Quinta-feira, 9 de Abril de 2009

DOM CASMURRO - MACHADO DE ASSIS

 

 

Em 2008 completou-se cem anos da morte de Machado de Assis, considerado o maior escritor brasileiro de todos os tempos. Autor de uma obra singular, densa e rica, Machado de Assis foi um escritor completo, deixou-nos romances, poesias, contos e peças teatrais. Como romancista nos legou verdadeiras obras-primas da literatura universal, como Dom Casmurro, Quincas Borba e Helena. É sobre o primeiro, Dom Casmurro, que, mais uma vez, se irá falar e tentar desvendar os seus meandros e armadilhas psicológicas.
Dom Casmurro é o mais famoso livro de Machado de Assis, e também o mais enigmático. Os amores de Bentinho e Capitu, desde que o livro foi lançado em 1899, gerou polêmicas, debates e arroubos dos leitores. Uma primeira leitura a Dom Casmurro, remete-nos a sensação de que temos mais um livro sobre o adultério feminino, tão magistralmente explorado na literatura realista do século XIX, em obras como Madame Bovary, de Gustave Flaubert; Ana Karenina, de Leon Tolstoi, e O Primo Basílio, de Eça de Queiroz. Esta interpretação simplista esvai-se conforme nos aprofundamos na leitura. Se nos outros romances citados o adultério das protagonistas é explícito, levando as personagens ao êxtase dos amores fora dos leitos conjugais, remetendo-as mais tarde à culpa, à insatisfação e à morte, em Dom Casmurro o adultério de Capitu é apenas sugerido diante das desconfianças do marido. Em momento algum há uma confissão dos acusados, Capitu e Escobar. O adultério está refletido na face e nos gestos de Ezequiel, que Bentinho, em seu ciúme obsessivo e perturbado, insiste em ver como uma cópia física de Escobar.
Mas até onde Capitu é culpada? Além da visão embaçada de Bentinho, mortificada pelo ciúme, que outra prova temos das verdades ou mentiras dos sentimentos e dos seus abismos? Por cerca de 60 anos, o adultério de Capitu foi dado como verdadeiro pelos leitores e críticos da obra. A palavra de Bentinho era aceita sem dúvidas. Somente em 1960, quando a crítica e escritora norte-americana, Helen Caldwell, publicou The Brazilian Othelo of Machado de Assis (O Otelo Brasileiro de Machado de Assis), é que esta visão definitiva passou a ser contestada. Helen Caldwell, uma especialista na obra de Machado de Assis desde os anos 50, questiona que em momento algum Machado de Assis diz que Capitu cometeu adultério, prevalecendo apenas a acusação baseado nas suspeitas de Bentinho. Ao contrário da Ana Karenina ou da Luísa de O Primo Basílio, Capitu não se confessa adúltera. Na visão de Helen Caldwell, Bentinho é a versão brasileira do Otelo de Shakespeare, que por ciúmes e por julgar-se traído, matou a amada Desdêmona, inocente diante da acusação fatal. Esta nova análise de Dom Casmurro foi, a princípio, mal aceita pelos críticos, mas com o passar do tempo, lançou uma nova perspectiva sobre a obra machadiana. Desde então, o enigma foi criado e jamais desvendado. Teria a bela Capitu cometido adultério, ou seria, assim como Desdêmona, vítima dos ciúmes de Bentinho-Otelo?

