Sábado, 16 de Agosto de 2008

A FACE DE EROS

 

 
Conto e Poema de:
JEOCAZ LEE-MEDDI


O barco deslizava calmamente por águas turvas, em que a cor da lama confundia-se com o brilho prateado da Lua. Atravessava cidades, costumes, gente. Em cada margem do rio um cheiro de vida. No barco a solidão dos meus sonhos. Não havia outra voz que não a minha, outro mundo que não o meu. No universo da solidão fria das ideologias, as palavras como magia. O que era eu além das palavras? Se fosse mudo seria poeta? Se fosse surdo seria sábio? Em mim a palavra superava a lógica. Na minha boca elas pareciam exóticas. Navegar entre costumes, seguir o São Francisco do sertão de Minas Gerais até o desembocar no Atlântico. O São Francisco era o rio da vida do sertão seco, em brasa, agonizante, cheio de mistérios. Nele voavam sacis, caiporas, fadas, duendes, gnomos, sátiros de insaciável presença fálica. Atravessar o São Francisco, como um navegante sem a responsabilidade de Cabral. Mas na certeza da agonia dos profetas. A verdade das horas deslizava pelas águas.
Quando entrei naquele barco que trazia na proa as carrancas com mitos antigos, rodei o relógio no tempo. Para frente, para trás, não sabia. Viajava pelo tempo a procura de uma promessa. A Lua queimava o meu rosto, mais forte do que o Sol. Apesar de uivos de lobos, não hesitei em ousar descer do barco, pisar em terra. Nas margens do rio uma sombra. Não lhe via o rosto, mas era um semblante bonito, sorria, mas no rosto a luz não chegava. Tal qual um Eros audacioso, ele estendeu-me a mão, convidou-me para acompanhá-lo:
– Vem. Não tenhas medo.
– Quem és?
– Não sabes? Sou o que sempre esteve, sou o que te queima a verdade, mas gostas das mentiras. Vem, persiga-me porque eu o fiz toda a minha vida.
Persegui-lo? Quem era? Por que não lhe via o rosto? Via-lhe a alma, era quase igual a minha. Via-lhe o sorriso. Sorria-me, estendia-me a mão. Toquei-lhe a mão. O meu corpo flutuou, os meus pés perderam o chão. Flutuei tal qual um Ícaro insaciável. Subi, sempre na direção da luz prateada. Era a Lua a brilhar sobre as águas do mundo. Do São Francisco ao Atlântico, do Atlântico ao norte das encostas frias de um povo, de um sonho.
Para ele era simples voar, para mim era quase um milagre. Tinha medo de cair. Quando o medo assaltou-me a alma fui perdendo altitude, cada vez mais, pousei desajeitadamente no solo coberto de rochas e pedras pontiagudas que feriam os meus pés. Dali via o mar que vinha em forma de ondas em fúria a agredir as rochas, queimando-as com o sal a terra.
– Por que paraste? - Perguntou-me.
– Porque me lembrei que o homem não foi feito para voar. Mas vôo sempre, estou sempre a voar nos meus sonhos, sempre, é quase uma obsessão. Salto dos arranha-céus de uma cidade de pedra, atravesso ruas, pouso em universos de concreto. Vôo, sempre com um pé sobre o chão e outro no precipício dos sonhos.
– Se voas, então por que paraste?
– Medo de cair.
– Cair? Não tens asas de cera, não tens asas, tens sonhos, podes voar que não perdes as asas. Não acreditas que me procuras?
– Sempre, toda uma vida. Mas perco-te nas sombras.
– Toca-me o rosto. Vá, toca-me o rosto.
Toquei-lhe o rosto. Senti-lhe a pele, o sangue, o calor, mas não conseguia ver-lhe o rosto, por mais que tentasse. Era Eros a não querer revelar-se.
– Quem és tu?
– Sou o que te espera no fim da tua solidão. Quanto mais procurares por mim, mais próximo da solidão ficarás. Quando derrubares a sombra do meu rosto, terás que me reconhecer. Eu espero-te há tantos anos. Por favor, reconheça-me, porque não saberei fazê-lo.
