Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009

HOSPITAL REAL DE TODOS OS SANTOS

 

 

Quando em 1755, um grande terremoto assolou a cidade de Lisboa, a catástrofe levou a maior parte medieval da cidade. Entre os monumentos perdidos, estava o Hospital Geral de Todos os Santos, que por mais de 250 anos foi o maior hospital de Portugal. Além de ter sido um grande monumento arquitetônico, o hospital foi responsável pelo desenvolvimento da medicina no país lusitano.
Nascido de uma antiga concepção de Dom João II, em 1479, o Hospital Real de Todos os Santos teve algumas lendas criadas em torno da sua construção, como a de que fora amaldiçoado pelos mouros e judeus, porque as pedras da sua construção teriam vindo em parte, de campas e cabeceiras de jazigos de mouros e do cemitério dos judeus, o que não é verdade, visto que a sua construção iniciou-se em 1492. Quando da expulsão dos mouros e judeus de Portugal, em dezembro de 1496, as obras já iam adiantadas, o que inviabiliza esta hipótese.
Amaldiçoado ou não, a verdade é que, coincidentemente, o hospital foi destruído em 1 de novembro de 1755, após o grande terremoto, seguido por um incêndio, ou seja, no seu dia, o dia de todos os santos. Pouco mais de cinco séculos após a sua construção, o Hospital Real de Todos os Santos merece ser lembrando pelo seu esplendor arquitetônico e pela sua imensa importância histórica.

Um Longo Caminho Até o Lançamento da Primeira Pedra

Com o fim da Idade Média, as pequenas instituições de beneficência, sustentadas por conventos ou de legados pios deixados por nobres beneméritos, entram em decadência, dando lugar a grandes hospitais centrais. Essas instituições rudimentares medievais eram, ao mesmo tempo, hospitais, albergarias e hospícios. Os hospitais centrais tinham rendimentos próprios, acrescidos dos rendimentos dos pequenos hospitais neles incorporados. Os primeiros hospitais centralizados surgiram nos reinos italianos, como o Hospital de Santa Maria Nuova, de Florença, que surgiu no século XIII, sendo modernizado no século XV. Havia ainda, o Hospital do Espírito Santo, em Roma, o Hospital Maggiore de Milão, e o Hospital de Santa Maria, em Siena. Estes hospitais serviram de modelo para o (ainda) príncipe Dom João, que idealizou fundar um grande hospital em Lisboa, reunindo os bens de 43 instituições de assistência existentes em Lisboa e nos arredores. Como os rendimentos dessas instituições eram próprios e geridos pela igreja, era preciso da autorização papal para concentrá-las em uma só. Em 1479, o Príncipe Perfeito consegue autorização concedida pelo papa Sisto IV, através da bula Ex debito sollicitudinis officio pastoralis, para a construção de um grande hospital real.
O Príncipe Perfeito sobe ao trono em 1481, como Dom João II, já com a idéia da construção do “Hospital Grande”. A demora na concretização do projeto, faz com que a bula assinada por Sisto IV não tenha mais valor depois da sua morte, em 1484. Somente em 1486 a autorização é confirmada, através da bula Iniunctum nobis desuper, chancelada pelo papa Inocêncio VIII. Concentrar todas as instituições em uma só levaria o seu tempo. Em 15 de Maio de 1492, numa cerimônia no Rossio, Dom João II lança a primeira pedra para a construção do Hospital Real de Todos os Santos.

