Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

O UNIVERSO FANTÁSTICO DAS NOVELAS DE DIAS GOMES

 

 

Alfredo Dias Gomes foi um dos maiores dramaturgos e novelistas do Brasil. Dono de uma obra com um contexto social de denúncia à injustiça, à corrupção e à perda dos valores, Dias Gomes soube como ninguém retratar os bastidores da política brasileira, a ditadura e a repressão do brasileiro diante das forças que se lhe impunha a sociedade e a história. Denunciava em suas obras o preconceito, a hipocrisia, o autoritarismo viciado dos donos do poder no Brasil.
Autor de telenovelas que marcaram para sempre a teledramaturgia brasileira, como “O Bem-Amado” e “Roque Santeiro”, e de personagens que se fizeram inesquecíveis no imaginário do público que os assistiu, como Odorico Paraguaçu e a viúva Porcina. É como tele-dramaturgo que será aqui analisado. As suas telenovelas que foram ao ar durante a década de 1970, constituíram o mais sincero elo da palavra e da arte calada pela censura da ditadura, e o público que ansiava pela denúncia e pela liberdade.
Da estréia sob o pseudônimo de Stela Calderón, em 1969, com “A Ponte dos Suspiros”, à última novela, “O Fim do Mundo”, em 1996, ambas na TV Globo, Dias Gomes deixou um acervo de personagens que construíram com humor e análise crítica, o perfil do brasileiro e de um Brasil corroído por tradições impostas ou cultivadas, sem perder a essência intelectual e emotiva, ou sem perder jamais a identidade de uma nação e da sua gente.

A Estréia Como Stela Calderón

Alfredo Dias Gomes nasceu em 19 de outubro de 1922, em Salvador, Bahia. Aos 12 anos de idade chegou ao Rio de Janeiro, onde passaria a maior parte da sua vida, mas sem jamais deixar a essência nordestina, que impregnaria a sua obra, tanto no teatro como na televisão. Será da Bahia que virá a imensa galeria dos personagens mais marcantes, como os habitantes das fictícias cidades de Sucupira, Bole-Bole (Saramandaia) e Asa Branca.
Militante histórico da esquerda e do Partido Comunista Brasileiro, Dias Gomes foi um dos autores mais perseguidos e dos mais censurados dentro do teatro e da televisão. Mesmo assim não se exilou, escrevendo textos corrosivos de denúncia durante todo o período da ditadura militar. Intelectual incorrigível, revelava nos textos que escrevia ser dono de um refinado humor mesclado com forte impacto dramático. Menosprezava a televisão, mas ironicamente, foi através dela que pôde traduzir tão bem a sua obra e levá-la para milhões de pessoas, adquirindo uma notoriedade e popularidade que jamais alcançaria no teatro.
Casado com a novelista Janete Clair durante 33 anos (ficaria viúvo em 1983), Dias Gomes e a mulher tornar-se-iam já em 1970, os novelistas que mudariam a linguagem da telenovela da emissora do jornalista Roberto Marinho, que seguia como linha principal os dramalhões de época sob o comando de Glória Magadan.
Dias Gomes chegaria à pequena tela no auge da repressão militar, após a promulgação do Ato Institucional nº 5 (AI-5), em 13 de dezembro de 1968. Sua estréia aconteceu em junho 1969, na Rede Globo, com a novela “A Ponte dos Suspiros”, inspirada no romance homônimo de Michel Zevaco. Temendo à repressão e à perseguição política, adotou neste trabalho o pseudônimo de Stela Calderón. A novela era um dramalhão que se passava em Veneza, tendo como protagonistas a famosa dupla de atores Carlos Alberto e Yoná Magalhães, na época casados na vida real. Dias Gomes escrevia sob a supervisão de Glória Magadan, quando ela foi demitida pela Globo, o autor mudou completamente a linha do texto, passando a abordar problemas políticos dentro da trama. A mudança de estilo narrativo fez a censura paulista obrigar o Canal 5 a transferir a novela para o horário das 22 horas. Nascia assim, um novo horário de telenovelas na Rede Globo, que só seria extinto em 1979.

