Domingo, 20 de Setembro de 2009

A REVOLUÇÃO ISLÂMICA DO IRÃO

 

 

Em outubro de 1978 o Irã foi assolado por uma grande onda de protestos, culminando em greves e invasão de fábricas. Governado pela monarquia do Xá Reza Pahlavi, o Irã era o segundo produtor de petróleo da região, e ao lado da Arábia Saudita, o maior aliado dos Estados Unidos no mundo árabe. O xá era tido como um governante opressivo, que encarcerava todos os opositores às suas idéias, sendo o seu governo constantemente denunciado pela Federação Internacional dos Direitos Humanos pela tortura praticada aos presos políticos.
Mesmo diante da fama internacional de monarca ditatorial, Reza Pahlavi eliminou o feudalismo do Irã no início dos anos 1960, ação chamada pela população de “Revolução Branca”. Sua fortuna pessoal contrastava com um país de população pobre e fervorosamente arraigada às tradições religiosas islâmicas. A tentativa do xá de ocidentalizar o Irã, foi um dos principais motivos da elevação do povo iraniano.
Uma grande aliança entre líderes religiosos, organizações de esquerda e grupos liberais estava determinada a derrubar o xá. Deslocando-se da cidade “santa” de Quom, o movimento revolucionário alcançou os distritos petrolíferos de Abadan e chegaram à capital, Teerã, suscitando violentos confrontos com a polícia do xá e muitos mortos pelo caminho. A adesão de setores da defesa, a deserção de tantos outros à revolta, fizeram com que Reza Pahlavi deixasse o país no dia 16 de janeiro de 1979. No dia 1 de fevereiro chegava em solo iraniano o aiatolá Khomeini, principal líder de oposição ao regime do xá. A 11 de fevereiro estava consolidada a revolução. Com a chegada dos aiatolás ao poder, encerrava-se 2500 anos de monarquia na Pérsia, criando-se uma república teocrática islâmica, baseada nos conceitos da religião muçulmana.
A Revolução Islâmica, como foi aclamada, aparentemente uma insurreição local, transformou não só a história do Irã, como de todo o planeta. Desde então, o mundo árabe mudou totalmente as relações com o ocidente, fortalecendo os princípios islâmicos tão ameaçados pela ocidentalização dos seus costumes. O rompimento do Irã com os Estados Unidos deixou cicatrizes profundas entre esta nação e a sua diplomacia com os países islâmicos. A revolução serviu como inspiração de como o Estado Islâmico deveria ser implantado, permitindo a proliferação de diversos movimentos radicais, chamados pelo ocidente de fundamentalismo islâmico. Para defender a revolução de um possível golpe do ocidente, o Irã elegeu os Estados Unidos como o grande inimigo, e adotou medidas extremas para sobreviver ao gigante. Neste estreitamento de relações, o mundo árabe muitas vezes incompreendido pelo ocidente, gerou mártires fervorosos, defensores dos seus princípios, muitas vezes travestidos de terroristas, com ataques trágicos ao ocidente. Depois da Revolução Islâmica do Irã, realizada em 1979, os árabes e as grandes potências ocidentais jamais conviveram pacificamente, na radicalização de ambas as partes, o mundo ficou menos seguro e o sangue de inocentes, tanto árabes como ocidentais, continua a ser derramado em nome das contradições e intolerâncias de cada mundo estabelecido, política e teologicamente.

