrimônio gozarão da mesma proteção social.

Artigo XXVI.
1. Todo ser humano tem direito à instrução. A instrução será gratuita, pelo menos nos graus elementares e fundamentais. A instrução elementar será obrigatória. A instrução técnico-profissional será acessível a todos, bem como a instrução superior, esta baseada no mérito.
2. A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais. A instrução promoverá a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e grupos raciais ou religiosos, e coadjuvará as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz.
3. Os pais têm prioridade de direito na escolha do gênero de instrução que será ministrada a seus filhos.

Artigo XXVII.
1. Todo ser humano tem o direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir das artes e de participar do progresso científico e de seus benefícios.
2. Todo ser humano tem direito à proteção dos interesses morais e materiais decorrentes de qualquer produção científica literária ou artística da qual seja autor.

Artigo XXVIII.
Todo ser humano tem direito a uma ordem social e internacional em que os direitos e liberdades estabelecidos na presente Declaração possam ser plenamente realizados.

Artigo XXIX.
1. Todo ser humano tem deveres para com a comunidade, na qual o livre e pleno desenvolvimento de sua personalidade é possível.
2. No exercício de seus direitos e liberdades, todo ser humano estará sujeito apenas às limitações determinadas pela lei, exclusivamente com o fim de assegurar o devido reconhecimento e respeito dos direitos e liberdades de outrem e de satisfazer as justas exigências da moral, da ordem pública e do bem-estar de uma sociedade democrática.
3. Esses direitos e liberdades não podem, em hipótese alguma, ser exercidos contrariamente aos objetivos e princípios das Nações Unidas.

Artigo XXX.
Nenhuma disposição da presente Declaração pode ser interpretada como o reconhecimento a qualquer Estado, grupo ou pessoa, do direito de exercer qualquer atividade ou praticar qualquer ato destinado à destruição de quaisquer dos direitos e liberdades aqui estabelecidos.
 

 


 
 
Órgãos Ligados à ONU

OMS (Organização Mundial da Saúde)
OIT (Organização Internacional do Trabalho)
Banco Mundial
FMI (Fundo Monetário Internacional)
UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância)
 
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Sábado, 20 de Setembro de 2008

CALENDÁRIOS DA HUMANIDADE

 

 

Quando chegamos a dezembro, mais um ano é encerrado no nosso calendário. A sensação é que isto acontece por todo o planeta. Mero engano, a humanidade é construída por civilizações tão distintas, que produzem cada uma o seu próprio calendário. No nosso planeta algumas civilizações já ultrapassaram o quarto ou quinto milênio, enquanto que outra ainda não chegou ao segundo.
Durante a história da humanidade vários calendários foram criados e apagados do mapa. Calendários dos antigos egípcios, sumérios, maias, babilônicos, astecas, entre muitos. A maioria deles tem as suas origens atreladas às religiões seguidas por cada civilização como marco da sua contagem e nos ciclos solares ou lunares.
Ao chegarmos ao ano 2008 da era cristã, esta data não diz nada a cerca de setenta por cento das pessoas distribuídas pelos países. Mas em que ano estão ou estarão outras civilizações do século XXI em 2008? Quais os principais calendários existentes nos dias de hoje? Além do calendário cristão, ou gregoriano, temos o calendário judaico, o calendário muçulmano e o calendário chinês, cada um momento histórico diferente e datas específicas. É diante dos calendários tão distintos que percebemos que a humanidade é rica em tradições e culturas muitas além da nossa civilização judaico-cristã.

