Quinta-feira, 27 de Agosto de 2009

A TORTURA NO REGIME MILITAR

 

 

O século XX ficou marcado como o século dos genocídios. A presença de regimes opressivos e totalitários, que se mantiveram através da força bruta, originaram os métodos científicos de tortura, disseminados por todas as nações do planeta. Quem pensa que a tortura é fruto do século que passou engana-se, desde os primórdios da história universal que o homem convive com ela. Dos antigos egípcios aos mesopotâmios, da inquisição medieval aos regimes totalitaristas nazistas, fascistas e stalinistas; a tortura foi uma forma que se desenvolveu para extrair depoimentos de oposicionistas, intimidar a população e consolidar os governos ilegítimos, construídos sem a participação ou o consentimento popular.
No Brasil do século XX, a tortura foi praxe nos dois maiores períodos ditatoriais que o país viveu, na época do Estado Novo (1937-1945) e do regime militar (1964-1985), sendo institucionalizada neste último período, banalizando-se e revelando-se como um método eficaz de garantir um Estado de ilegalidade.
Foi durante a ditadura militar que as maiores atrocidades foram cometidas contra os que se opunham ao regime. Neste período os estudantes, os intelectuais, os engajados políticos, foram as principais vítimas do sistema que contestavam. Em plena Guerra Fria, a elite brasileira posicionou-se do lado dos Estados Unidos e da direita ideológica. Ser comunista passou a ser terrorista. Combatê-los era, segundo a visão do regime, defender a pátria de homens que comiam criancinhas, pregavam o ateísmo e destruíam as igrejas e os conceitos familiares. No engodo de proteger o Brasil da ameaça comunista, instalou-se uma ditadura, que para manter os princípios da caserna ortodoxa, calou, torturou e matou sem o menor constrangimento, centenas de brasileiros.
A tortura durante o período do regime militar não livrou o Brasil dos militantes de esquerda, tão pouco destituiu da mente das pessoas o direito à liberdade de expressão que todos sonhavam. Se na sua propaganda o regime salvou o Brasil de terroristas comunistas, nos seus porões ela garantiu a sobrevivência de 20 anos de um Estado ilegítimo, feito sob a força bruta e o silêncio dos seus cidadãos.

Identificação dos Torturados

Para que se perceba os princípios que regeram a tortura na época do regime militar, é preciso que se perceba também quem eram os torturados, ou os que se enquadravam nesse perfil de sórdida arbitrariedade. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a Europa e o mundo foram divididos pelos aliados vencedores e por suas ideologias. Objetivamente, Estados Unidos e União Soviética formaram duas forças antagônicas que ao encerrarem uma guerra, construíram uma outra, a chamada Guerra Fria.
Antes de entrar no turbilhão da Guerra Fria e posicionar-se em um dos lados, o Brasil encerrou a ditadura do Estado Novo, em 1945. Em 1946 o país promulgou uma nova Constituição, entrando numa nova fase democrática. Graças à nova Constituição, o Partido Comunista do Brasil, que se iria tornar Partido Comunista Brasileiro em 1960, o PCB, existente desde 1922, pôde finalmente ser legalizado. Quando da legalização, o PCB era o quarto partido do país, com dezessete deputados, um senador e a maioria dos vereadores da Câmara do Distrito Federal, na época o Rio de Janeiro.
Em 1947 os princípios da Guerra Fria foram estabelecidos, espalhando-se pelo mundo. Neste ano realiza-se a Conferência Interamericana de Manutenção da Paz e Segurança, em Petrópolis; dela participou o então presidente argentino Juan Perón. Na conferência foi assinado o Tratado de Assistência Recíproca, que permitia a intervenção norte-americana onde quer que a paz e a segurança estivessem ameaçadas. O Brasil entrava para a gestação da Guerra Fria, posicionando-se ao lado dos EUA. Já integrado nos princípios da Guerra Fria, neste 1947, deputados do PTB propuseram a cassação do PCB baseado no texto da Constituição, que vedava qualquer partido que contrariasse em seu programa o regime democrático, e os comunistas, contrários às posições difundidas por Washington, passaram a ser vistos como inimigos do regime vigente. Em outubro o Brasil rompe relações diplomáticas com a União Soviética. O PCB, que obtivera o terceiro lugar do total de votos nas eleições estaduais, tem a legenda cassada numa decisão tomada pela diferença de um voto. No começo de 1948 os deputados, senadores e vereadores eleitos pela legenda tiveram seus mandatos cassados e o PCB entrou definitivamente na clandestinidade. Desde então o partido escondeu-se por trás de outras legendas.
No princípio da Guerra Fria, a doutrina francesa do “inimigo interno” é adotada pelos norte-americanos. O inimigo não era mais uma nação expansionista, como na época da Segunda Guerra Mundial, mas o cidadão invisível, que habitava o seu país, mas era contra o regime nele estabelecido. O inimigo era todo aquele cidadão que se opunha aos princípios da democracia desenhada pelos americanos, da sua visão de mundo livre, posicionando-se favorável ao mundo socialista.
Estabelecido o conceito de “inimigo interno” (no caso os comunistas), a ele juntou-se a doutrina da “segurança nacional”. As Forças Armadas do Brasil e da América Latina, formadas por uma elite histórica e de forte conotação de direita, deixaram-se seduzir por estes conceitos. Dentro da caserna, os princípios que identificavam os “inimigos internos” eram passados hierarquicamente, e esses inimigos ganhavam identidades ideológicas: eram os próprios compatriotas comunistas, os de esquerda e todos aqueles que se opunham ao lado ocidental da Guerra Fria, ou seja, ao regime estabelecido pelos norte-americanos.
Os “inimigos internos” do Brasil, especificamente os comunistas, quando estabelecida a ditadura militar em 1964, paradoxalmente eram considerados traidores dos princípios “democráticos” e tornar-se-iam o principal alvo da tortura, os comunistas seriam os torturados.

Atos Institucionais e Órgãos de Informação Moldam a Ditadura e os Princípios da Tortura

Uma vez estabelecida a ditadura militar no Brasil, em 1 de abril de 1964, era preciso sustentá-la e legitimá-la. Apoiada logisticamente pelos EUA, baseando-se principalmente nos princípios anticomunistas da Guerra Fria, será dentro da Escola Superior de Guerra que se formulará os princípios da doutrina da segurança nacional, tendo como alvo o combate à esquerda, à eliminação dos “inimigos internos”. Para que se estabeleçam tais princípios, atos institucionais e leis repressivas dão legitimidade ao regime, e órgãos de informação são criados para que possam vigiar, identificar e eliminar o inimigo.
Em 9 de abril de 1964 é editado o primeiro Ato Institucional, que passaria para a história como AI-1, que legitimava o governo, estabelecendo 60 dias para que se acabasse o regime de exceção. O AI-1 dava poderes ao regime militar para cassar mandatos, suspendendo os direitos políticos por dez anos. João Goulart, Luiz Carlos Prestes, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e Leonel Brizola são os primeiros cassados. O expurgo atingiu governadores, 50 deputados, 49 juízes, 1200 militares e 1400 civis.
Em 27 de outubro de 1965 foi editado o AI-2, estabelecia-se que as eleições para presidente seriam de forma indireta e sem possibilidades de reeleição; dissolvia os partidos existentes desde 1945, criando o bipartidarismo, formado pela Arena (Aliança Renovadora Nacional), partido de base de apoio ao regime, e o MDB (Movimento Democrático Brasileiro), a oposição consentida. Para garantir a maioria do governo no STF (Supremo Tribunal Federal), o AI-2 aumentava o número de ministros de 11 para 16.
O AI-3 é editado em 5 de fevereiro de 1966, reafirmando o regime militar estabelecido em 1964, definindo as eleições indiretas para os governadores dos estados, com votação nominal nas Assembléias Legislativas estaduais. Estabelecia ainda, que os prefeitos de capitais seriam nomeados pelos governadores. Com este último ato, o governo militar, estabelecido na figura do presidente general Humberto de Alencar Castelo Branco, consolida a ditadura no Brasil.
Legitimada através de atos institucionais, ao mesmo tempo a ditadura criava órgãos para vigiar e manter sob controle o pensamento em todos os setores da população. Sob as perspectivas mencionadas, surgiu, em 13 de junho de 1964, o Serviço Nacional de Informações (SNI), com a finalidade de coordenar por todo o território nacional as atividades de informação e contra-informação, assegurando assim, os conceitos estabelecidos pela doutrina da Segurança Nacional. Criado pelo general Golbery do Couto e Silva, o SNI veio à tona com um acervo de três mil dossiês e cem mil fichas com informações sobre as principais lideranças políticas, sindicais, estudantis e empresariais do Brasil. O SNI espalhou os seus tentáculos por toda a parte, funcionando durante a ditadura como uma polícia secreta comparável às SS de Hitler. Seus agentes infiltrados acompanhavam os considerados subversivos, doutrinavam colaboradores, arrebanhando voluntários por todas as partes, vigiando desde as igrejas aos meios de comunicação.
A partir do SNI, um eficiente mecanismo repressivo foi montado, com métodos eficazes de vigilância e controle sobre o cotidiano dos brasileiros, obedecendo a uma hierarquia. O SNI assessorava diretamente ao presidente do Brasil; os ministérios eram atendidos pelas DSIs (Divisões de Segurança e Informação); sendo os ministérios civis, autarquias, empresas e órgãos públicos atendidos pelas ASIs (Assessorias de Segurança e Informações).

Órgãos de Informação Militares e das Polícias Federais e Civis Exercem a Tortura

Subordinados ao SNI, órgãos de repressão e tortura foram estabelecidos. Dentro das Forças Armadas, as três armas montaram individualmente os seus centros de informação.
No governo de Castelo Branco o Exército quis criar o seu centro de informações, mas com as restrições do presidente, o CIEX (Centro de Informações do Exército) só teve o seu projeto implementado no governo Costa e Silva. O CIEX teria grande alcance nacional, tornando-se um dos principais órgãos de tortura e repressão.
A Marinha tinha o seu órgão de informações, o CENIMAR (Centro de Informações da Marinha), desde 1955, para tratar das questões fronteiriças e da diplomacia. Aos poucos o órgão foi perdendo as suas reais funções, enredando-se cada vez mais na política repressiva, especializando-se em combater a luta armada.
Em 1968 a aeronáutica toma a iniciativa de criar o seu órgão de informações, CISA (Centro de Informações da Aeronáutica), sendo os seus mentores treinados no exterior. Mas a sua montagem só ocorreu já no governo Médici, adotando em 1970, a estrutura de combate e repressão à luta armada, tendo grande atuação na repressão aos guerrilheiros.
Ainda subordinados ao SNI estavam a polícia federal e as polícias estaduais e o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). A partir de 1969, surgiu em São Paulo a Operação Bandeirantes (Oban), organização clandestina, formada por militares, agentes e delegados civis e federais, que torturavam e desapareciam com militantes comunistas. A Oban agia à margem da lei, tornando-se poderosa, financiada por grandes empresas como a General Motors, Ford e Ultragaz. A experiência da Oban serviu para unir todos os órgãos repressivos, desde então passaram a atuar em conjunto os órgãos de informação da polícia federal, polícia militar e DOPS. Em janeiro de 1970 foram criados os DOI (Departamento de Operações e Informações) e os CODI (Centro de Operação e Defesa Interna). O DOI-CODI na prática integrava todos os órgãos repressores e legalizava a Oban.
O DOI-CODI transformar-se-ia numa máquina de repressão e tortura, estendendo os seus tentáculos além das fronteiras do país, infiltrando-se no Chile, Uruguai, Bolívia e Argentina. O DOI-CODI, assim como a antiga Oban, recebia grandes recursos financeiros, sendo dotado de tecnologia, tendo as suas atividades orientadas pela lógica da disciplina militar.
Todos estes órgãos institucionalizaram a tortura, constituindo um grande aparelho repressivo que agiria de forma brutal e sanguinária sobre aqueles que contestavam o regime militar. Agentes especiais eram formados na ESNI (Escola Nacional de Informações), criada em 1971. Os melhores alunos eram enviados para o Panamá, cursando a Escola das Américas, mantida pela CIA, lugar onde formaram grandes ditadores militares, que depois de um golpe, assumiram o poder em vários países da América Latina.
Em dezembro de 1968 Costa e Silva fechou o Congresso, o AI-5 foi decretado, dando plenos poderes ao presidente e, entre outras coisas, abolindo o hábeas corpus aos presos políticos, legalizando a tortura. Nos ventos do AI-5, foi promulgado em 1969 o AI-14, que estabelecia a pena de morte, a prisão perpétua e o banimento do país dos que eram considerados terroristas e atentavam contra a nova Lei de Segurança Nacional.

A Tortura Propriamente Dita

A tortura do regime militar instalou-se no Brasil desde o primeiro dia que foi dado o golpe, em 1 de abril de 1964. A primeira vítima de tortura foi o líder camponês e comunista Gregório Bezerra. No dia do golpe, o coronel Vilocq amarrou Gregório Bezerra com cordas, ordenando que soldados o arrastasse pelas ruas de Recife, humilhando-o com vitupérios verbais, espancando-o com uma vareta de ferro. O coronel incitava o povo para ver o “enforcamento do comunista”. Diante do horror, religiosos telefonaram para o general Justino Alves Bastos, que pressionado, impediu um martírio. Gregório Bezerra levou coronhadas pelo corpo, além de ter os pés queimados com soda cáustica. No dia do golpe, Recife foi um dos lugares que mais sofreu atrocidades dos golpistas, tendo civis agredidos e mortos em passeatas que protestavam a favor da democracia.
Um mês depois do golpe, presos políticos eram conduzidos para o navio Raul Soares, rebocado do Rio de Janeiro até o estuário de Santos, litoral paulista. A prisão flutuante era dividida em três calabouços, batizados com nomes de boates famosas da época: El Moroco, salão metálico, sem ventilação, ao lado da caldeira, ali os prisioneiros eram expostos a uma temperatura que passava dos 50 graus; Night in Day, uma pequena sala onde os presos ficavam com água gelada pelos joelhos; Casablanca, lugar que se despejava as fezes do navio. Os três calabouços eram usados para quebrar a resistência dos presos. Sindicalistas e políticos da Baixada Santista passaram pela prisão flutuante do Raul Soares, que foi desativada no dia 23 de outubro de 1964.
Mesmo diante de tantas evidências, o governo militar jamais admitiu que havia tortura no Brasil, o presidente Castelo Branco chegou a negar publicamente a existência de truculência em seu governo. Mas contrariamente às palavras do presidente, no dia 24 de agosto de 1966, foi encontrado boiando no rio Jacuí, afluente do rio Guaíba, em Porto Alegre, o corpo do sargento Manoel Raimundo Soares, já em estado de putrefação, com as mãos amarradas para trás. O sargento fazia parte dos militares expurgados do exército por causa do seu envolvimento com a militância política no governo João Goulart. O seu corpo trazia marcas de tortura, causando grande comoção e revolta da população na época. Este foi o primeiro caso de tortura e morte que causou grande repercussão, ficando conhecido popularmente como o “caso das mãos atadas”. Os militares prometeram investigar as circunstâncias da morte do sargento e punir culpados, mas arquivaram o caso e jamais tiveram o trabalho de investigá-lo.

Os Métodos de Tortura nos Porões Militares

Quanto mais tempo durava o regime militar, mais pessoas faziam oposição às atrocidades por ele cometidas. Estudantes, padres, intelectuais e vários setores da sociedade passaram a contestar o regime. Aumentava a contestação, a resposta era a intensificação da tortura, conseqüentemente, a sofisticação dos métodos ocasionava um grande número de mortos.
Métodos científicos de tortura foram desenvolvidos. Monstros torturadores escreveriam o seu nome em letras gigantes nas páginas pungentes da história do Brasil. Nomes como o de Sérgio Fleury, uma espécie de Torqueimada da ditadura militar. Fleury levou a tortura para as celas do DOPS de São Paulo, situado na Luz, no prédio que é hoje a Pinacoteca do Estado. Outro lugar de tortura em São Paulo era o DOI-CODI do Paraíso, conhecido como a Casa da Vovó. Os prisioneiros chegavam às mãos de Fleury e dos seus homens já espancados e feridos, sangrando e muitos vezes, já agonizantes. Ali eram pendurados no pau-de-arara, recebendo descargas elétricas. Furadeiras elétricas eram usadas para perfurar corpos, navalhas rasgavam a carne, cigarros queimavam órgãos genitais, mulheres sofriam abusos sexuais. Socos, pontapés, afogamentos, eram complementos às torturas, que ficavam cada vez mais elaboradas.
Os métodos de tortura engendrados recebiam diversos nomes simbólicos, entre eles, os mais comuns registrados e confirmados por aqueles que os sofreu, são:
Pau-de-Arara – O preso era posto nu, abraçando os joelhos e com os pés e as mãos amarradas. Uma barra de ferro era atravessada entre os punhos e os joelhos. Nesta posição a vítima era pendurada entre dois cavaletes, ficando a alguns centímetros do chão. A posição causava dores e atrozes no corpo. O preso ainda sofria choques elétricos, pancadas e queimaduras com cigarro. Este método de tortura já existia na época da escravidão, sendo utilizado em várias fases sombrias da história do Brasil.
Cadeira do Dragão – Os presos eram sentados nus em uma cadeira elétrica, revestida de zinco, ligada a terminais elétricos. Uma vez ligado, o zinco do aparelho transmitia choques a todo o corpo do supliciado. Os torturadores complementavam o mecanismo sinistro enfiando um balde de metal na cabeça da vítima, aplicando-lhe choques mais intensos.
Choques Elétricos – O torturador usava um magneto de telefone, acionado por uma manivela, conforme a velocidade imprimida, a descarga elétrica podia ser de maior ou menor intensidade. Os choques elétricos eram deferidos na cabeça, nos membros superiores e inferiores e nos órgãos genitais, causando queimaduras e convulsões, fazendo muitas vezes, o preso morder a própria língua. As máquinas usadas nesse método de tortura eram chamadas de “maricota” ou “pimentinha”.
Balé no Pedregulho – O preso era posto nu e descalço em local com temperatura abaixo de zero, sob um chuveiro gelado, tendo no piso pedregulhos com pontas agudas, que perfuravam os pés da vítima. A tendência do torturado era pular sobre os pedregulhos, como se dançasse, tentando aliviar a dor. Quando ele “bailava”, os torturadores usavam da palmatória para ferir as partes mais sensíveis do seu corpo.
Telefone – Entre as várias formas de agressões que eram usadas, uma das mais cruéis era o vulgarmente conhecido como “telefone”. Com as duas mãos em posição côncava, o torturador, a um só tempo, aplicava um golpe violento nos ouvidos da vítima. O impacto era tão violento, que rompia os tímpanos do torturado, fazendo-o perder a audição.
Afogamento na Calda da Verdade – A cabeça do torturado era mergulhada em um tambor, balde ou tanque cheio de água, urina, fezes e outros detritos. A nuca do preso era forçada para baixo, até o limite do afogamento na “calda da verdade”. Após o mergulho, a vítima ficava sem tomar banho vários dias, até que o seu cheiro ficasse insuportável. O método consistia em destruir toda a auto-estima do torturado.
Afogamento com Capuz – A cabeça do preso era encapuzada e afundada em córregos ou tambores de águas paradas e apodrecidas. O prisioneiro ao tentar respirar, tinha o capuz molhado a introduzir-se nas suas narinas, levando-o a perder o fôlego, produzindo um terrível mal-estar. Outra forma de afogamento consistia nos torturadores fecharem as narinas do preso, pondo-lhe, ao mesmo tempo, uma mangueira ou um tubo de borracha dentro da boca, obrigando-o a engolir água.
Mamadeira de Subversivo – Era introduzido na boca do preso um gargalo de garrafa, cheia de urina quente, normalmente quando o preso estava pendurado no pau-de-arara. Usando uma estopa, os torturadores comprimiam a boca do preso, obrigando-o a engolir a urina.
Soro da Verdade – Era injetado no preso pentotal sódico, uma droga que produz sonolência e reduz as inibições. Sob os efeitos do “soro da verdade”, o preso contava coisas que sóbrio não falaria. De efeito duvidoso, a droga pode matar.
Massagem – O preso era encapuzado e algemado, o torturador fazia-lhe uma violenta massagem nos nervos mais sensíveis do corpo, deixando-o totalmente paralisado por alguns minutos. Violentas dores levavam o preso ao desespero.
Geladeira – O preso era posto nu em cela pequena e baixa, sendo impedidos de ficar de pé. Os torturadores alternavam o sistema de refrigeração, que ia do frio extremo ao calor exacerbado, enquanto alto-falantes emitiam sons irritantes. A tortura na “geladeira” prolongava-se por vários dias, ficando ali o preso sem água ou comida.
As mulheres, além de sofrer as mesmas torturas, eram estupradas e submetidas a realizar as fantasias sexuais dos torturadores. Poucos relatos apontaram para os estupros em homens, se houveram, muitos por vergonha, esconderam esta terrível verdade.

O Que Fazer aos Corpos dos Mortos Pela Tortura

Para que se desenvolvessem métodos tão sofisticados de tortura, praticados com grandes requintes, era preciso que o governo militar desenvolvesse a propaganda do culpado, cada torturado era culpado, era o temível comunista que assaltava bancos, o terrorista que comia criancinhas, que ameaçava a família, assim, era criado o preconceito contra os torturados, que eram culpados e merecedores de todos os suplícios que se lhe eram impostos em uma sala de tortura.
Os recrutados para exercer a tortura eram indivíduos que recebiam favorecimentos dos seus superiores, gratificações e reconhecimento de heróis, pois ajudavam a livrar o país dos terroristas comunistas. Eram pessoas intimamente agressivas, com desvio de personalidade, que legitimadas em seus atos sem limites, tornavam-se incapazes de ter sentimentos por quem torturava.
Se por um lado a tortura coibia, causava medo e terror em quem se deixara apanhar e, principalmente, em quem ainda estava livre, militando na clandestinidade, por outro lado ela causava um grande problema, como esconder os torturados mortos. O que fazer com os corpos, uma vez que o regime militar negava veementemente a existência da tortura nos seus calabouços?
Para resolver o problema dos torturados mortos, médicos legistas passaram a fornecer laudos falsos, que escondiam as marcas da tortura, justificando a morte da vítima como sendo de causas naturais. Muitos dos mortos pela repressão tinham no laudo médico o suicídio como a causa mais comum, vários foram os “suicidas” da ditadura. Outras causas que ocultavam a tortura nos laudos eram a dissimulação de atropelamentos, acidentes automobilísticos ou que tinham sido mortos em tiroteios com a polícia, jamais eram reveladas as torturas.
Muitos legistas chegavam a apresentar laudos de torturados mortos como se desfrutassem da mais perfeita saúde. Quando não se podia ocultar as evidências da tortura, muitos cadáveres eram enterrados como anônimos, sem que os familiares jamais soubessem o que aconteceu aos corpos dos seus mortos. As valas clandestinas dos mortos da ditadura ocultavam dos familiares a marca das torturas neles praticadas. Entre os médicos legistas que assinaram laudos falsos para encobrir a tortura, tornaram-se notórios Harry Shibata, Isaac Abramovitch e Paulo Augusto Queiroz Rocha.
Mas nem sempre os falsos laudos conseguiram esconder a tortura. Em novembro de 1969, Chael Charles Schreier, militante da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), foi preso, torturado e morto. O seu corpo foi enviado para um hospital, portanto ele já estava morto quando lá deu entrada. No relatório do exército, foi dito que Chael Charles Schreier ao ser preso com dois outros companheiros, reagira violentamente com disparos de revólver. Na troca de tiros, os três terroristas saíram feridos, sendo Chael o que estava em estado mais grave, sendo medicado no hospital, entretanto Chael sofreu um ataque cardíaco, vindo a falecer. O que os militares não sabiam é que Chael era judeu, e que para ser sepultado nas tradições da sua família, era realizado o ritual da lavagem do corpo. Durante o ritual, constatou-se que Chael não tinha morrido por um ataque cardíaco, muito menos por ferimentos de balas, mas sim por tortura. O caso veio à tona, tornando-se matéria da revista “Veja” em dezembro daquele ano, a revista trazia na capa o título “Tortura”. Esta exposição constrangeu profundamente o governo do presidente Médici, apesar da reportagem da “Veja” isentá-lo da culpa da tortura e da morte de Chael, responsabilizando os que cercavam o presidente, sem citar nomes ou culpados.
Outro laudo falso, assinado por Harry Shibata, foi o que dizia que a causa da morte do jornalista Vladimir Herzog, ocorrida nos porões da ditadura, em 1975, tinha sido suicídio. Desmascarada a farsa, o assassínio de Herzog por tortura teve grande repercussão, fazendo com que o então presidente, general Ernesto Geisel, admitisse que havia tortura nos porões da ditadura, iniciando um processo para desmantelar a máquina científica da institucionalização de tão vergonhosa e sanguinária prática. Também o caso da morte do operário Manoel Fiel Filho alcançou repercussão nacional, provando que a ditadura torturava e matava os seus opositores.