A Dinastia dos Pahlavi

Em 1901 foi descoberto o petróleo no Irã, conhecido internacionalmente como Pérsia. Desde então, a dinastia Qajar, que reinava sobre o país, aceitava a divisão do mesmo em áreas de influência estrangeira, sem uma centralização do poder, desde que pudesse ser soberana.
No fim de 1920, a Rússia, recém transformada no regime socialista bolchevique, ensaiou uma marcha até Teerã, com o objetivo de anexar o país às futuras repúblicas soviéticas. Esta ameaça latente de invasão e outros transtornos, criaram uma crise aguda sobre o país, favorecendo a simulação de um golpe de estado engendrado por Tabatabaee e o militar Reza Khan, em 1921. Tabatabaee tornou-se primeiro ministro e Reza Khan emergiu como ministro da guerra.
A ascensão de Reza Khan ao poder deu-se rapidamente, em 26 de outubro de 1923 ele derrubou a dinastia Qajar, obrigando o jovem monarca Ahmad Shah Qajar a exilar-se na Europa, tornando-se primeiro ministro. Reza Khan impôs a sua supremacia em 1925, submetendo todas as tribos do país. Após forçar o parlamento a depor o jovem Qajar, foi declarado xá (shah) por uma Assembléia Constituinte convocada em 12 de dezembro de 1925. Em 15 de dezembro daquele ano, Reza Khan fez o juramento imperial, mudando o nome para Reza Pahlavi, sobrenome que até então não existia na Pérsia, tornando-se o primeiro xá da dinastia. Em 25 de abril de 1926, recebeu a coração imperial sobre a cabeça.
Reza Khan manter-se-ia no poder até 1941, quando a Grã-Bretanha e a União Soviética invadiram o Irã, obrigando-o a abdicar em favor do seu filho, Mohammed Reza Pahlavi. Esta invasão deveu-se às relações do Irã com a Alemanha nazista. Às vésperas da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha era o principal país com o qual o Irã tinha relações comerciais. O medo dos aliados de que o petróleo iraniano servisse para abastecer os nazistas, fizeram com que os invasores garantissem o precioso ouro negro para eles; pesou a simpatia do xá pela causa nazista, apesar de ter declarado o Irã neutro, e, principalmente, a sua recusa de deixar que as forças aliadas usassem o território iraniano como corredor para transportar armas para a União Soviética, fortalecendo-a contra os alemães. Diante da irredutibilidade do xá, os aliados optaram em pôr o seu filho no poder, achando-o mais sensato e mais confiável diante das questões políticas com o ocidente. Reza Khan, ao abdicar, seguiu para o exílio, onde morreu em 1944. Apesar de analfabeto, derrubou uma dinastia, implantando a sua própria, foi responsável por mudanças substanciais no Irã, país que governou com mão pesada e de forma ditatorial.

A Primeira Fase do Governo de Reza Pahlavi

Mohammed Reza Pahlavi tornou-se xá do Irã em 16 de setembro de 1941. Seria o último xá da sua dinastia e da história da Pérsia. O seu reinado teve duas fases: de 1941 a 1953, quando fugiu para Roma, exilando-se por uns dias, até retornar ao poder com a ajuda dos americanos; e, de 1953 a 1979, quando foi deposto pela revolução iraniana.
Reza Pahlavi ascendeu como xá do Irã depois da abdicação do seu pai, Reza Khan, com 22 anos ainda incompletos. A primeira fase do seu governo resumiu-se em aumentar a sua fortuna pessoal, uma das maiores do mundo, graças aos royalties do petróleo. O porte atlético e carisma sedutor fizeram dele um homem com fama de playboy internacional, que aparecia constantemente nos lugares mais badalados de Paris ou nos cassinos de Monte Carlo, enquanto o Irã definhava na pobreza e no analfabetismo.
Em 1951 Mohammed Mossadegh, um político nacionalista influente, que no passado fora veementemente contra o governo de Reza Khan, sendo preso por alguns anos, foi eleito como primeiro ministro. Por causa da imensa popularidade de Mossadegh, Reza Pahlavi teve que aceitar a sua eleição. Em 1 de maio de 1951 o nacionalismo do primeiro ministro vingou, conseguindo aprovar no parlamento a nacionalização do petróleo e da Anglo-Iranian Oil Company, o que deixou a Grã-Bretanha irritada. Como retaliação, os britânicos tentaram embargar o petróleo iraniano nos mercados internacionais, na tentativa de levar a economia do país, movida pelo óleo negro, ao colapso. Os Estados Unidos, temendo a aproximação do Irã com a União Soviética, pôs-se contra o embargo britânico.
Após a nacionalização do petróleo, Mossadegh viu-se cada vez mais fortalecido, ambicionando ter mais poderes como primeiro ministro, instaurando uma crise entre ele e o xá. No cenário político internacional, voltava o fantasma da União Soviética desejar controlar o Irã, transformando-o em uma república soviética. Este argumento convenceu os Estados Unidos a apoiar a Grã-Bretanha no plano de afastar Mossadegh do poder.
Em 15 de agosto de 1953, instigado pelos americanos, o xá demitiu o primeiro ministro, provocando uma grande crise popular no seu governo, assolado por tumultos em favor de Mossadegh. Diante da revolta popular, Reza Pahlavi foi obrigado a deixar o Irã, refugiando-se em Roma. Mossadegh permaneceu no poder até o dia 19 de agosto. Reza Pahlavi, com a ajuda da CIA, que desencadeou um movimento estratégico chamado de Operação Ájax, retornou triunfante ao país, depondo Mossadegh do cargo de primeiro ministro.