O Realismo Urbano Chega à Televisão Brasileira

Ainda em 1969, com o fim da era Magadan, a Rede Globo renovou a linguagem das suas telenovelas, abolindo os dramalhões de época. Começou pelo horário nobre, com a novela “Véu de Noiva”, de Janete Clair. Em 1970 estendeu a linguagem do dia a dia e tramas contemporâneas brasileiras, para as novelas das 19 horas, com “Pigmalião 70”, de Vicente Sesso, e do novo horário recém-inaugurado das 22 horas, com “Verão Vermelho”, de Dias Gomes.
Verão Vermelho” foi a primeira trama da televisão a ter como cenário a cidade de Salvador. Nesta novela o autor já assinou com o nome de Dias Gomes, jamais voltando a usar pseudônimos para fugir do regime militar. Drama urbano, a novela trazia pela primeira vez à telinha, as festas típicas das ruas da Bahia, a capoeira, o candomblé e ícones populares que até então, incomodavam as conservadoras famílias católicas que ergueram os seus rosários em 1964 para receber os militares e limpar o Brasil das religiões “pagãs” e dos comunistas. A novela trazia para o elenco de estrelas globais a atriz Dina Sfat. Pela primeira um desquite fazia parte da trama dos protagonistas, Carlos (Jardel Filho) e Adriana (Dina Sfat) separavam-se, e uma nova personagem construiria o triângulo, o médico Flávio (Paulo Goulart). Jardel Filho, que fora um dos protagonistas de “A Ponte dos Suspiros”, tornar-se-ia um dos atores preferidos do autor, fazendo ao longo dos anos, várias parcerias em novelas de sucesso. “Verão Vermelho” abordava os problemas de erros médicos, o racismo e a reforma agrária. Temas ousados para a época. Durante as gravações, Dina Sfat, que vinha das telas do cinema com o sucesso de “Macunaíma”, engravidou do então marido, Paulo José, o autor teve que improvisar a primeira gravidez inesperada de uma protagonista. “Verão Vermelho” deu o tom definitivo das tramas das 22 horas, que pelo horário adiantado da sua exibição, tinham mais fôlego do que as outras novelas diante da pressão da censura e da audiência, podendo ousar mais do que as outras.
Sem qualquer intervalo, Dias Gomes estreou a sua terceira novela consecutiva, “Assim na Terra Como no Céu”, em julho de 1970. Nesta trama o autor aproveitou quase todo o elenco de “Verão Vermelho”, como Dina Sfat e Jardel Filho. Com esta novela a Globo conseguiu contratar um dos maiores galãs da época, Francisco Cuoco, que se tornaria o maior protagonista da emissora na década de 1970. Também uma jovem atriz marcaria de forma indelével a sua estréia na Globo e nas novelas, Renata Sorrah. Dias Gomes usou um truque até então inédito, matar a protagonista da novela no vigésimo capítulo. A história girava em volta de Vítor (Francisco Cuoco), padre que se apaixona pela bela e doce Nívea (Renata Sorrah), por quem deixa a batina para com ela se casar. Nívea era assassinada às vésperas do casamento. A morte da personagem repercutiu em todo o Brasil, gerando a grande pergunta estampada nas capas das revistas da época: “Quem matou Nívea”. Com a morte da protagonista, Helô (Dina Sfat) passou a ser o centro da trama e o novo amor de Vítor. Mas o público não se conformou com a morte de Nívea, que teve que voltar várias vezes em flash-back. A novela trazia fortes contestações sociais, como o voto de castidade imposto aos padres pela igreja católica, o problema com as drogas (primeira vez que o tema chegou à televisão), além do homossexualismo velado do costureiro Gugu (Ary Fontoura), temática que só voltaria a ser abordada abertamente por Bráulio Pedroso em “O Rebu” (1974). Outra personagem que fez grande sucesso foi Ricardinho (Carlos Vereza), que matava o amante da mãe. Carlos Vereza e Renata Sorrah eram casados na época, e esta novela abria as portas da televisão para o jovem e talentoso casal.
Após três novelas consecutivas, Dias Gomes teve um breve período de férias, dividindo pela primeira vez, o horário das 22 horas com Bráulio Pedroso. Voltaria em novembro de 1971, com um novo sucesso, “Bandeira 2”. Desta vez o autor trazia o mundo da contravenção e dos bicheiros cariocas. O bicheiro Tucão, uma das mais soberbas criações de Dias Gomes, encantou o Brasil e os bicheiros do Rio de Janeiro, que se sentiram honrados com o retrato pintado na telinha. “Bandeira 2” teve vários incidentes de bastidores, transformando-se em uma das mais ricas produções a ter o que contar atrás das câmeras. Começou com o protagonista, que seria Sérgio Cardoso, o ator não gostou da personagem e exigiu mudanças. Diante da recusa de Dias Gomes, Sérgio Cardoso desistiu do papel, que foi entregue a Paulo Gracindo. Já com uma idade madura, Paulo Gracindo nunca havia protagonizado uma novela, na pele do bicheiro Tucão, o ator foi elevado ao estrelato. Com “Bandeira 2” iniciava-se uma grande parceria entre Dias Gomes e Paulo Gracindo, que resultaria em personagens inesquecíveis do grande público. Marília Pêra vivia a protagonista Noeli, uma motorista de táxi, profissão até então tabu para uma mulher. A atriz sentiu a personagem preterida diante da de Tucão, por este motivo pediu para sair da trama, mas não foi atendida, permanecendo até o fim. Aqui Dias Gomes usou o texto de uma de suas peças proibidas pela censura, “A Invasão”, traduzida nas personagens dos retirantes nordestinos Severino (Sebastião Vasconcelos), Santa (Ilva Niño) e Licinha (Anecy Rocha), que sem teto para morar, invadem a garagem do prédio de Noeli. O antagonista de Tucão, o bicheiro Jovelino Sabonete (Felipe Carone), foi outra personagem de grande sucesso na novela. O sucesso e a simpatia do público por Tucão incomodaram bastante os moralista do regime militar, ao fim da novela, a censura exigiu que Dias Gomes matasse a personagem, para dar exemplo moral ao público. Assim Tucão morria no último capítulo, causando grande comoção ao público.