Conseqüências da Tortura no Brasil do Regime Militar

A tortura na ditadura militar tornou-se um instrumento fundamental para assegurar, através do medo e da repressão, a ideologia da caserna, amparada pela Guerra Fria e justificada pelos militares como necessária numa época de perigo à segurança nacional, ameaçada por terroristas comunistas.
Durante o período da ditadura militar, o povo brasileiro foi excluído do direito de participar da vida nacional. Através da força bruta, refletida na tortura, criou-se o medo na população, que por algumas décadas inibiu-se até mesmo dos direitos civis e de consumidor, formando um pacifismo involuntário que se tornou uma característica manipulada do brasileiro.
O governo instalado no dia 1 de abril de 1964, manteve-se contrariando todos os princípios que regem os direitos humanos, traduzidos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1948. Estes direitos foram negligenciados pelos Estados Unidos, que para manter a sua ideologia e democracia interna, apoiou e financiou sangrentas ditaduras militares em toda a América Latina, exportando para esses países, seus sofisticados métodos de tortura e combate ao perigo da ideologia soviética.
Na violação dos direitos humanos, americanos ensinavam aos policiais brasileiros a seqüestrarem mendigos, e neles desenvolverem métodos eficazes de tortura, que seriam usados nos inimigos do regime.
No período mais intenso da tortura militar, no início da década de setenta, os brasileiros foram ideologicamente divididos pelo governo em dois grupos: o grupo dos “verdadeiros cidadãos” e o grupo dos “inimigos internos”, tornando o princípio arbitrário a principal arma de propaganda difundida pelo regime.
Oficialmente, os inimigos internos do regime militar no período de intensificação total da tortura, de 1969 a 1974, eram os guerrilheiros e revolucionários de esquerda, vistos como terroristas, e que militavam principalmente, no Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8); Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares); Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), Partido Comunista do Brasil (Pc do B), que promoveu a Guerrilha do Araguaia; Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), liderada por Carlos Lamarca, que se tornou ao lado de Carlos Marighella, os principais inimigos do regime; a Ação Libertadora Nacional (ALN), que de destacou na guerrilha urbana; e, o Partido Comunista Brasileiro (PCB), combalido por sucessivas divisões que deram origem à maioria dos grupos de resistência à ditadura mencionados. Das organizações citadas, cinco a seis mil pessoas participou da luta armada, um número insignificante quando o país chegava a 100 milhões de habitantes, não justificando a máquina mortífera que as polícias brasileiras e as Forças Armadas criaram, sustentadas na aplicação da tortura como método de repressão.
Além dos mortos e desaparecidos (também mortos, mas jamais tendo sido encontrados os seus corpos), a tortura deixou danos indeléveis aos que sobreviveram a ela, levando alguns ao suicídio, como aconteceu ao dominicano Frei Tito de Alencar Lima. Os que sobreviviam à tortura, eram permanentemente ameaçadas e vigiadas pelo regime opressivo. Até hoje, os torturados têm dificuldade na sua maioria, em falar dos horrores que sofreram nos porões da ditadura.
Os que ousaram a contestar a ditadura eram na sua maioria, jovens idealistas, muitos politizados e engajados, outros em processo de politização, que se atiravam aos ideais, dispostos até mesmo a morrer por eles. A maioria dos torturados que morreram eram jovens.
Mas a ditadura não matou somente os opositores engajados, os chamados comunistas, guerrilheiros e revolucionários, vários foram os inocentes apanhados nas malhas da delação, que pereceram sob tortura sem jamais descobrirem porque estavam a ter tão nefasto destino. Aos inocentes a tortura poderia ser mais intensa, já que nada sabiam, nada podiam revelar.
Findo o regime militar, a tortura foi justificada pelos ex-presidentes ditadores como um mal necessário, como arma de defesa diante de uma guerra que se vivia. Nenhum torturador foi preso ou punido por seus atos, todos foram beneficiados pela lei da Anistia, que em 1979 anistiou os presos políticos, os exilados e os torturadores da ditadura militar. A tortura continua a ser a maior página negra da recente história do Brasil.

Mortos e Desaparecidos

O modelo de tortura empregado pelos órgãos de informação da ditadura militar chegou a ser exportado para alguins países asiáticos, onde governos repressivos assumiram o poder. Curiosamente, países que adotaram regimes socialistas, como o Camboja, foram os que "importaram" os métodos da direita brasileira.
Uma lista oficial dos mortos e desaparecidos no período da ditadura militar (1964-1985), foi divulgada pelo Grupo Tortura Nunca Mais. São considerados desaparecidos casos que se tem dados da tortura cometida contra o militante e da sua eventual morte, mas que o seu corpo jamais foi encontrado ou identificado. Entre os casos está o do Stuart Edgard Angel Jones, que apesar das evidências do seu assassínio, é oficialmente um desaparecido, uma vez que não apareceu um cadáver para oficializar a sua morte. Os mortos foram divididos na lista como militantes políticos e outros, é o caso de Zuleika Angel Jones, mãe de Stuart, cuja morte jamais foi esclarecida. Segue a lista dos mortos e desaparecidos da ditadura militar. Esta lista pode ser encontrada no site do Grupo Tortura Nunca Mais, onde a ficha de cada morto ou desaparecido é divulgada, podendo ser pesquisada.

Mortes Oficiais:

1964

Albertino José de Oliveira
Alfeu de Alcântara Monteiro
Ari de Oliveira Mendes Cunha
Astrogildo Pascoal Vianna
Bernardinho Saraiva
Carlos Schirmer
Dilermando Mello do Nascimento
Edu Barreto Leite
Ivan Rocha Aguiar
Jonas José Albuquerque Barros
José de Sousa
Labib Elias Abduch
Manuel Alves de Oliveira

1965

Severino Elias de Melo

1966

José Sabino
Manoel Raimundo Soares

1967

Milton Palmeira de Castro

1968

Clóvis Dias Amorim
David de Souza Meira
Edson Luiz de Lima Souto
Fernando da Silva Lembo
Jorge Aprígio de Paula
José Carlos Guimarães
Luis Paulo Cruz Nunes
Manoel Rodrigues Ferreira
Maria Ângela Ribeiro
Ornalino Cândido da Silva

1969

Antônio Henrique Pereira Neto (Padre)
Carlos Marighella
Carlos Roberto Zanirato
Chael Charles Schreier
Eremias Delizoikov
Fernando Borges de Paula Ferreira
Hamilton Fernando Cunha
João Domingos da Silva
João Lucas Alves
João Roberto Borges de Souza
José Wilson Lessa Sabag
Luiz Fogaça Balboni
Marco Antônio Brás de Carvalho
Nelson José de Almeida
Reinaldo Silveira Pimenta
Roberto Cietto
Sebastião Gomes da Silva
Severino Viana Colon

1970

Abelardo Rausch Alcântara
Alceri Maria Gomes da Silva
Ângelo Cardoso da Silva
Antônio Raymundo Lucena
Ari de Abreu Lima da Rosa
Avelmar Moreira de Barros
Dorival Ferreira
Edson Neves Quaresma
Eduardo Collen Leite
Eraldo Palha Freire
Hélio Zanir Sanchotene Trindade
Joaquim Câmara Ferreira
Joelson Crispim
José Idésio Brianesi
José Roberto Spinger
Juarez Guimarães de Brito
Lucimar Brandão Guimarães
Marco Antônio da Silva Lima
Norberto Nehring
Olavo Hansen
Roberto Macarini
Yoshitame Fujimore

1971

Aderval Alves Coqueiro
Aldo de Sá Brito de Souza Neto
Amaro Luís de Carvalho
Antônio Sérgio de Matos
Carlos Eduardo Pires Fleury
Carlos Lamarca
Devanir José de Carvalho
Dimas Antônio Casemiro
Eduardo Antônio da Fonseca
Flávio de Carvalho Molina
Francisco José de Oliveira
Gerson Theodoro de Oliveira
Iara Iavelberg
Joaquim Alencar de Seixas
José Campos Barreto
José Gomes Teixeira
José Milton Barbosa
José Raimundo da Costa
José Roberto Arantes de Almeida
Luís Eduardo da Rocha Merlino
Luís Hirata
Luiz Antônio Santa Bárbara
Manoel José Mendes Nunes de Abreu
Marilene Vilas-Boas Pinto
Mário de Souza Prata
Maurício Guilherme da Silveira
Nilda Carvalho Cunha
Odijas Carvalho de Souza
Otoniel Campos Barreto
Raimundo Eduardo da Silva
Raimundo Gonçalves Figueiredo
Raimundo Nonato Paz ou “Nicolau 21”
Raul Amaro Nin Ferreira

1972

Alex de Paula Xavier Pereira
Alexander José Ibsen Voeroes
Ana Maria Nacinovic Corrêa
Antônio Benetazzo
Antônio Carlos Nogueira Cabral
Antônio Marcos Pinto de Oliveira
Arno Preis
Aurora Maria Nascimento Furtado
Carlos Nicolau
Danielli Célio Augusto Valente da Fonseca
Fernando Augusto Valente da Fonseca
Frederico Eduardo Mayr
Gastone Lúcia Beltrão
Gelson Reicher
Getúlio D’Oliveira Cabral
Grenaldo de Jesus da Silva
Hélcio Pereira Fortes
Hiroaki Torigoi
Ismael Silva de Jesus
Iuri Xavier Pereira
Jeová de Assis Gomes
João Carlos Cavalcanti Reis
João Mendes Araújo
José Bartolomeu Rodrigues de Souza
José Inocêncio Pereira
José Júlio de Araújo
José Silton Pinheiro
Lauriberto José Reys
Lígia Maria Salgado Nóbrega
Lincoln Cordeiro Oest
Lourdes Maria Wanderly Pontes
Luís Andrade de Sá e Benevides
Marcos Nonato da Fonseca
Maria Regina Lobo Leite Figueiredo
Míriam Lopes Verbena
Ruy Osvaldo Aguiar Pfitzenreuter
Valdir Sales Saboya
Wilton Ferreira

1973

Alexandre Vannucchi Leme
Almir Custódio de Lima
Anatália de Souza Alves de Mello
Antônio Carlos Bicalho Lama
Arnaldo Cardoso Rocha
Emanoel Bezerra dos Santos
Eudaldo Gomes da Silva
Evaldo Luís Ferreira Sousa
Francisco Emanoel Penteado
Francisco Seiko Okama
Gildo Macedo Lacerda
Helber José Gomes Goulart
Henrique Ornelas Ferreira Cintra
Jarbas Pereira Marques
José Carlos Novaes da Mata Machado
José Manoel da Silva
José Mendes de Sá Roriz
Lincoln Bicalho Roque
Luís Guilhardini
Luís José da Cunha Manoel Aleixo da Silva
Manoel Lisboa de Moura
Merival Araújo
Pauline Philipe Reichstul
Ranúsia Alves Rodrigues
Ronaldo Mouth Queiroz
Soledad Barret Viedma
Sônia Maria Lopes Morais

1975

José Ferreira de Almeida
Pedro Gerônimo de Souza
Vladimir Herzog

1976

Ângelo Arroyo
João Baptista Franco Drummond
João Fosco Penito Burnier (Padre)
Manoel Fiel Filho
Pedro Ventura Felipe de Araújo Pomar

1977

José Soares dos Santos

1979

Alberi Vieira dos Santos
Benedito Gonçalves
Guido Leão
Otacílio Martins Gonçalves
Santo Dias da Silva

1980

Lyda Monteiro da Silva
Raimundo Ferreira Lima
Wilson Souza Pinheiro

1983

Margarida Maria Alves

Outras Mortes:

Afonso Henrique Martins Saldanha
Antônio Carlos Silveira Alves
Ari da Rocha Miranda
Catarina Abi-Eçab
Iris Amaral
Ishiro Nagami
João Antônio Abi-Eçab
João Barcellos Martins
José Maximiniano de Andrade Neto
Luiz Affonso Miranda da Costa Rodrigues
Newton Eduardo de Oliveira
Sérgio Correia
Silvano Soares dos Santos
Zuleika Angel Jones

Mortes no Exílio:

Ângelo Pezzuti da Silva
Carmem Jacomini
Djalma Carvalho Maranhão
Gerosina Silva Pereira
Maria Auxiliadora Lara Barcelos
Nilton Rosa da Silva
Therezinha Viana de Assis
Tito de Alencar Lima (Frei)

Desaparecidos no Brasil:

Adriano Fonseca Fernandes Filho
Aluísio Palhano Pedreira Ferreira
Ana Rosa Kucinski Silva
André Grabois
Antônio “Alfaiate”
Antônio Alfredo Campos
Antônio Carlos Monteiro Teixeira
Antônio de Pádua Costa
Antônio dos Três Reis Oliveira
Antônio Guilherme Ribeiro Ribas
Antônio Joaquim Machado
Antônio Teodoro de Castro
Arildo Valadão
Armando Teixeira Frutuoso
Áurea Eliza Pereira Valadão
Aylton Adalberto Mortati
Bergson Gurjão Farias
Caiupy Alves de Castro
Carlos Alberto Soares de Freitas
Celso Gilberto de Oliveira
Cilon da Cunha Brun
Ciro Flávio Salasar Oliveira
Custódio Saraiva Neto
Daniel José de Carvalho
Daniel Ribeiro Callado
David Capistrano da Costa
Dênis Casemiro
Dermeval da Silva Pereira
Dinaelza Soares Santana Coqueiro
Dinalva Oliveira Teixeira
Divino Ferreira de Souza
Durvalino de Souza
Edgard Aquino Duarte
Edmur Péricles Camargo
Eduardo Collier Filho
Elmo Corrêa
Elson Costa
Enrique Ernesto Ruggia
Ezequias Bezerra da Rocha
Félix Escobar Sobrinho
Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira
Francisco Manoel Chaves
Gilberto Olímpio Maria
Guilherme Gomes Lund
Heleni Telles Ferreira Guariba
Helenira Rezende de Souza Nazareth
Hélio Luiz Navarro de Magalhães
Hiram de Lima Pereira
Honestino Monteiro Guimarães
Idalísio Soares Aranha Filho
Ieda Santos Delgado
Ísis Dias de Oliveira
Issami Nakamura Okano
Itair José Veloso
Ivan Mota Dias
Jaime Amorim Miranda
Jaime Petit da Silva
Jana Moroni Barroso
João Alfredo Dias
João Batista Rita
João Carlos Haas Sobrinho
João Gualberto
João Leonardo da Silva Rocha
João Massena Melo
Joaquim Pires Cerveira
Joaquinzão
Joel José de Carvalho
Joel Vasconcelos Santos
Jorge Leal Gonçalves Pereira
Jorge Oscar Adur (padre)
José Humberto Bronca
José Lavechia
José Lima Piauhy Dourado
José Maria Ferreira Araújo
José Maurílio Patrício
José Montenegro de Lima
José Porfírio de Souza
José Roman
José Toledo de Oliveira
Kleber Lemos da Silva
Libero Giancarlo Castiglia
Lourival de Moura Paulino
Lúcia Maria de Sousa
Lúcio Petit da Silva
Luís Almeida Araújo
Luís Eurico Tejera Lisboa
Luís Inácio Maranhão Filho
Luiz Renê Silveira e Silva
Luiz Vieira de Almeida
Luíza Augusta Garlippe
Manuel José Nurchis
Márcio Beck Machado
Marco Antônio Dias Batista
Marcos José de Lima
Maria Augusta Thomaz
Maria Célia Corrêa
Maria Lúcia Petit da Silva
Mariano Joaquim da Silva
Mario Alves de Souza Vieira
Maurício Grabois
Miguel Pereira dos Santos
Nelson de Lima Piauhy Dourado
Nestor Veras
Norberto Armando Habeger
Onofre Pinto
Orlando da Silva Rosa Bonfim Júnior
Orlando Momente Osvaldo Orlando da Costa
Paulo César Botelho Massa
Paulo Costa Ribeiro Bastos
Paulo de Tarso Celestino da Silva
Paulo Mendes Rodrigues
Paulo Roberto Pereira Marques
Paulo Stuart Wright
Pedro Alexandrino de Oliveira Filho
Pedro Carretel
Pedro Inácio de Araújo
Ramires Maranhão do Vale
Rodolfo de Carvalho Troiano
Rosalino Souza
Rubens Beirodt Paiva
Ruy Carlos Vieira Berbert
Ruy Frazão Soares
Sérgio Landulfo Furtado
Stuart Edgar Angel Jones
Suely Yumiko Kamayana
Telma Regina Cordeiro Corrêa
Thomaz Antônio da Silva Meirelles Neto
Tobias Pereira Júnior
Uirassu de Assis Batista
Umberto Albuquerque Câmara Neto
Vandick Reidner Pereira Coqueiro
Virgílio Gomes da Silva
Vitorino Alves Moitinho
Walquíria Afonso Costa
Wálter de Souza Ribeiro
Wálter Ribeiro Novaes
Wilson Silva

Desaparecidos no Exterior:

Argentina

Francisco Tenório Júnior
Jorge Alberto Basso
Luiz Renato do Lago Faria
Maria Regina Marcondes Pinto
Roberto Rascardo Rodrigues
Sidney Fix Marques dos Santos
Walter Kenneth Nelson Fleury

Bolívia

Luiz Renato Pires de Almeida

Chile

Jane Vanini
Luiz Carlos Almeida
Nelson de Souza Kohl
Túlio Roberto Cardoso Quintiliano
Wânio José de Matos
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Quinta-feira, 20 de Agosto de 2009

OS TEMPLÁRIOS

 

 

No decorrer dos séculos, três grandes religiões politeístas, com as mesmas raízes foram formadas, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Apontando Abraão como o pai de todas elas, cada uma, ao seu modo, elegeu a região atual da Palestina e do Estado de Israel, como Terra Santa, obrigatória na peregrinação dos seus fiéis.
Considerada sagrada por três religiões, Jerusalém sempre foi motivo da cobiça de cada uma delas, que reclamavam para si os direitos de administrá-la. A cidade sagrada esteve sob o controle dos judeus até 70 a.D., ano que foram massacrados pelos romanos, sendo levados como escravos, ou iniciando pelo mundo uma grande diáspora. Com a separação do cristianismo do judaísmo e o surgimento do islamismo, a cidade aumentou a sua importância sagrada, sendo palco constante de guerras por sua disputa. As chamadas guerras santas, originaram as cruzadas do século XI, movimento beligerante que tinha como objetivo conquistar e manter Jerusalém sob o domínio cristão. Esta guerra duraria alguns séculos.
Após a conquista de Jerusalém pelos cruzados, a peregrinação dos cristãos tornou-se freqüente na vida do homem medieval. Vindos de longe, os peregrinos eram constantemente assaltados por caravanas de sarracenos. Para proteger os peregrinos na Terra Santa, surgiu em 1119, “Os Pobres Soldados de Jesus Cristo”, que futuramente seriam conhecidos como “Os Cavaleiros do Templo de Salomão” ou simplesmente, “Os Templários”.
Com o tempo os Templários constituiriam a maior ordem religiosa e militar do mundo medieval, ajudando à expulsão dos muçulmanos da Europa, e às cruzadas, dando apoio e logística militar aos cristãos. Destemidos, os Templários alcançaram por dois séculos um apogeu em poder, riquezas e conhecimentos, o que despertou para si a cobiça e inveja de vários monarcas europeus, que passaram a ter menos poder do que os cavaleiros da ordem. Quando Jerusalém caiu novamente nas mãos dos sarracenos, os Templários foram acusados de culpados. Desgastados, passaram a ser alvo de lendas e difamações, sendo acusados de sodomia, bruxaria, heresia e escárnio à adoração da cruz e de Cristo. Perseguidos pelo poderoso rei francês Filipe IV, que os entregou à inquisição, os Templários foram presos, torturados e levados a confessar os mais hediondos crimes, sendo expropriados e queimados na fogueira. Sob pressão do monarca francês, o papa Clemente V declarou a ordem extinta em 1312. Jacques de Molay, o último grão-mestre do Templo, foi executado na fogueira em 1314.
Culpados ou não dos crimes que se lhe foram imputados, os Templários reuniram ao seu redor as mais calorosas lendas, deixaram um patrimônio arquitetônico vastíssimo por onde passaram. Os mistérios da ordem, ainda hoje, suscitam a imaginação de historiadores, escritores e leigos.

O Monte do Templo

Jerusalém, a cidade sagrada do cristianismo, do islamismo e do judaísmo, foi palco de grandes conquistas ao longo dos tempos. Foi nesta cidade que, em um afloramento de rocha no monte Moriá, local indicado por Deus, Abraão levara o filho Isaac para sacrificá-lo em holocausto ao criador. Impedido por um anjo de Deus, Abraão consolidou a sua aliança com o criador, seria pai de muitas nações e religiões.
Na virada do primeiro milênio antes de Cristo, David, rei dos judeus, descendente de Abraão, conquistou Jerusalém aos jebuseus. No local próximo às imediações do afloramento da rocha onde Abraão teria feito os preparativos para o sacrifício do seu filho Isaac, no monte Moab, existia uma eira de propriedade do jebuseu Onã. Por ordem de Deus, o rei David comprou-a para que ali se erguesse um templo para abrigar a Arca da Aliança. Um grande Templo seria erguido no local pelo rei Salomão, filho de David, em 950 a.C.
Conhecido como o Templo de Salomão, este foi destruído em 586 a.C., pelos caldeus, que sob o comando Nabucodonosor, invadiram Jerusalém, fazendo os judeus escravos, levando-os para a Babilônia. A Arca da Aliança desapareceria para sempre. Os filhos de Abraão só voltariam à Palestina quando os persas conquistaram e subjugaram os caldeus, tendo a permissão do rei Ciro para voltarem e reconstruírem um novo Templo, em 516 a.C. O segundo Templo foi aumentando por Herodes, alcançado o seu apogeu arquitetônico. Foi deste Templo que Jesus Cristo expulsou os infiéis, tornando-o assim, sagrado para os cristãos. Em 70 d.C., o segundo Templo seria totalmente destruído pelos romanos, como propósito de esmagar uma grande rebelião dos judeus, que a partir de então, deixaram a Palestina, iniciando uma grande diáspora pelo mundo antigo. No monte do Templo, no ano de 135, foram erguidos santuários a Zeus e ao imperador romano Adriano. Com a conversão de Roma ao cristianismo, no século IV, os templos pagãos foram abandonados ou destruídos. Bizâncio, cidade estratégica entre a Europa e o Mar Negro, foi rebatizada com o nome de Constantinopla, tornando-se a capital do império romano do oriente. Jerusalém e o restante da Palestina ficariam sob a jurisdição da cristã Constantinopla.
Com o surgimento do islamismo, no século VII, Jerusalém passaria a ser considerada cidade santa do islã. Maomé, o profeta fundador do islamismo, era descendente de Ismael, filho de Abraão e da escrava Hagar. Em 620, o profeta teve uma visão, na qual cavalgava um corcel celestial, ao lado do anjo Gabriel, até o monte do Templo, em Jerusalém, para reunir-se a Abraão, Moisés e Jesus, ascendendo ao trono de Deus, passando pelos sete céus. Quando Maomé morreu na Arábia, em 632, os seus seguidores viram na visão do profeta a sua transfiguração aos céus, fazendo assim, a cidade de Jerusalém sagrada ao islamismo.
O cristianismo consolidou-se por todos os reinos da Europa, só vindo a ser ameaçado pela expansão do islamismo, que chegou à península Ibérica, dominando-a por séculos. Aos poucos a língua árabe, assim como a sua cultura e religião, foram disseminadas por todas as terras conquistadas, substituindo o grego e aramaico na Palestina e na Síria. Quando o califa Omar entrou em Jerusalém, foi orar no monte do Templo, que desde a sua destruição, tornara-se um lugar de depósito de lixo dos bizantinos. Omar considerava o local da rocha sagrado, por ser o “Templo da viagem noturna do profeta”, construindo ali uma mesquita, al-Aqsa, transformando Jerusalém, ao lado de Meca e Medina, em uma das três cidades sagradas do islã. Cinqüenta anos depois, o califa omíada Abd al-Malik, construiu uma segunda mesquita sobre a rocha na qual Abraão sacrificaria o filho, e da qual Maomé havia ascendido o céu. Com a sua cúpula dourada, foi a primeira grande mesquita construída, sendo de uma beleza arquitetônica que chegou imponente aos dias atuais. No monte estava erguido um novo Templo, desta vez com a marca do islamismo.

