Quarta-feira, 13 de Maio de 2009

POEMAS AMERÍNDIOS

 

 

O Estado moderno é resultado de várias conquistas que resultaram na submissão dos mais fracos pelos mais fortes, na dizimação de culturas e extinção de muitos povos. A Terra Prometida por Deus, onde jorrava o leite e o mel era habitava por tribos pagãs e de costumes hostis aos ensinamentos judaicos, foi preciso a guerra e a aniquilação dessas tribos para que se erguesse o Templo ao Deus de toda a civilização ocidental.
Assim também aconteceu com a América descoberta por Cristóvão Colombo. Os grandes navegantes encontraram às costas do Mar Oceano (Atlântico), imensas terras transbordantes de leite e mel, de rios límpidos e solo fértil. O novo continente urdia por ser explorado. Mas povos pagãos que nessas terras habitavam, eram providos de uma cultura paralela, de deuses próprios e filosofia voltada para a natureza, esses povos contrapunham aos desígnios dos conquistadores europeus. Considerados ilidimos na sua fé, aos poucos os americanos verdadeiros, chamados de índios pelos europeus, e que habitavam a América do Alasca à Terra do Fogo, foram conquistados, catequizados, aprisionados, mortos e extintos, dando passagem para fronteiras invisíveis de nações concretas.
Do grito das civilizações pré-colombianas, alguns poemas chegaram aos nossos dias. Chegam aos nossos ouvidos como uma brisa ecoada pelo sangue derramado em nome da civilização moderna, mostrando-nos a imarcescibilidade de uma glória que o tempo aclama. São os Poemas Ameríndios, lúdicos na natureza em que se inspiram, eternos no grito de nações extintas e povos que derramaram o seu sangue em nome da utopia do que se veio a ser o continente descoberto por Colombo, a América única, sem norte, sem sul, sem fronteiras ou símbolos patrióticos.

Extrato do Discurso de Seattle, Chefe dos Dwamish e Squamish

“Cada parcela deste solo é sagrada, no modo de ver do meu povo. Cada encosta, cada vale, cada planície e bosque foi santificado através de algum acontecimento triste ou alegre em dias há muito desaparecidos. A própria poeira sobre a qual vocês agora se erguem responde mais amorosamente aos seus passos do que aos vossos, porque foi enriquecida com o sangue dos nossos antepassados e os nossos pés nus estão conscientes da empatia do contacto. Até as criancinhas que aqui viveram e se divertiram durante uma breve estação irão amar estas solidões sombrias e, ao cair da noite, saudarão os assombrados espíritos que regressam. E quando o último Pele-Vermelha tiver perecido e a memória da minha tribo se tiver tornado um mito entre o Homem Branco, os mortos invisíveis da minha tribo irão pulular por essas praias; e quando os filhos dos vossos filhos se julgarem sós no campo, no armazém, na loja, na estrada ou no silêncio das florestas sem caminhos, não estarão sós. Pela noite, quando as ruas das vossas cidades e vilas estão silenciosas e vocês as supõem desertas, estarão apinhadas com as hostes que regressam e que outrora encheram e ainda amam esta bela terra.”

Poema (Astecas)

As flores nascem, amadurecem, completam-se,
Abrem as corolas.
- De dentro de saem as flores do canto:
derrama-las sobre os homens, sobre eles as esparzes:
tu és um cantor!
- Fruí do canto, todos vós,
fruí, dançai, entre as flores respira o canto:
e eu, cantor, respiro no meu canto!

Canto de Amor de um Jovem (Kwakiutles)

Cada vez que como, como a dor do teu amor.
Cada vez que tenho sono, sonho com o teu amor.
Cada vez que estou em casa deitado de costas, estou deitado sobre a dor do teu amor.
Cada vez que ando, ponho o pé sobre a dor do teu amor.

Canção (Araucanos)

A terra inteira é uma só alma,
somos parte dela.
Mudar, sim, mudarão as nossas almas,
mas não morrerão nunca as nossas almas.
Somos uma alma única
como única é a terra.

Canção do Tear Celeste (Tewas)

Pai-Céu, Mãe-Terra,
somos vossos filhos, e nas costas cansadas
trazemos as dádivas.
Para nós mesmos trazemos as vestes esplendorosas.
Que seja a urdidura a luz branca da aurora,
que a trama seja a luz vermelha da tarde,
que sejam as franjas a chuva que tomba,
que a orla seja o arco-íris que se levanta.
Para nós mesmos tecemos as vestes esplendorosas.
Para podre caminhar por onde cantam os pássaros,
para poder caminhar por onde é verde a erva,
Pai-Céu, Mãe-Terra.

Poema (Astecas)

Se me ponho a cantar,
como vermelha trepadeira se entrelaça o meu canto:
flor que cheira a milho torrado, onde se ergue a Árvore:
perfume de flor de cacau: dança junto ao tambor,
dança libertando o teu perfume.
Ergue-se além o sol:
num vaso de esmeralda coberto de quetzal,
cinge-o um colar de turquesas,
e as flores caem entre todas as cores.

Canções (Quíchuas)

Nasci qual planta que no deserto
irrompe sem seiva e sem calor:
no caule que sobe, ríspido, hirto,
abrolha um germe, não abre a flor.
Que não vi estrela assim tão áspera:
fechada nas trevas, nunca arder.
E sobre o meu berço agras lágrimas:
porque eu nasci só para morrer.
Acabará minha estéril história
que a si própria se liga por dentro:
a vida, o nome, a minha memória,
gravados fundo no esquecimento.

Canto do Sonho (Papagos)

Ali onde a montanha se acaba,
Lá em cima, nem eu mesmo sei aonde,
Vagueei por ali, por onde a minha cabeça
e o meu coração pareciam perdidos.
Vagueei lá longe.

Poema (Zunis)

Cobre a terra minha mãe quatro vezes de flores inumeráveis.
Que os céus se cubram de nuvens acumuladas.
Que a terra se cubra de névoa; cobre a terra de chuvas.Grandes águas, chuvas, cubram a terra. Relâmpago, cobre a terra.
Que se oiça o trovão por cima de toda a terra; que se oiça o trovão.
Que se oiça o trovão por cima das seis regiões da terra.

Poema (Tewas)

A minha casa lá longe, a minha casa lá longe!
A minha casa lá longe, agora me recordo!
E quando vejo essa montanha lá longe,
Pois bem, choro. Ai! Que posso fazer?
Que posso fazer? Ai! Que posso fazer?
A minha casa lá longe, agora me recordo.

Canto do Veado de Cauda Negra (Pimas)

Do alto das moradas da magia,
Do alto da moradas da magia,
Sopram os ventos. Nos meus cornos,
Nas minhas orelhas, juntos, sopram ainda mais forte.
Lá longe, corria tremendo,
Lá longe, corria tremendo:
Arcos e flechas perseguindo-me.
Quantos arcos havia na minha pista!

Poema (Siouxs)

Como desejaria vaguear na noite
Contra os ventos.
Vaguear na noite
Quando a coruja ulula.
Como desejaria vaguear.
Como desejaria vaguear na alba
Contra os ventos.
Vaguear na alba
Quando a gralha grita.
Como desejaria vaguear.

Poema (Makahs)

Por mais que me esforce por te esquecer,
Voltas sempre aos meus pensamentos.
E é quando me ouves cantar,
Que te choro.

Poema (Chippewas)

Às vezes
Sucede que me compadeço
Enquanto que, levado pelo vento,
Atravesso o céu.

Poema (Papagos)

Ao entardecer
Chove.
Além, nos confins da terra
Há um ruído como um ranger,
Há um ruído como o de uma queda.
Além, abaixo, continua a bramir
Continua a tremer.

Poema (Kiowas)

Esse vento, esse vento
Sacode a minha tenda. Sacode a minha tenda
E canta uma canção para mim
Canta uma canção para mim.

Poema (Winnebagos)

Era digno de se ver,
esse mundo novamente criado.
Sobre toda a largura e amplidão
da terra, nossa avó,
estendia-se o reflexo verde
da sua cobertura
e os perfumes que ascendiam
eram doces de respirar.

Poema (Apaches)

O dia levantou-se por entre uma chuva suave.
O lugar chamado “onde fica a água do relâmpago”,
O lugar chamado “ali onde surge a alba”,
Quatro lugares denominados “a alba da vida”,
Ali é onde toco a terra.
Os filhos do céu, vou por entre eles.
Chegou até mim com uma longa vida.
Quando fala por cima do meu corpo com a mais longa vida,
A voz do trovão falou quatro vezes
Falou-me quatro vezes com vida.
O santo jovem celeste falou-me quatro vezes.
Quando me falou, chegou o meu alento.

Prece para Curar a Epilepsia (Maias)

Fogo verde, névoa no ar,
tornas-te epilepsia.
Fogo amarelo, tornas-te epilepsia.
Vento norte,
tornas-te epilepsia,
epilepsia engendrada pelo sono, engendrada pelo
sonho,
epilepsia,
névoa branca, tornas-te epilepsia,
névoa vermelha, tornas-te epilepsia.
Desatamos,
nove vezes desatamos,
desfazemos,
nove vezes desfazemos,
aplacamos, Senhor, nove vezes aplacamos.
Uma hora, meia hora, para que saia como uma névoa,
para que saia como uma borboleta, para que saia.
Regula-te, pulso grande! Regula-te, pulso pequeno!
Os dois pulsos numa hora, meia-hora,
Senhor, assim seja.
Sais agora, epilepsia, sais agora
sobre treze montanhas,
sobre treze cumeeiras,
sais ao meio de treze renques de árvores,
sais ao meio de treze renques de pedras,sais agora.
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Quinta-feira, 9 de Abril de 2009

DOM CASMURRO - MACHADO DE ASSIS

 

 

Em 2008 completou-se cem anos da morte de Machado de Assis, considerado o maior escritor brasileiro de todos os tempos. Autor de uma obra singular, densa e rica, Machado de Assis foi um escritor completo, deixou-nos romances, poesias, contos e peças teatrais. Como romancista nos legou verdadeiras obras-primas da literatura universal, como Dom Casmurro, Quincas Borba e Helena. É sobre o primeiro, Dom Casmurro, que, mais uma vez, se irá falar e tentar desvendar os seus meandros e armadilhas psicológicas.
Dom Casmurro é o mais famoso livro de Machado de Assis, e também o mais enigmático. Os amores de Bentinho e Capitu, desde que o livro foi lançado em 1899, gerou polêmicas, debates e arroubos dos leitores. Uma primeira leitura a Dom Casmurro, remete-nos a sensação de que temos mais um livro sobre o adultério feminino, tão magistralmente explorado na literatura realista do século XIX, em obras como Madame Bovary, de Gustave Flaubert; Ana Karenina, de Leon Tolstoi, e O Primo Basílio, de Eça de Queiroz. Esta interpretação simplista esvai-se conforme nos aprofundamos na leitura. Se nos outros romances citados o adultério das protagonistas é explícito, levando as personagens ao êxtase dos amores fora dos leitos conjugais, remetendo-as mais tarde à culpa, à insatisfação e à morte, em Dom Casmurro o adultério de Capitu é apenas sugerido diante das desconfianças do marido. Em momento algum há uma confissão dos acusados, Capitu e Escobar. O adultério está refletido na face e nos gestos de Ezequiel, que Bentinho, em seu ciúme obsessivo e perturbado, insiste em ver como uma cópia física de Escobar.
Mas até onde Capitu é culpada? Além da visão embaçada de Bentinho, mortificada pelo ciúme, que outra prova temos das verdades ou mentiras dos sentimentos e dos seus abismos? Por cerca de 60 anos, o adultério de Capitu foi dado como verdadeiro pelos leitores e críticos da obra. A palavra de Bentinho era aceita sem dúvidas. Somente em 1960, quando a crítica e escritora norte-americana, Helen Caldwell, publicou The Brazilian Othelo of Machado de Assis (O Otelo Brasileiro de Machado de Assis), é que esta visão definitiva passou a ser contestada. Helen Caldwell, uma especialista na obra de Machado de Assis desde os anos 50, questiona que em momento algum Machado de Assis diz que Capitu cometeu adultério, prevalecendo apenas a acusação baseado nas suspeitas de Bentinho. Ao contrário da Ana Karenina ou da Luísa de O Primo Basílio, Capitu não se confessa adúltera. Na visão de Helen Caldwell, Bentinho é a versão brasileira do Otelo de Shakespeare, que por ciúmes e por julgar-se traído, matou a amada Desdêmona, inocente diante da acusação fatal. Esta nova análise de Dom Casmurro foi, a princípio, mal aceita pelos críticos, mas com o passar do tempo, lançou uma nova perspectiva sobre a obra machadiana. Desde então, o enigma foi criado e jamais desvendado. Teria a bela Capitu cometido adultério, ou seria, assim como Desdêmona, vítima dos ciúmes de Bentinho-Otelo?

Construindo a Narrativa

Dom Casmurro traz impregnado em sua narrativa o estilo peculiar de Machado de Assis, capítulos curtos, frases concisas, em uma linguagem que percorre da mais tenra ironia ao sarcasmo agudo. O autor trava um diálogo direto com o leitor. Muitas vezes explica a forma da narração, contesta-a, alerta o leitor, incentiva-o ou desaconselha-o a continuar a leitura.
A história é narrada na primeira pessoa de Bento Santiago, o Bentinho, o protagonista. Bentinho, homem amargo e solitário, retido nas lembranças das desconfianças e do rancor, já no crepúsculo da vida, decide escrever um livro sobre a sua existência corroída. Encontra o título para a sua história na alcunha de casmurro, dada pelas pessoas ao seu temperamento recluso e taciturno. Acrescenta ironicamente à alcunha o título de dom, daí Dom Casmurro, senhor absoluto das dores contidas, das amarguras da vida, isolado em si mesmo e no sarcasmo filosófico pelo qual trocou a felicidade bucólica de uma vida em família.
Bentinho traz uma narrativa psicológica, onde o tempo salta do presente para o passado esmiuçado nas lembranças, situando-se cronologicamente na segunda metade do século XIX. Construída em flash-back, a narrativa de Bentinho depara-se em determinadas datas, partindo oficialmente das lembranças do ano de 1857, apesar de fazer algumas referências ao pai e à vida no campo antes deste momento cronológico. A história decorrerá toda no segundo império do Brasil, na cidade do Rio de Janeiro. É-nos apresentado a casa da Rua de Matacavalos, com os seus moradores, dona Glória, mãe de Bentinho, senhora que vive para as lembranças da sua viuvez e o amor ao filho; tio Cosme, irmão de Glória, a prima Justina e o agregado José Dias. Este é o mundo do menino e do adolescente Bentinho, complementado pelos vizinhos Pádua, a mulher Fortunata, e a filha Capitolina, a Capitu.
Bentinho escreve da sua casa no Engenho Novo. Concentra a maior parte da narrativa nas memórias da sua adolescência. Na descoberta do amor pela bela Capitu, companheira das suas brincadeiras de infância. Bentinho e Capitu descobrem este amor com quinze e catorze anos respectivamente. A história singela dos adolescentes transcorreria normalmente como tantas outras, não fosse o espectro do seminário que pousa sobre o destino do rapaz.

Capitu, Olhos de Cigana Oblíqua e Dissimulada

Diante da perda do primeiro filho, que não vingou ao nascer, dona Glória prometeu que se o segundo vingasse, entregar-lhe-ia à igreja, tornando-o padre. Assim, Bentinho cresceu sabendo do destino que lhe aguardava como padre. Se na infância a idéia lhe agradava, na adolescência passa a sentir pavor a ela. Assustado, o adolescente Bentinho ficará refém da promessa da mãe e do amor que lhe despertou Capitu. Diante deste dilema, será traçada a personalidade de Capitu, já anunciada a sua essência pela frase de José Dias:

Capitu, apesar daqueles olhos que o Diabo lhe deu... Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada.

Para justificar, talvez a Capitu adúltera, a dissimulação é a principal característica que dela Bentinho irá ressaltar em suas memórias de adolescente. Se a descoberta do amor juvenil deixa Bentinho sem controle de si, Capitu mantém pulso diante do sentimento descoberto. Trôpegos e assustados, os dois trocam o primeiro beijo, as primeiras carícias, as primeiras tempestades dos sentimentos. Beijos roubados, carícias furtivas, muitas vezes quase descobertas pelos adultos. Se a iminência da descoberta do romance pela família apavora Bentinho, Capitu sabe dissimular e manter os sentimentos às rédeas. E ao lado do jovem amado, traça planos e planos para livrá-lo do seminário.
Mas a dissimulação de Capitu durante o decorrer do seminário é condenável? Só ela dissimula? Não seria uma virtude, a luta verdadeira pelo amor de Bentinho? Afinal ela é vista como a usurpadora da igreja e da promessa de Glória na vida de Bentinho. Poderia ela declarar abertamente o seu amor por Bentinho? Ou não dissimular às vezes que quase fora apanhada a roubar um beijo adolescente? Qual mulher não dissimularia naquelas décadas moralistas da segunda metade do século XIX? Evidenciar a dissimulação de Capitu não seria a estratégia de Bentinho para justificar as suas suspeitas e o seu ciúme?