O Bem Amado

Alternando mais uma vez, o horário das 22 horas com Bráulio Pedroso, Dias Gomes voltaria em janeiro de 1973 com aquela que seria uma das maiores obras da televisão brasileira, “O Bem-Amado”. A novela foi a transposição de uma peça teatral de Dias Gomes, “Odorico, o Bem Amado”, que esteve sete anos proibida, só sendo liberada em 1969. Pela primeira vez o autor deixava os cenários urbanos e criava a sua mítica Sucupira, cidade fictícia do interior baiano. Foi a primeira telenovela colorida da televisão brasileira, por este motivo enfrentou grandes problemas técnicos nos ajustes das cores, sendo marcante o figurino de cores berrantes que os atores usavam.
A história do prefeito Odorico Paraguaçu, que ao ver a dificuldade que era enterrar um morto devido à falta de cemitério em sua cidade, promete a construção de um como mote principal da sua campanha eleitoral. Eleito, Odorico realiza a sua grande obra, mas não consegue inaugurá-la pela falta de um morto. Ninguém morre em Sucupira. Frustrado e sem escrúpulos, o prefeito usa de todas as artimanhas para conseguir um defunto, inclusive promove a volta de um ilustre cangaceiro e assassino da cidade, o temido capitão Zeca Diabo (Lima Duarte). Mas o velho cangaceiro de fala fina volta redimido, querendo apenas ser digno de Deus, do padrinho padre Cícero e realizar um velho sonho, ser protético. Diante do impasse, Odorico incita o capitão a matar, usando de intrigas e subterfúgios. Ironicamente Zeca Diabo volta a matar, fazendo justiça à cidade, matando o próprio Odorico. Melancolicamente o prefeito inaugura a sua própria obra, sendo enterrado no tão amaldiçoado cemitério.
Paulo Gracindo não queria, a princípio, interpretar Odorico, por temer que viver duas personagens de caráter duvidoso consecutivamente pudesse comprometer a sua imagem. O ator sugeriu trocar a sua personagem com a de Jardel Filho, que vivia o doutor Juarez, um médico problemático e alcoólico, mas Dias Gomes bateu o pé, perguntando a Paulo Gracindo se ele conhecia algum prefeito louro e de olhos azuis no sertão baiano (Jardel Filho era um ator louro e de olhos azuis). Lima Duarte vinha de um grande fracasso em sua estréia na TV Globo. A novela antecessora de “O Bem Amado”, “O Bofe”, de Bráulio Pedroso, que ele fora convidado a dirigir, fora um fiasco. Para encerrar o contrato com a Globo, ele foi convidado, desta vez como ator, para fazer uma participação especial na novela, interpretando Zeca Diabo. Toda a caracterização da personagem foi feita pelo próprio Lima Duarte, que comprou um terno velho numa tinturaria próxima da Estação Rodoviária da Luz, em São Paulo, e decidiu que a personagem tão temida e sanguinária teria uma voz fina. Zeca Diabo, que deveria aparecer apenas em alguns capítulos, tornou-se um sucesso e foi crescendo gradualmente na trama, permanecendo até o fim.
Paralelamente à trama de Odorico, outras personagens circulavam com empatia e sucesso. Entre estas personagens estava o tímido e pacato Dirceu Borboleta (Emiliano Queiroz). Fiel funcionário de Odorico, gago e introvertido, Dirceu passa a vida a servir o prefeito e a caçar borboletas. Jurou castidade, mas foi obrigado a quebrar a promessa quando Dulcinéia Cajazeira (Dorinha Duval) é engravidada por Odorico, e para salvar a honra dela e do prefeito, aproveitam-se do sonambulismo de Dirceu, e inventam que ele possuiu a jovem, fazendo-o acreditar que é o pai do filho que ela espera. No final, quando descobre a mentira, o pacato e tranqüilo Dirceu estrangula a mulher. As irmãs Cajazeiras, Dulcinéia, Dorotéia (Ida Gomes) e Judicéia (Dirce Migliaccio) constituíram outro bem sucedido e mítico núcleo de personagens da novela. Refletiam a hipocrisia da sociedade, três mulheres solteironas, representantes de uma família tradicional, apresentavam-se para a cidade como exemplos de virtude e religiosidade a serem seguidos, mas que na intimidade, viviam todas as três uma sexualidade tórrida com um único homem, o bem amado Odorico Paraguaçu.
A bela Sandra Bréa, que se apaixonaria na trama pela personagem do galã Jardel Filho, fazia a sua primeira protagonista, sendo elevada à estrela da emissora, ela vivia Telma, a problemática e revoltada filha de Odorico Paraguaçu. A atriz vivia uma das cenas mais antológicas da novela, que define bem o universo de Dias Gomes; transitando entre a geração que contestava os costumes sociais e a liberação da sexualidade feminina, Telma era um grito dentro desta luta. Uma noite ela decide tomar banho nua, sua beleza estonteante é vista pelo pai Odorico, que se constrange diante do medo de um escândalo, e por humildes pescadores da região. Zelão das Asas (Milton Gonçalves), um pescador que um dia escapou da fúria do mar e prometeu a Iemanjá que faria um par de asas e voaria da torre da igreja. O pescador foi liberado pelo vigário (Rogério Fróes), de tão absurda promessa. Quando Zelão e os pescadores vêem a beleza nua de Telma, acreditam que estão diante de uma aparição de Iemanjá. Zelão tem a certeza que a senhora dos mares veio cobrar-lhe a promessa e, ali, diante da nudez de Telma-Iemanjá, ele renova a promessa que fizera em alto mar. Este paralelo irônico entre duas personagens e dois universos, é típico de Dias Gomes. Se o banho nu de Telma representava para ela a liberdade, a conquista do direito de ser dona do seu corpo e da sua sexualidade, para Zelão representava a fé, a crença popular, o místico e as sua manifestações. Zelão lutará até o fim da novela com o padre da cidade para cumprir a promessa. Não deixa de ser uma adaptação com outra cor e conotação sublime da peça do autor, “O Pagador de Promessas”. Dias Gomes não usa o enterro antológico do prefeito Odorico Paraguaçu para encerrar a trama, mas sim o cumprimento da promessa de Zelão das Asas. Na última cena da novela, o autor utiliza, pela primeira vez em suas tramas, o realismo fantástico. Num descuido da vigilância do padre e da mulher Chiquinha do Parto (Ruth de Souza), Zelão consegue chegar ao alto da torre da igreja e, diante de todos os curiosos, atira-se no ar. Dias Gomes avisa, em uma voz gravada em “off”, que a partir dali só acredita quem tem fé. A imagem torna-se preto e branco e Zelão voa sobre Sucupira. A novela encerra-se, entrando para sempre na história da televisão brasileira.

