Quarta-feira, 13 de Agosto de 2008

ARISTIDES DE SOUSA MENDES - O SCHINDLER LUSITANO

 


Nos períodos negros da história em que há guerra, perseguição e assassínio de pessoas, grupos ou raças, somos confrontados com os valores morais que nos são ensinados no dia a dia, mas que nem sempre conseguimos fazê-los valer. Poucos conseguem aderir às decisões de coragem e de risco em momentos de flagelo da humanidade. Aristides de Sousa Mendes é um desses personagens da história que surgiram para sacrificar a sua vida pessoal em nome de milhares de vítimas da perseguição e intolerância humana. Deve-se a este português a sobrevivência de milhares de judeus durante a perseguição nazista deflagrada na Segunda Guerra Mundial. Ele foi o Schindler ibérico.

Europa em Guerra

Aristides de Sousa Mendes do Amaral e Abranches nasceu em 19 de julho de 1885, em Cabanas de Viriato, próximo a Mangualde e a Viseu, Portugal. Filho de Maria Angelina Ribeiro de Abranches e do juiz José de Sousa Mendes. Licenciou-se ao lado do irmão gêmeo César, em direito pela universidade de Coimbra, aos 22 anos. Em 1908 casa-se com a prima Angelina, com quem iria ter 14 filhos. Ainda muito cedo entra para a carreira diplomática e em 1910 é nomeado cônsul em Demerara, na Guiana Francesa. O jovem cônsul vê o fim da monarquia portuguesa em 5 de outubro daquele ano, quando é proclamada a república. Com fortes convicções monarquistas, Sousa Mendes sofreria com as perseguições durante o governo de Sidónio Pais.
A carreira diplomática de Aristides de Sousa Mendes coincide com vários fatos históricos que mudaram não só Portugal, como o mundo. Passa pelo período da I Guerra Mundial (1914-1918) e pela ditadura de Salazar, iniciada no início da década de trinta e estendida por 41 anos.
Em 1933 Hitler sobe ao poder na Alemanha. Com a ascensão nazista, começa a perseguição aos judeus. Em 1938, com o apoio do povo austríaco, a Áustria é anexada à Alemanha. Dando continuidade à expansão germânica, em setembro de 1939, Hitler invade a Polônia. Em represália a Grã-Bretanha e a França declaram guerra à Alemanha. Está deflagrada a II Guerra Mundial. Em 1940 a Bélgica, a Holanda e a França são invadidas, iniciando o cerco ao povo judeu em todos os estes países sucumbidos. O êxodo de judeus, ciganos e outras minorias, acontece pelas estradas desses países. Em vôos rasantes, caças nazistas metralham as estradas onde se encontravam os grupos de fugitivos. Acossados pela perseguição alemã, restam apenas dois países da Europa ocidental para onde os israelitas ainda podem fugir: Espanha e Portugal, que permanecem neutros no conflito. A Espanha saía de uma sangrenta guerra civil que vitimara milhares de cidadãos. O governo de Franco tinha tido o apoio dos nazistas durante a guerra civil, portanto a sua neutralidade era simpática a Hitler. Franco impediu que os judeus se refugiassem em terras espanholas, não lhes concedendo vistos para entrar no país. Restava Portugal.