Calendário Cristão

O calendário cristão teve o seu início no século VI, quando o abade Dionísio decidiu contar o tempo a partir do ano 1 do nascimento de Jesus Cristo. Até então a contagem era feita a partir da posse do imperador Diocleciano. Como Roma tornara-se cristã e Diocleciano fora um feroz perseguidor do cristianismo, era incompatível continuar contando o tempo a partir da sua posse. Para descobrir a data do nascimento de Cristo, Dionísio tomou como marco a data registrada da fundação de Roma. Contou os anos de todos o reinados romanos e chegou à conclusão de que se tinham passado 753 anos da fundação da cidade eterna ao nascimento de Cristo. Esta data define o ano 1 da era cristã. Mas estudos recentes apontam para um erro de quatro anos, provavelmente pelo esquecimento de contar o período que o imperador Augusto governou com o seu nome de batismo, Otávio (de 27 a 31 a.C). O erro é confirmado pela morte de Herodes, segundo o historiador judeu Flavius Josephus, ocorrida no mês de um eclipse lunar, que para os astrônomos ocorreu no ano 4 a.C. Portanto, quando da passagem oficial para o ano 2008, estamos a entrar no ano 2012 da era cristã.
O calendário cristão tem as suas origens no antigo calendário romano, depois substituído pelo calendário juliano, no ano de 43 antes de Cristo, e finalmente substituído pelo calendário gregoriano, promulgado pelo Papa Gregório XIII, em 24 de fevereiro de 1582. Segue o ano solar, com 365 dias, 5 horas e 49 minutos, divididos em 12 meses. De quatro em quatro anos é acrescentado um dia em fevereiro, o chamado ano bissexto.

Meses Gregorianos

01 - Janeiro – 31 dias
02 - Fevereiro – 28 dias (29 em anos bissextos)
03 - Março – 31 dias
04 - Abril – 30 dias
05 - Maio – 31 dias
06 - Junho – 30 dias
07 - Julho – 31 dias
08 - Agosto – 31 dias
09 - Setembro – 30 dias
10 - Outubro – 31 dias
11 - Novembro – 30 dias
12 - Dezembro – 31 dias

O Calendário Judaico

O calendário judaico tem como ponto de partida, segundo a tradição hebraica, a criação do mundo. Para chegar a uma data concreta, o rabino Hai Gaon, judeu da Babilônia, que viveu no século XI, calculou o tempo de existência de vários personagens bíblicos. Somando-se as existências dessas figuras, Gaon chegou à conclusão que se passara 1949 anos desde a criação do universo até o nascimento do patriarca Abraão.
Diferente do calendário Gregoriano, este é um calendário baseado no movimento lunar. Cada mês é iniciado na lua nova. O ano lunar tem 12,4 meses, que gera uma diferença do calendário gregoriano de 11 dias a cada ano. Esta diferença é compensada ocasionalmente pelo acréscimo do mês de Adar II.
O primeiro mês do calendário judaico é o de Nissan, quando é feita a comemoração da Pessach (Páscoa Judaica).
Ao chegar ao ano de 2008, por volta de setembro, o calendário judaico irá festejar a chegada do ano de 5769.

 
Meses Judaicos

 
01 - Nissan - 30 dias (Março - Abril)
02 - Iyar - 29 dias (Abril - Maio)
03 - Sivan - 30 dias (Maio - Junho)
04 - Tammuz - 29 dias (Junho - Julho)
05 - Av - 30 dias (Julho - Agosto)
06 - Elul - 29 dias (Agosto - Setembro)
07 - Tishrei - 30 dias (Setembro - Outubro)
08 - Heshvan - 29/30 dias (Outubro - Novembro)
09 - Kislev - 30/29 dias (Novembro - Dezembro)
10 - Tevet - 29 dias (Dezembro - Janeiro)
11 - Shevat - 30 dias (Janeiro - Fevereiro)
12 - Adar - 29/30 dias (Fevereiro - Março)
13 - Adar II - 29 dias (Março - Abril)


 
Calendário Muçulmano

Ao contrário dos calendários cristão e judaico, que não se sabe com precisão o dia e a data de quando se iniciou, no calendário muçulmano não há dúvidas de quando ele começou a ser contado. Começa a partir do dia que o profeta Maomé deixou em fuga, a cidade natal de Meca (chamada de hégira – busca de proteção) e estabeleceu-se em Medina, no dia 16 de julho de 622.
É utilizado na maioria dos países islâmicos para o cálculo das festas religiosas e oficialmente por alguns países do Golfo Pérsico. Baseia-se no ano lunar de 354 dias, dividido em 12 meses de 29 ou 30 dias intercalados. Perfaz uma diferença de 11 dias em relação ao calendário gregoriano. Como esses dias não são corrigidos, geram uma diferença de 97 dias do calendário solar em cada século. Em 2008 o ano muçulmano atingirá o ano de 1429.