As Cruzadas

Vários grupos de mercenários foram convertidos ao islamismo, o que facilitava a sua expansão pelo mundo antigo. No século XI, os turcos seljúcidas conseguem unificar uma parte dos territórios convertidos pelos mercenários. Na sua expansão, os seljúcidas tornam-se a maior ameaça ao império Bizantino. Em 1071 eles derrotam os exércitos bizantinos em Manzikert, conquistando o leste e o centro da Anatólia. Em 1078, os seljúcidas tomam Jerusalém.
Enfraquecido, o império Bizantino pede ajuda ao ocidente. Diante da ameaça de uma expansão islâmica, de uma possível repressão turca aos peregrinos cristãos à Terra Santa, o ocidente decide ajudar os irmãos bizantinos. Em 1095, o papa Urbano II convoca o concílio de Clermont, no qual exorta todos os reis cristãos e toda a população a libertar a Terra Santa dos “infiéis” sarracenos, devolvendo Jerusalém à soberania cristã. A multidão presente ao concílio fica eufórica, aceitando de imediato o desafio de libertar Jerusalém.
A primeira caravana partiria em 1097. Contando com o apoio de toda a população cristã, homens que levavam como símbolo uma cruz vermelha sobre as suas roupas, seguiram rumo ao oriente, com o objetivo de libertar a Terra Santa. As cruzes vermelhas nas roupas e nas bandeiras fizeram com que esses exércitos ficassem conhecidos como “cruzados”. Assim, as cruzadas foram iniciadas, tornando-se um movimento que atraía jovens em busca não só da santidade dos lugares sagrados, mas também de fortunas diante das pilhagens que se sucediam pelo caminho.
Após uma longa viagem e intensas batalhas, em 7 de junho de 1099 o exército cruzado levantou acampamento diante dos muros de Jerusalém. Na noite de 13 de julho teve início o assalto à cidade. Após alguns dias de batalha, o cruzado Tancredo e os seus cavaleiros normandos, lutaram com os muçulmanos, abrindo caminho até o monte do Templo, tomando a Cúpula da Rocha, pilhando os seus tesouros. Derrotado, o governador muçulmano Iftikhar e a sua guarda pessoal, entregou a cidade a Raimundo de Toulouse, em troca do tesouro da cidade e de um salvo-conduto que lhe permitisse sair com o seu séquito de Jerusalém. Feitas as negociações, os muçulmanos que restaram, refugiados na mesquita de al-Aqsa, foram todos mortos. Os judeus refugiados na sinagoga foram queimados dentro dela, incendiada pelos cruzados. Graças aos cruzados, Jerusalém estava novamente sob o comando dos cristãos.

Surge a Ordem do Templo

O conde Hugo de Champagne governava de Troyes, um rico e próspero principado em terras francesas. Em 1104 foi com um séquito de cavaleiros à Terra Santa, entre eles estava Hugo de Payns. Natural de Payns, era administrador na casa do conde. Quando Hugo de Champagne voltou à Europa, Hugo de Payns continuou em Jerusalém.
Mesmo estando sob o comando dos cristãos, Jerusalém era cercada por mercenários muçulmanos que atacavam os peregrinos pelas estradas, roubando-os e causando-lhes suplícios físicos. Diante do problema, Hugo de Payns e o cavaleiro Godofredo de Saint-Omer propuseram ao rei Balduíno II a criação de uma organização de cavaleiros que seguiriam a regra de uma ordem religiosa, e que se devotariam a proteger os peregrinos. A regra religiosa que seguiriam seria a de Agostinho de Hipona, adotada pelos cônegos da Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém.
Balduíno II e o patriarca de Jerusalém, Warmund de Picquigny, aprovaram a proposta. No dia de natal de 1119, Hugo de Payns e outros oito cavaleiros, entre eles Godofredo de Saint-Omer, Payen de Montdidier, Geoffroy Bissot, Archambaud de Saint-Aignan e Rossal (ou Rolando), fizeram votos de pobreza, castidade e obediência perante o patriarca na Igreja do Santo Sepulcro. Os cavaleiros chamaram a si mesmos de “Os Pobres Soldados de Jesus Cristo”, não ostentando a princípio um hábito, usando simplesmente as suas roupas seculares. Balduíno II e Warmund de Picquigny proporcionaram aos cavaleiros benefícios que lhes possibilitavam uma boa renda. O rei deu-lhes para viver a mesquita de al-Aqsa, que a esta altura, tinha sido transformada em um palácio, situado no lado sul do monte do Templo, local que os cruzados chamavam Templum Salomonis (Templo de Salomão). Por habitarem neste sítio, vieram a ser conhecidos sucessivamente como “Os Pobres Soldados de Jesus Cristo e do Templo de Salomão”, “Os Cavaleiros do Templo de Salomão”, “Os Cavaleiros do Templo”, os “Os Templários” ou ainda, “O Templo”.
Em janeiro de 1129, Hugo de Payns compareceu ao concílio da igreja reunindo em Troyes, na França, para assegurar a aprovação da nova ordem pela igreja. Aprovado no concílio, a ordem foi confirmada pelo papa Honório II. A ela foi concedido o hábito branco com uma cruz vermelha no peito. Como símbolo, foi adotado um cavalo montado por dois cavaleiros, numa clara alusão à pobreza. O Salmo de David, “Non nobis, Domine, non nobis, sed Nomini Tuo da Gloriam” (“Não para nós, Senhor, não para nós, mas para Glória de Teu Nome”), passou a ser o lema dos Templários.
Com o passar do tempo, fundiram-se as habilidades militares com a vocação religiosa. Os Templários mediante a grandes doações, passaram a sustentar-se por uma grande fortuna e um amplo poder sobre o mundo cristão. A estrutura da ordem foi organizada por uma hierarquia que abrigava de sacerdotes a soldados. Nobres deixavam a vida secular para integrarem a ordem, transferindo para ela as suas fortunas.

O Declínio dos Templários

Por quase dois séculos, os Templários transformaram-se na maior organização militar-religiosa do mundo cristão. Com amplos treinamentos bélicos, os cavaleiros combatiam os sarracenos não só na Terra Santa, como também nos reinos europeus ocupados, como os ibéricos, ajudando os cristãos a tomarem a península aos mouros. Como recompensa, os reis davam-lhes fortalezas, privilégios e poderes ilimitados, além de grandes doações financeiras. A presença dos Templários podia ser vista por toda parte, administravam povoados, construíam castelos, igrejas, catedrais. Além dos combates seculares contra os inimigos mouros, ajudavam na fiscalização dos cumprimentos das leis, adquiriam grande influência sobre reis e nobres que conduziam a política dos reinos cristãos. Paralelamente, desenvolviam estudos secretos de astronomia, matemática e medicina, mantendo suas reuniões em absoluto segredo. Com o tempo, os poderes dos Templários superaram os da igreja e dos monarcas.
As sucessivas derrotas sofridas pelos cruzados no século XIII, culminando com a volta de Jerusalém ao domínio muçulmano, enfraqueceu o prestígio da ordem. O desgaste com os reveses das guerras, o imenso poder da ordem, a sua fortuna, os princípios trancados secretamente, tudo suscitou um isolamento, despertando sobre os Templários a ira de alguns monarcas, e a vontade desses recuperarem o poder diante da igreja e do mundo cristão.

Torturados e Queimados nas Fogueiras

Felipe IV, o Belo, rei da França, devia terras e imensas somas de dinheiro aos Templários. Em 1305, o ambicioso rei pensou que com a ascensão do francês Beltrão de Got ao papado, com o nome de Clemente V, a quem apoiara, teria um papa submisso a suas ordens.
Filipe IV tinha em mente levar o poder e glória da França além do mediterrâneo, organizando uma cruzada sob as suas ordens que recuperasse de vez a Terra Santa. Mas para isto, teria que limitar o poder das ordens religiosas militares. Para isto, convenceu Clemente V a fazer a fusão das ordens do Templo e do Hospital, sendo ele o comandante da nova ordem resultante da fusão. O grão-mestre do Templo, Jacques de Molay, opôs-se à fusão, recusa que resultou no seu fim e no fim da própria ordem.
Diante da recusa do grão-mestre, o rei francês iniciou um processo de difamação dos Templários, fazendo espalhar por todas as terras cristãs as mais infames acusações contra os templários. Panfletos anônimos eram impressos e espalhados, eles traziam ataques aos Templários e ao próprio papa, que os defendia. Entre as difamações disseminadas, estavam as acusações de que a ordem entregara-se à adoração do diabo; aos iniciados seria dito que Jesus Cristo era um falso profeta, crucificado para punir os próprios pecados, não para redimir o mundo; aos iniciados era ordenado que negasse Cristo, escarrasse, pisasse e urinasse em uma cruz; o postulante era obrigado a beijar o templário que o recebera na boca, no umbigo, nas ancas, na base da espinha dorsal e no pênis; teriam que ter relações sexuais entre si, sendo espancado caso recusasse; em cerimônias secretas, eles veneravam um demônio chamado Baphomet.
As acusações horrorizaram ao povo e mesmo ao clero. Quando Jacques de Molay chegou a Paris, no dia 12 de outubro de 1307, foi preso no dia seguinte, sexta-feira 13, a mando de Filipe IV. Três semanas antes, o rei tinha enviado ordens secretas a seus súditos, ordenando a prisão de todos os membros do Templo em seus reinos. Quinze mil cavaleiros foram presos em toda a França em um único dia, sendo entregues à inquisição, submetidos a torturas. Sofrendo com as mais torpes torturas, em janeiro de 1308, 134 dos 138 Templários presos em Paris tinham admitido algumas ou todas as acusações feitas contra eles, entre os confessos, estava o próprio Jacques de Molay.
Mas os Templários estavam diretamente sob o julgo do papa, não podendo ser entregues à inquisição ou às ordens de um rei, sem que fosse autorizado pelo sumo sacerdote. Assim, Clemente V tirou os Templários das mãos da inquisição. Ao se ver livre das torturas, Jacques de Molay e muitos outros, revogaram a confissão diante do papa.
Mas o estrago na ordem e na sua idoneidade diante dos cristãos já tinha sido feito de forma indelével. Pressionado, Clemente V, em acordo com Filipe IV, decidiu em novembro de 1309, reunir uma comissão para ouvir novamente os acusados Templários. Em 1310, a decisão de dissolver a ordem já estava selada, um concílio para este fim foi convocado para outubro, mas teve que ser adiado por um ano, porque a comissão não havia apresentado um relatório. Nos reinos fora da França, havia uma certa resistência ao fim da ordem. Para justificar este fim, em março de 1311, Clemente V ordenou ao arcebispo de Tarragona e ao bispo de Valência que usassem a tortura para extrair confissões dos Templários. Em 16 de outubro de 1311, após um ano de atraso, um concílio da igreja reuniu-se em Vienne, cidade junto ao Ródano. No dia 3 de abril de 1314, Clemente V leu a bula Vox in excelso, que abolia a Ordem do Templo. A sua extinção propagou-se por toda a Europa, os seus bens e fortuna foram diluídas em outras ordens. No dia 18 de março de 1314, Jacques de Molay, o último grão-mestre dos Templários, então um velho com mais de setenta anos, em julgamento, pronunciou-se inocente, e inocentando também a ordem, mesmo sabendo que ao agir assim, terminaria na fogueira. Ao lado de Geoffroy de Charney, foi conduzido no fim da tarde a Île-des-Javiaux, uma pequena ilha no rio Sena, sendo ambos amarrados a um poste e queimados. De noite, frades do mosteiro agostiniano situado à beira do Sena, recolheram os ossos carbonizados dos dois templários como se fossem relíquias de santos.
Mais tarde foi dito que antes de morrer, Jacques de Molay lançou um último desejo a Clemente V e a Filipe IV, convocou-os a comparecer diante do tribunal de Deus antes que o ano terminasse. Clemente V morreu pouco mais de um mês, no dia 20 de abril. Filipe IV, seguiu-o para o túmulo no dia 29 de novembro do mesmo ano, depois de um acidente durante uma caçada. Estava cumprida a maldição de Jacques de Molay, o último dos Templários.

Grão-Mestres da Ordem do Templo

1119-1136 – Hugo de Payns
1137-1149 – Roberto de Craon
1149-1152 – Everardo de Barres
1152-1153 – Bernardo de Trémélay
1153-1156 – André de Montbard
1156-1169 – Bertrand de Blanquefort
1169-1171 – Filipe de Nablus
1171-1179 – Odon de Saint-Amand
1180-1184 – Arnoldo de Torroja
1185-1189 – Gérard de Ridefort
1191-1193 – Roberto de Sablé
1194-1200 – Gilberto Erail
1201-1209 – Filipe de Plessiez
1210-1219 – Guilherme de Chartres
1219-1232 – Pedro de Montaigu
1232-1244 – Armando de Périgord
1244-1247 – Ricardo de Bures
1247-1250 – Guilherme de Sonnac
1250-1256 – Reinaldo de Vichiers
1256-1273 – Tomás Bérard
1273-1291 – Guilherme de Beaujeu
1291-1293 – Teobaldo Gaudin
1293-1314 – Jacques de Molay (gravura)
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Terça-feira, 18 de Agosto de 2009

REVOLUÇÃO CUBANA - OS BARBUDOS DA SIERRA MAESTRA

 

 

Em janeiro de 1959, guerrilheiros liderados por Fidel Castro, desciam da Sierra Maestra, entravam em Havana e derrubavam a corroída ditadura de Fulgencio Batista, fazendo não só uma revolução, mas mudando para sempre a história da América Latina, ignorando a geografia, dando um novo rumo à Guerra Fria.
Mais do que mudar o curso da história de um país pobre e corrompido por sucessivos governos corruptos, a Revolução Cubana rompeu com as elites latifundiárias que sempre dominaram os países latino-americanos, desafiou a hegemonia dos Estados Unidos, em pleno auge da Guerra Fria, formando um país de governo socialista a escassos 150 quilômetros da península da Flórida. A saga de Fidel Castro, Che Guevara e dos guerrilheiros da Sierra Maestra, percorreu o mundo, transformando Cuba no sonho de modelo social com que o povo do Terceiro Mundo se identificava. A imagem mítica de Fidel Castro e Che Guevara como heróis que venceram os opressores, libertando os oprimidos, alimentou os sonhos de muitos dos jovens idealistas dos anos sessenta, alguns deles protagonistas do Maio de 1968 em Paris.
Cinqüenta anos depois, Cuba, moeda de troca entre a extinta União Soviética e os Estados Unidos, é um país devastado pelos embargos sofridos por décadas, pobre e às margens das lembranças da revolução. Com o fim da Guerra Fria, a queda do muro de Berlim, o desmembramento da URSS, o país foi deixado à deriva, isolado em um regime que se extinguiu no mundo.
Fidel Castro manter-se- ia no poder até agosto de 2006, quando uma doença intestinal o afastou provisoriamente, sendo substituído definitivamente em 24 de fevereiro de 2008, pelo irmão Raúl Castro. Quando entrou em Havana, a 8 de janeiro de 1959, mudando parte da história do século XX, Fidel Castro trajava um uniforme verde-azeitona e um boné de guerrilheiro que jamais deixou de usar. Muitos anos no poder e a constante mudança dos ventos históricos, foram aos poucos, tirando a imagem jovial e tenaz do guerrilheiro vencedor, a fumar o seu charuto, sendo substituída pelo semblante do homem envelhecido, visto como o último caudilho da América Latina. Assim como Fidel Castro, a revolução envelheceu, desgastou-se e foi aos poucos, esquecida com as ideologias mortas pela história.

Surge Um Novo Líder Cubano Contra a Ditadura de Fulgencio

Em 1952, um golpe militar em Cuba frustrou todas as esperanças das eleições previstas para aquele ano. Em 10 de março, Fulgencio Batista, à frente do golpe militar, subiria ao poder, construindo um governo corrupto, repressivo e sem qualquer compromisso com os setores populares, favorecendo aos interesses estadunidenses na ilha.
Diante da inércia dos partidos políticos em enfrentar o regime opressivo, eclodiriam movimentos de jovens que se opunham ao ditador. Das fileiras desses movimentos, surgiu um novo líder, Fidel Alejandro Castro Ruz, jovem advogado que desde a época de estudante na universidade de Havana, militava politicamente. Fidel Castro instigou o direito do povo à rebelião contra os tiranos do poder, preconizando a estratégia da luta armada contra a ditadura.
O novo líder preparou a luta armada e, em 26 de julho de 1953, foi proclamada uma insurreição popular, com ataques em simultâneo aos quartéis de Moncada, em Santiago de Cuba e de Carlos Manuel de Céspedes, em Bayamo. A operação resultou em um grande fracasso, com dezenas de combatentes presos, muitos assassinados. Fidel Castro foi preso, julgado e condenado. No julgamento, o jovem revolucionário pronunciou uma frase em sua defesa, que se converteria no programa da revolução: “A história me absolverá”.

Os Meandros de Uma Revolução

Exilado no México, Fidel Castro fundou, em 1954, o MR-26 (Movimento Revolucionário 26 de Julho), uma homenagem à data do frustrado ataque ao quartel de Moncada. O movimento propagava a revolta armada contra a repressão do governo cubano.
Em 1955 Cuba foi assolada por grandes movimentos de massas, o que obrigou o governo do ditador Fulgencio Batista a endurecer e a negar a anistia aos presos políticos, entre eles os combatentes de Moncada.
Em 2 de dezembro de 1956, Fidel Castro voltou a Cuba, desembarcando na província do Oriente. Já em terra, conquistaria ao lado de muitos combatentes, o território da Sierra Maestra, concentrando nas montanhas o núcleo inicial do exército rebelde, que rapidamente, aumentaria significativamente.
Em julho de 1957, Frank País foi assassinado, e uma greve em protesto à sua morte, paralisou quase todo o país. O governo cubano terminaria o ano com o fracasso do exército em sua ofensiva contra os guerrilheiros de Sierra Maestra, que a esta altura, já tinha formado duas novas colunas guerrilheiras, comandadas por Raúl Castro, irmão de Fidel, e Juan Almeida.
Em 1958, Fulgencio Batista decidiu exterminar de vez a insurreição dos guerrilheiros, lançando no verão dez mil homens em ofensiva sobre Sierra Maestra. Travaram-se combates ferozes e batalhas sangrentas, que resultaram na vitória dos guerrilheiros contra os homens do governo, que acossados, retiraram-se derrotados.
Outras colunas partiram de diversos pontos do país, entre elas as comandadas por Ernesto Che Guevara e Camilo Cienfuegos. Fidel Castro firmava-se como líder por toda a ilha, inclusive diante dos partidos da oposição. Aos poucos, os guerrilheiros conquistaram e tomaram vários povoados e pontos estratégicos.
No dia 1 de janeiro de 1959, Fulgencio Batista abandonava Cuba. Em uma última manobra, a embaixada norte-americana apoiava o general Eulogio Cantillo, que tentou criar uma junta civil e militar para assumir o poder. Fidel Castro pediu à guarnição de Santiago de Cuba que se rendesse, e ao povo que fizesse uma greve geral. A 8 de janeiro os guerrilheiros barbudos entravam em Havana. A Revolução Cubana estava consolidada.

Os Princípios da Revolução Cubana

Aos 32 anos, Fidel Castro entrava em Havana com o seu exército de barbudos, discursando ao país, sendo transmitido pela televisão. O povo cubano assistia deslumbrado àquele homem que sequer tivera tempo de despir o uniforme militar que usou durante os anos da guerrilha. Dono de uma oratória magnífica, o líder passou a ser chamado pelo povo apenas pelo nome de Fidel, sendo transformado em um Robin Hood, um José Martí, transfigurando-se em um herói revolucionário não só dentro de Cuba, mas internacionalmente. Enquanto discursava, uma pomba branca pousou-lhe no ombro.
O eco da vitória da revolução cubana espalhou-se rapidamente pelo mundo, sendo responsável pelo surgimento de movimentos de guerrilha na América Latina, e em alguns países da Ásia e da África. A vitória de um povo sobre a ditadura de Fulgencio Batista justificava a luta armada, a guerrilha, lema que alentou vários povos do mundo que sofriam com ditaduras seculares.
Diante da vitória, Fidel Castro trazia em sua oratória o compromisso da obrigação do novo regime de empreender uma obra social que trouxesse a saúde para todos, a alfabetização, a educação, a distribuição de terras e de casas gratuitas. O não cumprimento dessas obrigações resultaria na perda da legitimidade revolucionária.
Na consolidação da revolução, os guerrilheiros usaram as armas, mas davam mostras de humanidade.

Distanciamento dos EUA, Aproximação com a URSS

A princípio, o novo governo de Cuba furtou-se em abraçar qualquer lado dos dois blocos da Guerra Fria. Washington, apesar de reconhecer o governo castrista, tramava silenciosamente sabotagens a ele, financiando e preparando exilados cubanos para uma ação armada contra Fidel Castro. Uma dessas ações resultou numa força invasora de 2500 exilados cubanos, que desembarcam na baía dos Porcos (praia Girón para os cubanos), entre 17 e 19 de abril de 1961, com a proposta de acabar com a revolução. Fidel Castro esmagou a ação, abatendo oito aviões B-56, afundando dois barcos; a retirada dos invasores terminaria com o saldo de 1189 presos e apenas 14 assaltantes voltando para os EUA.
Logo Fidel Castro percebe que a revolução só iria sobreviver se pendesse para o lado soviético. Em 26 de outubro de 1959, o líder cubano pronuncia, pela primeira vez, um discurso hostil aos americanos. Ainda neste ano, os castristas pedem secretamente armas a Moscou, recebendo-as via Tchecoslováquia e Polônia.
As relações entre Havana e Washington continuam a degradar-se visivelmente em 1960, ano que são confiscadas terras de cidadãos estadunidenses em Cuba (hotéis, bancos, telefones, petróleo), em nome da soberania nacional. A cada retrocesso nas relações com os norte-americanos, o regime cubano aproximava-se dos soviéticos. Em fevereiro, a visita do vice primeiro ministro soviético Anastas Mikoyan a Havana, tornou pública a aproximação dos dois países. Em 8 de novembro daquele ano, pela primeira vez, Fidel Castro proclamava-se marxista, mas sem aceitar as diretrizes ideológicas e doutrinárias de Moscou.
Com a deterioração completa das relações entre Cuba e os Estados Unidos, o governo castrista temia que os norte-americanos tentassem erradicar a revolução, que a esta altura, a União Soviética já se sentia obrigada a defender. Para não correr riscos de retaliações vindas de Washington, Moscou toma a decisão de instalar em solo cubano mísseis soviéticos com ogivas nucleares. Descobertos pela CIA, este episódio tornar-se-ia o mais tenso e famoso da época da Guerra Fria, quando o mundo esteve à beira de uma catástrofe. O presidente John Kennedy, após ameaçar invadir Cuba, iniciando uma guerra nuclear, consegue que os soviéticos retirem os mísseis apontados para o seu país. Khrustchov justificaria em carta a Kennedy:
Se você garantisse que os Estados Unidos não vão invadir Cuba, nem apoiar nenhuma força que possa ter a mesma pretensão, deixaria de existir qualquer motivo que justificasse a presença dos nossos peritos militares em Cuba.”
O presidente norte-americano aceitava a proposta sem que ninguém desse conhecimento dela a Fidel Castro. No furacão da Guerra Fria, Cuba era motivo dos jogos de poder entre as duas potências. Era a única representante no meio das Américas, de um sistema definido por Moscou, portanto, era preciso que os países da cortina de ferro a defendesse.

Cuba Treina Guerrilheiros

Mesmo diante da influência de Moscou, Fidel Castro aceita a sua ajuda econômica e a sua proteção, mas nega que segue a sua diretriz. Em 1963, Cuba cria um sistema de preparo e apoio às guerrilhas de toda a América Latina.
Em 1967, esta via castrista para a revolução é proclamada em uma conferência de solidariedade latino-americana, realizada no verão, em Havana. Na conferência o líder cubano afirma: “O dever de todo o revolucionário é fazer a revolução”.
Espalhados pelas selvas da Bolívia, vários guerrilheiros treinados em Cuba seriam mortos em combate, logo a seguir à conferência. Em outubro, Che Guevara, o único guerrilheiro cujo carisma rivalizava com o de Fidel Castro, seria morto nas selvas bolivianas, pondo fim simbolicamente, ao sonho da revolução pelas armas na América Latina, pretendida pelos barbudos guerrilheiros.
Nos anos setenta, Fidel Castro volta o seu apoio às guerrilhas na África, especificamente em Angola, para onde envia vários guerrilheiros do seu exército. Será em Cuba que os líderes brasileiros da esquerda, perseguidos pela ditadura militar, refugiar-se-ão, tendo por lá treinamento militar e prática de guerrilhas, obtendo após esses preparos, apoio logístico e econômico para retornarem clandestinamente ao Brasil. Este apoio estender-se-ia ao longo da década de setenta, até a abertura política e à promulgação da lei da anistia.