O Grande Golpe da Censura Sobre a Obra de Dias Gomes

Mais uma pausa para um breve fôlego, e Dias Gomes voltaria com uma nova novela, “O Espigão”, de 1974. O autor voltava aos grandes centros urbanos, desta vez para debater temas ainda não explorados nas novelas, como o crescimento desordenado das metrópoles, que derrubava prédios históricos e seculares para em seu lugar erguer os arranha-céus (os chamados “espigões” do título). Mostra a frieza que agasalha o homem, cada vez mais desumano diante do progresso sem limites da cidade. Pela primeira vez a ecologia entra como tema de uma telenovela, numa época em que obras faraônicas do regime militar (Transamazônica, ponte Rio Niterói) devastam o meio ambiente em nome do progresso, ocultando o lado autoritário e assassino da ditadura. A novela inicia com uma outra cena antológica, até então jamais vista, Dora (Débora Duarte), a protagonista, tem o seu filho em um engarrafamento de trânsito dentro do túnel Rebouças, no meio da confusão ela é socorrida por Leo (Cláudio Marzo), que formariam o casal sofrido da trama. Personagens bizarros percorrem a novela, dentre eles, Baltazar (Ary Fontoura), um homem reprimido, que às escondidas, corta mechas de cabelos das mulheres, guardando-as em sua coleção. Destaques para o casal Lauro Fontana (Milton Moraes) e Cordélia (Suely Franco), que centralizam as tramas e momentos hilários de humor.
Em 1975 Dias Gomes decidiu adaptar para a televisão uma de suas peças proibidas pelo regime militar, “O Berço do Herói”, censurada em 1965. A história trazia a saga do falso santo, Roque Santeiro e a sua fogosa viúva Porcina. A novela entraria nas comemorações dos dez anos da Rede Globo. Pela primeira vez Dias Gomes iria estrear em horário nobre. Adaptando a história para a literatura de cordel, a novela trazia o mais longo título da história da teledramaturgia brasileira: “A Saga de Roque Santeiro e a Incrível História da Viúva que Foi Sem Nunca Ter Sido”. Para protagonistas foram escolhidos Francisco Cuoco (Roque), Lima Duarte (Sinhozinho Malta) e Betty Faria (Porcina). Amplamente anunciada como a próxima trama do horário nobre, que entraria substituindo “Escalada”, a novela já tinha 10 capítulos editados e 30 gravados, quando foi proibida pela censura militar. Numa última esperança de liberar a trama, chegou a ser anunciada pela emissora uma mudança de horário, assim a novela “Gabriela”, grande sucesso da época, que ia ao ar às 22 horas, e já a entrar na sua fase final, passaria para o horário nobre e “Roque Santeiro” estrearia às 22 horas. Mas a censura voltou atrás na liberação e proibiu de vez a novela de ir ao ar, alegando que ela era ofensiva à moral e aos bons costumes, ofendendo à igreja e aos princípios católicos. Diante da catástrofe, Janete Clair criou personagens para 90% do elenco da novela censurada, aproveitando-o na mítica “Pecado Capital”. “Roque Santeiro” ficaria dez anos na gaveta até que uma nova versão, em 1985, fosse ao ar.

O Realismo Fantástico Chega à Telenovela

Depois da proibição de “Roque Santeiro”, Dias Gomes faria um intervalo considerado longo demais para a época, em que o autor emendava uma novela na outra. O longo período de ausência encerrar-se-ia em 1976, com “Saramandaia”, trazendo de volta um Dias Gomes ousado, que mudaria novamente a linguagem da telenovela, inaugurando de vez o realismo fantástico, que faria escola, e influenciaria na década seguinte, outros autores, como Agnaldo Silva.