Meses Muçulmanos

01 - Muharram
02 - Safar
03 - Rabi al-Awwal
04 - Rabi ath-Thani
05 - Jumaada al-Awwal
06 - Jumaada al-Akhira
07 - Rajab
08 - Sha'aban
09 - Ramadan
10 - Shawwal
11 - Dhu al-Qidah
12 - Dhu al-Hija

Calendário Chinês

De todos os calendários em vigor, o mais antigo é o chinês. É um calendário tanto lunar, como solar. Cada ano apresenta doze lunações, ou 354 dias. Para se igualar ao calendário solar são acrescentados a cada oito anos 90 dias. Está dividido em ciclos de doze anos. Cada ano tem o nome de um bicho e começa sempre em uma lua nova, entre 21 de janeiro e 20 de fevereiro.
Como não há uma era chinesa, os anos não são contados a partir de determinado acontecimento. Foram registradas diversas dinastias chinesas, que se contadas pelo calendário gregoriano, deduz-se que o calendário dos animais é seguido desde 2636 antes de Cristo, o que faria de 2008 o ano de 4644 desse calendário.
Em 1912 a China adotou oficialmente o calendário gregoriano, mas a população continua a seguir o sistema tradicional, sendo a comemoração de cada ano novo chinês a maior festa popular daquele país.
Em 7 de fevereiro de 2008 o calendário chinês entrará no ano do Rato.

Ciclo Chinês

01 - Zi (Rato)
02 - Chou (Boi)
03 - Yin (Tigre)
04 - Mao (Coelho)
05 - Chen (Dragão)
06 - Si (Serpente)
07 - Wu (Cavalo)
08 - Wei (Carneiro)
09 - Shen (Macaco)
10 - You (Galo)
11 - Xu (Cachorro)
12 - Hai (Porco)
 
 
 
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Terça-feira, 5 de Agosto de 2008

JOGOS OLÍMPICOS E A POLÍTICA DAS NAÇÕES

 

 

Desde 1896, de quatro em quatro anos, as nações do planeta reúnem-se em alguma parte do mundo, para a realização dos jogos olímpicos. São as chamadas olimpíadas de verão, seguidas pelos eventos menores – as olimpíadas de inverno e os jogos para-olímpicos, para deficientes físicos. A confraternização é feita através da disputa entre as nações, representadas pelos seus maiores atletas. Os jogos olímpicos representam hoje, um poderoso prestígio para os países que deles participam e para o país que recebe o evento. A sua realização tomou dimensões políticas profundas através dos tempos, onde todas as ideologias e regimes políticos do planeta, autoritários ou democráticos, neles respingaram e foram refletidos pelos povos da terra.
Originários na Grécia antiga, desde que foram recriados nos tempos atuais, os jogos olímpicos só deixaram de ser realizados em época de guerra: em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial (1914 -1918), e, em 1940 e 1944, durante a Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945). Não só as duas guerras mundiais deixaram uma nuvem negra sobre os jogos, como também a Guerra Fria (1946 – 1989) e o terrorismo causaram danos irreversíveis à confraternização. Em tempos da globalização, os Jogos Olímpicos de Pequim, realizados em 2008, são marcados pelas manifestações contra as repressões e à anexação do Tibet pela China. Mais de 100 anos se passaram desde que os jogos olímpicos da era moderna foram introduzidos no planeta, ruíram regimes e impérios, mas os problemas das nações estão longe de uma solução.