A Revolução Cubana no Século XXI

Isolada pelos embargos econômicos promovidos pelos Estados Unidos, Cuba sobrevivia graças ao apoio soviético. A ilha do Caribe servia de paraíso turístico para os países do bloco soviético, sendo muito procurada por eles.
Nos primeiros vinte anos da revolução, o castrismo erradicara da ilha o analfabetismo, a prostituição, a miséria e a desigualdade social. Cuba transformara-se num sonho e exemplo para os países do Terceiro Mundo.
Com o a queda do muro de Berlim em 1989, a Guerra Fria começou a agonizar, sendo a sua morte uma realidade iminente. Desfez-se o bloco soviético, desmoronou-se a própria União Soviética. Sem a proteção econômica de Moscou, isolada do mundo pelo embargo americano, a fartura esvaiu-se da ilha de Fidel Castro. Os ventos da miséria, da desigualdade social, a mão pesada do castrismo para combater os seus opositores, tudo isto tirou a legitimidade da revolução cubana diante da história e da comunidade internacional. Em 1993, no apogeu da crise econômica cubana, Fidel Castro foi obrigado a legalizar o dólar, moeda do seu maior inimigo, proporcionando a primeira reforma econômica que contradisse todos os princípios da revolução.
Cinco décadas no governo de um país desfaz qualquer utopia, porque meio século é muito tempo diante da história. Che Guevara, um dos líderes da revolução cubana, morreu em combate, jovem e no fulgor dos sonhos dos seus ideais, tornando-se um ícone para o mundo, ironicamente um mito dentro dos símbolos capitalistas que tanto repudiou. A Fidel Castro restou a passagem dos anos, o envelhecimento, a luta para manter viva a revolução, ou o seu espírito revolucionário. Ironicamente o castrismo ficou sozinho num despovoado campo socialista. A imagem do herói cubano jovem deu passagem ao velho combalido pela doença e pela história. A revolução cubana, hoje, ultrapassada pelos tempos, foi sem dúvida um marco que mudou a história da Guerra Fria.
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Domingo, 16 de Agosto de 2009

WOODSTOCK - QUATRO DÉCADAS DE UM FESTIVAL

 

 
No verão do hemisfério norte de 1969, os mais representativos cantores e músicos da juventude da época, subiram ao palco improvisado de uma fazenda próxima ao vilarejo de Woodstock, na cidade rural de Bethel, próxima a Nova York. O evento, feito para gerar divisas para os organizadores, recebeu mais de 500 mil pessoas, que quebraram as cercas isolantes da fazenda e dos costumes, fazendo do festival a imagem de uma geração mergulhada na contracultura e na essência do seu tempo. Mais do que um festival de música popular, Woodstock foi um grito aos costumes, às guerras e a um sistema velho e pernicioso que oprimia e matava em nome da ideologia limitada da Guerra Fria.
Em 1969, a disputa entre os Estados Unidos e a União Soviética pela hegemonia ideológica do planeta levou o homem a pisar na lua. A internet foi inventada para garantir a espionagem no mundo. Uma carnificina humana era travada nos campos do Vietnã. A pílula, símbolo da liberdade corporal da mulher e da sua opção entre a maternidade e o prazer, era condenada pelo papa Paulo VI. O amor livre, uma descoberta recente, que ia além dos princípios da procriação catequizadora, pulsava na sexualidade dos jovens. As velhas ideologias e costumes já não condiziam com a revolução sociológica que acontecia no mundo. Os costumes morais ocidentais entraram em colapso diante da hipocrisia que o sustentava. Em 1968, gritos de contestação assolaram o mundo, de Paris à Praga, fazendo tremer as ideologias da Guerra Fria.
Foi diante da quebra de costumes e tabus, que surgiram os hippies, herdeiros da Geração Beat, que com suas barbas e cabelos longos, pregavam a paz no mundo, o culto ao amor livre, à contracultura e à plenitude da alma humana, traduzida na essência psicodélica da música e no misticismo importado de divindade e gurus orientais.
Em Woodstock, do dia 15 a 18 de agosto de 1969, 500 mil jovens puderam viver a essência do comportamento hippie e o seu apogeu de idealizado. Regados de drogas que se legitimaram durante o festival, ouvindo a música dos seus ídolos, dançaram nus, fizeram amor, conviveram pacificamente. Durante quatro dias tudo foi permitido, 500 mil pessoas fizeram de Woodstock o maior e mais mítico dos festivais da história da música no planeta. Era o apogeu do movimento hippie, e também o seu grande final, o último fôlego de um sonho que mergulharia na psicodelia do inicio dos anos setenta, tendo vários dos seus ídolos tragados pela droga. Várias foram às vezes que se tentou repetir o festival, mas Woodstock foi único, ficou preso nos sonhos daqueles jovens cabeludos de roupas coloridas ou nus, que debaixo de chuva e lama, conseguiram fazer dos homens de ideais velhos, senhores de corações novos.

Da Geração Beat aos Hippies

A contracultura, que assolaria a segunda metade do século XX, teve o seu início demarcado pela publicação do poema “Howl”, de Allen Ginsberg, em 1956. Ginsberg foi o representante máximo do que ficou conhecido como a beat generation (geração beat) e pode ser considerado um dos progenitores do movimento hippie.
Os Beats usavam as palavras de forma que exprimissem as frustrações cotidianas e existenciais, servindo de protesto contra aquilo que consideravam estar errado no mundo. O movimento cresceu nos últimos anos da década de 1950, expandindo-se por clubes e cafés de jazz, onde os seus componentes juntavam-se para longas tertúlias e declamação de poesia. Neste ambiente de espaços intelectuais emergentes, homens de barbas, vestindo roupas informais caracterizadas, conhecidas como shabby; usando óculos escuros a qualquer hora do dia, passaram a ser conhecidos como os “Beatniks”.
Os beatniks tinham uma expressão freqüente com a qual se apresentavam: “I’m hip”. Com o seu modo “hip” de expressão, passaram a ser chamados de “hipsters”, de onde teria evoluído para o termo “hippies”, conforme o movimento entrava em decadência e fora dos modismos.
Nascido nos Estados Unidos, o movimento hippie espalhou-se pelo mundo, levando a contracultura aos jovens de todo o planeta nos últimos anos da década de 1960. A contracultura hippie atingia na sua essência, os jovens estudantes das universidades, que reprimidos entre os velhos costumes e conceitos judaico-cristãos da sociedade em que se inseriam, entre a ameaça de se ter que lutar e morrer pelos ideais da Guerra Fria nas batalhas do Vietnã; assumiam a utopia da paz, a contestação das funções da sexualidade, trocando o vazio deixado pelos preceitos falidos da igreja cristã pelo misticismo de crenças milenares de deuses hinduístas.

Faça Amor Não Faça Guerra

Jovens hippies abandonavam o conforto dos seus lares, que se revelava opressivo, rumando para os centros urbanos, principalmente para São Francisco, na Califórnia. A cidade da costa californiana tornara-se o maior centro do movimento hippie, onde se concentrou um imenso número de comunidades hippies. Foi em São Francisco que, em 1967, Scott Mc Kenzie gravou a canção “San Francisco”, de John Phillips, que se tornou o grande hino do movimento. A canção dizia, em seus versos de melodia suave e doce, para os que rumavam à cidade dos hippies: “Be sure to wear some flowers in your hair” (“Não te esqueças de usar algumas flores no teu cabelo”). Estava estabelecido o estilo hippie, seus integrantes vestiam-se com túnicas e roupas coloridas, traziam sandálias, cabelos compridos (homens e mulheres) e barba (homens). A flor passou a ser um dos símbolos do movimento, sendo chamado por alguns de movimento “Flower Power”.
Os hippies opunham-se às guerras; defendiam a paz e o amor no mundo; o amor livre e de todas as formas, quer no sentido de amar ao próximo e na forma mais libertária de praticar o sexo. Tudo era partilhado, os bens materiais, a comida, os companheiros, ninguém era de ninguém. A palavra de ordem do movimento ecoou pelo mundo: “Make Love Not War” (Faça Amor Não Faça Guerra).
Seguidores das filosofias orientais e pacifistas de Ghandi, as comunidades hippies utilizavam-se do consumo de drogas, em especial do então recém descoberto LSD, que na época não era considerado perigoso, não tendo o seu uso proibido. Através das drogas, os hippies achavam que a mente era aberta mais rapidamente.
Era através da música pop e do rock, movidas por baladas melodiosas e ritmos frenéticos, que a cultura hippie alcançava a sua expressão máxima. Feitas sob o efeito das drogas, as músicas que traduziam a filosofia hippie eram ouvidas por todos, que também drogados, assimilavam nas canções o princípio da mente sem amarras, libertada. Este momento lúdico produzido por químicos, foi chamado de psicodélico. O clima psicodélico estendeu-se da música para a arte, evidenciando-se na composição das capas dos discos e dos cartazes, muito coloridos, com letras fluídas e deformadas, com desenhos caleidoscópicos, reproduzindo a deformação e o alongamento de imagens que se refletiam durante o efeito de certas drogas.
O professor universitário Timothy Leary tornou-se o grande líder espiritual do movimento hippie, resumindo os principais aspectos da contracultura daquela geração no slogan: “Turn On, Tune In, Drop Out”.
Turn On (ligar), significava, através do consumo das drogas, ligar a luz da mente, tornando-a uma grande dimensão libertária.
Tune In (sintonizar), era estar atento ao mundo e ao rompimento com o estabelecido, aderindo ao estilo de vida hippie.
Drop Out (sair, abandonar), era a palavra de ordem do movimento para que se abandonasse o estilo de vida tradicional, rompendo com os costumes morais da família, com as expectativas das carreiras estabelecidas. Foi nos meandros da filosofia drop out que se estabeleceu o movimento do desbunde no Brasil do início dos anos 1970.
Foram cerca de 500 mil desses jovens hippies que, no dia 15 de agosto, rumaram para o interior de Nova York, atrás de um festival de música que se intitulava como “Uma Exposição Aquariana”. Lá, quebraram as cercas da fazenda e, em um momento lúdico da expressão hippie e da música popular, entraram para a história com o mítico festival de Woodstock.

Projetando o Festival

Em 1969, John P. Roberts e Joel Rosenman, empresários em busca de um negócio que lhes trouxesse lucro, puseram um anúncio no “New York Times” e no “Wall Street Jounal”, sob o nome de Challenge International, Lda, que dizia: “Jovens com capital ilimitado buscam oportunidades legítimas e interessantes de investimento e propostas de negócio”. Michael Lang e Artie Kornfeld responderam ao anúncio. Estava formado o quarteto que iria realizar o lendário festival de Woodstock.
Após reunirem-se, Michael Lang, John P. Roberts, Joel Rosenman e Artie Kornfeld pensaram na criação de um estúdio de gravação em Woodstock. Aos poucos, a idéia foi sendo abandonada, evoluindo para a de um festival de verão de música e arte ao ar livre. Vencidas as dúvidas de Roberts, que procurava investir em um projeto lucrativo, e ao ludismo de Lang, que queria criar um evento atrativo e de diferente proposta juvenil, foram erguidas as bases para que se realizasse um festival de música ao ar livre no verão daquele ano.
Longe dos princípios da contracultura hippie, o projeto de Woodstock, embora arriscado, concebia um festival com fins lucrativos a favorecer quem o empresariasse. Para financiá-lo, foi criada a empresa “Woodstock Ventures”.
Inicialmente, foi agendado um concerto para ser realizado no Parque Industrial de Wallkill, Orange County, no nordeste de Middletown. O local chegou a ser alugado pela Woodstock Ventures durante a primavera, por cem mil dólares. Mas os moradores do lugar fizeram forte oposição, e as autoridades de Wallkill proibiram o concerto em julho de 1969.
Com a proibição, entrou em cena Eliot Tiber, que ofereceu a sala 80 do El Mônaco Motel, em White Like, Bethel, Nova York, para que o festival fosse realizado. Mas a idéia ficou inviável diante do tamanho do local. Tiber foi quem apresentou os produtores ao fazendeiro Max Yasgur, que concordou, em 20 de julho de 1969, em alugar, por setenta e cinco mil dólares, seiscentos acres da sua fazenda de produção leiteira, situada na vila rural de Bethel, em Sullivan County, a sudoeste do vilarejo de Woodstock, Nova York.
Estava definido o local que receberia o grande festival, inicialmente programado para um público máximo de duzentas mil pessoas.

Quase Meio Milhão de Pessoas Rumam para o Festival

Definido o local do festival, foram postos à venda antecipadamente, cerca de cento e oitenta mil bilhetes, vendidos em lojas de discos e na zona metropolitana de Nova York, ou ainda, através de uma caixa postal. Custavam dezoito dólares comprados antecipadamente e, vinte e quatro dólares adquiridos no dia nos portões do evento. Os cartazes anunciavam os três dias do festival 15, 16 e 17 de agosto de 1969, como um evento de música e arte de “Uma Exposição Aquariana” (An Aquarian Exposition).
As expectativas de juntar uma platéia de duzentas mil pessoas, foram absolutamente superadas, quando, imprevisivelmente acederam ao local cerca de quinhentas mil pessoas. Com eles vinha o furor da juventude hippie, os sonhos e os ideais da geração “Flower Power”, e todas as licitudes do que dantes parecia ser proibido.
Assim, no dia 15 de agosto de 1969, uma sexta-feira de verão no hemisfério norte, uma legião de jovens cabeludos assolou a fazenda de Max Yasgur. A primeira regra a ser quebrada foram as cercas da fazenda que ladeavam o palco, postas abaixo, tornando o evento gratuito. Mediante o acesso de tantas pessoas, as vias que ligavam Nova York ao local tornaram-se caóticas, intransitáveis, com um dos maiores congestionamentos da história da cidade. Bethel foi transformada em área de calamidade pública, diante da deficiência na infraestrutura logística, que não comportava tanta gente. Milhares de pessoas viram-se sem instalações sanitárias, preparos para que se efetuassem os primeiros socorros médicos a quem necessitasse, comida para todos, e, para piorar a situação, o local sofreu com uma grande tempestade, que fez do chão um rio de lama. As pessoas tiveram que enfrentar a fragilidade da higiene local, a chuva que caia sem perdão, e ainda racionar a comida.
Mesmo diante de uma catástrofe iminente, o festival trouxe um encontro pacífico, com jovens a enfrentar não somente as adversidades climáticas e de infraestrutura, como aos preconceitos e aos costumes da sociedade da sua época. Vestidos ou nus, receberam com um calor jamais repetido, aos ídolos que marcaram com brilho o nome da música popular do século XX. Entre a chuva e a música, jovens em busca de um sonho e de um tempo novo, derrubavam os costumes, faziam amor entre si, envoltos na psicodelia das suas mentes, que se abriam através da farta quantidade de drogas ingeridas e do prazer em quebrar os tabus.
No final do festival, após o susto da possível catástrofe, apenas duzentas pessoas foram presas no local, por ofensas menores e sem gravidades, profundamente minimizadas diante do estado incontestável do efeito das drogas por eles ingeridas. No meio da multidão, apenas duas mortes foram registradas, sendo uma delas em conseqüência de uma overdose de heroína; a outra envolveu um atropelamento de uma pessoa por um trator. No meio da psicodelia do festival, quatro abortos foram provocados; e dois partos foram efetuados, um dentro de um helicóptero de resgate, outro dentro de um carro preso ao grande congestionamento da principal via que conduzia a Nova York.
O festival entraria para a história não pelas pequenas catástrofes, quase insignificantes diante de meio milhão de pessoas juntadas em um local com condições precárias, mas pela empatia entre o artista e o público, que juntos acalentavam a ideologia contestadora dos anos de 1960, que quando consumada, traria aos costumes novos e definitivos códigos morais. A sexualidade seria desbravada, trazendo uma liberdade ao corpo que só seria freada com o surgimento da Aids no início da década de 1980. Mais do que um dos encontros mais ricos de grandes artistas da música, Woodstock desenhou um quadro de pintura realista diante de uma utopia, diante de um comportamento social de um público que por quatro dias, cumpriu com uma harmonia arrebatadora os seus sonhos de juventude e de um novo mundo.

O Festival e os Seus Bastidores

Grandes nomes compuseram o um mítico espetáculo, entre eles Jimi Hendrix, Richie Havens, Joan Baez, John Sebastian, The Who, Joe Cocker.
Alguns nomes históricos da música internacional ficaram de fora, muitos por motivos pessoais, como os The Doors, que inicialmente concordaram em fazer parte do festival. Conversas de bastidores apontam para o cancelamento de ultima hora da banda em razão de o espetáculo não ter sido feito no Central Park, e sim em um local rural. Outros dizem que foi devido ao medo de Jim Morrison, vocalista da banda, em cantar ao ar livre, pois a sua voz sairia inexpressiva. Há ainda a versão de que o vocalista, acometido por uma paranóia psicodélica, entrou em pânico, com medo de ser morto em público. Anteriormente, Morrison tinha sido preso em um show por postura indecente. Da mítica banda ausente, John Densmore, seu guitarrista, foi o único que compareceu ao festival.
Os Beatles não compareceram ao festival devido à produção não chegar a um acordo com John Lennon. Para levar a banda inglesa, Lennon exigiu que a Plastic Ono Band, da sua mulher Yoko Ono, também tocasse. A recusa dos produtores invalidou a presença dos Beatles.
Outra banda que declinou ao convite de última hora foi a canadense Lighthouse, pois temeram que o evento pudesse denegrir a sua imagem. Mais tarde, diante das evidências históricas do festival, alguns membros da banda declararam-se arrependidos de não terem ido.
Led Zeppelin também foi convidada para tocar no festival, mas Peter Grant, empresário da banda, declinou ao convite, por pensar que a apresentação não lhes traria lucros ou visibilidade, pois seriam mais um em uma extensa lista. Decidiram seguir em turnê.
O mesmo aconteceu a Frank Zappa e The Mothers of Ivention, que alegaram haver muita lama em Woodstock. The Jeff Beck Group teve que cancelar a sua apresentação, pois a banda terminou uma semana antes do festival. Os Iron Butterfly ficaram presos no aeroporto.
Assim, seja qual tenha sido a razão pela qual algumas bandas ou cantores declinaram de tocar em Woodstock, maior foi o arrependimento de não ter participado de um evento considerado como um daqueles que mudaram a história do rock.

O Primeiro Dia, 15 de Agosto (Sexta-Feira)

Assim, com uma platéia de cerca de quinhentas mil pessoas, com o som projetado por Bill Hanley, naquela tarde de verão de 1969, às 17h00, Richie Havens abria oficialmente o festival de Woodstock.
O primeiro dia teve como característica a apresentação de um elenco de músicos mais leves, em que se subiu ao palco a maior parte dos artistas folks convidados. Após a apresentação de Richie Havens, Swami Satchidananda deu a invocação ao festival. Country Joe McDonald tocou separado da sua banda, os The Fish.
Uma chuva incessante começou a cair durante a atuação de Ravi Shankar, que apresentou um repertório de cinco músicas debaixo da água. Joan Baez, grávida de seis meses, foi quem fechou o primeiro dia do festival.
Naquele dia apresentaram-se:

Richie Havens

1 High Flyin’ Bird
2 I Can’t Make it Any More
3 With a Little Help from My Friends
4 Strawberry Fields Forever
5 Hey Jude
6 I Had a Woman
7 Handsome Johnny
8 Freedom / Sometimes I Feel Like a Motherless Child

Swami Satchidananda (invocação)

Country Joe McDonald

1 I Find Myself Missing You
2 Rockin All Around the World
3 Flyin’ High All Over the World
4 Seen a Rocket Flyin’
5 The Fish Cheer / I Feel Like I’m Fixin’ To Die Rag

John Sebastian

1 How Have You Been
2 Rainbows Over Your Blues
3 I Had a Dream
4 Darlin’ Be Home Soon
5 Younger Generation

Sweetwater

1 What’s Wrong
2 Motherless Child
3 Look Out
4 For Pete’s Sake
5 Day Song
6 Crystal Spider
7 Two Worlds
8 Why Oh Why

The Incredible String Band

1 Invocation
2 The Letter
3 This Moment
4 When You Find Out Who You Are

Bert Sommer

1 Jennifer
2 The Road to Travel
3 I Wondered Where You Be
4 She’s Gone
5 Things are Going My Way
6 And When it’s Over
7 Jeanette
8 America
9 A Note that Read
10 Smile

Tim Hardin

1 If I Were a Carpenter
2 Misty Roses

Ravi Shankar

1 Raga Puriya-Dhanashri / Gat in Sawarital
2 Tabla Solo In Jhaptal
3 Raga Manj Kmahaj
4 Iap Jor
5 Dhun In Kaharwa Tal

Melanie

1 Tuning My Guitar
2 Johnny Boy
3 Beautiful People

Arlo Guthrie

1 Coming Into Los Angeles
2 Walking Down the Line
3 Story About Moses and the Brownies
4 Amazing Grace

Joan Baez

1 Story About How the Federal Marshals Came to Take David Harris Into Custody
2 Joe Hill
3 Sweet Sir Galahad
4 Drugstore Truck Driving Man
5 Sweet Sunny South
6 Warm and Tender Love
7 Swing Low, Sweet Chariot
8 We Shall Overcome

O Segundo Dia, 16 de Agosto (Sábado)

No segundo dia, o festival foi aberto às 12h15 da tarde, com a banda Quill. A característica desse dia de sábado foi marcada pela apresentação dos principais artistas psicodélicos e de rock do festival.
Destaque para a apresentação da banda Grateful Dead, que enfrentaram problemas técnicos, como um pedaço do palco com o chão defeituoso. A banda tocou debaixo de chuva, o que levou dois dos seus integrantes, Jerry Garcia e Bob Weir a sofrerem com choques constantes todas às vezes que se encostavam às guitarras. Phil Lesh, o baixo, diz ter ouvido o rádio de transmissão de um helicóptero através do amplificador do contrabaixo enquanto tocava.
No seu repertório de uma hora, Moutain incluiu “Theme For Na Imaginary Western”, de Jack Bruce. Janis Joplin voltou em dois bis, “Piece of My Heart” e “Ball & Chain”.
As apresentações entraram pela madrugada. Os The Who começaram a tocar às 4h00 da madrugada, trazendo no seu repertório a ópera rock “Tommy”. O dia foi encerrado com a apresentação da banda Jefferson Airplane, que subiram ao palco às 6h00 da manhã, com oito músicas.
No sábado apresentaram-se:

Quill

1 They Live the Life
2 BBY
3 Waitin’ for You
4 Jam

Keef Hartley Band

1 Spanish Fly
2 Believe in You
3 Rock me Baby
4 Medley
5 Leavin’ Trunk
6 Sinnin’ for Yoy

Santana

1 Waiting
2 You Just Don’t Care
3 Savor
4 Jingo
5 Persuasion
6 Soul Sacrifice
7 Fried Neckbones

Country Joe McDonald

1 The Fish Cheer

Canned Heat

1 A Change is Gonna Come / Leaving this Town
2 Going Up the Country
3 Let’s Work Together
4 Woodstock Boogie

Mountain

1 Blood of the Sun
2 Stormy Monday
3 Long Red
4 Who Am I But You and the Sun
5 Beside the Sea
6 For Yasgur’s Farm
7 You and Me
8 Theme for an Imaginary Western
9 Waiting to Take You Away
10 Dreams of Milk and Honey
11 Blind Man
12 Blue Suede Shoes
13 Southbound Train

Janis Joplin

1 Raise Your Hand
2 As Good as You’ve Been to this World
3 To Love Somebody
4 Summertime
5 Try (Just a Little Bit Harder)
6 Kosmic Blues
7 Can’t Turn You Loose
8 Work me Lord
9 Piece of My Heart
10 Ball & Chain

Grateful Dead

1 St. Stephen
2 Mama Tried
3 Dark Star / High Time
4 Turn on Your Love Light

Creedence Clearwater Revival

1 Born on the Bayou
2 Green River
3 Ninety-Nine and a Half (Won’t Do)
4 Commotion
5 Bootleg
6 Bad Moon Rising
7 Proud Mary
8 I Put a Spell On You
9 Night Time is the Right Time
10 Keep on Chooglin’
11 Suzy Q

Sly & The Family Stone

1 M’Lady
2 Sing a Simple Song
3 You Can Make it if Your Try
4 Everyday People
5 Dance to the Music
6 I Want to Take You Higher
7 Love City
8 Stand!

