Sábado, 31 de Outubro de 2009

O GRANDE CIRCO MÍSTICO - DO POEMA AO ÁLBUM

 

 
Chico Buarque e Edu Lobo uniram-se algumas vezes para criar trilhas sonoras sob encomenda para o teatro. Dos chamados álbuns de teatro da dupla, “O Grande Circo Místico”, de 1983, é o maior deles. O álbum é de uma grande sofisticação musical, trazendo uma poesia elaborada e de teor emotivo latente, arrebatado por um lirismo flamejante, poucas vezes alcançado dentro da MPB.
O álbum surgiu de uma encomenda do Ballet Guaíra, do Paraná, em 1982. Sua inspiração veio do poema surrealista de Jorge de Lima, “O Grande Circo Místico”, escrito em 1938, e publicado no livro “A Túnica Inconsútil”. Jorge de Lima, poeta do parnasianismo e do modernismo, criou o poema inspirado em um fato real acontecido na Áustria, no século XIX. A partir do tema, Chico Buarque e Edu Lobo criaram a trilha sonora para a apresentação do balé, contando musicalmente, a saga da família austríaca proprietária do Grande Circo Knieps e do amor entre um aristocrata e uma acrobata, que vagavam de cidade em cidade, apresentando os seus números circenses.
O sucesso do espetáculo musical originou uma longa turnê e um álbum clássico e imprescindível da MPB, reunindo grandes cantores como Gal Costa, Gilberto Gil, Simone, Tim Maia, Jane Duboc, Zizi Possi, Chico Buarque e Edu Lobo. Lançado em 1983 pela Som Livre, o álbum trazia 11 canções; mais tarde, quando lançado em CD, Edu Lobo acrescentou mais duas canções instrumentais, “Oremus” e “O Tatuador”, que pelo condicionamento do formato em vinil, ficaram de fora na época.
Sob o poema de Jorge de Lima, Chico Buarque criou letras de um conteúdo poético labirinticamente sedutor, casando-se com perfeição às músicas de Edu Lobo. Nenhuma das canções chegaram às paradas de sucessos, mas se tornaram irremediavelmente, clássicos conhecidos da MPB, como “Beatriz”, “A História de Lily Braun” e “O Circo Místico”. Muitas músicas alcançaram já no álbum, interpretações definitivas, apesar de várias revisitações futuras e diversificadas. “O Grande Circo Místico” dilui-se mesclado à música, à poesia, ao teatro e ao circo; trazendo a emoção que transporta o mais “ardoroso espectador” numa viagem lúdica e onírica até a última faixa.

Beatriz, Bela e Complexa

O Grande Circo Místico” foi lançado em meados de 1983. Trazia um formato de álbum sofisticado, com um encarte luxuoso, com desenhos de Naum Alves de Souza para cada canção, além de ilustrar a capa. A direção artística era de Edu Lobo, que dividia os arranjos com Chico de Moraes.
Chico Buarque, que cinco anos antes encantara com a trilha sonora de “A Ópera do Malandro”, voltou com poemas complexos, lingüisticamente mais delicados, deixando as questões sociais e passionais dos personagens da sua ópera, para mergulhar nas mais profundas angústias do ser humano, dando a dimensão mais suave do balé, sem perder a emoção latente das palavras.
O álbum começa com a instrumental “Abertura do Circo” (Edu Lobo), numa canção que se inicia suave e densa, ao mesmo tempo, como se fosse explodir a atmosfera mística, o que acontece quando rompe o bombo, trazendo instrumentos que revivem as marchinhas circenses. O espetáculo estava apenas a começar, pronto para tragar o mais exigente dos ouvintes.
Passada a euforia da abertura, a voz de Milton Nascimento surge quente, como se rasgasse uma cortina à meia luz, cantando a mais emblemática das canções do álbum, “Beatriz” (Chico Buarque – Edu Lobo). No poema de Jorge de Lima existia a personagem Agnes, a equilibrista. Chico Buarque não conseguiu criar sobre o nome, mudou-o para Beatriz, transformando-a de equilibrista em atriz. Assim, em uma homenagem a Beatrice Portinari, de Dante, ele a pôs no sétimo céu, fazendo uma das suas mais sofisticadas canções. “Beatriz” traz intervalos melódicos, modulações e exige extensão vocal, que faz dela uma das mais difíceis canções de ser interpretada. Milton Nascimento consegue a perfeição dentro de tão inóspito terreno, fazendo uma interpretação definitiva. Na década de noventa, a canção foi escolhida para uma das faixas de um song book em homenagem a Edu Lobo, a escolha da intérprete recaiu sob Gal Costa, outra cantora de extensão vocal insuperável! Alguns aventureiros tentaram desastrosamente, interpretar "Beatriz", como Ana Carolina, mas caíram no grotesco da pretensão. Acompanhado apenas pelo piano de Cristóvão Bastos, Milton Nascimento fez da canção o apogeu do disco, navegando em uma valsa complexa e existencialista. As cordas foram inseridas posteriormente pelo arranjador Chico de Moraes. Edu Lobo explicaria mais tarde, que a nota mais grave da canção cai na palavra “chão” (“Me ensina a não andar com os pés no CHÃO”) e a mais aguda na palavra “céu” (“Se ela despencar do CÉU”). “Beatriz” é um poema de delicada beleza, fazendo uma metáfora aguda da vida de uma atriz. “Beatriz” é o sonho da mulher inatingível, ao mesmo tempo, é a maquiagem do rosto, a sombra da vida diante da arte, é a própria metáfora da realidade, travestida pelos palcos.

Sim, me leva para sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Ai, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz

Depois de passar pelos labirintos de “Beatriz”, o álbum segue com “Valsa dos Clowns” (Chico Buarque – Edu Lobo). A canção mergulha no universo do palhaço, visto tradicionalmente como um homem de rosto triste, escondido atrás de um rosto pintado. Entre simulacros de vida, somos transportados para o um frágil mundo chapliniano, como se fosse desenhar Carlitos com o seu olhar caído. Jane Duboc, cantora em grande evidência na época, foi a escolhida para interpretar a canção, o que faz com delicadeza e sutil suavidade.

Da Opereta ao Blues

Opereta do Casamento” (Chico Buarque – Edu Lobo), é um dos momentos mais densos do álbum. Interpretada pelo coro composto por Regininha e Zé Luiz (que cantam os solos da música), Márcia Ruiz, Luna, Maucha Adnet, Rosa Lobo, Verônica Sabino, Chico Adnet, Dalmo Medeiros, Márcio Lott, Paulinho Pauleira, Paulo Roberto e Ronald Vale; a canção assume a sua dimensão de opereta, revelando os costumes de um casamento conturbado, a honra defendida na mancha de sangue sobre o lençol nupcial, simbolizando a posse, sintetizada na quebra do hímen. Segue como uma saga, em que se casa, perde-se pelas armadilhas da vida, sofre-se com a desagregação moral do mundo, mas jamais se abandona a essência de cada um, refletida no palco, no espetáculo que não pode parar por dor alguma, por mais pungente que seja. Chora-se no intervalo, brilha-se no espetáculo. Os versos são densos, quase cruéis, porque a vida do artista de circo é uma ilusão da dor e da felicidade, mescladas num só ato, sem que jamais uma revele a outra.

Do pudor da noiva a bandeira
Após a noite primeira
Desfraldava-se ao sol
A sua virtude escarlate
Igual brasão de tomate
Enobrecendo o lençol

O álbum atinge outro ápice de sofisticação com “A História de Lily Braun” (Chico Buarque – Edu Lobo), que se transforma em um delicioso blues magistralmente interpretado por Gal Costa. Chico Buarque usa de rimas com palavras em inglês e em português, elevando a canção de Edu Lobo, transformando-a em um dos momentos mais luxuosos do álbum. Com malícia e sedução, a voz de Gal Costa vai além do lírico, suavizando a ironia das palavras, transformando-as em doces e ardis convites para o amor. Lily Braun é a estrela seduzida pelo espectador, que subiu ao palco e arrebatou-a para o seu espetáculo particular. Entre rosas e poemas, ela é levada ao altar, perdendo o brilho de estrela e de mulher apaixonada no cotidiano de um casamento. Doce ironia, adorável blues, incomparável Gal Costa.

Nunca mais romance
Nunca mais cinema
Nunca mais drinque no dancing
Nunca mais cheese
Nunca uma espelunca
Uma rosa nunca
Nunca mais feliz

Na versão para CD, segue-se com o coro a entoar “Oremus” (Edu Lobo), recuperando o clima onírico do álbum, apesar de indelevelmente despida da poesia de Chico Buarque.

Questionamentos Existencialistas

Meu Namorado” (Chico Buarque – Edu Lobo), é um dos momentos mais mornos do álbum. Comparada à poesia de “Beatriz” ou à beleza estética de “A História de Lily Braun”, a canção parece simples, sem maiores atrativos. Simone faz uma interpretação acadêmica, sem elevar o pouco brilho da canção. É a paixão vista pela mulher, que se faz submissa diante do seu amor, mostrando-o ao mundo como um homem dominante, sendo ela, no íntimo da relação, quem conduz e domina a paixão, dando e recebendo o que decidiu sobre os sentimentos. “Meu Namorado” foi, com o passar do tempo, uma das canções esquecidas do álbum.
Ciranda da Bailarina” (Chico Buarque – Edu Lobo) tornar-se-ia uma referência às bailarinas, decodificando o lado humano dessas mulheres. Jamais tocada na rádio, adquiriu fama nos bastidores da MPB, talvez por trazer a ironia lúdica e onírica desse universo, interpretada por um coro infantil, composto por Bebel, Lelê, Luiza, Mariana, Silvinha, Bernardo, Cristiano e Kiko, criando um clima malicioso de uma ciranda antiga. A bailarina é o símbolo da perfeição e da beleza, toda mulher sonha em ser uma, daí a ironia dos versos de Chico Buarque, transformando-a em uma estátua, sem as imperfeições humanas a deflorar-lhe a pele, o semblante, o mito. Nada atinge a bailarina na sua beleza plástica.
Sobre Todas as Coisas” (Chico Buarque – Edu Lobo), é outro grande momento do álbum e da reflexão existencialista da poesia de Chico Buarque. Gilberto Gil dá vida à canção, acompanhado apenas por um violão. A canção cria um monólogo dirigido a Deus, com questionamentos seculares, sobre a criação e o papel do homem no universo do Criador. Gilberto Gil consegue dimensionar a canção em um ápice existencialista, às vezes pungente, às vezes angustiante, sem perder o lirismo poético da canção. A impotência do homem diante dos dogmas da vida, a sua rebelião eterna contra Deus, que se pergunta se a terra prometida onde jorra o leite e o mel, é apenas uma visão sugerida por Deus, mas não merecida pelo homem, que jamais a alcançará. A música teria outras versões de cantores da MPB, entre elas a do próprio Chico Buarque, que a gravou no álbum “Paratodos” (1993), mas a perfeição lírica só foi atingida por Gilberto Gil, numa interpretação que até os dias atuais, insiste em permanecer definitiva.

Ou será que o Deus
Que criou nosso desejo é tão cruel
Mostra os vales onde jorra o leite e o mel
E esses vales são de Deus

O Tatuador” (Edu Lobo), é outra canção inserida na versão do CD. Preterida a outras na versão de vinil, em 1983, aparece sem letra, interpretada instrumentalmente. A ausência de uma letra de Chico Buarque não invalida a sua beleza, mas faz com que imaginemos que outra grande obra-prima da MPB poderia ter daqui surgido.

Hora de Partir e Cerrar as Cortinas

A Bela e a Fera” (Chico Buarque – Edu Lobo), desafoga um pouco o questionamento existencialista, não se distanciando do caráter humano. Aqui a fera declara-se à bela. A fera é a tradução do homem rude, rústico e de músculos como símbolo do seu caráter, distanciado do intelecto. A canção traz um magnífico Tim Maia, único capaz de dar a interpretação histriônica que ela exige. A voz agreste do cantor consegue oscilar entre o homem rude e sensível, analfabeto por sua condição social, mas poeta na alma. Quase domesticada, a fera faz um poema verbal à amada, mas não se esquece da sua essência silvestre, ameaçando arrombar a janela se ela não a abrisse para o seu amor.

Mais que na lua ou no cometa
Ou na constelação
O sangue impresso na gazeta
Tem mais inspiração
No bucho do analfabeto
Letras de macarrão
Letras de macarrão
Fazem poema concreto

O Circo Místico” (Chico Buarque – Edu Lobo), sintetiza todas as músicas, traduzindo a mensagem, a poesia e o imenso clima de teatro que gerou as canções, sendo o existencialismo humano arrancado no seu âmago, alcançando um ludismo quase que infinito. Zizi Possi tem um dos momentos mais belos da sua carreira, dando uma interpretação lúdica, beirando à perfeição da voz em encontro com a poesia. Derrama-se o véu da própria existência, a vida caminha às vezes dentro de um vagão apressado, outras vezes entre os refletores do palco, encerrando-se no infinito da morte, desenhada no vôo mortal do trapezista. O clima existencialista enlaça as canções. Depois da canção, já não há mais o que perguntar, o salto para a morte encerra tudo. Já não há tempo para os questionamentos, apenas para encerrar o espetáculo, cerrar as cortinas e seguir viagem, o show tem que prosseguir, como a vida.

Negro refletor
Flores de organdi
E o grito do homem voador
Ao cair em si
Não sei se é vida real
Um invisível cordão
Após o salto mortal

E o álbum é encerrado com “Na Carreira” (Chico Buarque – Edu Lobo), num espetacular dueto de Edu Lobo e Chico Buarque, mostrando a vida mambembe dos artistas de circo. A canção final já não traz questionamentos existenciais, mas a constatação dos efeitos daquela vida cigana, suas conseqüências, aspirações e desfechos. O importante é seguir, não deixar nunca o espetáculo morrer. A verdade é um sonho, jamais a realidade, o artista mambembe tem como função chegar subitamente nas cidades, envolver as pessoas, deixar suas marcas e seguir viagem, desaparecendo sem avisos, assim como chegou. O artista de circo pode sonhar, jamais fincar raízes na realidade ou em qualquer lugar. Sob este dueto, encerra-se um dos mais belos álbuns da Música Popular Brasileira.

O Grande Circo Místico, de Jorge de Lima

O médico de câmara da imperatriz Teresa - Frederico Knieps - resolveu que seu filho também fosse médico,
mas o rapaz fazendo relações com a equilibrista Agnes,
com ela se casou, fundando a dinastia de circo Knieps
de que tanto se tem ocupado a imprensa.
Charlote, filha de Frederico, se casou com o clown,
de que nasceram Marie e Oto.
E Oto se casou com Lily Braun a grande deslocadora
que tinha no ventre um santo tatuado.
A filha de Lily Braun - a tatuada no ventre
quis entrar para um convento,
mas Oto Frederico Knieps não atendeu,
e Margarete continuou a dinastia do circo
de que tanto se tem ocupado a imprensa.
Então, Margarete tatuou o corpo
sofrendo muito por amor de Deus,
pois gravou em sua pele rósea
a Via-Sacra do Senhor dos Passos.
E nenhum tigre a ofendeu jamais;
e o leão Nero que já havia comido dois ventríloquos,
quando ela entrava nua pela jaula adentro,
chorava como um recém-nascido.
Seu esposo - o trapezista Ludwig - nunca mais a pôde amar,
pois as gravuras sagradas afastavam
a pele dela o desejo dele.
Então, o boxeur Rudolf que era ateu
e era homem fera derrubou Margarete e a violou.
Quando acabou, o ateu se converteu, morreu.
Margarete pariu duas meninas que são o prodígio do Grande Circo Knieps.
Mas o maior milagre são as suas virgindades
em que os banqueiros e os homens de monóculo têm esbarrado;
são as suas levitações que a platéia pensa ser truque;
é a sua pureza em que ninguém acredita;
são as suas mágicas que os simples dizem que há o diabo;
mas as crianças crêem nelas, são seus fiéis, seus amigos, seus devotos.
Marie e Helene se apresentam nuas,
dançam no arame e deslocam de tal forma os membros
que parece que os membros não são delas.
A platéia bisa coxas, bisa seios, bisa sovacos.
Marie e Helene se repartem todas,
se distribuem pelos homens cínicos,
mas ninguém vê as almas que elas conservam puras.
E quando atiram os membros para a visão dos homens,
atiram a alma para a visão de Deus.
Com a verdadeira história do grande circo Knieps
muito pouco se tem ocupado a imprensa.

