Sexta-feira, 29 de Maio de 2009

O REGICÍDIO

 

 

A 5 de outubro de 1910 era proclamada a República em Portugal, pondo fim a uma das monarquias mais antigas da Europa. A jovem República herdara um país empobrecido, longe dos áureos tempos das grandes navegações. Além de uma economia precária, trazia nas costas o sangue derramado do penúltimo rei português, nódoa que jamais sairia do cenário histórico português.
No dia 1 de fevereiro de 1908, sucedeu-se na Baixa Lisboeta, entre o Terreiro do Paço e a Rua do Arsenal, uma das maiores tragédias da história da monarquia portuguesa, o assassínio do rei Dom Carlos e do príncipe Luis Filipe. Vítima da sua política déspota e ditatorial, o monarca suscitou o ódio popular, incitando sobre si, as revoltas e várias armas apontadas. Dom Carlos retornava de uma temporada no Alentejo, quando foi surpreendido por revoltosos militantes dos Dissidentes e dos Republicanos, cerca de oito (ou dezoito, conforme algumas versões) começaram a atirar sobre o landau que trazia a família real. Dom Carlos tombou sob os tiros da Winchester 351 de Manuel Buíça, e o filho, o infante Dom Luís Filipe, sob os tiros de Alfredo Costa. A rainha Dona Amélia, usando as flores que recebera de boas vindas a Lisboa, batia com elas no rosto dos atiradores, em vão, tentando defender a família. Minutos depois as flores caíam no chão, manchadas de sangue, assim como a monarquia, que dava os seus últimos suspiros. Nas ruas da cidade, o sangue real lavava todos os pecados do reinado de Dom Carlos, o regicídio abria as portas para a República, fechando de vez as da Monarquia.

O Mapa Cor-de-Rosa, Primeira Derrota do Reinado de Dom Carlos

O reinado de Dom Carlos teve início em 1889, quando sucedeu ao pai, Dom Luís. Desde que ascendera ao trono, o monarca fora contestado, sendo responsabilizado por todas as mazelas de Portugal.
O grande desgaste que atingiria para sempre a imagem do rei diante dos seus súditos, viera de uma questão com a Inglaterra, em 1890. O país possuía colônias no sul da África, entre os oceanos Atlântico e Índico, para uni-las, o governo português traçou o chamado Mapa Cor-de-Rosa, que consistia nos territórios de Angola, Moçambique, e o espaço entre eles, chamado de Chire. Portugal apresentou o mapa aos países aliados, tomando para si o direito aos territórios. A Inglaterra não gostou do mapa, que a obrigava a passar pelos territórios lusitanos para unir as suas colônias africanas de norte a sul. O império Britânico deu um ultimato a Portugal, que abandonasse imediatamente a região do Chire, caso contrário declarar-lhe-ia guerra. Sem saída, impossibilitado de enfrentar tão poderosa nação, Dom Carlos cedeu às pretensões inglesas, perdendo com isto, a popularidade, fazendo com que crescesse os simpatizantes dos republicanos, que, aproveitando-se da insatisfação popular, tentariam a implantação da República no Porto, em 31 de janeiro de 1891.