Pleno Funcionamento em 1504

O local escolhido para a edificação do hospital foi nos terrenos da horta do mosteiro de São Domingos, lado oriental do Rossio. O autor de tão imponente monumento, não se sabe ao certo, mas há um consenso de historiadores que seria de Diogo Boytoc, o arquiteto do mosteiro dos Jerónimos.
Desde a sua fundação, no início da sua construção, em 1492, por nomeação régia, foram escolhidos o provedor, o vedor e o escrivão, sendo o primeiro provedor Estevão Martins, mestre da Escola da Sé de Lisboa.
As obras já iam adiantadas, quando Dom João II morreu, em 1495, cabendo a seu sucessor, Dom Manuel, terminar o hospital. Fazia parte das disposições testamentárias de Dom João II que o seu sucessor concluísse o “Hospital Grande” de Lisboa, e que o seu regimento fosse inspirado nos hospitais de Florença e Siena.
Dom Manuel continuou as obras do hospital, concluindo as instalações hospitalares e construindo a fachada voltada para o Rossio. Já em 1497 o provedor despachava do hospital, apesar de ele levar alguns anos para ser inaugurado. Há documentos que registram que em 1498, houve ali uma reunião da Câmara. Neste ano as obras seriam novamente interrompidas devido à ausência de Dom Manuel, que acompanhou a sua mulher grávida, a rainha Dona Isabel, filha dos reis católicos, Fernando e Isabel, à Espanha. Ali a Dona Isabel seria jurada herdeira do trono dos reinos da Espanha unificada.
Não se sabe ao certo em que ano o hospital começou a receber os primeiros doentes. Há registros que apontam para o ano de 1501, quando teria recebido os desalojados dos hospitais extintos. É de 1502 a data da nomeação da maioria do pessoal que trabalharia no hospital: um físico (mestre Delymilam, que por não ser suficientemente competente, seria substituído por mestre Jorge Físico Solorgião, em 1509), dois cirurgiões, um boticário, quatro enfermeiros e uma enfermeira, além dos seus ajudantes. Mas a data de seu pleno funcionamento seria 1504.

Consumido Pelos Incêndios e Pelo Terremoto

Quando em pleno funcionamento em 1504, o edifício do Hospital Real de Todos os Santos ocupava um quadrilátero aproximadamente coincidente com os limites da antiga Praça da Figueira e a atual Praça Dom João I, ficava enquadrado, a poente, pela Praça do Rossio (sobre o qual avançava a sua escadaria); a norte, pelo convento de São Domingos com o qual se ligava através do alpendre de arcarias, interpondo-se, entretanto, entre os dois monumentos, um conjunto de edificações, dos quais sobressaía a ermida de Nossa Senhora do Amparo; ao sul, pela Rua da Betesga; pelo nascente, entestava com as casas dos condes de Monsanto.
O Hospital Real de Todos os Santos era um dos mais antigos da Europa, com uma planta cruciforme, adotou as inovações introduzidas em estabelecimentos congêneres dos reinos italianos no decurso do século XV, e era, para a sua época, uma grandiosa e moderna instituição, de um belo edifício arquitetônico.
O imponente hospital serviu à medicina e aos doentes de Lisboa por mais de 250 anos. No decorrer desses anos a sua riqueza e beleza foram sendo consumidas, aos poucos, pelos sucessivos incêndios de 1601, 1750 e 1755. Depois do terremoto de 1755 e do incêndio que se lhe seguiu, o hospital ficou profundamente danificado, ficando os seus enfermos sob as barracas do Rossio, e, depois, nas cocheiras do Palácio do Conde de Castelo-Melhor. Foram feitas algumas obras de remedeio, que lhe permitiu funcionar até 1963. Após um período de hesitação entre a restauração do hospital ou a sua transferência para outro local, optou-se em 1775, pela transferência para o antigo Colégio de Santo Antão-o-Novo, que ficou devoluto desde a expulsão dos jesuítas. Em homenagem ao rei da época, Dom José I, que executou a transferência e as obras de adaptação, o Hospital Real passou a denominar-se Hospital de São José.
O antigo Hospital Real de Todos os Santos, fundado em 15 de Maio de 1492, por Dom João II, no Rossio, foi definitivamente extinto, melancolicamente, no dia 1 de Novembro de 1755, dia do grande terremoto que assolou Lisboa, dia de todos os santos.
 
 
 
 

 

 
 
publicado por virtualia às 00:29
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