Sábado, 27 de Junho de 2009

AS ELEGANTES RUAS DA SÃO PAULO DOS BARÕES DO CAFÉ

 

 

São Paulo de Piratininga foi fundada pelos jesuítas sobre uma colina, tornando-se um marco de partida para a conquista do interior do país. O aspecto urbano da cidade foi adquirido através dos séculos, mais das necessidades que se lhe impunham do que de um planejamento que construísse harmonicamente a maior cidade da Brasil.
Da vila que nasceu de uma missão jesuítica, saíram em busca de riquezas e sonhos, as entradas e bandeiras que conquistaram o sertão e o interior do Brasil, alargando conseqüentemente, as fronteiras coloniais e derrubando o Tratado de Tordesilhas, fazendo do território nacional algo muito próximo dos dias atuais. Passada a fase da conquista dos bandeirantes, a cidade esteve politicamente estagnada, o progresso adormecido do século XVIII à primeira metade do século XIX, quando foi despertada pelo ciclo do café. Constituindo a principal riqueza econômica do Brasil até 1930, o café transformou a cidade em uma metrópole, que mesmo depois do fim do ciclo, jamais deixou de crescer, erguendo-se numa das maiores cidades do planeta.
Com a riqueza do café vieram os barões, fazendeiros que enriqueceram cultivando a planta, sendo grande parte deles agraciados com títulos nobiliárquicos dado pelo Império. Se os títulos de nobreza e o dinheiro corriam soltos, a cidade que abrigava esta riqueza precisava deixar de vez o aspecto de lugar ilhado, cercado por várzeas alagadiças, brejos e ribeirões. Aos poucos, o dinheiro do café trouxe à velha Piratininga o glamour importado diretamente de Paris. Se a Praça da Sé era o pulsar da cidade, ponto de encontro de toda a população, nascia no fim do século XIX, no Vale Intransponível (hoje Vale do Anhangabaú), a parte sofisticada e elitizada de São Paulo, chamada de Ruas do Triângulo, perímetro delimitado pelas Ruas 15 de Novembro, Direita e São Bento. Nas Ruas do Triângulo, os barões de São Paulo fizeram a sua própria Paris, e a beleza sem harmonia da cidade deu passagem para uma desordenada, mas pulsante vida de ferveção populacional digna das ruas européias. Era a elitização dos trópicos, que começara na capital do país, o Rio de Janeiro e alcançaria São Paulo de forma indelével.

As Ruas do Triângulo

O centro histórico da paulicéia, também chamado de centro velho, surgiu na colina central da cidade, ladeado pelo Vale do Anhangabaú e pela Várzea do Carmo, encerrando ali o que se chamava de Triângulo. O Triângulo originou-se nos tempos coloniais através das sendas que serviam de comunicação entre os largos São Bento, da Sé e São Francisco.
Na segunda metade do século XIX as ruas de São Paulo eram estreitas, de terra batida e não iam além dos vales do rio Anhangabaú e do rio Tamanduateí. A cidade estava longe de ser comparada com a capital do Império, Rio de Janeiro, ou com Recife, ou com Salvador. O comércio do café, a importância que ele começaria a ter na economia do país foi o grande passo para tirar São Paulo da condição de capital periférica. Em 1867 a inauguração da ferrovia Santos-Jundiaí começou a mudar o destino da cidade. Em 1872, foi inaugurada a primeira linha de bondes, que eram puxados por animais. Era o começo da expansão das ruas do centro, a chegada da riqueza do café que começava a ser canalizada para o Estado e para a sua capital.
Se o Pátio do Colégio foi onde São Paulo nasceu, o Triângulo foi onde a cidade consolidou-se. Delimitado pelas Ruas Direita, São Bento e 15 de Novembro, o Triângulo tornou-se o ponto de concentração da grande vida social e comercial da cidade na época faustosa do ciclo do café, confinando lojas luxuosas, cafés sofisticados, que faziam para ali convergir a elite da sociedade paulistana, além dos cidadãos comuns, dos visitantes da cidade, dos estrangeiros e dos imigrantes que começavam a chegar para trabalhar nas lavouras do café ou nas fábricas que despontavam pela velha Piratininga.
O comércio latente e o luxo explícito das lojas das Ruas do Triângulo davam uma nova paisagem ao centro, até então evidenciado apenas pela beleza discreta das suas igrejas ou conventos seculares, como o de São Francisco, o de São Bento e o do Carmo. As três ruas que formavam o Triângulo foram, durante o governo de João Teodoro (1872-1875), devidamente calçadas, novidade que se estendeu para o Largo do Rosário e à Praça da Sé. Ao longo do tempo, por serem demasiadamente estreitas, as Ruas do Triângulo transformaram-se em ruas estritamente para pedestres.
O esplendor trouxe às ruas do Triângulo a luxuosa concentração de pessoas abastadas. Também a juventude com os seus arroubos de paixão, passeavam por lá, passando a utilizar a expressão “Fazer o Triângulo”, ou seja, transitar pelas ruas numa elegante caminhada de rapazes pelas ruas Direita, 15 de Novembro e São Bento, enquanto belíssimas moças faziam o sentido inverso, trocando olhares furtivos e apaixonados.
A vida era intensa no triângulo, que além de concentrar as casas de comércio mais importantes, traziam os principais bancos nacionais e estrangeiros, as agências marítimas, as casas de câmbio, as redações dos jornais, importantes escritórios de diversas companhias e casas de moda.
Neste sofisticado centro paulistano, o Largo do Rosário seria transformado na Praça Antônio Prado, que se tornaria o coração do Triângulo. Também um outro ponto do Triângulo há de ser mencionado, os “Quatro Cantos”, formado no cruzamento entre a Rua São Bento e a Rua Direita, local que se ergueria a Praça do Patriarca, que abrigaria o mais famoso e elegante magazine paulistano, o Mappin Stores, mais tarde transferido para a Praça Ramos de Azevedo.