O Seminário e as Pistas da Personalidade de Bentinho

Apesar dos planos de Bentinho e Capitu, aliados aos de José Dias, para que dona Glória desistisse da promessa, o inevitável acontece. Bentinho é mandado para o seminário. Ali conhece o seminarista Ezequiel de Sousa Escobar, simplesmente conhecido como Escobar. Travam uma grande amizade que se seguiria por toda a vida de ambos.
È na fase de seminarista que se desenha lentamente o perfil psicológico escondido de Bentinho. Se durante toda a narrativa, Bentinho evidencia uma Capitu decidida e repleta de truques na sua essência feminina, ele vai deixando pistas ao leitor da sua verdadeira personalidade e do que ela seria futuramente. Aos poucos, são sopradas as bases da sua também dissimulação, o fantasma de Otelo emerge em momentos rápidos, como no capítulo LXII, sutilmente chamado de “Uma Ponta de Iago”. Iago foi o grande vilão causador da tragédia de Otelo. É através das intrigas de Iago que Otelo mata a amada. No capítulo, uma insinuação de José Dias em visita ao seminário, transborda, pela primeira vez, o lado ciumento de Bentinho.

“- Tem andado alegre, como sempre; é uma tontinha. Aquilo enquanto não pegar algum peralta da vizinhança, que case com ela...
Estou que empalideci; pelo menos, senti correr um frio pelo corpo todo. A notícia de que ela vivia alegre, quando eu chorava todas as noites, produziu-me aquele efeito, acompanhado de um bater de coração, tão violento, que ainda agora cuido ouvi-lo. Há alguma exageração nisto; mas o discurso humano é assim mesmo, um composto de partes excessivas e partes diminutas, que se compensam, ajustando-se. Por outro lado, se entendermos que a audiência aqui não é das orelhas, senão da memória, chegaremos à exata verdade. A minha memória ouve ainda agora as pancadas do coração naquele instante. Não esqueças que era a emoção do primeiro amor. Estive quase a perguntar a José Dias que me explicasse a alegria de Capitu, o que é que ela fazia, se vivia rindo, cantando ou pulando, mas retive-me a tempo, e depois outra idéia...
Outra idéia, não, – um sentimento cruel e desconhecido, o puro ciúme, leitor das minhas entranhas. Tal foi o que me mordeu, ao repetir comigo as palavras de José Dias: "Algum peralta da vizinhança." Em verdade, nunca pensara em tal desastre. Vivia tão nela, dela e para ela, que a intervenção de um peralta era como uma noção sem realidade; nunca me acudiu que havia peraltas na vizinhança, vária idade e feitio, grandes passeadores das tardes. Agora lembrava-me que alguns olhavam para Capitu, – e tão senhor me sentia dela que era como se olhassem para mim, um simples dever de admiração e de inveja. Separados um do outro pelo espaço e pelo destino, o mal aparecia-me agora, não só possível mas certo. E a alegria de Capitu confirmava a suspeita; se ela vivia alegre é que já namorava a outro, acompanhá-lo-ia com os olhos na rua, falar-lhe-ia à janela, às ave-marias, trocariam flores e...”


Esta face do ciúme negro de Bentinho voltaria no capítulo LXXIII, quando Escobar conhece ao longe, Capitu, que está à janela da sua casa. Após a saída do amigo, passa na rua um cavalheiro montado em seu cavalo, rumando para o seu namoro. Bentinho vê o cavalheiro lançar um olhar insinuante para Capitu, e, envenenado, sente que ela retribuiu aquele olhar. É o bastante para a ira, o ciúme e o desespero tomar conta dele. Mais tarde, Capitu defende-se, não nega que olhou para o cavalheiro, mas com curiosidade, não com malícia. Este mesmo olhar, Bentinho iria supor ver novamente em Capitu no velório de Escobar.

O Casamento e o Abismo

A narrativa de Machado de Assis é lenta, desenvolvida quase toda na adolescência das personagens. Dos 148 capítulos, somente a partir do capítulo XCVII é que é deixada esta fase, entrando de vez na vida adulta das personagens, já quase no final da história.
A fase seguinte dá-se quando é encerrada a vida de Bentinho no seminário. Após um plano eloqüente de José Dias, Escobar sugere ao amigo que faça a mãe cumprir a promessa à igreja através de um substituto. Assim, dona Glória manda um escravo para ser padre em lugar do filho, quitando a sua dívida com o céu.
Livre do seminário, Bentinho vai para São Paulo estudar direito. Volta adulto e bacharel. Durante a sua ausência, Capitu tornara-se amiga e companheira de dona Glória. O perfil adulto de Capitu deixa de ser traçado como dissimulado, para fazê-la uma mulher íntegra e bondosa. Com a morte da mãe, Capitu toma conta do pai e da casa. Está tudo pronto para que a promessa feita quando adolescentes se cumpra, Bentinho e Capitu casam-se finalmente.
O casamento transcorre feliz. Capitu é vista como mulher exemplar, econômica, afetuosa e apaixonada. Escobar casa-se com Sancha, a melhor amiga de Capitu. Os dois casais travam uma longa e afetuosa amizade. Tão profunda que quando nasce o filho de Bentinho, ele pensa em fazer Escobar o padrinho. Mas o desejo de Bentinho é frustrado diante da insistência de tio Cosme em batizar a criança. Não tendo Escobar como padrinho, Bentinho faz uma homenagem ao amigo, dando ao filho o primeiro nome de Escobar, Ezequiel.
A vida corre feliz para Bentinho, Capitu e Ezequiel. Até que a fatalidade traga Escobar, que morre afogado. É no velório de Escobar que o casamento feliz de Bentinho começa a sucumbir. Ele vê nos olhos de “ressaca” de Capitu o mesmo olhar que vira anos antes, quando o cavalheiro desconhecido passou debaixo da janela da amada. Bentinho jura para si mesmo que Capitu olhou para o defunto com um olhar de paixão. Começa o seu desespero e a sua desconfiança. Meses depois, ingenuamente Capitu comenta com Bentinho que acha Ezequiel parecido com o falecido Escobar. A partir de então Bentinho vê o fantasma de Escobar em cada gesto do filho, começa a enxergar uma semelhança exacerbada que o faz acreditar que Ezequiel não é seu filho. Naquele instante Betinho mata a paternidade dentro de si, vê em Ezequiel o retrato da confirmação da traição e do adultério do amigo com a mulher amada.
Abre-se o abismo. Não há mais volta para as desconfianças de Bentinho. Ele apega-se às dúvidas e ao ciúme, deixando-se envenenar dia após dia. A obsessão pela suposta traição que sofrera torna Bentinho um homem amargo. Em um sábado ele decide pôr fim à vida. Compra veneno na farmácia. Antes de consumar o ato, vai ao teatro. Novamente Machado de Assis dá uma pista do que se passa com Bentinho, pois o capítulo CXXXV chama-se “Otelo”.

"Jantei fora. De noite fui ao teatro. Representava-se justamente Otelo, que eu não vira nem lera nunca; sabia apenas o assunto, e estimei a coincidência. Vi as grandes raivas do mouro, por causa de um lenço – um simples lenço! – e aqui dou matéria à meditação dos psicólogos deste e de outros continentes, pois não me pude furtar à observação de que um lenço bastou a acender os ciúmes de Otelo e compor a mais sublime tragédia deste mundo. Os lenços perderam-se. hoje são precisos os próprios lençóis; alguma vez nem lençóis há e valem só as camisas. Tais eram as idéias que me iam passando pela cabeça, vagas e turvas, à medida que o mouro rolava convulso, e Iago destilava a sua calúnia. Nos intervalos não me levantava da cadeira; não queria expor-me a encontrar algum conhecido. As senhoras ficavam quase todas nos camarotes, enquanto os homens iam fumar. Então eu perguntava a mim mesmo se alguma daquelas não teria amado alguém que jazesse agora no cemitério, e vinham outras incoerências, até que o pano subia e continuava a peça. O último ato mostrou-me que não eu, mas Capitu devia morrer. Ouvi as súplicas de Desdêmona, as suas palavras amorosas e puras, e a fúria do mouro, e a morte que este lhe deu entre aplausos frenéticos do público.
“E era inocente”, vinha eu dizendo rua abaixo; “que faria o público, se ela deveras fosse culpada, tão culpada como Capitu? E que morte lhe daria o mouro? Um travesseiro não bastaria; era preciso sangue e fogo, um fogo intenso e vasto, que a consumisse de todo, e a reduzisse a pó, e o pó seria lançado ao vento, como eterna extinção...”


Bentinho questiona a inocência de Desdêmona, que se reflete na suposta culpa de Capitu. A cegueira continua. Aqui ele decide que Capitu é quem tem que morrer. Ao voltar para casa, passa a noite na sala. Ao amanhecer, diluí o veneno no seu café. É interrompido do ato suicida pela entrada de Ezequiel, que corre afetuoso para os braços do pai. Mas já não há amor paternal no coração negro de Bentinho. Uma idéia cruel passa-lhe pela mente, seguindo o instinto, ele tenta fazer com que o filho tome o café envenenado. Termina por não ter coragem de matar o filho. Capitu entra. Pela primeira vez Bentinho acusa a mulher de adultério. Ela ri a princípio, depois se indigna diante das acusações. Capitu não confessa o adultério. Resigna-se, sente-se ultrajada. E com uma dignidade inviolável, aceita a separação do casal, mostrando-se mais uma vez, que sempre fora mais mulher do que Bentinho fora homem.
Bentinho leva a mulher e o filho para a Europa, onde os confina para sempre. Assim como Otelo, mata a mulher, não fisicamente, mas exilando-a longe da sua terra e das suas origens. Para manter as aparências, Bentinho faz várias viagens à Europa, em nenhuma delas visita Capitu e Ezequiel. Recebe ao longo dos anos, cartas de Capitu, sempre pedindo para voltar, jamais confessando o adultério. Capitu morre exilada na Europa. Ezequiel volta para o Brasil já adulto, tornara-se um arqueólogo. O jovem, ao contrário do pai, nunca se esqueceu da infância vivida ao seu lado. Bentinho não vê chegar o Ezequiel Santiago, mas o próprio Ezequiel de Sousa Escobar. Vê em cada gesto do rapaz os gestos de Escobar. Ezequiel fala dos planos que tem para a sua carreira de arqueólogo, quer visitar as terras históricas. Uma idéia sarcástica toma conta de Bentinho, a de financiar a expedição de Ezequiel na esperança de que ele apanhe a lepra pelos sarcófagos dos reis da antiguidade. Ezequiel parte para Jerusalém, financiado pelo pai. Não morre de lepra, mas de uma febre tifóide que apanha na cidade santa.
Casmurro, amargo, sarcástico, Bentinho enterra todas as personagens da sua história. Um a um, todos sucumbem à sua volta. Tudo ao seu redor é estéril. Todos os filtros do conceito de amor, família e felicidade, são diluídos pelo niilismo amargo e obsessivo de quem se sentiu traído pela vida, pelo amor da mulher amada e pelo melhor amigo. Não há o conceito do perdão ou do amor paternal, mas do sarcasmo e do ciúme. Bentinho é o único sobrevivente da sua história. Também o único juiz.

Capitu e Bentinho, Qual o Verdadeiro Culpado?

O que nos prova a culpa de Capitu? Teria ela cometido o adultério? Se Bentinho acusou a mulher de adultério, o próprio Machado de Assis deu prova de que ela poderia ser inocente, sem afirmar-lhe nunca a inocência ou a culpa.
Vejamos os pontos que levaram às suspeitas de Bentinho: o olhar de Capitu ao morto e a semelhança de Ezequiel e Escobar.
Um olhar parecido já tinha sido identificado por Bentinho na adolescente Capitu, quando um estranho passou montado no cavalo embaixo da sua janela. Capitu defendeu-se na época. Este olhar visto por Bentinho existiu? Não seria um olhar de pesar pela perda de tão querido amigo do casal? Na noite que precedeu à morte de Escobar, também Bentinho viu no olhar de Sancha, a mulher do amigo, um desejo mais profundo e sexual. Chegou a sonhar com um suposto olhar de sedução da mulher do amigo. No outro dia, vendo Sancha chorar pelo marido morto, Bentinho percebeu que se tinha enganado, que o gesto de Sancha tinha sido amigável e cordial, ele que sempre foi de uma imaginação fértil, transitando muita vez entre o real e o imaginário. Não estaria fazendo o mesmo com o olhar de Capitu? O próprio Bentinho pergunta-se sobre este possível engano.
Se Machado de Assis dá provas da culpa de Capitu, ele também fornece pistas contrárias. É o caso da semelhança física entre Ezequiel e Escobar. Ainda quando não há suspeitas, Bentinho vê semelhanças nos pés e nos braços, quando o menino imita Escobar. Ezequiel tem o dom de imitar os adultos, se o faz com Escobar, também o faz com José Dias e a prima Justina. Mas a própria Capitu acha que há semelhanças físicas entre Ezequiel e Escobar. Se tivesse atraiçoado o marido e gerado um filho com o amigo, Capitu faria tão inocente declaração? Não se calaria e procuraria esconder as evidências do adultério?
No capítulo LXXXIII, intitulado “O Retrato”, Gurgel, o pai de Sancha, mostra a Bentinho o retrato da mulher morta. Gurgel acentua a inexplicável semelhança entre Capitu e a mulher. O capítulo passa despercebido, mas volta a ser mencionado no fim da história, no auge das suspeitas de Bentinho. É a consciência de Bentinho que repete as palavras de Gurgel: “Na vida há dessas semelhanças assim esquisitas”. É um paralelo que Machado de Assis faz, lançando mais uma vez uma pista da possível inocência de Capitu.
Por duas vezes Bentinho soube da presença de Escobar na sua casa durante a sua ausência, a primeira, quando o amigo trouxera as libras que Capitu economizara do dinheiro que Bentinho lhe dava. Outra vez Escobar estava à porta da casa do casal, quando Bentinho deixara Capitu adoentada e fora ao teatro, retornando antes do previsto, por estar preocupado com a mulher. As duas vezes seriam provas suficientes do adultério?
A acusação de Bentinho é unilateral. Não é mostrado ao leitor o lado de Capitu. Também Escobar já estava morto, sem qualquer possibilidade de defender a sua memória. A aparência física de Ezequiel com Escobar era evidenciada por um Bentinho com a alma já tomada pelo ciúme e pelo peso da suposta traição.
Finalmente, o silêncio e a resignação de Capitu seriam uma confirmação da culpa ou a indignação da inocência? Ela que nos foi apresentada decidida, implacável no que queria, muitas vezes dissimulada, por que se calou tão repentinamente? A mulher adulta já não era tão voluntariosa quanto a adolescente? Seu silêncio seria de dissimulação ou de dor? De culpa ou de inocência?
Bentinho acusou, julgou e condenou Capitu, Ezequiel e Escobar, sem direito à defesa. Como um Otelo implacável, cumpriu apenas o desejo vil da vingança e da alma dilacerada pelo ciúme. Bentinho matou moralmente os três. Se eram inocentes, só Machado de Assis poderia dizê-lo, mas o autor levou consigo o segredo da bela mulher de olhos de cigana oblíqua e dissimulada, deixando-nos o mais instigante mistério da literatura universal.

Machado de Assis

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu a 21 de junho de 1839, no Rio de Janeiro, então capital do império do Brasil. É esta cidade e os seus costumes que ele vai brilhantemente descrever em sua literatura, mostrando-a, às vezes com amor, outras vezes com sarcasmo. Filho de um mulato pintor de paredes e de uma lavadeira portuguesa, Machado de Assis passou a maior parte da infância entre a chácara da madrinha e a casa pobre dos pais. Ficou órfão da mãe quando ainda era criança. O pai casou-se com Maria Inês, que foi quem lhe ensinou as primeiras letras e criou-o com carinho após a morte do pai.
Machado de Assis vendeu balas nas ruas feitas pela madrasta, empregou-se como aprendiz de tipógrafo e logo a seguir, estreou-se no jornal A Marmota, com os versos de amor Meu Anjo. Três anos depois, em 1858, passou a escrever regularmente para o Correio Mercantil.
Machado de Assis fora uma criança isolada em sua timidez, pobreza e gagueira, o que refletiria na sua vida adulta e em sua obra literária. Mais tarde seria acometido por ataques de epilepsia que o deixaria ainda mais isolado em si. Casou-se com Carolina Xavier de Novais, em 1869, com quem viveria uma vida conjugal calma até 1904, quando ficou viúvo.
Machado de Assis inaugurou a sua obra literária em prosa, em 1870, quando foi publicado o livro “Contos Fluminenses”. Desde então, tornar-se-ia o maior escritor da literatura brasileira, deixando obras românticas como A Mão e a Luva, Helena e Iaiá Garcia, e realistas como Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro e Esaú e Jacó.
Após a morte da mulher Carolina, doente, triste e solitário, Machado de Assis deixou-se definhar, vindo a morrer no dia 29 de setembro de 1908. No leito de morte recusou-se a receber a presença de um padre para que se confessasse. 100 anos após a sua morte, Machado de Assis continua a ser o maior escritor do Brasil, e um dos maiores da literatura universal.

