Sexta-feira, 31 de Julho de 2009

DE MARTIN LUTHER KING A BARACK OBAMA

 

 

A vitória de Barack Obama nas eleições para presidente dos EUA em 2008, encerrou uma fase da participação do negro na história daquele país, iniciando outra, que à partida, desencadeou uma grande esperança de florescimento humano e intelectual no mais alto poder político da nação mais poderosa do planeta nos tempos contemporâneos.
Todas as atenções do mundo voltaram-se para a vitória de Obama, que causou comoção pelo inédito na história dos EUA, pela tenaz esperança de um novo tempo que se abre. Não que Obama seja um estadista pronto para mudar uma nação e o mundo, mas a sua eleição é a própria mudança na visão de um povo, que muitas vezes foi intransigente, reacionário e racista na condução da sua política interna e externa. Obama é a vitória de várias vertentes inéditas, primeiro negro a ser presidente do seu país, primeiro homem com raízes islâmicas acentuadas, e com a África histórica recente em seu DNA, distante dos afro-americanos, cuja origem do continente negro perde-se na distância dos séculos.
Quarenta anos antes da eleição de Obama para presidente, o líder negro Martin Luther King era assassinado por um branco furioso, racista e temente que os negros americanos alcançassem os seus direitos. Pregando a luta intensa pelos direitos civis dos negros, o pastor batista seguia os princípios de Gandhi, lutar, mas sem violência, algo quase que impossível numa época que o negro norte-americano não podia votar em alguns estados da união, não se podia sentar nos bancos da frente dos ônibus coletivos, não podiam freqüentar grandes universidades e, eram vítimas da violência de organizações racistas como a Ku Klux Klan.
Se a luta de Martin Luther King começou com a luta pelo direito do negro poder sentar-se em qualquer banco de um ônibus, ela estendeu-se por todas as vertentes da injustiça que se fazia aos seus, tomou proporções de sonhos e vitórias, suas palavras conquistaram o mundo, incomodou os mais radicais racistas e culminou com o seu assassínio em 1968. Quarenta anos depois, o sonho de liberdade e igualdade de Martin Luther King vingou, quando Barack Obama foi eleito presidente, ele negro e filho de pai muçulmano.

O Negro Americano Através da História

A história do negro nos EUA, assim como no restante do continente americano, iniciou-se com a escravidão, quando foram capturados e comprados na África, trazidos e vendidos nas Américas. Com o tempo, os EUA tinham o maior número de escravos do mundo, segregados e sem direito algum. O desenvolvimento industrial chegou apenas para o norte do país, o que dispensou a mão de obra de escravos negros, o mesmo não acontecendo no sul, região essencialmente agrícola, dependente do trabalho escravo para as suas lavouras. As diferenças econômicas entre o norte e o sul, a questão da escravidão, dividiriam profundamente o país, levando-o a uma guerra civil na segunda metade do século XIX, conhecida como a Guerra da Secessão.
No início da Guerra da Secessão, em 1861, havia 19 estados onde a escravidão era proibida e 15 estados onde a escravidão era permitida. Em 1860 Abraham Lincoln venceu as eleições para presidente, durante a campanha discursara contra a escravidão: “Metade livre, metade escrava”, o que levou os sulistas a temer que ele a abolisse de vez. Em 4 de março de 1961, antes que Lincoln assumisse a presidência, 11 estados que mantinham a escravidão declararam secessão da União, formando um novo país, os Estados Confederados da América. No dia 12 de abril, a guerra civil tinha início, só terminando em 1865, com a rendição dos confederados.
Após o fim da guerra civil, que deixaria marcas indeléveis nos estados sulistas, os americanos aprovaram a 13ª Emenda à Constituição, ratificada no fim de 1965, pondo fim oficialmente à escravidão nos EUA. Em 1968, era aprovada a 14ª Emenda, dando ao governo federal poderes amplos para obrigar os Estados a fornecerem proteção igualitárias às leis. Em 1870, a 15ª Emenda dava aos negros americanos do sexo masculino e maiores de idade, o direito ao voto, direito que não se estendeu para todo o país até meados da segunda metade do século XX.
Mesmo libertados, os negros americanos continuaram discriminados, perseguidos e sem um lugar definido na sociedade estadunidense. Com o fim da Guerra da Secessão, o sul continuaria ocupado por tropas do norte até 1877. Empobrecidos pela guerra, acostumados com a escravidão como realidade secular, os sulistas sentiram-se humilhados quando a União pôs, durante a ocupação, diversos negros libertos em importantes posições do governo dos estados do sul. Este desconforto, movido por um ódio racial latente, permitiu que surgissem sociedades secretas que empregavam a violência e a perseguição aos negros americanos, defendendo com veemência a segregação racial. Dessas sociedades, destacaram-se a dos Cavaleiros da Camélia Branca e a Ku Klux Klan.

Um País na África Para os Negros Americanos

Mesmo antes da guerra civil, no começo do século XIX, debatia-se nos EUA o destino dos escravos libertos naquele país. Na época duas idéias eram defendidas, e nenhuma delas pensava na integração do negro na sociedade norte-americana.
A primeira idéia, defendida por representantes do governo, queriam que se desse a liberdade aos escravos e que eles fossem reconduzidos à África. Um segundo grupo defendia a idéia de que os negros não tinham condições de se enquadrar no sistema capitalista, e era exaltada pelos cidadãos brancos. Assim, nascia em 1816, a American Colonization Society, organização criada por Robert Finley, cujo objetivo era levar para a África os antigos escravos negros e os negros nascidos livres, eliminando-se o problema do negro nos EUA, evitando-se o “perigo” de casamentos entre raças nos país, ou a criminalidade.
A American Colonization Society adquiriu na África, em 1821, um grande território perto da área do Cabo Mesurado, lugar ideal para enviar os negros livres dos EUA. Em 1824 a colônia foi chamada de Libéria (do latim, terra livre), e nela foram fixados os negros oriundos da América do Norte. Em 1847, a colônia declarou a independência, adotando símbolos norte-americanos na bandeira, lema e brasão de armas, além de uma constituição copiada da dos EUA. O primeiro presidente da Libéria foi Joseph Jenkins Roberts, um negro nascido no estado da Virginia. A Libéria nasceu com o objetivo de abrigar os negros livres dos EUA, ficando no país só os escravos, segregados e sem direitos, até que se abolisse a escravidão, em 1865.