(A Túnica Inconsútil - 1938)

Ficha Técnica:

O Grande Circo Místico
Somlivre
1983

Músicas de Edu Lobo / Letras de Chico Buarque
Criado para o Ballet Guaíra
Interpretações : Milton Nascimento, Jane Duboc, Gal Costa, Simone, Gilberto Gil, Tim Maia, Zizi Possi, Chico Buarque e Edu Lobo
Direção artística: Edu Lobo
Arranjos: Chico de Moraes e Edu Lobo
Orquestrações e regência: Chico de Moraes
Concepção, roteiro, ilustrações da capa e encarte: Naum Alves de Souza
Produção: Homero Ferreira
Baseado no poema “O Grande Circo Místico” de Jorge de Lima
Coreografia: Carlos Trincheiras
Técnico de gravação: Edu de Oliveira
Técnico de mixagem: Alan Sides
Gravado nos estúdios da Som Livre, Rio de Janeiro, entre agosto e dezembro de 1982. Mixado nos estúdios da Ocean Way, Los Angeles, em janeiro de 1983.

Músicos participantes:

Piano: Cristóvão Bastos
Piano Yamaha: Cristóvão Bastos e Chico de Moraes
Piano Rhodes: Antônio Adolfo e Raimundo Nicioli
Baixo Acústico: Sérgio Barroso e Ken Wild
Baixo Elétrico: Jamil Joanes e Jorjão
Violão: Edu Lobo, Gilberto Gil e Nelson Angelo
Percussão: Paschoal Meirelles, Chico Batera e Jorge de Oliveira
Flauta: Mauro Senise, Celso Woltzenlogel e Paulinho Guimarães
Bateria: Paulinho Braga
Guitarra: Hélio Delmiro
Bells e Xilofone: Pinduca
Minimoog: Chico de Moraes
Clarinete: Biju, Macaé, Mazinho, Zé Bodega e José Botelho
Requinta: José Botelho
Picollo: Celso Woltzenlogel
Trompa: Zdenek Svab, Antônio Cândido, Luiz Cândido e Luciano
Sax-Alto: Netinho, Oberdan Magalhães e Macaé
Sax-Tenor: Leo Gandelmann, Biju, Nivaldo Ornellas e Zé Bodega
Sax-Barítono: Aurino e Leo Gandelmann
Trompete: Formiga, Barreto, Niltinho, Bidinho, Hamilton e Márcio Montarroyos
Trombone: Edmundo Maciel, Edson Maciel, Flamarion, Berto, Jessé, Manoel Araújo e Serginho
Fagote: Noel Devos
Gaita: Maurício Einhorn
Harpa: Dorothy Ashby
Oboé: Braz
Violinos: Giancarlo Pareschi (spalla), Aizik Geliër, Alfredo Vidal, Carlos Hack, Francisco Perrota, João Daltro de Almeida, Jorge Faini, José Alves, Luiz Carlos Marques, Marcelo Pompeu, Michel Bessler, Walter Hack, Paschoal Perrota, André Charles Guetta, João de Menezes, José de Lana e Virgilio Arraes
Violas: Arlindo Penteado, Frederick Stephany, Hindemburgo Pereira, Murilo Loures, Nelson Macedo e José de Lana
Cellos: Alceu de Almeida Reis, Jacques Morelenbaum, Jorge Ranevsky, Márcio Mallard e Henrique Drach
Contrabaixos: Gabriel Bezerra de Mello e Sandrino Santoro
Coro: Luna, Márcia Ruiz, Maucha Adnet, Regininha, Rosa Lobo, Verônica Sabino, Chico Adnet, Dalmo Medeiros, Márcio Lott, Paulinho Pauleira, Paulo Roberto, Ronald Vale e Zé Luiz
Coro Infantil: Bebel, Isabel, Lelê, Luiza, Mariana, Silvinha, Bernardo, Cristiano e Kiko
Arregimentação e Regência do Coro Infantil: Cristina

Faixas:

1 Abertura do circo (Edu Lobo) Instrumental, 2 Beatriz (Chico Buarque – Edu Lobo) Interpretação: Milton Nascimento, 3 Valsa dos clowns (Chico Buarque – Edu Lobo) Interpretação: Jane Duboc, 4 Opereta do casamento (Chico Buarque – Edu Lobo) Interpretação: Coro, 5 A história de Lily Braun (Chico Buarque – Edu Lobo) Interpretação: Gal Costa, 6 Oremus (Edu Lobo) Interpretação: Coro, 7 Meu namorado (Chico Buarque – Edu Lobo) Interpretação: Simone, 8 Ciranda da bailarina (Chico Buarque – Edu Lobo) Interpretação: Coro Infantil, 9 Sobre todas as coisas (Chico Buarque – Edu Lobo) Interpretação: Gilberto Gil, 10 O tatuador (Edu Lobo) Instrumental, 11 A bela e a fera (Chico Buarque – Edu Lobo) Interpretação: Tim Maia, 12 O circo místico (Chico Buarque – Edu Lobo) Interpretação: Zizi Possi, 13 Na carreira (Chico Buarque – Edu Lobo) Interpretação: Chico Buarque e Edu Lobo

publicado por virtualia às 18:14
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Sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

LIVROS SAGRADOS

 

 
Nos primórdios das grandes civilizações da humanidade, as religiões eram essencialmente politeístas. Eram passadas pelas gerações através de rituais considerados sagrados, sem uma tradição escrita. A partir do momento que o monoteísmo expandiu a sua fé, o registro das leis sagradas e dos princípios da fé começou a fazer parte destas religiões. A cultura escrita passou a ser a principal forma de não se deixar perder os ensinamentos das religiões. Surgiu a literatura sagrada, os livros sagrados.
Atualmente, as principais religiões do mundo, monoteístas ou politeístas, transmitem as suas tradições e ensinamentos através da escrita, com livros considerados sagrados, revestidos de grande cultura erudita, sabedoria existencial, doutrina, ecumenismo religioso e intelectual.
A Bíblia, o livro sagrado mais conhecido no mundo ocidental, é a literatura fundamental do cristianismo, sendo composto pelos livros judaicos (Antigo Testamento) e pelos princípios da doutrina cristã (Novo Testamento). Sobre o livro, conceitos fundamentais do islamismo foram estabelecidos, traduzidos pelo Alcorão, escrito sobre as recitações reveladas ao profeta Maomé. A Torá, gênese das religiões abraâmicas, é o livro sagrado dos judeus, sendo identificada na Bíblia cristã como Pentateuco. Religiões politeístas também trazem registros escritos dos seus ensinamentos, como o Bhagavad Gita, o livro mais influente do hinduísmo; e, o Dhammapada, que traz a essência dos ensinamentos básicos do budismo.
Sagrados, sábios, eruditos, históricos, os livros religiosos têm como função transmitir os ensinamentos milenares da fé humana, assegurando-a para as gerações futuras, evitando que se deturpe as tradições, e fazendo que se conheça a saga dos homens que, em um momento único de inspiração, receberam a palavra divina e os seus preceitos.

Torá, a Escrita Sagrada do Judaísmo

Torá, que em hebraico significa “Lei”, é um conjunto de cinco livros escritos originalmente em rolos, trazendo os preceitos principais da legislação mosaica. Segundo a tradição histórica, o texto de inspiração divina, foi transmitido diretamente por Deus a Moisés. Cada livro é denominado pela primeira palavra do texto em hebraico: Berechit, Chemol, Vayiqrá, Bammidbar e Elleh hadevarim. Na tradução grega das escrituras hebraicas, os livros passaram a ser chamados de Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio, respectivamente, de forma que sintetizasse o assunto dominante. Esta denominação passou para a versão latina, sendo assim chamados na Bíblia cristã, constituindo o Pentateuco do Antigo Testamento.
Os livros sagrados do judaísmo estão divididos em três partes: a Lei (Torá), os Profetas (Nebiím) e os Escritos (Ketubim). Juntando as iniciais destas três designações, forma-se o conjunto chamado em hebraico, de Tanak.
A Torá, responde aos questionamentos fundamentais da existência humana e das religiões, como a criação do mundo, a origem da morte. É o livro das promessas de Deus, do código da aliança entre Deus e Israel. Traz a história da origem do povo judeu, desde a criação do mundo, ao exílio e escravidão no Egito, o êxodo através do deserto, e a revelação das palavras divinas a Moisés, no Monte Sinai. Os cinco livros que compõem a Torá têm a sua origem e redação atribuída a Moisés, apesar de ser contestada. Há teorias que admitem que a sua composição foi feita oralmente e por escritos anteriores a Moisés, assim como adições posteriores a ele. Mas, tradicionalmente, Moisés é o autor e o legislador da Torá.
A partir deste livro sagrado, nasceu a religião monoteísta do mundo ocidental, dando origem ao judaísmo, cristianismo e islamismo. Os comentários e preceitos que envolvem a mística divina da Torá foram compilados em um conjunto de textos do judaísmo, o Talmude, um legislador e intérprete dos problemas judeus no seu dia a dia, harmonizando com a essência da Lei.

A Bíblia, o Grande Livro do Cristianismo

Bíblia, do grego byblos, significa “livro”, designado de “Livro por excelência”, tido como sagrado, quer pelos judeus, quer pelos cristãos.
A Bíblia reconhecida pelos judeus é dividida, como foi dito acima, em três partes (Torá – a Lei, Nebiím – os Profetas e, Ketubim – os Escritos), chamadas de Tanak.
A Bíblia cristã é formada pelo Antigo Testamento, ou seja, os escritos judaicos (Tanak), anteriores a Cristo; e pelo Novo Testamento, que traz os escritos sagrados a partir de Jesus Cristo. Os judeus não reconhecem Jesus Cristo como o profeta messiânico, portanto recusam o Novo Testamento.
Dentro dos livros do Antigo Testamento, sete não são aceitos pelos judeus, pelos cristãos evangélicos e ortodoxos russos: Tobias, Judite, Sabedoria, 1 Macabeus, 2 Macabeus, Eclesiástico e Baruc; sendo todos eles reconhecidos pela igreja católica e pela igreja ortodoxa. Estes livros são chamados de apócrifos, ou seja, não-inspirados por Deus, com um sentido apenas histórico.
Também a classificação judaica dos livros do Tanak diverge da classificação da Bíblia cristã. Depois do Pentateuco (os cinco livros atribuídos a Moisés), os judeus classificam seis livros chamados de Profetas Anteriores (Josué, Juízes, 1 Samuel, 2 Samuel, 1 Reis, 2 Reis), seguindo-se-lhes os Profetas Posteriores (Isaías, Jeremias, Ezequiel e os doze profetas menores). Os Escritos trazem, nesta ordem, os Salmos, os Provérbios, , Cântico dos Cânticos, Rute, Lamentações, Eclesiastes, Ester, Daniel, Esdras, Neemias, 1 Crônicas e 2 Crônicas.
O Novo Testamento traz os livros evangélicos (Mateus, Marcos, Lucas e João), que contam a vida de Cristo, sua pregação, parábolas, ensinamentos, sua morte e a sua ressurreição; além de livros doutrinais e epístolas, que dão continuação à palavra de Cristo após a sua morte, formando um conjunto de preceitos essenciais para a base do cristianismo, nascido da velha profecia messiânica judaica, tendo como Cristo o cumpridor desta profecia. O Novo Testamento encerra-se com a visão apocalíptica do apóstolo João, e das revelações feitas a partir deste livro. Esta parte da Bíblia surgiu na segunda metade do século I, dando origem aos alicerces cristãos e ao rompimento com o judaísmo.
Grande parte do Antigo Testamento foi escrito em hebraico, com exceção de alguns trechos dos livros de Daniel e Ester, redigidos em aramaico. Na época que Cristo viveu, o aramaico havia suplantado o hebraico (confinado à liturgia) como língua falada na Palestina. Jesus ensinou em aramaico, mas a língua desapareceu diante da disseminação das línguas grega e latina. Os livros do Novo Testamento, com exceção do de Mateus, escrito em aramaico, foram todos redigidos em grego.
Os livros da Bíblia teriam sido escritos em 1300 anos, abrangendo um período de mais de 2000 anos de duração, sendo que mais de 3300 anos decorreram até os tempos atuais.
A Bíblia prega no seu todo, um Deus único e universal, tendo como mensagem fundamental os princípios do homem atrelados à Lei, aos ensinamentos, aos códigos morais, que traduzem da fraternidade, humildade, simplicidade e felicidade, nas promessas de uma ressurreição dos mortos e da vida eterna, perdidas pela desobediência de Adão, redimidas na promessa messiânica. Dentro desta obra monumental da literatura universal, encontramos vários gêneros literários: histórico, poético, épico, jurídico, sapiencial e de teor sagrado.

Alcorão, o Livro Sagrado do Islamismo

O Alcorão, que quer dizer recitação ou leitura, do árabe qur’ãn, teria sido composto a partir das revelações de Deus a Maomé, mediadas pelo arcanjo Gabriel. Abraçado pelo anjo, Maomé recitou uma primeira vez, continuando a fazê-lo por 23 anos, a cada vez que lhe falava o anjo. As palavras divinas recitadas por Maomé (Muhammad ibn Abdallah), foram reunidas versículo por versículo no livro sagrado do Alcorão.
O livro é composto por 114 capítulos (ou textos), designados de suras, que traz textos longos, seguidos de capítulos mais breves, ordenados por temas, não por uma narrativa cronológica como na Bíblia.
Todo muçulmano deve conhecer profundamente o Alcorão, em árabe, língua original do profeta Maomé e dos ensinamentos por ele proferidos. Apenas em árabe é que se reconhece o livro sagrado como Alcorão, sendo as suas traduções chamadas de “significado do Alcorão”. As palavras ganham musicalidade em árabe, tendo um estilo belíssimo entre a prosa e a poesia, sendo consideradas sagradas todas as palavras que nele se encontram.
No Alcorão, Deus é único e onipotente. Seu sentido monoteísta foi herdado do judaísmo, sendo Ismael, filho de Abraão e da escrava Agar, o pai de todos os árabes. O anjo que ditou as palavras a Maomé foi Gabriel, o mesmo que avisara Maria da sua gravidez. O livro admite que Abraão, Moisés e Jesus são profetas que tiveram inspiração divina. Assim, o islamismo, o judaísmo e o cristianismo, fazem parte das religiões monoteístas do grupo abraâmico.
Apesar das controversas históricas atuais, geradas principalmente, pelos conflitos entre árabes e judeus, onde muitos tentam atribuir a violência ao livro sagrado, o Alcorão traz como mensagens principais: a justiça, a generosidade, a bondade e igualdade entre os homens, sem lhes distinguir por raça, cor e condição social, sendo composto por preceitos universais, iguais para qualquer homem.
Além do livro sagrado do Alcorão, Maomé, ao morrer em 632, deixou seu exemplo de vida para ser seguido. Esta tradição é chamada em árabe de suna, sendo composta pelos atos e dizeres de Maomé, chamados de hadiths (ditos e feitos).

Mahabharata, o Grande Épico do Hinduísmo

Traduzido como “A Grande História dos Bharatas”, é um dos grandes épicos da literatura religiosa universal, o maior da civilização indiana, sendo ainda, considerado o maior poema de todos os tempos, com cerca duzentos mil versos. Segundo a tradição, originalmente bharatas queria dizer em sânscrito, “saqueadores”, termo que teria dado nome às tribos arianas que teriam ocupado a península da Índia por volta de 1700 a.C. Esta suposta invasão não é consenso para os historiadores atuais.
Acredita-se que a sua tradição oral seja bem mais antiga, e, que a maioria dos versos do livro foram compilados no século IV a.C., mas foi no século II d.C. que ganhou a sua estrutura definitiva. O Mahabharata, assim como outras escrituras sagradas do hinduísmo, como os Vedas e os Puranas, tem a sua coletânea creditada ao mítico sábio Vyasa.
O épico narra a guerra entre as famílias Karauvas e Pandavas, que apesar de laços próximos de parentesco, enfrentavam-se pela posse de um reino no norte da Índia. É o confronto final desta guerra, a Batalha de Kurukshetra, ocorrida na cidade deste nome, que dá origem ao Bhagavad Gita, o livro mais influente do hinduísmo. Parte essencial do Mahabharata, o Bhagavad Gita (Canção do Divino Mestre ou Canção do Senhor), narra as indagações de Arjuna, nos momentos que antecedem a uma batalha na Índia antiga. Arjuna, um príncipe que tem a consciência abalada por combater amigos e familiares, hesita em continuar a luta, dialogando com o deus Krishna o sentido da vida. O deus convence-o de que aquela guerra faz parte do destino do seu povo e não pode ser evitada. A narrativa centra-se na ética do guerreiro, que impelido pelo destino, trava uma sangrenta batalha final, que após 18 dias de conflito, deixa apenas cinco sobreviventes para perpetuar a dinastia dos Pandava.
Escrito em sânscrito, o Bhagavad Gita, traz como essência a alma como o verdadeiro eu, não o corpo físico. Incita o ascetismo, à devoção e à busca humana como caminho da evolução do indivíduo. É neste livro que aparece a teoria do Karma, fundamental para a compreensão do hinduísmo, e o grande diferencial das religiões politeístas para as monoteístas. O Bhagavad Gita teria sido escrito no século III a.C. Os hindus acreditam que a leitura dos seus versos é capaz de aniquilar todos os pecados e impurezas.