A história da pacata cidade do interior da Bahia, Bole-Bole, e dos seus estranhos moradores chegou a ser comparada ao livro de Gabriel Garcia Márquez, “Cem Anos de Solidão”, mas Dias Gomes alegou que se inspirara no universo da literatura de cordel, e não gostava do termo “realismo fantástico”. Personagens estranhos e fascinantes atraíam o público, que além do vôo de Zelão das Asas em “O Bem Amado”, não tinha visto nada igual na televisão brasileira.
Na novela, Bole-Bole estava dividida entre os conservadores, que queriam manter o nome histórico da cidade, originário de uma aventura local de dom Pedro I; e os modernistas, que queriam mudar o nome da cidade para Saramandaia. Este nome fora revelado em sonho ao protagonista João Gibão (Juca de Oliveira), um homem inteligente, mas estranho em sua conduta. João Gibão trazia uma corcunda tapada por um gibão, daí a origem da alcunha. Na verdade João não era corcunda, o que ele escondia debaixo do gibão era um par de asas, que todos os dias era aparado pela mãe.
Diante de tão grande segredo, João foge à sedução e ao amor da bela Marcina (Sonia Braga), que literalmente arde de paixão, quando ela está excitada, a temperatura do corpo eleva-se de tal forma que incendeia os lençóis e queima todos que a tocam.
Para complicar a situação, o filho de Lua Viana (Antonio Fagundes em sua estréia na Globo), prefeito da cidade e irmão de João Gibão, e da bela Zélia (Yoná Magalhães), herda a anomalia do tio. A criança nasce com asas, mas morre logo a seguir, causando escândalo e espanto na cidade.
Entre as personagens esdrúxulas está o coronel Zico Rosado (Castro Gonzaga), homem conservador e cruel, que expele formigas pelo nariz. No final da novela ele morre soterrado na sua casa, que desaba após ter os alicerces corroídos e transformado em um grande ninho de bilhões de formigas.
Destaque para as cenas antológicas entre Risoleta (Dina Sfat) e o professor Aristóbulo (Ary Fontoura), homem estranho que não consegue dormir há décadas, perambulando à noite pela cidade, onde tem encontros com dom Pedro I e Tiradentes. Risoleta é fascinada pela fama do professor virar lobisomem, no fim da novela ela o seduz e consegue que se transforme em lobisomem na sua frente. É a primeira vez que a figura do lobisomem é explorada em uma novela. A temática voltaria em 1986, com “Roque Santeiro”.
Há ainda Cazuza (Rafael de Carvalho), pai de Marcina e marido de Maria Aparadeira (Eloísa Mafalda), que morre e ressuscita no início da novela, mas que todas às vezes que perde a calma, ameaça soltar o coração pela boca.
Uma das cenas mais antológicas da novela foi a da morte de dona Redonda (Wilza Carla), que de tanto comer explode em praça pública, tendo partes do corpo lançada em toda a cidade. No local da explosão foi formada uma grande cratera, onde surge uma flor gigante, que exala um cheiro terrível sobre a cidade.
O fim antológico da novela mostra um perseguido e injustiçado João Gibão, que para escapar de ser morto, já com as asas crescidas, voa rumo ao infinito. A última cena traz o vôo de João ao som da música “Pavão Mysteriozo”, de Ednardo, tema de abertura da novela , que se tornara um grande sucesso radiofônico da época.