O Protesto de Rosa Parks

Com o fim da escravidão, o negro foi, aos poucos, integrando-se como cidadão estadunidense, apesar de violenta pressão de uma segregação racial declarada. No século XX os EUA firmar-se-iam como a nação mais poderosa do planeta. Sua formação populacional era essencialmente de imigrantes europeus, além da contribuição africana e dos índios nativos.
O afro-americano teve que conquistar os seus direitos diante de uma sociedade declaradamente racista. Esta luta veio à tona em 1 de dezembro de 1955, quando
Rosa Parks negou-se a ceder o seu assento em um ônibus a um branco. Este ato desencadearia o processo de uma longa luta anti-racista que se travaria nos EUA, com proporções irreversíveis.
O marco da luta anti-racista deu-se em Montgomery, capital do Alabama, onde os primeiros assentos de bancos dos ônibus coletivos eram, por lei, reservados aos passageiros brancos. Os negros só podiam sentar-se nos assentos de trás. No dia 1 de dezembro de 1955, Rosa Parks, ao retornar do trabalho, tomou um desses ônibus de volta para casa. Cansada, Parks, ao lado de outros três negros, sentou-se nos assentos reservados. Quando passageiros brancos entraram, o motorista (também ele branco), exigiu que Rosa Parks e os três negros levantassem dos assentos e desse lugar aos bancos. Os outros obedeceram, mas Rosa Parks negou a cumprir a ordem, continuando a ocupar o assento, sendo por isto detida e levada à prisão.
A coragem de Rosa Parks, o seu protesto silencioso, repercutiu-se rapidamente, desencadeando grandes protestos. O Conselho Político Feminino, em solidariedade a ela, organizou como medida de protesto contra a discriminação racial, um boicote aos ônibus urbanos. A causa ganhou a adesão daquele que, a partir de então, tornar-se-ia o maior defensor dos direitos civis dos negros americanos, Martin Luther King Jr.
Milhares de negros aderiram ao boicote, recusando-se a andar de ônibus na ida e na vinda para o trabalho, caminhando muitas vezes quilômetros a pé, acenando e cantando pelas ruas, enquanto que eram agredidos física e verbalmente pelos brancos. Além de Martin Luther King, várias outras personalidades conhecidas apoiaram o boicote, entre elas o músico ativista Harry Belafonte e a cantora gospel Mahalia Jackson, que fez vários shows beneficentes para ajudar ativistas do movimento que estavam presos. Durante o boicote, as empresas de transporte coletivo amargaram com prejuízos cada vez maiores.
Pouco menos de um ano após o protesto de Rasa Parks, no dia 13 de novembro de 1956, a Suprema Corte dos EUA aboliu a segregação racial nos ônibus coletivos de Montgomery. Algumas semanas depois, a nova lei entrou em vigor na capital do Alabama e, no dia 21 de dezembro daquele ano, Martin Luther King e o sacerdote branco Glen Smiley, entraram juntos em um ônibus, ocupando lugares na primeira fila de assentos.
Rosa Parks seria, em 1999, condecorada pelo então presidente Bill Clinton, com a medalha de ouro do congresso estadunidense. Estava na época com 88 anos de idade.

Martin Luther King Firma-se Como Liderança

O reverendo Martin Luther King foi o negro que mais se engajou na luta pela igualdade dos direitos entre brancos e negros nos EUA, sua luta estender-se-ia pelas décadas de 1950 e de 1960, alcançando grandes vitórias. Como ativista, ele conseguiria atrair para si o amor e o ódio de grandes massas.
A luta de Martin Luther King iniciou-se quando os Estados Unidos, em combate à expansão do poderio soviético pelo mundo, promovia a Guerra Fria. Nação rica e poderosa, concentrava uma população fechada em seus valores e símbolos nacionais, movidos por um patriotismo exacerbado e por um forte sentido de racismo. Contraditoriamente, os americanos consideravam-se o modelo de democracia e liberdade para o mundo, e ao mesmo tempo, classificavam os seus habitantes de acordo com a raça. Na segregação de um país profundamente racista em suas raízes, os negros sofriam discriminações no aspecto social, na economia e na política. Em muitos lugares não podiam votar, tinham os trabalhos de menor remuneração, sendo chamados pejorativamente de “nigger” ou “boy”, as agressões dos brancos era uma rotina que não encontrava um eco para que fosse encerrada, não havendo leis que condenassem a discriminação.
Quando Rosa Parks foi presa por negar a levantar-se de um assento em ônibus destinado a brancos, Martin Luther King, pastor da cidade, conclamou o boicote dos negros aos transportes coletivos. A partir de então, em um ano tornou-se conhecido em todo o país, assumindo a liderança do movimento negro estadunidense. Seguiram-se marchas de protesto, cerceadas pela violação consciente da legislação racista, como freqüentar salas de esperas, restaurantes, lojas, museus, praças e teatros reservados a brancos. Tais protestos geravam uma violenta repressão policial, mas jamais intimidou o movimento de Martin Luther King e as suas lideranças adjacentes. Entretanto, o reverendo não deixava de advertir aos seus seguidores que não deixassem que os protestos degenerassem em violência.