Rua Direita, Grandes Vitrinas e Quiosques

Uma das mais importantes ruas históricas da capital paulistana, a Rua Direita já era citada em documentos do século XVII, como uma rua que seguia para a igreja de Santo Antônio. Esta igreja, erguida em homenagem a Santo Antônio de Lisboa, após grandes reformas, chegou aos dias atuais, situada na Praça do Patriarca. É justamente a igreja de Santo Antônio que será responsável pela toponímica da rua, chamada assim por ser o caminho que dava “direito” do terreiro da Sé à igreja de Santo Antônio. Por este motivo a rua chamou-se Rua Direita de Santo Antônio. Teria sido chamada ainda de Direita de Santo e Direita da Misericórdia. Com o passar do tempo o nome foi encurtado para Rua Direita.
Na época da explosão da economia cafeeira, a Rua Direita desembocava na esquina da Rua da Imperatriz (atual Rua 15 de Novembro). Pequenos prédios com lojas de armarinho tomaram conta da rua. Casas foram adquirindo nome, como a famosa e conceituada Casa Baruel. Suas vitrines atraíam os mais abastados, sendo local de passeio dos estudantes. A exemplo do Rio de Janeiro, vários quiosques foram erguidos, além de anúncios coloridos por toda a rua, dando a São Paulo, finalmente, o aspecto de uma grande cidade.
Tornando-se ao final do século XIX o maior componente das ruas do Triângulo, a Rua Direita foi tomada por grandes casas, entre elas a famosa Casa Lebre, que se tornou a de maior movimento na cidade; a Casa Alemã, a Casa Kosmos; as confeitarias Fasoli e Nagel; o Grande Hotel da França, situado no conhecido “Quatro Cantos”; a charutaria Nunes; o atelier do retratista Henschel, sucedido por Vollsack, que passou o negócio para o alemão Baumgarten; a sapataria A Bota Gigante e o joalheiro Birle. Além de todas as lojas de comércio, a Rua Direita abrigava o Bar Viaduto, que com a apresentação de uma orquestra todas as noites, era o local preferido para os encontros dos apaixonados.