Dhammapada, os Provérbios de Siddharta Gautama

No budismo, vários livros são tidos como essenciais para a sua compreensão. O Dhammapada, que em língua páli pode ser traduzido como “caminho da virtude”, é um conjunto de ensinamentos básicos do budismo.
Segundo a tradição, o Dhammapada seria uma coletânea de provérbios proferidos por Siddharta Gautama, o Buda, durante os 45 anos da sua pregação espiritual pelo mundo. Está escrito em uma linguagem simples e sintética, elucidando que cada ser humano é o único que se pode ajudar, sendo a presença dos Budas apenas um sinal de orientação no meio dos esforços pessoais de cada um. Os escritos condenam tenazmente o ascetismo e grandes sacrifícios físicos. A força pessoal é o maior credo budista.
O Dhammapada debruça-se sobre temas como severidade, maldade, amizade, castigo e pensamento, e, essencialmente, a obra dedica-se à bondade que há em todos os seres, pregando a não violência entre os homens.A origem e autoria da obra jamais chegaram a ser estabelecidas, sendo a sua essência principal talhada na mensagem espiritual dos ensinamentos de Siddharta Gautama, o Buda, que viveu entre os anos 560 e 480 a.C.
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Terça-feira, 27 de Outubro de 2009

LEILA DINIZ, A MULHER E O MITO

 

 
Quando se fala nas décadas de 1960 e 1970, Leila Diniz aparece como um ícone incontestável na galeria dos personagens que compuseram e modificaram o país. A construção do mito muito que se deve à contestação da mulher inquieta e libertária que ela foi. Como atriz não desempenhou papéis marcantes, que lhe valesse o estatuto de estrela, mas brilhou como poucas, sendo um objeto de mídia, quando esta ainda era incipiente, com pouco mais de meia dúzia de revistas e jornais de projeção nacional, e uma televisão ainda por encontrar a direção. Esta mídia rendia-se aos encantos de Leila Diniz, à sua espontaneidade, e, principalmente, a sua transgressão comportamental, dilacerante e revolucionária para a época, fazendo dela uma notícia vendável. Leila Diniz foi capa constante das principais revistas do país, não apenas das que cuidavam da vida dos famosos, como das emblemáticas “O Cruzeiro”, “Fatos e Fotos”, “Realidade” e “Manchete”.
Ser Leila Diniz na época em que viveu era caminhar nua diante de uma sociedade conservadora, manipulada e governada por uma burguesia repressiva, composta nas casernas. Leila Diniz falava do amor livre, da mulher que não tinha medo de sentir prazer sexual, muito menos de ter uma vida íntima com quem lhe inspirasse desejo. Falava palavrões como um homem, mostrando-se caçadora como eles, mas sem nunca perder a sensualidade ou a doçura que lhe era peculiar. Era vista pela direita como promíscua, muitas vezes chamada de prostituta pelos mais conservadores; e, estigmatizada como alienada e alienante pela esquerda. Leila Diniz representou o grito da mulher diante de um mundo machista e de voz histórica masculina. Contestou os costumes, atirou-se sem pudores ao amor e à liberdade de amar; foi a primeira mulher a aparecer grávida a trajar biquíni pelas praias cariocas, escandalizando e lançando moda. Não precisou de um grande papel para brilhar como estrela; foi essencialmente os seus impulsos, o seu jeito espontaneamente visceral de ser, foi mulher sem medo de sê-lo. Sua personalidade superou o seu meio e a sua profissão. Não teve tempo ou não quis buscar o seu grande papel no cinema, na televisão ou no teatro, vivendo-o brilhantemente na vida, ser mulher foi a sua maior representação.
Leila Diniz morreu precocemente aos 27 anos, em 1972, em um trágico acidente aéreo que comoveu o Brasil. Uma vez morta, eternizou-se no cenário nacional, deixou de ser a mulher para transformar-se no mito, deixou de ser vista como promíscua para ser exaltada como pioneira da liberação feminina no Brasil. Leila Diniz, o mito, é tão fascinante quanto foi a mulher, e quase quatro décadas depois da sua morte, continua presente no imaginário deste país, nas raízes da existência feminina e na sua luta para ser apenas mulher, sem as amarras de preconceitos e costumes seculares. Leila Diniz vive! Partiu a mulher, mas o mito está presente em cada rosto feminino, e como profetizou Rita Lee, hoje qualquer mulher é mesmo Leila Diniz!

Os Primeiros Anos e a Estréia Como Atriz

Leila Roque Diniz nasceu em Niterói, Rio de Janeiro, em 25 de março de 1945. Filha de um dirigente do Partido Comunista, o seu nascimento coincidiu com o fim do casamento dos pais, que culminou na separação. Com o fim do casamento, a mãe de Leila Diniz entrou em depressão, não tendo condições psicológicas de cuidar da recém-nascida. Com apenas sete meses, a criança foi entregue à avó paterna, para que por ela fosse criada.
A partir dos três anos de idade, Leila Diniz foi separada da avó, indo viver com o pai e com a sua nova esposa. Ela cresceu sem que lhe fosse dito que a madrasta não era a sua mãe, vivendo esta mentira velada até os 15 anos, quando uma tia revelou-lhe a verdade. A revelação afetou-lhe profundamente, fazendo-a deixar a casa do pai e procurar a mãe verdadeira. Confusa, Leila Diniz passa a viver com algumas amigas, recorre à análise para chegar à conclusão que costumava vociferar: “tenho duas mães, a que pariu e a que criou”.
Foi aos 15 anos que começou a trabalhar como professora, ensinando crianças do maternal e do jardim da infância. Sua forma peculiar de ensinar incomodou aos professores e aos pais de alunos. Leila Diniz eliminou a mesa de professora, sentando-se no meio dos alunos, trocava lanches com eles, falava palavrões comuns às crianças, procurando tratá-las com a mesma linguagem. Jamais se adaptou às exigências convencionais dos diretores da escola ou do pai dos alunos, o que a levou a deixar de dar aulas.
Aos 17 anos, ainda professora primária e estudante do segundo grau, Leila Diniz conheceu o diretor de teatro e cinema, Domingos de Oliveira, com quem passaria a viver por três anos. Aos poucos, ela deixou o magistério, indo trabalhar em uma agência de modelos, fazendo anúncios e figuração em filmes. Como atriz, faria a sua estréia fazendo pequenos papéis no Teatrinho Trol e no Grande Teatro Tupi. A quem aponte para a peça infantil “Em Busca do Tesouro”, dirigida por Domingos de Oliveira, como a sua estréia oficial como atriz. Chegou a ser corista em um show do rei da noite, o mítico Carlos Machado.
Leila Diniz considerava a sua estréia como atriz dramática a partir do momento que fez a peça “O Preço de um Homem”, ao lado de Cacilda Becker, em 1964. A atriz nunca teve paixão pelo teatro, dedicando grande parte da sua carreira ao cinema nacional e à televisão.

Leila Diniz Conquista a Televisão

A relação com Domingos de Oliveira desgastou-se com o tempo. Em 1965 ela decidiu pela separação. Foi neste tumultuado ano de dor sentimental, que ela fez a sua estréia na televisão. Ao lado de Reginaldo Faria, protagonizou a primeira telenovela da recém nascida Rede Globo, “Ilusões Perdidas”, produzida em São Paulo, na antiga TV Paulista, comprada naquele ano por Roberto Marinho. Leila Diniz entrava definitivamente para a história da televisão brasileira em exatos 56 capítulos.
Aos poucos, Leila Diniz foi construindo uma carreira na televisão. Ainda em 1965, faria mais duas novelas na emissora de Roberto Marinho, “Paixão de Outono” e “Um Rosto de Mulher”. Simultaneamente, a atriz aparecia em anúncios televisivos de sabonetes e creme dental, e da Coca-Cola.
Em 1966, Leila Diniz viveria a vilã Úrsula, de “Eu Compro Esta Mulher”, novela de Gloria Magadan, baseada no romance “O Conde de Monte Cristo”, de Alexandre Dumas. A novela seria o primeiro grande sucesso da TV Globo, transformando a autora em uma poderosa e temida novelista. Úrsula projetou Leila Diniz na televisão, o que a levou a ser escalada para “O Sheik de Agadir”, da mesma autora. Sua personagem Madelon, alcançou sucesso nacional. No ano seguinte, em 1967, ela faria outra novela de Gloria Magadan, “A Rainha Louca”. Ainda naquele ano, seria a protagonista de “Anastácia, a Mulher sem Destino”, novela que entrou para a história da teledramaturgia brasileira não pelo seu sucesso, mas pelos conturbados bastidores. Emiliano Queiroz, o autor da trama, perdeu-se depois de criar vários personagens, sendo substituído por Janete Clair, em sua mítica estréia como novelista da Globo. Com a missão de salvar a novela de um imenso fracasso, Janete Clair decidiu começar do zero, enxugando o elenco e recontado a história, para isto ela criou um grande terremoto que mataria quase todo o elenco, só restando quatro sobreviventes. A história dava um salto de vinte anos, Leila Diniz passou a interpretar duas personagens, Anastácia, e a sua filha.
A presença de Leila Diniz nos primórdios da Rede Globo foi uma constante. Em 1968, foi para a TV Excelsior protagonizar a telenovela “O Direito dos Filhos”, grande sucesso da emissora. Além da TV Excelsior e da TV Globo, Leila Diniz atuaria em novelas da TV Rio, “Os Acorrentados”, de Janete Clair, em 1969, e da TV Tupi, onde faria “E Nós, Aonde Vamos?”, em 1970, novela que seria a última da sua carreira e da de Gloria Magadan, a autora.

Leila Diniz no Cinema Brasileiro

Mas foi no cinema nacional que Leila Diniz alcançou o apogeu da carreira. Uma incursão da atriz que duraria seis anos. A estréia foi em 1966, em “O Mundo Alegre de Helô”, dirigido por Carlos de Souza Barros, filme que ela chamava de alucinante. Logo em seguida, atuou em “Jogo Perigoso” (Juego Peligroso), uma co-produção entre o Brasil e o México, dirigido por Luiz Alcoriza, famoso por seu trabalho de roteirista ao lado de Luis Buñuel.
O sucesso definitivo veio com “Todas as Mulheres do Mundo”, feito em 1966, com estréia no ano seguinte. A direção foi de Domingos de Oliveira, que se inspirou na sua vida com a atriz para criar as personagens. Quando o filme foi feito, Leila Diniz e Domingos de Oliveira já estavam separados, sendo o momento das filmagens a última tentativa do diretor para reconquistar a amada, mas ela preferiu seguir sozinha. Com este filme, Leila Diniz tornou-se a atriz mais famosa do cinema nacional. Foi a partir dele que a sua inquietante personalidade ganhou notoriedade, e passou a ser reconhecida como atriz. Mas a carreira de atriz não ascenderia tão brilhante como a personalidade da mulher. Com este filme, Leila Diniz torna-se um ícone do seu tempo e das mulheres de um Brasil que se desenhava os costumes. “Todas as Mulheres do Mundo” tornou-se um clássico do cinema brasileiro. A atriz voltaria a ser dirigida pelo ex-companheiro em “Edu, Coração de Ouro”.
Apesar de dizer que não se importava em fazer um texto de Shakespeare ou de Gloria Magadan, Leila Diniz encontrou-se nas telas do cinema. O seu amor pela sétima arte fez com que ela atuasse pelo simples prazer de trabalhar com grandes diretores, abrindo mão muitas vezes, de receber salário, como aconteceu quando trabalhou com Nelson Pereira dos Santos em “Fome de Amor”, e ele não lhe podia pagar. Com este filme, considerado pela atriz como um dos seus melhores papéis, foi representar o diretor na Alemanha, no Festival de Berlim, em 1968. Ela voltaria a trabalhar com Nelson Pereira dos Santos em “Azyllo Muito Louco”.
A sua atuação no cinema foi constante até a tragédia que a vitimou, em 1972. Alternou papéis de protagonista, coadjuvante ou simples participações especiais. Fez clássicos como “Madona de Cedro”, baseado no romance de Antonio Callado, ao lado de Sérgio Cardoso, ator que, assim como ela, comoveria o Brasil com a sua morte precoce, em 1972. “Madona de Cedro” teve a direção de Carlos Coimbra, com quem ela voltaria a trabalhar em “Corisco, o Diabo Loiro”.
Por duas vezes, a atriz surgiu nas telas a interpretar ela mesma, em “Os Paqueras”, em 1969, filme considerado o precursor das pornochanchadas dos anos setenta, e em “O Donzelo”, estreado nos cinemas em 1971. Nestas participações, percebe-se nitidamente a dimensão do mito Leila Diniz, mais famosa como ela mesma do que como qualquer personagem que veio a interpretar.
Mãos Vazias”, de 1971, de Luiz Carlos Lacerda, seu amigo íntimo desde a adolescência, foi o responsável pela viagem de Leila Diniz para um festival de cinema na Austrália, onde foi representá-lo. A atriz não voltaria ao Brasil, morrendo em um acidente de avião. No carnaval de 1972, ela filmou a sua última participação no cinema, “Amor, Carnaval e Sonhos”, de Paulo César Saraceni.
Os registros da trajetória da carreira de Leila Diniz foram feitos pela televisão, onde foi protagonista de várias telenovelas, e pelo cinema nacional. Infelizmente um incêndio na TV Globo, ocorrido em 1976, destruiu todas as novelas que ela participou. As outras emissoras, TV Excelsior, TV Tupi e TV Rio, também não deixaram os arquivos dessas produções. Resta o cinema, que além das reportagens históricas da atriz, é o registro vivo do mito Leila Diniz.

Leila Diniz nas Páginas do Pasquim

O registro mais importante do mito Leila Diniz aconteceu em 1969, quando deu uma entrevista histórica para o jornal “O Pasquim”. A entrevista causaria furor nos fãs e naqueles que ansiavam pela mudança dos costumes, pelo amor livre, tão disseminado pelos movimentos hippies e vanguardas de então; causaria mal-estar nos conservadores e moralistas, tanto da classe média hipócrita, quanto do próprio governo militar, sustentado essencialmente por setores de uma sociedade de costumes rígidos e moralismos esgotados. Após o decreto do Ato Institucional 5 (AI-5), em dezembro de 1968, era feita veladamente uma censura prévia ao que se saía na imprensa. O Pasquim era conhecido pela irreverência intelectual dos seus editores, publicando reportagens com entrevistas na íntegra, preservando a linguagem coloquial do entrevistado.
Em novembro de 1969, o jornal publicou sem retoques, a mítica entrevista de Leila Diniz. A atriz era conhecida no meio que freqüentava pela linguagem escancarada e espontânea que utilizava, os seus palavrões eram famosos pelas mesas dos bares de Ipanema. O Pasquim transcreveu esta linguagem na reportagem, até então desconhecida do público da atriz. Apesar da linguagem chula que às vezes utilizava, Leila Diniz não era uma mulher agressiva, muito menos vulgar, os palavrões ditos por ela soavam aos ouvidos dos amigos e parentes como um charme, uma rebeldia, numa época que se tornara moda ser contestador, derrubar tabus e procurar novos caminhos para os costumes sociais que explodiam.
A partir da reportagem do Pasquim, Leila Diniz tornou-se porta-voz da nova mulher que se construía numa sociedade machista e em ebulição, movida por um regime governamental repressivo e de parcos costumes. Para cobrir a grande quantidade de palavrões, o editor Tarso de Castro substituiu-os por asteriscos, não mudando a essência vulcânica das palavras da atriz. Dois meses após a publicação da polêmica entrevista, ainda indignada, a ditadura militar outorgou um decreto-lei instituído a censura prévia, dizendo que não mais toleraria na imprensa nacional, “exteriorizações contrárias à moral e aos costumes”. O decreto entrou para a história como “Decreto Leila Diniz”.
A repercussão da entrevista deixou marcas indeléveis na carreira e vida profissional de Leila Diniz. Vítima de perseguição moral, ela jamais conseguiria um bom emprego, sendo vetada nas novelas da Globo, casa que ajudou a construir nos primórdios, emprestando o seu talento de atriz. Sem conseguir bons papéis na televisão, ela começou a ter dificuldades em pagar as suas contas.
Lidas com a visão dos tempos atuais, as frases de Leila Diniz soam como as de qualquer adolescente que se expressa através da internet. Mas na época que foram ditas, eram consideradas libertárias, não dignas de uma mulher de moral. A repercussão negativa da entrevista fez da atriz um alvo perfeito de preconceitos e dos preconceituosos. Leila Diniz afirmava que fazia sexo com ou sem amor, que ter prazer não dependia da paixão ou de ser mulher, mas da essência de cada um. Declarar o amor livre em 1969 era um ato de rebeldia, principalmente se a declaração viesse de uma mulher e de uma influente figura pública. Separar sexo do amor era para as prostitutas, não para as esposas e para as mães de família.
A edição do Pasquim que trazia a entrevista de Leila Diniz foi a mais vendida da história do jornal. Também a mais marcante e comentada até os dias de hoje. Para Leila Diniz foi o crepúsculo profissional. Depois que a entrevista saiu, emissoras como a Rede Globo deixaram de contratá-la, alegando razões morais. O diretor Daniel Filho declararia que a novelista Janete Clair vetou Leila Diniz para fazer uma de suas novelas, alegando que a imagem da atriz não condizia com a da heroína do folhetim, o que poderia vir a afetar o desenvolvimento da personagem. O que não deixava de ser uma grande ingratidão, já que Daniel Filho tinha saído temporariamente da TV Globo, indo para a TV Rio, em 1969, convocando Janete Clair para escrever para aquela emissora uma novela, “Os Acorrentados”, na qual Leila Diniz fora a protagonista, emprestando o seu nome para a empreitada do diretor e, representando com maestria a heroína de Janete Clair.
Contrariando a versão de Daniel Filho, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o poderoso Boni, então diretor geral da TV Globo, alegou que Leila Diniz foi vetada na emissora por ter quebrado o contrato para fazer uma novela na TV Excelsior. Boni declararia: “Ficamos decepcionados. Quando quis voltar, estávamos naturalmente tristes com aquela quebra de contrato. Era política da empresa.” Seja qual for a versão verdadeira, o fato é que a TV Globo era extremamente conservadora e de orientação machista, não permitindo inclusive, que as suas atrizes posassem nuas para revistas masculinas, aquela que infringisse as normas da emissora sofria retaliações, esta política só caiu no fim da década de setenta.
Ser verdadeira e espontânea pôs Leila Diniz na contramão do seu tempo, fazendo dela o protótipo da mulher do futuro. A atriz pagou caro por sua irreverência, sendo perseguida pelo conservadorismo dilacerante daquele Brasil reprimido. Nunca quis ser líder de nada, queria apenas ser livre. Conseguia defender o amor livre e o casamento em uma mesma entrevista. Numa época em que as ideologias estavam divididas em dois grupos, o de esquerda e o de direita, e que não pertencer a nenhum dos lados era considerado alienante, numa época que não se podia fugir das idéias pré-concebidas, das dialéticas impostas, Leila Diniz defendia apenas o direito de ser livre, mesmo sendo mulher, não trazia receitas ideológicas, pensamentos intelectuais, mostrando-se como uma incógnita, como a interrogação desconcertante dos tabus que se quebravam dia após dia. A entrevista de Leila Diniz no Pasquim foi a primeira quebra da mulher com as amarras machistas no Brasil, foi o primeiro flash disparado sobre o rosto e o corpo da mulher brasileira do futuro.