Vitórias e Adversidades

As conquistas dos direitos dos negros eram lentas, mas definitivas. Em 1957 nove estudantes negros obtiveram nas cortes da União o direito de estudar na Escola Central de Little Rock, Arkansas, lugar em que as escolas eram todas segregadas. No primeiro dia, entre insultos e ameaças, foram proibidos pelos brancos de entrar na escola. Por ordem da Guarda Nacional, retornaram para casa. Em resposta ao desacato à justiça federal, o então presidente Dwight Eisenhower dissolveu a Guarda Nacional do Arkansas, enviando tropas de pára-quedistas para garantir a entrada e o estudo dos nove alunos negros em Little Rock. Quando o ano letivo terminou, os racistas da cidade preferiram fechar a escola de que aceitar negros nela. Outras escolas do Arkansas e do sul seguiram o exemplo.
O estudante James Meredith conseguiu através das cortes federais, em 1962, o direito de ingressar na Universidade do Mississipi, o estado racialmente mais conservador dos EUA. Mesmo sendo impedido algumas vezes de entrar no campus, por interferência do próprio governador, Meredith ingressou escoltado por agentes federais, e a corte federal instituiu uma multa diária de 10 mil dólares por cada dia que ele fosse impedido de assistir às aulas. Uma conflagração de civis e estudantes brancos na universidade terminou com a morte de 2 pessoas, 28 agentes federais feridos à bala e 160 feridos entre a população. No dia seguinte, o então presidente John Kennedy, enviou tropas do exército que garantissem a entrada e a permanência de Meridith na universidade.
Foi diante de todas as dificuldades descritas acima, que a liderança de Martin Luther King explodiu por todo o país. O líder negro manteve sempre a filosofia de protestos não violentos, mesmo quando 1100 líderes radicais do movimento negro exigiram, na Black Power Conference, em 1967, a divisão dos EUA em dois, para brancos e para negros.
Em agosto de1963, Martin Luther King organizou ao lado de Phillip Randolph e Bayard Rustin, a maior aglomeração pacífica realizada nos EUA, 250 mil pessoas, brancas e negras, vindas de todos os cantos do país, marcharam sobre Washington, realizando um dia de discursos, cantos e protestos a favor da igualdade dos direitos civis para todos os cidadãos.
Em 1964, Martin Luther King foi galardoado com o Prêmio Nobel da Paz por seus esforços pacíficos pelo fim da segregação racial e pelos direitos civis dos negros nos EUA. A premiação deu grande visibilidade internacional ao reverendo e à sua luta, o que gerou incômodo e ódios entre os mais conservadores dos seus opositores. No meio do ódio, Martin Luther King escaparia por um triz de dois atentados à sua vida.
Em 1965, Martin Luther King liderou passeatas e manifestação na cidade de Selma, no Alabama, em prol do direito dos cidadãos negros a registrarem-se com votantes. Durante uma manifestação, o pastor e vários manifestantes foram presos. Choques entre negros e brancos resultaram em tumultos com mortos e feridos. As cenas transmitidas pela televisão, causaram grande indignação por todo o país, o que levou o presidente Lyndon Johnson a conseguir aprovar junto ao congresso a Lei do Direito de Voto, de 1965. O direito de voto negro mudou definitivamente a face da política do sul do país, com a eleição de negros já em 1966, nos estados mais racistas da região, como o Mississipi.
Mas se Martin Luther King pregava a não violência em seus protestos, outros grupos negros de luta não pensavam igual. Em 1966 surgiu o movimento Black Power (Poder Negro), um grupo liderado por Storkely Caemichael, que pregava a violência e a necessidade de defesa dos negros diante dos ataques sofridos pela Ku Klux Klan, no sul do país. A partir de então, os negros sulistas passaram a enfrentar de armas nas mãos a violência sofrida, o que levou a Klan a desistir de aterrorizar os habitantes negros da região. Os Black Power enfrentavam a violência através da violência, passaram a difundir o orgulho de ser negro, ganhando maior identidade cultural, exigindo que não mais fossem chamados de negros, mas de afro-americanos.

“Eu Tenho Um Sonho”

O ano de 1968 foi um dos mais violentos nos EUA, com grandes protestos contra a Guerra do Vietnã, que passava a perder a razão ideológica para ser vista como um grande fracasso da maior nação do planeta. Se em 1967 espalhou-se que a guerra não duraria mais de um ano, no ano seguinte via-se a derrota ante os comunistas vietnamitas, vazava-se a notícia de que o exército enviaria mais 200 mil homens para o combate, o que significava mais baixas e mais mortes de jovens estadunidenses. Os ânimos acirraram-se e Lyndon Johnson foi obrigado a desistir de tentar a reeleição naquele ano.
Foi neste violento e confuso ano de 1968 que, a 4 de abril, o maior líder negro da história do século XX norte-americano, o Prêmio Nobel da Paz, Martin Luther King, seria definitivamente silenciado, sendo assassinado em Menphis, Tennessee. Vinte e quatro horas antes da sua morte, ele pronunciou o célebre discurso profético, em que anunciava ter avistado a terra prometida:
“Talvez eu não consiga chegar com vocês até lá, mas quero que saibam que o nosso povo vai atingi-la.”
Aos 39 anos, Martin Luther King era morto por um racista branco. Foi abatido a tiros na sacada de um hotel em Menphis. Anos mais tarde, um processo civil que correu no Tennessee, chegou à conclusão de que membros da máfia e do governo norte-americano engendraram o seu assassínio.
A morte de Martin Luther King provocou comoção e consternação internacional. Como conseqüência, as inquietações raciais agravaram-se em Washington e Chicago. Em junho, a mesma violência atingiu Robert Kennedy, candidato à presidência e, também ele, assassinado. Em 1983, a terceira segunda-feira de janeiro (data próxima do nascimento do pastor, 15 de janeiro) foi feita feriado nacional, em homenagem ao reverendo assassinado.
Martin Luther King tornou-se o ícone da luta do negro pelos direitos civis e igualdade, seu célebre discurso entraria para a história da humanidade como um dos mais belos em prol das causas humanistas. Sua frase “Eu tenho um sonho”, ecoou durante quatro décadas, até que Barack Obama, filho de um economista muçulmano queniano e de uma estadunidense, um negro, chegasse à presidência dos Estados Unidos. O sonho de Martin Luther King, a chegada da sua gente à terra prometida, concretizaram-se finalmente.
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Quinta-feira, 30 de Julho de 2009

ADEUS, MENINOS

 

 

Há momentos da história que a força bruta, a crueldade opressiva, o preconceito e a insensatez dos homens vingam sobre a humanidade, gerando guerras sangrentas e de efeitos irreversíveis. Adeus, Meninos (Au Revoir les Enfants), escrito, produzido e dirigido por Louis Malle, é um filme que com sensibilidade expressiva, mostra um desses momentos negros da história, a Segunda Guerra Mundial.
Filme de 1987, Adeus, Meninos é o retrato de uma França ocupada pelos nazistas, dividida entre os que resistiam à ocupação e os que a aceitavam passivamente, até colaborando com os invasores, delatando e denunciando vizinhos, amigos e patriotas.
No meio do preconceito gerado pela insanidade nazista, esteve a perseguição e o extermínio ao povo judeu. O filme de Louis Malle traz uma história delineada em fatos reais, vividos pelo diretor aos 12 anos, quando ele estudava em um colégio carmelita perto de Fontainebleau. Traz a Segunda Guerra Mundial como pano de fundo, mas o cenário é um colégio católico, internato de crianças ricas francesas. A amizade de Julien Quentin (Gaspard Manesse) e Jean Bonnet (Raphael Fejto), o primeiro, um menino cristão de família rica, o segundo um menino judeu refugiado no colégio para fugir à perseguição nazista, comove pela sua ingenuidade juvenil, sincera diante de tempos de preconceito e obscuridade. O perigo é iminente, mas a amizade de ambos suaviza o fantasma devastador da guerra. Mesmo diante da tragédia que se instalará a qualquer momento, há tempo para a descoberta da amizade, da adolescência que assim como os nazistas, está à porta, da intelectualidade da vida, das diferenças culturais e, principalmente, do grande amor fraterno que une as pessoas em momentos de penúria e perigo. Mesmo diante de uma temática com um fim pungente, Louis Malle constrói uma história forte e lírica, com uma sensibilidade ímpar e delicada, sem em momento algum se prostrar diante do melodrama, sem recorrer ao sentimentalismo óbvio, fazendo do filme um dos melhores da década de 1980, e um dos melhores do cinema francês de todos os tempos.

