Sábado, 19 de Setembro de 2009

JOGOS DE AZAR - JOSÉ CARDOSO PIRES

 

 

Juntamente com José Saramago, José Cardoso Pires é um ícone na literatura contemporânea portuguesa. Tendo uma vasta obra literária que abrange o romance (“O Delfim” - 1968 - , “Balada da Praia dos Cães” - 1982) , o teatro (“Corpo-Delito na Sala de Espelhos” - 1980), contos (“Os Caminheiros e Outros Contos” - 1949 -, “Histórias de Amor” - 1952 - , “O Burro em Pé” - 1979 - , “A República dos Corvos” - 1988) e ensaios. Em 1997 foi galoardo com o prêmio Pessoa e, em 1998, com um prêmio de reconhecimento por toda a sua obra literária.
Em 1963 foram fundidos os dois livros “Os Caminheiros e Outros Contos” e “Histórias de Amor”, com prefácio do autor, dando origem ao livro de contos intitulado “Jogos de Azar”. É justamente “Jogos de Azar” (6ª edição - Publicações Dom Quixote - 1993), que utilizaremos como análise dos contos de José Cardoso Pires. Considerando as datas dos contos, publicados pela primeira vez em 1949, vamos encontrar uma linguagem que rebuscava os contornos do então dominante neo-realismo (há reflexos evidentes deste estilo no conto “Os Caminheiros”), e a fase final deste. Portanto é uma linguagem de transição de estilos. Na escrita elaborada de José Cardoso Pires o universo proposto é quase marginal, de personagens saltimbancos a fazer do neo-realismo a ilusão dos sonhos. As personagens são descritas em determinado momento das suas vidas, ou seja, o tempo nos contos de José Cardoso Pires surge através de ações sucedidas em breve espaço de tempo do cotidiano da personagem. Pode ser numa tarde quente de verão, como numa noite de amor em um quarto de pensão, num simples momento de discussão banal e eufórica entre duas personagens, ou mesmo dentro de um comboio, ainda que por algumas horas. A personagem está presa no devir temporal do momento da ação, o passado quase nunca é importante, o futuro também não nos será revelado, o momento em que a vida da personagem é transformada é que nos será contado. Aqui o conto assume a sua forma mais tradicional. A personagem é-nos descrita num lapso de tempo em que a sua vida muda bruscamente.

Explorados e Exploradores

No conto “Os Caminheiros”, o mais neo-realista de todos, surge-nos a figura saltimbanco de um cego (Cigarra), que para ganhar a vida, canta com uma caixa de esmolas de terra em terra, é conduzido por um “empresário” (António Grácio), que farto de estar com o cego, consegue “vendê-lo” para um compadre. É a exploração da miséria humana que aqui nos é contada com a crueza do neo-realismo. A história é toda relatada numa caminhada das personagens pelas estradas numa tarde quente, onde é feita a transação. A vida das três personagens irá sofrer uma alteração brusca, o futuro nós podemos imaginar qual será. Cigarra é deixado no meio da estrada pelo amigo António Grácio, que o vende para o compadre Miguel, que cuidará de explorar o cego e o seu destino saltimbanco. O narrador heterodiegético aqui apresentado mostra-nos o estilo transitório de José Cardoso Pires, que nos será familiar mesmo depois do seu rompimento com o neo-realismo.

“Dum modo geral, António Grácio conversava com o companheiro sem o olhar. Assim aconteceu agora. Disse o que tinha a dizer e, depois assoprou duas ou três fumaças desesperadas. Não tardou muito, já estava outra vez a falar mas para dentro, em silêncio. Discutia possivelmente com ele mesmo e com o seu destino traidor. «Vida dum capado», repontava a meio dessa conversa que só ele sabia; e continuava em frente, a cabeça enterrada nos ombros, os olhos fitos nas duas sombras atarracadas que deslizavam no alcatrão.”