The Who

1 Heaven and Hell
2 I Can’t Explain
3 It’s a Boy
4 1921
5 Amazing Journey
6 Sparks
7 Eyesight to the Blind
8 Christmas
9 Tommy Can You Hear Me?
10 Acid Queen
11 Pinball Wizard
12 Abbie Hoffman Incidente
13 Do You Think It’s Alright?
14 Fiddle About
15 There’s a Doctor
16 Go to the Mirror
17 Smash the Mirror
18 I’m Free
19 Tommy’s Holiday Camp
20 We’re Not Gonna Take It
21 See Me, Feel Me
22 Summertime Blues
23 Shakin’ All Over
24 My Generation
25 Naked Eye

Jefferson Airplane

1 Volunteers
2 Somebody to Love
3 The Other Side of This Life
4 Plastic Fantastic Lover
5 Won’t You Try / Saturday Afternoon
6 Eskimo Blue Day
7 Uncle Sam’s Blues
8 White Rabbit

O Terceiro Dia, 17 de Agosto (Domingo)

Programado para ser o último dia do festival, os eventos sofreriam um atraso de nove horas, o que fez com que as apresentações continuassem pela madrugada do dia 18, alcançando o pôr do sol, apesar da maioria do público já ter ido embora.
O festival abriu o dia às 14h00, com a apresentação antológica de Joe Cocker, que cantou entre outras músicas, o hino lisérgico “Let’s Go Get Stoned”. Após a apresentação de Joe Cocker, iniciou-se um forte temporal, o que levou à interrupção do festival por várias horas, só sendo reiniciado às 18h00, com a apresentação de Country Joe And The Fish.
Entre as curiosidades daquele dia, destaca-se a apresentação de Johnny Winter, que trouxe o irmão Edgard Winter a participar de duas canções. Crosby, Stills, Nash & Young começaram a apresentação por volta das 3h00 da manhã, com um set acústico e outro set elétrico, separados.
Mas o grande destaque do dia foi Jimi Hendrix, que fechou o festival. Graças aos imprevistos que levaram ao atraso das apresentações, Hendrix só pôde tocar na manhã da segunda-feira, para um público restante de apenas trinta e cinco mil pessoas. Durante a execução de “Red House”, uma corda da guitarra do artista quebrou, mas ele continuou a tocar com apenas cinco cordas.
No último dia, de 17 para 18 de agosto, apresentaram-se:

Joe Cocker

1 Dear Landlord
2 Something Comin’ On
3 Do I Still Figure In Your Life
4 Feelin’ Alright
5 Just Like a Woman
6 Let’s Go Get Stoned
7 I Don’t Need a Doctor
8 I Shall Be Released
9 With a Little Help From My Friends

Country Joe And The Fish

1 Rock and Soul Music
2 Thing Called Love
3 Love Machine
4 The Fish Cheer / I Feel Like I’m Fixin’ To Die Rag

Ten Years After

1 Good Morning Little Schoolgirl
2 I Can’t Keep From Crying Sometimes
3 I May Be Wrong, But I Won’t Be Wrong Always
4 Hear me Calling
5 I’m Going Home

The Band

1 Chest Fever
2 Tears of Rage
3 We Can Talk
4 Don’t You Tell Henry
5 Don’t Do It
6 Ain’t No More Cane
7 Long Black Veil
8 This Wheel’s on Fire
9 I Shall Be Released
10 The Weight
11 Loving You is Sweeter Than Ever

Blood, Sweat & Tears

1 More and More
2 I Love You More Than You’ll Ever Know
3 Spinning Wheel
4 I Stand Accused
5 Something Comin’ On

Johnny Winter

1 Mama, Talk to Your Daughter
2 To Tell the Truth
3 Johnny B. Goode
4 Six Feet in the Ground
5 Leland Mississippi Blues / Rock me Baby
6 Mean Mistreater
7 I Can’t Stand It – Com Edgard Winter
8 Tobacco Road – Com Edgard Winter
9 Mean Town Blues

Crosby, Stills, Nash &Young

Set Acústico

1 Suite: Judy Blue Eyes
2 Blackbird
3 Helplessly Hoping
4 Guinnevere
5 Marrakesh Express
6 4 + 20
7 Mr. Soul
8 Wonderin’
9 You Don’t Have To Cry

Set Elétrico

1 Pre-Road Downs
2 Long Time Gone
3 Bluebird
4 Sea of Madness
5 Wooden Ships
6 Find the Cost of Freedom
7 49 Bye-Byes

Paul Butterfield Blues Band

1 Everything’s Gonna Be Alright
2 Driftin’
3 Born Under a Bad Sign
4 Morning Sunrise
5 Love March

Sha-Na-Na

1 Na Na Theme
2 Yakety Yak
3 Teen Angel
4 Jailhouse Rock
5 Wipe Out
6 Book of Love
7 Duke of Earl
8 At the Hop
9 Na Na Theme

Jimi Hendrix

1 Message to Love
2 Hear My Train a Comin’
3 Spanish Castle Magic
4 Red House
5 Mastermind – Cantada por Larry Lee
6 Lover Man
7 Foxy Lady
8 Jam Back At the House
9 Izabella
10 Fire
11 Gypsy Woman / Aware of Love - Medley cantado por Larry Lee
12 Voodoo Child (Slight Return) / Stepping Stone
13 The Star-Spangled Banner
14 Purple Haze
15 Woodstock Improvisation / Villanova Junction
16 Hey Joe

Jimi Hendrix encerrava com chave de ouro o mítico festival. O cantor teria, brevemente, a vida ceifada pela droga. Outros, como Janis Joplin, seguiriam o mesmo destino trágico.
As imagens históricas do evento foram transformadas em um documentário, “Woodstock”, lançado no ano seguinte, em 1970. O evento também foi registrado em disco, numa trilha sonora dos melhores momentos. Quatro décadas depois de ter ocorrido, Woodstock representa um movimento que se extinguiu, mas que deixou uma marca indelével nos costumes morais e sociais da sociedade que se construiu nos últimos anos do século XX.


 
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Sexta-feira, 31 de Julho de 2009

DE MARTIN LUTHER KING A BARACK OBAMA

 

 

A vitória de Barack Obama nas eleições para presidente dos EUA em 2008, encerrou uma fase da participação do negro na história daquele país, iniciando outra, que à partida, desencadeou uma grande esperança de florescimento humano e intelectual no mais alto poder político da nação mais poderosa do planeta nos tempos contemporâneos.
Todas as atenções do mundo voltaram-se para a vitória de Obama, que causou comoção pelo inédito na história dos EUA, pela tenaz esperança de um novo tempo que se abre. Não que Obama seja um estadista pronto para mudar uma nação e o mundo, mas a sua eleição é a própria mudança na visão de um povo, que muitas vezes foi intransigente, reacionário e racista na condução da sua política interna e externa. Obama é a vitória de várias vertentes inéditas, primeiro negro a ser presidente do seu país, primeiro homem com raízes islâmicas acentuadas, e com a África histórica recente em seu DNA, distante dos afro-americanos, cuja origem do continente negro perde-se na distância dos séculos.
Quarenta anos antes da eleição de Obama para presidente, o líder negro Martin Luther King era assassinado por um branco furioso, racista e temente que os negros americanos alcançassem os seus direitos. Pregando a luta intensa pelos direitos civis dos negros, o pastor batista seguia os princípios de Gandhi, lutar, mas sem violência, algo quase que impossível numa época que o negro norte-americano não podia votar em alguns estados da união, não se podia sentar nos bancos da frente dos ônibus coletivos, não podiam freqüentar grandes universidades e, eram vítimas da violência de organizações racistas como a Ku Klux Klan.
Se a luta de Martin Luther King começou com a luta pelo direito do negro poder sentar-se em qualquer banco de um ônibus, ela estendeu-se por todas as vertentes da injustiça que se fazia aos seus, tomou proporções de sonhos e vitórias, suas palavras conquistaram o mundo, incomodou os mais radicais racistas e culminou com o seu assassínio em 1968. Quarenta anos depois, o sonho de liberdade e igualdade de Martin Luther King vingou, quando Barack Obama foi eleito presidente, ele negro e filho de pai muçulmano.

O Negro Americano Através da História

A história do negro nos EUA, assim como no restante do continente americano, iniciou-se com a escravidão, quando foram capturados e comprados na África, trazidos e vendidos nas Américas. Com o tempo, os EUA tinham o maior número de escravos do mundo, segregados e sem direito algum. O desenvolvimento industrial chegou apenas para o norte do país, o que dispensou a mão de obra de escravos negros, o mesmo não acontecendo no sul, região essencialmente agrícola, dependente do trabalho escravo para as suas lavouras. As diferenças econômicas entre o norte e o sul, a questão da escravidão, dividiriam profundamente o país, levando-o a uma guerra civil na segunda metade do século XIX, conhecida como a Guerra da Secessão.
No início da Guerra da Secessão, em 1861, havia 19 estados onde a escravidão era proibida e 15 estados onde a escravidão era permitida. Em 1860 Abraham Lincoln venceu as eleições para presidente, durante a campanha discursara contra a escravidão: “Metade livre, metade escrava”, o que levou os sulistas a temer que ele a abolisse de vez. Em 4 de março de 1961, antes que Lincoln assumisse a presidência, 11 estados que mantinham a escravidão declararam secessão da União, formando um novo país, os Estados Confederados da América. No dia 12 de abril, a guerra civil tinha início, só terminando em 1865, com a rendição dos confederados.
Após o fim da guerra civil, que deixaria marcas indeléveis nos estados sulistas, os americanos aprovaram a 13ª Emenda à Constituição, ratificada no fim de 1965, pondo fim oficialmente à escravidão nos EUA. Em 1968, era aprovada a 14ª Emenda, dando ao governo federal poderes amplos para obrigar os Estados a fornecerem proteção igualitárias às leis. Em 1870, a 15ª Emenda dava aos negros americanos do sexo masculino e maiores de idade, o direito ao voto, direito que não se estendeu para todo o país até meados da segunda metade do século XX.
Mesmo libertados, os negros americanos continuaram discriminados, perseguidos e sem um lugar definido na sociedade estadunidense. Com o fim da Guerra da Secessão, o sul continuaria ocupado por tropas do norte até 1877. Empobrecidos pela guerra, acostumados com a escravidão como realidade secular, os sulistas sentiram-se humilhados quando a União pôs, durante a ocupação, diversos negros libertos em importantes posições do governo dos estados do sul. Este desconforto, movido por um ódio racial latente, permitiu que surgissem sociedades secretas que empregavam a violência e a perseguição aos negros americanos, defendendo com veemência a segregação racial. Dessas sociedades, destacaram-se a dos Cavaleiros da Camélia Branca e a Ku Klux Klan.

Um País na África Para os Negros Americanos

Mesmo antes da guerra civil, no começo do século XIX, debatia-se nos EUA o destino dos escravos libertos naquele país. Na época duas idéias eram defendidas, e nenhuma delas pensava na integração do negro na sociedade norte-americana.
A primeira idéia, defendida por representantes do governo, queriam que se desse a liberdade aos escravos e que eles fossem reconduzidos à África. Um segundo grupo defendia a idéia de que os negros não tinham condições de se enquadrar no sistema capitalista, e era exaltada pelos cidadãos brancos. Assim, nascia em 1816, a American Colonization Society, organização criada por Robert Finley, cujo objetivo era levar para a África os antigos escravos negros e os negros nascidos livres, eliminando-se o problema do negro nos EUA, evitando-se o “perigo” de casamentos entre raças nos país, ou a criminalidade.
A American Colonization Society adquiriu na África, em 1821, um grande território perto da área do Cabo Mesurado, lugar ideal para enviar os negros livres dos EUA. Em 1824 a colônia foi chamada de Libéria (do latim, terra livre), e nela foram fixados os negros oriundos da América do Norte. Em 1847, a colônia declarou a independência, adotando símbolos norte-americanos na bandeira, lema e brasão de armas, além de uma constituição copiada da dos EUA. O primeiro presidente da Libéria foi Joseph Jenkins Roberts, um negro nascido no estado da Virginia. A Libéria nasceu com o objetivo de abrigar os negros livres dos EUA, ficando no país só os escravos, segregados e sem direitos, até que se abolisse a escravidão, em 1865.

O Protesto de Rosa Parks

Com o fim da escravidão, o negro foi, aos poucos, integrando-se como cidadão estadunidense, apesar de violenta pressão de uma segregação racial declarada. No século XX os EUA firmar-se-iam como a nação mais poderosa do planeta. Sua formação populacional era essencialmente de imigrantes europeus, além da contribuição africana e dos índios nativos.
O afro-americano teve que conquistar os seus direitos diante de uma sociedade declaradamente racista. Esta luta veio à tona em 1 de dezembro de 1955, quando
Rosa Parks negou-se a ceder o seu assento em um ônibus a um branco. Este ato desencadearia o processo de uma longa luta anti-racista que se travaria nos EUA, com proporções irreversíveis.
O marco da luta anti-racista deu-se em Montgomery, capital do Alabama, onde os primeiros assentos de bancos dos ônibus coletivos eram, por lei, reservados aos passageiros brancos. Os negros só podiam sentar-se nos assentos de trás. No dia 1 de dezembro de 1955, Rosa Parks, ao retornar do trabalho, tomou um desses ônibus de volta para casa. Cansada, Parks, ao lado de outros três negros, sentou-se nos assentos reservados. Quando passageiros brancos entraram, o motorista (também ele branco), exigiu que Rosa Parks e os três negros levantassem dos assentos e desse lugar aos bancos. Os outros obedeceram, mas Rosa Parks negou a cumprir a ordem, continuando a ocupar o assento, sendo por isto detida e levada à prisão.
A coragem de Rosa Parks, o seu protesto silencioso, repercutiu-se rapidamente, desencadeando grandes protestos. O Conselho Político Feminino, em solidariedade a ela, organizou como medida de protesto contra a discriminação racial, um boicote aos ônibus urbanos. A causa ganhou a adesão daquele que, a partir de então, tornar-se-ia o maior defensor dos direitos civis dos negros americanos, Martin Luther King Jr.
Milhares de negros aderiram ao boicote, recusando-se a andar de ônibus na ida e na vinda para o trabalho, caminhando muitas vezes quilômetros a pé, acenando e cantando pelas ruas, enquanto que eram agredidos física e verbalmente pelos brancos. Além de Martin Luther King, várias outras personalidades conhecidas apoiaram o boicote, entre elas o músico ativista Harry Belafonte e a cantora gospel Mahalia Jackson, que fez vários shows beneficentes para ajudar ativistas do movimento que estavam presos. Durante o boicote, as empresas de transporte coletivo amargaram com prejuízos cada vez maiores.
Pouco menos de um ano após o protesto de Rasa Parks, no dia 13 de novembro de 1956, a Suprema Corte dos EUA aboliu a segregação racial nos ônibus coletivos de Montgomery. Algumas semanas depois, a nova lei entrou em vigor na capital do Alabama e, no dia 21 de dezembro daquele ano, Martin Luther King e o sacerdote branco Glen Smiley, entraram juntos em um ônibus, ocupando lugares na primeira fila de assentos.
Rosa Parks seria, em 1999, condecorada pelo então presidente Bill Clinton, com a medalha de ouro do congresso estadunidense. Estava na época com 88 anos de idade.

Martin Luther King Firma-se Como Liderança

O reverendo Martin Luther King foi o negro que mais se engajou na luta pela igualdade dos direitos entre brancos e negros nos EUA, sua luta estender-se-ia pelas décadas de 1950 e de 1960, alcançando grandes vitórias. Como ativista, ele conseguiria atrair para si o amor e o ódio de grandes massas.
A luta de Martin Luther King iniciou-se quando os Estados Unidos, em combate à expansão do poderio soviético pelo mundo, promovia a Guerra Fria. Nação rica e poderosa, concentrava uma população fechada em seus valores e símbolos nacionais, movidos por um patriotismo exacerbado e por um forte sentido de racismo. Contraditoriamente, os americanos consideravam-se o modelo de democracia e liberdade para o mundo, e ao mesmo tempo, classificavam os seus habitantes de acordo com a raça. Na segregação de um país profundamente racista em suas raízes, os negros sofriam discriminações no aspecto social, na economia e na política. Em muitos lugares não podiam votar, tinham os trabalhos de menor remuneração, sendo chamados pejorativamente de “nigger” ou “boy”, as agressões dos brancos era uma rotina que não encontrava um eco para que fosse encerrada, não havendo leis que condenassem a discriminação.
Quando Rosa Parks foi presa por negar a levantar-se de um assento em ônibus destinado a brancos, Martin Luther King, pastor da cidade, conclamou o boicote dos negros aos transportes coletivos. A partir de então, em um ano tornou-se conhecido em todo o país, assumindo a liderança do movimento negro estadunidense. Seguiram-se marchas de protesto, cerceadas pela violação consciente da legislação racista, como freqüentar salas de esperas, restaurantes, lojas, museus, praças e teatros reservados a brancos. Tais protestos geravam uma violenta repressão policial, mas jamais intimidou o movimento de Martin Luther King e as suas lideranças adjacentes. Entretanto, o reverendo não deixava de advertir aos seus seguidores que não deixassem que os protestos degenerassem em violência.

Vitórias e Adversidades

As conquistas dos direitos dos negros eram lentas, mas definitivas. Em 1957 nove estudantes negros obtiveram nas cortes da União o direito de estudar na Escola Central de Little Rock, Arkansas, lugar em que as escolas eram todas segregadas. No primeiro dia, entre insultos e ameaças, foram proibidos pelos brancos de entrar na escola. Por ordem da Guarda Nacional, retornaram para casa. Em resposta ao desacato à justiça federal, o então presidente Dwight Eisenhower dissolveu a Guarda Nacional do Arkansas, enviando tropas de pára-quedistas para garantir a entrada e o estudo dos nove alunos negros em Little Rock. Quando o ano letivo terminou, os racistas da cidade preferiram fechar a escola de que aceitar negros nela. Outras escolas do Arkansas e do sul seguiram o exemplo.
O estudante James Meredith conseguiu através das cortes federais, em 1962, o direito de ingressar na Universidade do Mississipi, o estado racialmente mais conservador dos EUA. Mesmo sendo impedido algumas vezes de entrar no campus, por interferência do próprio governador, Meredith ingressou escoltado por agentes federais, e a corte federal instituiu uma multa diária de 10 mil dólares por cada dia que ele fosse impedido de assistir às aulas. Uma conflagração de civis e estudantes brancos na universidade terminou com a morte de 2 pessoas, 28 agentes federais feridos à bala e 160 feridos entre a população. No dia seguinte, o então presidente John Kennedy, enviou tropas do exército que garantissem a entrada e a permanência de Meridith na universidade.
Foi diante de todas as dificuldades descritas acima, que a liderança de Martin Luther King explodiu por todo o país. O líder negro manteve sempre a filosofia de protestos não violentos, mesmo quando 1100 líderes radicais do movimento negro exigiram, na Black Power Conference, em 1967, a divisão dos EUA em dois, para brancos e para negros.
Em agosto de1963, Martin Luther King organizou ao lado de Phillip Randolph e Bayard Rustin, a maior aglomeração pacífica realizada nos EUA, 250 mil pessoas, brancas e negras, vindas de todos os cantos do país, marcharam sobre Washington, realizando um dia de discursos, cantos e protestos a favor da igualdade dos direitos civis para todos os cidadãos.
Em 1964, Martin Luther King foi galardoado com o Prêmio Nobel da Paz por seus esforços pacíficos pelo fim da segregação racial e pelos direitos civis dos negros nos EUA. A premiação deu grande visibilidade internacional ao reverendo e à sua luta, o que gerou incômodo e ódios entre os mais conservadores dos seus opositores. No meio do ódio, Martin Luther King escaparia por um triz de dois atentados à sua vida.
Em 1965, Martin Luther King liderou passeatas e manifestação na cidade de Selma, no Alabama, em prol do direito dos cidadãos negros a registrarem-se com votantes. Durante uma manifestação, o pastor e vários manifestantes foram presos. Choques entre negros e brancos resultaram em tumultos com mortos e feridos. As cenas transmitidas pela televisão, causaram grande indignação por todo o país, o que levou o presidente Lyndon Johnson a conseguir aprovar junto ao congresso a Lei do Direito de Voto, de 1965. O direito de voto negro mudou definitivamente a face da política do sul do país, com a eleição de negros já em 1966, nos estados mais racistas da região, como o Mississipi.
Mas se Martin Luther King pregava a não violência em seus protestos, outros grupos negros de luta não pensavam igual. Em 1966 surgiu o movimento Black Power (Poder Negro), um grupo liderado por Storkely Caemichael, que pregava a violência e a necessidade de defesa dos negros diante dos ataques sofridos pela Ku Klux Klan, no sul do país. A partir de então, os negros sulistas passaram a enfrentar de armas nas mãos a violência sofrida, o que levou a Klan a desistir de aterrorizar os habitantes negros da região. Os Black Power enfrentavam a violência através da violência, passaram a difundir o orgulho de ser negro, ganhando maior identidade cultural, exigindo que não mais fossem chamados de negros, mas de afro-americanos.

“Eu Tenho Um Sonho”

O ano de 1968 foi um dos mais violentos nos EUA, com grandes protestos contra a Guerra do Vietnã, que passava a perder a razão ideológica para ser vista como um grande fracasso da maior nação do planeta. Se em 1967 espalhou-se que a guerra não duraria mais de um ano, no ano seguinte via-se a derrota ante os comunistas vietnamitas, vazava-se a notícia de que o exército enviaria mais 200 mil homens para o combate, o que significava mais baixas e mais mortes de jovens estadunidenses. Os ânimos acirraram-se e Lyndon Johnson foi obrigado a desistir de tentar a reeleição naquele ano.
Foi neste violento e confuso ano de 1968 que, a 4 de abril, o maior líder negro da história do século XX norte-americano, o Prêmio Nobel da Paz, Martin Luther King, seria definitivamente silenciado, sendo assassinado em Menphis, Tennessee. Vinte e quatro horas antes da sua morte, ele pronunciou o célebre discurso profético, em que anunciava ter avistado a terra prometida:
“Talvez eu não consiga chegar com vocês até lá, mas quero que saibam que o nosso povo vai atingi-la.”
Aos 39 anos, Martin Luther King era morto por um racista branco. Foi abatido a tiros na sacada de um hotel em Menphis. Anos mais tarde, um processo civil que correu no Tennessee, chegou à conclusão de que membros da máfia e do governo norte-americano engendraram o seu assassínio.
A morte de Martin Luther King provocou comoção e consternação internacional. Como conseqüência, as inquietações raciais agravaram-se em Washington e Chicago. Em junho, a mesma violência atingiu Robert Kennedy, candidato à presidência e, também ele, assassinado. Em 1983, a terceira segunda-feira de janeiro (data próxima do nascimento do pastor, 15 de janeiro) foi feita feriado nacional, em homenagem ao reverendo assassinado.
Martin Luther King tornou-se o ícone da luta do negro pelos direitos civis e igualdade, seu célebre discurso entraria para a história da humanidade como um dos mais belos em prol das causas humanistas. Sua frase “Eu tenho um sonho”, ecoou durante quatro décadas, até que Barack Obama, filho de um economista muçulmano queniano e de uma estadunidense, um negro, chegasse à presidência dos Estados Unidos. O sonho de Martin Luther King, a chegada da sua gente à terra prometida, concretizaram-se finalmente.
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Domingo, 26 de Julho de 2009

A IGREJA CATÓLICA E A DITADURA MILITAR NO BRASIL

 

 

O apoio da igreja católica aos militares em 1964, foi decisivo para a concretização do golpe de estado que levaria o país a uma ditadura de vinte anos. Se a Guerra Fria obrigou pessoas e entidades a escolher um lado, com a igreja católica, presumivelmente neutra, não foi diferente, ficou do lado das designações de Washington. A ambigüidade da igreja na época da Segunda Guerra Mundial, que foi acusada de apoiar e até a abençoar os exércitos nazistas, valeu-lhe a expulsão de todo o leste europeu com a chegada dos comunistas soviéticos, que libertaram os povos empobrecidos pela guerra do domínio nazista e na leva, do domínio secular da igreja. Temendo que o mesmo sucedesse na América Latina, a igreja católica combateu a ameaça comunista, incitando os seus fiéis a temê-los e repudia-los. Nas missas era comum padres acusar os comunistas de hereges e ateus inimigos da fé.
Ludibriados pelo sentimento anticomunista e pelo falso golpe que a esquerda preparava, segundo os golpistas de 1964, a igreja católica recebeu os militares de braços abertos, dom Paulo Evaristo Arns chegou a ir ao encontro das tropas do general Olimpio Mourão Filho, deflagrador do golpe, quando elas marchavam de Juiz de Fora rumo ao Rio de Janeiro. Em 31 de março, dom Paulo encontrou-se com as tropas golpistas em Pedro do Rio, Três Rios, oferecendo aos mineiros assistência religiosa. O encontro deixou o clérigo tranqüilo, com a simpatia de que não entraria no poder nem a anarquia, nem o comunismo.
Este apoio da igreja aos golpistas começou a enfraquecer tão logo perceberam o engodo que o país fora vítima, e a ditadura militar começou a mostrar o caráter repressivo e autoritário do regime. Dentro da igreja católica começou um movimento de repúdio à repressão, o envolvimento do clero com militantes resistentes ao regime, e a própria proteção do clero aos perseguidos e torturados. O próprio dom Paulo Evaristo Arns tornou-se um símbolo da defesa dos direitos humanos no Brasil, denunciando as torturas do regime. Também dom Hélder Câmara (foto) e dom Pedro Casaldáliga fizeram voz ativa contra a repressão. Diante da nova posição da igreja católica, a ditadura militar prendeu, torturou e matou padres. O banho de sangue estendeu-se aos clérigos. A Teologia da Libertação, que deu os primeiros passos em 1952, tornar-se-ia uma grande força no Brasil a partir de 1970. O apoio inicial da igreja ao golpe de 1964 deu a sua grande reviravolta quando a violência do regime matou e torturou quem lhe contestasse, desde então, a igreja católica no Brasil pendeu quase toda contra a ditadura militar.