O Fim do Horário das 22 Horas

Após o sucesso estrondoso de “Saramandaia”, Dias Gomes declara-se saturado das novelas. Diz querer escrever seriados e obras com menos capítulos. A Globo decide acabar com o horário de novelas das 22 horas, criando seriados nacionais para substitui-las. Como transição, apresenta “Sinal de Alerta”, de Dias Gomes, a última novela do horário, estreada em 1978. Naquele ano já a abertura política começava a ser desenhada e o AI-5 seria extinto, passando a não mais existir a partir do primeiro dia de 1979. A novela discutia amplamente a poluição das fábricas e a deterioração do meio ambiente. Trazia como protagonistas o empresário Tião Borges (Paulo Gracindo), dono da fábrica responsável pela poluição de um bairro; sua noiva, que poderia ser a sua filha, a bela e virginal Sulamita (Vera Fischer): a ex-mulher Talita (Yoná Magalhães) e o aventureiro e bom caráter Rudi (Jardel Filho). A novela não obteve uma boa audiência e foi a criação mais fraca de Dias Gomes na sua produtiva década de 1970. Nos últimos 30 capítulos, o autor teve a ajuda de Walter George Durst para escrever a novela. No meio da trama Vera Fischer engravidou, e como a sua personagem era uma virgem, filha de um rígido pastor evangélico, o autor teve que improvisar um estupro para a personagem, para que não fugisse do perfil psicológico quando a gravidez da atriz começasse a aparecer.
Com a inauguração dos seriados em 1979, Dias Gomes seria ao lado de Gianfrancesco Guarnieri e Walter George Durst, o criador e roteirista do seriado “Carga Pesada”, protagonizado por Antonio Fagundes e Stênio Garcia, acumulando a função da supervisão de texto.
Em 1980 deixa “Carga Pesada” e transforma “O Bem Amado” em seriado semanal. Para isto ressuscita Odorico Paraguaçu, morto no último capítulo da novela, em 1973, alegando que ele tivera uma catalepsia. Nesta nova fase de “O Bem Amado”, com o passar do tempo o prefeito Odorico torna-se uma sátira ao então governador de São Paulo, Paulo Maluf. O A seriado seria um grande sucesso e ficaria no ar até 1984.

Roque Santeiro

Em 1985 a ditadura militar tornou-se uma página virada da história brasileira. “Roque Santeiro”, censurada dez anos antes, pôde finalmente ir ao ar. À exceção de Lima Duarte e Luiz Armando Queiroz, que assumiram os mesmos personagens da versão de 1975, a novela veio à tona com um elenco totalmente renovado, tendo como protagonistas Regina Duarte (Viúva Porcina) e José Wilker (Roque). Agnaldo Silva pegou os 50 capítulos escritos por Dias Gomes e ampliou-os para o dobro. Sob a supervisão do autor, ele transformou a novela em um grande sucesso.
Roque Santeiro” era uma crítica contumaz às cidades que viviam do comércio da religiosidade e da fé das pessoas. Asa Branca, cidade do interior da Bahia, tinha sofrido um ataque de Navalhada (Oswaldo Loureiro), para não pilhar a cidade e matar grande parte dos seus habitantes, o bandido exigiu uma grande quantia à população. O dinheiro foi entregue ao corajoso Roque, que serviria de negociador com Navalhada. Mas Roque teria sido morto, tornando-se um mártir. Mais tarde, tornar-se-ia milagreiro. Asa Branca cresce em torno do mito de Roque, que é tido como santo. Recebe romeiros de todos os cantos. Neste período, Porcina, amante do poderoso Sinhozinho Malta, chega a Asa Branca e para camuflar o caso entre os dois, é apresentada como a viúva de Roque, sem nunca ter sido. O tempo passa e um dia um homem misterioso volta à cidade. É Roque, que nunca fora mártir, e sim um vigarista que fugira com o dinheiro que deveria ter sido entregue a Navalhada. Rico e arrependido, Roque volta para rever a família e redimir-se diante da cidade. Na volta encontra-se com o mito, com o santo e mártir que se tornara, com uma vida que se lhe fora criada, inventando-lhe até mesmo uma viúva. Reconhecido pelos poderosos de Asa Branca, Roque é impedido de revelar a verdade, pois a revelação destruiria a cidade que vivia da mentira e dos falsos milagres de um santo vigarista.
Dias Gomes tem aqui um dos enredos mais fascinantes da sua teledramaturgia. Com o passar dos capítulos, o autor acusou Agnaldo Silva de dar às personagens um certo tom brega. Para finalizar a trama, tomou para si os últimos capítulos, afastando de vez Agnaldo Silva. Dos 209 capítulos da novela, Agnaldo Silva escreveu 111 deles. Pela primeira vez, o autor poderia debater temas polêmicos como a reforma agrária, os falsos milagres e a comercialização da fé, sem uma censura prévia a tentar calá-lo. O resultado foi uma das novelas mais bem sucedida da história da televisão brasileira.