Construindo a Narrativa

Dom Casmurro traz impregnado em sua narrativa o estilo peculiar de Machado de Assis, capítulos curtos, frases concisas, em uma linguagem que percorre da mais tenra ironia ao sarcasmo agudo. O autor trava um diálogo direto com o leitor. Muitas vezes explica a forma da narração, contesta-a, alerta o leitor, incentiva-o ou desaconselha-o a continuar a leitura.
A história é narrada na primeira pessoa de Bento Santiago, o Bentinho, o protagonista. Bentinho, homem amargo e solitário, retido nas lembranças das desconfianças e do rancor, já no crepúsculo da vida, decide escrever um livro sobre a sua existência corroída. Encontra o título para a sua história na alcunha de casmurro, dada pelas pessoas ao seu temperamento recluso e taciturno. Acrescenta ironicamente à alcunha o título de dom, daí Dom Casmurro, senhor absoluto das dores contidas, das amarguras da vida, isolado em si mesmo e no sarcasmo filosófico pelo qual trocou a felicidade bucólica de uma vida em família.
Bentinho traz uma narrativa psicológica, onde o tempo salta do presente para o passado esmiuçado nas lembranças, situando-se cronologicamente na segunda metade do século XIX. Construída em flash-back, a narrativa de Bentinho depara-se em determinadas datas, partindo oficialmente das lembranças do ano de 1857, apesar de fazer algumas referências ao pai e à vida no campo antes deste momento cronológico. A história decorrerá toda no segundo império do Brasil, na cidade do Rio de Janeiro. É-nos apresentado a casa da Rua de Matacavalos, com os seus moradores, dona Glória, mãe de Bentinho, senhora que vive para as lembranças da sua viuvez e o amor ao filho; tio Cosme, irmão de Glória, a prima Justina e o agregado José Dias. Este é o mundo do menino e do adolescente Bentinho, complementado pelos vizinhos Pádua, a mulher Fortunata, e a filha Capitolina, a Capitu.
Bentinho escreve da sua casa no Engenho Novo. Concentra a maior parte da narrativa nas memórias da sua adolescência. Na descoberta do amor pela bela Capitu, companheira das suas brincadeiras de infância. Bentinho e Capitu descobrem este amor com quinze e catorze anos respectivamente. A história singela dos adolescentes transcorreria normalmente como tantas outras, não fosse o espectro do seminário que pousa sobre o destino do rapaz.

Capitu, Olhos de Cigana Oblíqua e Dissimulada

Diante da perda do primeiro filho, que não vingou ao nascer, dona Glória prometeu que se o segundo vingasse, entregar-lhe-ia à igreja, tornando-o padre. Assim, Bentinho cresceu sabendo do destino que lhe aguardava como padre. Se na infância a idéia lhe agradava, na adolescência passa a sentir pavor a ela. Assustado, o adolescente Bentinho ficará refém da promessa da mãe e do amor que lhe despertou Capitu. Diante deste dilema, será traçada a personalidade de Capitu, já anunciada a sua essência pela frase de José Dias:

Capitu, apesar daqueles olhos que o Diabo lhe deu... Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada.

Para justificar, talvez a Capitu adúltera, a dissimulação é a principal característica que dela Bentinho irá ressaltar em suas memórias de adolescente. Se a descoberta do amor juvenil deixa Bentinho sem controle de si, Capitu mantém pulso diante do sentimento descoberto. Trôpegos e assustados, os dois trocam o primeiro beijo, as primeiras carícias, as primeiras tempestades dos sentimentos. Beijos roubados, carícias furtivas, muitas vezes quase descobertas pelos adultos. Se a iminência da descoberta do romance pela família apavora Bentinho, Capitu sabe dissimular e manter os sentimentos às rédeas. E ao lado do jovem amado, traça planos e planos para livrá-lo do seminário.
Mas a dissimulação de Capitu durante o decorrer do seminário é condenável? Só ela dissimula? Não seria uma virtude, a luta verdadeira pelo amor de Bentinho? Afinal ela é vista como a usurpadora da igreja e da promessa de Glória na vida de Bentinho. Poderia ela declarar abertamente o seu amor por Bentinho? Ou não dissimular às vezes que quase fora apanhada a roubar um beijo adolescente? Qual mulher não dissimularia naquelas décadas moralistas da segunda metade do século XIX? Evidenciar a dissimulação de Capitu não seria a estratégia de Bentinho para justificar as suas suspeitas e o seu ciúme?

O Seminário e as Pistas da Personalidade de Bentinho

Apesar dos planos de Bentinho e Capitu, aliados aos de José Dias, para que dona Glória desistisse da promessa, o inevitável acontece. Bentinho é mandado para o seminário. Ali conhece o seminarista Ezequiel de Sousa Escobar, simplesmente conhecido como Escobar. Travam uma grande amizade que se seguiria por toda a vida de ambos.
È na fase de seminarista que se desenha lentamente o perfil psicológico escondido de Bentinho. Se durante toda a narrativa, Bentinho evidencia uma Capitu decidida e repleta de truques na sua essência feminina, ele vai deixando pistas ao leitor da sua verdadeira personalidade e do que ela seria futuramente. Aos poucos, são sopradas as bases da sua também dissimulação, o fantasma de Otelo emerge em momentos rápidos, como no capítulo LXII, sutilmente chamado de “Uma Ponta de Iago”. Iago foi o grande vilão causador da tragédia de Otelo. É através das intrigas de Iago que Otelo mata a amada. No capítulo, uma insinuação de José Dias em visita ao seminário, transborda, pela primeira vez, o lado ciumento de Bentinho.

