Sexta-feira, 22 de Agosto de 2008

OS TEMPOS DE JANETE CLAIR NA TV GLOBO

 

 

A Rede Globo tem na produção das suas telenovelas o seu principal produto de venda. É através delas que a emissora mantém a liderança da sua programação diante das outras emissoras. Além do mercado nacional, a teledramaturgia da emissora é exportada para todos os cantos do mundo, com um merecido reconhecimento internacional pela qualidade do produto. Mas essa hegemonia nem sempre pertenceu à emissora fundada pelo jornalista Roberto Marinho, em 1965.
A telenovela apresentada em capítulos diários, surgiu em julho de 1963, com "2- 5499 Ocupado", produção da TV Excelsior, escrita por Dulce Santucci, protagonizada por Tarcísio Meira e Glória Menezes. Era uma produção sem pretensões que jamais pensou que aquela forma de dramaturgia alcançaria tamanha aceitação popular e tornar-se-ia ao lado do carnaval e futebol, uma paixão nacional.
Nos primórdios da televisão brasileira, os textos das telenovelas eram rebuscados e não atendiam a uma lógica psicológica das histórias e das personagens. Tudo era possível. Dramalhões mexicanos, histórias de príncipes, sheiks e castelos, desertos, tudo que a imaginação dos autores pudessem criar. As telenovelas não traziam uma identificação com o público ou com o cotidiano brasileiro. O primeiro grande sucesso de uma telenovela veio em 1965, na TV Tupi, com o dramalhão do cubano Félix Caignet, O Direito de Nascer, adaptado por Teixeira Filho e Talma de Oliveira. O sucesso alcançado deu direito a uma festa de encerramento no Ibirapuera, em São Paulo, e outra no Maracanãzinho, no Rio de Janeiro.
A telenovela tem as suas raízes nas novelas das rádios. México, Cuba e Argentina eram especialistas no gênero, influenciando o gênero no Brasil. Vários foram os autores e atores que migraram da rádio para a televisão. Ivany Ribeiro na TV Excelsior e Glória Magadan na TV Globo, dominavam o dramalhão televisivo. A era Glória Magadan na Globo é marcada pelo sucesso absoluto de tramas passadas nos castelos franceses, no Marrocos, no Japão, enfim, onde a sua fértil imaginação a levasse. Torna-se poderosa na emissora de Roberto Marinho. É ela a responsável pela supervisão da teledramaturgia da casa. Senhora absoluta dos destinos das suas personagens e por conseqüência, das carreiras do atores que dependiam da telenovela para brilhar.
 