Rua 15 de Novembro, a Mais Sofisticada da Cidade

Já no século XVII há documentos referentes à Rua do Paço Manoel Paes de Linhares, que seria a atual Rua 15 de Novembro. Esta rua não passava de pouco menos de meia dúzia de casas de taipa. No final dela, entre 1711 e 1715 foi erigida a igreja do Rosário (na atual Praça Antônio Prado), mais tarde dedicada à Irmandade do Rosário dos Homens Pretos, importante confraria que lutaria no fim do século XIX pela abolição da escravatura. Assim a Rua do Paço Manoel Paes de Linhares, na verdade uma trilha que servia de comunicação entre o Largo da Sé e a igreja do Rosário, passou a ser chamada de Rua do Rosário dos Pretos. O nome permaneceu até fevereiro de 1846, quando a família imperial brasileira visitou São Paulo, como homenagem à visita de dom Pedro II e de sua esposa, o local passou a chamar Rua da Imperatriz. Assim permaneceu até a proclamação da República, em 1889, passando a ter o nome definitivo de Rua 15 de Novembro.
De origem rural e humilde, que abrigou casas de taipa no início da sua história, tornou-se a mais nobre e cosmopolita das três ruas do Triângulo. A paisagem arquitetônica passou a imitar à parisiense. Aos poucos, a rua foi ladeando-se de uma vizinhança sofisticada, lojas com conteúdo aristocrático, além de abrigar os mais caros estabelecimentos comerciais e as então florescentes casas bancárias.
O paulistano abastado encontrava na Rua 15 de Novembro, todos os acessórios e procedimentos para trazer glamour à sua nova condição de habitante de uma metrópole que começava a borbulhar como tal; desde as mais caras jóias, às roupas sob os moldes europeus, os perfumes mais delicados e suaves, até o corte de cabelos e barba. Desde alfaiates, tecidos, cabeleireiros, sapatarias, joalherias e costureiras, tudo que se comercializava na Rua 15 de Novembro, era anunciado como procedente de Paris. Também aqui estavam estabelecidos: o London Bank, o Banco do Comércio e Indústria, o Banco Alemão e Credit Foncier.
Já no início do século XX, a Rua 15 de Novembro tornou-se a mais sofisticada da Paulicéia, sendo visto nela desfilar bondes, carruagens faustosas, conduzidas por cavalos de raça. Era para esta rua que convergiam os jornalistas, os políticos, os barões do café, os banqueiros e os intelectuais, tornando-se os seus cafés pontos de tertúlia e de transações comerciais. Na paisagem da rua, diferentes pessoas eram vistas, desde a fina sociedade paulistana, aos visitantes estrangeiros e os imigrantes que chegavam para conquistar um lugar ao sol. Mulheres elegantes, trajando toaletes e jóias que em nada deixavam a desejar a mais fina sociedade européia.
Era na Rua 15 de Novembro que se encontrava o escritório fotográfico de Guilherme Gaensly, de onde foram feitos os principais registros fotográficos da emergente sociedade paulistana que enriquecia com o café. Outro pioneirismo da arte visual foi visto pela primeira vez nesta rua, a chegada da “lanterna mágica”, também conhecida como “fotografia animada”, que mais tarde seria chamado de cinema. A primeira animação cinematográfica foi apresentada em um salão da 15 de Novembro. A bela iluminação noturna da rua ajudava a manifestação do que seria o futuro cinema.
Prédios suntuosos passaram a construir a paisagem da Rua 15 de Novembro. Neles charmosos cafés foram abertos, faustosas casas de modas e joalherias traziam os mais belos mostruários, os mais ricos e luxuosos objetos de consumo. Com prédios de estilo arquitetônico florentino, esta rua era a transposição definitiva da lapidação da velha São Paulo de Piratininga.

Rua São Bento, Estreita e Longa

O nome desta rua está diretamente ligado com a ermida erigida no seu extremo, que se abria em largo. A ermida daria origem ao mosteiro da ordem de São Bento, assim sendo, era chamada de “rua que vai para São Bento”, nome que iria persistir por quase três séculos. Finalmente passou a chamar Rua São Bento. Há uma declaração de Frei Gaspar Madre de Deus que dizia que a rua era inicialmente chamada de Rua Martim Afonso Tibiriçá, uma homenagem ao sogro de João Ramalho, que teria residido no Largo de São Bento. Mas documento algum foi encontrado que comprovasse a veracidade desta declaração.
A Rua São Bento era (e ainda é) uma estreita artéria de comunicação entre o Largo de São Bento e o Largo de São Francisco. É a terceira vertente das ruas do Triângulo, tida como a sua base. Sua característica sempre foi eminentemente comercial, mas com artigos menos sofisticados do que os encontrados na Rua 15 de Novembro e na Rua Direita. Uma das mais famosas casas de comércio ali aberta era a Casa Fuchs, especialista em artigos de couro, que na época produziam os arreios, malas e objetos artísticos. Outra loja famosa era Ao Grande Amazonas, especializada em exóticos produtos caipiras como ponchos de boiadeiros, chapelões de campeiros e perneiras, além de comercializar roupas para meninos. As agências de viagens constituíam outra parte do comércio que ali era oferecido ao paulistano.
A Rua São Bento, em sua grande extensão, trazia as mais diversificadas lojas de comércio, atraindo para si um grande número de pessoas de todas as classes sociais. Nesta rua foi aberto o maior café da cidade, que servia a bebida expressa para os seus freqüentadores em pé, deixando assim, o paulistano degustar a preciosa bebida responsável pelo enriquecimento e prosperidade da Paulicéia. Em 1998 o Café Girondino foi inaugurado na Rua de São Bento nos moldes dos antigos cafés ali existentes no início do século XX.
Se a primeira apresentação de uma animação de cinema aconteceu na Rua 15 de Novembro, na Rua São Bento foi construído o primeiro cinema da cidade, que recebeu o nome de Íris. Historicamente, a rua é considerada o berço do cinema. Mais diversificada no seu comércio, esta longa e estreita rua selava a base do elegante Triângulo paulistano.