“- Tem andado alegre, como sempre; é uma tontinha. Aquilo enquanto não pegar algum peralta da vizinhança, que case com ela...
Estou que empalideci; pelo menos, senti correr um frio pelo corpo todo. A notícia de que ela vivia alegre, quando eu chorava todas as noites, produziu-me aquele efeito, acompanhado de um bater de coração, tão violento, que ainda agora cuido ouvi-lo. Há alguma exageração nisto; mas o discurso humano é assim mesmo, um composto de partes excessivas e partes diminutas, que se compensam, ajustando-se. Por outro lado, se entendermos que a audiência aqui não é das orelhas, senão da memória, chegaremos à exata verdade. A minha memória ouve ainda agora as pancadas do coração naquele instante. Não esqueças que era a emoção do primeiro amor. Estive quase a perguntar a José Dias que me explicasse a alegria de Capitu, o que é que ela fazia, se vivia rindo, cantando ou pulando, mas retive-me a tempo, e depois outra idéia...
Outra idéia, não, – um sentimento cruel e desconhecido, o puro ciúme, leitor das minhas entranhas. Tal foi o que me mordeu, ao repetir comigo as palavras de José Dias: "Algum peralta da vizinhança." Em verdade, nunca pensara em tal desastre. Vivia tão nela, dela e para ela, que a intervenção de um peralta era como uma noção sem realidade; nunca me acudiu que havia peraltas na vizinhança, vária idade e feitio, grandes passeadores das tardes. Agora lembrava-me que alguns olhavam para Capitu, – e tão senhor me sentia dela que era como se olhassem para mim, um simples dever de admiração e de inveja. Separados um do outro pelo espaço e pelo destino, o mal aparecia-me agora, não só possível mas certo. E a alegria de Capitu confirmava a suspeita; se ela vivia alegre é que já namorava a outro, acompanhá-lo-ia com os olhos na rua, falar-lhe-ia à janela, às ave-marias, trocariam flores e...”


Esta face do ciúme negro de Bentinho voltaria no capítulo LXXIII, quando Escobar conhece ao longe, Capitu, que está à janela da sua casa. Após a saída do amigo, passa na rua um cavalheiro montado em seu cavalo, rumando para o seu namoro. Bentinho vê o cavalheiro lançar um olhar insinuante para Capitu, e, envenenado, sente que ela retribuiu aquele olhar. É o bastante para a ira, o ciúme e o desespero tomar conta dele. Mais tarde, Capitu defende-se, não nega que olhou para o cavalheiro, mas com curiosidade, não com malícia. Este mesmo olhar, Bentinho iria supor ver novamente em Capitu no velório de Escobar.