As Olimpíadas Através dos Tempos

Os primeiros jogos olímpicos surgiram na Grécia, por volta de 2700 a.C., como celebração aos deuses, principalmente a Zeus, o senhor do Olimpo. Eram realizados de quatro em quatro anos, reunindo atletas de todas as cidades gregas em Olímpia, cidade do Peloponeso. Os jogos serviam para manter a paz entre as cidades helênicas, servir e homenagear os deuses e, para manter a perfeição do corpo, que era uma das perseguições do ideal grego. Ao fim das competições, os atletas vitoriosos recebiam uma coroa de louros como prêmio. A partir de 775 a.C., o local de realização dos jogos, Olímpia, cedeu o seu nome para o evento, que passou a ser chamado de jogos olímpicos.
Os jogos olímpicos foram realizados na Grécia até o ano de 394 d.C. Com o surgimento do cristianismo e a conversão do mundo antigo a esta religião, o evento foi tido como resquício das tradições pagãs, os deuses tornaram-se mitos e, naquele ano, o imperador Teodósio II, já feito cristão, ordenou o fim das olimpíadas gregas.
Só no fim do século XIX, o francês Pierre de Frédy, o Barão de Coubertin, organizou um congresso internacional em 23 de Junho de 1894, na Sorbonne, em Paris, para criar o Comitê Olímpico Internacional (COI). Dois anos depois, em 1896, foram realizados os I Jogos Olímpicos, em Atenas, na Grécia, a pátria das olimpíadas da Antigüidade. Desde então, com exceção dos períodos de guerra, eles acontecem de quatro em quatro anos.

Evolução dos Jogos Atuais

Desde a sua criação, em 1896, os jogos olímpicos da era moderna, sofreram várias transformações, até adquirir o formato atual.
Criado a princípio, para atletas masculinos, em 1900 passou a contar com a participação de atletas do sexo feminino.
A bandeira olímpica, branca com os cinco anéis entrelaçados, que representam os continentes (azul, Europa; amarelo, Ásia; preto, África; verde, Oceania e vermelho, América). Idealizada pelo Barão de Coubertin, em 1913, foi apresentada no congresso olímpico de 1914, em Alexandria (Grécia). Foi içada pela primeira vez nos jogos olímpicos de Antuérpia, em 1920. A mesma bandeira foi usada até 1984, nos jogos olímpicos de Los Angeles. Nas olimpíadas de Seul foi confeccionada uma nova bandeira. A bandeira deve ficar guardada no corredor da cidade anfitriã até os próximos jogos.
Em 1936, as olimpíadas de Berlim instituíram a chegada da tocha olímpica e o acender de uma pisa como parte da cerimônia de abertura.

