Quarta-feira, 30 de Julho de 2008

TROPICÁLIA

 

 

 
A Tropicália foi um movimento cultural que explodiu no cenário artístico brasileiro no fim dos anos sessenta. De rupturas estéticas e linguagem plural, o movimento deixou as suas marcas mais profundas na nossa MPB, já que os seus principais componentes eram cantores e compositores. O movimento teve como mentores e integrantes Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Torquato Neto, Tom Zé, a banda Os Mutantes, Nara Leão, Rogério Duprat, Capinam, Hélio Oiticica e Rogério Duarte.

 
"Eu organizo o movimento
Eu oriento o carnaval
Eu inauguro o monumento no planalto central
Do país"
(Caetano Veloso)

O Brasil Pré-Tropicalismo

 
 
Para melhor compreendermos o Tropicalismo e a juventude que fez parte do movimento, precisamos estar atentos ao momento histórico pelo qual o país passava. O ano de 1964 ficara marcado pelo fim da democracia proposta pela constituição brasileira de 1946, quando se enterra a ditadura do Estado Novo e o país passa a ser governado por presidentes eleitos.
Com a chegada de João Goulart ao poder em 1961, há uma desconfiança da direita tradicionalista , cada vez mais confrontada pela esquerda organizada. Sindicatos, movimentos populares e estudantis vivem o seu período áureo de mobilização e organização política. Estávamos vivendo o período da guerra-fria entre americanos e soviéticos pelo domínio do planeta. A América Latina passa a sofrer maiores pressões a partir de 1959, quando é deflagrada a revolução cubana de Fidel Castro. O sucesso de um governo socialista implantado em Cuba faz com que a esquerda acredite na revolução para toda a América Latina e que a direita recrudesça para evitar que ela se espalhe pelo continente. Em 1964 esquerda e direita brasileiras radicalizam. Desse confronto surge o movimento militar de direita que culmina com o golpe que depôs o presidente João Goulart. Os militares são vistos pela população brasileira como uma resposta aos comunistas que ameaçavam a segurança da nação. Em nome da família, da moral e dos seus bons costumes, a ditadura desarticula os movimentos sindicais e estudantis, pondo-os na clandestinidade e perseguindo, prendendo e cassando os seus líderes.
Mesmo clandestinos, os movimentos continuam, existem mas não são reconhecidos legalmente. Sob os olhos vigilantes da ditadura o país passa por uma ebulição cultural intensa, acompanhando o mundo que jamais será o mesmo depois dos anos sessenta. É do período pós 1964 que surgem os grupos de Teatro Arena e Opinião e a produção das peças do Teatro Oficina. Surgem o Cinema Novo e a Jovem Guarda. Há a explosão dos festivais de música e as suas canções de protesto. Todos esses movimentos culturais eram oriundos de artistas militantes na esquerda brasileira, inconformada com o golpe de 1964.
De 1964 a 1968, o país vive a primeira fase da ditadura militar, o movimento cultural e os seus intelectuais podiam agir livremente, sofrendo no máximo problemas com a censura. É neste contexto que surge a Tropicália.
 

 

 


"Atenção
Tudo é perigoso
Tudo é divino, maravilhoso
Atenção para o refrão:
É preciso estar atento e forte
Não temos tempo de temer a morte"
(Caetano Veloso - Gilberto Gil)

Nasce a Tropicália

Em 1967 Hélio Oiticica apresentou no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, o seu grande penetrável chamado de Tropicália. Estava criado o conceito estético da Tropicália.
Mas o nascimento oficial da Tropicália surge em outubro, no III Festival de MPB da Record em São Paulo, quando Caetano Veloso e Gilberto Gil apresentam respectivamente, as músicas “Alegria, Alegria” e “Domingo no Parque”. Desde a Bossa Nova que um movimento musical não trazia nada tão expressivo para a MPB. Com essas canções nasce um novo conceito estético de criar e fazer música em língua portuguesa. Esta nova linguagem ofusca a juventude de então, dividida entre os conceitos tradicionais de se criar música na MPB e a então alienante Jovem Guarda, que no seu começo se limita apenas a fazer versões de sucessos americanos.
A Tropicália no começo causa impacto e divide opiniões. Seus principais componentes Caetano Veloso e Gilberto Gil, tomam como modelo a Bossa Nova e o antológico álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, lançado na Inglaterra em 1967. Rogério Duarte, poeta e artista gráfico é um dos mentores intelectuais do movimento. É dele o célebre cartaz do filme de Glauber Rocha “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Calcado na originalidade da capa do álbum dos Beatles, é dele as capas coloridas dos álbuns Gilberto Gil 1968 e Caetano Veloso 1968.
Diz-se que o nome do movimento surgiu em fevereiro de 1968, com a publicação do artigo do jornalista Nelson Motta “A Cruzada Tropicalista”, no jornal Última Hora. Há tropicalistas que contestam esta versão.