A Igreja Católica e o Golpe Militar de 1964

Desde que se estabeleceu em Roma como instituição, que a igreja estendeu o seu poder por todos os reinos europeus. Conviveu lado a lado com as monarquias absolutistas, só enfraquecendo o seu poder com a chegada do protestantismo no século XVI. Aos poucos os estados tornaram-se laicos, separando-se definitivamente da igreja católica. Mas o maior golpe ao poder da instituição foi no fim da Segunda Guerra Mundial, quando os países do leste europeu foram libertados da opressão nazista pelos soviéticos, que neles estabeleceu regimes socialistas e expulsaram a igreja, considerada alienante e conivente com as atrocidades de regimes opressivos. Esta expulsão valeu a retratação de vários membros da igreja, que analisaram a sua atuação no leste europeu e o porquê de ser preterida aos comunistas.
Diante da Guerra Fria, o comunismo representava para a igreja católica uma forte ameaça diante da sua doutrina considerada alienante pelos engajados. A visão de que comunismo e ateísmo eram indissolúveis passou a fazer parte do imaginário popular brasileiro, incitado pelos padres em seus sermões dominicais. Alguns anos antes do golpe militar, subiu ao poder nos EUA John Kennedy, primeiro presidente católico daquele país. Esta condição religiosa de Kennedy fortaleceu a boa imagem deste lado da Guerra Fria diante da América Latina. Em 1961 os países católicos ricos criaram e financiaram o plano Caritas (caridade, em latim), que tinham como objetivo distribuir pela América Latina alimentos, esmolas e medicamentos. Implantado em quase todas as dioceses do Brasil, o Caritas também servia como doutrinador dos pobres que ajudava, incitando o repúdio total contra os perigos do “comunismo ateu”.
Nos fins de 1963, sob as bênçãos do presidente Kennedy, chegava ao Brasil o padre Patrick Peyton, um irlandês naturalizado estadunidense, conhecido como o padre das “estrelas”, por gostar de aparecer ao lado das celebridades de Hollywood. Padre Peyton foi preparado pela Agência Central de Inteligência (CIA) do serviço secreto norte-americano, promovendo no Brasil a Cruzada pelo Rosário em Família. A pregação de Patrick Peyton em seus concorridos encontros, atingiu em cheio milhares de famílias brasileiras. Essa pregação consistia em alertar aos brasileiros quanto aos perigos de um governo que não fosse como os dos EUA, e contra a ameaça comunista à família e à religião. No início de 1964 uma missa celebrada por padre Peyton foi o primeiro programa de televisão em rede a cobrir todo o país, tendo o suporte técnico feito em Washington.
Nos meandros do golpe, agentes religiosos colaboraram decisivamente com os golpistas. Deflagrado o golpe, a igreja católica aplaudiu. Para garantir que os militares não sofressem reveses da esquerda, muitos clérigos atuaram como delatores. Participações contundentes de ativistas anticomunistas e da igreja estão registradas nas atuações de Antônio de Castro Mayer, bispo de Campos, e de Geraldo de Proença Sigaud, arcebispo de Diamantina.
Na marcha que recebeu os militares golpistas no Rio de Janeiro, em 2 de abril de 1964, mulheres representantes da tradicional família brasileira, seguindo o lema de Patrick Peyton (na foto com um quadro de Maria com o menino Jesus), “família que reza unida, permanece unida”, estenderam os seus rosários, assinalando com este gesto o papel que exercera a igreja católica na consolidação do novo regime ditatorial que se instalava no Brasil.

Núcleos Conservadores e Progressistas da Igreja

O apoio da igreja católica aos golpistas militares começou a esvair-se tão logo a truculência da caserna mostrou ao que veio. Mandatos foram cassados, assim como direitos civis de exercer o sufrágio, a liberdade de expressão, no mesmo caldeirão incluíram a violência e a tortura. A ditadura, ladeada por grande violência, estava estabelecida. Diante das atrocidades, a igreja deixou de ser uma aliada para transformar-se em feroz opositora ao regime militar.
Nos primeiros anos do regime militar, dois núcleos da igreja mostraram claramente as suas posições: os católicos conservadores e os católicos progressistas. Para os conservadores, o regime militar evitaria o “comunismo ateu”. Além dos comunistas, esse núcleo reacionário incluiu como inimigos o espiritismo, a maçonaria, a umbanda, o protestantismo e todas as idéias estabelecidas no Concílio do Vaticano II, por João XXIII. Muitos foram os clérigos delatores que surgiram com o núcleo.
O núcleo dos católicos progressistas começou a ser perseguidos pelo regime militar, o que desencadeou da parte deles um engajamento que os fez combater veementemente a ditadura. Destacaram-se como árduos defensores da liberdade e opositores à violência militar, dom Hélder Pessoa Câmara, em Pernambuco; dom Paulo Evaristo Arns, em São Paulo; e dom Pedro Casaldáliga, na região rural do Araguaia.

Torturado, Castrado e Assassinado

A grande tragédia que marcaria de vez inclinação da igreja católica à oposição à ditadura foi o assassínio do padre Antônio Henrique Pereira Neto em Pernambuco. Coordenador da Pastoral da Arquidiocese de Olinda e Recife, Antônio Henrique desenvolvia atividades contra os métodos de repressão usados pelo regime, ao lado do arcebispo Hélder Câmara, de quem era braço direito.
Em março de 1968 o estudante de 17 anos, Edson Luís de Lima e Souto, foi morto pelos militares no restaurante “Calabouço”, no centro do Rio de Janeiro, desencadeando revolta e protestos por todo o país. Padre Antônio Henrique celebrou uma missa em memória do estudante assassinado, tornando-se desde então, alvo da ira dos militares. No dia 26 de maio de 1969 o CCC (Comando de Caça aos Comunistas) seqüestrou, torturou e matou o padre. O corpo foi deixado em um matagal da cidade universitária do Recife. Padre Antônio Henrique estava pendurado pelos pés em um galho de árvore; trazia marcas brutais de tortura, como queimaduras de cigarro, castração da genitália, marcas de espancamento, cortes profundos em todas as partes do corpo e dois ferimentos de bala que indicavam a execução final.
Dom Hélder Câmara repudiou a violência da ditadura militar. Após divulgar um manifesto de apoio à ação católica operária no Recife, ficou proibido pelo regime de falar em público no Brasil. Silenciado no país, dom Hélder passou a aceitar convites para participar de conferências no exterior. Para que as palavras do religioso, ditas fora do país, aqui não chegassem, o governo proibiu qualquer menção de apoio da imprensa a ele. Durante anos, apesar de atuação intensa contra a ditadura, o nome de Hélder Câmara jamais foi mencionado pela mídia. Mesmo acusado pelos militares de demagogo e comunista, o religioso ficou conhecido como Peregrino da Paz e Irmão dos Pobres.
Diante da morte do padre Antônio Henrique, as relações da igreja católica com a ditadura militar deterioraram-se de vez, fazendo com que a primeira atuasse de forma decisiva contra o regime, combatendo-o veementemente até o fim.

A Ira da Ditadura Contra os Dominicanos

A ordem dos dominicanos foi a mais perseguida pela ditadura militar, seus integrantes eram considerados por demais progressistas e de cunho subversivo. Em 1965 chegou a ser cogitado a expulsão da ordem do Brasil. O cerco aos dominicanos passou a ser mais intenso quando o regime descobriu que havia uma ligação da ordem com Carlos Marighella, líder guerrilheiro, fundador do grupo armado Aliança Libertadora Nacional (ALN), considerado o maior inimigo da ditadura militar.
Carlos Alberto Libânio Christo (Frei Betto), Fernando de Brito, Ivo Lesbaupin, Ratton, Magno e Tito de Alencar Lima, eram dominicanos que colaboravam com diversas organizações políticas clandestinas que combatiam a ditadura militar. O apoio dos dominicanos incluía proteger perseguidos políticos de cair nas garras de torturadores quando presos, escondendo-os em lugares seguros, transportando-os para outras cidades ou mesmo para outro país.
Para proteger os perseguidos do regime, os dominicanos envolveram-se em perigosas operações. Frei Betto (foto) foi um dos que mais correu risco. Trabalhou como chefe de reportagem do jornal “Folha da Tarde”, do grupo Folhas, considerado um veículo de comunicação progressista. Em 1967 Frei Betto foi demitido ao lado de vários outros colegas, e a “Folha da Tarde”, sob a direção Antônio Aggio Junior, passou a ser porta-voz da ditadura. Ameaçado de ser preso, Frei Betto passou a viver na clandestinidade. Escondeu-se por algum tempo na casa de uma família estadunidense. Por fim conseguiu uma bolsa de estudos para a Alemanha, que lhe fez viver algum tempo no Seminário Cristo Rei, em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, onde tentava familiarizar-se com os hábitos alemães, bastantes comuns no sul do país. Durante este tempo, Frei Betto arriscou a vida ao aceitar a tarefa designada por Marighella, de ajudar perseguidos políticos a atravessar a fronteira do Brasil com o Uruguai. Preso, Frei Betto foi condenado a quatro anos de prisão. Após o fim do regime militar continuou a viver em São Paulo, a escrever e assessorar movimentos sociais.
Frei Fernando de Brito trabalhava na Livraria Duas Cidades, em São Paulo. O dominicano estava sob a vigilância da repressão desde 1 de abril de 1964, quando o jornal que editava “Brasil Urgente” saiu pela última vez com a manchete “O golpe está nas ruas”. Em 2 de novembro de 1969, Frei Fernando foi para o Rio de Janeiro para tratar de uma publicação com o secretário da Editora Vozes. Ao seu lado embarcou Frei Ivo, carioca que aproveitava a viagem para visitar a família. Poucas horas no Rio de Janeiro e os dominicanos foram presos pela repressão, sendo levados para o temível Centro de Informações da Marinha (Cenimar). Isolados, os religiosos foram torturados. Frei Fernando foi despido e pendurado no famoso pau-de-arara, sofrendo choques por todo o corpo, culminando com um fio elétrico sendo-lhe introduzido na uretra. O objetivo da tortura era descobrir o paradeiro de Marighella, considerado o inimigo número um do governo. Após horas de tortura, Fernando terminou por revelar a senha que possibilitava um encontro com Marighella. Feita a revelação, Fernando foi levado ao encontro de Frei Ivo, reconhecendo-o apenas pelas roupas, pois o amigo trazia o rosto deformado pela tortura. Levado para o Dops de São Paulo, Fernando descobriu que lhe fora poupado o rosto para que ele voltasse a trabalhar na Livraria Duas Cidades no dia 4 de novembro, e assim, atraísse Marighella para uma cilada. No fim da tarde Fernando recebeu um telefonema que dizia:
Ernesto pediu que vocês o encontrem na gráfica hoje às 20 horas.”
A senha era para um contacto com Marighella. Fernando pensou que a voz fosse de um dos homens que o interrogara no Dops, a fazer-lhe um teste, o frei confirmou com um “sim”. Mas a voz era mesmo do contacto de Marighella. Com o telefone grampeado, a conversa tinha sido gravada pela repressão. Poucas horas depois, os freis Fernando e Ivo foram obrigados a entrar no fusca azul que costumavam ir ao encontro de Marighella. Assim, forçadamente, os dominicanos participaram da emboscada que tirou para sempre das páginas da história do Brasil Carlos Marighella, morto por vários tiros na esquina da Rua Oscar Freire com a Alameda Casa Branca. Frei Fernando e Frei Ivo foram condenados a quatro anos de prisão. Com o fim da ditadura, Fernando passou a viver em Conde, Bahia, passando a trabalhar com a relação entre o cristianismo e as religiões africanas. Ivo deixou os dominicanos, passando a viver no Rio de Janeiro como professor de ciências políticas, casando-se e tendo dois filhos.
Outro envolvido com Marighela era Frei Tito, preso em São Paulo naquele fatídico novembro de 1969, e entregue ao temido delegado Sérgio Fleury. Na prisão sofreu todos os tipos de tortura, recebeu cutiladas, choques, foi sentado nu em uma cadeira de metal eletrificada e, com o chão molhado, a intensidade dos choques aumentava. Tito sofreu ainda, todas as ofensas religiosas, massacre sexual, queimaduras de cigarro, tapas simultâneos com as duas mãos nos ouvidos, pau-de-arara e pauladas. Condenado a quatro anos de prisão, Tito foi um dos 70 presos políticos trocados pelo embaixador suíço Bücher, seqüestrado por guerrilheiros em 1971. Deportado para o Chile, seguiu para a Europa. Mesmo depois de exilado em Paris, a receber total apoio dos dominicanos, Frei Tito jamais se recuperou emocionalmente, enforcar-se-ia aos 29 anos, em 10 de agosto de 1974, totalmente enlouquecido pelos traumas das torturas que sofrera.
Na fotografia acima, momento histórico do julgamento dos dominicanos, todos condenados a quatro anos de prisão. Da esquerda para a direita, Frei Fernando, Frei Betto, Frei Ivo e Frei Tito.

Prisões, Torturas, Humilhações e Mortes Dentro da Igreja

A ditadura militar chegou aos anos 1970 com o total repúdio da igreja católica, que se tornou grande opositora das suas atrocidades truculentas. A Teologia da Libertação explodiu pelo país, sendo os seus seguidores grandes opositores do regime militar.
Mas os embates entre a igreja católica e os ditadores começou bem antes. Um grande incidente acontecera em 1967, quando a repressão invadira a casa de dom Valdir Calheiros, bispo de Volta Redonda, seguida da prisão de um diácono francês e de seminaristas. Diante da truculência, Costa e Silva enviou o senador Daniel Krieger ao cardeal Avelar Brandão, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em missão de paz. Já no final de 1968 a relação entre a igreja e o regime militar estava combalida. No dia 1 de outubro daquele ano, o cardeal de São Paulo, Agnelo Rossi, em solidariedade aos sacerdotes presos, recusou a medalha da Ordem Nacional do Mérito, oferecida por Costa e Silva, causando constrangimento ao então presidente.
Ainda em novembro de 1969, outra truculência contra religiosos aconteceria com a prisão da freira Maurina Borges da Silveira, em Ribeirão Preto. Diretora do orfanato Lar Santana, a freira cedia uma sala para que se efetuasse a realização de reuniões de estudantes. A freira não sabia que eles pertenciam à clandestina Frente Armada de Libertação Nacional (FALN). Presa, foi vítima de tortura com espancamentos, choques e violência sexual. Houve comentários que a freira teria ficado grávida do torturador, o delegado Fleury. A freira desmentiu os boatos.
Outro grande opositor do regime militar foi o catalão dom Pedro Casaldáliga, que atuou energicamente a favor dos camponeses, dos índios e sem-terras do Araguaia. Corajosamente denunciou o autoritarismo da ditadura, sofrendo com isto perseguições e ameaças de morte. O governo chegou a pressionar o Vaticano para que retirasse Casaldáliga do Araguaia, mas o então papa João Paulo II não permitiu que a pressão vingasse. Em outubro de 1976, Casaldáliga e o jesuíta João Bosco Penido Burnier, missionário entre os posseiros de São Félix do Araguaia, Mato Grosso, foram ao povoado de Ribeirão Bonito participar da celebração da novena de Nossa Senhora Aparecida, celebrando a cerimônia principal. Ficaram sabendo que duas mulheres estavam a ser torturadas na delegacia local. Os dois tentaram interceder pelas mulheres, mas foram recebidos por policiais no pátio da delegacia; após breves minutos de diálogo, um dos policiais agrediu com um soco e uma coronhada o padre João Bosco Burnier, terminando com um tiro fatal no padre. Considerado um protetor dos pobres, o jesuíta foi pranteado por todos. Após a missa de sétimo dia do padre, o povo seguiu em procissão até a delegacia, libertou os presos e destruiu o prédio. No local de martírio do padre Burnier, foi erguido um santuário.
Outro que sofreu perseguição dos militares foi o bispo de Nova Iguaçu, dom Adriano Hipólito, tido como um grande defensor dos perseguidos políticos de toda a Baixada Fluminense. Amigo dos oprimidos e amado pelo povo, começou a incomodar a ditadura, tanto que, em 22 de setembro de 1976, foi seqüestrado por militares, que o espancou, pintando-lhe o corpo de vermelho, finalmente foi deixando nu no meio da noite, em um local ermo. Teve o carro explodido por uma bomba quando se encontrava à porta da CNBB, no Rio de Janeiro. Uma outra bomba foi detonada na catedral de Nova Iguaçu, destruindo o altar. Mas nada intimidou dom Adriano. Fez alianças com vários partidos de esquerda, denunciaria grupos de extermínios na Baixada Fluminense. Só parou com a luta em defesa do povo em 10 de agosto de 1996, quando morreu, já vivendo ao vento da democracia.

Dom Paulo Evaristo Arns: “Brasil Nunca Mais

Durante a ditadura, dom Paulo Evaristo Arns tornou-se o maior defensor dos direitos humanos no Brasil, mesmo sendo um dos que recebeu o golpe militar de braços abertos em 1964. Contrariando os militares, dom Paulo Evaristo Arns rezou missa pelo estudante Alexandre Vanucchi Leme, morto pela ditadura em 1973.
Em 1975 foi morto sob tortura, o jornalista Vladimir Herzog. A ditadura ainda tentou simular um suicídio, divulgando um falso laudo sobre a morte do jornalista. A resposta da sociedade brasileira foi um culto ecumênico realizado na Catedral da Sé, em São Paulo, celebrado por dom Paulo Evaristo Arns, pelo rabino Henry Sobel e pelo reverendo Jaime Wright. As religiões uniam-se, pela primeira vez, contra as atrocidades da ditadura militar.
Dom Paulo Evaristo Arns é um dos autores do dossiê que documenta prisões, torturas e desaparecimentos no país: “Brasil, Nunca Mais”.
Se a tortura era veemente negada pelo regime militar, com a morte de Vladimir Herzog tornou-se impossível escondê-la. Uma vez revelada e provada a sua existência, era mais difícil sumir com os presos. Através das pastorais, a igreja passou a desenvolver trabalhos com os presos e a apoiar as suas famílias; organizava visitas freqüentes aos presos políticos, como forma de alerta aos torturadores, como se dissesse: “sabemos que essa pessoa existe e que está presa, cuide para que ela não desapareça”. Dom Paulo Evaristo Arns foi enérgico com esta postura, incentivando a mesma ação de proteção aos direitos humanos por todas as igrejas do Brasil. Assim a igreja católica, forte aliada dos golpistas de 1964, passou a repudiar a violência, a tortura e o próprio regime militar. Sua oposição à ditadura foi decisiva para a sua queda e, para a proteção de várias vidas dentro dos calabouços. Lutar contra a repressão, foi uma forma da igreja católica redimir-se diante deste período negro da história do Brasil.

 
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Terça-feira, 21 de Julho de 2009

O HOMEM NA LUA

 

 
No auge da Guerra Fria, União Soviética e Estados Unidos comparavam forças sobre o controle ideológico das nações do planeta. A produção em série de armas nucleares era uma prioridade, medindo-se o potencial de uma nação pela quantidade de ogivas nucleares que tinha em seu poder. No fim dos anos 1950, o espaço tornou-se alvo da demonstração desse poder. Iniciava-se, em 1957, a corrida espacial com o lançamento do satélite artificial soviético Sputnik. Desde então, o governo norte-americano tomou como objetivo levar o primeiro homem a pousar em solo lunar, antecipando-se aos soviéticos.
No dia 20 de julho de 1969, a Apollo 11 cumpria a sua missão. Neil Armstrong, astronauta norte-americano, era o primeiro homem a pisar no satélite da Terra. Numa eloqüente e solene frase, ele sintetizou os seus passos no solo da Lua: “Foi um pequeno passo para o homem, mas um salto gigantesco para a Humanidade”.
A viagem à Lua, um velho sonho dos homens desde a mais remota antiguidade, representou um ápice na aventura humana no século XX. Depois da conquista dos pólos e das grandes altitudes do planeta, o homem estendia a sua saga pelo mítico satélite da Terra. Politicamente, era uma grande vitória da ideologia do ocidente contra a do oriente, dos capitalistas contra os comunistas, dos americanos contra os soviéticos. No momento em que os meios utilizados para manter tal ideologia eram contestados, com grandes manifestações nos Estados Unidos e no mundo contra a Guerra do Vietnã, chegar à Lua serviu para que o governo americano distraísse a atenção da nação, proporcionando-lhe um grande espetáculo, e, ao mesmo tempo, mantendo a supremacia tecnológica do poder, amenizando as críticas e contestações. Cientificamente, a ida do homem quase nada acrescentou à humanidade, sendo uma desolação absoluta, fazendo com que o projeto fosse encerrado, sem jamais ser retomado.
Enquanto Neil Armstrong e Edwin “Buzz” Aldrin fincavam a bandeira norte-americana em solo lunar, os terráqueos assistiam extasiados à grande aventura, transmitida pela televisão para todo o planeta. A emoção de ver o homem pisar no solo da Lua concretizava todas as lendas mitológicas, atingindo tanto o ocidente, como os países da Cortina de Ferro. Quatro décadas depois da conquista, a façanha continua a criar polêmicas, com correntes a declarar que tudo não passou de uma farsa. Mesmo assim, a chegada da missão Apollo 11 à Lua continua a ser a maior aventura do homem sobre a conquista das fronteiras do universo, sendo o lugar mais distante que ele já alcançou no tempo e no espaço.

O Sputnik é Lançado no Espaço

A beleza da Lua pairando no horizonte, a complexidade e influência do satélite em diversos fenômenos da Terra, sempre despertou a imaginação do homem. Poetas, escritores, cientistas, todos sonharam um dia pisar em solo lunar, uma aventura alimentada bem antes das grandes civilizações escreverem a sua história.
Oficialmente, a aventura que culminaria com o primeiro homem a passear pelo satélite da Terra, em 1969, iniciou-se em 1957. Em 4 de outubro daquele ano, cientistas e engenheiros soviéticos lançaram do Cosmódromo de Baikonur, em Tyuratam, na União Soviética (atual Cazaquistão), o satélite artificial Sputnik, que consistia numa bola de 84 quilos. Pela primeira vez um satélite artificial foi posto na órbita da Terra. Estava iniciado o período que passou para a história como a era espacial, demarcando a corrida ao céu.
Nikita Khrustchov, então líder da União Soviética, sob a colaboração do cientista Serguei Korolev, pôs o seu país à frente dos Estados Unidos na questão espacial. Para comprovar o êxito do Sputnik, era preciso esperar noventa minutos, tempo que o satélite levava para completar uma órbita em torno da Terra. Findos os noventa minutos, eram captados pelos cientistas sons emitidos por um transmissor do Sputnik, confirmando a missão. Ainda em 1957, em 3 de novembro, o Sputnik 2 levava ao espaço o primeiro ser vivo, a cadela Laika, da raça Kudriavka. Os soviéticos tornaram-se os donos do espaço, enviando várias missões não tripuladas à Lua.

Yuri Gagarin, o Primeiro Astronauta no Espaço

O sucesso do satélite russo causou grande repercussão no mundo. Nos Estados Unidos, o governo do presidente Eisenhower foi criticado por deixar que os soviéticos saíssem à frente. Quatro meses depois do lançamento do Sputnik, em 31 de janeiro de 1958, os americanos responderam com o Explorer I, primeiro satélite artificial daquele país. Para minimizar a época dourada espacial soviética, os Estados Unidos, sempre a reboque dos seus opositores comunistas, decidiram criar uma agência espacial de índole civil, assim, em 29 de julho de 1958, surgia a National Aeronautics and Space Administration, a NASA. A instituição passou a centralizar todas as atividades espaciais que não fossem de caráter estritamente militar.
Ainda ofuscados pela União Soviética, os Estados Unidos criou o programa Mercury, que tinha como principais objetivos pôr em órbita um ser humano, estudar os seguimentos de controle de uma nave espacial e adquirir conhecimentos sobre a ausência de gravidade no corpo humano. Em abril de 1959, já se tinha selecionado os primeiros sete astronautas do programa Mercury.
A conquista espacial foi um dos temas que centralizou as eleições presidenciais norte-americanas, em 1960, que deram vitória a John F. Kennedy sobre Richard Nixon.
Em 12 de abril de 1961, mais uma vez os soviéticos saíram à frente dos seus rivais norte-americanos, pondo em órbita, pela primeira vez, um ser humano, o astronauta Yuri Gagarin, que se iria tornar um herói em todo o planeta, visitando vários países, levando consigo a propaganda do regime do seu país.
A resposta norte-americana veio em 5 de maio de 1961, com o vôo do projeto Mercury, que enviou o primeiro astronauta estadunidense, Alan B. Shepard, ao espaço. Shepard não conseguiu a projeção internacional obtida por Yuri Gagarin, muito menos ofuscar o seu carisma. Os soviéticos continuavam como os líderes absolutos da corrida ao espaço.
John Kennedy, já como presidente dos Estados Unidos, não se deixou ir à deriva do sucesso espacial soviético, em 25 de maio de 1961, fez o célebre discurso na Universidade Rice, que conclamava aos americanos o desafio de enviar homens à Lua, trazendo-os de volta a salvo. O feito, segundo o discurso, teria que ser alcançado antes que a década de 1960 terminasse. Para viabilizar o projeto, John F. Kennedy pediu ao Congresso as verbas necessárias àquele, que se tornara o maior desafio da Guerra Fria, vencer a corrida espacial. Assassinado em novembro de 1963, o presidente Kennedy não assistiria à chegada do homem à Lua.