As Olimpíadas e a Política das Nações

Os reflexos da política dos regimes instituídos pelas nações, tornaram-se claros nas olimpíadas de Berlim, em 1936. A Alemanha nazista estava no seu auge. Hitler queria provar a superioridade da raça ariana diante do mundo. Ele próprio supervisionou os preparativos dos jogos, o evento foi usado como máquina de propaganda do estado nazista. O mundo viu surgir superatletas alemães, e, com mais surpresa, negros americanos a superar os titãs arianos. James Cleveland, o Jesse Owens, ganhou quatro medalhas de ouro. Hitler recusou-se a entregar, através das suas mãos, as medalhas ao atleta, enviando um representante de hierarquia inferior para fazê-lo. Foram os últimos jogos olímpicos até o fim da Segunda Guerra Mundial, que só retornariam em 1948, em Londres.
Com o fim das guerras mundiais, o surgimento da guerra fria, onde Estados Unidos e União Soviética lutavam pelo poder no mundo, marcou e caracterizou os jogos até as olimpíadas de Seul, em 1988, um ano antes da queda do muro de Berlim. Os dois países disputaram medalha a medalha, fazendo de cada uma delas a propaganda e símbolo do poder dos regimes que representavam no planeta.
O terrorismo deixou marcas indeléveis nos jogos olímpicos. A maior tragédia aconteceu nos jogos olímpicos de Munique, na então Alemanha Ocidental, em 1972 . Em 5 de setembro, terroristas árabes do Movimento Setembro Negro, invadiram a vila olímpica, mataram dois membros da equipe de Israel e fizeram outros nove de reféns, resultando na morte de 11 israelenses (David Berger, Ze'ev Friedman, Joseph Gottfreund, Eliezer Halfin, Joseph Romano, Andrei Schpitzer, Amitsur Shapira, Kahat Shor, Mark Slavin, Yaakov Springer e Moshe Weinberg). Os jogos olímpicos foram paralisados por 34 horas devido ao "Massacre de Munique".
Nas olimpíadas de Montreal, no Canadá, em 1976 , atletas de Camarões, Egito, Marrocos e Tunísia competiram antes de seus países se retirarem dos jogos olímpicos, devido ao boicote anti-Apartheid. 28 países (26 países, além de Iraque e Guiana) boicotaram os jogos olímpicos devido à participação da Nova Zelândia. A seleção da Nova Zelândia de rugby union (All Blacks) realizou uma excursão à África do Sul, país banido pela política racial do Apartheid.
Em 1979, a União Soviética invadiu o Afeganistão. As conseqüências políticas desta invasão vieram nas olimpíadas de Moscou, ex-União Soviética, em 1980. 70 países liderados pelos Estados Unidos, boicotaram os jogos, em protesto à invasão soviética do Afeganistão. Atletas da Libéria desfilaram na cerimônia de abertura, mas o país se retirou dos jogos. França, Portugal, Reino Unido e outros países ocidentais, aderiram ao boicote, mas não proibiram seus atletas de disputar as competições, enviaram delegações menores e competiram sob a Bandeira Olímpica.
Em 1984, nas olimpíadas de Los Angeles, EUA, foi a vez do boicote soviético, que afastou 15 países socialistas das competições. A União Soviética alegou que a autoridades norte-americanas fazia dos jogos uma arena política que não garantiam a segurança dos seus atletas.
1988, quando a União Soviética e os regimes socialistas europeus entravam no crepúsculo da sua existência, a guerra fria, já agonizante, atingia os jogos olímpicos de Seul, Coréia do Sul: em solidariedade à Coréia do Norte, que se afastou dos jogos por não lhe ser permitindo sediar parte deles, Cuba boicotou o evento. A Nicarágua declinou do convite devido à sua situação política interna. É a ultima olimpíada da União Soviética, que voltaria ainda em 1992, em Barcelona, já desfeita e com o nome de Comunidade de Estados Independentes (CEI).
Mas para quem pensou que os conflitos encerrar-se-iam com o fim da guerra fria, surpreendeu-se quando, em 1996, no aniversário dos 100 anos dos jogos, quando as olimpíadas de Atlanta, Estados Unidos, foram marcadas pela volta do terrorismo, com a explosão de uma bomba no Parque Olímpico, que matou duas pessoas, trazendo a sombra do medo de volta ao cenário olímpico.
Agora, em 2008, nas olimpíadas de Pequim, na China, a tocha olímpica foi impedida de dar a volta aos continentes pacificamente. Em Paris, Londres e São Francisco, violentas manifestações a favor do Tibet, impediram que o tradicional desfile da tocha seguisse tranqüilamente a sua volta ao mundo. Mudam-se os tempos, mas o autoritarismo das nações continua a ser a grande mancha negra da confraternização dos jogos olímpicos.

Cronologia das Olimpíadas:

1896 - I Olimpíada - Atenas, Grécia
1900 - II Olimpíada - Paris, França
1904 - III Olimpíada - Saint Louis, Estados Unidos
1908 - IV Olimpíada - Londres, Reino Unido
1912 - V Olimpíada - Estocolmo, Suécia
1916 - VI Olimpíada - Não realizada
1920 - VII Olimpíada - Antuérpia, Bélgica
1924 - VIII Olimpíada - Paris, França
1928 - IX Olimpíada - Amsterdã, Holanda
1932 - X Olimpíada - Los Angeles, Estados Unidos
1936 - XI Olimpíada - Berlim, Alemanha
1940 - XII Olimpíada - Não realizada
1944 - XIII Olimpíada - Não realizada
1948 - XIV Olimpíada - Londres, Reino Unido
1952 - XV Olimpíada - Helsinque, Finlândia
1956 - XVI Olimpíada - Melbourne, Austrália
1960 - XVII Olimpíada - Roma, Itália
1964 - XVIII Olimpíada - Tóquio, Japão
1968 - XIX Olimpíada - Cidade do México, México
1972 - XX Olimpíada - Munique, Alemanha Ocidental
1976 - XXI Olimpíada - Montreal, Canadá
1980 - XXII Olimpíada - Moscou, União Soviética
1984 - XXIII Olimpíada - Los Angeles, Estados Unidos
1988 - XXIV Olimpíada - Seul, Coréia do Sul
1992 - XXV Olimpíada - Barcelona, Espanha
1996 - XXVI Olimpíada - Atlanta, Estados Unidos
2000 - XXVII Olimpíada - Sydney, Austrália
2004 - XXVIII Olimpíada - Atenas, Grécia
2008 - XXIX Olimpíada - Pequim, China
 
 
 
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Quinta-feira, 31 de Julho de 2008

O CIGARRO E A CUMPLICIDADE DOS MÉDIA

 

 

A indústria do cigarro foi a responsável pelas propagandas mais elaboradas e de penetração de massas, que fizeram parte da cultura brasileira dos anos setenta aos anos noventa, influenciando diretamente no comportamento de duas gerações. Uma triste marca para o Brasil ter sido tão influenciado por uma indústria que vende um produto que vicia e mata lentamente os seus consumidores.
Já nos anos oitenta a propaganda de cigarros sofria restrições na Europa e em países de outros continentes, sendo obrigatório que o produto trouxesse em sua embalagem um selo de alerta de que aquele produto causava danos irreversíveis à saúde, mas no Brasil não existia esta preocupação e o cigarro era comercializado livremente, sem advertências e promovido por campanhas publicitárias que fascinavam uma geração, que embriagada pelo marketing, sonhava com a virilidade selvagem do cowboy da Marlboro, ou com os modelos elegantes e bem sucedidos das campanhas da marca Hollywood.

David McLaren, o Marlboro Man

No século XX ,com o surgimento do cinema como meio de comunicação de massas no planeta, surge a glamourização do tabaco. Os galãs de Hollywood são belos, heróicos e fumam. Alguém consegue imaginar o mito Humphrey Bogart sem o seu companheiro de solidão, o cigarro? (Alguém se lembra de definhar e ser morto por um câncer?) A indústria tabagista aproveita-se do cigarro como “acessório” de imagem bem sucedida e cria em seus anúncios, um estilo de vida que reflete o sucesso, a beleza e o poder. Este estigma ainda hoje, no século XXI, faz parte desta indústria da morte.
A Marlboro criou em 1954 o Marlboro Man, personagem que fez parte das suas campanhas publicitárias até 1999. O personagem foi criado por John Landry, da agência Leo Burnett, como parte de uma campanha (Delivers the Goods on Flavor) de redirecionamento da marca, que na época era direcionada para o público feminino. O brilhantismo da campanha foi tanto que o cigarro Marlboro se tornou um ícone do mundo masculino. Os anúncios destacavam o homem em situações de impetuosa virilidade explícita ou velada, domando cavalos belíssimos, atingido o clímax e volúpia final com a frase: “Terra de Marlboro, aonde os homens se reúnem”, criando um mundo masculino a insinuar que o homem que fumasse o cigarro seria viril e pai de uma prole saudável. Dois dos modelos que representaram a figura apoteótica do cowboy da Malrboro, Wayne McLaren e David McLean morreram de câncer devido ao uso contínuo do cigarro. Wayne McLaren teria no leito de morte, em 1992, aos 49 anos, pronunciado as suas últimas palavras: “Eu sou a prova morta de que o cigarro vai matar vocês.” As imagens do ex-cowboy agonizando foram vinculadas nas campanhas internacionais antitabagistas, em nada lembram a virilidade do homem sobre o seu cavalo indomável.