Perseguida e Acossada Pelos Preconceitos Morais

A partir da entrevista que deu para O Pasquim, Leila Diniz amargou a pior fase da sua vida. Vetada pela TV Globo, que passava a ser a maior emissora do país, perseguida pelos conservadores e moralistas, ela passou a aceitar papéis menores em sua carreira.
Ignorada pela esquerda, perseguida pela direita, a atriz viu os caminhos profissionais sendo fechados à volta. A verdade é que Leila Diniz era senhora de uma personalidade marcante, maior do que a sua profissão, uma fomentadora de opiniões, que muitos jovens idolatravam e seguiam. Leila Diniz passou a incomodar os poderosos do regime militar, não por ser uma revolucionária de esquerda, ou militante política perigosa, mas por desafiar os costumes sociais estabelecidos. Ela desafiava ao poder do macho, refletido no casaco dos generais, nos olhos sombrios dos militares do poder, que escondiam atrás de óculos escuros o olhar frio dos torturadores. Leila Diniz passou a ser perseguida pelos militares, que a acusaram de ajudar militantes de esquerda, os quais eles chamavam de terroristas, mas a verdade é que a polícia política queria prendê-la por atentado ao pudor. Acossada, ela foi obrigada a viver escondida na casa de campo do apresentador Flávio Cavalcanti, considerado pelos intelectuais e militantes de esquerda como reacionário, sendo visto como a escória da televisão. Naquele momento crucial da vida da atriz, no fatídico ano de 1970, Flávio Cavalcanti não só a abrigou em sua casa de Petrópolis, como deu emprego para ela como jurada no seu programa de televisão. Com a ajuda de Flávio Cavalcanti e da sua família, Leila Diniz pôde respirar um pouco mais naquele momento que ninguém lhe queria dar emprego.
Passado o período mais negro da perseguição após a entrevista no Pasquim, a atriz trouxe de volta aos palcos brasileiros o teatro de revista, considerado extinto na época. Exuberante, ela brilhou nos palcos como vedete, protagonizando “Tem Banana na Banda”, revista feita a partir de textos escritos por Millôr Fernandes, Oduvaldo Viana Filho, Luiz Carlos Maciel e José Wilker, sobre os quais a atriz improvisava com maestria. O sucesso da revista deu a Leila Diniz a vitória no concurso de rainha das vedetes, recebendo o título das mãos da maior vedete do país, Virginia Lane. Para encerrar o período nebuloso pelo qual passara, ela foi eleita a Madrinha da Banda de Ipanema.
Leila Diniz voltava a ser notícia, a trazer novamente, o seu sorriso e comportamento espontâneo. A avalanche causada pelas declarações no Pasquim passara, mas deixara cicatrizes profundas. A carreira da atriz era definida antes e depois da entrevista. Era como se recomeçasse, mas a fatalidade da vida dizia o contrário, era um epílogo de vida que a atriz vivia.

Leila Diniz, a Mulher

Em 1971, Leila Diniz apaixonou-se pelo cineasta Ruy Guerra, com quem passou a viver um tórrido romance. O romance resultou na gravidez da atriz. Leila Diniz parecia atingir a sua plenitude de mulher. Recebeu a gravidez como a mutação perfeita da mulher, a concretização do seu corpo e das paixões.
Leila Diniz voltou para o mar, a sua grande paixão de vida. O único momento que gostava de ser ela, de não ser incomodada pelo assédio dos fãs, era aquele que jogava o seu corpo na areia e banhava-se no mar. Momento que gostava de estar só consigo mesma, a falar com o mar, como se dele obtivesse uma inspiração perene e a força para prosseguir livre. A atriz voltava às praias cariocas, voltava a reinar absoluta nas areias de Ipanema. Mas desta vez não estava sozinha, ela voltava grávida, trazendo uma barriga de oito meses, vestida apenas com um biquíni. Ao ser fotografada a exibir a sua gravidez, a trajar um biquíni, mais uma vez Leila Diniz escandalizava a sociedade. Até então a mulher tinha vergonha de exibir a sua gravidez, disfarçando-a em roupas recatadas até o nono mês. Uma grávida dentro de um biquíni era inconcebível. Mas Leila Diniz ousou, e a partir dela, virou moda a mulher grávida usar biquíni e ir à praia.
Grávida, Leila Diniz mais uma vez foi pioneira, deixando-se fotografar nua, com o ventre crescido, pelo fotógrafo David Drew Zingg. Décadas depois, celebridades como Luma de Oliveira e Demi Moore fizeram o mesmo, mas sem escandalizar como aconteceu com Leila Diniz. A plenitude daquele momento deu à atriz o título de grávida do ano.
Foi do mar que Leila Diniz encontrou inspiração para o nome da sua filha, Janaína, nascida em novembro de 1971. Se hoje é comum em campanhas do governo federal a mulher amamentando o filho, Leila Diniz incomodou a moral do governo militar, quando apareceu em fotografias a amamentar a pequena Janaína.
A descoberta da maternidade apaziguou um pouco os anseios da mulher. Leila Diniz viveu com intensidade os curtos oito meses que a vida lhe deu para ser mãe. Após dedicação total à Janaína, ele retomou a carreira, voltando aos palcos do teatro de revista e ao cinema. Em junho de 1972, ela deixou o Brasil para participar de um festival de cinema na Austrália, com o filme “Mãos Vazias”. Era a primeira separação que tinha da filha desde que ela nascera. A atriz não resistiu à saudade e à distância de Janaína, o que a levou a deixar o grupo de atores com o qual viajara e antecipasse a volta ao Brasil. Infelizmente Leila Diniz não voltou. O avião da Japan Airlines, em que viajava, explodiu no ar, quando sobrevoava Nova Déli, na Índia, no dia 14 de junho de 1972. Apenas sete pessoas sobreviveram. Leila Diniz estava entre os mortos, com o corpo incinerado, sendo reconhecido apenas pela arcada dentária.
Quando morreu, Leila Diniz tinha apenas 27 anos, causou uma grande comoção nacional, mesmo diante daqueles que a perseguiram e que tentaram silenciá-la. A atriz passou de pessoa maldita e promíscua a símbolo da liberação feminina. Mesmo morta, o seu rosto desenhou a face da nova mulher brasileira. Desaparecia a mulher, nascia o mito, do qual Carlos Drummond de Andrade escreveu: “Soltou as mulheres de vinte anos presas no tronco de uma especial escravidão”. Leila Diniz, a mulher, revive em todas as grávidas que passeiam de biquíni pelas praias, em todas aquelas que não têm medo de sentir prazer. O mito é intocável, eterno, símbolo de uma época.
Se Leila Diniz não teve tempo de viver o seu grande papel nos palcos, cinema ou televisão, ela o viveu na vida, sendo o mito Leila Diniz o seu maior papel nos palcos sociais do Brasil. Irreverente e apaixonada pela vida, ela jamais deixou de se divertir com o seu trabalho, sobre o qual declararia:
Eu sou uma pessoa sem sentido porque o meu sentido é esse: eu gosto de me divertir. Eu escolho os meus trabalhos pela patota.”
Leila Diniz era o símbolo da contradição moral vigente, seu sorriso era contagiante, sua beleza estonteante, cheia de curvas sinuosas numa época em que o padrão de beleza feminino era o que ela trazia no corpo, sua visão naturalista do amor e do sexo era o que ansiava intimamente a mais reprimida das virgens, a mais mal amada das balzaquianas e das suas mães. Leila Diniz jamais pretendeu fazer qualquer revolução, mas terminou por ser o símbolo de uma, a dos costumes, a da independência feminina no trabalho, no amor e no sexo.

Frases Emblemáticas de Leila Diniz

“Não sei se foi loucura ou coragem minha, mas sempre me expus muito. De certa forma, acho que é isso que ainda sustenta essa coisa engraçada chamada mito.”

“Não morreria por nada deste mundo, porque eu gosto realmente é de viver. Nem de amores eu morreria, porque eu gosto mesmo e de viver de amores.”

“Quebro a cara toda hora, mas só me arrependo do que deixei de fazer por preconceito, problema e neurose.”

“Tem-se que brigar com o passado, ou melhor, estudá-lo. Arrancar de dentro da gente as raízes burguesas e mesquinhas, as tradições, o comodismo e a proteção...”

“Você pode muito bem amar uma pessoa e ir para a cama com outra. Já aconteceu comigo.”

“Não sou contra o casamento, Mas, muito mais do que representar ou escrever, ele exige dom.”

“Cafuné na cabeça, malandro, eu quero até de macaco.”

“Todos os cafajestes que conheci na vida são uns anjos de pessoas.”

“Eu posso dar para todo mundo, mas não dou para qualquer um.”

“Eu trepo de manhã, de tarde e de noite.”

“Sempre andei sozinha. Me dou bem comigo mesma.”

“Só quero que o amor seja simples, honesto, sem tabus e fantasias que as pessoas lhe dão.”

“Viver intensamente é você chorar, rir, sofrer, participar das coisas, achar a verdade nas coisas que faz. Encontrar em cada gesto da vida o sentido exato para que acredite nele e o sinta intensamente.”

“Quando eu estou representando em teatro, tenho vontade de parar e fazer careta para a platéia e dizer: o que é que vocês estão aí me olhando, o que é isso?”

“Eu durmo com todo mundo! Todo mundo que quer dormir comigo e todo mundo que eu quero dormir.”

“No fundo, eu sou uma mulher meiga, adoro amar, não quero brigar nunca, e queria mesmo é fazer amor sem parar.”

OBRA:

Televisão

1965 – Ilusões Perdidas – TV Paulista
1965 – Paixão de Outono – Rede Globo
1965/1966 – Um Rosto de Mulher – Rede Globo
1966 – Eu Compro Esta Mulher – Rede Globo
1966/1967 – O Sheik de Agadir – Rede Globo
1967 – A Rainha Louca – Rede Globo
1967 – Anastácia, a Mulher Sem Destino – Rede Globo
1968 – O Direito dos Filhos – TV Excelsior
1969 – Os Acorrentados – TV Rio
1969 – Vidas em Conflito – TV Excelsior
1969/1970 – A Menina do Veleiro Azul – TV Excelsior
1969/1970 – Dez Vidas – TV Excelsior
1970 – E Nós, Aonde Vamos? – TV Tupi

Cinema

1966 – O Mundo Alegre de Helô
1966 – Todas as Mulheres do Mundo
1967 – Juego Peligroso (Jogo Perigoso)
1967 – Mineirinho, Vivo ou Morto
1968 – Edu, Coração de Ouro
1968 – O Homem Nu
1968 – A Madona de Cedro
1968 – Fome de Amor
1969 – Corisco, o Diabo Loiro
1969 – Os Paqueras
1970 – Azyllo Muito Louco
1971 – O Donzelo
1971 – Mãos Vazias
1972 – Amor, Carnaval e Sonhos
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Domingo, 25 de Outubro de 2009

BATMAN - SETE DÉCADAS DO HOMEM MORCEGO

 

Em maio de 1939, o número 27 da revista norte-americana Detective Comics publicava a história do Batman, o Homem Morcego, codinome do milionário Bruce Wayne, defensor da justiça e dos oprimidos. Sete décadas depois, Batman é um dos mais bem-sucedidos heróis das histórias em quadrinhos, da televisão e do cinema. Sua fama atravessou as fronteiras do país em que foi criado, conquistando o mundo inteiro.
Batman foi uma criação do desenhista Bob Kane e do escritor Bill Finger, embora só seja creditada ao primeiro. Há rumores de que personagem semelhante teria aparecido em desenhos de Frank Foster, em 1932, daí uma corrente dar a ele os créditos de um terceiro criador.
Nascido um ano depois do Superman, cuja primeira história publicada foi em 1938, Batman é um herói oposto ao homem de aço. Ele não possuí poderes sobrenaturais, não é de outro planeta, para derrotar os vilões conta com a sua inteligência e astuciosos planos regados de lutas marciais e técnicas de combate, além de criações tecnológicas desenvolvidas para este fim, como o bat-cinto e o bat-móvel.
Se Clark Kent é o herói que luta incessantemente contra os criminosos, Bruce Wayne não lhe fica atrás. A diferença é que o primeiro executa cabalmente a linha politicamente correta de combater o mal, enquanto que o Batman combate o mal com o próprio mal, não se importando com o caminho, mas com os resultados. O Super-Homem já nasceu com os super poderes, sua trajetória já foi definida no planeta de onde veio, enquanto que o Batman foi feito em cima dos traumas de Bruce Wayne. Ele é o ego da criança que testemunhou o assassínio dos pais, que cresceu com a necessidade de vingar as mortes, combatendo os criminosos que possam produzi-las na sociedade. O Batman não é só o paladino da justiça, mas o vingador do seu criador. A sua conduta reflete a psicologia dos seus atos, tudo nele está voltado para a mente, sua personalidade dupla é fruto do ambiente, da cidade – Gotham City – que o viu nascer.
Batman é obscuro, como é o morcego, animal vampiresco, que tem as trevas como guia. Batman transita através de todos os medos de Bruce Wayne, fazendo-o sobrevivente dos traumas e da fúria vingativa que lhe queima a mente. A inteligência é o seu maior trunfo. Não utiliza armas, mas é capaz de usar toda a força física do seu corpo. Sem a máscara é um homem fútil e de vida cerceada pelo glamour social, visto como um playboy e conquistador de belas mulheres; mascarado é um homem destemido, justiceiro e amigo dos desvalidos, visto como um misterioso sedutor, arrebatador de corações sonhadores. Se Clark Kent ao transforma-se no Super-Homem é quase que imperceptível à dualidade da sua personalidade, com Bruce Wayne isto não acontece, porque o Batman afasta-se do milionário, o herói é o oposto do homem, só se igualando a ele numa coisa, ambos são mortais, sobrevivem da força da mente.
Sete décadas depois, o homem morcego assumiu várias faces, mudou o comportamento conforme quem desenhava as suas histórias ou as contava quer no cinema, quer na televisão. Mesmo assumindo tantas faces, a sua principal característica, que é a mente, o perfil psicológico, jamais foi perdido, e ele continua a seduzir e a conquistar o mundo inteiro.