Amizade Nascida à Sombra da Guerra

No inverno francês de 1943-44, a França está completamente ocupada pelas tropas de Hitler, sendo os seus habitantes submetidos ao poder nazista, sofrendo grandes dificuldades por conta dessa ocupação. A Segunda Guerra Mundial está em sua plenitude. É neste cenário histórico movido pela guerra que nos surge Julien Quentin, menino de 12 anos, filho de uma rica família do norte da França. Após as festas natalinas em casa, ele retorna ao colégio interno católico de St. Jean-de-la-Croix, lugar que considera tedioso, de uma rotina asfixiante, onde a maioria dos colegas lhe tem animosidade, pois Julien leva os seus estudos a sério, recebendo elogios dos professores. Oitenta meninos estudam no colégio, numa época de inverno, enfrentam não só o frio rigoroso, mas os bombardeios, a opressão dos nazistas, a falta de abundância de comida, até mesmo o mercado negro que controla os produtos essenciais.
Julien sente a falta de casa. Suas aulas parecem sem novidades até o padre Jean (Philippe Morier-Genoud), o diretor, aceitar três novos alunos. Entre os novos está Jean Bonnet, da mesma idade e turma que Julien.
O entediado Julien fica intrigado com Bonnet, por sua introspecção e assim como ele, também marginalizado pelo resto da classe. Se a princípio os dois não se dão bem, com o tempo eles se aproximam, criando um ínfimo vínculo próximo da amizade.
Estreitados laços entre dos dois meninos, uma noite Julien descobre que Bonnet usa um solidéu e faz uma oração em hebraico. A revelação é simples, Bonnet é judeu, ele e vários outros meninos do colégio são acolhidos pelos padres para protegê-los da perseguição dos nazistas, evitando que sejam enviados como prisioneiros para os campos de concentração. A descoberta de Julien não o afasta de Bonnet, não influencia a amizade de ambos, pelo contrário, a sensação do perigo envolvendo o segredo, une-os ainda mais.

O Católico e o Judeu em Tempos da Ocupação Nazista

Feita a revelação do segredo de Bonnet, são delineados o motivo e as personagens do filme. Julien é católico, filho de uma tradicional família francesa, dono de uma excepcional força de personalidade e carisma, que emprestará ao solitário companheiro. Bonnet é judeu, a condição diante da guerra acentua-lhe a inteligência e a disciplina como vertentes de sobrevivência, é apaixonado por livros, por onde tenta decifrar o mundo dos adultos. Bonnet está no colégio com nome falso e foragido, vivendo no limiar de uma situação de pânico
Se Julien vive a saudade da família, que viu recentemente no natal, quando esteve em casa, com Bonnet não acontece o mesmo. O pequeno judeu está sozinho, perdera a direção da família, levada pelos nazistas, não sabe do paradeiro dos entes queridos, mas a platéia que assiste ao filme desconfia, pois sabe da existência dos campos de concentração da história.
Na força que traz a amizade de Julien, Bonnet vence a solidão, voltando a ser ele mesmo, resgatando sonhos juvenis, de uma infância que se esvai diante de uma adolescência que se desponta. A inocência infantil dilacerada pela crueza da guerra, é devolvida diante da amizade dos dois. Por alguns instantes, em meio a um tempo asfixiante, tornam-se dois meninos normais, sonhadores, donos de uma beleza de personalidades ímpares, longe do cenário da guerra.
A história cresce diante da visão de dois jovens, nas sensações que vivenciam, na metamorfose da criança para o adolescente. Juntos, Julien e Bonnet visitam, às escondidas, a sala de música; lêem secretamente o livro “Arabian Nights”, procuram com afinco um tesouro nas matas aos arredores do colégio.
Louis Malle relata com rara beleza a amizade profunda de Julien e Bonnet, sem esquecer em momento algum a época de medo que se vive, repleta de angústias e incertezas. Não nos deixa distrair que se vive em um mundo transformado pela guerra, dos efeitos devastadores que ela trouxe para as pessoas que faziam parte daquele tempo. Esta sensação é captada pelo expectador, que sente as tensões humanas vividas pelas personagens, traduzidas pelas sombras da adolescência e da guerra, aqui indivisíveis. Malle não relata um filme de guerra, mostra-nos uma história de amizade passada durante a guerra e o preço que se paga diante dela.

O Adeus aos Companheiros

A amizade entre Julien e Bonnet é breve, mas intensa, definitiva, como todos os grandes acontecimentos que envolvem a infância. É esta infância perdida em todos nós, que acentua tão bem o filme, que faz dele uma comovente e nostálgica ode à amizade, que será interrompida bruscamente, mediante a denúncia de um rancoroso empregado do colégio à Gestapo, revelando-lhes que ali havia a presença de crianças judias.
A partir daí o desfecho é inevitável, quase uma tragédia anunciada. Se a crueldade da guerra e os efeitos de uma nação ocupada são apenas sugeridos, a partir da denúncia, elas tornam-se paradoxalmente mais onipresentes do que se Malle trouxesse imagens explícitas.
Julian e Bonnet serão cruelmente afastados, quando soldados nazistas invadem o colégio, prendendo Bonnet, dois alunos judeus e o padre Jean, diretor responsável pelo internato. Neste momento dramático final, quase que se respira a tragédia, que é captada com extrema delicadeza por Malle através dos olhares e silêncios repletos de significados. Trejeitos arrancados dos atores revelam a indignação sugerida, a opressão sem limites, e, finalmente, a perda da inocência. Julien, ao ver o seu amigo ser levado pelos nazistas, já não é a criança inocente de outrora, entra definitivamente na adolescência. Bonnet, ao lançar um olhar de despedida para Julien, é definitivamente arrastado pela guerra, a caminho de uma morte que não se vê, mas que bem é sabido, aconteceu a milhares de judeus. É o momento silencioso de Bonnet dizer adeus.
No pátio, as crianças estão alinhadas, ao ver o padre Jean e os três meninos conduzidos pelos nazistas, começam a gritar: “Au revoir, seg. Pére (adeus, senhor padre)”, ao que ele responde: “Au revoir les enfants. A bientôt!”. Revela-se o eufemismo do título. Numa narrativa final, um Julien mais velho, conta que jamais se esqueceu daquele dia, que das três crianças enviadas para os campos de concentração, nenhuma sobreviveu, assim como padre Jean. Encerra-se uma obra-prima do cinema, e como diriam alguns críticos, de um grande humanista.