Praça Antônio Prado, o Coração do Triângulo

Não se pode falar nas três ruas do Triângulo, Rua Direita, Rua 15 de Novembro e Rua São Bento, sem falar na Praça Antônio Prado, considerada o coração desta sofisticada região da São Paulo dos barões do café.
No século XVII foi erigida a igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, para que os negros da cidade, libertos ou escravos, pudessem freqüentar, visto que este procedimento era proibido às igrejas dos brancos. O local da igreja ficou conhecido como Largo do Rosário. Era no largo que Irmandade do Rosário dos Homens Pretos, dirigida por juiz e juíza, rei e rainha e outros membros menores, promoviam grandiosas procissões, às quais se seguiam em frente à igreja grandes congadas, maçambiques e batuques, animados ao som da música dos atabaques. No interior da igreja à noite, eram feitos os enterros dos cadáveres. À medida que socavam a terra sobre o morto, os negros entoavam estranhas melopéias. No início do século foi decidida a remoção da igreja para o Largo do Paissandu. Assim, em junho de 1904 a velha igreja do largo foi demolida, abriu-se ali uma passagem para a Avenida São João, até então um barranco com ladeira para o Paissandu. No lugar da velha igreja do Rosário (aqui em uma fotografia do princípio do século XX) surgiu a sofisticada Praça Antônio Prado, uma homenagem a prefeito que dirigiu São Paulo de 1899 a 1911. A nova praça ficou conhecida como o “Coração do Triângulo”.
No local exato onde ficava a igreja, foi erguido o primeiro prédio de escritórios da cidade, o Palacete Martinico, sede central da Ligth entre 1907 e 1929; também sede em diversas épocas, do jornal “O Estado de S. Paulo”, do City Bank e da Bolsa de Mercados & Futuros. Os atabaques da Irmandade do Rosário deram passagem para os pregões frenéticos da Bolsa, tornando-se um dos mais movimentados locais de negócio de São Paulo, onde foram erguidos altíssimos edifícios como o Martinelli, o Banco do Brasil e a torre do Banespa.
Tido como ponto borbulhante e de encontro de todas as personalidades de São Paulo, a Praça Antônio Prado assistiu nos encontros ali promovidos, a ascensão e queda do ciclo do café, que culminaria com a queda da Bolsa de Nova York, em 1929, levando ao suicídio ou à miséria vários dos chamados barões. Enquanto durou o glamour desta época da história paulistana, a Praça gerou a sua volta, um intenso mundo cosmopolita que traduzia a essência da riqueza paulistana e o seu modo de vida. À noite era descrita a presença de mulheres elegantes, vestidas de sedas e chapéus vistosos, percorrendo com tranqüilidade às ruas à volta da Praça.
No comércio local destacava-se a Casa Seleta, que vendia charutos, cigarros, cachimbos e piteiras; o famoso Café Brandão, que ocupava o primeiro andar de um prédio demolido para a construção do edifício Martinelli; a bem freqüentada Brasserie Paulista, que também cedeu lugar para a construção do prédio do Banco do Brasil; e ainda, a Confeitaria Castellões, famosa por suas irresistíveis empadinhas e croquetes de camarão, servidos quentes, feitos à hora.
Ainda hoje, mesmo com os rumores tétricos de que por baixo dos seus jardins, os cadáveres dos antigos negros sepultados na igreja do Rosário ainda lá estão; mesmo que já longe vão os tempos dos barões do café, a Praça Antônio Prado continua a ser um seleto e agradável local da Paulicéia, sem perder a sofisticação de outrora.
 
publicado por virtualia às 15:42
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