A Criação do Homem Morcego

Nos Estados Unidos, as histórias em quadrinhos tornaram-se um grande sucesso na década de 1930, com tiras publicadas regularmente nos jornais e em revistas autônomas, sendo amplamente lidas por crianças e adultos. No fim desta década, a DC Comics pediu a um jovem desenhista, Bob Kane, que criasse um herói para ser lançado nas páginas da sua revista em quadrinhos.
Em 1938 tinha sido lançado o Super-Homem, herói com super poderes, como visão de raios-X, capacidade de voar, além de ter vindo de outro planeta. Para opor-se ao Super-Homem, Kane pensou em um herói nascido na Terra, vivendo em uma grande cidade corrompida pelo crime e por perigosos bandidos. Várias são as influências atribuídas a Kane na criação do Batman. Alguns dizem que ele era um aficionado das histórias vampirescas e no mito do Drácula. Outros afirmam que se baseou no Zorro, homem fanfarrão e fútil durante o dia, mas um exímio defensor dos fracos e oprimidos durante a noite. Outra influência teria sido a dos filmes negros de detetives, gênero de grande sucesso da época, que traziam cenas a preto e branco, recheadas de crueldade e sombras assustadoras. Há ainda, a versão de que teria sido uma inspiração vinda de um desenho renascentista do gênio Leonardo Da Vinci. Sejam quais forem as influências, Batman nasceu com um pouco de cada uma das aqui citadas.
Mas a evidência mais clara na criação de Bob Kane foi a de um herói próximo do Drácula, e o símbolo criativo, o morcego, resumia o caráter dúbio da personagem que nascia. O morcego é visto desde a antiguidade como um animal maldito, meio rato, meio ave. Os hábitos noturnos, a alimentação do sangue de animais de algumas espécies, fizeram dos morcegos animais associados às trevas. Batman traria a personalidade dúbia e sombria do morcego, suas histórias seriam escuras e próximas do gênero de terror.
Assim como Drácula, o herói imaginado por Kane traria roupas negras, capa vermelha e mente sombria, sendo representante de um sonho ruim. Foi esta a idéia que Bob Kane levou a um amigo, o roteirista Bill Finger, na época com 22 anos. Finger acrescentou à personagem uma capa esvoaçante, mudou a cor das roupas para cinza e negra e aumentou o tamanho da máscara, dando à personagem o formato que o iria consagrar.
Bob Kane é oficialmente creditado como o criador do Batman, apesar de ter confirmado sempre a participação de Bill Finger. Além dos dois, os desenhos de Frank Foster, artista ligado à industria de publicações de Nova York, criados no inicio da década de 1930, foram considerados como autênticos pela DC Comics, embora não creditados.
Concluído o aspecto do Batman, ele foi inserido na cidade de Gotham City, pronto para enfrentar todos os bandidos que ameaçavam a metrópole. Respaldada a criação, no dia 18 de maio de 1939, a história do Homem Morcego foi publicada pela primeira vez no número 27 da “Detective Comic Magazine”, inaugurando a saga de um dos heróis mais emblemático da chamada “Época de Ouro dos Quadrinhos”.

Batman Apresenta-se a Gotham City

Gotham City era um retrato das grandes cidades norte-americanas pós-depressão. Após a queda da Bolsa de Valores, em 1929, o país mergulhara numa recessão econômica que levara grande parte dos seus habitantes à miséria. A depressão, aliada ao período da Lei Seca, que proibia a venda de bebidas alcoólicas no país, suscitou a violência, a consolidação da Máfia nos Estados Unidos, além de criar o mito de grandes criminosos como Al Capone, Frank Nitti, Paul Ricca ou Tony Accardo. Esta atmosfera de gangster é recriada em Gotham City, e os vilões que o Batman combate refletem a sombra dos grandes mafiosos.
Se em 1939 a América ainda vivia dos escombros do colapso da Bolsa de Valores, a Europa vivia a ascensão do nazismo na Alemanha, do fascismo na Itália, além dos prelúdios daquela que seria a sua maior catástrofe no século XX, a Segunda Guerra Mundial. É neste contexto histórico que nasce o Batman.
Batman surge dos escombros da mente de Bruce Wayne, herdeiro único de uma grande fortuna que lhe deixara os pais. O empresário milionário revela para a sociedade ser um homem superficial, playboy inveterado, amigo da caridade e da filantropia, mas de idéias rasas quando chamado para opinar sobre os problemas de Gotham City.
Mas a mente de Bruce Wayne é mais complexa do que a imagem que deixa transparecer. O milionário é um homem solitário, atormentado pelas lembranças da infância, encerrada mentalmente aos oito anos, no dia em que ele assistiu ao assassínio dos pais, o médico Thomas Wayne e a esposa Martha Wayne, vítimas de um assalto, executado pelo criminoso Joel Chill. Este testemunho perturba para sempre o herdeiro dos Wayne, fazendo-o caminhar errante por todo o mundo, em viagens de fuga e aprendizados constantes. Já adulto, Bruce Wayne volta a Gotham City, encontrando uma cidade violenta e corrompida em todas as suas vertentes, seja políticas ou empresariais. Na sua mente atormentada, Bruce Wayne jura vingar a morte dos pais, decidindo combater o mal, nem que para isto ele próprio lance mão do mesmo mal.
Em suas viagens pelo mundo, Bruce Wayne tenta obsessivamente compreender a mente assassina, além de querer vencer os traumas que não lhe abandona os pesadelos. Em seu aprendizado, ele treinou técnicas de combate e todos os tipos de artes marciais, numa construção da perfeição física associada à inteligência intelectual. Para combater o crime, Bruce Wayne inspira-se nos morcegos, animais que o traumatizara quando criança, dos quais tem medo. Num paradoxo psicológico, ele cria vestes baseadas nos morcegos, para que assim possa amedrontar os seus inimigos com o bicho que mais o amedrontava. Aterrorizar os outros com os seus próprios medos, faz com que ele os exorcize de dentro da alma. O que o acovardava torna-se instrumento da sua coragem e sede de justiça. Cada inimigo derrotado faz dele um vingador do assassínio dos pais, redimindo-o dos traumas infantis. A máscara desaparece com todos os medos, tornando-o um homem insuperável.
Sem os poderes sobrenaturais do Super Homem, Batman conta com as suas habilidades de exímio lutador, com a tecnologia vinda das suas fábricas, com o seu físico forte e atlético, com uma inteligência imaginativa e incomum, e, principalmente, com a grande fortuna que tem à disposição. Por debaixo da máscara, o herói é, acima de tudo, humano e mortal.

Surge a Figura de Robin

Quando o Batman surge no cenário da caótica Gotham City, combatendo o mal com o mal, ele suscita o medo e a desconfiança da população e da lei. Ao ver surgir um homem vestido de morcego, portando gestos bruscos e determinados em combater os seus inimigos, a fragilizada população, refém da violência, do medo e da corrupção que se instaurara sobre Gotham City, sente-se confusa, sem saber em quem confiar.
Mas Batman é um herói seguro da finalidade para a qual se atirara, e logo conquista a simpatia dos cidadãos de Gotham City, e de parte da polícia, que passa a não classificá-lo como um dos criminosos que andam pelas ruas, mas como um aliado no combate aos mesmos. Inicia-se um pacto entre a população, a polícia e o Homem Morcego, traduzida em um sinal de morcego no céu (o bat-sinal), que representa um pedido de socorro ao mascarado paladino da justiça.
No decorrer das histórias, a identidade de Bruce Wayne vai ficando cada vez mais definida. Tem como marco o seu nascimento, em 1910, a vida feliz na mansão da família, até os oito anos, quando teve os pais assassinados, a criação solitária e infeliz na mansão, sob a tutela do tio Philip Wayne, ou do mordomo Alfred, conforme as versões e seguimentos da história.
Em 1940, Batman deixa de ser um herói solitário, quando lhe foi criado um companheiro, o menino prodígio, Robin. A idéia foi de um assistente de Bob Kane, Jerry Robinson. A história da dupla começou quando Bruce Wayne adotou o jovem Dick Grayson, órfão dos Graysons Voadores, trapezistas assassinados durante uma apresentação no circo. Bruce Wayne sente no drama de Dick Grayson uma identificação com a sua própria história. Ao levá-lo para viver na mansão, ele quebra com a solidão, vivida na companhia do fiel mordomo Alfred. O órfão adquire o codinome de Robin, tornando-se o fiel parceiro do Batman.
A leveza da personagem do menino prodígio, um rapaz valente e atrapalhado, quebrou a atmosfera soturna das histórias do Batman, acrescentando-lhes mais humor e mais diálogos. É desta época o surgimento dos maiores inimigos do Homem Morcego, o Coringa e o Pingüim, vilões perigosos e bem humorados que tornaram as histórias mais engraçadas, conquistando imediatamente os leitores, que os faziam revezar nas tramas.
O menino prodígio cumpriu a sua função de companheiro do Batman até as histórias de 1969, quando foi para a faculdade. Durante a década de 1970, as histórias do Batman mostravam-no solitário, algumas vezes juntando-se com Robin, outras vezes com a Batgirl. Na faculdade, Robin uniu-se à turma dos Titãs, mudou o seu uniforme e assumiu a identidade do Asa Noturno. Para suprir a falta do menino prodígio, foi criado Jason Todd, também ele um órfão adotado por Bruce Wayne. O novo Robin acabaria por morrer nas mãos do Coringa.

As Várias Faces do Batman ao Longo das Décadas

Desde que foi criado, em 1939, o Batman passou por profundas transformações, tanto no aspecto visual das suas roupas, até as mais complexas evoluções psicológicas, ou mesmo na troca dos parceiros.
Se Jerry Robinson deu um aspecto mais leve às histórias do Homem Morcego, esta atmosfera desapareceu com o desenhista Neal Adams. Quando assumiu as aventuras do Batman, Neal Adams voltou às origens, trazendo de volta um Batman sombrio, com histórias violentas, mostrando um herói pouco convencional, que se utilizava da sua lógica para vencer os inimigos, e não das normas éticas vigentes. Este Batman sombrio e solitário percorreu a década de 1960, chegando com sucesso aos anos oitenta.
Várias faces da vida do Batman foram exploradas pelas décadas, revelando diversos aspectos criativos da sua saga. Numa dessas fases, Bruce Wayne casou-se com Selina Kyle, a mítica Mulher Gato, já aposentada do seu codinome para contrair matrimônio e parceria com o paladino da justiça. Nesta fase nasceu Helena Wayne, filha do casal, e Batman estava quase que aposentado, resolvendo apenas casos esporádicos. Bruce Wayne assume o posto de comissário com a aposentadoria do Comissário Gordon. Quando ficou viúvo de Selina, o milionário aposentou definitivamente o Batman, só voltando quando surgiu um terrível vilão, Bill Jensen, chamado de Frederic Vaux. Nesta aventura contra Jensen, Batman é morto, e Bruce Wayne é enterrado ao lado de Selina. O feiticeiro Senhor do Destino derrota Jensen, e faz com que a população esqueça que Bruce Wayne era o Batman, cuidando para que todos acreditem que eles morreram simultaneamente.
Na década de 1980 Batman e Robin entram para o grupo dos “Superamigos”, ao lado do Super-Homem e da Mulher Maravilha, entre outros heróis, numa série de desenhos animados feita para a televisão. Batman, por não ter poderes sobrenaturais, desaparece no meio dos outros heróis, tornando-se superficial e sem atrativos, gerando a indignação dos fãs.
Em 1985, Batman volta reformulado pelas mãos do desenhista Frank Miller, através de uma série de histórias intitulada “O Cavaleiro das Trevas”, feitas para a D.C. Comics. Assume um aspecto de anti-herói, sendo a sua personalidade de morcego superior a do homem. É mais vampiro do que humano, usa todos os métodos sombrios do mal para vencê-lo. Batman explora os mais diluídos aspectos da sua alma, o que o leva a não distinguir o que é o bem e o que é o mal. Miller usa cores excessivas, com sombras dilacerantes. Sua genialidade traz de volta um Batman visceral, além dos limites de um herói, quase a beirar as raízes profundas do mal. O mundo interior da personagem é o de um homem vingativo e infinitamente distante da moral, quebrada por ele e pelos que violam a lei e assassinam inocentes.
Seja qual for a linha que se seguiu na longa saga do Homem Morcego, a verdade é que ele jamais perdeu o fascínio dos fãs, tornando-se um dos maiores mitos da ficção moderna, um ícone dos heróis nascidos das bandas desenhadas.

Batman no Cinema e na Televisão

Batman, ao lado de Robin, chegou pela primeira vez às telas de cinema, em 1943, através de “O Morcego” (Batman), filme em forma de seriado, realizado pela Columbia Pictures, com quinze episódios, protagonizados pelos atores Lewis Wilson e Douglas Croft, respectivamente Batman e Robin. Feito no auge da Segunda Guerra Mundial, o principal vilão era um espião japonês, Dr. Daka (J. Carrol Naish), naquele momento histórico o Japão era o principal inimigo dos EUA. Em 1949, veio “A Volta do Homem Morcego” (Batman and Robin), também produzido pela Columbia Pictures, tendo no elenco Robert Lowery (Batman) e John Duncan (Robin). Tal como o de 1943, foi feito em forma de seriado, tendo quinze episódios. Aqui os dois heróis enfrentam um raio elétrico que torna invisível as pessoas e os objetos, lançado pelo vilão, O Mago.
Os dois filmes foram decepcionantes, trazendo péssimos atores no papel de Batman, além de um guarda-roupa que transformava os uniformes de Batman e Robin em caricatas fantasias.
Em 1966 Batman chegou à televisão, na série “Batman”, trazendo Adam West como Batman, e Burt Ward como Robin. A série transformou a sombria história do Homem Morcego em uma hilariante comédia, com vilões fascinantes. Se os protagonistas eram dois atores praticamente desconhecidos, a galeria dos vilões era interpretada por um luxuoso elenco, trazendo nomes estelares como Cesar Romero (Coringa), Burgess Meredith (Pingüim), George Sanders (Sr. Frio 1), Otto Preminger (Sr. Frio 2), Eli Wallach (Sr. Frio 3), Vincent Price (Cabeça de Ovo), Anne Baxter (Olga, esposa do Cabeça de Ovo), Zsa Zsa Gabor (Minerva), Tallulah Bankhead (Viúva Negra), Van Johnson (Menestrel) e Shelley Winters (Mãe Parker). Na última temporada da série foi criada a personagem de Barbara Gordon, filha do Comissário Gordon, que tinha o codinome de Batgirl, misteriosa mulher que ajudava Batman e Robin no combate ao crime. Yvonne Craig foi a atriz convidada para viver a sensual e sedutora heroína mascarada. Sua presença causou alvoroço nos telespectadores, pois trazia um uniforme colado ao corpo, transformando-a em uma bela e atraente justiceira. Burt Ward teve o seu uniforme censurado, pois o calção pequeno e apertado do Robin evidenciava por demais a genitália avantajada do ator, obrigando-o a pôr gelo no pênis durante horas, para ver se ele encolhia; não obtendo resultados, foi administrada uma droga ao ator, que segundo os produtores, diminuía temporariamente o tamanho do seu órgão. Temendo que o procedimento o afetasse para sempre, o ator passou a recusar a ingerir a droga, e os censores deixaram-no em paz.
O tom humorístico da série criou a atmosfera dos desenhos animados, quando utilizava nas lutas travadas por Batman e pelos seus inimigos, onomatopéias escritas na tela, como “POW!”, “BAM!”, “ZOKK!”, conseguindo ótimos e divertidos momentos. A série foi ao ar de 1966 a 1968. O grande sucesso que fez deu origem ao filme “Batman: O Homem Morcego”, de 1966, tendo no elenco os atores da televisão.
Mesmo criticada pelos fãs do Batman, por descaracterizar a personagem, a série tornou-se cult, tendo vários seguidores e adeptos no mundo inteiro.
Quando Batman completou cinqüenta anos, em 1989, Tim Burton levou-o ao cinema, num primoroso filme, “Batman”, com Michael Keaton (Batman) e Jack Nicholson (Coringa) como protagonistas. Era a volta triunfante do Homem Morcego às telas, iniciando uma saga brilhante nas salas de cinema do mundo inteiro, sucesso que persiste até os dias de hoje. Além de Michael Keaton, que viveu o Batman em dois filmes, o cinema trouxe no papel do Homem Morcego os atores Val Kilmer, George Clooney e Christian Bale.