Um Filme Humanista

Adeus, Meninos é um dos mais belos filmes de todos os tempos. Louis Malle viveu esta história aos 12 anos, levou 43 anos para conseguir contá-la diante dos ecrãs do cinema. Com grande sensibilidade, a sua memória não se esqueceu em momento algum de reproduzir os encantos da infância e as amizades nela feita, mesmo diante de situações de hostilidade política e opressão ideológica.
O filme é um encontro da própria França com a sua história, um acerto de contas de uma nação que ocupada pelos nazistas de 1940 a 1944, teve grande parte da sua população a colaborar com os invasores, perseguindo e delatando muitos que fizeram parte da resistência. O próprio cinema francês, vê no filme de Malle uma análise de consciência do seu povo, numa época dúbia do comportamento de muitos patriotas que, em nome da sobrevivência, perderam a identidade de uma nação e renderam-se aos invasores, muitos por medo, outros tantos por simpatia ao regime de Hitler.
A beleza do filme de Louis Malle está em um roteiro bem estruturado, numa esmerada e natural direção de fotografia de Renato Berta, numa direção afiada e competente, além de um excelente elenco, que trouxeram interpretações simples e contidas, mas encantadoras. É o filme de estréia no cinema da bela Irène Jacob, então com 21 anos, que se tornaria a musa de Krzysztof Kieslowski.
Adeus, Meninos concorreu e ganhou vários prêmios por todo o mundo, entre eles: o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 1987; concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro, perdendo para o não menos belo “A Festa de Babette”; ao Globo de Ouro, também como melhor filme de língua estrangeira; arrebatou sete Prêmios César, na França, entre eles o de melhor filme e o de melhor diretor.
Merecidamente galardoado com vários prêmios, é um dos mais belos filmes de todos os tempos, conseguindo ser poético ante a um ambiente inóspito de guerra. Sua atmosfera nostálgica vai além do lirismo que se emana, fazendo-o grandioso, sem ser uma grande produção. Um filme humanista.

Ficha Técnica:

Adeus, Meninos

Direção: Louis Malle
Ano: 1987
País: França, Alemanha Ocidental
Gênero: Drama
Duração: 103 minutos / cor
Título Original: Au Revoir les Enfants
Roteiro: Louis Malle
Produção: Louis Malle
Música: Franz Schubert e Camille Saint-Saens
Direção de Fotografia: Renato Berta
Desenho de Produção: Willy Holt
Direção de Arte: Willy Holt
Figurino: Corinne Jorry
Edição: Emmanuelle Castro
Estúdio: Stella Films / MK2 Productions / NEF Filmproduktion / Nouvelles Éditions de Films
Distribuição: Orion Classics
Elenco: Gaspard Manesse, Raphael Fejto, Francine Racette, Stanislas Carré de Malberg, Philippe Morier-Genoud, François Berléand, François Négret, Peter Fitz, Pascal Rivet, Benoît Henriet, Richard Lebouef, Xavier Legrand, Irène Jacob
Sinopse: França, inverno de 1944. Julien Quentin (Gaspard Manesse) é um garoto de 12 anos que freqüenta o colégio St. Jean-de-la-Croix, que enfrenta grandes dificuldades devido a Segunda Guerra Mundial. Lá ele se torna o melhor amigo de Jean Bonnet (Raphael Fejto), um introvertido colega de classe que Julien posteriormente descobre ser judeu. A tragédia chega à escola quando a Gestapo invade o local, prendendo Jean, outros dois alunos e ainda o padre responsável pelo colégio.

Louis Malle

Louis Malle, francês, grande diretor de cinema, nasceu em Thumeries, a 30 de outubro de 1932. Formou-se em Ciências Políticas, na Sorbonne, mas foi no cinema que se revelaria para a França e para o mundo. No início da carreira foi assistente de Robert Bresson e de Jacques Cousteau, com quem dirigiu o documentário O Mundo do Silêncio, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, em 1956.
Por possuir um estilo diferente da geração de cineastas de seu país que formavam a nouvelle vague, Malle conviveu à margem, sendo rejeitado por Claude Chabrol, Jean-Luc Godard, Eric Rohmer e Françoise Truffaut.
Louis Malle dirigiu trinta longas-metragens, construindo uma carreira cinematográfica sólida, retratando filmes com temas polêmicos, críticos aos valores burgueses do século XX. Conseguiu emoldurar as angústias sociais humanas geradas por um século dividido entre guerras e revoluções de costumes. Nos seus filmes encontramos temas como o suicídio (Trinta Anos Esta Noite, 1963), a liberação feminina (Os Amantes, 1958), o incesto (O Sopro no Coração, 1971) e a pedofilia (Menina Bonita, 1978). Suas obras sofreram cortes da censura, algumas causaram constrangimentos os seus compatriotas, como Lacombe Lucien.
Louis Malle foi um dos poucos diretores franceses bem sucedidos em Hollywood. Foi casado com a atriz Candice Bergen. Morreu em Beverly Hills, EUA, em 23 de novembro de 1995, vítima de um câncer.

Filmografia de Louis Malle:

1953 – Crazeologie
1954 – Station 307
1956 – Le Monde du Silence (O Mundo do Silêncio) - Co-Direção com Jacques Cousteau
1958 – Ascenseur pour l’Échafaud (Ascensor para o Cadafalso)
1958 – Les Amants (Os Amantes)
1960 – Zazie dans le Mètro (Zazie no Metro)
1962 – Vie Privée (Vida Privada)
1962 – Vive le Tour
1963 – Le Feu Follet (Trinta Anos Esta Noite)
1964 – Bons Baisers de Bangkok (TV)
1965 – Viva Maria!
1967 – Le Voleur (O Ladrão Aventureiro)
1968 – Histoires Extraordinaires
1969 – L’Inde Fantôme
1969 – Calcutta
1971 – Le Souffle au Coeur (O Sopro do Coração)
1974 – Place de la République
1974 – Humain, Trop Humain
1974 – Lacombe Lucien
1975 – Black Moon (Lua Negra)
1976 – Close Up
1977 – Dominique Sanda ou Le Revê Éveillé (TV)
1978 – Pretty Baby (Menina Bonita)
1980 – Atlantic City
1981 – My Dinner with André (Meu Jantar com André)
1984 – Crackers
1985 – Alamo Bay (A Baía do Ódio)
1986 – God’s Country (TV)
1986 – And the Pursuit of Happiness (TV)
1987 – Au Revoir, les Enfants (Adeus, Meninos)
1990 – Milou en Mai (Loucuras de Primavera)
1992 – Damage (Perdas e Danos)
1994 – Vanya on 42nd Street (Tio Vânia em Nova York)
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Quarta-feira, 29 de Julho de 2009