O Último Xá do Irã

Ao voltar dos poucos dias de exílio, Reza Pahlavi mudou totalmente a sua postura como líder do Irã. Assumiu uma autoridade plena que até então não tinha, tornando-se um monarca dinâmico, que chegava a trabalhar 18 horas por dia. Estava decidido a transformar o Irã em uma grande civilização e potência industrial, como costumava declarar. A partir de então, revelou-se um autêntico seguidor do seu pai, Reza Khan, decidindo executar um programa de grandes reformas internas.
Durante o governo do xá, o Irã tornou-se um grande aliado dos Estados Unidos, mantendo excelentes relações com os americanos. Reza Pahlavi não hesitou em romper com a organização tradicional do Islã em assuntos como a jogatina, o consumo de álcool e as relações sexuais antes do casamento, recusando-se a banir tais práticas do Irã. Foi qualificado de demagogo pela direita nacionalista, tornando-se incompreendido pelos conservadores.
Em 1960 promoveu a “Revolução Branca”, que aboliu o feudalismo do Irã, referendada pela população, instalando um clima de euforia que se espalhou pelas vilas camponesas que começavam a executar as reformas. Mas o xá freou as ações populares, impondo pessoalmente o plano de ação das reformas, aplicado por agentes governamentais, salvaguardando os interesses de outras classes sociais. Foram criados grupos de trabalhos chamados de “exército do saber, da higiene e do desenvolvimento”, que envolviam médicos, professores e técnicos que levavam às vilas os serviços que não possuíam, evitando assim, a participação popular nas questões políticas e sociais.
Em 1963, o regime de monarquia parlamentar foi instituído no país, mas o xá continuou governando absoluto, com o seu retrato espalhado pelos quatro cantos do país. A sua imagem de pé, junto à família real, atravessaria os anos setenta colada nas paredes, nos hotéis, nos restaurantes e nas vitrines públicas.
Reza Pahlavi também era conhecido pelos tantos amores que viveu com belas mulheres. Casou-se pela primeira vez em 1939, com Fawzia, irmã do rei Faruk do Egito. A mulher deu-lhe uma filha, como não lhe deu um herdeiro, divorciou-se dela em 1948. Voltou a casar com Soraya Esfandiari, numa cerimônia que atraiu todos os holofotes da imprensa mundial, tida como digna das mil e uma noites. Soraya, a princesa dos olhos tristes, construiu uma imagem que conquistou não só o Irã, mas o mundo. O drama de Soraya, que era estéril, foi acompanhando pelos jornais e revistas do mundo inteiro, terminando com o divórcio, em 1958, já que a bela monarca não aceitou uma segunda esposa para o marido, costume perfeitamente admissível nas leis islâmicas. Casou-se pela terceira vez com Farah Diba, que lhe deu, em 1960, o herdeiro esperado, Ciro Reza. Do terceiro casamento, Reza Pahlavi teve três filhos, dois meninos e uma menina. Em 1967, com a dinastia assegurada duas vezes, Reza Pahlavi foi coroado xainxá e, pela primeira vez na história da Pérsia, uma mulher tornou-se imperatriz, com direito a sucessão. Farah Diba acompanharia o marido até a sua morte no exílio, em 1980.