João Franco é Nomeado Presidente do Concelho

O fim do século XIX foi caracterizado pela decadência da Monarquia e pela acentuada corrupção eleitoral, promovida por dois partidos, o Progressista e o Regenerador. Estes partidos revezavam-se no poder, tendo como juiz o próprio rei, que quando via terminar o mandato de um deles, chamava o outro, por este motivo, os dois partidos eram conhecidos como “rotativos”. Esta manipulação real, consentida pelo oportunismo partidário, teve a harmonia quebrada em 1901, quando João Franco abriu uma cisão no Partido Regenerador e, em 1905, quando José Maria Alpoim abriu outra cisão no Partido Progressista, formando a Dissidência Progressista. Diante das divisões, do desgaste, da corrupção e dos escândalos políticos, o parlamento deixou de funcionar a partir de 1904.
Marcada pela letargia do parlamento, a primavera de 1905 trouxe grandes tumultos e agitações que selariam de vez o futuro do rei e a sua integridade física. De 9 a 13 de abril, as guarnições dos cruzadores “D. Carlos” e “Vasco da Gama”, sob a inspiração de José Maria Alpoim, revoltaram-se, produzindo um movimento que tinha como meta pôr o infante Dom Luís Filipe no trono, no lugar do pai.
Não bastassem as guarnições revoltosas, a 4 de maio, o republicano Bernardino Machado promoveu uma manifestação que foi severamente dispersada pela polícia, deixando dezenas de feridos. No Campo Pequeno, o republicano Afonso Costa, na presença da rainha Dona Amélia, recebeu uma grande ovação. Incomodado pelas agitações cada vez mais contundentes, o presidente do Conselho, o regenerador Hintze Ribeiro, pediu ao rei que suspendesse indefinidamente a sessão legislativa, até que se estabelecesse a normalidade. Diante de uma proposta de se instaurar uma ditadura, Dom Carlos recusou a proposta do presidente do conselho. Em 19 de maio, nomearia para o cargo de Hintze Ribeiro, o exaltado João Franco Castelo-Branco.

Decreto Arbitrário e Ditatorial

João Franco demonstrou-se um desastre para o combalido governo de Dom Carlos. Sob os arroubos da exaltação, chegou prometendo o fim da política de “rotação”, demonstrando desde sempre, contumaz inimigo dos “rotativos”. Prometeu formar um genuíno parlamento, eleito sem comprometimentos. Diante de uma política viciada, João Franco propunha, inconscientemente, uma explosiva situação revolucionária. Para liquidar os “rotativos”, ele precisava de um reino ditatorial para chegar ao reino da liberdade. Não podendo acabar de vez com a “rotação”, uniu-se a um dos partidos que dela fazia parte, os Progressistas. Mas a inabilidade e a falta de competência de Franco para liquidar os “rotativos”, fez com que estes organizassem manifestações contra Dom Carlos, incitando para isto, populares em Arganil, na Régua e em Vila Real. Por fim, o rei tornou-se alvo das difamações, maledicências e ódios por todo o reino.
Tentando fazer uma eleição menos viciada, João Franco viu, em 1906, a vitória de quatro republicanos ao parlamento: Antonio José de Almeida, João de Menezes, Afonso Costa e Alexandre Braga. O presidente do Conselho governou sofrendo o obstrucionismo nas Câmaras e, com profundas campanhas difamatórias da imprensa, gerando cada vez mais desafetos para o seu governo e para o rei.
Em 1907, bastante enfraquecido, João Franco viu-se ameaçado pelos Progressistas, que tramavam para substitui-lo. Para impedir a sua derrocada, Franco pôs somente aliados no governo.
Terminada a união com os Progressistas, sem alianças, restava a iminência de uma ditadura, que combatesse os “rotativos”. A 8 de maio de 1907, Dom Carlos assinou um decreto que dissolvia a Câmara dos Deputados, sem a prévia consulta do Conselho de Estado e sem que se marcassem eleições, conforme determinava a Constituição. Estava instaurada a ditadura absolutista de Dom Carlos e do seu aliado, João Franco.