OS DIAS DA SEMANA

 

 

Perde-se nos anos a origem da divisão do tempo em semanas. Com precisão, sabe-se que os povos antigos inspiraram-se na duração das fases lunares para demarcar o período semanal de sete dias (“septmana” – semana).
A origem do nome de cada dia da semana deve-se aos deuses ou aos astros das religiões precedentes ao cristianismo. Com exceção da língua portuguesa, que aboliu os nomes primitivos dos dias da semana, todos os outros países cristãos conservam a nomenclatura pagã, onde cada dia era dedicado a um astro ou a um deus da mitologia local de cada cultura.
Na língua portuguesa, os nomes dos dias da semana seguem a liturgia católica desde que Martinho de Braga tomou a iniciativa de abolir os nomes pagãos, no século VI, denominando-os na semana da Páscoa de dias santos, que não se deveria trabalhar, assim, durante àquela semana, acrescentar-se-ia a palavra "feriae", originando-se os nomes litúrgicos que se estenderiam não só na semana santa, mas durante todo o ano.
Mesmo diante da cristianização do ocidente, é pela nomenclatura pagã que cada dia da semana é chamado pela maioria dos povos, não importando a língua. Deuses ou astros, os dias, ainda hoje, representam o marco do tempo pelo homem, o seu encontro com um calendário imaginário que o situa na história, revelando-lhe as origens, as religiões primitivas diretamente ligadas ao céu dos astros.

Os Dias a Partir dos Astros

Demarcada pelas fases da Lua, a origem dos dias da semana estava diretamente ligada aos fenômenos astronômicos e climáticos, além dos conceitos religiosos de cada povo. Na concepção judaica, Deus criara todas as coisas em seis dias, no sétimo descansara, portanto o homem como imagem do criador, também deveria contar os dias em sete.
É na época da expansão do Império Romano que a definição dos dias da semana encontram-se com diversas culturas. Na antiguidade os planetas conhecidos, por ordem decrescente da distância da Terra eram: Saturno, Júpiter, Marte, Vênus e Mercúrio, que formavam cinco esferas, acrescidas a elas vinham mais duas esferas: uma que continha o Sol e outra, a Lua. Tendo como referência os sete astros, iniciando a contagem pela Lua (sempre em ordem decrescente) e pondo o Sol ao centro do sistema, deparar-nos-emos com esta ordem astrológica: Saturno, Júpiter, Marte, Sol, Vênus, Mercúrio e Lua.
Além das sete esferas formadas pelos astros citados acima, havia uma oitava, a das estrelas. No centro dos sete astros e das estrelas encontrava-se a Terra, com os seus quatro elementos: terra, ar, água e fogo. Quatro são os ventos, quatro são as divisões da Terra, quatro são os elementos. Assim, o quadrado era o símbolo da perfeição, sendo sempre igual de qualquer lado que é visto. A partir da perfeição do quadrado simbólico, voltando à ordem astrológica descrita acima, conta-se até quatro, a partir de Saturno (incluindo-o na contagem), até chegar ao Sol e temos o primeiro dia (Sunday); a partir do Sol (incluindo-o), conta-se até quatro e chega-se à Lua (Monday, Lunes, Lundi, Lunedi); seguindo a contagem de quatro a partir da Lua, chega-se a Marte (Mardi, Martes, Martedi); conta-se quatro a partir de Marte e chega-se a Mercúrio (Miércoles, Mercoledi, Mercredi); a partir de Mercúrio conta-se quatro e chegamos a Júpiter (Jeudi, Jueves, Giovedi); conta-se quatro a partir de Júpiter e chega-se a Vênus (Vendredi, Viernes, Venerdi); e, finalmente, conta-se quatro a partir de Vênus e chegamos a Saturno (Saturday).
Uma vez feita a identificação, temos a origem dos nomes dos dias da semana, ou seja, Domingo é o dia do Sol, Segunda-Feira o da Lua, Terça-Feira o de Marte, Quarta-Feira o de Mercúrio, Quinta-Feira o de Júpiter, Sexta-Feira o de Vênus e, Sábado, o de Saturno.
Com a cristianização, como já foi dito, só Portugal aboliu à nomenclatura pagã. Apenas dois dias foram abolidos desta nomenclatura pelos outros países de origem de língua latina (Espanha, França e Itália), o Sábado e o Domingo. O Sábado, de Sabbatum, é um nome de origem do hebreu Shabbat, o dia sagrado para o povo judeu, considerado o dia em que Deus descansou da sua obra grandiosa. O dia de Saturno foi substituído pelo Shabbat hebreu (Sábado, Samedi e Sabato nos restantes países latinos). O Domingo, instituído pelo imperador Flavio Constantino após a sua conversão ao cristianismo, deixou de ser o dia do Sol em todas as línguas de origem latina, sendo denominado Dominica Dies, que evoluiu para Dominus Dei (Dia do Senhor), evoluindo para Domingo, Dimanche e Domenica.

A Concepção dos Dias a Partir do Concílio de Nicéia

Com a conversão de Constantino (280-337 d.C.) ao cristianismo, Roma passa a repudiar o paganismo milenar disseminado pelo seu império. Esta conversão aconteceu na época do Papa Silvestre I. É a partir daí que são organizados os registros de datas como chegaram aos dias atuais.
Em 325 d.C., Constantino convocou o Concílio de Nicéia, à revelia do Papa Silvestre I, que dele não participou. A partir de então foram definidas inclusive as datas do dia de Natal e da Páscoa, esta última deixando definitivamente de ser associada à data comemorativa dos judeus. Constantino mudou o nome litúrgico do antigo dia do Sol, agora Prima Feria, para Domenica Dies, que evoluiria para Dominus Dei, dando origem ao nome Domingo, em português. Desde então, o Domingo passou a ser o primeiro dia da semana do calendário cristão, tornando-se o dia de reunião de fé e de mercado, até então compartilhadas no sábado entre judeus e cristãos.
Era interesse tanto de Constantino, quanto de Silvestre I, que todos os povos abolissem a nomenclatura pagã relativa aos dias da semana. Na época a Páscoa era comemorada por toda a semana, dando origem a sete feriados consecutivos. Durante a Páscoa, os dias eram chamados de “feriae” no latim (traduzido para “feira” no português), a semana adotava a nomenclatura: Prima-Feira, Segunda-Feira, Terça-Feira, Quarta-Feira, Quinta-Feira, Sexta-Feira e Sábado.
Silvestre I tentou que esta nomenclatura fosse adotada para além da Páscoa. Mas ela logo foi esquecida e, à exceção do Sábado e do Domingo, os antigos nomes pagãos continuaram a fazer parte do cotidiano dos povos cristãos, jamais sendo abolidos, prevalecendo as tradições, não a nova fé que se assumia comum aos reinos europeus.