O Casamento e o Abismo

A narrativa de Machado de Assis é lenta, desenvolvida quase toda na adolescência das personagens. Dos 148 capítulos, somente a partir do capítulo XCVII é que é deixada esta fase, entrando de vez na vida adulta das personagens, já quase no final da história.
A fase seguinte dá-se quando é encerrada a vida de Bentinho no seminário. Após um plano eloqüente de José Dias, Escobar sugere ao amigo que faça a mãe cumprir a promessa à igreja através de um substituto. Assim, dona Glória manda um escravo para ser padre em lugar do filho, quitando a sua dívida com o céu.
Livre do seminário, Bentinho vai para São Paulo estudar direito. Volta adulto e bacharel. Durante a sua ausência, Capitu tornara-se amiga e companheira de dona Glória. O perfil adulto de Capitu deixa de ser traçado como dissimulado, para fazê-la uma mulher íntegra e bondosa. Com a morte da mãe, Capitu toma conta do pai e da casa. Está tudo pronto para que a promessa feita quando adolescentes se cumpra, Bentinho e Capitu casam-se finalmente.
O casamento transcorre feliz. Capitu é vista como mulher exemplar, econômica, afetuosa e apaixonada. Escobar casa-se com Sancha, a melhor amiga de Capitu. Os dois casais travam uma longa e afetuosa amizade. Tão profunda que quando nasce o filho de Bentinho, ele pensa em fazer Escobar o padrinho. Mas o desejo de Bentinho é frustrado diante da insistência de tio Cosme em batizar a criança. Não tendo Escobar como padrinho, Bentinho faz uma homenagem ao amigo, dando ao filho o primeiro nome de Escobar, Ezequiel.
A vida corre feliz para Bentinho, Capitu e Ezequiel. Até que a fatalidade traga Escobar, que morre afogado. É no velório de Escobar que o casamento feliz de Bentinho começa a sucumbir. Ele vê nos olhos de “ressaca” de Capitu o mesmo olhar que vira anos antes, quando o cavalheiro desconhecido passou debaixo da janela da amada. Bentinho jura para si mesmo que Capitu olhou para o defunto com um olhar de paixão. Começa o seu desespero e a sua desconfiança. Meses depois, ingenuamente Capitu comenta com Bentinho que acha Ezequiel parecido com o falecido Escobar. A partir de então Bentinho vê o fantasma de Escobar em cada gesto do filho, começa a enxergar uma semelhança exacerbada que o faz acreditar que Ezequiel não é seu filho. Naquele instante Betinho mata a paternidade dentro de si, vê em Ezequiel o retrato da confirmação da traição e do adultério do amigo com a mulher amada.
Abre-se o abismo. Não há mais volta para as desconfianças de Bentinho. Ele apega-se às dúvidas e ao ciúme, deixando-se envenenar dia após dia. A obsessão pela suposta traição que sofrera torna Bentinho um homem amargo. Em um sábado ele decide pôr fim à vida. Compra veneno na farmácia. Antes de consumar o ato, vai ao teatro. Novamente Machado de Assis dá uma pista do que se passa com Bentinho, pois o capítulo CXXXV chama-se “Otelo”.

"Jantei fora. De noite fui ao teatro. Representava-se justamente Otelo, que eu não vira nem lera nunca; sabia apenas o assunto, e estimei a coincidência. Vi as grandes raivas do mouro, por causa de um lenço – um simples lenço! – e aqui dou matéria à meditação dos psicólogos deste e de outros continentes, pois não me pude furtar à observação de que um lenço bastou a acender os ciúmes de Otelo e compor a mais sublime tragédia deste mundo. Os lenços perderam-se. hoje são precisos os próprios lençóis; alguma vez nem lençóis há e valem só as camisas. Tais eram as idéias que me iam passando pela cabeça, vagas e turvas, à medida que o mouro rolava convulso, e Iago destilava a sua calúnia. Nos intervalos não me levantava da cadeira; não queria expor-me a encontrar algum conhecido. As senhoras ficavam quase todas nos camarotes, enquanto os homens iam fumar. Então eu perguntava a mim mesmo se alguma daquelas não teria amado alguém que jazesse agora no cemitério, e vinham outras incoerências, até que o pano subia e continuava a peça. O último ato mostrou-me que não eu, mas Capitu devia morrer. Ouvi as súplicas de Desdêmona, as suas palavras amorosas e puras, e a fúria do mouro, e a morte que este lhe deu entre aplausos frenéticos do público.
“E era inocente”, vinha eu dizendo rua abaixo; “que faria o público, se ela deveras fosse culpada, tão culpada como Capitu? E que morte lhe daria o mouro? Um travesseiro não bastaria; era preciso sangue e fogo, um fogo intenso e vasto, que a consumisse de todo, e a reduzisse a pó, e o pó seria lançado ao vento, como eterna extinção...”