Os Projetos Gemini e Apollo

O projeto Mercury consistia em uma nave espacial com capacidade de levar apenas um passageiro a bordo. Com a evolução tecnológica dos equipamentos e das naves, também os projetos deveriam ser mais sofisticados. Para suprir as deficiências antigas, foi criado o programa Gemini, que pretendia testar as técnicas desenvolvidas para a realização de uma viagem tripulada à Lua.
O programa Gemini, criado em março de 1965, realizou com êxito, dez missões tripuladas ao espaço. Suas naves comportavam dois astronautas por missão. O Gemini foi encerrado em 1966, conseguindo que os Estados Unidos alcançasse e ultrapasse a União Soviética na corrida ao espaço.
O sucessor do Gemini foi o programa Apollo, o mais complexo e desenvolvido de todos eles, que tinha como objetivo levar os primeiros seres humanos à Lua. Suas naves foram desenvolvidas para que pudessem transportar três passageiros. Três metas foram traçadas pela NASA para que se concretizasse o objetivo de chegar ao solo lunar: o número de passageiros, a forma da nave e o foguete que a iria propulsar ao espaço.
O projeto teve a genialidade do alemão Wernher von Braun, engenheiro famoso da época do regime nazista, que deserdou, fugindo do seu país, naturalizando-se norte-americano. Von Braun criou o foguete Saturno V, o maior até então, com potência suficiente para lançar uma nave ao espaço, levando três astronautas e, a partir daí, levá-la à Lua. Para a alunagem, Von Braun criou o módulo lunar.
A primeira nave do projeto, a Apollo 1, teve o espectro da tragédia a desenhar a sua história. Em 27 de janeiro de 1967, durante um treino em terra, um curto-circuito incendiou a cabine da Apollo 1, matando os astronautas Gus Grissom, Ed White e Roger Chaffee. A partir de então, os engenheiros da NASA modificaram por completo a cabine do módulo de comando.
A tragédia adiou o projeto, que só foi ter a sua primeira missão tripulada com a Apollo 7, lançando três tripulantes em órbita, Walter Schirra, Don Eisele e Walter Cunningham. Era o primeiro teste para que o homem pudesse chegar à Lua.
Em 21 de dezembro de 1968, foi lançada a Apollo 8, levando os astronautas Frank Borman, Jim Lovell e Bill Anders a bordo. A missão Apollo 8 foi a primeira a levar o homem à órbita da Lua. A nave apresentou graves defeitos, passou por uma tempestade solar e enfrentou um choque com um meteorito, o que impossibilitou que os tripulantes pousassem na Lua. Os astronautas da Apollo 8 foram os primeiros a contemplar a Terra a partira da Lua. Esta imagem, fotografada pelos tripulantes, correu o planeta.

A Apollo 11

Duas outras missões, a Apollo 9 e a Apollo 10, apesar de terem êxito, não chegaram ao solo lunar. A conquista só seria alcançada com a Apollo 11. Em 16 de julho de 1969, mais de um milhão de pessoas concentrou-se em torno do Centro Espacial Kennedy, na Flórida, para poder ver o lançamento daquela que estava programada para, finalmente, pousar na Lua, a Apollo 11. Às 9h32 da costa leste dos Estados Unidos, a nave foi lançada ao espaço, levando a bordo os astronautas Neil Armstrong, Edwin E. Aldrin e Michael Collins. Após várias voltas em torno da Terra, a nave alcançou a órbita do planeta, sendo os motores acionados para iniciar a viagem de três dias. O mundo acompanhava o espetáculo em todas as televisões do mundo.
No dia 20 de julho, às 16h05, o módulo de comando Columbia, onde estavam os três astronautas, separou-se do módulo lunar Eagle, levando Neil Armstrong e Edwin Aldrin a bordo. Michael Collins permaneceria no Columbia. Às 16h17 daquele dia histórico, Armstrong após manobrar o módulo, concretizava a alunagem. No módulo, restava combustível para mais vinte segundos. Armstrong entrava em contacto com a Terra, avisando que pousara na Lua.

O Homem Pisa na Lua

Antes da descida para explorar o solo lunar, os astronautas deveriam comer e descansar algumas horas. Teriam que estar em forma para que pudessem enfrentar um meio hostil, sem água, atmosfera ou vento, que causavam drásticas oscilações de temperatura, além de uma gravidade inferior a um sexto da terráquea. Após o descanso, os astronautas vestiram os seus trajes espaciais, estavam prontos para enfrentar o exterior. Às 22h56 do dia 20 de Julho, Neil Armstrong põe o pé na superfície lunar. É o primeiro homem a fazê-lo. Sua frase ecoa pelo espaço:
Este é um pequeno passo para um homem, mas um salto gigantesco para a humanidade.
A frase, segundo o astronauta, foi espontânea, mas a sua solenidade faz com que se desacredite numa suposta improvisação. Dezoito minutos depois, “Buzz” Aldrin juntou-se ao companheiro. Os dois caminharam com grande dificuldade pela superfície da Lua por duas horas e meia. No decorrer do tempo, promoveram o hasteamento da bandeira dos Estados Unidos, fincando-a em solo lunar, afirmando a supremacia norte-americana na Guerra Fria, fazendo com que as outras nações se prostrassem diante da sua ideologia. Além da bandeira, os astronautas descerraram uma placa comemorativa que trazia um mapa dos hemisférios da Terra, contendo gravada a legenda:
Aqui os homens do planeta Terra pisaram pela primeira vez na Lua. Julho de 1969 d.C. Viemos em paz em nome de toda a humanidade.
Paradoxalmente, aquela aventura dava-se no auge da Guerra Fria, que ao contrário do que afirmava a placa, promovia guerras sanguinárias na Terra em nome das ideologias vigentes. Armstrong e Aldrin recolheram amostras do solo lunar, instalaram um instrumento para medir as oscilações do solo, uma folha de alumínio em forma de bandeira vertical para que se captasse vento solar e um aparelho para que se pudesse medir com precisão a distância entre a Lua e a Terra. Cumprida a missão, os astronautas regressaram ao módulo Eagle, ali permanecendo por várias horas. Armstrong e Aldrin retornam à órbita lunar, onde Michael Collins os aguarda no módulo Columbia. Os dois módulos foram acoplados. No módulo de comando, os três astronautas juntaram-se novamente, iniciando a viagem de regresso à Terra. No dia 24 de julho, aterrisavam, às 12h50, em um ponto do oceano Pacífico. Estava cumprida a missão que levara o homem à Lua.
O projeto Apollo enviaria ao espaço mais seis missões, cinco delas alunaram, tendo a Apollo 13 falhado em sua missão. A Apollo 17, lançada em dezembro de 1972, foi a última missão em que o homem pisou no solo lunar. A partir de então, as viagens à Lua ficaram suspensas, e só voltarão a ser retomadas caso haja interesse econômico e científico. O objetivo principal tinha sido atingido, os Estados Unidos venceram a corrida espacial, mostrando-se a nação mais potente nos meandros da Guerra Fria. A ciência ficaria para depois!
Anos mais tarde, teorias da conspiração tentam desacreditar que a Apollo 11 tenha pousado no solo lunar, fazendo com que algumas milhares de pessoas duvidem que um dia o homem pisou na Lua. Teorias à parte, a chegada do homem à Lua foi um dos maiores espetáculos da Terra, ainda hoje suscitando paixões e arroubos. A Lua, apesar de desvendada, continua a exercer um misterioso fascínio sobre a humanidade.


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Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

VIAGEM PITORESCA AO BRASIL DE DEBRET E RUGENDAS

 

 

A fotografia jornalística, as imagens que documentam o homem e o seu cotidiano, a cidade e o campo, a paisagem e os fatos gerados por ela, é hoje uma realidade corriqueira, que pode ser exercida por qualquer um, desde que se tenha uma objetiva na mão e observe o mundo ao seu redor. Nem sempre dispositivos como uma câmera digital, estiveram à disposição. Cabia no passado, aos desenhistas e pintores retratarem o cotidiano do mundo em que viviam, através de litografias que registravam o seu tempo e a sua época.
O Brasil colonial foi fartamente retratado por grandes pintores e desenhistas, como o francês Jean-Baptiste Debret e o alemão Johann Moritz Rugendas. Pintores e desenhistas das cenas brasileiras da primeira metade do século XIX, eles trazem a paisagem humana viva de uma colônia que elevada à categoria de reino unido, ainda não rompera com as amarras econômicas que se sustentava pela escravidão tanto dos negros africanos quanto dos indígenas nativos. Do homem à botânica, das etnias que construíam a Colônia aos animais que habitavam as suas florestas, tudo foi retratado por estes grandes desenhistas.
Aqui fazemos uma viagem ao Brasil colônia do século XIX, com Debret e Rugendas (autor da gravura acima, “Missa de Nossa Senhora da Candelária em Pernambuco”, da obra “Voyage Pittoresque au Brésil”), mergulhando em um passado que não mais existe, mas mesmo distante, deixou suas marcas indeléveis na paisagem humana e nos costumes da nação que se construiu a partir desta época.

Jean-Baptiste Debret e a Missão Artística Francesa

Jean-Baptiste Debret (1768-1848), pintor e desenhista nascido em Paris, integrou a Missão Artística Francesa, chegando ao Brasil em 1816, ao lado do arquiteto Grandjean de Montigny. A missão aconteceu por solicitação de dom João VI, sendo planejada por António Araújo e Azevedo, o conde da Barca. O objetivo da missão era, entre outros, organizar a criação da Academia de Belas Artes.
Durante a época que esteve no Brasil, de 1816 a 1931, Debret, com os seus traços do neoclassicismo, retratou com detalhes históricos únicos o Brasil de então. Da corte portuguesa no país à corte instalada pelo proclamador da independência, dom Pedro I, nada passou despercebido na obra de Debret. Quando retornou à França, publicou, entre 1834 e 1839, “Voyage Pittoresque et Historique au Brésil” (Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil), que documentava os aspectos do homem, da natureza e da sociedade brasileira.

O Brasil de Debret

As gravuras aqui mostradas têm textos do próprio Jean-Baptiste Debret, extraídos de “Voyage Pittoresque et Historique au Brésil”.

Charruas Civilizados – Jean-Baptiste Debret – Da obra “Voyage Pittoresque et Historique au Brésil”. – “Em uma das províncias meridionais do Brasil... existe uma nação de indígenas completamente selvagens denominados Charruas, que ocupam uma vasta área de pântanos e bosques. Vivem em meio a manadas de cavalos selvagens, de que comem a carne, preferindo-a a qualquer alimento.
... É somente na província de São Pedro e de Espírito Santo que se encontra grande número de Charruas civilizados, a maior parte originários do Paraguai. Andam quase sempre a cavalo, envolvidos pelo poncho... e trazem sempre uma grande faca à cintura, ou simplesmente colocada em uma das botas. O comércio de animais é a sua principal ocupação; e freqüentemente, sob o nome de peões, servem de guias aos viajantes que percorrem estas províncias. Não menos intrépidos a pé que a cavalo, eles não temem atacar a onça, o braço esquerdo envolvido pelo poncho com toda precaução, e coberto por um pedaço de couro. Assim preparado ao combate, e tendo na mão direita a sua faca, ele vai ao encontro do animal e o desafia. O caçador avança o braço esquerdo, e quando a onça arremete, ele lhe mergulha a faca no peito e a mata de um só golpe. Este gênero de combate lhes é tão familiar que estão sempre dispostos a proporcionar soberbas peles de onça pela quantia de cinco francos (um patacão); é uma especulação que eles reservam para fazer frente às despesas com suas diversões, pouco variadas na verdade, pois consistem em passar grande parte de seu tempo nas tavernas fumando, bebendo aguardente e jogando cartas, prazer que termina quase sempre em golpes de faca. Embora naturalmente inclinados ao roubo e ao assassinato, eles são de uma fidelidade a toda prova, caso tenham sido contratados para a escolta de um viajante.”

Retour à la Ville de Nègres Chasseurs – Jean-Baptiste Debret – Da obra “Voyage Pittoresque et Historique au Brésil”. – “É sobretudo na roça que são criados os negros que se tornam caçadores de profissão. É lá que, devendo desde jovens acompanhar os comboios, ou em companhia somente de seu senhor, em longas e penosas viagens, eles vão sempre armados de um fuzil, tanto para sua segurança pessoal quanto para obter alimento... Este gênero de vida torna-se uma paixão a tal ponto dominante entre os negros da roça, que ele não aspira à liberdade senão para penetrar nas florestas como caçador profissional, e se dar sem reservas às atrações de uma inclinação que serve ao mesmo tempo a seus interesses. Então, livre, longe da opressão do chicote, o direito de pensar faz dele um fornecedor tão hábil quanto o homem branco, de quem conhece os gestos; e, perfeitamente a par do valor de uma peça fina que se encontra misturada à caça grossa que ele traz à cidade, ele vai oferecê-la de preferência ao cozinheiro de uma grande casa, que o paga de modo satisfatório; assim, aliando a inteligência ao esforço, freqüentemente ele torna sua profissão muito lucrativa.”

Selvagens Civilizados Soldados Índios da Província de Curitiba Conduzindo Prisioneiros Indígenas – Jean-Baptiste Debret – Da obra “Voyage Pittoresque et Historique au Brésil”. – “Observa-se na província de São Paulo, Comarca de Curitiba, as aldeias de Itapeva e Curros, cuja população inteira se compõe de caçadores indígenas, empregados pelo governo brasileiro para lutar contra os selvagens e os expulsar pouco a pouco dos locais próximos às terras por onde os cultivos começam a avançar...
Estes soldados aguerridos... dormem sem acender fogo na floresta, para que sua presença não seja percebida pelos selvagens que eles procuram surpreender... Cada ano, numa certa época, o governo lhes dá munições para a campanha; uma vez em marcha, eles não retornam antes de haver esgotado suas provisões de guerra; então, repousam até a campanha seguinte. Durante este intervalo eles cultivam suas terras e servem de guia aos viajantes estrangeiros... Sua tática é atacar os ranchos dos selvagens, matar os homens e trazer prisioneiras as mulheres e crianças. Selvagens até época recente, eles mostram-se mais aptos que os europeus a empregar as artimanhas necessárias a este gênero de expedições.”

Múmia de um Chefe Coroado – Jean-Baptiste Debret – Da obra “Voyage Pittoresque et Historique au Brésil”. – “Segundo a opinião de um escritor muito respeitado, os selvagens do Brasil chamados Coroados seriam os antigos Goitacazes. Este nome de Coroados lhes foi primitivamente dado pelos portugueses por causa do penteado de seus chefes, que efetivamente cortam o cabelo de modo a deixar uma espécie de coroa isolada no alto da cabeça; no entanto, muito deles trazem os cabelos caídos sob as espáduas...
Os Coroados tinham antigamente o costume de enterrar seus chefes de uma maneira particular: os restos mortais deste chefe reverenciado eram encerrados em um grande vaso denominado camucis, enterrado em seguida profundamente junto a uma grande árvore...
Estas múmias, revestidas de suas insígnias, estão perfeitamente intactas, e são sempre colocadas, em sua urna funerária, de modo a conservar a atitude de um homem sentado sob seus calcanhares, posição habitual do selvagem quando em repouso. Pretendiam, por este meio, fazer uma alusão à morte, este eterno repouso?”

Rugendas, Vindo com a Expedição do Barão de Langsdorff

O desenhista Johann Moritz Rugendas (1802-1858), nascido em Augsburg, chegou bem jovem ao Brasil, em 1921, vindo como membro da expedição do Barão de Langsdorff, cientista e diplomata russo.
No Brasil, Rugendas logo deixou a expedição e passou a viajar por sua própria conta, percorrendo de 1822 a 1825 várias partes do país, dedicando-se a retratar os mais variados aspectos da vida da nação que se formava depois da independência em relação a Portugal. Rugendas registra justamente o momento de transição entre o Brasil colônia e o Brasil nação independente.
Os registros de Rugendas do cotidiano brasileiro, formaram uma coletânea de cem trabalhos publicada em Paris, em 1835, sob o título de “Voyage Pittoresque au Brésil” (Viagem Pitoresca ao Brasil).

O Brasil de Rugendas

É da obra “Voyage Pittoresque au Brésil”, que se extraiu os textos que ilustram as imagens aqui apresentadas, escritos por Koster, citados por Rugendas.

Nègres a Fond de Calle (Negros no Porão de Navio) – Johann Moritz Rugendas – Da obra “Voyage Pittoresque au Brésil”. – “Embarcam-se, anualmente, cerca de 120 000 negros na costa da África, unicamente para o Brasil, e é raro chegarem ao destino mais de 80 a 90 mil. Perde-se, portanto, cerca de um terço durante a travessia de dois meses e meio a três meses... Ao chegarem à fazenda, confia-se o escravo aos cuidados de um ou outro mais velho e já batizado. Este o recebe na sua cabana e procura fazê-lo, pouco a pouco, participar de suas ocupações domésticas; ensina-lhe também algumas palavras em português.
E somente quando o novo escravo se acha completamente refeito das conseqüências da travessia que se começa a fazê-lo tomar parte nos trabalhos agrícolas...”

Habitações de Negros – Johann Moritz Rugendas – Da obra “Voyage Pittoresque au Brésil”. – “Enviam-se os escravos logo ao nascer do sol... Às oito horas concede-se-lhes meia hora para almoçar e descansar. Em algumas fazendas fazem os escravos almoçarem antes de partirem para o trabalho, isto é, imediatamente depois do nascer do sol. Ao meio dia eles têm duas horas para o jantar e o repouso e, em seguida, trabalham até as seis horas.
As mulheres casam-se com catorze anos, os homens, com dezessete e dezoito; em geral incentivam-se esses casamentos. As jovens mulheres participam do trabalho do campo e aos recém-casados se dá um pedaço de terra para construir sua cabana e plantar, por conta própria, em certos dias... Nos domingos, ou dias de festa, tão numerosos que absorvem mais de cem dias por anos, os escravos são dispensados do trabalho por seus senhores e podem descansar ou trabalhar para si próprios... Assim, um dos mandamentos da Igreja Católica, tão amiúde censurado como abusivo e pernicioso, tornou-se um verdadeiro benefício para os escravos, e quando o Governo português achou que devia atender às necessidades do progresso, tomando medidas para diminuir o número de festas, a inovação não alcançou a aprovação dos homens mais esclarecidos do Brasil. Diziam estes, com razão, que o que podia ser benefício para Portugal não passava de crueldade para com os escravos. Que responder a isso, senão que essa contradição já constitui uma prova do absurdo de todo o sistema? Como quer que seja, as cabanas dos escravos contêm mais ou menos tudo que neste clima pode ser considerado necessário. Por outro lado, eles possuem galinhas, porcos, às vezes mesmo um cavalo ou uma besta, que alugam com vantagem porque a alimentação nada lhes custa.”

Guerrilhas – Johann Moritz Rugendas – Da obra “Voyage Pittoresque au Brésil”. – “Os relatórios dos mais antigos visitantes, como Jean Léry, Hans Staden, etc., demonstraram que, na época da conquista, os habitantes primitivos do Brasil estavam num estágio de civilização mais elevada que aquele em que os vemos hoje. A razão principal dessa decadência está, sem dúvida, nas relações com os portugueses... os índios não são homens em estado natural e não são selvagens, mas sim homens que retrocederam ao estado de selvageria, porque foram rechaçados violentamente do ponto a que haviam chegado...
...limita-se o governo a instalar, nos lugares mais expostos do país, ou naqueles em que a estrada atravessa a floresta, quartéis ou presídios; são geralmente simples postos, com alguns soldados, sob o comando de um suboficial...
Quando os índios praticam algum ato de hostilidade em determinado lugar, ou quando, como acontece, atacam de surpresa um desses postos, para puni-los e amedrontá-los faz-se uma entrada. Reúnem-se alguns postos, sob o comando do capitão do distrito e dá-se caça aos índios, atacando-os em toda parte onde se encontrem. Procura-se de preferência surpreendê-los nos acampamentos e, quando descobertos, são cercados durante a noite, e ao clarear do dia faz-se fogo, de todos os lados, contra os índios ainda adormecidos. Assim surpreendidos, os selvagens tentam escapar pela fuga. Em regra geral, os soldados massacram tudo que lhes cai nas mãos e só poupam as mulheres e crianças muito raramente, e assim mesmo quando cessa toda a resistência, a qual é, não raro, obstinada.“

Fête de Ste. Rosalie, Patrone dês Nègres” (Festa de Nossa Senhora do Rosário, Padroeira dos Negros) – Johann Moritz Rugendas – Da obra “Voyage Pittoresque au Brésil”. – “No mês de maio, os negros celebram a festa de Nossa Senhora do Rosário. É nesta ocasião que têm por costume eleger o Rei do Congo, o que acontece quando aquele que estava revestido dessa dignidade morreu durante o ano, quando um motivo qualquer o obrigou a demitir-se, ou ainda, o que ocorre às vezes, quando foi destronado pelos seus súditos. Permitem aos negros do Congo eleger um rei e uma rainha de sua nação, e essa escolha tanto pode recair num escravo como num negro livre. Este príncipe tem, sobre seus súditos, uma espécie de poder que os brancos ridicularizam e que se manifesta principalmente nas festas religiosas dos negros como, por exemplo, na de sua padroeira Nossa Senhora do Rosário...
... Às onze horas fui à igreja com o capelão e, não demorou muito, vimos chegar uma multidão de negros, ao som dos tambores. Homens e mulheres usavam vestimentas das mais vivas cores que haviam encontrado. Quando se aproximaram, distinguimos o Rei, a Rainha, o Ministro de Estado. Os primeiros usavam coroas de papelão, recobertas de papel dourado... As despesas da cerimônia deviam ser pagas pelos negros, por isso haviam colocado na igreja uma pequena mesa à qual estavam sentados o tesoureiro e outros membros da irmandade negra do Rosário, os quais recebiam os donativos dos assistentes dentro de uma espécie de cofre.”

Chasse au Tigre (Caça à Onça) – Johann Moritz Rugendas – Da obra “Voyage Pittoresque au Brésil”. – “O arco e a flecha são as armas principais dos índios. São muito mais compridos do que as de outros selvagens, embora a maior parte dos índios da América Meridional use também arcos e flechas muito compridos. A lança e o laço se encontram apenas em algumas tribos que, depois do descobrimento, adotaram o cavalo para combater. E somente nessas tribos foram os arcos e as flechas encurtados. O arco dos brasileiros tem muitas vezes cinco, seis e mesmo sete pés de cumprimento...
Há três espécies de flecha. Uma de ponta larga, feita em geral de bambu tangaraçu; é dura e muito aguçada. Para aumentar ainda a força da penetração, a ponta é encerada e a taquara, também encerada ao fogo, torna-se tão dura quanto o chifre. Como na taquara a ponta é oca, os ferimentos que ela produz sangram fortemente. Por isso é empregada, principalmente, na guerra e na caça de grandes animais.”
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Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

NOVEMBRADA - PRELÚDIO DE UM GOLPE DE ESTADO

 

 

Com o fim do Estado Novo, mantido pela ditadura de Getúlio Vargas, o Brasil passou por um período turbulento de uma democracia frágil e arrastada à sombra de golpes, que sobreviveria de 1945 até o golpe militar de 1964. Neste curto período foi promulgada uma nova Constituição em 1946, as eleições voltaram ao país e quatro presidentes foram eleitos: Eurico Gaspar Dutra (1945), Getúlio Vargas (voltando ao poder pelo voto do povo, em 1950), Juscelino Kubitschek (1955) e Jânio Quadros (1960).
Após a promulgação da Constituição, nenhum dos três presidentes foi eleito com maioria absoluta. Getúlio Vargas teve 48,7%, Juscelino Kubitschek 35,6% e Jânio Quadros 48%, o que levou à sombra de vários golpes de políticos derrotados e sem o hábito de viver em democracia, na tentativa de impedir que os presidentes eleitos assumissem o mandato, o que era inviável, visto que não se previa segundo turno nas eleições presidenciais.
A volta de Getúlio Vargas à presidência marcou pelo populismo ascendente da sua imagem envelhecida, sendo associada como o pai do povo e dos trabalhadores. Vargas, raposa velha, soube muito bem tirar proveito da nova condição populista, apagando de vez a imagem de ditador que fora durante os 15 anos que se manteve no poder. Este populismo desgostou as elites, fazendo que conspirassem contra o governo. Envolvido em escândalos e pressões políticas, chamado de “Mar de Lamas”, Vargas viu-se acossado por um movimento que exigia a sua renúncia. Não vendo saída, o episódio teve o trágico desfecho do suicídio em 24 de agosto de 1954. A morte de Vargas causou revolta e comoção, adiou o golpe da direita conservadora por dez anos e garantiu a vitória de Kubitschek em 1955.
Mas os eternos conspiradores da democracia, como Carlos Lacerda e os integrantes da União Democrática Nacional (UDN), não aceitaram os resultados das urnas. Em 3 de novembro de 1955, o então presidente Café Filho, que substituíra Vargas, sofreu um ataque cardíaco e foi substituído por Carlos Luz, o presidente da Câmara. O seu governo, apoiado por golpistas e com a intenção de se manter no poder, impedindo Juscelino Kubitschek, eleito em outubro, de assumir a presidência, durou até a madrugada de 11 de novembro, quando tropas do general Lott saíram às ruas do Rio de Janeiro para defender os direitos constitucionais e a democracia. O fiasco desta tentativa de golpe ficou conhecido como Novembrada. Vencidos os golpistas, eles continuariam a urdir o golpe até que, em 1964, conseguiram levar os militares ao poder, fomentando uma ditadura que duraria mais de vinte anos.