O Poder do Irã do Xá

Com o decorrer dos anos, o governo de Reza Pahlavi passou a ser conhecido como opressivo e corrupto. Qualquer pessoa que se lhe opunha era mandado para o cárcere, originando denúncias de atentados aos direitos humanos e à liberdade, que adquiriam eco dentro do país e na comunidade internacional. Para fiscalizar o território, o xá instalou a polícia secreta Savak, que a tudo controlava, proibindo os estudantes, os intelectuais e os oficiais do governo de participarem de qualquer discussão pública.
Todo governo opressivo gera oposição e revolta. O do xá não foi exceção. Uma crescente oposição, sempre esmagada pela polícia secreta, tornou-se cada vez mais organizada. A oposição religiosa era a principal, oriunda desde a época de Reza Khan, quando líderes religiosos foram presos e até mesmo mortos. A comunidade de estudiosos das leis islâmicas, a Ulema, condenava a opressão do regime, assim como as prisões e a violência física contra os seus opositores; assumiam compromissos de luta contra a pobreza e às diferenças sociais e, principalmente, tentavam preservar a “contaminação” da população pelo modo de vida ocidental, resguardando os princípios islâmicos seculares. Quanto mais o governo reprimia as manifestações contra os costumes ocidentais, mais a oposição religiosa aumentava, espalhando-se por diversos setores da sociedade iraniana.
Um dos maiores opositores do regime do xá era o aiatolá Khomeini, que propagava para os seus seguidores ser Reza Pahlavi um grande tirano demagogo. Khomeini foi preso e enviado para o exílio no Iraque, em 1964, desencadeando uma onda de protestos dos líderes religiosos. O xá enfrentou com violência os protestos dos clérigos, prendendo e matando manifestantes.
A partir da “Revolução Branca”, a economia do Irã cresceu consideravelmente. Os aumentos constantes do petróleo e a exportação de aço foram os principais responsáveis por esse crescimento. Reza Pahlavi gastava grande parte do dinheiro do petróleo adquirindo armas do ocidente. Localizado em uma região estratégica do Oriente Médio, o Irã sempre despertara a cobiça das grandes nações. Numa época de Guerra Fria, o xá achava fundamental investir em armamento para proteger a soberania do país. Em 1974 aplicou 26% da renda nacional em defesa, transformando o exército iraniano no segundo maior da região, perdendo apenas para o de Israel, além de possuir uma marinha moderna e flexível.
Na primeira metade dos anos setenta, Reza Pahlavi emprestou 3 bilhões de dólares para a Itália, 1,2 bilhão para as indústrias britânicas, 7 bilhões de dólares aos povos subdesenvolvidos da África e da Ásia, além de aplicar 4 bilhões de dólares em empresas americanas de comunicações, depositou 1 bilhão no Banco Mundial; comprou 25% das ações da Krupp, empresa alemã de aço. Em março de 1975 o xá contratou aos Estados Unidos a construção de seis usinas nucleares, pelas quais pagaria 15 bilhões de dólares. Paradoxalmente, os Estados Unidos armou o seu futuro grande inimigo, sendo hoje o principal opositor de o Irã ter armas e usinas nucleares.
Em 1975 a renda nacional do Irã chegou a 30 bilhões de dólares. Apesar do grande crescimento econômico, a distribuição de renda não atingiu à população pobre, a classe média urbana não alcançou grandes saltos e melhoras. Contrastando, a elite aumentava cada vez mais a sua riqueza, os estrangeiros que trabalhavam para as companhias ocidentais eram os maiores privilegiados da riqueza iraniana. Os excessos do xá eram vistos como uma afronta à população carente. Um exemplo foi em 1971, quando os 2500 anos de monarquia no Irã foram comemorados com um fausto jamais visto no país. Em Persépolis, primeira cidade real do império aquemênida, onde subsistem vestígios do palácio de Dario I, 250 limusines vermelhas Mercedes-Benz estavam à disposição dos convidados; Lavin desenhou os uniformes dos empregados; o Maxim’s de Paris forneceu os chefs e os cardápios, com exceção do caviar iraquiano, toda a comida das comemorações viera da França. Havia helicópteros para que se pudesse deslocar de um para o outro dos cinco palácios que havia no Irã. A despesa da festa ficou avaliada em 200 a 300 milhões de dólares. O xá convidou todos os poderosos do planeta. Esqueceu-se de convidar o povo iraniano.