OBRAS:

Romance:

1872 – Ressurreição
1874 – A Mão e a Luva
1876 – Helena
1878 – Iaiá Garcia
1881 – Memórias Póstumas de Brás Cubas
1885 – Casa Velha
1891 – Quincas Borba
1899 – Dom Casmurro
1904 – Esaú e Jacó
1908 – Memorial de Aires

Poesia:

1864 – Crisálidas
1870 – Falenas
1875 – Americanas
1880 – Ocidentais
1901 – Poesias Completas

Conto:

1870 – Contos Fluminenses
1873 – Histórias da Meia-Noite
1882 – Papéis Avulsos
1884 – Histórias sem Data
1896 – Várias Histórias
1899 – Páginas Recolhidas
1906 – Relíquias da Casa Velha

Teatro:

1860 – Hoje Avental, Amanhã Luva
1861 – Queda que as Mulheres Têm Para os Tolos
1861 – Desencantos
1863 – O Caminho da Porta
1863 – O Protocolo
1864 – Quase Ministro
1866 – Os Deuses de Casaca
1880 – Tu, Só Tu, Puro Amor
1896 – Não Consultes Médico
1906 – Lição de Botânica

CRONOLOGIA:

1839 – Nasce, a 21 de junho, no Rio de Janeiro, Joaquim Maria Machado de Assis.
1851 – Morre-lhe o pai. Passa a ser criado pela madrasta, Maria Inês.
1855 – 12 de janeiro, publica o primeiro poema. Colabora com o jornal A Marmota.
1856 – Admitido como aprendiz de tipógrafo na Tipografia Nacional.
1858 – Escreve para O Paraíba, de Petrópolis. Passa a colaborar com o Correio Mercantil.
1859 – Estréia como crítico teatral na revista O Espelho.
1860 – Convidado para redator do Diário do Rio de Janeiro. Torna-se um dos redatores de A Semana Ilustrada.
1861 – Publica os textos teatrais Queda que as Mulheres Têm Para os Tolos e Desencantos.
1862 – Admitido como sócio do Conservatório Dramático Brasileiro, exercendo a função de auxiliar da censura.
1863 – Publica o Teatro de Machado de Assis, volume composto pelas comédias O Protocolo e O Caminho da Porta.
1864 – Publica o primeiro livro de poesias, Crisálidas.
1866 – Publica a comédia Os Deuses de Casaca e uma tradução que fez do romance Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo.
1868 – Apresentado em carta, por José de Alencar, a Castro Alves.
1869 – Casa-se com a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais.
1870 – Publica os livros Falenas (poesia) e Contos Fluminenses (contos).
1872 – Publica o romance Ressurreição.
1873 – Publica Histórias da Meia-Noite.
1874 – De setembro a novembro, publica em O Globo, o romance A Mão e a Luva.
1875 – Publica Americanas.
1876 – Escreve para a revista Ilustração Brasileira. Publica de agosto a setembro, em O Globo, o romance Helena.
1878 – Publica de janeiro a março, em O Cruzeiro, o romance Iaiá Garcia. Adoece, entrando de licença, seguindo para Friburgo.
1879 – Começa a escrever para a Revista Brasileira.
1881 – Publica em volume as Memórias Póstumas de Brás Cubas. Escreve com assiduidade para a Gazeta de Notícias.
1888 – Elevado a oficial da Ordem da Rosa. Desfila a 20 de maio para celebrar a Abolição.
1890 – Visita, ao lado da mulher Carolina, as fazendas da Companhia Pastoril Mineira, em Minas Gerais.
1891 – Publica, em volume, Quincas Borba.
1896 – Aclamado, em 15 de dezembro, para dirigir a primeira sessão preparatória da fundação da Academia Brasileira de Letras.
1899 – Publica o romance Dom Casmurro.
1901 – Publica Poesias Completas.
1904 – Publica o romance Esaú e Jacó. Em janeiro, devido à enfermidade de Carolina, segue com ela para Friburgo. Carolina morre, a 20 de outubro, poucos dias de completar 35 anos de casados.
1906 – Publica Relíquias da Casa Velha.
1908 – Publica o romance Memorial de Aires. Afasta-se do trabalho, em 1 de junho, para tratar da saúde. Morre na madrugada de 29 de setembro, em sua casa, na Rua Cosme Velho. Por sua determinação, é enterrado na sepultura de Carolina, no Cemitério São João Batista.
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Quinta-feira, 19 de Março de 2009

OBJECTO QUASE & O CONTO DA ILHA DESCONHECIDA - JOSÉ SARAMAGO

 

 

Quando, em 1997, foi posta a hipótese do Prêmio Nobel de Literatura ser dado pela primeira vez a um escritor de língua portuguesa, apenas dois nomes foram mencionados como reais candidatos: o do brasileiro Jorge Amado e o do português José Saramago. Jorge Amado acima de ser visto como escritor de língua portuguesa, era tido como latino americano, e o prêmio Nobel já tinha contemplado vários autores da América Latina, como Gabriel Garcia Márquez. Considerando que Portugal encerrava o milênio com grande prestígio político internacional, caberia ao escritor lusitano arrebatar tão cobiçado e inédito prêmio na língua de Camões.
Considerado um dos maiores romancistas português da atualidade, José Saramago é autor das obras: “Memorial do Convento” (1982), “O Ano da Morte de Ricardo Reis” (1984), “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (1992) e “Todos os Nomes” (1997), dentre outros.
Apesar de ser o romance a sua obra maior, é como contista que vamos analisá-lo aqui. Tomaremos como base os livros “Objecto Quase” (3ª edição - Editorial Caminho - 1986) e “O Conto da Ilha Desconhecida” (1ª edição - Pavilhão de Portugal Expo’98/ Assírio & Alvim - 1997). As incursões de José Saramago através do conto não deixam de ser tão brilhantes quanto às feitas ao romance. José Saramago é o retrato da literatura portuguesa no final de século XX e início do século XXI. Compreender a sua obra é também compreender a história mais recente de Portugal.

Transição de Portugal no Decorrer da Produção da Obra de Saramago

A primeira edição do livro de contos, “Objecto Quase”, data de 1978. Tendo publicado os seus primeiros livros na segunda metade da década de sessenta, será na década seguinte que a carreira do escritor tomará um novo fôlego, e, o reconhecimento maior, de público e crítica, virá na década de oitenta.
A obra de José Saramago faz-se imprescindível no fim da ditadura de Salazar, atravessa a Revolução dos Cravos, em 25 de Abril de 1974, passando pelo período de transição dos primeiros anos da restauração da democracia aos anos da adesão de Portugal à Comunidade Européia. Em 1968 o estado de saúde de António Salazar era grave. Uma queda afastaria o ditador do poder até a sua morte, dois anos depois. O regime estava podre e esgotado. Surgia Marcelo Caetano como o homem que deveria fazer a transição do regime. Mas por medo ou por vontade da história, não o fez. Serão os militares a restituírem a democracia e a enterrar de vez antigo regime, em 1974.
A década de setenta foi profundamente abalada pela crise do petróleo, pelo domínio árabe do ouro negro. Também a Guerra do Vietnã chegava ao fim de uma maneira humilhante para os Estados Unidos, longe de alcançar os resultados da Guerra da Coréia. A Guerra Fria assumia outras batalhas, a chamada “Guerra das Estrelas” dos anos oitenta. Portugal deixava a África e encerrava a Guerra Colonial, procurando um caminho para a Europa. Em 1986 é feita a adesão à Comunidade Econômica Européia (CEE), atual União Européia. Em 1985 o arquiteto Tomás Taveira dá a Lisboa as famosas Torres das Amoreiras, a paisagem da cidade muda, dando os primeiros passos para a invasão dos hipermercados do fim dos anos oitenta. Portugal estava pronto para entrar de vez na Europa, concretizando a adesão às normas e aos moldes da economia do oeste europeu nos anos noventa.

A Metonímia de Salazar

Objecto Quase” é uma síntese crítica e bem elaborada que descreve a transição do Estado Novo e os primeiros tempos pós 25 de Abril. Aqui José Saramago revela-se um crítico social mordaz, com um teor político acentuado, quase a indagar a história do país. O primeiro conto do livro, “Cadeira”, é o reflexo do fim de um ciclo. No conto, através da descrição lenta, elaborada, quase científica da queda de uma cadeira que, por ter sido indolentemente corroída pelos bichos da madeira (representação simbólica da corrupção do sistema antigo), faz com que o velho ditador (Salazar) caia e frature o crânio. O ditador é socorrido por sua fiel governanta Eva (outra coincidência histórica? Não, era a própria Maria, que acompanhara e servira Salazar nas décadas que esteve no poder). A análise de José Saramago é, como já disse, mordaz, irônica, quase sarcástica, quase que a cobrar as dívidas da história:

O corpo ainda aqui está, e estaria por todo o tempo que quiséssemos. Aqui, na cabeça, neste sítio onde o cabelo aparece despenteado, é que foi a pancada. À vista, não tem importância. Uma ligeiríssima equimose, como de unha impaciente, que a raiz do cabelo quase esconde, não parece que por aqui a morte possa entrar. Em verdade, já lá está dentro. Que é isto? Iremos nós apiedar-nos do inimigo vencido? É a morte uma desculpa, um perdão, uma esponja, uma lixívia para lavar crimes? O velho abriu agora os olhos e não consegue reconhecer-nos, o que só a ele espanta, mas a nós não, que nos não conhece. Treme-lhe o queixo, quer falar, inquieta-se como ali chegámos, julga-nos autores do atentado. Nada dirá. Pelo canto da boca entreaberta corre-lhe para o queixo um fio de saliva. Que faria a irmã Lúcia neste caso, que faria se aqui estivesse, de joelhos, envolta no seu triplo cheiro de bafio, saias e incenso? Enxugaria reverente a saliva, ou, mais reverente ainda, se inclinaria toda para diante, prosternada, e com a língua apararia a santa secreção, a relíquia, para guardar numa ampola? Não o dirá a história sacra, não o dirá, sabemos, a profana, nem Eva doméstica reparará, coração aflito, na injúria que o velho pratica babando sobre o velho.”

Nota-se no parágrafo a alusão, ainda que simbólica e muito sutil, a personagens ligadas a igreja e à política portuguesa. É o momento de crítica à história, do acerto de contas entre o ditador e o povo submisso, resumidos numa queda de cadeira. Percebe-se neste conto o estilo de narração de José Saramago, a presença do narrador na narração, onde é projetada a sua subjetividade de uma forma objetiva, ou seja, o texto não escapa às intrusões do narrador, as situações narrativas vão das circunstâncias ideológico-culturais que inspiram uma introspecção quase científica. Há uma situação narrativa de relação do autor com a história, José Saramago relata as histórias de uma forma que é estranho a ela, porque não a integra nem integrou como personagem, sendo um narrador heterodiegético. Para melhor explicar o que digo, sito a definição de Carlos Reis em “O Conhecimento da Literatura - Introdução aos Estudos Literários” (Livraria Almedina - 1995), que diz sobre o narrador heterodiegético:

Estrutura-se uma situação narrativa cujas as linhas de forças são as seguintes: polaridade entre narrador e universo diegético, acentuando-se entre ambos uma alteridade em princípio irredutível; por força dessa polaridade, o narrador heterodiegético tende a adotar uma atitude demiúrgica em relação a história que conta, surgindo dotado de uma autoridade que normalmente não é posta em causa; predominantemente, o narrador heterodiegético exprime-se na terceira pessoa, traduzindo esse registro a alteridade mencionada.”

Realidades Contemporâneas

Compreendendo melhor a forma narrativa, voltamos ao universo de José Saramago, através do seu conto “Embargo”. Nele encontramos a preocupação social dos anos setenta com a maior crise da década, a do petróleo. A personagem principal é um homem que ao sair de casa, tem uma obsessão: pôr gasolina no carro, pois esta poderia faltar devido a um embargo. A sua obsessão pelo carro é tamanha que se torna uma espécie de fábula paranóica. O homem passa toda a manhã nas filas das bombas de gasolina, para que não lhe falte o precioso combustível. No meio da obsessão torna-se prisioneiro do próprio carro, como uma Juno presa ao trono de Vulcano, ele não consegue sair do automóvel. Está preso pela gabardina, pela roupa, pela pele. Começa a andar por estradas desesperadamente, a tentar libertar-se, até acabar a gasolina. Só a morte liberta-o do automóvel:

Hora e meia mais tarde estava a atestar, e três minutos depois arrancava. Um pouco preocupado porque o empregado lhe dissera, sem qualquer expressão particular na voz, de tão repetida a informação, que não haveria ali gasolina antes de quinze dias. No banco, ao lado, o jornal anunciava as restrições rigorosas. Enfim; do mal o menos, o depósito estava cheio. Que faria? Ir directamente ao escritório, ou passar primeiro por casa de um cliente, a ver se apanharia a encomenda? Escolheu o cliente. Era preferível justificar o atraso com a visita, a ter de dizer que passara hora e meia na fila da gasolina quando lhe restava meio depósito. O carro estava óptimo. Nunca se sentira tão bem a conduzi-lo. Ligou a rádio e apanhou um noticiário. Notícias cada vez piores. Estes árabes. Este estúpido embargo.”

Talvez a narrativa que mais descreve a mudança dos tempos, os jogos de poder, a política como centralização dos meios econômicos, as grandes obras e as cidades que giram em torno delas, seja a do conto “Refluxo”. Neste texto deparamos-nos com um rei louco, que quer construir um único e mega cemitério no seu reino. Quando o faz, transporta para lá todos os cadáveres dos outros cemitérios. Depois parte à procura desesperada de todos os corpos enterrados pelo país, em quintais, em valas, em capelas, em montanhas. Terminada a grande obra, toda a economia do país gira em torno do cemitério. À sua volta desenvolve-se quatro cidades. Aqui a ironia ao progresso desenfreado, ao comércio ao redor dos grandes santuários. Talvez o mais irônico e sarcástico dos contos de José Saramago, mas de um humor mórbido irresistível. Ao ler este conto é como se estivéssemos a retratar a nova sociedade de consumo que viria com os anos noventa e a tudo esmagaria, sem nenhum escrúpulo:

“(..) A fiscalização andava então muito menos activa e abundavam funcionários que consentiam em deixar-se subornar. O serviço geral de estatística informou, de acordo com os registos oficiais, que estava a verificar-se uma acentuada baixa da mortalidade, o que, logicamente, começou por ser levado a crédito da política sanitária do governo, sob a suprema autoridade do rei. As quatro cidades do cemitério sentiram as consequências do menor fluxo de mortos. Certos negócios sofreram prejuízos, houve não poucas falências, algumas fraudulentas, e quando enfim se reconheceu que a real política de saúde, por excelente que fosse, não ia a caminho de conceder a imortalidade, foi baixado um decreto ferocíssimo para reconduzir as populações à obediência. Não serviu de muito: após um breve fogacho de animação, as cidades estagnaram e decaíram. Devagar, tão devagar, o reino começou a repovoar-se de mortos. O grande cemitério central, por fim, recebia apenas cadáveres das quatro cidades circundantes, cada vez mais abandonadas, mais silenciosas. A isto, porém, já o rei não assistiu.”

Menos interessante é o conto “Coisas”. A narrativa mais parece um filme de Stanley Kubrik, ou um conto mal elaborado de George Orwell. Uma ficção pobre e pouco convincente, futurista, mas que não revela o escritor engenhoso e talentoso que é José Saramago, limita-se a escrever um filme que já se viu. Ainda encontramos outros contos como “Centauro” e “Desforra”, este último mostra-nos a repressão sexual transposta para o ato milenar da castração de animais, aqui representado por um porco. Chegamos ao fim do livro com uma estranheza de idéias, mas com a sensação de que foram poucas as páginas, que leríamos quantas mais fossem.

Um Conto Feito Para a Expo’98

Com a realização da Feira Internacional da Expo’98 em Lisboa, em 1998, que trazia a temática dos oceanos, e as comemorações dos 500 anos dos descobrimentos marítimos portugueses, José Saramago presenteou-nos com “O Conto da Ilha Desconhecida”.
Novamente vamos mergulhar no seu universo fantástico, crítico aguçado do sistema em que estamos inseridos. Surge-nos retratado um reino burocrático e de fantasia, onde um homem persegue o seu sonho e o seu ideal: encontrar a Ilha Desconhecida. Num discurso brilhante, mais amadurecido em relação a “Objecto Quase”, a personagem convence o governo a dar-lhe um barco. Também convence algumas pessoas, entre elas a mulher da limpeza do reino, a acompanhá-lo nessa aventura quase utópica e sem destino:

“(...) Então o homem trancou a roda do leme e desceu ao campo com a foice na mão, e foi quando tinha cortado as primeiras espigas que viu uma sombra ao lado da sua sombra. Acordou abraçado à mulher da limpeza, e ela a ele, confundidos os corpos, confundidos os beliches, que não se sabe se este é o de bombordo ou o de estibordo. Depois, mal o sol acabou de nascer, o homem e a mulher foram pintar a proa do barco, de um lado e do outro, em letras brancas, o nome que ainda faltava dar à caravela. Pela hora do meio-dia, com a maré, A Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma.”

Mas como todo sonho tem o seu preço, aos poucos o homem é abandonado por todos, só lhe fica a mulher. O autor revela-nos uma história não só de sonhos utópicos, mas também de amor. Com o homem parte a mulher da limpeza, os dois seguem na busca dos sonhos, o amor já o têm. A ilha desconhecida era o grande sonho português do fim do segundo milênio: o mergulho na Expo’98. Um sonho que fechava o século XX no universo histórico lusitano de uma forma espetacular, que rumava para o terceiro milênio a refletir um futuro que trouxesse de volta a época da grande aventura, a época dos descobrimentos, época que a nação sonhava com o Quinto Império. Com a Expo’98 vinha a segurança do reencontro de Portugal com a Europa. A esperança de um mercado único, de uma moeda única, de um futuro que espelhasse pouco o passado mais recente, do qual voltaram cidadãos desfeitos pela guerra colonial, física e mentalmente. É justamente o não esquecimento de uma história recente, nem sempre gloriosa, porque a história também é feita de erros e humilhações, que a obra de José Saramago muitas vezes atira-nos à cara. José Saramago conduziu neste conto os nossos sonhos rumo à ficção do século XXI.