Do Mito de Édipo ao Apocalipse do Mundo

Em 1987, Dias Gomes escreveu “Expresso Brasil”, uma mini novela com 40 capítulos, que tinha a duração de 5 minutos cada, indo ao ar de segunda a sábado, entre o Jornal Nacional e a novela do horário nobre. Na verdade a novela era uma ode ao universo das grandes personagens da televisão. Desfilavam dentro de uma locomotiva todos as grandes personagens do autor, além de algumas personagens de outros autores. “Expresso Brasil” era uma singela homenagem às personagens das telenovelas brasileiras. Dentro da locomotiva pudemos rever Tucão, Sinhozinho Malta e Odorico Paraguaçu, entre tantos.
Em 1987 Dias Gomes, em parceria com Marcílio Moraes, decidiu levar para a telenovela o mito grego de Édipo, adaptando para o Brasil do século XX a peça “Édipo Rei”, de Sófocles. A novela sofreu com a censura, que não queria aprovar a sinopse, considerando o tema impróprio para o horário das 21 horas. Após longas negociações com a Globo, a novela foi ao ar.
Mandala” foi dividida em duas fases. A primeira trazia um Dias Gomes na sua essência e verve política, pela finalmente falando abertamente sobre os tristes anos da ditadura política. Nesta fase era contada a história da jovem Jocasta (Giulia Gam) e de Laio (Taumaturgo Ferreira), unidos pelo amor e separados pela maldição de que o filho do casal mataria o pai e casar-se-ia com a mãe. A primeira fase da novela foi um sucesso, marcada pelo forte conteúdo político. Na segunda fase da novela Jocasta (Vera Fischer), apaixonar-se-ia sem saber, pelo filho Édipo (Felipe Camargo), levado dos seus braços quando nascera. A novela sofreu pressão do público e da censura, que não queriam assistir ao beijo de mãe e filho. Diante de tantos obstáculos, Dias Gomes decepcionou-se com a trama, deixando-a no capítulo 35, que seria escrita por Marcílio Moraes e Lauro César Muniz. A novela chegou ao fim sem brilho e sem o carisma habitual de Dias Gomes.
Em 1988 Dias Gomes adaptou a sua famosa peça “O Pagador de Promessas”, para uma mini série, protagonizada por José Mayer. A fraca e contida interpretação do ator, e um texto com um discurso por demais dogmático, tiraram a essência dramática e beleza contestatória da peça. A mesma peça já tinha sido adaptada para o cinema, em um filme de Anselmo Duarte, de 1962, que contara com a extraordinária interpretação de Leonardo Villar, ganhando a Palma de Ouro em Cannes, naquele ano.
Em 1990 a TV Manchete alcançou um grande sucesso com a novela “Pantanal”, que começava pouco antes de terminar o capítulo da novela global “Rainha da Sucata”, roubando a tradicional audiência da emissora. Para fazer frente a este sucesso, Dias Gomes foi chamado para escrever uma trama que entraria em horário inédito, após o término da novela do horário nobre. Surgiu “Araponga”, escrita em parceria com Lauro César Muniz e Ferreira Gullar. A história de Araponga, codinome da personagem de Tarcísio Meira, um ex-agente informante da ditadura militar, apesar de ser contada de forma cômica, sucumbiu diante do sucesso de “Pantanal”, e praticamente passou despercebida.
A falta de carisma de “Araponga” deixaria Dias Gomes longe das novelas até 1995, quando pela primeira vez, trabalharia no horário das dezoito horas, trazendo de volta um grande sucesso da teledramaturgia brasileira, “Irmãos Coragem”, da sua falecida mulher Janete Clair. Inadequada para o horário, escrita a obedecer uma estruturação psicológica moldada sobre os esboços de Janete Clair, a novela perdeu o seu impacto dramático e carisma emotivo, faltando, principalmente, a espontaneidade intuitiva genial da autora.
A última novela escrita por Dias Gomes foi “O Fim do Mundo”, de 1996, que teve apenas 35 capítulos. A novela foi criada para ser uma mini série, mas entrou no horário nobre devido aos atrasos na produção da novela “O Rei do Gado”, de Benedito Ruy Barbosa. Trazia a divertida história de uma cidade do interior, que acreditou na promessa do vidente Joãozinho de Dagmar (Paulo Betti), que anunciava dia e hora para o fim do mundo. Acreditando na promessa do Apocalipse, todos passam a fazer o que bem entendem, sem a preocupação com as aparências e o futuro. Uma corrosiva crítica à sociedade, que diante da iminência de um fim, mergulha na sua hipocrisia de forma libertina e sem limites, sem pensar na redenção dos atos. Com “O Fim do Mundo”, Dias Gomes despedia-se das novelas sem o brilho de “O Bem Amado” e “Roque Santeiro”, mas senhor absoluto do seu universo de denúncia social.
Se na última década de vida, as telenovelas traziam uma certa saturação e decepção do autor, as mini séries que escreveu foram de uma qualidade excepcional, originando clássicos como “As Noivas de Copacabana” (1992), “Decadência” (1995) e “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1998). Dias Gomes morreu em São Paulo, num acidente de automóvel, acontecido em 18 de maio de 1999. Tinha 76 anos. Era na época, um imortal da Academia Brasileira de Letras. A sua morte deixou uma grande lacuna no teatro e na teledramaturgia do país. Suas personagens tornaram-se eternas e únicas. Quem não se lembra da eterna viúva Porcina? Quem que não se maravilhou com o universo único de Dias Gomes? O Brasil agradece o retrato criado pelas teclas deste grande baiano.