Origem da Nomenclatura dos Dias da Semana em Inglês

Os nomes dos dias da semana, tanto em inglês, como em alemão e outras línguas do norte da Europa, têm a sua origem na mitologia nórdica e na adoração dos seus deuses pagãos, marcados principalmente pela força e bravura guerreira.
Em inglês o dia de Saturno continuou a vigorar, Saturday, mesmo depois da cristianização, assim como o dia do Sol, Sunday, e o dia da Lua (moon), Monday, substituindo-se os outros dias pelo nome dos deuses nórdicos.
Marte, deus da guerra dos romanos, foi substituído pelo deus Tyw, divindade maneta, senhor da força e da guerra. A Terça-Feira foi consagrada a este deus, ficando denominada Tuesday.
Mercúrio, o astuto deus dos comerciantes e dos ladrões, mensageiro dos deuses, foi substituído por Odin ou Wedin, deus da mitologia escandinava, ou Wotan, o mais poderoso dos deuses entre os germanos, com equivalência ao Zeus grego. A Quarta-Feira ficou denominada Wednesday (do deus Wedin).
Se a Quinta-Feira era na mitologia romana, consagrada ao poderoso Júpiter, aqui ele é substituído pelo deus escandinavo Thor, também ele deus do trovão, sendo Thursday o “dia de Thor”. Na literatura germânica o deus do trovão é traduzido por Donner, daí a designação de Donnerstag para a Quinta-Feira.
Finalmente a Sexta-Feira, consagrada à deusa do amor e da beleza, Vênus, era destinada à deusa Freya, a bela esposa de Odin, deusa do amor, da juventude e da morte na mitologia nórdica, daí a designação de Friday em inglês, e, Freitag em alemão (tag em alemão significa dia).

Os Dias da Semana em Português

Como já foi dito, Portugal foi o único país do mundo que adotou os dias da semana com a nomenclatura surgida no Concílio de Nicéia, derivados do latim eclesiástico. Sendo o português a última das línguas romanas a se formar, isto ajudou a que a língua não adotasse a nomenclatura pagã de outros povos.
Em 563 Martinho de Dume (ou Martinho de Braga), reuniu o Concílio de Braga, em Braga (hoje cidade portuguesa). Considerando ser indigno dos bons cristãos que se continuasse a chamar os dias da semana pelos nomes latinos de deuses pagãos, decidiu que se usaria a terminologia eclesiástica para os designar. Assim ficaram registrados: Feria Secunda, Feria Tertia, Feria Quarta, Feria Quinta, Feria Sexta, Sabbatum, Dominica Dies; evoluindo para a nomenclatura atual: Segunda-Feira, Terça-Feira, Quarta-Feira, Quinta-Feira, Sexta-Feira, Sábado e Domingo, constituindo assim, caso único nas línguas novilatinas, que substituiu integralmente a terminologia pagã pela terminologia cristã.
A “Feriae” (dia de descanso), termo latino, evoluiu para “feira”, vindo a ser usada a designação não só na semana da Páscoa, mas durante todos os dias do ano. Com exceção do Sábado, derivado do Shabbat hebreu, e do Domingo (então Prima Feria na semana da Páscoa), todos os outros dias em língua portuguesa vieram da derivação do latim eclesiástico.
Quanto ao dia considerado santo, ou tido como feriado, ele diverge entre as três principais religiões monoteístas do mundo contemporâneo, o islamismo, o judaísmo e o cristianismo. Se o conceito da criação divina do mundo não tem divergências entre as três, vários outros conceitos de fé fizeram com que os dias de reuniões de fé e de descanso fossem diferentes, sendo a Sexta-Feira (muçulmanos), o Sábado (judeus) e o Domingo (cristãos), os dias assinalados e consagrados pelos monoteístas.
 
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Terça-feira, 28 de Julho de 2009

LENDAS LUSITANAS

 

 

Portugal é o país mais ocidental da Europa, sendo também um dos mais antigos em suas fronteiras. A conquista do território foi feita aos muçulmanos (chamados de mouros), que dominaram a península Ibérica por quase mil anos. Antes da formação da nação portuguesa, vários povos habitaram o lugar, entre eles os lusitanos, pescadores e camponeses primitivos, que enfrentaram bravamente o domínio e a opressão dos romanos.
Sendo um país tão antigo, foram muitas as lendas que se criaram para contar tão extensa história. Lendas medievais, lendas ainda mais antigas; chegaram aos nossos dias as mais belas narrativas que contam a saga de um povo e da sua nação, formadora de uma cultura lingüística que se estendeu pelos quatro cantos do mundo. Da antiga Lusitânia ao Portugal de hoje, chaga-nos um acervo de personagens maravilhosas, algumas trazidas das páginas de Homero, outras do imaginário medieval, das páginas cantadas pelos trovadores.
Olisipo, a Cidade de Ulisses” é uma das lendas mais cultivadas pelo povo português. É a história da fundação de Lisboa, que segundo a tradição lendária, teria sido feita pelo herói homérico Odisseu (Ulisses), que na sua trajetória errante após o fim da guerra de Tróia, perder-se-ia por vinte anos pelos mares europeus. O herói grego teria atravessado as Colunas de Hércules (Estreito de Gibraltar), alcançando a desembocadura do rio Tejo, deparando-se com o reino de estranhas criaturas metade mulheres, metade serpentes. Olisipo, a cidade mítica de Ulisses, seria mais tarde Lisboa, a bela capital portuguesa.
A Dama Pé de Cabra” resgata o período de conquista das terras lusitanas aos muçulmanos, chamados de mouros. A luta por esta conquista foi sangrenta, o que fazia o povo cristão a sentir que efetuava uma guerra santa, cada mouro morto por sua espada, significa recompensa na terra e nos céus medievais. Esta lenda traz a figura do diabo, tão temida e tão comum no cotidiano do homem medieval. Entre as guerras e os medos dos demônios, surgia uma nação jovem, cristã e destinada à expansão através do mundo.
O Galo de Barcelos” retrata um dos símbolos mais populares de Portugal. Várias são as versões da lenda, mas todas elas remetem para um único final: a ressurreição de um galo assado, que com o seu canto vivo efetuaria a justiça e repararia a injúria diante dos injustiçados. É uma lenda sucinta, mas com forte teor de se ver através dela o cumprimento de todas as leis, fundindo-se entre as leis sacras e as leis dos homens, tornado-se um uno inquestionável.
Três lendas de beleza universal, que nos remete para diversos momentos de uma história imaginária e repleta de aventuras seculares, que fariam dos lusitanos grandes navegadores e descobridores de mundos diversos, infinitos aos olhos humanos.