José Saramago

Um dos maiores escritores de língua portuguesa, José de Sousa Saramago tem no seu registro de nascimento a data de 18 de novembro de 1922, apesar de ter nascido no dia 16 daquele mês, na aldeia da Azinhaga, concelho da Golegã. Ainda criança, aos três anos, mudou com a família para Lisboa, onde viveu a maior parte da sua vida.
Por dificuldades econômicas, Saramago interrompeu os estudos na capital portuguesa, exercendo, durante a vida, várias profissões, entre elas: serralheiro mecânico, funcionário da saúde, desenhista, editor, tradutor e jornalista.
Apesar de ter publicado o seu primeiro livro, o romance "Terra do Pecado", em 1947, só voltaria a publicar outra obra em 1966. Seu reconhecimento como escritor viria com o romance “Memorial do Convento”, de 1982.
José Saramago ficou conhecido por suas posições de esquerda, militante histórico do Partido Comunista Português, por seu ateísmo declarado, convicções que sempre refletiram na sua obra.
Dono de uma literatura muitas vezes polêmica, foi o primeiro e único escritor de língua portuguesa a ser galardoado com o Prêmio Nobel de Literatura, em 1998. Atualmente José Saramago vive em Lanzarote, Ilhas Canárias, casado com a espanhola Pilar Del Rio.

OBRA:

Poesia:

1966 – Os Poemas Possíveis
1970 – Provavelmente Alegria
1975 – O Ano de 1993

Romance:

1947 – Terra do Pecado
1977 – Manual de Pintura e Caligrafia
1980 – Levantado do Chão
1982 – Memorial do Convento
1984 – O Ano da Morte de Ricardo Reis
1986 – A Jangada de Pedra
1989 – História do Cerco de Lisboa
1991 – O Evangelho Segundo Jesus Cristo
1995 – Ensaio Sobre a Cegueira
1996 – A Bagagem do Viajante
1997 – Cadernos de Lanzarote
1997 – Todos os Nomes
2000 – A Caverna
2002 – O Homem Duplicado
2004 – Ensaio Sobre a Lucidez
2005 – As Intermitências da Morte
2006 – As Pequenas Memórias

Contos:

1978 – Objecto Quase
1979 – Poética dos Cinco Sentidos – O Ouvido
1997 – O Conto da Ilha Desconhecida

Crônicas:

1971 – Deste Mundo e do Outro
1973 – A Bagagem do Viajante
1974 – As Opiniões Que o DL Teve
1976 – Os Apontamentos

Peças de Teatro:

1979 – A Noite
1980 – Que Farei Com Este Livro?
1987 – A Segunda Vida de Francisco de Assis
1993 – In Nomine Dei
2005 – Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido

Viagens:

1981 – Viagem a Portugal

CRONOLOGIA:

1922 – Nasce a 16 ou 18 de novembro, na Azinhaga, Golegã, Portugal, José Saramago.
1924 – Muda-se com a família para Lisboa.
1944 – Casa-se com Ilda Reis.
1947 – Nasce-lhe a filha Violante. Publica o seu primeiro livro, o romance “Terra do Pecado”.
1955 – Para aumentar os rendimentos, faz traduções de Hegel, Tolstoi e Baudelaire.
1966 – Publica o segundo livro, “Os Poemas Possíveis”.
1970 – Separa-se de Ilda Reis.
1972 – Faz parte da redação do jornal Diário de Lisboa, como comentarista político.
1975 – Torna-se, de abril a novembro, diretor-adjunto do jornal Diário de Notícias.
1976 – Passa a viver exclusivamente do seu trabalho literário.
1982 – Publica o romance “Memorial do Convento”, conquistando definitivamente a crítica e os leitores.
1988 – Casa-se com a jornalista e tradutora espanhola María Del Pilar Del Río Sánchez.
1995 – Galardoado com o Prêmio Camões pelo conjunto da sua obra.
1998 – Galardoado com o Prêmio Nobel de Literatura.
2003 – Em visita ao Brasil, declara ao jornal O Globo, que os judeus não mereciam simpatia pelo que passaram na época do Holocausto.
2007 – Defende, em entrevista ao Diário de Notícias, que Portugal deveria integrar-se à Espanha.
 
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Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2009

JOHN DONNE: NENHUM HOMEM É UMA ILHA

 

 


 

John Donne é um dos maiores poetas de língua inglesa. Incompreendido na sua época, esquecido por muitos séculos, é hoje reverenciado e lido em todo o mundo. Sua obra serviu de inspiração para muitos outros poetas além do seu tempo.
Foi a partir de um belíssimo texto de John Donne, que o escritor norte-americano Ernest Hemingway, encontrou inspiração para o título do seu romance “Por Quem os Sinos Dobram”. O texto faz parte de “Meditações”, de onde foi extraído o trecho que abre o romance de Hemingway, eternizando-o, fazendo-o um dos textos literários mais conhecidos da atualidade.
O texto é de uma beleza rara, que transporta o homem em um universo que o coloca no centro de um oceano, mas que o revela a fazer parte do mundo, que a grandiosidade da saga humana está na quebra da solidão, porque somos os nossos amigos, o rompimento da nossa solidão. Somos o gênero humano, exaltado pela vida e diminuído apenas pela morte.

Nenhum Homem é uma Ilha Isolada




 


Meditation 17 (original)

 


 

(excerpt)

No man is an island, entire of itself; every man is a piece of the continent, a part of the main; if a clod be washed away by the sea, Europe is the less, as well as if a promontory were, as well as if a manor of thy friend's or of thine own were; any man's death diminishes me, because I am involved in mankind, and therefore never send to know for whom the bell tolls; it tolls for thee.





Meditação 17 (tradução)

(trecho)

Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme. Se um torrão de terra for levado pelo mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar dos teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano, e por isso não me perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.
 



Uma Vida Angustiada

John Donne nasceu em Londres, em 22 de janeiro de 1572, no seio de uma família aristocrática e católica. Numa época que para chancelar o seu adultério e divórcio, Henrique VIII rompia com a igreja de Roma, fundando a sua própria, a igreja anglicana. Este conflito religioso marcaria a vida de John Donne, que no seu íntimo considerava-se um católico e repudiava o anglicanismo, mas abraçou este último, para sobreviver e dele obter o reconhecimento e ascensão social da sua época.
O poeta perdeu o pai, também chamado John Donne, ainda criança. Freqüentou as universidades de Oxford e Cambridge, estudando direito. Era um homem que gostava da boemia, da noite e das farras, perdendo-se na juventude entre as mulheres e os pequenos prazeres mundanos.
Ainda na juventude, John Donne perdeu o irmão Henry, que morreu na prisão, onde foi parar por abrigar em sua casa um padre condenado pela justiça. A morte do irmão abala profundamente o poeta, que desde então, duvida da fé e da vida.
John Donne viveu uma vida de contradições interiores, dificuldades econômicas e aventuras existencialistas, como a que o levou a casar-se secretamente com Anne More, jovem de 17 anos, sobrinha do seu patrão. O casamento realizado de forma tempestuosa, foi responsável por sua prisão, provocada pela denúncia de George More, pai da sua mulher.
Com Anne teria 20 filhos, a pobre mulher morreria após o nascimento do último filho do casal, deixando John Donne ainda mais perdido no mundo, e sem vontade de viver. Desde então, Donne definhou a saúde, tornando-se um obcecado pela morte. Algumas semanas antes de morrer, em 1631, John Donne declamou em Londres, “Death’s Duel”, que ficou conhecido como o seu sermão funerário.

Uma Obra Eterna

John Donne foi um dos maiores oradores da sua época. Contemporâneo de William Shakespeare, teve a sua obra literária esquecida por quase três séculos.
Redescoberto, influenciou muitos poetas, como T. S. Elliot. A força dramática das suas palavras é quase um soco na existência humana. Muitas vezes o sopro das palavras percorrem universos mórbidos, linhas existenciais de labirintos que desnuda o homem, tornando-o prisioneiro das suas angústias.
A poesia de John Donne é delineada na beleza das palavras, nas angústias da existência humana, que escrita há mais de 300 anos, ainda se reflete nos nossos dias, tornando-se uma elegia no meio da aventura humana. Donne transforma as emoções religiosas numa poesia metafísica única, de uma rara concepção e beleza.


The Ecstasy (original)

Where, like a pillow on a bed
A pregnant bank swell'd up to rest
The violet's reclining head,
Sat we two, one another's best.

Our hands were firmly cemented
With a fast balm, which thence did spring;
Our eye-beams twisted, and did thread
Our eyes upon one double string;

So to'intergraft our hands, as yet
Was all the means to make us one,
And pictures in our eyes to get
Was all our propagation.

As 'twixt two equal armies fate
Suspends uncertain victory,
Our souls (which to advance their state
Were gone out) hung 'twixt her and me.

And whilst our souls negotiate there,
We like sepulchral statues lay;
All day, the same our postures were,
And we said nothing, all the day.

If any, so by love refin'd
That he soul's language understood,
And by good love were grown all mind,
Within convenient distance stood,

He (though he knew not which soul spake,
Because both meant, both spake the same)
Might thence a new concoction take
And part far purer than he came.

This ecstasy doth unperplex,
We said, and tell us what we love;
We see by this it was not sex,
We see we saw not what did move;

But as all several souls contain
Mixture of things, they know not what,
Love these mix'd souls doth mix again
And makes both one, each this and that.

A single violet transplant,
The strength, the colour, and the size,
(All which before was poor and scant)
Redoubles still, and multiplies.

When love with one another so
Interinanimates two souls,
That abler soul, which thence doth flow,
Defects of loneliness controls.

We then, who are this new soul, know
Of what we are compos'd and made,
For th' atomies of which we grow
Are souls. whom no change can invade.

But oh alas, so long, so far,
Our bodies why do we forbear?
They'are ours, though they'are not we; we are
The intelligences, they the spheres.

We owe them thanks, because they thus
Did us, to us, at first convey,
Yielded their senses' force to us,
Nor are dross to us, but allay.

On man heaven's influence works not so,
But that it first imprints the air;
So soul into the soul may flow,
Though it to body first repair.

As our blood labors to beget
Spirits, as like souls as it can,
Because such fingers need to knit
That subtle knot which makes us man,

So must pure lovers' souls descend
T' affections, and to faculties,
Which sense may reach and apprehend,
Else a great prince in prison lies.

To'our bodies turn we then, that so
Weak men on love reveal'd may look;
Love's mysteries in souls do grow,
But yet the body is his book.

And if some lover, such as we,
Have heard this dialogue of one,
Let him still mark us, he shall see
Small change, when we'are to bodies gone.

O Êxtase (tradução)

Onde, qual almofada sobre o leito,
A areia grávida inchou para apoiar
A inclinada cabeça da violeta,
Nós nos sentamos, olhar contra olhar.

Nossas mãos duramente cimentadas
No firme bálsamo que delas vem,
Nossas vistas trançadas e tecendo
Os olhos em um duplo filamento;

Enxertar mão em mão é até agora
Nossa única forma de atadura
E modelar nos olhos as figuras
A nossa única propagação.

Como entre dois exércitos iguais,
Na incerteza, o Acaso se suspende,
Nossas almas (dos corpos apartadas
Por antecipação) entre ambos pendem.

E enquanto alma com alma negocia,
Estátuas sepulcrais ali quedamos
Todo o dia na mesma posição,
Sem mínima palavra, todo o dia.

Se alguém - pelo amor tão refinado
Que entendesse das almas a linguagem,
E por virtude desse amor tornado
Só pensamento - a elas se chegasse,

Pudera (sem saber que alma falava
Pois ambas eram uma só palavra),
Nova sublimação tomar do instante
E retornar mais puro do que antes.

Nosso Êxtase - dizemos - nos dá nexo
E nos mostra do amor o objetivo,
Vemos agora que não foi o sexo,
Vemos que não soubemos o motivo.

Mas que assim como as almas são misturas
Ignoradas, o amor reamalgama
A misturada alma de quem ama,
Compondo duas numa e uma em duas.

Transplanta a violeta solitária:
A força, a cor, a forma, tudo o que era
Até aqui degenerado e raro
Ora se multiplica e regenera.

Pois quando o amor assim uma na outra
Interanimou duas almas,
A alma melhor que dessas duas brota
A magra solidão derrota,

E nós que somos essa alma jovem,
Nossa composição já conhecemos
Por isto: os átomos de que nascemos
São almas que não mais se movem.

Mas que distância e distração as nossas!
Aos corpos não convém fazermos guerra:
Não sendo nós, não convém fazermos guerra:
Inteligências, eles as esferas.

Ao contrário, devemos ser-lhes gratas
Por nos (a nós) haverem atraído,
Emprestando-nos forças e sentidos.
Escória, não, mas liga que nos ata.

A influência dos céus em nós atua
Só depois de se ter impresso no ar.
Também é lei de amor que alma não flua
Em alma sem os corpos transpassar.

Como o sangue trabalha para dar
Espíritos, que às almas são conformes,
Pois tais dedos carecem de apertar
Esse invisível nó que nos faz homens,

Assim as almas dos amantes devem
Descer às afeições e às faculdades
Que os sentidos atingem e percebem,
Senão um Príncipe jaz aprisionado.

Aos corpos, finalmente, retornemos,
Descortinando o amor a toda a gente;
Os mistérios do amor, a alma os sente,
Porém o corpo é as páginas que lemos.

Se alguém - amante como nós - tiver
Esse diálogo a um ouvido a ambos,
Que observe ainda e não verá qualquer
Mudança quando aos corpos nos mudamos.

Tradução: Augusto de Campos


Cronologia

1572 – Nasce em Londres, em 22 de janeiro, John Donne.
1576 – Morre subitamente, o pai de Donne.
1583 – Aos 11 anos, John Donne e o irmão, Henry, entram para a Hart Hall, na Universidade de Oxford, onde estudou por três anos. Estudaria os próximos três anos na Universidade de Cambridge.
1591 – Estuda direito, como membro da Thavies Inn.
1592 – Ingressa na Lincoln’s Hill, para estudar leis.
1593 – Morre na prisão, o irmão Henry, condenado por ter escondido um padre foragido em sua casa.
1596 – Ingressa na expedição marítima de Robert Devereux, o II Conde de Essex, em direção a Cádiz, Espanha.
1597 – Dirige-se em mais uma expedição, desta vez pata os Açores, onde escreveu “The Calm”.
1598 – Torna-se secretário particular de Sir Thomas Egerton.
1601 – Casa-se secretamente com a sobrinha de Sir Egerton, Anne More, com 17 anos na época. O pai de Anne, George More, manda prender John Donne e os seus amigos cúmplices por duas semanas. Manda-o libertar a seguir, mas rompe com ele.
1607 – John Donne recusa receber as ordens anglicanas. O rei James I persistiu, alegando que Donne não receberia qualquer título de nobreza senão da igreja Anglicana.
1609 – Reconcilia-se com o sogro, Sir George More, que se habilita a pagar-lhe o dote da sua filha.
1615 – John Donne entra para o ministério, tornando-se naquele ano, Capelão Real.
1617 – Morre a mulher Anne, em 15 de agosto, aos 33 anos, após ter dado a luz a vinte filhos, tendo o último nascido morto.
1618 – Vai em viagem, como capelão junto do Visconde Doncaster até a embaixada dos príncipes germânicos.
1620 – Retorna a Londres.
1621 – É nomeado reitor da St. Paul’s Cathedral. Destaca-se no cargo e estabiliza-se financeiramente.
1624 – Publicadas as reflexões que Donne escrevera enquanto estivera gravemente doente, com o nome de “Devotions Upon Emergent Occasions”. Ainda neste ano, foi intitulado vigário de “St Dunstan’s-in-the-West”.
1625 – Morre James I, Donne declama um sermão em seu funeral.
1630 – Devido ao estado frágil da sua saúde, é impedido de tornar-se bispo.
1631 – Morre em Londres, em 31 de março, John Donne.
 
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Sábado, 3 de Janeiro de 2009

CONTOS EXEMPLARES & HISTÓRIAS DA TERRA E DO MAR - SOPHIA DE MELLO BREYNER

 

 

Sophia de Mello Breyner Andresen tem uma obra vastíssima, principalmente na poesia, com obras como “Dia do Mar” (1947), “Mar Novo” (1958), “O Cristo Cigano” (1961), “O Nome das Coisas” (1977), “Ilhas” (1989), ou ainda, com um grande destaque aos contos para crianças, tais como “A Menina do Mar” (1958), “A Floresta” (1968) ou “Noite de Natal” (1960). Foi justamente como escritora de contos infantis que Sophia de Mello Breyner Andresen tornou-se um mito da infância de algumas gerações. Analisá-la aqui como contista de ficção para adultos é quase como analisar uma raridade na sua obra literária, uma vez que só escreveu dois livros de contos para adultos: Contos Exemplares (1962) e Histórias da Terra e do Mar (1984). É o mundo destes dois livros de ficção que será analisado aqui. Se a compararmos com Miguel Torga, Alves Redol, Vergílio Ferreira ou Manuel da Fonseca, vamos encontrar uma contista mais leve em sua análise ao cotidiano português. De uma estética narrativa vinda dos contos infantis, impregnando as personagens de linhas explícitas do maniqueísmo humano, alegorias entre o bem e o mal, o sacro e o profano, sendo os temas arrematados por uma necessidade de uma moral das fábulas infantis e da catequese religiosa dos adultos.