Cônsul em Bordéus

Durante a Segunda Guerra Mundial a posição do governo de Salazar sempre foi dúbia, com fortes traços de simpatia ao regime de Berlim. Lisboa tornara-se uma capital aberta aos espiões tanto nazistas como aliados. Dali partiam as fugas para o Marrocos, Américas do Sul e do Norte. A lavagem dos bens confiscados aos judeus (obras de arte, jóias) e aos povos conquistados, foram feitas pelos nazistas através da Suíça e de Portugal, conforme a história revelaria décadas mais tarde. A alta cúpula da igreja católica fecha os olhos para as atrocidades de Hitler. Os exércitos alemães são abençoados pelos clérigos antes de partirem para a guerra. O papa Pio XII seria acusado mais tarde de conviver pacificamente com o governo nazista. O povo israelita é deixado à deriva no continente europeu.
É neste contexto histórico que vamos encontrar, em junho de 1940, Aristides de Sousa Mendes, cônsul de Portugal em Bordéus, na França ocupada. Pelas ruas de Bordéus milhares de refugiados judeus buscam os consulados de Portugal e da Espanha. A esperança era fugir para estes países e de lá embarcar para a América. O consulado espanhol nega a entrada dos refugiados e, conseqüentemente, nega-lhes os vistos. A esperança está no cônsul português em Bordéus.
Em 16 de junho Sousa Mendes recebe o rabi Kruger, fugitivo da Polônia ocupada. Promete interceder diante do governo de Lisboa a favor dos milhares de judeus à porta do consulado. Não dá muitas esperanças, pois Lisboa não lhe respondera autorizando à concessão de vistos. Naquela noite decisiva acolhe o rabi e a família em sua casa. Na manhã seguinte Lisboa proíbe o cônsul de conceder vistos aos judeus. Sousa Mendes sabe que a recusa desses vistos resultaria no fim da única esperança daquele povo fugir aos trabalhos forçados nas fábricas nazistas, aos campos de concentração e à morte. Inesperadamente Sousa Mendes avisa ao rabi Kruger que dará vistos a todos. Entre os dias 17, 18 e 19 de junho, o cônsul português trabalha exaustivamente na concessão dos vistos. Ao lado de dois dos seus filhos, não pára sequer para comer. Nesses três dias cerca de trinta mil vistos foram concedidos, contrariando as ordens de Antonio Salazar.
Mas a benevolência e a coragem de Aristides de Sousa Mendes não pára por aqui. Em Bayonne o consulado português obedece às ordens de Lisboa, recusando conceder vistos. Intrepidamente Sousa Mendes se desloca até Bayonne, e como é superior ao cônsul dali, ele mesmo passa milhares de vistos a quem ali se dirige. Segue para Hendaye e procede igual. Mais vistos são concedidos.
No dia 24 de junho Aristides de Sousa Mendes recebe um telegrama de Salazar, a ordenar-lhe que se apresente em Lisboa para responder ao ato de indisciplina por ter concedido vistos abusivos aos judeus. Seria demitido sem direito à aposentadoria ou à indenização após mais de três décadas de trabalho à diplomacia do seu país.

Miséria e Desonra

A volta para Portugal é de punição e humilhação para o cônsul. Salazar jamais lhe perdoará o ato de indisciplina. A retaliação aos seus atos é tanta, que Sousa Mendes é impedido de exercer a sua profissão de advogado e os filhos são proibidos de freqüentar a universidade; seu irmão também diplomata, é afastado da profissão. Sem receber pensão do governo, Aristides de Sousa Mendes é remetido à miséria. O palácio do Passal, construído por seus antepassados fidalgos, alberga ainda os refugiados judeus que chegam a Portugal. Mas a miséria o leva a vender os móveis do palácio e a hipotecá-lo. A Comunidade Israelita de Lisboa auxilia o diplomata com alimentos e possibilitam a ajuda a alguns dos seus filhos para que possam ir para os Estados Unidos e para o Canadá. Aristides de Sousa Mendes é condenado à miséria e à desonra.
Com o fim da guerra em 1945, as atrocidades cometidas pelos nazistas ao povo judeu vieram à luz. Salazar recebe da comunidade internacional, todas as honras pela concessão dos vistos que possibilitou a sobrevivência de milhares de vidas. Aristides de Sousa Mendes entra com um pedido de reclamação ao governo português que o reabilitasse. Mas não lhe é concedido a reabilitação. Viúvo desde 1948, morre no dia 3 de abril de 1954, assistido apenas por uma sobrinha. Todos os seus filhos estão a viver nos Estados Unidos e no Canadá. Morre no ostracismo e na miséria, sem jamais obter o perdão do governo português.
Em 1967, em Nova Iorque, a organização israelita para a recordação dos mártires e heróis do Holocausto, Yad Vashem, homenageou Aristides de Sousa Mendes com a sua mais alta distinção: uma medalha comemorativa com a inscrição do Talmude “Quem salva uma vida humana é como se salvasse um mundo inteiro”.
Salazar impede que a imprensa portuguesa noticie a homenagem. Somente em 1998 o governo português reabilita Aristides de Sousa Mendes. O Palácio Passal, apesar de ter sido tombado recentemente, continua a ruir, a transformar-se em escombros, apesar de todos os projetos portugueses para restaurá-lo.
A função de um cônsul é ser porta-voz do seu governo e do seu país em terras estrangeiras, não importa que tipo de governo ele representa, democrata ou ditatorial. Segundo a ética kantiana, o dever do homem está acima do seu prazer e do seu bem-estar. Ao ir contra uma decisão do governo do qual era porta-voz, Aristides de Sousa Mendes deixou de ser ético para com o governo do seu país, mas foi ético para com a humanidade, o que prova que nem sempre as morais vigentes que formam os conceitos da ética como ciência são dignos do gênero humano.
Aqui a frase de Aristides de Sousa Mendes ao rabi Kruger, quando soube da sua demissão naquele verão de 1940, após conceder mais de 30 mil vistos a refugiados judeus e outras minorias perseguidas:

“Rabi, se tantos judeus sofrem por causa de um demônio não-judeu, também um cristão pode sofrer com o sofrimento de tantos judeus...”

Apesar de algumas biografias apontarem para uma suposta raiz judaica, tomando-o por cristão novo, Aristides de Sousa Mendes era cristão na mais antiga da sua genealogia. Um cristão velho a serviço da humanidade.


CRONOLOGIA

1885: Filhos de Maria Angelina Ribeiro de Abranches e do juiz José de Sousa Mendes, os gêmeos César e Aristides de Sousa Mendes do Amaral e Abranches nascem em Cabanas de Viriato, Distrito de Viseu, Portugal.
1907: César e Aristides licenciam-se em Direito na Universidade de Coimbra e depois seguem a carreira diplomática.
1908: Em Portugal, el-Rei D. Carlos e o príncipe herdeiro são assassinados. Aristides casa com a sua prima Angelina; o casal virá a ter 14 filhos.
1910: Aristides é nomeado Cônsul em Demerara, Guiana Francesa. Revolução de 5 de Outubro e proclamação da República portuguesa.
1911/16: Aristides Cônsul em Zanzibar, problemas de saúde para toda a família.
1914: Início da I Guerra Mundial.
1916: Portugal entra na I Guerra Mundial a favor dos Aliados.
1918: Termina a I Guerra Mundial com a vitória dos Aliados. Aristides é nomeado Cônsul em Curitiba (Brasil).
1919: Por causa das suas convicções monárquicas, Aristides é castigado pelo governo de Sidónio Pais.
1921/23: Aristides dirige, temporariamente, o Consulado de S. Francisco da Califórnia, cidade onde nasce o seu 10.º filho.
1924: Aristides Cônsul em S. Luís do Maranhão (Brasil). Depois, passa a dirigir, interinamente, o Consulado de Porto Alegre (Brasil).
1926: Aristides regressa a Lisboa para prestar serviço na Direção-Geral dos Negócios Comerciais e Consulares. Em Portugal, revolução militar do 28 de Maio conduzida pelo Marechal Gomes da Costa.
1927: A Ditadura Militar portuguesa nomeia Aristides Cônsul em Vigo.
1928: Salazar Ministro das Finanças.
1929: Aristides é nomeado Cônsul-geral em Antuérpia (Bélgica).
1930: Salazar presidente do Conselho de Ministros.
1936: O rei belga, Leopoldo III, condecora Aristides de Sousa Mendes, decano do corpo diplomático.
1938: Salazar nomeia Aristides de Sousa Mendes Cônsul de Portugal em Bordéus.
1939: A Alemanha de Hitler invade a Polônia, início da II Guerra Mundial.
1940: Contrariando as ordens de Salazar, Aristides de Sousa Mendes, no Consulado de Portugal em Bordéus, passa mais de 30.000 vistos a judeus e outras minorias perseguidas pelos nazistas. Salazar condena Sousa Mendes a um ano de inatividade e depois o aposenta sem qualquer vencimento.
1945: Termina a II Guerra Mundial. Aristides de Sousa Mendes dirige carta à Assembléia Nacional, reclamando (em vão) contra o castigo que lhe fora imposto pelo governo.
1948: Morre Angelina de Sousa Mendes.
1954: Assistido apenas por uma sobrinha, Aristides de Sousa Mendes morre «pobre e desonrado», no Hospital da Ordem Terceira, em Lisboa.
1967: Yad Vashem, autoridade estatal israelita para a recordação dos mártires e heróis do Holocausto, homenageia Aristides de Sousa Mendes com a sua mais alta distinção: uma medalha com a inscrição do Talmude «Quem salva uma vida humana é como se salvasse um mundo inteiro».
1998: A Assembléia da República e o governo português finalmente procedem à reabilitação oficial de Aristides de Sousa Mendes.
publicado por virtualia às 03:01
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