Identificações Tropicalistas

O movimento tropicalista diverge pela primeira vez da forma nacionalista de se fazer MPB, principalmente com a estética carioca da Bossa Nova e dos sambas de Noel Rosa e outros compositores. Acrescentam à música o rock, a psicodelia e a guitarra elétrica. Rompem com a cultura engajada de esquerda, identificando-se com a contracultura hippie e com a poesia de uma vanguarda mais erudita, que dialoga com o concretismo literário brasileiro, transformando suas músicas em verdadeiras poesias. Para o fim do movimento essa identificação com uma vanguarda erudita dá passagem para uma vanguarda underground, que deixaria a sua herança cultural para a geração do desbunde.
Uma verdadeira guerra entre a vanguarda tropicalista e a esquerda tradicionalista foi travada, com a polêmica que opunha experimentalismo e engajamento, refletida nas vaias que Caetano Veloso recebeu quando defendia a música “É Proibido Proibir” . Para a esquerda organizada da época a Tropicália era alienada e sem objetivos diante do contexto político que se vivia no país.
O auge do movimento é o lançamento do álbum manifesto “Tropicália Ou Panis Et Circenses”, de 1968. O nome do álbum foi inspirado na exposição de Hélio Oiticica, e a própria composição da música “Tropicália”, de Caetano Veloso, também teve seu nome tirado da obra do artista plástico carioca.


Tropicália e o AI 5

Para o fim a Tropicália sofre influências cada vez mais fortes do rock internacional. O movimento começa a incomodar os costumes moralistas da época quando deixa os palcos da vanguarda nacional dos bares de São Paulo e dos festivais e ocupa espaços na televisão, órgão de comunicação usado pelos tropicalistas com o programa “Divino Maravilhoso”, exibido na extinta TV Tupi de outubro a dezembro de 1968. Com provocações anárquicas e experimentais, o programa incomoda não pela proposta política, mas pela proposta de quebra de tabus e preconceitos sociais. Durante o tempo de vida do programa o Brasil é tomado por fortes movimentos de oposição ao regime militar. A tensão é cada vez maior e o confronto inevitável. Em resposta às tensões e às manifestações políticas, em 13 de dezembro a ditadura edita o Ato Institucional Nº 5, que acaba com a liberdade de expressão civil, política e cultural. O AI 5 dava direito a dissolver o congresso, prender sem hábeas corpus, cassar mandatos e impor a censura, entre outras tragédias. Na antevéspera do natal “Divino Maravilhoso” vai ao ar pela última vez, quando Caetano Veloso canta “Noite Feliz” com um revólver apontado na cabeça. Foi a última provocação da Tropicália. No dia 27 de dezembro de 1968 Caetano Veloso e Gilberto Gil são presos, mais tarde confinados em Salvador de onde partem para o exílio em Londres, em 1969. Termina o tropicalismo.
Com a sua estética visual provocativa, suas roupas coloridas, e principalmente, sua linguagem renovada, a Tropicália durou pouco mais de um ano como movimento, mas transformou a cultura brasileira. Por seu sincretismo, misturou rock e bossa nova, samba, bolero, folclore. Libertária, poética, vanguardista, foi o ponto de ruptura ao tradicionalismo da MPB, mas também uma convergência das várias vertentes da nossa música, aqui acrescentada de novos ritmos e de novos instrumentos musicais. A irreverência da Tropicália foi a concretização da Bossa Nova.



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publicado por virtualia às 06:40
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