– Como farei para reconhecer-te?
– Saberás, perdoa ter chegado assim, uma eternidade antes de ti.
– Uma eternidade antes? Chegaste uma eternidade antes de mim? Não, estás a condenar-me à eternidade da procura prevista?
Olhei para a fúria do mar. Tinha frio. O tempo parecia cruel nas águas daquele mar. Ele abraçou-me, quase como um abraço do tempo. O seu calor fazia com que o frio fugisse do meu ser, com que sentisse um conforto no corpo, quase como uma paz que a vida não dava, mas que nele encontrava.
– O mar parece trazer o sangue dos homens. - Disse-lhe eu.
– Sim, porque banha ilhas cheia de calor humano, mas coberta por duendes, por gnomos, gênios do mal, gênios sanguinários e cruéis. Não reconheces a ilha? Não reconheces a tua poesia? Não reconheces o sangue dos poetas que dela surgiram? São os teus poetas, eles dirão onde me encontrar. Os teus poetas dirão o meu nome, nunca te esqueças. As ilhas, a poesia. Já sentes calor?
– Sim, o frio do mar passou, parece que se acendeu um braseiro.
– Então olha ao teu redor. Olha!
Já não estava na ilha do mar frio, de gênios furiosos e sanguinários. Lá embaixo via uma cidade na qual nunca estive, perdida milhares de anos no tempo. Parecia Atenas. Via as suas ruas sujas. Olhei por detrás de mim. Senti um frio de fogo no meu ser. Era a Acrópole, de cima da colina eu via os gregos e os seus deuses, os antepassados gloriosos nas páginas de Homero, bem antes de navegarem pelas páginas de Luís de Camões.
– Também aqui terás resposta. É aqui que encontraste todos os elementos da tua literatura. És uma tragédia grega, nunca um romance ocidental. Por favor, não me deixas fugir, tens que me reconhecer, só tu o farás.
– Quem és tu? Porque não somos apresentados? Porque tenho que saltar as noites e a eternidade? Que eternidade me resta depois de ti? Eu ainda nem sei que caminho percorrerei para cruzar o teu. Vá, revela-me o teu rosto, revela-me o teu nome. Revela-me porque eu já não me entendo, eu já não sei onde anda toda a minha paz, já não sei nada, estou cansado, cansado e saturado da paixão, mas nunca do amor. Se pelo menos soubesse a diferença entre a paixão e o amor. Mas no meu ser é tudo tão igual, quase natural a força e a paixão.
– Há tantos segredos que aprendi para contar-te. Nem sabes das aventuras que percorri, os ferimentos com os quais arranhei a minha alma para que me trouxesses os ungüentos que aliviariam toda a dor. E continuarei assim, ferindo-me de morte, até que me venhas salvar, porque eu já sou o teu ungüento. Não me deixa agonizar tantos anos, reconheça-me.
– Mas nem sequer sei aonde vou.
– Sabes, vais na direção da minha sombra. Mas se te matas não me acharás. Não ouses a enfrentar a tua sorte, serás infeliz.
– Tal como tu, ainda tenho que surrar a alma para reconhecer-te.
– És teimoso. Nem sabes das poesias que tenho para ler-te nas noites em que teimas em destruir o construído. Não sejas o eterno escorpião. O escorpião que numa margem do rio pediu a uma rã para atravessá-lo até o outro lado. Mas a rã respondeu-lhe que não, porque se o fizesse estaria a suicidar-se, pois o escorpião picar-lhe-ia a cabeça. O escorpião retrucou, argumentou que se picasse a cabeça da rã e ela morresse antes de chegar à outra margem, ele também morreria afogado. A rã achou coerente o argumento e aceitou atravessar o escorpião para o outro lado do rio. No meio da travessia o escorpião não resistiu e picou-lhe a cabeça. Antes de morrer a rã perguntou-lhe porque fazia aquilo. Ele apenas respondeu-lhe que não sabia, estava na sua natureza.