Filmografia do Batman

1943 – O Morcego (The Batman) – Lewis Wilson (Batman), Douglas Croft (Robin)
1949 – A Volta do Homem Morcego (Batman and Robin) – Robert Lowery (Batman), John Duncan (Robin), Jane Adams (Vick Vale)
1966 – Batman: O Homem Morcego (Batman – The Movie) – Adam West (Batman), Burt Ward (Robin), Cesar Romero (Coringa), Burgess Meredith (Pingüim), Lee Meriwether (Mulher Gato), Frank Gorshin (Charada)
1989 – Batman (Batman) – Michael Keaton (Batman), Jack Nicholson (Coringa), Kim Basinger (Vick Vale), Michael Gough (Alfred)
1992 – Batman: O Retorno (Batman Returns) – Michael Keaton (Batman), Michelle Pfeiffer (Mulher Gato), Danny DeVito (Pingüim)
1995 – Batman Eternamente (Batman Forever) – Val Kilmer (Batman), Chris O’Donnell (Robin), Tommy Lee Jones (Duas Caras), Jim Carrey (Charada), Nicole Kidman (Chase Meriddian)
1997 – Batman & Robin (Batman & Robin) – George Clooney (Batman), Chris O’Donnell (Robin), Alicia Silverstone (Batgirl), Arnold Schwarzenegger (Sr. Frio), Uma Thurman (Hera Venenosa)
2005 – Batman Begins (Batman Begins) – Christian Bale (Batman), Michael Caine (Alfred), Liam Neeson (Henry Ducard), Ken Watanabe (Ra’s Al Ghul), Gary Oldman (Jim Gordon), Katie Holmes (Rachel Dawes), Morgan Freeman (Lucius Fox)
2008 – Batman – O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight) Christian Bale (Batman), Heath Ledger (Coringa), Michael Caine (Alfred), Morgan Freeman (Lucius Fox)

publicado por virtualia às 17:29
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Sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

TORTURA E MORTE NOS CALABOUÇOS - PAI, AFASTA DE MIM ESSE CÁLICE

 

 
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue


No dia 26 de maio de 1973, a USP recebia nos palcos do seu campus o cantor Gilberto Gil. Alunos e professores ainda estavam de luto pela morte do estudante de geologia, Alexandre Vannucchi Leme, torturado e assassinado pelos órgãos repressores do governo militar. Quando Gilberto Gil soltou a voz, cantando os versos acima, ecoava no Brasil o canto proibido, a voz silenciada de uma nação, o grito de dor de quem era torturado e morto nos calabouços da ditadura militar.
Cálice”, composição de Gilberto Gil e Chico Buarque, falava daquele momento obscuro da história do Brasil. Seus versos eram mais do que um sentido de protesto, era um grito sufocado, um alerta contra o horror das masmorras, um pedido de socorro dentro de um sistema cruel e truculento, uma denúncia aos assassínios praticados. A canção tinha sido proibida pela censura. Poucos dias antes do show na USP, entre os dias 11 e 13 de maio, Chico Buarque e Gilberto Gil tiveram os microfones desligados quando, em um festival promovido pela gravadora Polygram, o “Phono 73”, tentaram cantar a música.
O show histórico de Gilberto Gil na USP selou um momento de ruptura e renascença do movimento estudantil. Ruptura porque os estudantes optavam por enterrar de vez a luta armada dentro das ideologias de esquerda aprendidas nas faculdades; renascença porque o movimento estudantil estava praticamente morto, desde o desfecho do congresso da UNE em Ibiúna, em 1968, que terminou com a prisão dos líderes estudantis, muitos exilados, outros mortos ou desaparecidos pela ditadura.
Gilberto Gil, um dos líderes da Tropicália, outrora vaiado e acusado de alienação por parte da esquerda engajada do movimento estudantil, fazia uma reconciliação histórica. O seu show era para durar trinta minutos, durou mais de três horas. E “Cálice” tornou-se o hino daquele momento. Tropicalista e estudantes selavam a paz, daquela vez, os aplausos venceram as vaias, música e movimento estudantil formavam uma só voz contra a ditadura militar.
A canção soava na voz do seu autor como um grito de desobediência à repressão, uma rebeldia civil. Os seus versos traziam a denuncia da tortura – “Quero cheirar fumaça de óleo diesel” -, alusão clara à morte de Stuart Angel Jones, torturado e executado em 1971, tendo o corpo arrastado pelo pátio de um quartel da aeronáutica, amarrado em um jipe, com a boca presa ao cano de escapamento. Quando cantada por Gilberto Gil no campus da USP, a canção homenageou Stuart Angel e Alexandre Vannucchi Leme, vítimas das suas ideologias e de um sistema repressivo sanguinário. Através dos versos de “Cálice”, traçamos um paralelo entre as mortes do filho de Zuzu Angel e do estudante de geologia da USP, ocorridas em 1971 e 1973, respectivamente. Um paralelo traduzido neste hino contra um tempo obscuro que se desenhou no céu de um Brasil despido dos sonhos de liberdade e democracia.

Stuart Angel e a Luta Armada

Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta


Com a promulgação do Ato Institucional 5 (AI-5), em 13 de dezembro de 1968, que entre outras arbitrariedades repressivas anulava o direito de habeas corpus aos presos políticos, a ditadura militar entrou no seu período mais duro, suprimindo qualquer diálogo com os que se lhe faziam oposição. Tradicionais partidos de esquerda que se encontravam na clandestinidade, como o Partido Comunista Brasileiro (PCB), tiveram suas bases esfaceladas, transformadas em pequenas organizações de resistência à ditadura. Estas organizações de esquerda, após o AI-5, também endureceram as suas ações, optando pela luta armada como forma de combate ao regime dos generais. Esquerda e direita iniciaram uma guerra ideológica sangrenta, com vantagens para a direita, que detinha a máquina do Estado a seu favor, manipulando as leis através de atos institucionais, oficializando a repressão como forma de segurança do Estado, regido por uma ditadura escancarada. No auge da guerra repressiva dos militares, até a pena de morte entrou em vigor no Brasil, em 1969, promulgada por um ato institucional, prevendo a execução de terroristas e subversivos de esquerda.
Foi neste panorama turbulento da história brasileira que surgiu a figura de Stuart Edgard Angel Jones. Filho do norte-americano Norman Angel Jones e da brasileira Zuleika Angel Jones, Stuart Angel nasceu na Bahia, em 11 de janeiro de 1946. Sua vida poderia ter passado despercebida, ofuscada pelo brilho da mãe, a estilista de moda Zuzu Angel, dona de um grande prestígio dentro da alta costura e da moda brasileira na década de setenta; ou apoiada na proteção de uma expectativa burguesa, delineada nos moldes de uma classe média construída sobre as raízes de uma ditadura. Mas Stuart Angel rompeu com as amarras burguesas, tornando-se muito cedo, militante de organizações de esquerda, envolvendo-se com a luta armada, ideologias consideradas inimigas do regime de então, culminando com uma morte violenta, aos 26 anos de idade.
Stuart Angel teve uma vida curta e de intensa militância política. Estudante de economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ingressou nos movimentos de resistência à ditadura ainda nos anos sessenta, através do movimento estudantil, ao lado da companheira Sônia Maria Morais Angel Jones, com quem se casara. Juntos, integraram a Dissidência da Guanabara (DI-GB), organização política de esquerda surgida em 1966, originada de uma ruptura com o PCB. Mais tarde, quando fez parte do seqüestro ao embaixador norte-americano, Charles Burke Elbrick, em 1969, a DI-GB passou a usar o nome de Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8), organização que teve papel destacado nas guerrilhas urbanas.
Perseguido como terrorista pela ditadura militar, Stuart Angel deixou as salas de aula da sua universidade, passando a viver na clandestinidade. Fez parte de várias ações subversivas contra o regime repressivo, como assaltos a bancos, seqüestros e guerrilhas. Tornou-se o elo de ligação com o líder do MR8, Carlos Lamarca, que ao lado de Carlos Marighella, tornara-se o maior inimigo do governo. Diante de uma militância tão intensa, Stuart Angel, que usava o codinome de Paulo, passou a ter a sua imagem impregnada nos cartazes de “Terroristas – Procura-se”, espalhados por todo o país. Stuart Angel recusava de vez o mundo burguês e protegido que fora criado, assumindo os seus ideais revolucionários e a luta contra a ditadura que governava o país, luta traduzida naquele momento, na resistência armada.

Prisão e Desaparecimento

De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta


Quanto mais a esquerda mostrava-se ousada, como nos seqüestros efetuados a embaixadores e cônsules de outros países, mais a ditadura endurecia na resposta às ações subversivas, classificando-as de terroristas. Instituída a pena de morte para terrorista, a vida dos militantes de esquerda passou a não ter valor algum diante da polícia repressiva da ditadura. Atos de tortura tornaram-se comuns nos calabouços, adquirindo requintes sádicos e sanguinolentos. Apesar da banalidade da tortura, o regime militar jamais admitia a sua existência, temendo retaliações da comunidade internacional que lutava pelos direitos humanos.
Com a morte de Carlos Marighella, assassinado em uma emboscada em 1969, Carlos Lamarca passou a ser o inimigo número um do regime militar, que iniciou contra ele uma caçada intensa. Stuart Angel passou a ser o contacto de ligação entre Lamarca, sendo quem detinha a preciosa informação do seu paradeiro. Esta evidência foi determinante nas violentas torturas que sofreria, quando da sua prisão.
No dia 14 de junho de 1971, Stuart Angel caiu nas mãos da ditadura militar, sendo preso no Grajaú, Rio de Janeiro. Sua prisão teria acontecido após o militante Alex Polari de Alverga, preso dois dias antes, ter revelado sob tortura, o local que serviria de ponto de encontro entre eles. Segundo depoimento do próprio Polari, ao ser torturado e revelar o ponto final, tentara ludibriar os torturadores, apelando para uma ínfima tentativa de salvar Stuart Angel, antecipando o horário do encontro em duas horas, jogando com um local perto do combinado. Ainda, segundo esta versão, os agentes já iam embora, quando reconheceram Stuart Angel em um carro, rondando pelas redondezas, adiantado na hora prevista.
Na manhã daquele fatídico dia, pouco depois das oito horas, Stuart Angel dirigia um carro, próximo à Avenida 28 de Setembro, quando foi cercado por dois veículos de agentes da polícia política. Com armas em punho e apontadas, Stuart Angel foi retirado do seu carro, sendo enfiado em um dos veículos pelos agentes. Jamais voltaria a ser visto com vida por amigos e familiares.
Após a prisão, além do testemunho de Alex Polari de Alverga, que afirmaria ter presenciado a execução do companheiro, apenas um confuso relato do oficial Amílcar Lobo, um médico, que fizera parte de várias sessões de tortura no famoso Açougue Humano de Petrópolis, daria conta de que Stuart Angel tinha passado com vida pelo DOI-CODI do Rio de Janeiro.
Stuart Angel, professor e estudante, 26 anos, porte de galã, engrossaria a lista dos desaparecidos da ditadura militar. Deixara o cotidiano burguês para fazer parte de uma vida clandestina, abandonara as salas de aula para pisar nos palcos das guerrilhas urbanas, deixara de ser o filho de uma estilista famosa, para ser filho da nação que o marginalizava e chamava-o de terrorista.

Com a Boca Presa ao Cano de Descarga de Um Jipe

Após ter caído nas mãos dos agentes do Centro de Informações da Aeronáutica (CISA), Stuart Angel foi levado para as dependências da Base Aérea do Galeão,
onde foi duramente torturado, para que falasse sobre o paradeiro de Carlos Lamarca, de quem era o contacto. Não resistiu às torturas, mas não revelou uma única palavra sobre o paradeiro de Lamarca.
Stuart Angel sofreu inúmeras sessões de tortura durante todo o dia, resistindo a dizer qualquer palavra que denunciasse os companheiros, procedimento que irritou profundamente os seus algozes. Ao cair da noite, Stuart Angel trazia o corpo coberto de hematomas e esfolado, foi amarrado à traseira de um jipe militar e arrastado pelo pátio das dependências daquela base da Aeronáutica, tendo a boca colada ao cano de descarga do jipe, o que ocasionou sua morte por asfixia e intoxicação por monóxido de carbono. O seu corpo teria sido atirado ao mar, na restinga da Marambaia.

Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguém me esqueça


Este relato de crueldade na morte de Stuart Angel foi feito por Alex Polari de Alverga (na fotografia em um ritual do Santo Daime), em carta enviada um ano depois para a sua mãe, Zuzu Angel. Polari teria assistido ao ato macabro através de uma janela da sua cela. Até os dias de hoje, o testemunho de Polari é contestado e desmentido pelos envolvidos no caso e por aqueles que defendem os atos da direita no período do regime militar, que justificam a tortura como necessária à defesa da nação, contra o terrorismo que ameaçava a segurança nacional. Alex Polari tornou-se um místico e adepto da seita do Santo Daime, uma conduta pregressa de vida é utilizada para desqualificar o seu testemunho. O próprio Polari sofreu torturas terríveis como choques elétricos, cadeira do dragão, pau-de-arara e tantas outras atrocidades, com certezas as mesmas que sofrera Stuart Angel. Se Polari inventou isto, teria que ter uma imaginação muito fértil, tamanha originalidade da crueldade imposta a um homem amarrado com a boca presa a um cano de escape de um veículo. Como o caso chegou aos tribunais norte-americanos (Stuart Angel tinha dupla nacionalidade, brasileira e estadunidense) através de denúncias de sua mãe, Zuzu Angel, e o governo militar sofreu forte pressão dos Estados Unidos para esclarecer os fatos, é natural que nunca assumissem o crime e tentassem amenizar as atrocidades vazadas para o mundo, demonstrado existir tortura, veementemente negadas, nos calabouços do regime; para isto, é perfeitamente normal que descaracterizassem o depoimento de Alex Polari, tornando-o absurdo e lunático aos olhos de todos.
Não é absurdo que o corpo de Stuart Angel tenha sido jogado no mar, visto que existia à época a idéia da utilização da Operação Parasar, concebida pelo brigadeiro João Paulo Burnier, em 1968, que consistia em eliminar lideranças políticas atirando-as ao mar de um avião; para isto utilizando a unidade Parasar da Aeronáutica, especialista em busca e salvamento. O plano foi denunciado pelo capitão Sérgio Miranda Ribeiro de Carvalho, que, por este motivo, foi punido. O brigadeiro Burnier foi quem comandou o interrogatório e as torturas a Stuart Angel.
Morto no mesmo dia que fora preso, Stuart Angel desaparecia para sempre da vida, dos olhos dos amigos e familiares, mas continuaria com o rosto estampado pelas ruas de todo o Brasil por vários anos, com as palavras “Procura-se” debaixo da sua fotografia, numa farsa que o governo militar insistia em manter, fazendo com que se acreditasse que estava vivo e foragido.
Na busca pelo corpo do filho e pela verdade nas circunstâncias de sua morte, Zuzu Angel iniciou uma longa jornada investigativa que incomodou profundamente os militares. Morreu em um obscuro acidente automobilístico, na saída do túnel Dois Irmãos (hoje túnel Zuzu Angel), na madrugada de 14 de abril de 1976. Em 1996 o Estado reconheceu a morte de Zuzu Angel como conseqüência das denúncias que fez contra o regime militar sobre a morte do filho, resultante de torturas.

Seqüestro, Tortura e Morte de Alexandre Vannucchi Leme

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa


Alexandre Vannucchi Leme teve a sua vida interrompida aos 22 anos, quando foi preso, torturado e morto pelo regime militar. Vannucchi Leme nasceu em Sorocaba, São Paulo, em 5 de outubro de 1950. Por ser muito magro, era carinhosamente chamado pelos amigos de Minhoca.
Vannucchi Leme entrou para o curso de geologia da USP, local de forte resistência estudantil ao regime militar. Desenvolveu uma engajada militância no movimento estudantil, integrando a Ação Libertadora Nacional (ALN). Tomado como subversivo, ele foi alvo da investigação de agentes da polícia de repressão do regime militar.
No dia 16 de março de 1973, Alexandre Vannucchi Leme caiu nas mãos da ditadura, sendo seqüestrado (não houve prisão oficial) e levado para o DOI-CODI, onde foi submetido a sessões de torturas que duraram horas consecutivas, sendo comandadas diretamente pelo comandante daquele departamento, o sanguinário major Carlos Alberto Brilhante Ulstra.
Vannucchi Leme foi visto por vários outros estudantes que se encontravam presos naquele centro de torturas. Segundo relatos, foi posto na solitária, chamada de X-Zero. No dia seguinte, 17 de março, foi retirado da solitária, voltando a ser torturado ininterruptamente até o meio-dia. Foi levado de volta à cela, já sem forças e a sangrar. Seu corpo foi encontrado morto na cela, por volta das dezessete horas. Quando foi retirado da solitária, tinha uma forte hemorragia no abdômen. Foi visto carregado morto pelos corredores, a esvair-se em sangue. A morte de Vannucchi Leme foi testemunhada pelo amigo e companheiro de faculdade e militância política, Adriano Diogo, preso ao lado da mulher, quase que simultaneamente com ele. Adriano Diogo foi quem mais tarde esclareceu alguns fatos daquele dia.
A família do estudante de geologia só soube da sua prisão através de um telefonema anônimo. Aos amigos e parentes, a notícia da morte de Vannucchi chegou noticiada pelo jornal “Folha de S. Paulo”, que publicou, no dia 23 de março, uma matéria forjada pela ditadura militar, montando uma versão de que o estudante morrera atropelado por um caminhão, na altura da Rua Bresser com a Avenida Celso Garcia, em São Paulo. A farsa trazia um laudo assinado pelos médicos Isaac Abramovitch e Orlando Brandão.
Mesmo com a publicação da imprensa confirmando a morte do estudante, o seu corpo foi enterrado como indigente, em uma vala do cemitério de Perus. Somente em 1983, dez anos após o assassínio, José de Oliveira Leme e Egle Vannucchi Leme, seus pais, conseguiram trasladar o corpo para o cemitério de Sorocaba.
Revoltados, os estudantes da USP procuraram o cardeal de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, para que realizasse uma missa em homenagem a Vannucchi Leme. O clérigo aceitou e, em 30 de março, realizou a missa na catedral da Sé, ato que reuniu três mil pessoas, transformando-se no maior protesto popular contra a ditadura militar desde 1968.