Sob o Fantasma de Vargas

O potiguar Café Filho (na foto com o general Lott), vice-presidente de Getúlio Vargas, tomou posse na mesma manhã que o corpo do presidente foi encontrado morto em seu quarto. O novo presidente tinha 55 anos, fora eleito vice-presidente pelo Partido Social Progressista (PSP), fundado por Adhemar de Barros. Na época as eleições para presidente e para vice eram feitas separadamente.
Pressionado pela comoção que causara a carta testamento deixada por Vargas, Café Filho comprometeu-se a cumprir o calendário eleitoral, que marcava eleições para renovação da Câmara, do Senado e dos governos estaduais em outubro de 1954. Se por um lado a população e os seguidores de Vargas tentavam garantir as eleições, os conspiradores do antigo presidente, a esta altura transformados em vilões e odiados pelo povo, tentavam adiar o sufrágio, com medo de que o fantasma do presidente morto influenciasse nas urnas, dando vitória absoluta aos getulistas. Carlos Lacerda, que mais tarde ganharia a alcunha de Corvo Conspirador, e o maior inimigo de Vargas, defendia que se instaurasse um regime de exceção, para que se fizesse reformas que impedissem a volta do getulismo ao poder.
Mas, contrariando as expectativas, mesmo sobre forte pressão, Café Filho, então afinado com a UDN, garantiu as eleições no dia 3 de outubro de 1954, vendo sair das urnas a vitória imbatível da coligação PSD/PTB, sob o espectro da morte de Vargas.

Eleições Presidenciais de 1955

Morto, o ex-presidente Vargas estava mais vivo do que nunca. Sua influência era nítida nas eleições para presidente, que se iriam realizar em outubro de 1955. O candidato Juscelino Kubitschek (na foto com o general Lott) trazia no seu carisma uma identificação do povo com o espírito getulista, o que lhe garantia uma vitória nas urnas. Diante desta evidência, Café Filho e os seus aliados não desmentiam os boatos de que um golpe militar formava-se no horizonte. Em dezembro de 1954 espalhou-se pela nação que circulava um documento dos militares vetando a candidatura Kubitschek. Café Filho deixava esta sensação em seus discursos, na tentativa de assustar o candidato mineiro e dissuadi-lo da idéia de disputar as eleições. Mas JK não se deixou intimidar pelas ameaças veladas de um possível golpe militar.
Em maio de 1955 Adhemar de Barros, derrotado nas urnas de 1954 para governador de São Paulo, entrou na disputa pela presidência. Em junho a UDN lançou a candidatura de um militar, o general Juarez Távora, chefe da Casa Militar de Café Filho.
As eleições foram marcadas por grandes golpes durante a campanha. O maior deles foi contra João Goulart, considerado o herdeiro direto de Getúlio Vargas, que concorria para vice-presidente. O golpe contra a campanha de Jango ficou conhecido como Carta Brandi. Em setembro os jornais publicaram cartas que supostamente tinham sido enviadas a João Goulart em 1953, quando ele era ministro do Trabalho de Getúlio Vargas, pelo deputado argentino Antonio Jesús Brandi. Na carta, Brandi fazia referências às supostas articulações entre Jango e Perón, para juntos promover a deflagração de um movimento armado para a instauração de uma república sindicalista. Mesmo diante deste falso documento, Jango venceria as eleições em outubro, sendo eleito como vice-presidente com mais votos do que Kubitschek, que venceria para presidente com cerca de 36% dos votos. A seguir às eleições, investigações do exército comprovaram a falsidade da Carta Brandi, que tinha sido forjada por argentinos e vendida aos opositores de João Goulart.

A Novembrada

A vitória nas urnas da dupla Juscelino Kubitschek - João Goulart, em 3 de outubro de 1955, foi a resposta além túmulo do ex-presidente Vargas aos seus opositores. Esta vitória incomodou profundamente à direita conservadora. Conspirações passaram a fazer parte das reuniões dos derrotados. O principal objetivo era impedir que JK tomasse posse. Movidos pela avidez de tomar o poder, os golpistas promoveriam um episódio que beiraria à insanidade e ao grotesco.
Em 1955 morreria o presidente do Clube Militar, o general Canrobert Pereira da Costa, será no seu enterro, a 1 de novembro, que se deixará claro os meandros do golpe que está a ser engendrado para impedir a posse de JK. No velório, o coronel Bizarria Mamede discursou contra o presidente eleito, chamando a sua eleição de “mentiras democráticas”, o coronel dizia que se formava um regime presidencial das minorias, que se entregava o poder a um eleito que não tinha o apoio da maioria da nação.
Diante do discurso de Bizarria Mamede, uma atitude de indisciplina militar, o ministro da Guerra, general Henrique Teixeira Lott, não pôde punir o coronel porque ele era membro da Escola Superior de Guerra, subordinada à presidência da República, só podendo ser punido pelo próprio presidente.
É no olho do furacão das conspirações para impedir a posse de JK, que no dia 3 de novembro o presidente Café Filho sofre um distúrbio cardiovascular, abandonando provisoriamente o poder. Há rumores históricos que Café Filho teria fingido a doença para não ter que assumir as conspirações contra o presidente eleito. Diante da doença Café Filho, assume a presidência, em seu lugar, o presidente da Câmara, Carlos Luz.
Como presidente, Carlos Luz recebe o general Lott de forma ríspida, comunicando-lhe que não punirá o coronel Bizarria Mamede. Diante da intransigência do presidente, no dia 10 de novembro, o general Lott demitiu-se do Ministério da Guerra. Para substituí-lo foi indicado o general Fiúza de Castro, que teria o nome publicado como novo ministro da Guerra já no dia 11, sexta-feira, e assumiria na segunda-feira seguinte.
Doze generais procurariam Lott, para que ele liderasse uma reação militar que garantisse o cumprimento do respeito às instituições, naquele momento ameaçado pelo presidente, que assumia uma clara postura que estimulava um golpe contra a posse de JK e João Goulart. O general Lott, a princípio, não aceita liderar qualquer movimento para não violar a legalidade, mas é convencido de que para defendê-la, precisava promover o “golpe da legalidade”. Na madrugada de 11 de novembro, o general Lott conclama os principais comandos à defesa “do regime constitucional”. 25 mil homens de Lott tomam, por volta da 1h30 da manhã, as ruas do Rio de Janeiro. Lott prende o general Fiúza e volta ao ministério da Guerra.
Diante da reação militar, os golpistas Carlos Luz, Carlos Lacerda, o coronel Bizarria Mamede e alguns ministros, promoveriam uma autêntica ópera bufa nos palcos da história. Com medo das tropas do general Lott, nove conspiradores fogem do Catete, amontoados em um automóvel. Os golpistas refugiam-se no cruzador Tamandaré (foto), comandado pelo almirante Silvio Heck. A bordo do cruzador, recebem a notícia de que poderiam contar com a guarnição da marinha em Santos e com o então governador de São Paulo, Jânio Quadros, onde se instalaria um governo federal presidido por Carlos Luz. Sob tiros de canhão lançados dos fortes, os golpistas partem para Santos. Mas a guarnição de Santos acabou por aderir às tropas de Lott e o governador Jânio Quadros desmentiu o apoio ao governo que os golpistas queriam presidir em terras paulistas.
Sem apoio algum, Carlos Luz decide voltar para a capital federal e enfrentar a situação. Às 15h30 o presidente da Câmara, Flores da Cunha, declarava o impedimento de Carlos Luz, passando a presidência para o presidente do Senado, Nereu Ramos. Carlos Luz entrou para a história como o presidente que permaneceu por menos tempo no poder, mesmo assim criou problemas e turbulências. Carlos Lacerda refugiou-se na embaixada de Cuba, recebendo salva conduto para exílio na ilha da ditadura de Fulgencio Batista.
No dia 21 de novembro Café Filho deixou o hospital, mas também foi declarado impedido. Estava esmagada a conspiração golpista para impedir a posse de Juscelino Kubitschek.O general Lott obrigou Nereu Ramos a decretar estado de sítio por 30 dias, depois prorrogado até a posse do presidente eleito. Em 31 de janeiro de 1956, mesmo contrariando a muitos, Juscelino Kubitschek recebeu a faixa presidencial. Mas os conspiradores da Novembrada, como ficou conhecida a tentativa de golpe de 1955, não se deram por vencidos, pelo contrário, fortaleceram-se através dos anos, tentaram impedir João Goulart, que se elegeu vice do sucessor de JK, Jânio Quadros; de assumir a presidência quando este renunciou, em agosto de 1961. Os golpistas mais uma vez tiveram os seus planos frustrados. Para tragédia da história, finalmente venceram, promovendo o golpe que derrubaria João Goulart e instauraria a ditadura militar, em abril de 1964.
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Sábado, 27 de Junho de 2009

AS ELEGANTES RUAS DA SÃO PAULO DOS BARÕES DO CAFÉ

 

 

São Paulo de Piratininga foi fundada pelos jesuítas sobre uma colina, tornando-se um marco de partida para a conquista do interior do país. O aspecto urbano da cidade foi adquirido através dos séculos, mais das necessidades que se lhe impunham do que de um planejamento que construísse harmonicamente a maior cidade da Brasil.
Da vila que nasceu de uma missão jesuítica, saíram em busca de riquezas e sonhos, as entradas e bandeiras que conquistaram o sertão e o interior do Brasil, alargando conseqüentemente, as fronteiras coloniais e derrubando o Tratado de Tordesilhas, fazendo do território nacional algo muito próximo dos dias atuais. Passada a fase da conquista dos bandeirantes, a cidade esteve politicamente estagnada, o progresso adormecido do século XVIII à primeira metade do século XIX, quando foi despertada pelo ciclo do café. Constituindo a principal riqueza econômica do Brasil até 1930, o café transformou a cidade em uma metrópole, que mesmo depois do fim do ciclo, jamais deixou de crescer, erguendo-se numa das maiores cidades do planeta.
Com a riqueza do café vieram os barões, fazendeiros que enriqueceram cultivando a planta, sendo grande parte deles agraciados com títulos nobiliárquicos dado pelo Império. Se os títulos de nobreza e o dinheiro corriam soltos, a cidade que abrigava esta riqueza precisava deixar de vez o aspecto de lugar ilhado, cercado por várzeas alagadiças, brejos e ribeirões. Aos poucos, o dinheiro do café trouxe à velha Piratininga o glamour importado diretamente de Paris. Se a Praça da Sé era o pulsar da cidade, ponto de encontro de toda a população, nascia no fim do século XIX, no Vale Intransponível (hoje Vale do Anhangabaú), a parte sofisticada e elitizada de São Paulo, chamada de Ruas do Triângulo, perímetro delimitado pelas Ruas 15 de Novembro, Direita e São Bento. Nas Ruas do Triângulo, os barões de São Paulo fizeram a sua própria Paris, e a beleza sem harmonia da cidade deu passagem para uma desordenada, mas pulsante vida de ferveção populacional digna das ruas européias. Era a elitização dos trópicos, que começara na capital do país, o Rio de Janeiro e alcançaria São Paulo de forma indelével.

As Ruas do Triângulo

O centro histórico da paulicéia, também chamado de centro velho, surgiu na colina central da cidade, ladeado pelo Vale do Anhangabaú e pela Várzea do Carmo, encerrando ali o que se chamava de Triângulo. O Triângulo originou-se nos tempos coloniais através das sendas que serviam de comunicação entre os largos São Bento, da Sé e São Francisco.
Na segunda metade do século XIX as ruas de São Paulo eram estreitas, de terra batida e não iam além dos vales do rio Anhangabaú e do rio Tamanduateí. A cidade estava longe de ser comparada com a capital do Império, Rio de Janeiro, ou com Recife, ou com Salvador. O comércio do café, a importância que ele começaria a ter na economia do país foi o grande passo para tirar São Paulo da condição de capital periférica. Em 1867 a inauguração da ferrovia Santos-Jundiaí começou a mudar o destino da cidade. Em 1872, foi inaugurada a primeira linha de bondes, que eram puxados por animais. Era o começo da expansão das ruas do centro, a chegada da riqueza do café que começava a ser canalizada para o Estado e para a sua capital.
Se o Pátio do Colégio foi onde São Paulo nasceu, o Triângulo foi onde a cidade consolidou-se. Delimitado pelas Ruas Direita, São Bento e 15 de Novembro, o Triângulo tornou-se o ponto de concentração da grande vida social e comercial da cidade na época faustosa do ciclo do café, confinando lojas luxuosas, cafés sofisticados, que faziam para ali convergir a elite da sociedade paulistana, além dos cidadãos comuns, dos visitantes da cidade, dos estrangeiros e dos imigrantes que começavam a chegar para trabalhar nas lavouras do café ou nas fábricas que despontavam pela velha Piratininga.
O comércio latente e o luxo explícito das lojas das Ruas do Triângulo davam uma nova paisagem ao centro, até então evidenciado apenas pela beleza discreta das suas igrejas ou conventos seculares, como o de São Francisco, o de São Bento e o do Carmo. As três ruas que formavam o Triângulo foram, durante o governo de João Teodoro (1872-1875), devidamente calçadas, novidade que se estendeu para o Largo do Rosário e à Praça da Sé. Ao longo do tempo, por serem demasiadamente estreitas, as Ruas do Triângulo transformaram-se em ruas estritamente para pedestres.
O esplendor trouxe às ruas do Triângulo a luxuosa concentração de pessoas abastadas. Também a juventude com os seus arroubos de paixão, passeavam por lá, passando a utilizar a expressão “Fazer o Triângulo”, ou seja, transitar pelas ruas numa elegante caminhada de rapazes pelas ruas Direita, 15 de Novembro e São Bento, enquanto belíssimas moças faziam o sentido inverso, trocando olhares furtivos e apaixonados.
A vida era intensa no triângulo, que além de concentrar as casas de comércio mais importantes, traziam os principais bancos nacionais e estrangeiros, as agências marítimas, as casas de câmbio, as redações dos jornais, importantes escritórios de diversas companhias e casas de moda.
Neste sofisticado centro paulistano, o Largo do Rosário seria transformado na Praça Antônio Prado, que se tornaria o coração do Triângulo. Também um outro ponto do Triângulo há de ser mencionado, os “Quatro Cantos”, formado no cruzamento entre a Rua São Bento e a Rua Direita, local que se ergueria a Praça do Patriarca, que abrigaria o mais famoso e elegante magazine paulistano, o Mappin Stores, mais tarde transferido para a Praça Ramos de Azevedo.

Rua Direita, Grandes Vitrinas e Quiosques

Uma das mais importantes ruas históricas da capital paulistana, a Rua Direita já era citada em documentos do século XVII, como uma rua que seguia para a igreja de Santo Antônio. Esta igreja, erguida em homenagem a Santo Antônio de Lisboa, após grandes reformas, chegou aos dias atuais, situada na Praça do Patriarca. É justamente a igreja de Santo Antônio que será responsável pela toponímica da rua, chamada assim por ser o caminho que dava “direito” do terreiro da Sé à igreja de Santo Antônio. Por este motivo a rua chamou-se Rua Direita de Santo Antônio. Teria sido chamada ainda de Direita de Santo e Direita da Misericórdia. Com o passar do tempo o nome foi encurtado para Rua Direita.
Na época da explosão da economia cafeeira, a Rua Direita desembocava na esquina da Rua da Imperatriz (atual Rua 15 de Novembro). Pequenos prédios com lojas de armarinho tomaram conta da rua. Casas foram adquirindo nome, como a famosa e conceituada Casa Baruel. Suas vitrines atraíam os mais abastados, sendo local de passeio dos estudantes. A exemplo do Rio de Janeiro, vários quiosques foram erguidos, além de anúncios coloridos por toda a rua, dando a São Paulo, finalmente, o aspecto de uma grande cidade.
Tornando-se ao final do século XIX o maior componente das ruas do Triângulo, a Rua Direita foi tomada por grandes casas, entre elas a famosa Casa Lebre, que se tornou a de maior movimento na cidade; a Casa Alemã, a Casa Kosmos; as confeitarias Fasoli e Nagel; o Grande Hotel da França, situado no conhecido “Quatro Cantos”; a charutaria Nunes; o atelier do retratista Henschel, sucedido por Vollsack, que passou o negócio para o alemão Baumgarten; a sapataria A Bota Gigante e o joalheiro Birle. Além de todas as lojas de comércio, a Rua Direita abrigava o Bar Viaduto, que com a apresentação de uma orquestra todas as noites, era o local preferido para os encontros dos apaixonados.

Rua 15 de Novembro, a Mais Sofisticada da Cidade

Já no século XVII há documentos referentes à Rua do Paço Manoel Paes de Linhares, que seria a atual Rua 15 de Novembro. Esta rua não passava de pouco menos de meia dúzia de casas de taipa. No final dela, entre 1711 e 1715 foi erigida a igreja do Rosário (na atual Praça Antônio Prado), mais tarde dedicada à Irmandade do Rosário dos Homens Pretos, importante confraria que lutaria no fim do século XIX pela abolição da escravatura. Assim a Rua do Paço Manoel Paes de Linhares, na verdade uma trilha que servia de comunicação entre o Largo da Sé e a igreja do Rosário, passou a ser chamada de Rua do Rosário dos Pretos. O nome permaneceu até fevereiro de 1846, quando a família imperial brasileira visitou São Paulo, como homenagem à visita de dom Pedro II e de sua esposa, o local passou a chamar Rua da Imperatriz. Assim permaneceu até a proclamação da República, em 1889, passando a ter o nome definitivo de Rua 15 de Novembro.
De origem rural e humilde, que abrigou casas de taipa no início da sua história, tornou-se a mais nobre e cosmopolita das três ruas do Triângulo. A paisagem arquitetônica passou a imitar à parisiense. Aos poucos, a rua foi ladeando-se de uma vizinhança sofisticada, lojas com conteúdo aristocrático, além de abrigar os mais caros estabelecimentos comerciais e as então florescentes casas bancárias.
O paulistano abastado encontrava na Rua 15 de Novembro, todos os acessórios e procedimentos para trazer glamour à sua nova condição de habitante de uma metrópole que começava a borbulhar como tal; desde as mais caras jóias, às roupas sob os moldes europeus, os perfumes mais delicados e suaves, até o corte de cabelos e barba. Desde alfaiates, tecidos, cabeleireiros, sapatarias, joalherias e costureiras, tudo que se comercializava na Rua 15 de Novembro, era anunciado como procedente de Paris. Também aqui estavam estabelecidos: o London Bank, o Banco do Comércio e Indústria, o Banco Alemão e Credit Foncier.
Já no início do século XX, a Rua 15 de Novembro tornou-se a mais sofisticada da Paulicéia, sendo visto nela desfilar bondes, carruagens faustosas, conduzidas por cavalos de raça. Era para esta rua que convergiam os jornalistas, os políticos, os barões do café, os banqueiros e os intelectuais, tornando-se os seus cafés pontos de tertúlia e de transações comerciais. Na paisagem da rua, diferentes pessoas eram vistas, desde a fina sociedade paulistana, aos visitantes estrangeiros e os imigrantes que chegavam para conquistar um lugar ao sol. Mulheres elegantes, trajando toaletes e jóias que em nada deixavam a desejar a mais fina sociedade européia.
Era na Rua 15 de Novembro que se encontrava o escritório fotográfico de Guilherme Gaensly, de onde foram feitos os principais registros fotográficos da emergente sociedade paulistana que enriquecia com o café. Outro pioneirismo da arte visual foi visto pela primeira vez nesta rua, a chegada da “lanterna mágica”, também conhecida como “fotografia animada”, que mais tarde seria chamado de cinema. A primeira animação cinematográfica foi apresentada em um salão da 15 de Novembro. A bela iluminação noturna da rua ajudava a manifestação do que seria o futuro cinema.
Prédios suntuosos passaram a construir a paisagem da Rua 15 de Novembro. Neles charmosos cafés foram abertos, faustosas casas de modas e joalherias traziam os mais belos mostruários, os mais ricos e luxuosos objetos de consumo. Com prédios de estilo arquitetônico florentino, esta rua era a transposição definitiva da lapidação da velha São Paulo de Piratininga.

Rua São Bento, Estreita e Longa

O nome desta rua está diretamente ligado com a ermida erigida no seu extremo, que se abria em largo. A ermida daria origem ao mosteiro da ordem de São Bento, assim sendo, era chamada de “rua que vai para São Bento”, nome que iria persistir por quase três séculos. Finalmente passou a chamar Rua São Bento. Há uma declaração de Frei Gaspar Madre de Deus que dizia que a rua era inicialmente chamada de Rua Martim Afonso Tibiriçá, uma homenagem ao sogro de João Ramalho, que teria residido no Largo de São Bento. Mas documento algum foi encontrado que comprovasse a veracidade desta declaração.
A Rua São Bento era (e ainda é) uma estreita artéria de comunicação entre o Largo de São Bento e o Largo de São Francisco. É a terceira vertente das ruas do Triângulo, tida como a sua base. Sua característica sempre foi eminentemente comercial, mas com artigos menos sofisticados do que os encontrados na Rua 15 de Novembro e na Rua Direita. Uma das mais famosas casas de comércio ali aberta era a Casa Fuchs, especialista em artigos de couro, que na época produziam os arreios, malas e objetos artísticos. Outra loja famosa era Ao Grande Amazonas, especializada em exóticos produtos caipiras como ponchos de boiadeiros, chapelões de campeiros e perneiras, além de comercializar roupas para meninos. As agências de viagens constituíam outra parte do comércio que ali era oferecido ao paulistano.
A Rua São Bento, em sua grande extensão, trazia as mais diversificadas lojas de comércio, atraindo para si um grande número de pessoas de todas as classes sociais. Nesta rua foi aberto o maior café da cidade, que servia a bebida expressa para os seus freqüentadores em pé, deixando assim, o paulistano degustar a preciosa bebida responsável pelo enriquecimento e prosperidade da Paulicéia. Em 1998 o Café Girondino foi inaugurado na Rua de São Bento nos moldes dos antigos cafés ali existentes no início do século XX.
Se a primeira apresentação de uma animação de cinema aconteceu na Rua 15 de Novembro, na Rua São Bento foi construído o primeiro cinema da cidade, que recebeu o nome de Íris. Historicamente, a rua é considerada o berço do cinema. Mais diversificada no seu comércio, esta longa e estreita rua selava a base do elegante Triângulo paulistano.

Praça Antônio Prado, o Coração do Triângulo

Não se pode falar nas três ruas do Triângulo, Rua Direita, Rua 15 de Novembro e Rua São Bento, sem falar na Praça Antônio Prado, considerada o coração desta sofisticada região da São Paulo dos barões do café.
No século XVII foi erigida a igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, para que os negros da cidade, libertos ou escravos, pudessem freqüentar, visto que este procedimento era proibido às igrejas dos brancos. O local da igreja ficou conhecido como Largo do Rosário. Era no largo que Irmandade do Rosário dos Homens Pretos, dirigida por juiz e juíza, rei e rainha e outros membros menores, promoviam grandiosas procissões, às quais se seguiam em frente à igreja grandes congadas, maçambiques e batuques, animados ao som da música dos atabaques. No interior da igreja à noite, eram feitos os enterros dos cadáveres. À medida que socavam a terra sobre o morto, os negros entoavam estranhas melopéias. No início do século foi decidida a remoção da igreja para o Largo do Paissandu. Assim, em junho de 1904 a velha igreja do largo foi demolida, abriu-se ali uma passagem para a Avenida São João, até então um barranco com ladeira para o Paissandu. No lugar da velha igreja do Rosário (aqui em uma fotografia do princípio do século XX) surgiu a sofisticada Praça Antônio Prado, uma homenagem a prefeito que dirigiu São Paulo de 1899 a 1911. A nova praça ficou conhecida como o “Coração do Triângulo”.
No local exato onde ficava a igreja, foi erguido o primeiro prédio de escritórios da cidade, o Palacete Martinico, sede central da Ligth entre 1907 e 1929; também sede em diversas épocas, do jornal “O Estado de S. Paulo”, do City Bank e da Bolsa de Mercados & Futuros. Os atabaques da Irmandade do Rosário deram passagem para os pregões frenéticos da Bolsa, tornando-se um dos mais movimentados locais de negócio de São Paulo, onde foram erguidos altíssimos edifícios como o Martinelli, o Banco do Brasil e a torre do Banespa.
Tido como ponto borbulhante e de encontro de todas as personalidades de São Paulo, a Praça Antônio Prado assistiu nos encontros ali promovidos, a ascensão e queda do ciclo do café, que culminaria com a queda da Bolsa de Nova York, em 1929, levando ao suicídio ou à miséria vários dos chamados barões. Enquanto durou o glamour desta época da história paulistana, a Praça gerou a sua volta, um intenso mundo cosmopolita que traduzia a essência da riqueza paulistana e o seu modo de vida. À noite era descrita a presença de mulheres elegantes, vestidas de sedas e chapéus vistosos, percorrendo com tranqüilidade às ruas à volta da Praça.
No comércio local destacava-se a Casa Seleta, que vendia charutos, cigarros, cachimbos e piteiras; o famoso Café Brandão, que ocupava o primeiro andar de um prédio demolido para a construção do edifício Martinelli; a bem freqüentada Brasserie Paulista, que também cedeu lugar para a construção do prédio do Banco do Brasil; e ainda, a Confeitaria Castellões, famosa por suas irresistíveis empadinhas e croquetes de camarão, servidos quentes, feitos à hora.
Ainda hoje, mesmo com os rumores tétricos de que por baixo dos seus jardins, os cadáveres dos antigos negros sepultados na igreja do Rosário ainda lá estão; mesmo que já longe vão os tempos dos barões do café, a Praça Antônio Prado continua a ser um seleto e agradável local da Paulicéia, sem perder a sofisticação de outrora.
 
publicado por virtualia às 15:42
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