Domingo, 21 de Setembro de 2008

FLORBELA ESPANCA UMA MULHER ALÉM DO SEU TEMPO

 

 

Florbela Espanca foi uma das maiores poetisas da língua portuguesa. Nasceu em 8 de dezembro de 1894, na pequena Vila Viçosa, Alentejo. Filha de José Maria Espanca e de sua concubina Antonia da Conceição Lobo, é fruto fora do casamento do pai devido à impossibilidade da esposa lhe dar filhos, o que o faz recorrer a uma velha lei medieval de tê-los fora do casamento. Ainda com Antonia, o pai de Florbela tem outro filho, Apeles. Florbela é batizada pela própria esposa do pai e mais tarde, criada por ela.
É de uma personalidade passional e apaixonante. Herda do pai o amor pela fotografia, José Maria Espanca é quem introduz o cinematógrafo em Portugal. Freqüenta o ensino secundário em Évora, e mais tarde o curso de Direito, o que é visto como um ato de ousadia para uma mulher de sua época. Mas a ousadia faria parte para sempre da sua vida e da sua obra.
Os poemas de Florbela Espanca transportam o leitor para agudeza das palavras e do amor, sôfrego e passional, mas de uma beleza intensa que nos devora a alma, que nos faz sentir que corre o sangue da vida em nossas veias. A poesia de Florbela traz a vida, os sentimentos à flor da pele. A coragem de amar e de expor-se aos sentimentos, sem medo da sua condição de mulher e da época que a gerou. Florbela desafia o seu tempo. Está além dele, além das limitações que lhe são impostas. Tem a coragem de amar uma, duas, várias vezes. Casa-se por três vezes, o que cria a rejeição e animosidade da sua família tradicionalista, que lhe deixa de falar por algum tempo.
Há quem a acuse de amar o próprio irmão Apeles. Esse amor impossível e incestuoso lhe teria arrancado os mais tórridos poemas. Verdades ou lendas, o fato é que quando Florbela perde o irmão em 1927, morto em um trágico acidente, jamais se irá recuperar psicologicamente. Entra em estado permanente de depressão, fuma em demasia e vai perdendo o brilho e a saúde, cada vez mais abalada psicologicamente. Mergulha em um estado de solidão que a faz distanciar-se cada vez mais da paixão pela vida. Na passagem da noite de 7 para 8 de dezembro de 1930, dia do seu aniversário, Florbela Espanca põe fim à sua agonia perene, suicida-se ingerindo dois frascos de Veronal. Aos trinta e seis anos cala-se para sempre esta poetisa portuguesa que fez da sua poesia uma ode perene ao amor e à paixão.

Um Poema de Amor




Amar

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar : Aqui... Além...
Mais Este e Aquele, e Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente! ...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada dia:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...


 

Outro Poema




Ser Poeta (Perdidamente)

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

 