No conto “Amanhã, Se Deus Quiser”, vamos encontrar um narrador autodiegético, com as características semelhantes aos das personagens do conto anterior, Miguel e António Grácio. A personagem central, o Chico, conta-nos a sua vida com a irmã Odete e a mãe. A irmã é a figura explorada no conto, a única que trabalha na casa a coser fardas para os militares. O pai é um bêbedo inveterado, sempre perdido pelas tascas. Chico é o jovem que está sempre em busca de emprego, à espera do fim da recessão da guerra (a história passa-se na época da Segunda Guerra Mundial) e das promessas de pessoas conhecidas. A sua vida muda no dia em que a irmã descobre que ele a roubou, sendo o Chico expulso de casa pelo pai, apesar das súplicas da mãe. O drama familiar é visto com ironia, e com o mesmo olhar de José Cardoso Pires para os eternos bons malandros. É comum as suas personagens serem desocupadas, mesmo que as causas sejam exteriores a eles. O Chico, apesar de tomar a figura da personagem sem sorte e arcar com as conseqüências de todo o conflito familiar, tem uma vida mais tranqüila do que a irmã Odete, que para sobreviver sacrifica a saúde fortemente abalada, e a própria vida. A mãe agüenta o alcoolismo do marido e a presença de um hóspede na casa. O Chico simplesmente vive na tranqüilidade psicológica que tem diante da vida, à espera sempre de um amanhã melhor.

“Agora há não sei quantos dias que não vejo a minha velhota. Da última vez que ela me procurou conversámos como duas pessoas que se encontram com mil precauções, ou então como um preso que é visitado pela mãe, estando o preso neste caso em liberdade. Trazia-me alguma roupa, dinheiro e cigarros.”

Jogos Psicológicos da Existência Narrativa

Mais complexo, surge-nos o conto “Dom Quixote, as Velhas Viúvas e a Rapariga dos Fósforos”. O que poderia ter sido um romance, surge-nos como um conto psicológico e de estrutura social cáustica. O narrador autodiegético, transporta-nos para o mundo da rapariga narrada, Esmeralda, uma mulher que vive com uma velha repressora e que tem uma vida dupla. O narrador apaixona-se pela personagem narrada, vê nela a mulher inocente que a vida transforma, mas que não domina. Esmeralda apesar de ter relações (ou não teria?) com homens, nunca se deixa beijar por eles. É a forma de ser possuída sem se deixar possuir, ser amada, sem nunca amar. A personagem do narrador, quase um Dom Quixote, que por coincidências do destino ou por motivos que lhe são superior e inexplicáveis, segue toda a degradação física e psicológica de Esmeralda, culminada pela sua morte violenta. A velha senhora, mesquinha com a idade e com a neta, é quase que alheia a todo o drama. O mais psicológico de todo o conto, a morte de Esmeralda pode ser fantasia do narrador como pode ser real, tudo é visto como uma análise dos comportamentos, a rapariga pode ser uma prostituta, como uma mulher que simplesmente passa pela noite impune, pode ter sido violada, pode ter-se matado, a visão não é do que aconteceu, mas a que o narrador imagina e acredita ter visto. Para ele Esmeralda é eternamente a Zita, a sua miúda, aquela por quem sonhou e rebuscou o retrato. Mas a Zita era a estranha Esmeralda, uma vez revelada, ele próprio fugiu da rapariga, dentro dele o sentimento era o inatingível, o nunca alcançado, uma vez revelado o mistério de Esmeralda, dentro dele também os mistérios do fogo da paixão sucumbiram, e da sua miúda apenas a certeza da lembrança de uma pessoa inadaptada:

“Dona Augusta e a matilha de viúvas que a acompanhava permaneciam de mandíbulas escancaradas para o céu. Mesmo em frente, tinham o esquife branco de Esmeralda, toda de mármore virgem e de palmito enfeitada. “

Uma Simples Flor nos Teus Cabelos Claros” traz-nos dois pólos narrativos. O primeiro, a parte romântica de um livro que lê uma das personagens, o segundo é o mundo das mesmas personagens, resumido no espaço do quarto e em uma cama de casal. Enquanto a mulher discute o marasmo do dia e a distância do marido, este lê sobre um outro casal que fazem amor em um quarto de hotel. Enquanto as personagens da leitura do livro estão apaixonadas, a personagem que lê o livro sente-se incomodada pelas lamúrias da mulher. Enquanto o marido sonha com os banhos de mar dos jovens amantes do livro, a mulher pensa apenas na sua insônia, nas persianas da sala, nos colegas do trabalho, na falta de atenção do marido, que prefere estar a ler um livro a falar com ela. Há um desencontro de mundos dentro do quotidiano do casal. O conto é justamente esta comparação entre um e outro casal, a ficção dentro da ficção. A história do livro lida pela personagem é-nos descrita quase com um certo romantismo, enquanto que a história do homem que lê o livro é feita por diálogos. A técnica é perfeita, a forma narrativa adquire duas dimensões, dois espaços de tempo e de focalização narratória. O conto em si é brilhante tecnicamente, apesar de ser banal como ficção, sem uma profundidade no caráter das personagens, sem a veia dramática e literária que faz com que sejamos seduzidos pelas personagens. Os diálogos são simples e pobres psicologicamente e a nível literário. Lemos o conto e quando chegamos ao fim, achamos que nos escapou algo, sem pensarmos que fomos nós os culpados desta lacuna:

“«Quim...»
«Outra Vez?»
«Desculpa, era só para baixares o candeeiro. Que maçada, estou a ver que tenho de tomar outro comprimido.»
«Lê um bocado, experimenta.»
«Não vale nada de nada, filho. Tenho a impressão de que estes comprimidos já não fazem efeito. Talvez mudando de droga... É isso, preciso de mudar de droga.»


Os Costumes Morais na Interpretação das Personagens

No volume ainda podemos voltar a encontrar os saltimbancos malandros de José Cardoso Pires. Aparecem novamente no conto “Ritual dos Pequenos Vampiros”, três homens combinam entre si a violação de uma rapariga que um deles seduziu. Aqui somos confrontados com um estupro, mas que na visão das personagens era apenas um momento de prazer. Um mundo sórdido onde o que conta não é a realidade e a ética dos fatos, mas a interpretação deles na óptica das personagens, a brutalidade do ato é atenuada pela interpretação própria do mundo hostil das personagens.
Também inadaptados, mas desocupados, são os presos militares do conto “Carta a Garcia”, a ação é toda centrada dentro de um comboio que leva dois desertores do serviço militar escoltados pelos colegas de farda. No centro das atenções um melão que traz um dos militares, o leitor é posto em paralelo com as razões pelas quais os prisioneiros desertaram, os jogos de sedução e medo feitos por um dos desertores com uma navalha na mão, teoricamente para cortar um melão.
Jogos de Azar” é um livro de transição de estilos literários na carreira de José Cardoso Pires, uma característica constante da sua obra. Aqui encontramos o escritor em início de carreira e na sua fase neo-realista. O escritor dos anos noventa já traz uma maturidade contemporânea e diferente deste livro. Menos efêmero no devir temporal e mais profundo no perfil psicológico das personagens.

José Cardoso Pires

José Augusto Neves Cardoso Pires, considerado um dos maiores escritores portugueses do século XX, nasceu em 2 de outubro de 1925, na aldeia de São João do Peso, distrito de Castelo Branco. Acompanhou a família, que se mudou para Lisboa quando era criança, vivendo na capital portuguesa até a sua morte.
Em Lisboa, o escritor freqüentou o tradicional Liceu Camões; ingressou no curso de Matemática, na Faculdade de Ciências de Lisboa, mas não o concluiu.
De oficial da Marinha Mercante a jornalista e redator de publicidade, José Cardoso Pires recolheu experiência para a sua obra, tendo debutado esporadicamente por cada uma das profissões acima, dedicando-se definitivamente à arte da escrita, tornando-se um dos maiores nomes da literatura portuguesa, sendo indicado pelos portugueses para receber o Prêmio Nobel de Literatura, sendo preterido por José Saramago, em 1998.
A obra de José Cardoso Pires é marcada pelo seu trajeto pessoal, por suas deambulações na boemia noturna pelas ruas de Lisboa; pela sua inquietação diante da vida. É uma obra que não se identifica com nenhum grupo ou gênero literário português. É sobretudo, um grande romancista. Do seu primeiro trabalho, o livro de contos “Os Caminheiros e Outros Contos”, publicado em 1949, ao último, “Lisboa, Livro de Bordo”, publicado em 1997, o autor relacionou a sua obra com diversos seguimentos, sendo o mais longo com o neo-realismo. Cada livro do autor era um recomeço, uma nova proposta literária.
José Cardoso Pires morreu em Lisboa, em 26 de outubro de 1998, sendo sepultado naquela cidade, no Cemitério dos Prazeres. Em vida, o autor recebeu vários prêmios tanto como escritor quanto pela obra, entre eles o Prêmio Pessoa de 1997.