Agitações e Revoltas Antecedentes à Revolução

Se a economia iraniana crescia, o país era visto com desconfiança pelo mundo árabe, principalmente na crise gerada pelo embargo de petróleo pelos árabes em 1973, que afetou a economia mundial. Em protesto ao apoio do ocidente à guerra de Israel contra os países da região, os árabes decidiram diminuir a produção de petróleo no mundo, fazendo com que os preços subissem ao topo. O Irã do xá foi contra o embargo, continuando a negociar o seu petróleo com os ocidentais, alegando na época: “... o Irã tem 32 milhões de habitantes... os que se negam a vender petróleo ao ocidente, mas possuem uma população de apenas 700 mil habitantes e tanto dinheiro que poderiam viver três ou quatro anos sem vender uma gota...
Em 1975 o xá aumentou o controle sobre o povo iraniano, tentando diminuir a oposição de líderes religiosos, ressaltando a propaganda a favor da civilização persa antes do islamismo. No ano seguinte alterou o calendário lunar islâmico, trocando-o pelo calendário solar. Ao acabar com o feudalismo iraniano, terras dos líderes religiosos foram divididas, diminuindo o poder das suas rendas. O direito de voto dado às mulheres afrontou os mais conservadores.
Numa época em que imperava a guerra fria, juntou-se à insatisfação dos líderes religiosos os opositores da esquerda iraniana, entre eles o Tudeh, Partido Comunista Iraniano, patrocinado pela União Soviética; os grupos organizados Fedayin do Povo (maoístas) e os Mujahedin do Povo (marxistas islâmicos), muitos dos quais treinados em campos de guerrilha cubanos e palestinos. A estes grupos juntou-se a população pobre do país, principalmente os que viviam nos campos e nos bairros pobres de Teerã.
A população que se educava, o silêncio imposto aos estudantes e aos intelectuais, fizeram com que o regime do xá fosse visto como autoritário e corrupto. A crescente pressão da imprensa internacional às atrocidades do regime, o apoio de intelectuais internacionais à oposição de Khomeini no exílio, tudo isto criou um processo de propaganda negativa ao governo de Teerã. Estava formada a situação de insurreição que antecederia à revolução.