CRONOLOGIA

1894 – Nasce, em 8 de dezembro em Vila Viçosa (Alentejo), Florbela d’Alma da Conceição Espanca, filha de Antônia da Conceição Lobo e João Maria Espanca, casado com Mariana do Carmo Ingleza.
1895 – è batizada em 20 de junho de 1895, tendo como padrinhos Mariana do Carmo Ingleza , esposa do pai e como padrinho o amigo Daniel da Silva Barroso.1897 – Nasce o irmão Apeles em 10 de março.
1899 – Florbela freqüenta a escola primária em Vila Viçosa.
1903 – Data de 11 de novembro o poema “A Vida e a Morte”, provavelmente a primeira peça escrita por Florbela.
1908 – Ingressa no Liceu de Évora, onde permanece até 1912, de modo que a família muda-se nesse ano para Évora, a fim de facilitar-lhe a permanência nos estudos. Ainda em 1908, falece em Vila Viçosa a sua mãe Antônia da Conceição Lobo, aos vinte e nove anos de idade.
1913 – Florbela batiza, em 8 de maio, o primo Túlio Espanca, a quem se dedicará sempre com desvelos de assídua madrinha. No dia do seu aniversário, casa-se em Vila Viçosa, com Alberto de Jesus Silva Moutinho, um ano mais velho que ela, seu colega desde o primário.
1914 – Florbela e o marido vão morar no Redondo; ali atravessarão um período econômico difícil, já que se sustentam dos parcos rendimentos das aulas particulares a alunos de Colégio.
1915 – O jovem casal regressará a Évora, para viver em casa de João Maria Espanca e para dar aulas no Colégio de Nossa Senhora da Conceição.
1916 – Florbela seleciona, dentre a sua produção poética cerca de trinta peças produzidas a partir de 10 de maio de 1915, com as quais inaugura o projeto e o manuscrito Trocando Olhares. Começa a partir de princípio de junho, a se ocupar de um novo projeto poético, A Alma de Portugal. Após 18 de julho, envia a Raul Proença, a sua antologia Primeiros Passos.
1917 – Encerra o manuscrito Trocando Olhares em 30 de abril desse ano.Apeles, que tem dotes artísticos e que pratica sensivelmente a pintura, está seguindo carreira oposta em Lisboa: em 19 de agosto, termina o Curso da Escola Naval, graduando-se aspirante.Em 9 de outubro, Florbela, vivendo desde setembro em Lisboa, subsidiada pelo pai, matricula-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, que abandonará em meados de 1920.
1918 - Em abril, Florbela que se encontra adoentada, vai com o marido a Quelfes (Algarve) para repouso.
1919 – É publicado em junho, pela Tipografia Maurício de Lisboa, O Livro de Mágoas.
1921 – Apeles é graduado guarda-marinha pela Escola Naval. Em 30 de abril é decretado, em Évora, o divórcio de Florbela com Moutinho. Em 29 de junho, Florbela se casa com o alferes de artilharia da Guarda Republicana, Antônio José Marques Guimarães, então com 26 anos, o casal vai residir no Porto.
1922 – Transfere-se, em março, para uma Quinta na Amadora e, já em junho do mesmo ano, para Lisboa.
1923 – Publica Tipografia A Americana de Lisboa o Livro de Sóror Saudade.Em novembro, a poetisa se encontra novamente adoentada e segue para Gonça (Guimarães) a fim de tratar-se.
1924 – A 4 de abril, em Lisboa, Antônio Guimarães entra com o pedido de divórcio contra Florbela Espanca, que será deferido em 23 de junho de 1925.
1925 – Casa-se em 15 de outubro, com Mário Pereira Lage, médico que contava então trinta e dois anos, passando o casal a residir em Esmoriz.
1926 – Florbela e o marido mudam-se para Matosinhos. Apeles gradua-se primeiro-tenente da Marinha.
1927 – Florbela inicia o seu trabalho de tradutora de romances franceses para a Civilização do Porto, função que desempenhará até a morte.
Em vôo de treino, em 06 de junho, Apeles mergulha no Tejo, diante de Porto Brandão, morrendo tragicamente. Florbela reage pondo-se a produzir com afinco um livro de contos, à memória dele dedicado, o As Máscaras do Destino. Desde então, embora permaneça com a tarefa das traduções - ela se declara quase permanentemente deprimida.
1930 – Inicia a colaboração no recém-fundado Portugal Feminino com poemas e contos, na revista Civilização e no Primeiro de Janeiro, ambos de Porto.
Inicia um diário a 11 de janeiro, que se encerra em 2 de dezembro com uma única frase “e não haver gestos novos nem palavras novas”.
Na passagem de 7 para 8 de dezembro, data do seu aniversário, Florbela d’Alma da Conceição Espanca suicida-se em Matosinhos. É e é enterrada no Cemitério de Sedin. Em 17 de maiode 1964 tem os restos mortais transportados para o Cemitério de Vila Viçosa.

 

 

publicado por virtualia às 04:43
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1 comentário:
De Bichana a 16 de Outubro de 2008 às 14:50
É a minha poetisa de eleição!


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