Contos Exemplares, Início dos Anos Sessenta

Tomando como base o livro “Contos Exemplares” (31ª edição - Figueirinhas - 1997), tentaremos analisar um pouco a autora como contista. Mais uma vez reforço não ser o aspecto maior da autora. A primeira edição deste livro foi de 1962. Talvez possamos assim, compreender melhor o retrato das personagens se nos situarmos no tempo. Os anos sessenta foram anos de mudança para todo o mundo, em especial para a Europa. A guerra colonial na África portuguesa teve início em 1961 e iria arrastar-se por mais quinze anos. No mundo a luta das potências era cada vez mais feroz, após o fim da Segunda Guerra separou-se, em 1949, a Alemanha derrotada em duas nações: a RDA voltada para a política bolchevista de Moscou, e a RFA, capitalista e ocidentalizada. A partir de então o mundo estava completamente dividido em duas ideologias. A Guerra da Coréia dividia uma nação na Ásia, novamente duas ideologias separavam outro país em norte e sul. Cuba cairia nas mãos dos comunistas em 1959. Os Estados Unidos lança um plano de emergência na América Latina, criando as ditaduras militares. 1961 é o ano da construção do muro de Berlim, dividindo definitivamente a cidade e o mundo. Nos Estados Unidos da América os anos dourados elegem John Kennedy presidente, a sua bela mulher Jacqueline Kennedy, é modelo para todas as mulheres do mundo. Mas Kennedy tenta fazer do Vietnã uma nova Coréia. Os tempos são de revolução. O início dos anos sessenta mostra claramente o futuro, incerto e agressivo.
Ao analisarmos os “Contos Exemplares” de Sophia de Mello Breyner Andresen desta época (início dos anos sessenta) , ficamos perdidos entre uma provocatória convicção do bem e do mal, do homem entre Deus e o diabo, quase de uma forma aludida ao inferno de Dante. Seria o bem e o mal o que propunha a luta cerrada da guerra fria? Talvez por ter sido em 1962 que a autora traduziu “O Purgatório” de Dante, que os seus contos vêm recheados de metáforas que escondem nas personagens muitas vezes a figura do diabo. Começamos por analisarmos o conto que abre o livro, “O Jantar do Bispo”:

O Dono da Casa entregou um cheque e o Homem Importante entregou outro cheque.
O Abade de Varzim tinha sido vendido por um tecto.
Ninguém falou em troca nem em venda. Ninguém disse palavras chocantes. Mas quando se levantaram os três e se dirigiram para junto dos outros convidados para a sala grande, o espírito do Bispo estava pesado de confusão. Ele era como um homem que, envolvido num negócio que não entende bem e convencido por um hábil advogado, compra o que não quer comprar e vende o que não quer vender.
E Deus no Céu teve dó daquele Bispo porque ele estava só e perdido e não sabia lutar contra os hábeis discursos dos donos do Mundo
.”

Aqui a história gira em torno de um senhor dono de terras (o Dono da Casa) que, ao sentir-se ameaçado por um jovem padre (o Abade de Varzim), que representa a conscientização das massas diante do novo tempo, contra os velhos hábitos dos latifundiários, resolve convencer o Bispo a mandá-lo embora da sua freguesia. O Bispo, que quer um teto para uma das suas igrejas, pois tinha vindo abaixo, procura o Dono da Casa para pedir-lhe o dinheiro para o novo teto. Ambos se reúnem em um jantar na quinta do latifundiário. No meio da conversa são surpreendidos pela figura estranha de um visitante (o Homem Importante). Na cozinha da quinta surge uma figura ainda mais estranha, o Mendigo. Durante a conversa, o Homem Importante convence o Bispo a mudar o padre, também colaborando com dinheiro para o teto da igreja. As personagens deste conto, que, se analisarmos minuciosamente, vamos acabar por classificá-lo não como um conto, mas como uma pequena novela dada às suas características de ficção; são desde o início delineadas, até certo ponto maniqueístas. O Dono da Casa, que não vê escrúpulos para atingir os seus fins; o Homem Importante, que é claramente a figura do diabo, surgindo e desaparecendo de uma forma mística; o Bispo, misto de ingenuidade e de consciência religiosa. O Bispo não pode vender a sua fé, está apenas confuso. O Mendigo é talvez, o Cristo, o bem, a consciência do Bispo. Arrependido, o Bispo volta à casa do latifundiário para devolver o dinheiro que aceitara para correr com o jovem padre. Na casa a sensação de todos é que Deus e o diabo ali estiveram, mas metamorfoseados de ricos e de pobres. Assim são as personagens de Sophia de Mello Breyner Andresen, um misto de boas e más. As boas, quando assumem forma de más, são castigadas. Quase que vendem a alma ao diabo, por isso a catequese e o moralismo estão sempre contidos nos seus contos de uma forma explícita.

A Velha Alegoria do Bem e do Mal

A narrativa da escritora tem uma tendência objetiva, mundo exterior constitui o objeto que nos é dado a conhecer de forma pormenorizada, a narradora desaparece por completo do centro das atenções, dando passagem às coisas, aos lugares, aos objetos. Somos capazes de percorrer parágrafos inteiros de informação de como é a casa onde transitam as personagens. Também descreve uma mesa e todos os acessórios que ali o leitor é obrigado a conhecer:

“O “hall” era enorme e tinha no meio uma palmeira nostálgica. A decoração era de 1920, num estilo especial que só existia naquela terra.
Nos bancos verdes, encostados às paredes brancas, cobertas até ao meio por grades de madeira verde, estavam pequenos grupos de pessoas sentadas em frente das mesas verdes.
Havia três grupos escuros de homens e dois grupos mais claros de senhoras de uma certa idade.”


Neste conto intitulado “A Praia”, está o exemplo claro de uma narrativa convencional, o sujeito que a relata é perfeitamente distinto do objetivo relatado. Uma narrativa mais racional do que emocional, onde à partida, o leitor fica a saber que o “hall” era grande, com uma palmeira ao meio. Que havia bancos verdes, paredes brancas cobertas de grades de madeira verde e mesas também verdes. O que a autora quis dizer com “grupos escuros de homens” e “mais claros de senhoras”? Talvez nada, uma mera redundância. Assim, os contos de Sophia de Mello Breyner Andresen apresentam uma linguagem quase estética (não confundir com o termo informação estética, cujo conceito é visto pela possibilidade de certas mensagens provocarem um efeito de surpresa, onde há uma quebra de ruptura narrativa, surgindo o inesperado e o inovador), tão tipicamente cinematográfica, quase que de influência de uma época de mudança de estilos de moda. Quase a enterrar o desgastado neo-realismo português pela presença do fantástico.
Continuando a percorrer as páginas dos “Contos Exemplares”, vamos encontrar o segundo equívoco: “Retrato de Mónica”:

“Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da “Liga Internacional das Mulheres Inúteis”, ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria.”

Aqui estamos diante de uma crônica, que é intitulada de conto. Tal como “O Jantar do Bispo”, com aspecto de pequena novela e não de conto, em “Retrato de Mônica” estamos ante uma pequena crônica. O estilo da autora é inconfundível. Novamente o tema anda às voltas da moral burguesa e católica da autora, Mónica é tida como uma mulher vencedora, porém, para vencer, é descrita como fútil. Em Mónica o interesse pelas artes, pela cultura, é visto como futilidade. Será que a mulher para ser atuante precisa ser fútil? Mónica está ao serviço de todos os amigos e principalmente, do diabo, seu principal amo. Outra vez o castigo das trevas para quem brilha, para quem vende a imagem. Outra vez o sentido da catequese.
Devemos ressaltar a beleza do conto “A Viagem”. Aqui as personagens perdem-se por uma estranha estrada, onde as formas das coisas adquirem um realismo fantástico. As personagens procuram uma saída, procuram comida, procuram água. Tudo está al alcance deles, mas nada é real. Estão perdidos e sem saída. Estarão mortos? Novamente a sensação de “O Purgatório” de Dante está presente:

“Mas o carreiro tinha desaparecido. Agora havia apenas um estreito rebordo onde ela não cabia, onde nem os seus pés cabiam. Um rebordo sem saída. Aí ficou, de lado, com os pés um em frente do outro, com o lado direito do seu corpo colado à pedra da arriba e o lado esquerdo já banhado pela respiração fria e rouca do abismo. Sentia que as ervas e as raízes a que se segurava cediam lentamente com o peso do seu corpo. Compreendia que agora era ela que ia cair no abismo. Viu que, quando as raízes se rompessem, não se poderia agarrar a nada, nem mesmo a si própria. Pois era ela própria o que ela agora ia perder.”

Neste conto caminhamos à procura do fantástico, onde podemos ter uma sensação de percorrermos as páginas de Kafka ou de Egard Alan Poe - sem a certeza se iríamos encontrá-los.

Histórias da Terra e do Mar, Paisagens Além do Mar Português

Definitivamente o lado estético de Sophia de Mello Breyner Andresen pouco pode ser comparado com outros contistas portugueses. Um estilo que vem das suas eternas histórias para crianças. Mesmo no seu livro “Histórias da Terra e do Mar” (16 ª edição - Texto Editora - 1997), em que a primeira edição data de 1984, ou seja, vinte e dois anos depois de “Contos Exemplares”, a evolução das personagens foi mínima. Em vinte e dois anos a autora lutou intensamente para defender as suas convicções políticas, o homem foi à lua, houve as rosas de maio, a primavera em Praga, o Salazarismo findou, houve a Revolução dos Cravos, as telenovelas chegaram à televisão portuguesa, mudou-se o Papa, mas os contos de Sophia de Mello Breyner continuaram intactos.
O primeiro conto de “Histórias da Terra e do Mar” é “A História da Gata Borralheira”, de 1965, é uma continuação dos anteriores, um misto de “Alice no País das Maravilhas” com “Cinderela”. A moça pobre e humilhada no seu primeiro baile, decide que será uma mulher de sucesso, uma mulher rica e poderosa. Que jamais será humilhada uma outra vez. Novamente a figura do diabo aparece na forma de um belo homem, que dança com a infeliz mulher na noite da humilhação. Depois da escolha, a personagem muda-se para a casa da madrinha rica, casa-se com um homem rico, torna-se poderosa. Um dia, vinte anos depois, volta ao salão onde acontecera o seu primeiro baile. Ali reencontra o belo homem que lhe proporcionara o sucesso. Ele exige-lhe o sapato de brilhantes que ela trazia e a vida. Novamente a certeza de que a mulher para tornar-se vencedora precisa vender a alma ao diabo, o sucesso é fútil, o castigo vem sempre. A catequese também:

“Lúcia quis fugir mas o seu corpo estava rígido e ela não pôde mover nenhum dos seus membros. Quis gritar mas a sua voz estava muda.
O homem inclinou-se, tirou-lhe do pé o sapato de brilhantes e calçou-lhe o sapato de farrapos.”


No conto “A Casa do Mar”, de 1970, a personagem central é a casa. Um conto de parágrafos e parágrafos a nos mostrar o estético, as cores da casa confundem-se com o cheiro da brisa do mar. O vento perde a cor nos bancos (sempre verdes) da varanda. Percorremos jardins inatingíveis, com lírios com perfume de jasmim, com frutas recheadas de cores. Sentimo-nos verdadeiras aves tontas nas alturas. Quase como uma vertigem da paisagem que nos chega com os parágrafos. Viajamos quase que por uma aquarela de natureza morta em forma de palavras:

“Entre a casa e a cidade longínqua estendem-se as dunas como um grande jardim deserto, inculto e transparente onde o vento que curva as ervas altas, secas e finas faz voar em frente dos olhos o loiro dos cabelos. Ali crescem também os lírios selvagens cujo o intenso perfume, pesado e opaco como o perfume de um nardo, corta o perfume árido e vítreo das areias.”

Saga”, de 1972-1981, irá nos levar ao mundo imaginário da autora. Não nos sentimos em Portugal, não reconhecemos as personagens como as das vilas, as das aldeias de pescas, somos transportados para uma realidade quase da época em que lemos “Robson Crusoé”, ou “Gullliver”. Estudar Sophia de Mello Breyner Andresen torna-se agradável, mas faz com que saibamos perceber porque um Miguel Torga é inatingível como contista, é a essência portuguesa que nos foge entre a estética do mar da autora.

Sophia de Mello Breyner

Uma das mais conhecidas escritoras portuguesas do século XX, Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu na cidade do Porto, no dia 6 de novembro de 1919. Filha de uma tradicional e aristocrática família portuguesa, passou toda a infância no Porto. Dessa infância feliz veio grande parte do material que a escritora usaria em seus contos infantis.
Freqüentou de 1936 a 1939, o curso de Filologia Clássica, na Faculdade de Letras de Lisboa, adquirindo paixão pelo clássico grego, que seria de grande influência em toda a sua obra. Os mitos gregos, o ideal de beleza, impregnam a obra de Sophia de Mello Breyner, arrematada pelo emblemático mar português.
O primeiro livro de Sophia de Mello Breyner, Poesia, foi publicado em 1944, tendo uma tiragem de 300 exemplares, sendo essa edição paga pelo seu pai.
Em 1946 a escritora casou-se com o advogado, jornalista e político Francisco Sousa Tavares, com quem viria a morar definitivamente em Lisboa. Do casamento nasceriam cinco filhos, entre eles Miguel Sousa Tavares, conhecido jornalista português.
Ao lado do marido, Sophia de Mello Breyner tornou-se uma das maiores opositoras à ditadura salazarista. Ao longo da sua vida sempre foi uma lutadora empenhada pelas causas da liberdade e justiça. Antes do 25 de Abril, que pôs fim ao Estado Novo, pertenceu à Comissão Nacional de Apoio aos Presos Políticos. Depois da Revolução dos Cravos, continuou a sua militância política.
Sophia de Mello Breyner morreu no dia 2 de julho de 2004, aos 84 anos. Foi a primeira mulher portuguesa a receber o Prêmio Camões. Sua literatura infantil fez parte da imaginação de várias gerações de crianças portuguesas.

OBRAS:

Poesia

1944 – Poesia
1947 – O Dia do Mar
1951 – Coral
1954 – No Tempo Dividido
1958 – Mar Novo
1962 – Livro Sexto
1962 – O Cristo Cigano
1967 – Geografia
1970 – Grades
1971 – Poemas
1972 – Dual
1975 – Antologia
1977 – O Nome das Coisas
1983 – Navegações
1989 – Ilhas
1994 – Musa
1994 – Signo
1997 – O Búzio de Cós
1999 – Primeiro Livro de Poesia (infanto-juvenil)
2001 – Mar (antologia organizada por Maria Andresen de Sousa Tavares)
2001 – Orpheu e Eurydice

Ficção:

Contos
1962 – Contos Exemplares
1984 – Histórias da Terra e do Mar

Contos Infantis
1958 – A Menina do Mar
1958 – A Fada Oriana
1959 – Noite de Natal
1964 – O Cavaleiro da Dinamarca
1965 – O Rapaz de Bronze
1968 – A Floresta
1985 – Árvore

Teatro

2000 – O Bojador
2001 – O Colar

Ensaio

1956 – A Poesia de Cecília Meireles
1960 – Poesia e Realidade
1975 – O Nu na Antiguidade Clássica

CRONOLOGIA:

1919 – Nasce a 6 de Novembro no Porto, onde passou a infância.
1922 – Primeiro contacto de Sophia com a poesia, aos 3 anos, quando uma criada lhe recita A Nau Catrineta, que aprenderia de cor. Mesmo antes de aprender a ler, o avô ensinou-a a recitar Camões e Antero.
1926 – Freqüenta o Colégio do Sagrado Coração de Maria, no Porto, até aos 17 anos.
1931 – Aos doze anos escreve os primeiros poemas. Entre os 16 e os 23 tem uma fase excepcionalmente fértil na sua produção poética.
1936 – Estuda Filologia Clássica, na Faculdade de Letras de Lisboa, mas não leva a licenciatura até ao fim.
1939 – Regressa ao Porto, onde vive até casar com Francisco Sousa Tavares, altura em que se muda definitivamente para Lisboa.
1944 – Publica o primeiro livro, Poesia, uma edição de autor de 300 exemplares, paga pelo pai, que sairia em Coimbra por diligência de um amigo: Fernando Vale. Em 1975 seria reeditado pela Ática. Este livro é uma escolha, que integra alguns poemas escritos com 14 anos.
1946 – Casa-se com Francisco Sousa Tavares.
1947 – Publica pela Editora Ática, O Dia do Mar.
1950 – Publica Coral, pela Livraria Simões Lopes.
1954 – Publica No Tempo Dividido.
1956 – Publica o livro de literatura infantil O Rapaz de Bronze.
1958 – Publica Mar Novo, A Menina do Mar (infantil) e A Fada Oriana (infantil). Escreve um ensaio sobre Cecília Meireles.
1960 – Publica Noite de Natal (infantil). Publica o ensaio Poesia e Realidade.
1961 – Publica O Cristo Cigano.
1962 – Publica Livro Sexto e Contos Exemplares (ficção).
1964 – Livro Sexto é distinguido com o Grande Prêmio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores. Publica O Cavaleiro da Dinamarca (infantil).
1967 – Publica Geografia.
1968 – Publica A Floresta (infantil) e Antologia, cuja 5ª edição (1985 – Figueirinhas) é prefaciada por Eduardo Lourenço.
1970 – Publica Grades.
1972 – Publica Dual.
1975 – Publica o ensaio O Nu na Antiguidade Clássica, integrado em O Nu e a Arte, uma edição dos Estúdios Cor. Eleita deputada pelo Partido Socialista à Assembléia Constituinte.
1977 – Publica O Nome das Coisas, distinguido com o Prêmio Teixeira de Pascoaes.
1983 – Publica Navegações, recebe o Prêmio da Crítica do Centro Português da Associação de Críticos Literários.
1984 – Publica Histórias da Terra e do Mar (ficção).
1985 – Publica Árvore (infantil).
1989 – Publica Ilhas, distinguido com os Prêmios D. Dinis, da Fundação Casa de Mateus e Inasset-INAPA (1990).
1990 – Reúne toda a sua obra em três volumes: Obra Poética, com a chancela da Editorial Caminho; é distinguida com o Grande Prêmio de Poesia Pen Clube.
1992 – Grande Prêmio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças.
1994 – Publica “Musa”. Recebe o Prêmio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores. Publica Signo, um livro/disco com poemas lidos por Luís Miguel Sintra.
1995 – Placa de Honra do Prêmio Petrarca, atribuída em Itália.
1996 – Homenageada do Carrefour des Littératures, na IV Primavera Portuguesa de Bordéus e da Aquitânia.
1998 – Seu livro O Búzio de Cós, é distinguido com o Prêmio da Fundação Luís Miguel Nava.
1999 – É a primeira mulher portuguesa a receber o Prêmio Camões.
2003 – Recebe o Prêmio Rainha Sofia de poesia ibero-americana.
2004 – Morre, no dia 2 de Julho, Sophia de Mello Breyner.
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Domingo, 7 de Dezembro de 2008