Bentinho questiona a inocência de Desdêmona, que se reflete na suposta culpa de Capitu. A cegueira continua. Aqui ele decide que Capitu é quem tem que morrer. Ao voltar para casa, passa a noite na sala. Ao amanhecer, diluí o veneno no seu café. É interrompido do ato suicida pela entrada de Ezequiel, que corre afetuoso para os braços do pai. Mas já não há amor paternal no coração negro de Bentinho. Uma idéia cruel passa-lhe pela mente, seguindo o instinto, ele tenta fazer com que o filho tome o café envenenado. Termina por não ter coragem de matar o filho. Capitu entra. Pela primeira vez Bentinho acusa a mulher de adultério. Ela ri a princípio, depois se indigna diante das acusações. Capitu não confessa o adultério. Resigna-se, sente-se ultrajada. E com uma dignidade inviolável, aceita a separação do casal, mostrando-se mais uma vez, que sempre fora mais mulher do que Bentinho fora homem.
Bentinho leva a mulher e o filho para a Europa, onde os confina para sempre. Assim como Otelo, mata a mulher, não fisicamente, mas exilando-a longe da sua terra e das suas origens. Para manter as aparências, Bentinho faz várias viagens à Europa, em nenhuma delas visita Capitu e Ezequiel. Recebe ao longo dos anos, cartas de Capitu, sempre pedindo para voltar, jamais confessando o adultério. Capitu morre exilada na Europa. Ezequiel volta para o Brasil já adulto, tornara-se um arqueólogo. O jovem, ao contrário do pai, nunca se esqueceu da infância vivida ao seu lado. Bentinho não vê chegar o Ezequiel Santiago, mas o próprio Ezequiel de Sousa Escobar. Vê em cada gesto do rapaz os gestos de Escobar. Ezequiel fala dos planos que tem para a sua carreira de arqueólogo, quer visitar as terras históricas. Uma idéia sarcástica toma conta de Bentinho, a de financiar a expedição de Ezequiel na esperança de que ele apanhe a lepra pelos sarcófagos dos reis da antiguidade. Ezequiel parte para Jerusalém, financiado pelo pai. Não morre de lepra, mas de uma febre tifóide que apanha na cidade santa.
Casmurro, amargo, sarcástico, Bentinho enterra todas as personagens da sua história. Um a um, todos sucumbem à sua volta. Tudo ao seu redor é estéril. Todos os filtros do conceito de amor, família e felicidade, são diluídos pelo niilismo amargo e obsessivo de quem se sentiu traído pela vida, pelo amor da mulher amada e pelo melhor amigo. Não há o conceito do perdão ou do amor paternal, mas do sarcasmo e do ciúme. Bentinho é o único sobrevivente da sua história. Também o único juiz.

Capitu e Bentinho, Qual o Verdadeiro Culpado?

