Quarta-feira, 8 de Outubro de 2008

AMADOR

 

 

Há filmes que se tornam especiais pela qualidade da película, originalidade do roteiro, interpretação dramática dos atores e do momento criativo do diretor, ou tudo isto junto e aquele momento emotivo único pelo qual passamos quando o assistimos. Amateur (traduzido literalmente para Amador) é daqueles filmes que consegue fazer de nós mais que um ardoroso espectador, envolvendo-nos em suas teias, a fazer de nós cúmplices dos seus labirintos quase sem saídas, mas de becos improvisados e escapes inesperados. De uma ação psicológica intensa, o filme vai do humor negro ao drama existencialista, do thriller ao policial, trazendo pistas de quem foi ou de quem é cada personagem. O filme é de Hal Hartley, cineasta americano, nascido em Lindenhurst, em 3 de novembro de 1959, considerado na década de noventa o maior ícone do cinema independente.
Amateur traz diálogos poucos convencionais, uma característica das obras de Hartley, além de um humor envolvente, onde cada ator carimba o aspecto corrosivo e essencial do seu personagem, tornando-os dilacerantes dentro de uma estética fotográfica favorecida por planos generosos. Feito em 1994, o filme foi uma ode à atriz francesa Isabelle Huppert, que escrevera para Hartley revelando-se sua admiradora, propondo-se a trabalhar com ele fosse em que papel ele a quisesse dirigir. O resultado do encontro é um momento brilhante da criação de Hal Hartley e do talento ilimitado de Isabelle Huppert, tornando-o um filme cult do cinema independente americano.
 

Amador em Busca de Uma Identidade
 


A história começa quando Thomas (Martin Donovan) é atirado de uma janela, caindo na rua. Quando desperta, está sem memória, totalmente despido da sua verdadeira personalidade e da sua vida. Envolve-se com a ex-freira Isabelle (Isabelle Huppert), que ganha a vida a escrever pornografia. Isabelle descobre um Thomas totalmente desprotegido e fragilizado pela obscuridade do seu passado. Quanto mais descobre as verdades que esqueceu, mais uma distância se faz entre o novo e o antigo Thomas. O caráter do novo a entrar em confronto com a marginalidade explícita do antigo. No meio do caminho está a ex-mulher Sofia (Elina Löwensohn), que ele transformara em uma famosa atriz de filmes pornôs, a quem explorava financeiramente. Sofia foi quem o atirou pela janela, na tentativa de se libertar dessa exploração e dos maus tratos.
Cada vez que se aproxima das evidências sobre o passado, mais a nova personalidade de Thomas rompe com a antiga. É a tentativa do recomeço, de poder ser alguém melhor. A descoberta do eu verdadeiro de Thomas entra em conflito com o seu caído, que fizera dele um homem violento, brutal no trato à esposa, envolvido com drogas e perseguido pela polícia. Não fosse a perseguição a fazer que ajuste contas com o passado, Thomas tornar-se-ia um homem melhor, renascido e revelado pela amnésia.
Também Isabelle é uma mulher que traz uma desconhecida dentro de si, aflorada na anônima que escreve pornografias. Da antiga freira nascera a ninfomaníaca de sexualidade reprimida, que ainda se mantém virgem. Ao se vestir com as roupas da ex-mulher de Thomas, Isabelle se transforma na mulher de libido efervescente que sempre domou dentro de si. Também ela rompe com a personalidade do antes, abraçando o novo de agora.
Na tentativa de salvar Thomas, Isabelle decide voltar ao seu antigo asilo, local sagrado, onde a busca pelo perdão pode ser alcançada. E é justamente essa busca do novo Thomas, a redimissão do antigo. Na fuga ele se depara com o cerco final às portas do asilo. Ali sente que todos os medos podem ser protegidos, o preço do perdão é a nova vida em prol dos pecados da antiga. O novo Thomas se redime dos pecados e já pode morrer em paz, sendo finalmente perdoado. Isabelle, agachada ao lado do corpo de Thomas, pronuncia as últimas palavras do filme, quando questionada pela polícia se conhecia aquele homem: “Sim, eu conheço este homem”. Aqui a prova de que ela conheceu o redimido e verdadeiro Thomas, apagando de vez o que antes existiu. É um dos momentos mais sublimes do cinema de Hartley, fazendo das ambigüidades da história um dos mais belos filmes da década de noventa. Amador? Inesquecível.
Amateur ganhou o Silver Award no Festival Internacional de Tóquio em 1994.

 Ficha Técnica:

Amador


Direção: Hal Hartley
Ano: 1994
País: Estados Unidos, França, Inglaterra
Gênero: Drama, Comédia, Policial, Thriller
Duração: 105 minutos / cor
Título Original: Amateur
Roteiro: Hal Hartley
Música: Hal Hartley, P. J. Harvey, Liz Phair e Jeffrey Taylor
Fotografia: Michael Spiller
Elenco: Isabelle Huppert, Martin Donovan, Elina Löwensohn, Damian Young, Chuck Montgomery, Dave Simonds, Pamela Stewart, Erica Gimpel, Jan Leslie Harding, Terry Alexander
Sinopse: Isabelle é uma ex-freira que ganha a vida escrevendo pornografia. Ela encontra Thomas, que não se lembra da vida que teve e ter transformado a ex-mulher em uma famosa estrela pornô. Juntos Isabelle e Thomas tentam desvendar esse passado.

FILMOGRAFIA DE HAL HARTLEY:

Longa-Metragens:

2006 – Fay Grim (Fay Grim)
2005 – The Girl From Monday (sem título em português)
2001 – No Such Thing (sem título em português)
1998 – The Book of Life (O Livro da Vida)
1997 – Henry Fool (As Confissões de Henry Fool)
1995 – Flirt (Flerte)
1994 – Amateur (Amador)
1992 – Simple Men (Simples Desejo)
1990 – Trust (Confiança)
1989 – The Unbelievable Truth (Uma Relação Muito Perigosa)

Curta-Metragens:

2004 – Sisters of Mercy (sem título em português)
2000 – Kimono (sem título em português)
2000 – The New Math(s) (sem título em português)
1994 – NYC 3/94 (sem título em português)
1994 – Opera No. 1 (sem título em português)
1993 – Iris (sem título em português)
1991 – Ambition (sem título em português)
1991 – Surviving Desire (sem título em português)
1991 – Theory of Achievement (sem título em português)
1988 – Dogs (sem título em português)
1987 – The Cartographer’s Girlfriend (sem título em português)
1984 – Kid (sem título em português)

 
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publicado por virtualia às 15:13
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