O FOGO E AS CINZAS & TEMPO DE SOLIDÃO - MANUEL DA FONSECA

 

 

Manuel da Fonseca, um dos maiores representantes do neo-realismo português, além de exímio contista, destaca-se também como romancista (“Cerromaior” -1943, “Seara do Vento” - 1958) e poeta (“Rosa dos Ventos” - 1940, “Planície” - 1942). É como contista que iremos analisá-lo a seguir.
Ao contrário das personagens de Miguel Torga, que surgem do nada e tornam-se densas e humanas, as personagens dos contos de Manuel da Fonseca são mais elaboradas, mais estruturadas, dificilmente surpreendem dentro do imprevisto. As personagens adquirem uma personalidade psicológica que evoluí conforme o meio social em que se encontra, mantendo sempre uma estrutura equilibrada, de onde a razão vai de encontro ao que esperamos da vida, do quotidiano, seja ele vivido no campo ou na cidade. Cada personagem ficcional de Manuel da Fonseca parece a reunião de três indivíduos reais, ou seja, o autor transporta para a ficção duas ou três personalidades reais, fazendo assim, um trabalho de elaboração, onde a história contada tende a um clímax esperado, nunca, ou quase nunca, espontâneo como vimos nos contos de Miguel Torga. Aqui analisaremos os livros de contos “O Fogo e as Cinzas” e “Tempo de Solidão”, duas obras de tempos diferentes da história portuguesa. O “O Fogo e as Cinzas“ é o retrato das pequenas vilas e aldeias do interior português, personagens típicas dessas terras, que compõem o conjunto de uma sociedade secular. “Tempo de Solidão” retrata a cidade da grande, a urbanidade e a transformação dos costumes, o homem do interior migra para a grande cidade, muitas vezes a perder-se diante do anonimato urbano.

O Fogo e as Cinzas, Retratos do Interior Português

Ao analisarmos os contos do livro “O Fogo e as Cinzas” (19ª edição - Caminho - 1992), vamos encontrar semelhanças com os “Contos da Montanha” de Miguel Torga. Tal qual Torga, estes contos foram escritos durante o Estado Novo, tendo sido publicados pela primeira vez em 1951. Para compreendermos melhor a época, os contos estão situados numa Europa pós-guerra, onde os primeiros anos da guerra fria e da afirmação nuclear são os principais problemas. Enquanto assistimos ao enterro dos nacionalismos extremados, o Nazismo na Alemanha e o Fascismo na Itália, a Península Ibérica vive sob as ditaduras de Franco em Espanha e de Salazar em Portugal. É na ditadura de Salazar, voltada para as colônias africanas, numa política totalmente isolada do resto da Europa, fechada às mudanças intelectuais do mundo, que surge os contos aqui analisados. Neles vamos sentindo uma desolação das personagens que pouco a pouco. vêem surgir lentamente um progresso nas vilas e nas aldeias. Com este progresso acontece a perda de certos costumes, o eterno olhar saudosista do português sobre o que evoluí e o que se perde com tal evolução.
Manuel da Fonseca faz desses contos sutis viagens através de Troia, desce por Sines, Milfontes, guia-nos até o Alentejo, indo desembocar no Algarve. Ao contrário de Torga, que faz das pedras transmontanas o cenário das suas personagens, Fonseca faz de várias regiões personagens também do campo, mas não só a gente que trabalha na terra, a gente humilde e sem esperança, aqui surge também donos de terras, com todos os seus caprichos e passionalismos, como no conto “Amor Agreste", onde força e paixão assumem um voluntarismo subtil, numa tensão mista de amor e desejo:

“António de Alba Grande, que tirara a namorada de dentro da golpelha, livrou-a da mordaça e da corda que lhe tolhia os membros. Afastou-se um pouco para o lado.“

Também encontramos trabalhadores típicos das vilas como os bombeiros voluntários, uma profissão muito respeitada e quase heróica no interior português. No conto “O Fogo e as Cinzas”, são as memórias da personagem descritas na primeira pessoa, que nos conduz através dos acontecimentos que mudaram a sua vida. Por duas vezes o fogo na cidade alterou a vida da personagem. A primeira vez, quando a namorada foi salva, mas quando saiu nos braços do bombeiro quase nua, o narrador jamais aceitou a vergonha do fato, deixando-se dominar pelo machismo e preconceitos das aldeias:

E poderia eu ter casado com Antoninha, depois de todos a observarem de barriga ao léu? Ainda agora coro ao pensar que estive quase, quase a fazê-lo.”

Também vamos encontrar os tropas de “Noite de Natal”, os mendigos, o adolescente que abandona a infância de “O Retrato”, enfim, as personagens mais diversificadas e típicas, que constroem um realismo lusitano.
Ao olharmos para os contos de Manuel da Fonseca, vamos encontrar as personagens normalmente inseridas em determinados locais , num largo, num café, numa casa, cujas ações das mesmas vão sucedendo como um cotidiano bucólico, um marasmo perene do dia a dia. Primeiro os costumes vão sendo descritos para que tenhamos uma visão perfeita do local focalizado, do espaço, do ambiente, onde as personagens surgem como visitas, lentamente tomam forma e adquirem o controlo das ações, sobressaindo-se ao cenário. O tempo é sempre o momento de contar uma história, pode ser uma noite na taberna, um dia num monte alentejano, alguns anos no largo de uma cidade, mas sempre de acordo com a evolução da visão das personagens diante da vida. Assim, as marcas da transformação dos tempos e da paisagem, vão sendo mostradas diante da descrição da sensação das personagens. É o progresso que chega e leva embora a paisagem humana:

“Antigamente, o Largo era o centro do mundo. Hoje é apenas um cruzamento de estradas, com casas em volta e uma rua que sobe para a Vila. O vento dá nas faias e a ramaria farfalha num suave gemido, o pó redemoinha e cai sobre o chão deserto. Ninguém. A vida mudou-se para o outro lado da Vila.”

Na descrição acima, no conto “O Largo”, ao contrário das personagens de Torga, onde parecem submergirem da paisagem agreste, as personagens de Manuel da Fonseca vêm em primeiro plano. O traço psicológico é evidenciado a cada parágrafo, as transformações do ambiente e do cenário vão sendo analisados por determinada personagem, que psicologicamente acompanha as mudanças do ambiente e, por fim, a mudança de atitudes, ou seja, elas evoluem mediante o exterior:

“O comboio Matou o Largo. Sob o rumor do rodado de ferro morreram homens que eu supunha eternos. O senhor Palma Branco, alto, seco, rodeado de respeito. Os três irmãos Montenegro, espadaúdos e graves. Badina fraco e repontão. O Estroina, bêbado, trocando as pernas, de navalha em punho. o Má Raça, rangendo os dentes, sempre enraivecido contra tudo e todos. O lavrador de Alba Grande, plantado ao meio do Largo com a sua serena valentia. Mestre Sobral. Ui Cotovio, rufião, de caracol sobre a testa. O Acácio, o bebedola do Acácio, tirando retratos, curvado debaixo do grande pano preto.”

Tempo de Solidão, Uma Urbanidade Saudosista

Ao analisarmos os contos de “Tempo de Solidão” (3ª edição - Caminho -1985), vamos encontrar um Manuel da Fonseca totalmente urbano, perdido no progresso rápido da tecnologia, inserido no dia a dia da cidade e nas latitudes suburbanas ao redor dos grandes centros. Devemos analisar com a visão da mudança dos tempos, pois o conto “Tempo de Solidão” foi editado pela primeira vez em 1969, pelos Estúdios Cor. Nele vamos encontrar a solidão de um casal, separado pelo dia a dia, pelo trabalho na cidade. Os despojos do dia, os acessórios do cotidiano, a casa no subúrbio, a creche do filho, o telefone, a secretária, os escritórios; enfim, um mundo de transição entre o fim do regime salazarista e das mudanças contidas pré-1974. Nota-se perfeitamente o azedume de não ver nada além do marasmo, a tristeza de viver um tempo de estio. As personagens são tomadas por uma desolação do quotidiano, por um saudosismo dos tempos dos cafés do interior, da vida sem o metropolitano, da cidade sem o campo. Silvia e Guilherme temem o dia a dia, a opressão da nova vida urbana que vivem, o estar juntos, mas distanciados pela correria dos dias. Trabalhos separados, camas juntas, o encontro no fim da noite, os desejos do dia a dia. Desejos voyeuristas e dissimulados. A vontade de quebrar com o estabelecido, de fugir da rotina, o massacre das obrigações, as culpas do silêncio de cada um, por fim os corpos que se desejam no fim da noite, fazendo do momento de prazer a fuga de tudo:

“A princípio confuso, depois nítido, sobre os ombros de Guilherme, e apagando-lhe as feições, surge aos olhos de Sílvia a cara do “operário”, tal como ela a sentira, no consultório: calma, forte, repassando-a de serenidade. No mesmo instante, sobre o vidro embaciado da janela do comboio, projecta-se, aos olhos de Guilherme, como imagem de perdida felicidade, o rosto fresco e jovem da mulher entrevista no café. “

Nestes contos, também nos deparamos com a venda das ideologias em nome da posição social e do trabalho. A personagem de “Uma Boa Passagem de Ano” é o exemplo do homem que para ter uma subida social dentro da empresa, despojou-se de valores pessoais, intimistas, perdendo um certo orgulho próprio. Apesar de querer estar em determinada posição social, é claramente repelido pelos outros, quando ele próprio repele àqueles que não pensam como ele ou, não sobem nas esferas sociais. Melancolicamente descobre que a sua ascensão é uma farsa, que apesar das mudanças, continua a admirar o amigo que mais pensa desprezar, e despreza a si próprio:

Ria tanto que me agarrei à barriga. E ao chegar ao carro ainda ria. “O Dimas não percebe”, pensava eu, e ria. “Cada um no seu lugar”, ria eu, de olhos arrasados de lágrimas. “Sim - ofendidos, mas curvados!” ”

Traçando um pouco o retrato do escritor famoso que não gosta de dar entrevistas, Manuel da Fonseca retrata em “A Entrevista” o modelo ideal do novo homem que viria com os anos setenta, ou seja ,o jovem pobre do interior, que para sobreviver trabalhava em vários empregos e custeava os estudos. Aqui ainda o reflexo do salazarismo, em que a luta, o trabalho, a humildade, fazem da componente psicológica do português o estereótipo do fim do Estado Novo:

“-Uma parte, na província, outra parte, aqui, na cidade. Um homem e uma mulher que passam tormentos para que o filho tire um curso. Querem elevá-lo à classe beneficiada pelo dinheiro. É assim que eles pensam que se deve fazer. Mas, na cidade, há uma rapariga que pensa de maneira diferente. E o rapaz, o tal que anda a tirar o curso à custa da miséria dos pais, descobre o erro em que vive. É isto o romance...”

Manuel da Fonseca , é aqui mais melancólico do que nunca, parece muitas vezes fugir do tempo atual e mergulhar no saudosismo de outrora. Saudades da juventude ou do tempo em que Portugal era um país de brandos costumes, com uma guerra colonial nas costas e cinqüenta anos de ostracismo cultural trancados nos calabouços da história? Saudades portuguesas.

Manuel da Fonseca

Manuel Lopes Fonseca, escritor do neo-realismo português, nasceu em 15 de outubro de 1911, em Santiago do Cacém, região do Alentejo.
Manuel da Fonseca deixou o Alentejo para concluir os estudos em Lisboa. Mas é o Alentejo com as suas aldeias e vilas, que vai povoar o universo do escritor ao longo de sua obra, que mais tarde acaba por se tornar urbana.
Militante do Partido Comunista Português (PCP), esta militância e escolha ideológica refletir-se-iam claramente na composição psicológica das personagens e na sociedade que as cercava. O escritor fez parte do grupo do Novo Cancioneiro, fazendo da sua obra uma importante intervenção social e política.
Manuel da Fonseca chegou a fazer a Escola de Belas-Artes, deixando registros dos seus traços em retratos de amigos, com José Cardoso Pires, mas nunca se sobressaiu como artista plástico.
Manuel da Fonseca morreu em 11 de março de 1993, em Lisboa, aos 81 anos de idade.


OBRAS:

Poesia

1940 – Rosa dos Ventos
1942 – Planície
1958 – Poemas Dispersos
1958 – Poemas Completos

Contos

1942 – Aldeia Nova
1951 – O Fogo e as Cinzas
1968 – Um Anjo no Trapézio
1973 – Tempo de Solidão

Romance

1943 – Cerromaior
1958 – Seara de Vento

Crônicas

1989 – Crônicas Algarvias
 
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Quarta-feira, 12 de Novembro de 2008

FATAL, A HORA AZUL - JEOCAZ LEE-MEDDI

 


Existe um momento de transição entre o dia e a noite, que se dá um minuto de silêncio entre os seres do dia e os seres da noite. Um único minuto! Este momento é chamado de Hora Azul! A partir desta idéia corre a trama do romance Fatal – A Hora Azul, de Jeocaz Lee-Meddi. Transitando entre o psicológico das personagens, e um fundo histórico que nos contempla com um realismo profundo, algumas vezes atropelado pelo ludismo e o maravilhoso, pontos de misticismos e mistérios que assola a humanidade.
Quatro personagens contam a história: o jovem idealista e aventureiro Mateus Vera Cruz, a sensata e bela Isadora Sotto Real, a sofrida e perturbada Irena Klein, e o mistério e cruel Michel Cegalerba. Onde começa a história de um termina a do outro. Presos por um passado movido pelas ideologias de esquerda que se fizeram com a guerra fria. A queda dessas ideologias remete os quatro ao vazio e às armadilhas de sobreviver ao psicológico de cada um, às mentiras construídas sobre as ideologias mortas. Não é difícil sobreviver aos regimes autoritários, difícil é sobreviver à verdade de cada um, sobreviver à queda das máscaras, arrancada suma a uma durante o decorrer da narrativa.

Um Romance Fatal

A história começa nos cárceres do Chile em 1973, quando Salvador Allende foi deposto e uma sangrenta ditadura militar é instalada naquele país. Apanhados pela fatalidade da história, Eduardo Vera Cruz e Irena Klein, amantes e companheiros, que se refugiavam no Chile, exilados pela ditadura militar brasileira, são presos e torturados. É durante a prisão dos dois que um acontecimento afetará o futuro de todas as personagens da história.
Nove anos depois, em 1984, Mateus Vera Cruz, sobrinho de Eduardo, que vive em Santos, litoral paulista, torna-se líder estudantil no Brasil e é atropelado pela frustração de ver enterrado o sonho das Diretas Já! Sem a coerência das dialéticas ideológicas, Mateus resolve deixar o país, indo de encontro à paixão que nutria pela bela jovem portuguesa Isadora Sotto Real, que vive em um Portugal pós a Revolução dos Cravos. Quando o amor parece perfeito, a ideologias são superadas e os impérios caem com o fim do comunismo, surge das trevas a figura enigmática de Michel Cegalerba, francês de Paris, para cobrar uma velha dívida a Mateus Vera Cruz.
No início, o livro não revela para o que veio. A sensação é de que tudo já aconteceu, pistas são dadas desde a primeira página, mas um envolvente e perigoso labirinto psicológico vai se formando, a história vai ficando densa e atinge um ápice de cortar o fôlego do leitor. Fatal – A Hora Azul, é daqueles romances que a partir de determinado ponto, já não se consegue parar de ler. E quanto mais esperamos que o desemboque vá dar em uma avenida central iluminada, somos surpreendidos por becos imprevistos e ruas estreitas e inesperadas.
O desenrolar da história propriamente dita, vai de 1984 a 1994. Dez anos na vida de quatro personagens que nos surpreendem sempre. Quando tudo parece estabilizado, um furacão assola a mente de cada um, e um terremoto psicológico deixa mortos e feridos nessa imensa aventura que é a vida humana. Fatal para quem ousa a viver a sua essência.