– E o que tem a ver comigo?
– Tem que se picas a cabeça da rã, não atravessas o rio sem ponte onde eu espero-te do outro lado.
– Quanto tempo estarás à minha espera?
– Até a eternidade. Se não chegares, a vida passará por nós sem sal, sem a promessa das horas. Passaremos, como passam as multidões sem nunca chegarem às promessas de vida que lhe são de direito.
– Queria fazer como fizeste, chegar antes. Tenho pressa, tenho sede de decifrar a esfinge, de ver o rosto do Eros.
– Não, se não revelas a sombra, viverás à margem dela. Viverás sem luz. Nem todas as sombras que encontrares terão luzes nos becos sem saída que te irão deixar. Nem todas as sombras escondem a luz, são simples sombras.
– Mais do que sombras, procuro vidas, calores, procuro a revelação dos poetas. Faço da minha vida a promessa de um poema, mas qualquer dia a poesia irá consumir-me e as palavras adormecerão. Vivo uma poesia comprometida com o cansaço da paixão, mas com a certeza do amor. Acho que vivo uma poesia de Yeats...Yeats... A ilha, a poesia, Yeats... O mar furioso, a ilha...
– Não digas o nome, sabes qual é. Tens que aprender com a dor para que me ensines. Reconheça-me, estarei entre ilhas, entre sonhos, entre correntes. Vê o mar, vê o tempo, descobre-me.
Abraçou-me outra vez, beijou-me. A lua refletiu-lhe o rosto. Eros revelado, finalmente. O seu rosto era igual ao meu. Uma vez revelado, ele voou para junto de uma mulher de asas com um cheiro de orquídeas no corpo. A mulher despejava pétalas de rosas na minha cabeça. Rosas azuis, quase infinitas, quase sem fim. Voei pelas ruas de cidades antigas e infinitas, percorri cada canto de ruelas estreitas, enfeitadas de orquídeas. A mulher levou-me a sombra. O calor desapareceu, a correnteza do mar voltou, as águas do Atlântico puxou-me como um zoom, as carrancas do São Francisco tragaram-me. A mulher tal qual Ícaro, perdeu as asas, foi caindo, caindo, afundou-se entre pétalas azuis.
Preso no tempo e pelas horas, perdi o sorriso da sombra. Já não precisa saber o seu nome. Um eco mais fundo levou-me à eternidade da espera. No meu corpo o calor daquele abraço, o calor da paz, do silêncio do mar, dos mistérios da Lua, dos pontos cardeais do planeta. A eternidade perdida entre o ontem e o hoje. Os dias, as noites, os anos, as ilusões. A ilha dos duendes, dos gnomos, dos poetas, de Yeats. As ilhas de Homero, a eternidade da minha agonia.



Talvez um dia, quem sabe,
Quando menos esperar,
Ou quem sabe até mesmo esperado,
Encontrarei essa porta procurada,
Entrarei brilhante e sorridente,
Como a saída triunfal e alucinante de um parto,
E de dentro um sorriso,
Esse olhar tantas vezes socorrido,
Esse sorriso largo e infantil,
Algumas vezes embaçado pelas lágrimas,
Esse corpo pequeno e louco,
Viajante intempestivo de alguns desejos,
Essas mãos leves e rápidas,
Tremidas na inconstância de ser feliz,
Esses pensamentos discretos e sutis,
Essa cara angelical e distraída,
Essa alma infinita e atormentada,
Esse braço, abraço,
Sim, esse abraço,
Esse velho amigo conhecido,
Como se fôssemos apenas um,
Encontrei a ti do outro lado,
Essa porta mágica que estava em cada esquina,
Em cada sonho, cada bar, cada mágoa,
Cada amor, cada momento fugitivo,
E finalmente a porta aberta,
E tu do outro lado,
Então sorrirei aliviado e direi:
Finalmente encontrei eu mesmo.

publicado por virtualia às 05:21
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