Corrupção e Conspirações

Ainda no fatídico ano de 1907, explodiu uma greve acadêmica em Coimbra, contestando as arbitrariedades do governo, que logo se alastrou por todo o país. A situação tornou-se mais delicada quando João Franco, para evitar os constantes ataques dos jornais republicanos e dos Dissidentes Progressistas, faria aprovar uma nova lei repressiva, que viria a ser conhecida como “a lei contra a imprensa”.
Em novembro de 1907, o Dissidente Antonio Centeno, em discurso na Câmara dos Pares, mencionou que havia contas a liquidar entre a administração da Casa Real e o Estado, ao que Franco confirmava, espontaneamente, que Dom Carlos recebera adiantamentos ilícitos do Estado à Casa Real. Imediatamente foram espalhados boatos de que o rei roubava o Estado. Para deteriorar ainda mais a situação, o rei declarava arrogantemente ao jornal parisiense “Le Temps”, que era o responsável pela dissolução da Câmara, e que quando ele e Franco achassem conveniente, convocariam as eleições.
A questão dos “adiantamentos” não saiu mais da pauta da imprensa e das calorosas afrontas no Parlamento. Portugal era um país empobrecido, cada vez mais isolado nas questões políticas européias. Para uma população que se via cada dia mais carente financeiramente, defrontar-se com os boatos de uma Monarquia corrupta, fazia com que aumentasse a simpatia pelos republicanos e desprezassem o seu rei, que se tornara um absolutista, recorrendo a uma forma repressiva e ditatorial de governar. Se a verdade sobre a corrupção de Dom Carlos pode ser historicamente contestada e provada a sua inocência, a sua forma de ditador não o redimiu, pelo contrário, tornou-se historicamente inquestionável.
Se a popularidade do rei caía vertiginosamente, os movimentos conspiratórios contra o seu reinado ascendiam espetacularmente. No princípio de novembro de 1907, a conspiração dos republicanos e dos Dissidentes Progressistas estava pronta para travar a luta definitiva. Armaram-se com carabinas e revólveres, começaram a tramar uma revolução que culminasse com o fim da Monarquia e a proclamação da República. Na véspera da intentona republicana, marcada para o dia 28 de janeiro de 1908, os seus dirigentes, entre eles João Chagas, José Maria Alpoim, Afonso Costa, Antonio José de Almeida, o visconde da Ribeira Brava, João Pinto dos Santos e Egas Moniz, distribuíram carabinas winchester e revólveres aos grupos de aliados civis.
Mas a intentona foi descoberta antes que se concretizasse, levando os seus principais conspiradores à prisão. No meio da confusão, grupos de aliados civis continuaram armados, entre eles Manuel Buíça, que herdara uma Winchester 351, e Alfredo Costa, herdeiro de um revólver. Os dois dariam os tiros fatais que matariam o rei Dom Carlos e o seu filho Dom Luís Filipe.