Um Romance Premiado

Fatal – A Hora Azul, ganhou o Prêmio de Literatura Joaquim Câmara Filho, da Fundação Jaime Câmara, como o melhor romance. Sobre ele escreveu a comissão julgadora da Fundação Jaime Câmara:
“Por se tratar de narrativa original, bem estruturada, com domínio pleno de linguagem, apresentando inovação em uma temática já explorada anteriormente por outros escritores, transitando paralelamente entre a ficção e a história.
Nota-se pela leitura desta obra que o escritor dispõe de bagagem literária e cultural imprescindíveis à criação do romance. Por isso percebemos que o autor Jeocaz Lee-Meddi possui boa carpintaria estrutural para a realização de narrativa de fôlego.”
Na contra-capa do livro já nos é revelado o que nos espera dessa leitura agradável e de surpresas inesquecíveis:
"Jeocaz Lee-Meddi é um escritor brasileiro que viveu em Lisboa. Essa Lisboa que tão bem conhece e onde culmina essa aventura Fatal. Com a mesma elegância que caminham por Lisboa, Paris, Santos ou São Paulo, as personagens seguem intuitivamente num labirinto que traz uma surpresa revelada em cada esquina, cada paisagem, como se a alma enganasse as máscaras, como se o destino já tivesse sido escrito nos frios calabouços do Chile, deixando a ilusão das ideologias mortas pela história e as mentiras reveladas pela queda dos ideais. Nada mais fatal do que o doce encontro da hora azul.”

Jeocaz Lee-Meddi

Depois desta estréia bem sucedida, Jeocaz Lee-Meddi, que viveu muitos anos em Portugal e na Itália, de volta ao Brasil, trabalha hoje em um antigo projeto, escrever sobre os sefaradins, judeus originários da Sefarad, região que corresponde à península Ibérica. Novamente ficção e história se confundem para contar um novo romance de fôlego.
Durante anos Jeocaz Lee-Meddi trabalhou em bancos na Europa, mas nos últimos tempos abandonou a profissão para poder dedicar-se à literatura.
Nascido em Goiás, Brasil Central, ainda criança Jeocaz Lee-Meddi foi viver na Bahia, especificamente em Madre de Deus e Salvador, onde foi alfabetizado. Passou a infância, vivida nos loucos anos setenta, a morar por várias cidades brasileiras, como Mangaratiba (Rio de Janeiro), Itaúna (Minas Gerais), Jequié (Bahia) e Santos (São Paulo). Muitas cidades e estados diferentes, deixaram no autor uma pluralidade de culturas que fizeram dele um eterno viajante pelo mundo, um apaixonado pelo gênero humano e por suas histórias. Assim, como as suas personagens que habitam vários lugares físicos no decorrer da trama, Jeocaz Lee-Meddi continua a ser um viajante compulsivo. Das suas viagens, considera Lisboa a sua casa principal, lugar que traz como a consolidação da sua forma de pensar.

 
Pensamentos de Jeocaz Lee-Meddi

 
"A velhice não está nas rugas que o espelho nos mostra, mas na alma que precisa do espelho para ser feliz."

 
"Os militares não gostavam dos imbecis, dos apáticos, gostavam dos espertos, mas menosprezavam os inteligentes."

 
"Todos os homens deveriam ter como primeira amante uma mulher infeliz, elas são mais sinceras e ardentes."

 
"Só as mulheres infelizes não têm medo de amar a plenitude de um homem."

 
"Casamento é uma troca de várias razões, para dar certo temos que fazer concessões, seguimos fazendo tantas concessões que um dia não sabemos se ainda respiramos as mesmas idéias ou se apenas fingimos."

 
"O mundo admira a arrogância nos homens, mas não a suporta."

 
"No mundo da escrita não há direita ou esquerda, existe o homem, pleno e único, ditador de todas as personagens possíveis de serem criadas."

 
"A obsessão do homem pelo momento supremo da ejaculação leva-o a derrubar impérios, fazer guerras, até matar ou morrer."

 
"Aos vinte anos podemos tudo, inclusive pensar. Mas se não o fizer, ninguém vai culpá-lo."

 
"Quanto mais penso nas memórias de uma vida, mais piegas parecem os historiadores."
 
 
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Quarta-feira, 5 de Novembro de 2008

CONTOS - VERGÍLIO FERREIRA

 

 

Muitas vezes o conto em língua portuguesa é lido com um certo preconceito. O romance é tido como a ambição máxima do escritor. Para um romancista, o conto é visto como uma obra menor, ou seja, quase como um romance falhado. A prova desta idéia vem de Vergílio Ferreira na nota introdutória do seu livro “Contos”, na nota de a 14 de Junho de 1976:

“Escrever contos foi-me sempre uma atividade marginal e eles relevam assim um pouco da desocupação e do ludismo. E se um conto (como uma cerâmica ou uma gravura), bem realizado, excede em importância um mal realizado romance (ou um quadro a óleo), será sempre um conto, ao que julgo, de uma dimensão menor que a de um romance.”

Devido a sua estrutura, os contos são histórias de ficção rápidas e de conteúdo de ações reduzidos, que para um escritor, muitas vezes, é utilizado como uma forma de ficção menos trabalhada. Não é verdade, porém, que o conto não deixa de ter a sua importância literária, grandes contistas superaram dentro da sua ficção o romancista. O próprio Vergílio Ferreira esclarece na mesma nota introdutória:

“Entendo por “dimensão” a estrutura básica de um gênero ou forma estética que envolva determinadas possibilidades artísticas e humanas. Se um conto de Eça de Queirós não é inferior em realização a um qualquer dos seus romances, é evidente que o é quanto à sua dimensão, ou seja, aos limites em que tem de desenvolver-se. O que nada tem que ver, obviamente, com a “extensão” de um e outros. Não pode, pois, a isto objetar-se que é preferível um bom conto a um mau romance - porque o é. Mas pode perguntar-se em que medida não ficaríamos diminuídos se um Eça de Queirós tivesse sido apenas contista. Decerto estas questões não se decidem por uma opção mas por uma vocação; e assim nos não perguntamos sobre o quanto nos diminuiu um Fialho de Almeida com o romance que não escreveu - porque o não pôde escrever. É sempre, todavia, legítimo especular sobre se tal romance, a ser escrito, atingiria a realização dos contos do mesmo autor.”

É legítimo citarmos esta nota introdutória, uma vez que ao estudarmos o conto, devemos também analisá-los na perspectiva do autor, para percebermos até que ponto a sua importância literária condiz com a realização intelectual de quem o escreveu. Os contos de Vergílio Ferreira, apesar de serem vistos por ele como uma obra menor, não deixam de traduzir a essência do povo português nos últimos cinqüenta anos. Aqui analisaremos Contos (4ª edição - Bertrand Editora - 1991), uma coletânea editada pela primeira vez em 1976, que reuniu contos desde 1945 (“O Cerco”), até 1975 (“O Morto”), com inclusões posteriores na edição de 1991. São contos que têm entre si um espaço de quase cinqüenta anos. Uma visão dos costumes portugueses desde o fim da Segunda Guerra Mundial até ao fim do Salazarismo, com as dificuldades de adaptação do após 25 de Abril. Tempos distintos que refletem bem na análise das personagens - antes e depois da Revolução dos Cravos.

Lirismo em Prosa

Nos contos de Vergílio Ferreira vamos encontrar uma linguagem poética, a narrativa, verdadeira poesia em prosa, é de um lirismo contagioso, sobrepondo-se à ironia do autor. No conto “Mãe Genoveva”, a temática é a mesma de “A Maria Lionça” de Miguel Torga (veja o artigo CONTOS DA MONTANHA – MIGUEL TORGA ://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2008/01/contos-da-montanha-miguel-torga.html), chegamos ao fim do conto com a sensação que ambas as personagens são irmãs, mas de pais diferentes. No lirismo de Vergílio Ferreira vamos conhecendo a personagem:

“Todas as tardes ela vinha com o cesto de costura para o sol do corredor, se a tarde era de inverno, ou para a sombra da figueira, se era nos calores do verão. Ali estava agora, direita ainda, frente ao vento da tarde funda de Agosto, um vento largo e calmo de céu e de montanha. Mas tão grande era a certeza de sossego à sua volta, tão aberta de paz e de sinal, que a cabeça lhe tombou para o tronco da figueira e as mãos e os olhos se entregaram à unção de uma morte merecida. Quanto tempo? Abriu os olhos e sentiu-se verdadeira no seu corpo fatigado, como fora verdadeira toda a dor que conquistara.”

As palavras desenvolvem-se como um poema em prosa. O lirismo faz do conto uma linguagem rica e densa. Dentro da dor da vida a dignidade e poesia do homem. Mãe Genoveva é a mulher lutadora, cuja vida rouba-lhe o filho. Assim, torna-se mãe de todos os outros órfãos da vida e da esperança:

“E Genoveva, subitamente, sentiu-se iluminada, docemente ungida de um sinal de maternidade para todos os tempos da esperança e do amor. Suspenso sobre as cabeças, sobre a glória do canto dos seus filhos, um grande gesto de bênção unia-os como um ventre. Até que, à hora quente da lua-cheia, fechada de um silêncio final, segura de que tudo se cumprira em perfeição, Genoveva sentiu que a cabeça lhe tombava - e para sempre adormeceu.”

É notável como a dor e a amargura são diluídas pela forma poética como é descrita. Apesar das armadilhas da vida, as esperanças da personagem são vistas nos gestos do dia, na ida e na volta do filho, na maneira infinita e sem medo que acolhe a morte. Há de encontrar dentro de todo lirismo uma certa visão quase irônica, quase desoladora, tão típica de Miguel Torga, Manuel da Fonseca, e muitos outros contemporâneos de Vergílio Ferreira.
O povo português é descrito aqui como sobreviventes da prisão do tempo e da cultura. Ainda não existe a CEE, a guerra colonial destrói todo o construído, a única esperança é a emigração. Para o Brasil, para a França, para a Suíça.

Os Primeiros Tempos Após a Revolução dos Cravos

Já numa fase seguinte, “Contos”, continua através do após 25 de Abril. A ditadura terminou, a liberdade de expressão é vista com desconfiança, sem a amplitude atual. Também a guerra colonial chega ao fim. O grande problema viria quando mais de um milhão de portugueses retornariam das ex-colônias. Surge uma nova personagem, o retornado, aquele que perdeu tudo na guerra. A economia desequilibra-se. Os partidos de esquerda dantes clandestinos, agora gritam nas ruas os seus direitos. Acontecem os saques às casas e às mansões dos colaboradores do antigo regime. As manifestações nas ruas são vistas com euforia. Surgem as greves e as manifestações do proletário. A instabilidade dos governos dos anos setenta é um caos. O país tem liberdade de expressão, mas não sabe ao certo que caminho encontrar. Tantos anos voltados para a África, no momento uma única dúvida, estão mesmo na Europa? É nesta fase de transição que surgem as personagens de Vergílio Ferreira de “O Morto”:

Traziam muitas bandeiras e as bandeiras eram vermelhas, que é a cor do proletariado. E aos cantos das bandeiras havia estrelas amarelas, que também é. Como o barulho era muito, o choro era pouco. Às vezes, por cansaço ou deferência mortuária, gritava-se menos. E então o choro era mais. Nessa altura a família tinha um pouco razão de ir ali e o enterro parecia-se mais com um enterro. Também o céu tinha nuvens baixas e o enterro ficava ainda mais parecido. O padre também lá ia por vontade da família e para que tudo fosse como devia ser. Mas quando ele se dispunha a dizer o latim apropriado, rompeu pelo cemitério dentro um outro bando cheio de barbas, com muitas bandeiras vermelhas, que é a cor das classes desfavorecidas. E aos cantos das bandeiras havia estrelas amarelas. A aldeia era no cabo do mundo. Mas como tudo o que é essencial para a vida dos povos tem de chegar sempre até onde houver povo, as complicações sociais também lá chegaram.”

Aqui o morto é reclamado por dirigentes comunistas. O conto hoje parece datado, observa-se a ironia com a qual retrata Vergílio Ferreira a época. Mais cáustico, menos lírico, é o retrato de uma sociedade em transição. A guerra fria dita as ideologias. O morto é disputado pelas antigas tradições religiosas e pelas novas convicções ideológicas. O debate não vai além da comédia. Os tempos também não. Nos anos setenta os escritores tinham que definir uma linha, ou era uma literatura de direita ou de esquerda. Que posição tomar? A que menos limitasse o autor e a sua obra. A criatividade dá passagem ao discurso político. Comparar o lirismo de “Mãe Genoveva” com a ironia de “O Morto”, é encontrarmos no escritor uma transição, mas que literariamente não mostra só um amadurecimento, mas a perda de um momento, quase como se o morto fosse o poeta, não o proletário.
Mas encontramos pelo caminho de “Mãe Genoveva” e de “O Morto”, contos de transição que definem o autor e a obra, sem dualismos ideológicos, mas um contador de história.

As Tradições e as Lutas de Classes

Em “O Encontro”, vamos ver aqui o homem e as armadilhas da sedução, o prazer e os costumes, mais uma vez a tragédia é consumada em nome da honra caprichosa. Nesse conto um engenheiro da cidade envolve-se com uma rapariga de uma aldeia. O engenheiro é visto pela população como a opressão do progresso, como o homem culto diante da natureza ignorante do homem analfabeto, do homem do campo, despido de intelecto, mas amplo de tradições e costumes. O homem da cidade que está farto do campo, da ignorância cega daquela gente, que não vê o momento de concluir a obra e partir, mas que mesmo menosprezando tal gente, o sentido do corpo e do sexo faz com que ele seduza uma rapariga. A tragédia vem quando os irmãos e o pai da rapariga vingam a honra caprichosa com o sangue, golpeando de morte o engenheiro:

“O caminho era negro como a pedra daqueles palheiros; negro do estrume, da terra sempre úmida das águas correntes. Havia depois adiante uma breve clareira, e, a seguir, a casa dela, precisamente onde começava a rampa de areia branca do lado de cima dos eucaliptos. (...)
(...) O suor escorria. Com os golpes da navalha o engenheiro sentiu a mão do velho socar-lhe as costas, e voltou-se. Impossível lutar. Num clarão, atirou-se furioso por uma aberta da ladeira e atrás dele soou logo o tropel dos três. Na vertigem da luta, uma sede de sangue apossara-se deles, um rancor sem memória despedaçava-lhes os nervos. Alucinado, o engenheiro corria, rampa abaixo. Mas em breve as forças lhe faltaram, e na volta do caminho tropeçou. Firmou-se porém, ainda num arranque de fúria, sobre as pernas massacradas e entorpecidas; mas uma pancada surda, com a potência de um coice; estoirou-lhe a cabeça, como um trovão. Como impelidos por uma mola que estala, os braços saltaram-lhe acima, de mãos abertas. Logo, porém, a meio quebraram, as pernas enroscaram-se-lhe devagar, e todo o corpo se lhe abateu desamparado.”

Aqui, ao contrário de “A Paga”, de Miguel Torga (no conto de Torga, para vingar a honra perdida, os irmãos da rapariga castram o mal-feitor), o que está em causa não é só a honra ofendida, mas o ódio dos irmãos da rapariga pelo engenheiro, pois lhe eram subordinados na obra, e tratados com desprezo pelo mesmo. As lutas de classe são traduzidas pelos costumes, camufladas por eles, ou seja, o acerto de contas é com o homem culto da cidade, não com o homem que desonrou a família. Sente-se um Vergílio Ferreira com uma literatura pungente e com convicções sociais acentuadas. Podemos evidenciar em outro conto, de uma forma diferente, a mesma luta de classes. No conto “Gló”, a personagem central é Glória, que traz a alcunha de Gló. Glória é uma criança inteligente e carismática, oriunda de uma mulher pobre que para ganhar a vida, faz limpezas nas casas de pessoas ricas. A filha cai nas graças de uma família rica, que acaba por tirá-la da mãe, tornando-a parte casa. Mas, apesar de todo o apego da família pela bela criança, Glória cresce, e a realidade é outra, será sempre alguém que vive da caridade daquela família. Não é filha, também não é criada, torna-se apenas alguém estranho à família. Com a morte da anfitriã, Glória torna-se motivo de desejo do viúvo. Novamente a luta de classes de uma forma pungente, mas realista:

“Os dias foram passando, até que uma tarde, alterada de cólera reprimida, Mina disse a Gló coisas desagradáveis e imprevistas. Quis saber porque não arranjava um rapaz e se não achava fastidiento casar com um velho viúvo. Mas esta pergunta, embora magoasse Gló até ao vexame, não deixava de surpreendê-la agradavelmente. Ah, tinha ali afinal a desforra da miséria velha, a desforra da sua gente, a vingançazinha própria sobre Mina e toda a sua fidalguia. No entanto, já não seria agora possível deixar de sentir-se embaraçada quando o sr. Costa a fitasse demoradamente ou lhe enterrasse devagar os dedos no cabelo.”