Um Terremoto na Estréia

 
Em 1967, o ator Emiliano Queiroz escreve a novela Anastácia, A Mulher Sem Destino, que tinha por protagonista Leila Diniz. Sem habilidade para escrever novelas, o autor cria vários personagens para empregar os amigos e perde-se totalmente. Para resolver o problema da telenovela, Glória Magadan convoca uma novelista da rádio, com alguns trabalhos feitos para a televisão, a pouco conhecida Janete Clair. Dona de uma imaginação fértil e romântica, a jovem autora faz a sua estréia na Globo de forma antológica: cria um terremoto que mata quase todo o elenco da novela, restando apenas quatro personagens. Na confusão mata por descuido, a personagem que trazia o grande segredo da trama. Cria novos personagens e reescreve a história. Assim, com um grande terremoto, estréia na Globo, aquela que seria a grande responsável pela consolidação do gênero da telenovela na emissora.
Em 1969, já na Globo, escrevendo para a emissora “Passo dos Ventos”, Janete Clair escreve em simultâneo “Acorrentados” , para a TV Rio, a pedido de Daniel Filho, que deixara a Globo após se desentender com Glória Magadan.
No princípio Janete Clair, sob a supervisão de Glória Magadan, segue o estilo de teledramaturgia da emissora, criando dramalhões de época como "Sangue e Areia" e "Rosa Rebelde". Mas a fórmula está desgastada. A telenovela está consolidada como forma de diversão do telespectador brasileiro, o que exige renovação da sua linguagem e uma maior aproximação com o público. "Redenção", de Raimundo Lopes, a mais longa telenovela da televisão brasileira (596 capítulos), exibida pela Excelsior de 1966 a 1968, é a primeira telenovela a não ter um texto importado e a tratar de temas imediatos do cotidiano brasileiro. A novela transformaria Francisco Cuoco em galã nacional. Também a Tupi apresenta renovações na linguagem. Em 1968 "Antonio Maria", de Geraldo Vietri e Walter Negrão, a história de um imigrante português vivido por Sérgio Cardoso faz grande sucesso. Mas é com "Beto Rockfeller" de Bráulio Pedroso, de 1969, que a telenovela muda a sua linguagem. Pela primeira vez o protagonista é o herói de caráter duvidoso. Luís Gustavo levaria anos para desassociar a personagem da sua carreira.
Com a mudança de linguagem das telenovelas, a fase dos dramalhões de Glória Magadan na Globo, chega ao fim, e a autora é demitida. Em 1969 Janete Clair escreve "Véu de Noiva". A novela era a ruptura definitiva com os dramalhões de época. Pela primeira vez na história das telenovelas, os cenários são as praias da zona sul carioca, os autódromos de fórmula 1. Há trilha sonora. E as personagens pareciam com os nossos vizinhos. Regina Duarte e Cláudio Marzo são os protagonistas da história. Com "Véu de Noiva" é inaugurada a nova linguagem global, que uma década depois, iria conquistar o mundo com as suas telenovelas.
A sucessora de "Véu de Noiva" é a antológica "Irmãos Coragem", de 1970. A novela, um western tupiniquim, traz o público masculino para frente dos televisores, todos querem saber qual o destino dos irmãos João (Tarcísio Meira), Jerônimo (Cláudio Cavalcanti) e Duda (Cláudio Marzo). O Brasil segue atentamente a novela, única diversão de massas naqueles dias negros da ditadura militar. Com "Irmãos Coragem" a Globo tornar-se-ia a emissora líder de audiência, título que conserva até os nossos dias. E as histórias de Janete Clair são garantias de sucesso de público.

Chega a Televisão Colorida

Em 1972 as cores chegam à televisão brasileira. O primeiro programa colorido feito pela emissora foi o caso especial “Meu Primeiro Baile”, história criada por Janete Clair para inaugurar a tecnologia das cores na telinha, trazia em seu elenco os principais atores da emissora da época (Glória Menezes, Sérgio Cardoso, Tarcísio Meira). Curiosamente a primeira novela colorida da emissora e da televisão brasileira não é de Janete Clair, mas sim "O Bem-Amado", do seu marido, o dramaturgo Dias Gomes, de 1973. A Globo aos poucos vai inaugurando a cor nos seus horários de telenovelas. Na época a emissora tinha três horários distintos para apresentar as suas telenovelas: às 19 horas, às 21 horas (a famosa novela das oito) e às 22 horas. O horário das 22 horas é o escolhido para inaugurar as cores na televisão. O famoso “horário das oito” só teria sua primeira novela colorida em 1975, com "Pecado Capital", também de Janete Clair.
Com "Selva de Pedra", de 1972, Janete Clair consegue uma audiência histórica para a Globo de quase 100%, no famoso capítulo que Rosana Reis/Simone Marques (Regina Duarte) era desmascarada. A novela foi um marco na teledramaturgia brasileira. "Selva de Pedra" era a sétima novela ininterrupta de Janete Clair na emissora.
Até 1975 as novelas não eram transmitidas em simultâneo para todo o país. Um mesmo capítulo poderia ser transmitido em determinado estado brasileiro com até 60 dias de atraso em relação ao capítulo apresentado no Rio de Janeiro, o ponto de partida de transmissão da Globo. No início daquele ano a Globo torna uniforme a retransmissão para as suas associadas, e a telenovela passa a transmitir o mesmo capítulo em simultâneo para todo o território nacional.