A Queda do Xá

No decorrer da segunda metade dos anos setenta, a população pobre e descontente voltou-se cada vez mais para os valores básicos do islamismo, opondo-se às modernidades ocidentais que não lhes acrescentava melhora de vida, além de distanciá-los dos códigos morais da sua fé. Por outro lado, a repressão da Savak era cada vez mais intensa, tornando as reformas do xá desacreditadas e vazias. A política da reforma agrária atingira os líderes religiosos, enfurecendo-os de forma indelével.
A repressão do regime à medida que se tornava intensa, atraiu para si a curiosidade dos ocidentais, que passaram a denunciar na imprensa internacional o governo autocrata do xá. Vários movimentos dos direitos humanos opuseram-se à opressão do regime de Teerã, fazendo denúncias constantes, foram tantas que obrigaram o governo de Jimmy Carter a ameaçar com embargo, as armas que vendia ao xá. A pressão internacional resultou em um abrandamento na repressão aos opositores do xá, em 1977. 300 presos políticos foram libertados, a censura às idéias oposicionistas foi relaxada, havendo reformas no sistema judicial.
Mas o abrandamento da opressão do regime do xá chegara tarde. Muitas cicatrizes haviam sido criadas. Uma vez abrandada a repressão, os protestos tantos anos calados, aumentaram em voz e expressão. Pensadores, intelectuais, escritores e jornalistas uniram-se em protestos para obter a liberdade de expressão e de pensar.
O fantasma de Khomeini assombrava o regime do xá. Os ataques da imprensa oficial do país ao líder, a pressão do xá para que o governo do Iraque expulsasse Khomeini do seu território, obrigando- a exilar-se em Paris, enfureceram a oposição, deflagrando, em 1978, uma onda crescente de protestos a favor do aiatolá. A partir de então, um vasto movimento dirigido pela hierarquia xiita e por populares, começou em Quom, considerada cidade santa, lugar onde Khomeini era teólogo na época do seu exílio em 1964. De Quom, a revolta ecoou para os campos petrolíferos de Abadan, culminando em uma greve geral em outubro daquele ano.
O movimento de protestos seguiu dos distritos petrolíferos, atingindo Teerã, a capital do império. A pressão contra o xá fortalecia à medida que usava métodos de greve, ocupação de fábricas, mobilizando organizações religiosas e de esquerda, unindo em uma só voz os operários dos pólos petrolíferos e do cinturão industrial de Teerã.
No dia 12 de dezembro de 1978, cerca de dois milhões de pessoas marcharam sobre Teerã, em protesto contra o xá. Diante de tanta gente, setores do exército iraniano negaram-se a atirar contra os manifestantes, outros desertaram, fazendo com que as forças armadas entrassem em colapso, desintegrando-se.
Acossado, Reza Pahlavi passou a fazer concessões, concordando em implementar uma constituição mais moderada, garantindo maior liberdade de expressão. As promessas de mudanças no cenário político da monarquia iraniana vieram demasiadamente tarde. De Paris, sob o apoio de intelectuais europeus e sob os holofotes da imprensa internacional, Khomeini orientava a insurreição do seu povo. A maioria da população iraniana já lhe era fiel. Quando o aiatolá pediu o fim completo da monarquia, não restou alternativa ao xá, senão deixar de vez o Irã, o que aconteceu em 16 de janeiro de 1979.
Antes de deixar o Irã, Reza Pahlavi nomeou Shapour Bakhtiar, da Frente Nacional, antiga oposição burguesa ao Xá, como primeiro ministro. Mas os movimentos operários não permitiram as manobras do regime, suspeitando que uma nova constituição não passasse de uma farsa para conseguir uma passagem pacífica do velho regime para um novo que incluísse algumas frações da burguesia até então preteridas, garantindo uma monarquia constitucional revestida de nova. Khomeini considerava-o traidor e colaboracionista do regime. Bakhtiar esteve no poder por 36 dias, extinguindo a Savak e os jogos de cassino. Temendo o ódio popular e retaliações de Khomeini, partiu para o exílio, em Paris.
No dia 1 de fevereiro de 1979, Ruhollah Khomeini retornou do exílio na França, sendo recebido com honras e euforia pela população iraniana. Convidado pelos revolucionários que puseram o xá em fuga, Khomeini consolidou a revolução no dia 11 de fevereiro de 1979.

A Revolução Islâmica

Já como líder supremo do Irã, Khomeini afastou os elementos mais moderados, transformando o Irã em uma república islâmica, voltada para os princípios básicos dos ensinamentos seculares do islã. À revolução, passou a chamá-la de “Revolução Islâmica”.
Para que se criasse uma república islâmica, a revolução, uma das poucas manifestações incontestáveis da vontade popular contra um regime político, sofreu algumas mudanças em sua trajetória. O novo governo estabelecido proporcionou o regresso do Irã aos valores tradicionais do Islã. Costumes ocidentais difundidos na cultura iraniana durante o regime do xá foram proibidos, entre eles a proibição às mulheres do uso de maquiagem e de mini-saias; música pop e rock; cinema; jogos e jogatinas. Velhos códigos morais foram ressuscitados, como o açoite e castigos corporais aos que praticassem adultério, aos que praticassem sexo fora do casamento e aos que consumissem álcool.
Para garantir a Revolução Islâmica, muitos dos que a apoiaram foram executados, entre eles os marxistas, os grupos maoístas e de esquerda, por defenderem o estado laico, uma ameaça aos princípios teocráticos do islã. Também foram executados os considerados doentes ou escórias da sociedade, como os homossexuais e as prostitutas. Condenados à morte seriam os defensores do xá e do antigo regime, além dos seus ministros; a execução estendeu-se a membros de outras religiões, como os judeus. Os comitês islâmicos dirigidos por Khomeini iniciaram a repressão aos nacionalistas curdos e turcomanos.
Assim, ao realizar-se um plebiscito (fraudulento segundo alguns historiadores), foi legitimada a implantação de uma república islâmica, fator inédito na história dos povos árabes contemporâneos.