Um Contista Sem Limitações

As personagens dos contos de Vergílio Ferreira são de uma psicologia soberba. Não ficariam diminuídas diante de outras personagens do mundo do romance. Os contos de Vergílio Ferreira são dos melhores que há em literatura portuguesa. De uma expressividade poética, política e social, onde podemos ler sempre várias vertentes dentro da mesma personagem. As personagens são ricas, pouco transparentes e de um desembocar que só é resumido pela própria estrutura do conto, pelas limitações do mesmo, onde o início já quase prevê o fim. Para terminarmos esta análise, voltemos às palavras do autor na sua nota introdutória:

“Resta que para os meus contos se decida de uma vez não atingirem eles, face aos romances que escrevi, não apenas a dimensão mas o nível. Ser-me-á perdoável que eu duvide um pouco? Perspectivas de um outro ângulo, pondo em causas outras opções, jogando com outros valores, não vejo que algumas narrativas desta coletânea não me tenham mobilizado a capacidade que me coube e, ainda que marginais, não sejam do todo que me pertence.”

E para que percebermos o princípio da exteriorização das palavras do autor, onde esta exteriorização anula-se verdadeiramente na forma como o sujeito da narração centra-se de forma insistente e sistemática sobre o seu universo interior. Vejamos o final do primeiro conto “Adeus”, onde mergulhamos no universo lírico e poético do mesmo, com a plena certeza de que não fomos lesados ao optarmos por ler os seus contos:

“Caminhei pela vereda branca, lavado numa pureza desconhecida, anterior à minha humanidade, e onde, no entanto, eu me sentia todo inteiro. Quando cheguei ao topo da colina, olhei ainda atrás a ausência de Marta. Mas lentamente, surpreso e todavia calmo, fui descobrindo Marta em pessoa, em pé, no meio do caminho, vestida de lua, esperando decerto como eu que toda a serra e toda a aldeia e tudo o que nos fora prometido ficasse enfim tão diferente como quando ainda não tínhamos nascido.”

Pelo contrário, saímos das páginas dos contos com a certeza que redescobrimos um escritor. Nunca esquecemos o romancista, mas também o contista é um mestre na arte de contar histórias. No seu existencialismo exacerba a solidão do homem, nu diante das evidências da vida, nu diante do seu lugar em um universo sem estrelas. Aqui temos uma inclinação para descobrirmos a subtileza da alma portuguesa. Uma alma latina, saudosista, plena de surpresas.

Vergílio Ferreira

Vergílio Antonio Ferreira nasceu em Melo, Gouveia, em 28 de janeiro de 1916. Tornar-se-ia um dos maiores escritores portugueses do século XX. Sua obra literária foi construída por romances e contos, dividindo-se em dois períodos: o neo-realismo e o existencialismo.
O existencialismo de Vergílio Ferreira reflete um questionamento de homem em todas as suas tragédias, em todas as suas escolhas e procuras, muitas vezes sem o rumo que se espera, mas na perfeita tradução da eterna solidão humana, condição absoluta para o crescimento psicológico dentro de um mundo muitas vezes lúdico a contrastar com os costumes e a crueza da vida.
Com os pais migrados nos EUA, Vergílio Ferreira mergulha na solidão existencialista que acompanharia a sua obra. Esta solidão é construída quando passa seis anos em um seminário. Ainda no liceu, dedica-se à poesia, que nunca seria publicada. Segue mais tarde para Coimbra, onde cursa a Faculdade de Letras.
Em 1943 escreve o seu primeiro romance, O Caminho Fica Longe. Iniciava-se assim, uma grande carreira literária, galardoada pelo Prêmio Camões em 1992.
Vergílio Ferreira morreu em Lisboa, no dia 1 de março de 1996, sendo enterrado em Melo.

OBRAS:

Ficção:

1943 - O Caminho fica Longe
1944 - Onde Tudo foi Morrendo
1946 - Vagão "J"
1949 - Mudança
1953 - A Face Sangrenta
1953 - Manhã Submersa
1959 - Aparição
1960 - Cântico Final
1962 - Estrela Polar
1963 - Apelo da Noite
1965 - Alegria Breve
1971 - Nítido Nulo
1972 - Apenas Homens
1974 - Rápida, a Sombra
1976 - Contos
1979 - Signo Sinal
1983 - Para Sempre
1986 - Uma Esplanada Sobre o Mar
1987 - Até ao Fim
1990 - Em Nome da Terra
1993 - Na Tua Face
1996 - Cartas a Sandra

Ensaios:

1943 - Sobre o Humorismo de Eça de Queirós
1957 - Do Mundo Original
1958 - Carta ao Futuro
1963 - Da Fenomenologia a Sartre
1963 - Interrogação ao Destino, Malraux
1965 - Espaço do Invisível I
1969 - Invocação ao Meu Corpo
1976 - Espaço do invisível II
1977 - Espaço do invisível III
1981 - Um Escritor Apresenta-se
1987 - Espaço do invisível IV
1988 - Arte Tempo

Diários:

1980 - Conta-Corrente I
1981 - Conta-Corrente II
1983 - Conta-Corrente III
1986 - Conta-Corrente IV
1987 - Conta-Corrente V
1992 - Pensar
1993 - Conta-Corrente-nova série I
1993 - Conta-Corrente-nova série II
1994 - Conta-Corrente-nova série III
1994 - Conta-Corrente-nova série IV


CRONOLOGIA:

1916 – No dia 28 de Janeiro, sexta-feira, Vergílio Ferreira nasce em Melo, concelho de Gouveia, filho de António Augusto Ferreira e Josefa Ferreira.
1920 – Os pais de Vergílio Ferreira emigram para os Estados Unidos, deixando-o, com seus irmãos, ao cuidado de suas tias maternas. Esta dolorosa separação é descrita em Nítido Nulo.
1926 – Após uma peregrinação a Lourdes, entra no seminário do Fundão, que freqüentará durante seis anos. Esta vivência será o tema central de Manhã Submersa.
1932 – Deixa o seminário e acaba o curso liceal no Liceu da Guarda. Começa a dedicar-se à poesia.
1936 – Entra para a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Continua a dedicar-se a poesia, nunca publicada, salvo alguns versos lembrados em Conta- Corrente.
1939 - Escreve o seu primeiro romance, O Caminho Fica Longe,
1940 – Conclui a sua licenciatura em Filologia Clássica.
1942 – Concluí o estágio no Liceu D. João III, em Coimbra. Começa a lecionar em Faro. Publica o ensaio “Teria Camões Lido Platão?”. Escreve “Onde Tudo Foi Morrendo”.
1944 – Leciona no Liceu de Bragança. Publica “Onde Tudo Foi Morrendo”. Escreve Vagão “J”.
1945 – Ingressa no Liceu de Évora, cidade que marcará vários dos seus romances, entre os quais “Aparição”.
1946 – Casa-se com Regina Kasprzykowsky. Publica Vagão “J”.
1947 – Viaja pela Espanha.
1948 – Publica Mudança, que marca a sua passagem do neo-realismo para o existencialismo.
1953 – Publica a coletânea de contos A Face Sangrenta.
1954 – Viaja pela França, Bélgica e Holanda. Publica Manhã Submersa.
1956 – Escreve Cântico Final.
1957 – Publica a coletânea de ensaios “Do Mundo Original”.
1958 – Publica um novo ensaio, Carta ao Futuro.
1959 – Ingressa no Liceu Camões, em Lisboa. Publica Aparição.
1960 – Recebe o Prêmio Camilo Castelo Branco, por Aparição, da Sociedade Portuguesa de Escritores.
1962 – Publica Estrela Polar e o ensaio “Da Fenomenologia a Sartre”, que constitui o prefácio da tradução de “O Existencialismo é um Humanismo”.
1963 – Publica o romance Apelo da Noite e o ensaio “André Malraux (Interrogação ao Destino)”.
1965 – Publica Alegria Breve e a coletânea de ensaios Espaço Invisível I. É galardoado com o Prêmio Casa da Imprensa.
1967 – Viaja pela Itália.
1971 - Publica Nítido Nulo e viaja pela Grécia.
1976 – Publica um volume de Contos.
1978 – Antonio Macedo faz um filme do conto Encontro.
1979 – Lauro Antonio realiza o longa-metragem Manhã Submersa, Vergílio Ferreira desempenha o papel de Reitor.
1983 – Viaja pela Grécia, Egito e Brasil, em comitivas presidenciais. Publica Para Sempre e Conta-Corrente III. Recebe os Prêmios do Pen Club, Associação Internacional de Críticos Literários, do município de Lisboa e o Prêmio D. Dinis da Casa de Mateus. Lauro Antonio realiza Mãe Genoveva.
1984 – É eleito para a Academia Brasileira de Letras.
1988 – Recebe o Grande Prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, pelo romance Até ao Fim.
1990 – Recebe o Prêmio Femina por Martin Perdu, tradução francesa de Manhã Submersa.
1991 – Recebe em Bruxelas o Prêmio Europália pelo conjunto de sua obra literária.
1992 – É eleito para a Academia das Ciências de Lisboa. É galardoado com o Prêmio Camões.
1993 – Recebe o doutoramento Honoris Causa, na Universidade de Coimbra.
1996 – Morre em Lisboa, a 1 de março. É sepultado “virado para a serra” como sempre desejou, em Melo. É publicado o romance que deixou incompleto, Cartas a Sandra.

 
 

 
 
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Sábado, 1 de Novembro de 2008

AL BERTO


Há pouco mais de dez anos Portugal perdia um dos seus maiores poetas da nova geração, Al Berto. Alberto Raposo Pidwell Raposo, ou Al Berto, como ele assinava a sua obra, partiu no maior feriado religioso de Lisboa, no dia de Santo Antonio, 13 de junho, em 1997.
Dono de uma personalidade singular, amante da noite e do Bairro Alto, foi nas ruas estreitas desse bairro que nos conhecemos. Era um homem amável, de um cavalheirismo que lhe identificava o lado britânico da sua ascendência, de agradável convivência. Por dentro era um poeta em ebulição, muitas vezes acusado de morbidez e de profunda melancolia na forma de escrever os seus versos. Mas como poderia ser diferente em um homem amante da noite lisboeta e das suas armadilhas amorosas? Um poeta de alma portuguesa, tão saudosista quanto a força dos ventos que sopraram as caravelas de Cabral no Restelo, rumo à aventura lusitana pelo mundo. Sua poesia traz a ambigüidade do cotidiano, um olhar sobre a luz e os objetos, a mente e os desejos, fragmentos entre a poesia e a prosa, o mundo e o espanto poético de dele fazer parte.

Antes do Solstício de Verão
 
Conheci Al Berto através de um amigo em comum, o fotógrafo Stanislas Kalimerov. Ali travamos um conhecimento gentil, regado muitas vezes de um bom vinho nos jantares que tivemos pelos restaurantes do Bairro Alto ou nas longas e inesquecíveis noites de diversão no mítico Frágil, ainda quando pertencia ao Manuel Reis. Era um homem apaixonante e apaixonado. Gostava de ter a juventude ao seu redor. Magro, cabelos lisos e compridos, penteados para trás.
Ainda me lembro da noite que o seu amigo Alexandre Matos terminou o curso de estilista, fomos comemorar n’A Brasileira do Chiado. Al Berto sentia um grande orgulho de ter participado daquela conquista do amigo. Agradeceu-me por ter acolhido Alexandre Matos no meu apartamento na Luz Soriano, na noite anterior, quando depois de um jantar, ele tinha bebido demais e não conseguira voltar para casa.
No início de 1996, enviei os originais do romance “Fatal – A Hora Azul” para que ele lesse. Estava em Sines, a escrever aquele que seria o seu último livro em vida “Horto de Incêndio”, que marcaria a sua estréia na Assírio & Alvim. Para minha surpresa e alegria, Al Berto gostou do romance e fez várias anotações sobre o que achara. Combinamos um encontro em outubro de 1996 na A Brasileira, para que me entregasse os originais e comentasse as anotações. Al Berto não apareceu ao encontro. Horas depois, quando cheguei em casa, recebi um telefonema onde ele se desculpava, dizia que estava com um enorme caroço na bochecha, que lhe deformava o rosto e ele não sairia de casa enquanto não sumisse o caroço. Ainda brincou que estava muito feio para ser visto em público. Infelizmente não era um caroço comum. A partir daí Al Berto descobriu um linfoma que o iria matar em pouco mais de sete meses. Ainda no início da primavera de 1997 trocamos correspondência, ele estava em Lisboa na casa da irmã, em tratamento. Combinamos um encontro, mas também eu me envolveria em problemas de ordem amorosa que me consumiriam aquela primavera e o verão. Não teria mais tempo de rever Al Berto com vida, pois ele não sobreviveria àquela primavera. Morreu poucos dias antes do solstício de 1997.
Em agosto daquele ano, encontrei Alexandre Matos (na fotografia colorida ao lado de Al Berto), que na época vivia na Itália. Estava abalado com a morte do amigo. Entregou-me um texto que Al Berto lhe fizera, mais um ensaio fotográfico que fizera de Al Berto pelas ruas de Lisboa. O texto intitulava-se “Lisboa, Alexandre e Eu”. Alexandre queria que eu viabilizasse a publicação do pequeno texto. Mas estava numa roda viva decisiva e inesperada, que me fizeram deixar Lisboa, partindo para a Póvoa de Varzim. Por fim, deixei Portugal, e o texto inédito do Al Berto acompanhou o meu regresso ao Brasil. Curiosamente os meus originais ficaram nos seus pertences, com as suas anotações, e este texto continuou inédito em meu poder, a espera do meu regresso a Lisboa.
Publico aqui, no VIRTUÁLIA, algumas fotografias que Alexandre Matos fez de Al Berto. Nunca elas o definiram tão bem. É como se o visse a brincar e a contar as suas aventuras pelas quentes e infinitas noites do Bairro Alto.
Se estivesse vivo, Al Berto completaria este ano, no dia 11 de janeiro, 60 anos. Aqui a minha homenagem ao Al Berto, ao Alexandre Matos, a Lisboa e ao Bairro Alto, só quem traz a sensibilidade lisboeta na alma, compreende esses ícones que se prendem a nossa alma como uma tatuagem de desenhos existencialistas.

Um Poema de Al Berto


As Mãos Pressentem

As mãos pressentem a leveza rubra do lume
repetem gestos semelhantes a corolas de flores
vôos de pássaro ferido no marulho da alba
ou ficam assim azuis
queimadas pela secular idade desta luz
encalhada como um barco nos confins do olhar

ergues de novo as cansadas e sábias mãos
tocas o vazio de muitos dias sem desejo e
o amargor húmido das noites e tanta ignorância
tanto ouro sonhado sobre a pele tanta treva
quase nada

CRONOLOGIA


1948 – Nasce em 11 de janeiro, em Coimbra, Alberto Raposo Pidwell Tavares.
1949 – Vai viver em Sines, onde passa parte da infância e da adolescência.
1967 – Cursa em Bruxelas a École Nationale Supérieure d’Architecture et des Arts Visuels (La Cambre), onde faz pintura.
1971 – Abandona a pintura para se dedicar à literatura.
1974 – Regressa para Portugal e escreve o seu primeiro livro totalmente em língua Portuguesa.
1977 – Lança o seu primeiro livro “À Procura do Vento Num Jardim D’Agosto”.
1987 – É editado “O Medo”, uma antologia do seu trabalho de 1974 a 1986, que se tornaria o trabalho mais importante da sua obra.
1988 – Prêmio Pen Club de Poesia pela obra “O Medo”.
1995 – Escreve o texto para a exposição de Stanislas Kalimerov “A Última Cena – Um Olhar Português”.
1996 – Passa grande parte do tempo em Sines, a escrever o seu último livro “Horto de Incêndio”.
1997 – Morre em Lisboa, de linfoma, em 13 de junho.


OBRAS

Poesia:

1977 – À Procura do Vento Num Jardim D’Agosto
1980 – Meu Fruto de Morder, Todas as Horas
1982 – Trabalhos do Olhar
1983 – O Último Habitante
1984 – Salsugem
1984 – A Seguir o Deserto
1985 – Três Cartas da Memória das Índias
1985 – Uma Existência de Papel
1987 – O Medo (Trabalho Poético 1974-1986)
1989 – O Livro dos Regressos
1991 – A Secreta Vida das Imagens
1991 – Canto do Amigo Morto
1991 – O Medo (Trabalho Poético 1974-1990)
1995 – Luminoso Afogado
1997 – Horto de Incêndio
1998 – O Medo
2007 – Degredo no Sul

Prosa:

1988 – Lunário
1993 – O Anjo Mudo
2006 – Apresentação da Noite

Texto: Jeocaz Lee-Meddi
Fotos: Alexandre Matos


 
 

 
 

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Segunda-feira, 13 de Outubro de 2008

OUTRA VEZ W. B. YEATS

 

 

A beleza dos poemas de Yeats nunca nos cansa a alma. Aqui mais um poema de sensibilidade rara e beleza infinita, com imagens de Barrie Maguire.
 



O Do Not Love Too Long (original)

Sweetheart, do not love too long:
I loved long and long,
And grew to be out of fashion
Like an old song.
All through the years of our youth
Neither could have known
Their own thought from the other's,
We were so much at one.
But O, in a minute she changed -
O do not love too long,
Or you will grow out of fashion
Like an old song.


 
Oh Não Ames Demasiado Tempo (tradução)

Amada, não ames demasiado tempo:
Eu amei tanto, tanto
E fui passando de moda
Como uma velha canção.
Ao longo desses anos da nossa juventude
Não podíamos distinguir
O nosso pensamento do pensamento alheio
Porque tão unidos éramos apenas um.
Mas em breve, breve Instante ela mudou -
Oh, não ames demasiado tempo
Ou irás passando de moda
Como uma velha canção.
 

 

Tradução José Agostinho Baptista
 


 
Veja também:
 
UM POEMA DE WILLIAM BUTLER YEATS
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