O que nos prova a culpa de Capitu? Teria ela cometido o adultério? Se Bentinho acusou a mulher de adultério, o próprio Machado de Assis deu prova de que ela poderia ser inocente, sem afirmar-lhe nunca a inocência ou a culpa.
Vejamos os pontos que levaram às suspeitas de Bentinho: o olhar de Capitu ao morto e a semelhança de Ezequiel e Escobar.
Um olhar parecido já tinha sido identificado por Bentinho na adolescente Capitu, quando um estranho passou montado no cavalo embaixo da sua janela. Capitu defendeu-se na época. Este olhar visto por Bentinho existiu? Não seria um olhar de pesar pela perda de tão querido amigo do casal? Na noite que precedeu à morte de Escobar, também Bentinho viu no olhar de Sancha, a mulher do amigo, um desejo mais profundo e sexual. Chegou a sonhar com um suposto olhar de sedução da mulher do amigo. No outro dia, vendo Sancha chorar pelo marido morto, Bentinho percebeu que se tinha enganado, que o gesto de Sancha tinha sido amigável e cordial, ele que sempre foi de uma imaginação fértil, transitando muita vez entre o real e o imaginário. Não estaria fazendo o mesmo com o olhar de Capitu? O próprio Bentinho pergunta-se sobre este possível engano.
Se Machado de Assis dá provas da culpa de Capitu, ele também fornece pistas contrárias. É o caso da semelhança física entre Ezequiel e Escobar. Ainda quando não há suspeitas, Bentinho vê semelhanças nos pés e nos braços, quando o menino imita Escobar. Ezequiel tem o dom de imitar os adultos, se o faz com Escobar, também o faz com José Dias e a prima Justina. Mas a própria Capitu acha que há semelhanças físicas entre Ezequiel e Escobar. Se tivesse atraiçoado o marido e gerado um filho com o amigo, Capitu faria tão inocente declaração? Não se calaria e procuraria esconder as evidências do adultério?
No capítulo LXXXIII, intitulado “O Retrato”, Gurgel, o pai de Sancha, mostra a Bentinho o retrato da mulher morta. Gurgel acentua a inexplicável semelhança entre Capitu e a mulher. O capítulo passa despercebido, mas volta a ser mencionado no fim da história, no auge das suspeitas de Bentinho. É a consciência de Bentinho que repete as palavras de Gurgel: “Na vida há dessas semelhanças assim esquisitas”. É um paralelo que Machado de Assis faz, lançando mais uma vez uma pista da possível inocência de Capitu.
Por duas vezes Bentinho soube da presença de Escobar na sua casa durante a sua ausência, a primeira, quando o amigo trouxera as libras que Capitu economizara do dinheiro que Bentinho lhe dava. Outra vez Escobar estava à porta da casa do casal, quando Bentinho deixara Capitu adoentada e fora ao teatro, retornando antes do previsto, por estar preocupado com a mulher. As duas vezes seriam provas suficientes do adultério?
A acusação de Bentinho é unilateral. Não é mostrado ao leitor o lado de Capitu. Também Escobar já estava morto, sem qualquer possibilidade de defender a sua memória. A aparência física de Ezequiel com Escobar era evidenciada por um Bentinho com a alma já tomada pelo ciúme e pelo peso da suposta traição.
Finalmente, o silêncio e a resignação de Capitu seriam uma confirmação da culpa ou a indignação da inocência? Ela que nos foi apresentada decidida, implacável no que queria, muitas vezes dissimulada, por que se calou tão repentinamente? A mulher adulta já não era tão voluntariosa quanto a adolescente? Seu silêncio seria de dissimulação ou de dor? De culpa ou de inocência?
Bentinho acusou, julgou e condenou Capitu, Ezequiel e Escobar, sem direito à defesa. Como um Otelo implacável, cumpriu apenas o desejo vil da vingança e da alma dilacerada pelo ciúme. Bentinho matou moralmente os três. Se eram inocentes, só Machado de Assis poderia dizê-lo, mas o autor levou consigo o segredo da bela mulher de olhos de cigana oblíqua e dissimulada, deixando-nos o mais instigante mistério da literatura universal.

Machado de Assis

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu a 21 de junho de 1839, no Rio de Janeiro, então capital do império do Brasil. É esta cidade e os seus costumes que ele vai brilhantemente descrever em sua literatura, mostrando-a, às vezes com amor, outras vezes com sarcasmo. Filho de um mulato pintor de paredes e de uma lavadeira portuguesa, Machado de Assis passou a maior parte da infância entre a chácara da madrinha e a casa pobre dos pais. Ficou órfão da mãe quando ainda era criança. O pai casou-se com Maria Inês, que foi quem lhe ensinou as primeiras letras e criou-o com carinho após a morte do pai.
Machado de Assis vendeu balas nas ruas feitas pela madrasta, empregou-se como aprendiz de tipógrafo e logo a seguir, estreou-se no jornal A Marmota, com os versos de amor Meu Anjo. Três anos depois, em 1858, passou a escrever regularmente para o Correio Mercantil.
Machado de Assis fora uma criança isolada em sua timidez, pobreza e gagueira, o que refletiria na sua vida adulta e em sua obra literária. Mais tarde seria acometido por ataques de epilepsia que o deixaria ainda mais isolado em si. Casou-se com Carolina Xavier de Novais, em 1869, com quem viveria uma vida conjugal calma até 1904, quando ficou viúvo.
Machado de Assis inaugurou a sua obra literária em prosa, em 1870, quando foi publicado o livro “Contos Fluminenses”. Desde então, tornar-se-ia o maior escritor da literatura brasileira, deixando obras românticas como A Mão e a Luva, Helena e Iaiá Garcia, e realistas como Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro e Esaú e Jacó.
Após a morte da mulher Carolina, doente, triste e solitário, Machado de Assis deixou-se definhar, vindo a morrer no dia 29 de setembro de 1908. No leito de morte recusou-se a receber a presença de um padre para que se confessasse. 100 anos após a sua morte, Machado de Assis continua a ser o maior escritor do Brasil, e um dos maiores da literatura universal.