O Regicídio

Para punir os conspiradores, Dom Carlos, a 31 de janeiro de 1908, assinou um decreto que autorizava o governo a expulsar do reino e degredar para as colônias ultramarinas, os culpados de crimes contra a segurança do Estado. Um jornal, “O Mundo”, descobriu uma cópia do decreto e publicou-o, incitando a revolta contra o rei. Falsamente, o jornal, de tendência republicana, concluía que Egas Moniz, Afonso Costa, Ribeira Brava, João Chagas e Antonio José de Almeida seriam deportados para Timor, fato que nunca estivera nos planos de Dom Carlos.
Era costume da família real passar o mês de janeiro em Vila Viçosa, Alentejo. Quinze dias antes do retorno oficial, a rainha Dona Amélia quis voltar, mas o rei recusara. João Franco incentivou o rei a lá permanecer, sua volta antecipada poderia demonstrar fraqueza diante dos acontecimentos conturbados, segundo o presidente do Conselho, era preciso mostrar que tudo corria sem preocupações.
Assim, findo o mês de janeiro, a família real regressou para Lisboa. No caminho de volta, um descarrilamento do comboio, em Casa Branca, atrasaria algumas horas a chegada à capital.
No fim da tarde de 1 de fevereiro, a família real chegava à estação fluvial do Terreiro do Paço. O visconde de Asseca, estribeiro-mor, indagou ao rei se preferia fazer o trajeto até o Palácio das Necessidades de automóvel ou de carruagem aberta, fatalmente Dom Carlos escolheu a carruagem aberta, o landau. À espera do rei estavam o infante Dom Manuel, que retornara mais cedo do Alentejo, Dom Afonso, João Franco, as damas palatinas, os cortesãos e os fiéis, além de alguns políticos. Por volta das cinco horas da tarde, Dom Carlos subiu na carruagem aberta, ao seu lado, à frente, iam os dois infantes e Dona Amélia. Quando o landau atravessava o meio da passadeira no lado ocidental do Terreiro do Paço, um homem de gabão saiu da placa central, extraiu uma carabina da capa, ajoelhou-se e atirou. Era Manuel Buíça, o seu tiro atingiu o rei, partindo-lhe a coluna, matando-o instantaneamente. O landau foi cercado por dois outros homens, que abriram fogo atingindo a carruagem e as paredes do Ministério da Fazenda. Da arcada surgiu Alfredo Costa, que empunhando um revólver Browning FN, calibre 7.65, saltou para o estribo do landau, disparando dois tiros em Dom Carlos, a esta altura, já morto, o rei foi atingido no antebraço e na omoplata direita. O infante Dom Luís Filipe levantou-se, tentando sacar de um colt, calibre 38, que trazia consigo. Alfredo Costa atingiu o príncipe com uma bala no peito. Ferido, o príncipe respondeu com um tiro, atingindo Costa, que rolou para o chão. Manuel Buíça continuava a disparar sobre Dom Carlos, finalizando com um tiro letal na cabeça de Dom Luís Filipe. Dona Amélia desceu do landau, e com um ramo de rosas que recebera como presente de boas-vindas, fustigou o rosto de Alfredo Costa, forçando-o a parar de atirar na sua família.
Após alguns minutos fatídicos, a escolta do rei reagiu. Policiais e soldados convergiram contra Alfredo Costa e Manuel Buíça, este último ainda acertou em um soldado e no tenente Figueira. O tenente desferiu um sabre nas costas de Buíça. No fim da tragédia, jaziam o rei Dom Carlos, o príncipe Dom Luís Filipe, os regicidas Manuel Buíça e Alfredo Costa. A carruagem do rei refugiou-se na Rua do Arsenal. Ali, no empedrado da rua, os corpos reais foram estendidos, molhando o chão com uma grande poça de sangue. Diante dos cadáveres do marido e do filho, Dona Amélia vociferou para João Franco: “Veja a sua obra”.
Diante dos corpos, uma multidão de pessoas apareceu, tratando Franco e os ministros com desprezo e repulsa.
Levada ao local, a rainha Dona Maria Pia, viúva do rei Dom Luís, mãe de Dom Carlos, disse a Dona Amélia: “Alors, on a tué mon fils.” A pobre mulher ainda não sabia da morte do neto. Desolada, Dona Amélia respondeu-lhe, revelando-lhe a morte do príncipe: “Et lê mien aussi.” A rainha-mãe resignou-se, sentando-se, sem dizer mais uma palavra, ou verter uma lágrima. À noite, dois landaus levaram os corpos para o Palácio das Necessidades. O crime trouxe o medo e o terror para todos os nobres do reino, receosos de serem os próximos.
Após a tragédia, que passou para a história como o regicídio, Dom Manuel, segundo na sucessão de Dom Carlos, tornou-se o último rei de Portugal. Seu reinado terminaria no dia 5 de outubro de 1910, com a proclamação da República. O último rei português não deixou descendência, sendo a linha sucessória passada para o ramo miguelista (descendentes de Dom Miguel, irmão de Dom Pedro IV de Portugal e I do Brasil). Quando Dom Carlos morreu, morria também qualquer vínculo com o futuro da sua descendência. Dom Manuel II preservou a prole do malogrado rei até a sua morte no exílio, em 1932. Dom Carlos, assim como o seu reinado, deixou a esterilidade do mundo como herança. Um século depois da sua morte, a República portuguesa, hoje parte de um regime de cunho democrático, ainda carrega nas costas um dos preços que teve que pagar para ser proclamada, o sangue derramado na Rua do Arsenal, o regicídio.
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publicado por virtualia às 04:11
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1 comentário:
De cmartins a 29 de Maio de 2009 às 16:27
desculpem isto nao ter nada a ver com o tema.

Mas gostava de pedir ao administrador deste blog para divulgar este outro blog :
hppt://xaninhanossa.blogspot.com/
e solicitar tambem a assinatura da petição internacional que la se encontra se porventura estiver de acordo com ela.

Braga: 14,30h dia 31 de Maio na Av. central, movimento de apoio à causa.

Obrigado

todos juntos poderemos salvar a Alexandra!


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