A Censura nas Novelas de Janete Clair

A época de Janete Clair na Globo deu-se durante toda a ditadura militar, o que fez com que a autora sofresse com a censura. Devido à atuação da censura, teve que muitas vezes mudar o curso das suas histórias.
Em "O Homem Que Deve Morrer", de 1971, a história original seria uma versão mística adaptada da vida de Cristo. O personagem Ciro Valdez (Tarcísio Meira) trazia um mistério em torno do seu nascimento através de uma mulher virgem. A idéia foi totalmente censurada, o mistério foi resolvido com a personagem sendo filho de um extra terrestre. Em "Selva de Pedra" a censura impediu o casamento de Cristiano (Francisco Cuoco) e Fernanda (Dina Sfat), por o personagem ser casado com Simone (Regina Duarte), mesmo ele a pensar que a mulher tinha morrido em um acidente e estava viúvo. A solução foi a personagem ser abandonada no altar e 22 capítulos foram inutilizados, tendo que ser reescritos.
Em 1973, novamente a censura bateu à porta da escritora. A novela “Fogo Sobre Terra”, que contava a história de uma cidade desalojada pela construção de uma barragem hidrelétrica, algo comum nos anos setenta, foi censurada e a autora teve que improvisar, escrevendo de última hora a telenovela “O Semideus”. Em 1974 a novela censurada foi liberada e Janete Clair a escreveu, tendo Regina Duarte e Juca de Oliveira como protagonistas.
Em 1975 foi a vez de seu marido Dias Gomes, ter a sua novela, "Roque Santeiro", censurada. Dias antes de ir ao ar, os censores de Brasília descobriram que "Roque Santeiro" era uma adaptação da peça "O Berço do Herói", de Dias Gomes, que tinha sido censurada. A Globo ainda tentou negociar a sua liberação, mudando o horário de estréia da novela para o das 22 horas e trazendo "Gabriela", que na época era apresentada nesse horário, para as oito da noite. Chegaram a fazer as chamadas com a alteração, mas a censura foi irredutível e "Roque Santeiro" só seria feita dez anos mais tarde, em 1985. Janete Clair, que à época escrevia a telenovela Bravo! para o horário das 19 horas, foi chamada para criar uma história que pudesse encaixar todo o elenco da telenovela censurada. Ela criou "Pecado Capital" e aproveitou quase todo o elenco de "Roque Santeiro", evitando o desemprego de muitos atores contratados para a novela de Dias Gomes. E assim Francisco Cuoco deixou de ser Roque para se transformar em Carlão, Betty Faria trocou a Viúva Porcina pela Lucinha e Lima Duarte deixou de ser o poderoso Sinhozinho Malta para se transformar no empresário Salviano Lisboa.
Também "Duas Vidas" de 1977, sofreu com a censura. Novamente um tema social, a construção do metropolitano no Rio de Janeiro e a desapropriação de casas para viabilizar a obra. Na época Janete estava proibida de falar nos danos que a obra causava à população. Até a simples menção da poeira causada pelas obras foi censurada.
 