O Show de Gilberto Gil na Escola Politécnica

De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade


A morte de Alexandre Vannucchi Leme conseguiu unir a sociedade brasileira contra um regime que já não conseguia esconder a sua face negra e opressiva, tomando caminhos que desagradavam os mais diversos setores.
Depois do ato ecumênico realizado na catedral da Sé, os estudantes da USP convidaram Gilberto Gil para um show em homenagem a Vannucchi Leme. O show foi realizado na Escola Politécnica. Vigiada por agentes policiais do regime, a apresentação do cantor baiano foi tensa, e mesmo diante de um momento de perigosa hostilidade, comoveu e alavancou os estudantes durante as três horas que durou, prevista inicialmente para ter uma duração de trinta minutos.
O ano de 1973 foi um dos mais difíceis para o movimento estudantil. Quarenta e três estudantes da USP foram presos naquele ano, sendo que dois deles, Vannucchi Leme e Ronaldo Mouth Queiroz, jamais deixaram o calabouço. Também o presidente da praticamente extinta UNE, Honestino Guimarães, tinha sido preso em 1973, desaparecendo para sempre. Gilberto Gil conseguiu captar aquele momento delicado pelo qual passavam os estudantes. Seu show era de denúncia, a sociedade precisava saber das prisões que aconteciam aos estudantes e aos oposicionistas ao governo militar. Suas palavras soavam como epênteses de um discurso renascido, seu canto como um grito que já não podia ser calado.
Ao cantar “Cálice”, música vetada na apresentação do festival da Phonogram, acontecido nos dias 11, 12 e 13 de maio, Gilberto Gil fez do seu medo a audácia, à volta aos protestos calados em 1968. O cantor, que regressara do exílio em Londres em 1972, finalmente chegava ao Brasil. Era o momento de uma união histórica entre o tropicalista, vaiado nos festivais de 1968 pelos estudantes de então, e o movimento estudantil. Não só a música e o movimento estudantil deram as mãos, como também outros setores da sociedade aderiram aos protestos. Uma grande frente começou a ser formada contra a ditadura. O movimento estudantil reergueu-se dos escombros da repressão e mortes que assolara os seus líderes. Para alguns historiadores, a ditadura militar começou a perder a sua unidade ali, tendo o racha definitivo dois anos mais tarde, quando o jornalista Vladimir Herzog foi morto sobre tortura.
Se Stuart Angel era visto como um terrorista, assaltante de bancos e perigoso guerrilheiro da luta armada, o que justificava a morte pelos seus algozes, apesar de nunca assumida oficialmente pela ditadura, com Alexandre Vannucchi Leme isto não acontecia, pois ele era um estudante de esquerda, que não pertencia à luta armada. A sua morte fugiu ao controle, sendo tida pelos militares como um grande erro, que precisou ser explicada através da farsa de um laudo. No canto de Gilberto Gil, “Cálice” homenageava todos os presos políticos, mortos e torturados. Homenageava Alexandre Vannucchi Leme diante de um ato cultural visto por cerca de mil pessoas, e diante da letra que aludia ao martírio final de Stuart Angel. A resistência renascia, e os dois estudantes mortos deixavam de ser os terroristas na visão dos militares, para que se transformassem nos mártires da resistência à ditadura, como um sopro nas asas da democracia adormecida.

 
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Segunda-feira, 5 de Outubro de 2009

TEMPLÁRIOS EM PORTUGAL

 

 
A presença dos Templários em solo português confunde-se com a própria história de Portugal. A ordem militar ajudou dom Afonso Henriques, primeiro rei da história lusitana, a expandir o seu reino, expulsando os mouros e consolidando as fronteiras do que se iria chamar de Portugal.
Quanto mais ajudavam nas conquistas, mais eram dotados de privilégios forais e riquezas dadas pelos primeiros reis soberanos lusitanos. Os Templários tornaram-se uma potência, de um poder tão absoluto, que suscitaram sobre as suas cabeças a inveja e a cobiça dos nobres e clérigos. Esta perseguição colaborou para a queda e extinção da ordem, tendo os seus cavaleiros um fim humilhante, muitos sendo mortos nas fogueiras inquisitoriais.
Em Portugal, eles estiveram (segundo registros oficiais) de 1128 até o fim da ordem, declarada extinta em 1314, pelo papa Clemente V. Quando este papa ordenou a dom Dinis que fosse inquirida a conduta da ordem em terras lusitanas, o monarca cumpriu a determinação papal, mas em 1310, juntamente com os soberanos de Castela, declarou em um tribunal de Salamanca, que os Templários eram inocentes. Esta posição incomodou os perseguidores da ordem, mas não evitou a sua supressão definitiva. Para evitar que o grande patrimônio da ordem deixasse o reino português, a coroa conseguiu que em 1319, o papa João XXII criasse por meio de uma bula, a Ordem da Cavalaria de Nosso Senhor Jesus, ou simplesmente, Ordem de Cristo, para onde migrou os cobiçados bens dos Templários.
A contribuição dos Templários na história de Portugal foi essencial, desde a expansão das fronteiras, à participação na economia do reino, nas ciências e na arquitetura. Esta presença ainda hoje pode ser vista na imponência dos castelos da cidade de Tomar; de Almourol, um belíssimo monumento situado no meio de um ilhéu do Tejo; no castelo de Soure ou ainda, no de Pombal. Esta beleza que resiste ao tempo, faz de Portugal um lugar especial no que restou da cultura dos valentes cavaleiros do Templo, muitas vezes vistos como malditos, outras vezes como heróis. Injustiçados ou não, Portugal deve muito à ordem, ainda que não seja, pelos belos monumentos deixados no seu solo, e que fazem parte da riqueza patrimonial da humanidade.

Os Templários no Condado Portucalense

No afã das Cruzadas, quando os cristãos conquistaram Jerusalém aos sarracenos, surgiu a necessidade de proteger os peregrinos que se dirigiam à Terra Santa, e que sofriam pelos caminhos, assaltos constantes às suas caravanas, feitos pelos muçulmanos. Para efetuar esta proteção, surgiu, em Jerusalém, em 1119, os “Pobres Soldados de Jesus Cristo”, que futuramente viriam a ser conhecidos como “Os Cavaleiros do Templo de Salomão”, ou simplesmente, “Os Templários”, ordem religiosa e de caráter militar, fundada pelos cavaleiros Hugo de Payns e Godofredo de Saint-Omer.
A ordem foi aprovada oficialmente no Concílio de Troyes, França, em 1129, sendo confirmada pelo papa Honório II, tendo as suas regras originais redigidas em 1127, pelo abade Bernardo, de Claraval. Trazia como principal função o apoio aos peregrinos cristãos que demandavam a Jerusalém. Os cavaleiros traziam um hábito branco com uma cruz vermelha no peito. O símbolo da ordem era um cavalo montado por dois cavaleiros, aludindo à pobreza. Tinham como lema o Salmo de David, “Non nobis, Domine, non nobis, sed Nomini Tuo da Gloriam” (“Não para nós, Senhor, não para nós, mas para Glória de Teu Nome”).
A presença dos Templários na península está documentada desde a época que a ordem foi aprovada no Concílio de Troyes. Segundo a tradição histórica, Raimundo Bernardo, que não se tem a certeza se era catalão ou francês, foi o primeiro cavaleiro do Templo a visitar as terras ibéricas, colhendo auxílios monetários para a ordem e alistando membros nativos.
Dona Teresa, regente do condado Portucalense, deu como doação à ordem a povoação da Fonte Arcada. Em 1128, a regente entregou o castelo de Soure aos cavaleiros do Templo, em troca do compromisso de que colaborassem na conquista de territórios islâmicos ao sul.
Longas negociações foram feitas entre a ordem e os soberanos dos reinos da península Ibérica, sendo em 1143, estabelecida entre Raimundo Berengário IV e Roberto de Craon, segundo grão-mestre da ordem, a definição da missão dos Templários naquelas terras.
As habilidades militares fundidas com a vocação religiosa, faziam dos Templários poderosos aliados dos nobres ibéricos na luta contra a ocupação islâmica naquelas terras. Dom Fernão Mendes e a sua esposa, a infanta dona Sancha Henriques, irmã de dom Afonso Henriques, doaram à ordem o castelo de Longróiva, em 1145. Por esta ocasião, o mestre dos Templários em terras portucalenses era dom Hugo Martónio.

Doações Régias à Ordem do Templo

Na saga de dom Afonso Henriques pela conquista das terras que formariam o reino de Portugal, os Templários ajudaram com os seus conhecimentos militares e com a força dos seus sacerdotes soldados. Em 1147, estão ao lado do primeiro rei português nos combates intensos que culminaram nas conquistas de Santarém e Lisboa aos mouros, que assegurariam a extensão das fronteiras portucalenses nas áreas da linha do Tejo. Como recompensa pela ajuda à vitória aos mouros, dom Afonso Henriques fez-lhes doações do eclesiástico das terras libertadas.
Em 1159, dom Gualdim Pais era o mestre da ordem em terras portucalenses. É nesta época que os Templários recebem o castelo de Ceras e todas as terras a ele adjacentes, num vasto território que ia do rio Mondego ao rio Tejo, correndo pela linha do rio Zêzere. São instalados na região por doação hereditario jure daquele ano, concedida por dom Afonso Henriques.
O castelo de Ceras foi entregue aos Templários em ruínas, o que levou dom Gualdim Pais a decidir edificar uma nova fortaleza em um morro sobranceiro às margens do rio Nabão. A edificação da fortaleza foi iniciada em 1 de março de 1160, no morro situado do lado direito das margens do Nabão. A partir de então, deu-se o princípio da vila de Tomar, que se desenvolveu ao redor do morro.
Mediante a grandes doações régias, os Templários passaram a ser donos de uma grande fortuna no jovem reino de Portugal. Sua expansão prosseguia, em 1165 recebiam os territórios de Idanha e de Monsanto. A partir de 1169, passaram a receber como doação, a terça parte de tudo que viessem a conquistar além do Tejo. Ainda naquele ano, foram confirmadas a posse da ordem aos castelos da Cardiga (na foz do Zêzere) e de Tomar. Por esta ocasião, o castelo de Almourol, uma fortaleza situada numa ilha escarpada no meio do Tejo, e conquistado aos mouros em 1129, foi entregue aos Templários, que o reedificou, fazendo com que assumisse a beleza arquitetônica que se vê até os dias de hoje.
No reinado de dom Sancho I, o emir do Magrebe, Ibne Iuçufe, empreende um grande cerco ao castelo de Tomar. O cerco aconteceu a 13 de julho de 1190, mas foi malogrado pela habilidade belicosa dos Templários, que defenderam com eficácia o reino. Desde então, a presença dos cavaleiros da ordem tornou-se indispensável em todo território português, formado na sua maior parte, por terras conquistadas aos mouros. Os cavaleiros garantiam a conquista desde a linha do Mondego ao Tejo. Em agradecimento a esta proteção, aumentavam as doações à ordem, vindas de particulares ou de cartas régias. Além de garantir a posse das terras, os cavaleiros ajudavam na fomentação dos povoamentos das regiões que defendiam.

Declínio da Ordem

No século XIII os Templários continuavam a exercer amplo poder sobre o mundo cristão e sobre o reino de Portugal. Dom Afonso II doava-lhes, em 1214, quando dom Pedro Alvites era o mestre da ordem, o termo de Cardosa, responsável por iniciar a formação do que é hoje a cidade de Castelo Branco. Registros históricos apontam ainda, a grande participação que os Templários tiveram na batalha de Alcácer do Sal, em 1217.
O declínio da proteção régia que os Templários tinham em Portugal, tem início no reinado de dom Afonso III (1245-1279). Conflitos e rivalidades marcam o período, sendo questionadas as terras doadas e a isenção de jurisdição episcopal de que gozavam. O poder e a fortuna da ordem tornava-os credores de nobres e papas, donos de privilégios régios maiores do que os que tinham os demais clérigos. Este poder é responsável não só pelo declínio da ordem em Portugal, como levaria à perseguição tenaz de que seriam alvos no reinado de Filipe IV, o Belo, rei da França de 1285 a 1314.
Difamados e perseguidos por Filipe IV, os Templários viram a ruína da sua ordem e o fim do seu prestígio. Decido a abater a ordem, Filipe IV acusou os cavaleiros do Templo de torpes condutas, heresia, sacrilégio, sodomia, usura e rituais satânicos. As acusações levaram à prisão e à tortura dos cavaleiros em toda a França, alastrando-se rapidamente pelos demais reinos cristãos. Pressionado pelo rei francês, o papa Clemente V, em 13 de outubro de1307, ordena a prisão em massa dos cavaleiros da ordem, inclusive a do seu Grão-Mestre, Jacques de Molay.

A Ordem de Cristo

Em 1310, a idéia de extinguir a ordem já estava selada. Mas, se na França a decisão de liquidar com a ordem era um fato irreversível, em Portugal e nos reinos da grande Espanha, havia uma forte resistência ao seu fim. No ano anterior, Clemente V ordenara ao rei de Portugal, dom Dinis, que inquirisse a conduta dos Templários em seu reino. A possível dissolução da ordem preocupava o monarca português, principalmente a grande fortuna que ela detinha em suas terras, que poderiam fugir para os cofres da igreja, que naquele momento, devido a uma cisma, tinha a sua sede em Avinnhão, França, e não em Roma.
Dom Dinis optou por obedecer às decisões papais, ordenando a instauração de processo aos Templários, e, ao mesmo tempo, resguardando os seus bens, passando-os de imediato à tutela régia. Com o fim iminente da ordem, o monarca português une-se aos soberanos de Castela, para que juntos assumam uma conduta que permita preservar os interesses do valioso patrimônio da ordem, sem que quebrem a solidariedade que sempre uniram o rei e os cavaleiros. Em 1310, em um tribunal de Salamanca, os reis ibéricos declaram os Templários inocentes em toda a península, das acusações que se lhe eram impostas. Este procedimento constrange Filipe IV e ao papa Clemente V.
A posição dos reinos ibéricos não evitou que, em 3 de abril de 1314, o papa lesse a bula Vox in excelso, que extinguia a ordem, tornando a ordem dos Hospitalários sucessora nos respectivos bens dos Templários. No dia 18 de março daquele ano, Jacques de Molay, o último grão-mestre dos Templários, tinha sido queimado na fogueira por se ter declaro inocente das acusações.
Diante do inevitável fim da ordem, o rei português fez grandes manobras para salvaguardar a unidade patrimonial templária, lançando mão de uma astuciosa interpretação jurídica, as Inquirições de 1314, que diziam ser os cavaleiros da ordem simples usufrutuários amovíveis de terras que pertenciam à Coroa.
A partir desta interpretação jurídica, o rei tinha como objetivo criar uma nova ordem vinculada às decisões régias, que sucedesse àquela extinta, para a qual transitaria a totalidade dos bens dos Templários. Com este propósito, surgiu, a pedido de dom Dinis, a Ordem de Cristo, instituída em 14 de março de 1319, pelo papa João XXII, através da bula Ad ea exquibus. A Ordem de Cristo (Ordem da Cavalaria de Nosso Senhor Jesus Cristo) recebeu como doação, os bens dos Templários, tendo alguns desses bens, passados à posse da Coroa.
A Ordem de Cristo teve os seus estatutos e regras vindas da Ordem Militar da Calatrava, estabelecendo a sua sede na igreja de Santa Maria do Castelo, na vila de Castro Marim. A sede da ordem passaria para Tomar, em 1357, fixando-se no antigo castelo dos Templários. Mesmo ao findar, a ordem dos Templários deixara de vez as suas raízes na construção da nação portuguesa, sendo determinante na afirmação e consolidação das suas fronteiras e da sua identidade de pátria.

Castelos dos Templários em Portugal

Soure – O castelo foi levantado no vale inferior do rio Mondego, em um local anterior a ocupação dos romanos. Tinha como estratégia a defesa do acesso a Coimbra. Tornou-se o local de sede da ordem em terras portucalenses, que até então estava localizada em Fonte da Arcada. Foi dado o senhorio aos Templários, em 1128, por dona Teresa, regente do condado Portucalense. O senhorio da região à ordem do Templo, foi posteriormente confirmada por dom Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal. Com o fim da Ordem do Templo, passou para a posse da Ordem de Cristo, que o manteve até o fim do século XIX. Chegou aos tempos atuais apenas as ruínas do castelo, mas não se deixa de poder ver a sua imponência medieval.