A Revolução Islâmica e o Ocidente

Ao fim da revolução, o regime fechado que se implementou no Irã foi propagado para o ocidente como retrógrado e opressivo, a volta aos costumes islâmicos era pouco ou nada compreendido pelos valores ocidentais.
Mesmo ao perder o seu maior aliado no Oriente Médio, refletido na figura do xá, o Estados Unidos manteve representação diplomática na nova República Islâmica. Mas devido ao passado, em que os americanos proporcionaram a volta do xá em 1953, depondo Mossadegh, as relações com Washington sempre foram vistas com desconfiança.
Exilado e perseguido pelo governo dos aiatolás, Reza Pahlavi e a sua família perambularam por vários países, sendo que a maioria, temendo à retaliação de Teerã, negavam-lhe asilo político. Minado por um câncer, doença que o consumia desde 1974, mas mantida em segredo, o xá entrou em fase terminal. Exilado no México, onde não havia tratamento para a doença, Pahlavi pediu permissão aos americanos para que se pudesse tratar nos Estados Unidos. Após uma grande hesitação, Jimmy Carter concordou em receber o xá, gerando uma crise com Teerã. A desconfiança de que a CIA estaria promovendo a volta do xá e o fim da revolução, fez com que estudantes iranianos invadissem a embaixada americana em Teerã, em 4 de novembro de 1979, tomando como reféns os 52 funcionários que lá se encontravam. Esta crise minou de vez a relação entre os Estados Unidos e o Irã. Esgotadas as negociações diplomáticas, o governo americano decidiu por uma tentativa de invasão aérea à embaixada, mas as operações foram um fracasso, humilhando a mais poderosa nação do planeta.
No decorrer das negociações, apenas 14 reféns foram libertados, os demais permaneceram presos por 444 dias, só sendo libertos quando Ronald Reagan venceu Jimmy Carter nas eleições de 1980, e tomou posse em 1981. A esta altura, Reza Pahlavi já havia morrido, exilado no Egito, em julho de 1980.
Desde a invasão da embaixada em Teerã, os Estados Unidos declarou a República Islâmica do Irã como inimiga da paz e dos americanos. A partir da Revolução Islâmica, o mundo árabe emergiu nos noticiários ocidentais não só pelo poder do petróleo, como pela volta aos princípios islâmicos, numa contraposição à influência corrosiva dos costumes ocidentais.
O modelo de implantação de uma república islâmica feita pelo Irã, serviu de inspiração para o surgimento de vários movimentos de grupos islâmicos radicais. A luta desses grupos gerou hostilidades entre o ocidente e o mundo árabe, que tomou como expoente o conflito entre Israel e os palestinos. Das hostilidades sofridas, as mais terríveis vieram em forma de terrorismo, sendo os Estados Unidos o principal alvo, não só pelo seu apoio ao Estado de Israel, mas por sua política maniqueísta, que teima em ver nos preceitos islâmicos e na sua concretização como força política, uma ameaça à paz e à sua democracia arraigada, transformando em inimigos todos que se lhe opõem, classificando-os como nação do bem ou do mal.
A partir da Revolução Islâmica, o fim da Guerra Fria e da União Soviética, os radicais islâmicos, chamados de fundamentalistas, tornaram-se o novo inimigo dos americanos. Movimentos como a Al-Qaeda de Osama bin Laden, o GIA argelino, o Wahhabismo da Arábia Saudita, o Hamas da Palestina, ou Gama’at Islamiya do Egito, foram responsáveis por ataques terroristas ao ocidente, ou por guerras civis no norte da África. Todos eles são vistos como um perigo às nações ocidentais, e como heróis da causa islâmica por grande parte dos árabes.
Por sua vez, para assegurar a revolução islâmica de um golpe das nações ocidentais, os iranianos fecharam o regime, empunharam armas, radicalizando contra todos os fantasmas possíveis. Hoje, três décadas depois da Revolução, após longas guerras com o Iraque, o Irã é um país solitário no contexto político internacional, sobrevivente das potências e dos conceitos que estabeleceram como forma de governo. Quanto ao destino do regime estabelecido pela revolução de 1979, somente o povo iraniano poderá responder até onde irá e até quando o legitimará. Quanto ao ocidente, há de se aprender a conviver com as diferenças culturais, que se sobrepõem ao poder econômico, seja ele emanado do petróleo ou da força das armas.
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