Um Horário Para a Despedida de Janete Clair

 
A autora tinha como atores preferidos Francisco Cuoco, Dina Sfat, Regina Duarte e Tony Ramos. A fase de ouro da carreira de Francisco Cuoco deve-se a Janete Clair. Depois da morte da autora, a carreira do galã entrou em declínio.
Vários foram os sucessos da época de ouro das novelas de Janete Clair, entre eles "O Astro", de 1977-1978, que parou o país com a pergunta “Quem Matou Salomão Hayalla?”.
'Pai Herói" (1979), trouxe à televisão o ator Paulo Autran, avesso ao veículo, que possibilitou a criação do antológico Bruno Baldaracci.
No início dos anos oitenta Janete Clair começou a lutar com um câncer. Escreveu a novela “Sétimo Sentido” (1982) já com alguma dificuldade. Ao terminar a novela, já debilitada pela doença, a autora tinha o sonho de fazer a sua última novela das oito. A direção da Globo sabia que a saúde da autora era delicada e não queriam arriscar a investir em uma produção em horário nobre e vir a perder a autora no meio da trama. A solução encontrada foi criar um horário para Janete Clair. Assim foi feito. Em 1983 a Globo ressuscita o horário das 22 horas (extinto desde 1979) para apresentar "Eu Prometo", que seria a última novela da autora. Janete Clair não terminaria a novela, em 16 de novembro daquele ano, o câncer a vencia. Glória Perez, então sua colaboradora, terminou a novela que trazia o par romântico protagonizado por Francisco Cuoco (seu ator fetiche) e Renée de Vielmond. Encerrava-se naquele ano a fase de Janete Clair nos corredores globais.
Devemos a ela a fórmula atual da telenovela. O cotidiano do brasileiro, os seus sonhos, as suas lutas. Janete Clair dizia que as suas novelas eram feitas de capítulos, não um todo. Não via a novela como uma obra completa, mas feita capítulo a capítulo, mesmo que perdessem o fio psicológico das personagens, o importante era prender o telespectador naquele dia. Como ela dizia, se estava triste, escrevia um capítulo triste, se estava alegre, assim seria o capítulo daquela noite. Dias Gomes quando escrevia "Sinal de Alerta", em 1979, estava em dúvida se uma das suas personagens deveria cometer adultério, se fazia lógica com o seu perfil psicológico. Perguntou a Janete Clair o que ela achava. A resposta “Faça não só que cometa adultério, mas que fique grávida do amante.” Era esta intuição fértil de Janete Clair que a fez uma autora ímpar. E só ela sabia trabalhar as emoções das suas tramas. Três telenovelas de Janete Clair ganharam uma segunda versão: “Selva de Pedra” (1986), “Irmãos Coragem” (1995) e “Pecado Capital” (1998) e nenhuma delas atraiu ao público. A manipulação genial das suas personagens só ela sabia fazê-lo.
Sem a presença de Janete Clair na história das telenovelas, talvez não teríamos o produto como o temos hoje. Esta mineira de Conquista, nascida em 1925, revolucionou o conceito da telenovela no país e ajudou na construção de um dos maiores impérios de teledramaturgia do mundo: a Rede Globo.


Telenovelas:

1964 – O Acusador – TV Tupi
1965 – Estrada do Pecado – TV Itacolomi
1967 – Paixão Proibida – TV Tupi
1967 – Anastácia, A Mulher Sem Destino (Co-Autoria Emiliano Queiroz) – TV Globo
1968 – Sangue e Areia – TV Globo
1968/1969 – Passo dos Ventos – TV Globo
1969 – Acorrentados – TV Rio
1969 – Rosa Rebelde – TV Globo
1969/1970 – Véu de Noiva – TV Globo
1970/1971 – Irmãos Coragem – TV Globo
1971/ 1972 – O Homem Que Deve Morrer – TV Globo
1972/1973 – Selva de Pedra – TV Globo
1973/1974 – O Semideus – TV Globo
1974/1975 – Fogo Sobre Terra – TV Globo
1975 – Bravo! (Co-Autoria com Gilberto Braga)
1975/1976 – Pecado Capital – TV Globo
1976/1977 – Duas Vidas – TV Globo
1977/1978 – O Astro – TV Globo
1979 – Pai Herói – TV Globo
1980/1981 – Coração Alado – TV Globo
1981/1982 – Jogo da Vida (Argumento – Escrita por Silvio de Abreu) – TV Globo
1982 – Sétimo Sentido – TV Globo
1983/1984 – Eu Prometo (Terminada por Glória Perez) - TV Globo
publicado por virtualia às 16:10
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