OBRAS

Peças de Teatro:

1937 – A Comédia dos Moralistas
1942 – Pé de Cabra
1942 – João Cambão
1943 – Amanhã Será Outro Dia
1943 – Doutor Ninguém
1943 – Zeca Diabo
1943 – Toque de Recolher
1944 – Dr. Ninguém
1949 – A Dança das Horas
1949 – É Amanhã
1954 – Os Cinco Fugitivos do Juízo Final
1960 – O Pagador de Promessas
1962 – A Invasão
1962 – A Revolução dos Beatos
1965 – O Berço do Herói
1966 – O Santo Inquérito
1968 – Dr. Getúlio, Sua Vida e Sua Obra
1969 – Odorico, o Bem Amado
1969 – Vamos Soltar Demônios
1979 – O Rei de Ramos
1979 – O Túnel
1979 – As Primícias
1980 – Campeões do Mundo
1983 – Vargas
1984 – Amor em Campo Minado
1989 – Meu Reino por um Cavalo

Novelas:

1969 – A Ponte dos Suspiros – TV Globo
1970 – Verão Vermelho – TV Globo
1970/1971 – Assim na Terra Como no Céu – TV Globo
1971/1972 – Bandeira 2 – TV Globo
1973 – O Bem Amado – TV Globo
1974 – O Espigão – TV Globo
1975 – A Saga de Roque Santeiro e a Incrível História da Viúva que Foi Sem Nunca Ter Sido (1ª versão censurada de Roque Santeiro) – TV Globo
1976 – Saramandaia – TV Globo
1978/1979 – Sinal de Alerta – TV Globo
1985/1986 – Roque Santeiro (co-autoria com Agnaldo Silva) – TV Globo
1987/1988 – Mandala (até o capítulo 35) – TV Globo
1990 – Araponga – TV Globo
1995 – Irmãos Coragem (supervisão de texto) – TV Globo
1996 – O Fim do Mundo – TV Globo

Casos Especiais:

1971 – O Crime do Silêncio – TV Globo
1971 - A Pérola – TV Globo
1974 – Gino – TV Globo
1988 – Boi Santo – TV Globo

Mini-Séries:

1987 – Expresso Brasil – TV Globo
1988 – O Pagador de Promessas – TV Globo
1992 – As Noivas de Copacabana – TV Globo
1995 – Decadência – TV Globo
1998 – Dona Flor e Seus Dois Maridos – TV Globo

Seriados:

1979 – Carga Pesada (supervisão de texto) – TV Globo
1980-1984 – O Bem Amado – TV Globo
publicado por virtualia às 16:26
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