 

A “Lei de Gerson”, Fruto da Publicidade Tabagista


No Brasil, a presença das marcas de cigarros na mídia influenciaram a história recente deste país. O maior exemplo dessa influência foi o termo “A Lei de Gerson”, termo criado para designar as várias crises de identidade pelo qual o país passou nos últimos trinta anos do século XX. O termo serviu para identificar a malandragem em contraponto com o trabalhador dedicado. Identificava o astuto e esperto que vivia de “expediente”, como se dizia na época, e sabia dar um “jeitinho”. O que pouca gente sabe ou não se lembra, é que o termo surgiu com o comercial do cigarro Vila Rica, onde o jogador Gerson, herói do tri-campeonato brasileiro de futebol em 1970, ao acender e tragar um cigarro da marca, solta o seu famoso bordão: “Gosto de levar vantagem em tudo, certo?” E a ter como ponto de partida um anúncio de cigarro ironicamente a ética do país foi discutida, a Lei de Gerson tornou-se um elemento de definição da identidade nacional.
Outros bordões de cigarros tornaram-se ícones do cenário nacional da propaganda, como o da campanha dos cigarros LS: “O fino que satisfaz”, feita pelo modelo Pedro Aguinaga no fim dos anos setenta. Ou as marcas voltadas para a mulher, que traziam comerciais mais sensíveis e de forte apelação emotiva do universo feminino, como os da Charm, “O Importante é ter charme” e os do cigarro Ella: “Ela sou eu”.

 

O Glamour das Campanhas do Cigarro

Mais que uma influência, os reclames da marca Hollywood ditaram um estilo de vida que atingiu a juventude dos anos oitenta. De 1973 a 1998 as propagandas desta marca de cigarro foram todas voltadas para o esporte radical. Trazia clipes que se tornaram cult de toda uma geração que viveu intensamente os anos oitenta. Até hoje esses clipes são distribuídos pela internet, vistos e consumidos por milhares de pessoas saudosistas daqueles anos. Vários foram os álbuns de músicas das propagandas do Hollywood lançados no mercado. Os adolescentes de então sonhavam em ser como os homens das propagandas dos cigarros Hollywood, e fumar, trazer na mão um cigarro, para esta geração era estar na moda, era ser um homem vencedor.
Era comum ver as celebridades a fumar durante entrevistas, como é o caso da cantora Elis Regina, que deu a última entrevista da sua vida em 10 de janeiro de 1982, para o programa “Jogo da Verdade”, da TV Cultura, a fumar um cigarro Charm. Ou os atores das telenovelas, como Tarcísio Meira e Aracy Balabanian, que no auge das suas carreiras nos anos setenta como protagonistas das novelas da Globo, apareciam fumando em pleno horário nobre. Em 12 de outubro de 2007, as últimas palavras do ator Paulo Autran foram dirigidas à esposa, a atriz Karin Rodrigues, a pedir para que as pessoas não fumassem. O ator fumou a vida inteira, saiu de cena vítima de um câncer causado pelo tabaco.
As campanhas publicitárias de tabaco foram banidas da televisão já no segundo governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso, através de uma campanha mais agressiva contra o tabaco, numa guerra comprada pelo Ministério da Saúde e pelo então ministro José Serra, contra a indústria tabagista. Mesmo depois de banidas da mídia através de uma lei federal, as marcas de cigarros continuaram a vincular o seu produto às grandes revistas nacionais, ou camufladas na produção de espetáculos culturais como o Free Jazz Festival, ou ainda, nas corridas de Fórmula 1 (com propagandas nos carros, nos capacetes e nas roupas dos pilotos). Além dos cigarros, a Marlboro é dona de uma marca de roupas cara e famosa, muito apreciadas por jovens desportistas estilo montanhês.
O poder da indústria tabagista domina grande parte do planeta. É uma indústria enraizada em todos os meios de comunicação, diretamente ou de forma implícita. Através do glamour das suas propagandas, o seu produto causa câncer. Traz a morte. Pense nisto ao consumir vídeos de propagandas tabagistas na rede.
 
 

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