OBRAS:

Contos

1949 – Os Caminheiros e Outros Contos
1952 – Histórias de Amor
1963 – Jogos de Azar
1979 – O Burro em Pé
1988 – A República dos Corvos

Romance

1963 – O Hóspede de Job
1968 – O Delfim
1982 – Balada da Praia dos Cães
1987 – Alexandra Alpha

Crônicas

1991 – Cardoso Pires por Cardoso Pires
1994 – A Cavalo no Diabo
1997 – De Profundis, Valsa Lenta
1997 – Lisboa, Livro de Bordo

Ensaio

1960 – Cartilha do Marialva
1977 – E Agora, José?

Novela

1958 – O Anjo Ancorado
2008 – Lavagante (edição póstuma)

Teatro

1960 – O Render dos Heróis
1980 – Corpo-Delito na Sala de Espelhos

Sátira

1972 – Dinossauro Excelentíssimo

CRONOLOGIA

1925 – Nasce em São João do Peso, Castelo Branco, no dia 2 de outubro, José Cardoso Pires; filho de José António Neves e de Maria Sofia Cardoso Pires Neves.
1932 – Freqüenta a escola primária nº 14, no Largo do Leão, em Lisboa.
1943 – Publica em “Cidade dos Rapazes”, o ensaio “Loti, o Sonhador”.
1945 – Alista-se na Marinha Mercante como praticante de piloto.
1946 – Publica o conto “Salão de Vintém” no volume “In Bloco, Antologia de Jovens Universitários”.
1947 – Presta serviço militar em Vendas Novas e na Figueira da Foz.
1948 – Torna-se correspondente de inglês e intérprete de uma companhia de aviação.
1949 – Publica o seu primeiro livro, “Os Caminheiros e Outros Contos”. Trabalha como chefe de redação da revista “Eva”. Ao lado de Victor Palla, funda a coleção de bolso “Os Livros das Três Abelhas”.
1952 – Publica “Histórias de Amor”, que é apreendido pela ditadura salazarista, sendo o autor detido.
1953 – Morre-lhe o irmão, em acidente de aviação em cumprimento do serviço militar.
1954 – Publicado em Londres, na revista “Argosy”, o conto “Os Caminheiros”, com o título “The Outsiders”.
1958 – Publica “O Anjo Ancorado”. Participa do Congresso Mundial da Paz, em Estocolmo, Suécia.
1959 – Coordena a redação da revista “Almanaque”. Faz um breve exílio na França e no Brasil.
1961 – Regressa a Portugal, retomando a direção da revista “Almanaque”. Torna-se membro da Sociedade Portuguesa de Escritores.
1963 – Tem o primeiro romance publicado fora de Portugal, “O Hóspede de Job”, que sai em Milão, Itália, com o título “L’Ospite di Giobbe”.
1964 –O Hóspede de Job” recebe o Prêmio Camilo Castelo Branco.
1965 – Estréia no Teatro Império de Lisboa, a peça “O Render dos Heróis”.
1968 – Dirige o “Suplemento Literário” do “Diário de Lisboa”.
1974 – A Revolução dos Cravos põe fim à ditadura salazarista, José Cardoso Pires passa a dedicar-se aos estudos políticos de Portugal.
1975 – Torna-se vereador da Câmara Municipal de Lisboa.
1983 – Grande Prêmio do Romance é atribuído à “Balada da Praia dos Cães”.
1989 – O romance “Alexandra Alpha” recebe o Prêmio Especial da Associação de Críticos de São Paulo, Brasil.
1994 – Reúne as crônicas que escreveu semanalmente para o jornal “O Público”, publicando “A Cavalo no Diabo”.
1996 – É vitimado por um acidente vascular cerebral, que servirá de relato para o livro “De Profundis, Valsa Lenta”, publicado no ano seguinte.
1997 – Publica o seu último livro em vida, “Lisboa, Livro de Bordo”. Recebe o Prêmio Pessoa e o Prêmio Dom Dinis.
1998 – Morre em Lisboa, no dia 26 de outubro. Enterrado no Cemitério dos Prazeres.
publicado por virtualia às 02:55
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