OBRAS:

Romance:

1872 – Ressurreição
1874 – A Mão e a Luva
1876 – Helena
1878 – Iaiá Garcia
1881 – Memórias Póstumas de Brás Cubas
1885 – Casa Velha
1891 – Quincas Borba
1899 – Dom Casmurro
1904 – Esaú e Jacó
1908 – Memorial de Aires

Poesia:

1864 – Crisálidas
1870 – Falenas
1875 – Americanas
1880 – Ocidentais
1901 – Poesias Completas

Conto:

1870 – Contos Fluminenses
1873 – Histórias da Meia-Noite
1882 – Papéis Avulsos
1884 – Histórias sem Data
1896 – Várias Histórias
1899 – Páginas Recolhidas
1906 – Relíquias da Casa Velha

Teatro:

1860 – Hoje Avental, Amanhã Luva
1861 – Queda que as Mulheres Têm Para os Tolos
1861 – Desencantos
1863 – O Caminho da Porta
1863 – O Protocolo
1864 – Quase Ministro
1866 – Os Deuses de Casaca
1880 – Tu, Só Tu, Puro Amor
1896 – Não Consultes Médico
1906 – Lição de Botânica

CRONOLOGIA:

1839 – Nasce, a 21 de junho, no Rio de Janeiro, Joaquim Maria Machado de Assis.
1851 – Morre-lhe o pai. Passa a ser criado pela madrasta, Maria Inês.
1855 – 12 de janeiro, publica o primeiro poema. Colabora com o jornal A Marmota.
1856 – Admitido como aprendiz de tipógrafo na Tipografia Nacional.
1858 – Escreve para O Paraíba, de Petrópolis. Passa a colaborar com o Correio Mercantil.
1859 – Estréia como crítico teatral na revista O Espelho.
1860 – Convidado para redator do Diário do Rio de Janeiro. Torna-se um dos redatores de A Semana Ilustrada.
1861 – Publica os textos teatrais Queda que as Mulheres Têm Para os Tolos e Desencantos.
1862 – Admitido como sócio do Conservatório Dramático Brasileiro, exercendo a função de auxiliar da censura.
1863 – Publica o Teatro de Machado de Assis, volume composto pelas comédias O Protocolo e O Caminho da Porta.
1864 – Publica o primeiro livro de poesias, Crisálidas.
1866 – Publica a comédia Os Deuses de Casaca e uma tradução que fez do romance Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo.
1868 – Apresentado em carta, por José de Alencar, a Castro Alves.
1869 – Casa-se com a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais.
1870 – Publica os livros Falenas (poesia) e Contos Fluminenses (contos).
1872 – Publica o romance Ressurreição.
1873 – Publica Histórias da Meia-Noite.
1874 – De setembro a novembro, publica em O Globo, o romance A Mão e a Luva.
1875 – Publica Americanas.
1876 – Escreve para a revista Ilustração Brasileira. Publica de agosto a setembro, em O Globo, o romance Helena.
1878 – Publica de janeiro a março, em O Cruzeiro, o romance Iaiá Garcia. Adoece, entrando de licença, seguindo para Friburgo.
1879 – Começa a escrever para a Revista Brasileira.
1881 – Publica em volume as Memórias Póstumas de Brás Cubas. Escreve com assiduidade para a Gazeta de Notícias.
1888 – Elevado a oficial da Ordem da Rosa. Desfila a 20 de maio para celebrar a Abolição.
1890 – Visita, ao lado da mulher Carolina, as fazendas da Companhia Pastoril Mineira, em Minas Gerais.
1891 – Publica, em volume, Quincas Borba.
1896 – Aclamado, em 15 de dezembro, para dirigir a primeira sessão preparatória da fundação da Academia Brasileira de Letras.
1899 – Publica o romance Dom Casmurro.
1901 – Publica Poesias Completas.
1904 – Publica o romance Esaú e Jacó. Em janeiro, devido à enfermidade de Carolina, segue com ela para Friburgo. Carolina morre, a 20 de outubro, poucos dias de completar 35 anos de casados.
1906 – Publica Relíquias da Casa Velha.
1908 – Publica o romance Memorial de Aires. Afasta-se do trabalho, em 1 de junho, para tratar da saúde. Morre na madrugada de 29 de setembro, em sua casa, na Rua Cosme Velho. Por sua determinação, é enterrado na sepultura de Carolina, no Cemitério São João Batista.
publicado por virtualia às 03:29
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