Ceras – O castelo de Cera (Castrum Caesaris), atualmente chamado de Ceras, estava situado junto à ribeira de Ceras, na freguesia de Alviobeira, conselho de Tomar. Em 1159, dom Afonso Henriques doou a fortificação aos Templários, considerada de posição estratégica na linha do Mondego ao Tejo. Quando doada, a fortificação estava em ruínas. Um ano após ocupar o castelo, dom Gualdim Pais, diante da sua péssima conservação arquitetônica, decidiu pela construção de um novo castelo em um lugar mais apropriado. O castelo de Ceras, desaparecido ao longo do tempo, muitas vezes é erroneamente confundido com o de Tomar.

Tomar – Sua elevação começou a 1 de março de 1160, quando Gualdim Pais era o mestre da ordem em terras portucalenses. Foi erigido para suprir a fortificação de Ceras, que se encontrava em ruínas, no cimo de um morro à margem direita do rio Nabão. A partir do castelo, desenvolveu-se ao redor do morro, a vila de Tomar. Com o fim da ordem, o castelo de Tomar passou a ser chamado de Convento de Cristo, sofrendo ampliações e transformações que descaracterizaram boa parte da edificação templária. O castelo e o convento, fazem parte das belezas imprescindíveis de Portugal e dos patrimônios da humanidade, recebendo visitantes de todo o mundo. Do alto consegue-se uma vista panorâmica da cidade de Tomar e dos arredores.

Almourol – Exuberante castelo templário, reedificado sobre uma antiga fortificação tomada aos mouros, em 1129, situado solitário em uma ilha escarpada no meio do rio Tejo, fronteiro a Tancos. O castelo foi entregue aos Templários no ano de 1160. É um dos exemplos incontornáveis da exuberante passagem da Ordem dos Templários em solo lusitano. Conserva alguns traços da arquitetura militar templária. Uma placa em cima do portão principal do castelo dá a indicação de que a sua edificação foi concluída em 1171, sob a influência de Gualdim Pais. É um dos lugares mais míticos de Portugal, servindo de inspiração para várias lendas que se propagaram através dos tempos. Seu acesso pode ser feito apenas de barco, visto o isolamento no cimo da rocha, no meio do rio.

Pombal – O castelo foi fundado pelo mestre da ordem, dom Gualdim Pais, que aproveitou o local de uma fortificação romana e que teria sido ocupada pelos árabes até a reconquista cristã da península. Está edificado em posição dominante sobre um maciço rochoso, à margem do rio Arunca. Sua fundação deu-se posterior ao castelo de Tomar, em 1161, tendo importância expressiva na defesa da região à época das conquistas aos mouros e da afirmação e consolidação do condado Portucalense e da nação portuguesa. A localidade recebeu foral em 1174, concedida pelo próprio mestre templário. Com a extinção da Ordem do Templo, dom Dinis entregou o castelo à Ordem de Cristo, sendo doado mais tarde, ao conde Castelo Melhor, pelo rei dom João I.

Nisa – O castelo de Nisa foi edificado nas terras áridas e de planície do Alentejo, região fortemente dominada e influenciada pelos mouros por séculos consecutivos. Do antigo castelo medieval chegou aos dias atuais apenas duas portas, a principal da vila e de Montalvão. Sua edificação foi dirigida por dom Frei Lourenço Martins, por volta de 1290, no reinado de dom Dinis, já nos últimos anos de existência da ordem. Dom Dinis ordenou que fosse erguido depois que o antigo castelo e a povoação term sido arrasados pelo seu irmão, dom Afonso Sanches, como retaliação pela população de Nisa não apoiar a sua pretensão ao trono. A vila passou mais tarde para as mãos da Ordem de Avis.

 
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Sábado, 3 de Outubro de 2009

ÁLIBI - O ÁLBUM QUE TRANSFORMOU A MPB EM VOZ FEMININA

 

 
Em novembro de 1978, Maria Bethânia fazia uma apresentação para o programa “Fantástico”, TV Globo, cantando “Cálice”, a música proibida pela ditadura militar. Estava lançado oficialmente o álbum “Álibi”, que se transformaria no mais bem sucedido da carreira da cantora, mudando de vez a estrutura da Música Popular Brasileira, transformando-a em uma voz feminina.
Álibi” passaria do milhão de cópias vendidas, sendo o primeiro disco de uma mulher a atingir esta marca no Brasil, um feito até então, exclusivo de Roberto Carlos. “Álibi” não foi revolucionário por sua estrutura musical, mas por derrubar de vez o estigma do elitismo da MPB, provando que qualidade e grande público poderiam caminhar lado a lado, e uma grande cantora poderia ir além de um público exclusivo.
Álibi” atingiu as grandes massas, fazendo com que o Brasil ouvisse MPB. A partir do sucesso deste álbum, outros cantores passaram a ser ouvidos e a ter os seus álbuns adquiridos por um grande número de pessoas. No final da década de setenta acabava o monopólio da música de língua inglesa, e, pela primeira vez, a MPB passou a ser a música mais consumida no país.
Álibi” transformou Maria Bethânia, até então uma cantora de elite e de público definido, na mais popular do país. Se Roberto Carlos era o rei, Maria Bethânia passou a ser a rainha, título que sustentaria absoluta por dois anos consecutivos. A repressão sufocara a MPB durante toda a década, sendo o veiculo cultural que mais sofreu com a censura. Em 1978 começou a abertura política, extinguiu-se o AI-5, que no primeiro dia de 1979 passou a não existir. “Álibi” mostra esta vertente da nova fase da MPB, que voltaria a ter força diante da juventude e a conduzir os protestos contra a ditadura. Outra característica do álbum é ser o primeiro a consolidar a importância da mulher no cenário musical, que desde então, destronou os homens, e a nossa MPB passou a ser, principalmente, a voz de várias mulheres, uma voz essencialmente feminina.

Ampliando o Horizonte do Seu Repertório

Maria Bethânia começa o álbum a surpreender. Deixa de vez os textos poéticos que declamava nos seus álbuns anteriores, ultrapassa a linha demarcada por seu teatro musical e, seguindo o que fora proposto em “Pássaro Proibido” (1976), cria um álbum voltado apenas para a música. Já na primeira faixa, “Diamante Verdadeiro” (Caetano Veloso), ela inova, buscando uma canção que geralmente fazia parte do repertório de Gal Costa, mostrando-se mais jovial e hermética, mas sem o intimismo da voz cristalina da amiga baiana. O violão de Rosinha de Valença tira a estética Caetano Veloso-Gal Costa da canção, fazendo-a sob medida para a dramaticidade habitual de Maria Bethânia. E bailamos deliciosamente pelas montanhas de neve derretidas pela voz da cantora, deixamos que ela nos conduza no diamante verdadeiro que seria aquele álbum, apenas no início.
Álibi” (Djavan), faixa que dava título ao álbum, trazia uma mensagem sôfrega, de uma latência à flor da pele, suficientes para Maria Bethânia construir o seu teatro musical de forma brilhante. Até então, Djavan era um cantor relativamente conhecido, fazendo razoável sucesso em temas de novelas, com o fenômeno de vendagens que se tornou o álbum de Bethânia, ele passou a ser assediado por várias cantoras e despontou de vez para o sucesso de público. “Álibi” é a angústia dos sentimentos, é o corpo como a tradução do amor, é o desejo em forma de tortura quando não concretizado.
O Meu Amor” (Chico Buarque), duelo de duas mulheres pelo amor de um homem, saltava dos palcos do teatro para o álbum. A canção fazia parte da peça “A Ópera do Malandro”, de Chico Buarque. No disco anterior, “Pássaro da Manhã” (1977), Maria Bethânia tinha gravado “Terezinha”, da mesma peça. A música era para ser interpretada em dueto com Gal Costa; com Alcione faria dueto na faixa “Sonho Meu”, mas de última hora, Maria Bethânia decidiu sair do óbvio, dividiu com Gal Costa o samba, e com Alcione, sambista por estilo, a provocante “O Meu Amor”. O resultado da ousadia da baiana foi surpreendente. Alcione, no seu jeito malandro de sambista, faz da sensualidade da música um perfeito dueto com o romantismo passional de Maria Bethânia. O impacto do duelo ganha em estilo musical, superando a gravação de Marieta Severo e Elba Ramalho, que interpretavam a canção no teatro e no álbum de 1978 do próprio Chico Buarque. Se em “Álibi” o sexo é tortura, em “O Meu Amor”, ele é a própria existência, a realização da mulher, menina e amante.

Explode a Emoção

A Voz de Uma Pessoa Vitoriosa” (Caetano Veloso – Waly Salomão) é outra raridade no universo de Bethânia, aqui mais uma vez, arriscando-se em um universo perfeitamente dominado por Gal Costa. É uma canção intimista, que explode na voz da cantora como um brilho de luz suave pouco comum a ela. É um momento de ruptura de universos, que a baiana não parece preocupada em justificar, apenas segue com o desejo impar de cantar e, principalmente, de encantar.
Ronda” (Paulo Vanzolini), é uma incursão à noite paulistana, a uma boemia pelas ruas de uma Paulicéia que não mais existe. O amor passional da mulher em busca do amor perdido pelas noites da cidade grande. A interpretação de Maria Bethânia foi duramente criticada por Vanzolini, que declararia em 2004: “Se colocarem batida eletrônica na minha música, tudo bem. Maria Bethânia fez pior com a minha música Ronda. Ela não é uma cantora, é uma declamadora”. Uma injustiça com a cantora, pois foi a partir da sua interpretação que a canção de Vanzolini passou a ser conhecida por todo o Brasil, indo além das noites paulistanas.
Maria Bethânia fechava o lado A do álbum com “Explode Coração” (Gonzaguinha), canção que entrou para o repertório no último momento, e que se tornaria um clássico da cantora. Naquele ano Gonzaguinha deu músicas inéditas para Gal Costa no álbum “Água Viva”, e para Simone, no álbum “Cigarra”, mas foi com “Explode Coração”, magistralmente interpretada por Bethânia, que ele explodiu pelo Brasil, tornando-se o compositor mais disputado pelas cantoras. “Explode Coração” entraria para a trilha sonora da novela “Pai, Herói” (1979), de Janete Clair, sendo tema da protagonista Carina (Elizabeth Savalla), o que contribuiu para ser uma das faixas mais tocadas do álbum. O universo feminino de Gonzaguinha é denso, de rupturas e de ascensão aos direitos negados por um mundo tradicionalmente masculino. A canção volta à temática do desejo, aqui a mulher liberta-se das amarras, abraçando a vida na sua forma telúrica de sentir prazer. É a explosão sublime do amor, e Maria Bethânia sabe, como ninguém cantar o amor, a paixão:

“Chega de temer, chorar, sofrer
Sorrir, se dar, e se perder, e se achar
Que tudo aquilo que e viver,
Eu quero mais e me abrir
E que essa vida entre assim
Como se fosse o sol
Desvirginando a madrugada
Quero sentir a dor dessa manhã”

Explode Coração” é o exemplo da música que se iria tornar comum a partir de então, com letras ousadas e insinuantes, a falar do amor íntimo, da sexualidade da mulher, cada vez mais segura em ter prazer.

Do Bolero à Canção de Protesto

Maria Bethânia abria o lado B do álbum sendo fiel a si própria, interpretando um velho sucesso de Nelson Gonçalves, “Negue” (Adelino Moreira – Enzo de Almeida Passos). A canção adquire uma lufada que lhe tira o aspecto envelhecido, mofo deixado pela singularidade da Bossa Nova e pela modernidade da Tropicália. “Negue” confirma o universo de Maria Bethânia, é a parte segura do seu canto, que muitas vezes, é acusado pela crítica de não arriscar. A canção é a autenticidade suprema da cantora, aqui no seu momento mais verdadeiro de todo o disco.
Mas o grande risco está no samba “Sonho Meu” (Yvone Lara - Délcio Carvalho), dueto histórico com Gal Costa. As duas vozes contemplam-se, tornando-se o dueto mais famoso das cantoras, que se transformam aqui em exímias sambistas. Dueto pensando à partida para ser feito com Alcione, mas que Bethânia em um momento de sensível intuição, inverteu o jogo. “Sonho Meu” foi a faixa mais tocada do álbum, um momento sublime de dois grandes nomes da nossa MPB, que seduziu para sempre o Brasil.
De Todas as Maneiras” (Chico Buarque), arremata a canção “Álibi”, com o amor e o desejo a desdenhar os sentimentos, a deixar o corpo nu e dilacerado diante da coragem de expor a verdades da paixão. Bethânia é passional, sem correr o risco de entrar para um patamar de torpor sofrível, típico de Maysa e Elis Regina.
Cálice” (Chico Buarque – Gilberto Gil), era a grande promessa do disco, visto que a canção estava proibida desde 1973, quando Chico Buarque e Gilberto Gil, ao cantá-la no festival “Phono 73”, tiveram os microfones desligados. Havia uma grande expectativa em torno da música, conhecida apenas nos bastidores de um público engajado. Uma revista anunciara que Roberto Carlos iria gravar a música, o que seria a primeira incursão do rei ao repertório de Chico Buarque; a notícia não se concretizou, mas gerou maior ansiedade do público em torno da canção. Foi Maria Bethânia quem a lançou no “Fantástico”, mostrando que a censura política na MPB começava a ser uma página virada. Chico Buarque, em um dueto luxuoso com Milton Nascimento, também gravou “Cálice” no seu disco de 1978. Sua interpretação foi apoteótica, com corais viscerais a dar plenitude dimensional à música. Bethânia usou apenas a sua voz, levando a canção ao mais alto palco do seu teatro, fazendo uma interpretação corajosa. Na época a cantora sentia-se extremamente confortável em interpretar Chico Buarque, declarando inclusive que ela era a cantora brasileira que mais sabia interpretar o autor. “Cálice” era o próprio grito dos torturados nos calabouços da ditadura. O verso que se refere à fumaça de óleo diesel, era uma alusão à morte de Stuart Angel Jones, militante da esquerda, filho de Zuzu Angel, que teve o corpo amarrado a um jipe, com a boca no cano de descarga, sendo arrastado por um pátio militar, morrendo asfixiado pelo monóxido de carbono. Bethânia insere a voz no momento dramático da canção, sem elevá-la à densidade que atingiu com o dueto de Milton Nascimento e Chico Buarque.

“Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguém me esqueça”

Depois de passar por canções dramáticas e viscerais, por boleros românticos e amores passionais, Maria Bethânia encerra o álbum com a bucólica “Interior” (Rosinha de Valença), uma canção suave, com gosto de saudade de uma tranqüilidade do interior, perdida nas correrias das cidades grandes, e com um agradável aroma de terra molhada. Uma das mais belas canções do álbum, que se encerra com uma sublime suavidade momentânea. “Álibi” cumpre não só o objetivo de emocionar, mas de mudar o conceito da MPB, mostrando que grandes vendas e qualidade podem ser convergentes, e que a MPB é, magicamente, a força das vozes femininas.

Ficha Técnica:

Álibi
Philips
1978

Direção de produção: Perinho Albuquerque e Maria Bethânia
Arranjos e Regências: Perinho Albuquerque
Técnico de gravação: Ary Carvalhaes
Auxiliares técnicos: Vitor e Julinho
Mixagem: Ary Carvalhaes
Montagem: Barroso
Corte: Ivan Lisnik
Capa: Oscar Ramos e Luciano Figueiredo
Foto da capa: Marisa Álvares Lima
Fotos do encarte: Januário Garcia
Agradecimentos: Roberto Menescal e Lenia Grillo

Músicos participantes:

Piano: Tomás Improta e Perna Fróes
Violão: Rosinha de Valença
Baixo: Jamil Joanes, Moacyr Albuquerque e Luizão Maia
Bateria: Enéas Costa, Tuty Moreno e Paulinho Braga
Flauta: Mauro Senise
Trombone: Ed Maciel
Guitarra: Perinho Albuquerque
Gaita: Maurício Einhorn
Cavaquinho: Rosinha de Valença
Percussão: Djalma Corrêa e Tuty Moreno

Faixas:

1 Diamante verdadeiro (Caetano Veloso), 2 Álibi (Djavan), 3 O meu amor (Chico Buarque) Participação: Alcione, 4 A voz de uma pessoa vitoriosa (Caetano Veloso – Wally Salomão), 5 Ronda (Paulo Vanzolini), 6 Explode coração (Gonzaguinha), 7 Negue (Adelino Moreira – Enzo de Almeida Passos), 8 Sonho meu (Yvone Lara – Délcio Carvalho) Participação: Gal Costa, 9 De todas as maneiras (Chico Buarque), 10 Cálice (Chico Buarque – Gilberto Gil), 11 Interior (Rosinha de Valença)
publicado por virtualia às 04:26
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