Olisipo, a Cidade de Ulisses

Há muito tempo atrás, em um ponto remoto do calendário, existia um promontório que recebia o desembocar do Tejo. Era um reino inóspito, muito além das Colunas de Hércules, conhecido pelo nome de Ufiusa, a terra das serpentes. Este reino formado por serpentes, tinha como rainha um estranho ser, metade mulher, metade serpente, que trazia um rosto belíssimo, dona de um olhar feiticeiro e de uma voz quase de criança.
Senhora absoluta do seu reino, a rainha mulher-serpente costumava visitar o alto de um monte e gritar ao vento as palavras que ecoavam por todo o Tejo:
-Este é o meu reino! Só eu governo aqui, mais ninguém! Nenhum homem atrever-se-á pôr aqui os pés. Ai do que ousar! As minhas serpentes não o deixarão respirar um só minuto!
Assim correram os anos. Até que um dia surgiu errante, com os ventos, o grego Ulisses (Odisseu). O rei da Ítaca, herói da Tróia destruída, tão logo terminara a guerra, por um capricho dos deuses, navegava perdido pelo Mediterrâneo sem fim. Um dia os barcos de Ulisses foram soprados para muito além das Colunas de Hércules, vindo a entrar pela desembocadura de um imenso rio ao qual chamavam de Tejo, aportando no reino de Ufiusa. Tão logo chegou àquelas terras, o grego deslumbrou-se com a sua beleza, com a suavidade das suas brisas, o sabor das suas frutas e o gosto doce das águas do Tejo. Ofuscado por tanta beleza, Ulisses reuniu os seus homens, declarando potente a todos eles:
-Aqui, onde a natureza mostra-se tão pródiga, edificarei a mais bela cidade do mundo! Dar-lhe-ei o meu nome... será Ulisseia, capital das belezas do mundo!
Assim foram edificados os primeiros alicerces da sua cidade. Mas a terra que tanta beleza trazia aos olhos do grego, mostrou-se traiçoeira diante das serpentes que deslizavam por elas. Muitos dos homens da tripulação tombaram envenenados por picadas das serpentes, outros desapareciam, vitimados por armadilhas traiçoeiras. Cada vez mais o inimigo oculto ladeava Ulisses. Diante de estranhos inimigos, o valente rei da Ítaca clamou:
-Por todos os deuses do Olimpo, eu vos desafio, inimigo invisível e traiçoeiro. Aparecei das sombras, mostrai a vossa face e desafiai-me corpo a corpo!
Mas o inimigo continuou oculto, Ulisses só continuava a ouvir os silvos das serpentes, que vinham como uma sinfonia noturna. Assim o perigo rondava Ulisses e os seus homens, que cada vez mais tombavam envenenados. Irritado, Ulisses bradou com todas as suas forças:
-Traiçoeiro inimigo, podeis tentar tudo o que quiserdes, mesmo assim não abandonarei esta terra sem aqui deixar a mais famosa cidade edificada que se tenha notícia!
Foi então que a rainha das serpentes, profundamente atraída pelo valente guerreiro, revelou-se a ele. Surgiu do disfarce de uma rocha, com a sua voz de criança e formosura na sua face de mulher, escorregadia na sua metade serpente.
-Bem vindo ao reino das serpentes, conhecido por Ufiusa! Sois valente e ousai a enfrentar aos súditos deste reino, do qual sou a rainha soberana e absoluta!
Ao ver a revelação da rainha, Ulisses apercebeu-se da face do misterioso inimigo, finalmente revelada. Uma vez revelado-lhe o inimigo, o grego já não o temia. Viu na voz doce da mulher o sibilar das serpentes, refletida no olhar amargo.
Já apaixonada por Ulisses e por sua valentia, a rainha percebeu que a sua rendição não iria acontecer. Não mais esperava por ela, pelo contrário, decidira que queria o guerreiro para sempre em seus reinos.
-Durante dias esperei por vossa rendição. A vossa coragem foi superior, o que atraiu a minha admiração! Sei do vosso sonho de aqui edificardes uma cidade! Pois bem, eu vos permito a realização desse sonho, com uma condição: a de cá ficardes para sempre!
Enigmático, Ulisses sorriu-lhe, sem jamais lhe dar uma resposta com palavras, meneando a cabeça, como se concordasse. Com o consentimento da rainha das serpentes, Ulisses passou a edificar a sua cidade, erguendo-se jardins, casas e ruas. As serpentes já não atacavam os homens, que cada vez mais ali aportavam. Enquanto os homens trabalhavam, as mulheres serpentes cantavam para que a labuta lhes fosse mais suave.
Erguida a cidade de Ulisses, que passou a ser conhecidas como Olisipo, uma brisa suave inundou tão soberba obra. Mas o coração de Ulisses pertencia a Ítaca e a Penélope, a sua mulher, que há muitos anos esperava por sua volta. Assim, mesmo deslumbrado com a sua obra, o grego só pensava em partir, navegando até que aportasse na sua terra natal. Mas a paixão da rainha serpente impedia que Ulisses partisse, tornando-o prisioneiro da sua própria cidade.
Sabendo-se prisioneiro da rainha, Ulisses encheu-se dos mais falsos carinhos e de amor ardente e traiçoeiro, enquanto desenhava o seu plano de fuga. Por fim chegara a noite da tão esperada fuga. Combinara buscar a rainha para um passeio ao luar. Em vez de comparecer ao encontro, Ulisses enviou um dos seus homens, que tinha a mesma estatura do que ele e ao longe, poderia ser confundido com ele. Assim, enquanto Ulisses fugia navegando pelas águas do Tejo em direção ao Oceano, o seu fiel companheiro, muito bem disfarçado, foi buscar a rainha, levando-a para longe do rio.
Durante o passeio, só a rainha falava, mostrava para o companheiro o futuro da sua Ulisseia, ou Olisipo. De repente a mulher inquietou-se com o silêncio do amado. Ao olhar para aquele que estava ao seu lado, percebeu que os olhos eram outros. Ao perceber o engano, a rainha soltou um grito de indignação. Ao ver-se traída, furiosa, ela mordeu o impostor, envenenando-o com a sua peçonha. Antes de morrer, o infeliz murmurou que o seu amo já deveria ir longe, a navegar pelo grande Mar Oceano, rumo às terras gregas.
Desesperada, a rainha tentou ir além de todas as suas forças, estendendo-se sobre a cidade de Ulisses, na ânsia asfixiante de alcançar o mar. Foi tamanho o seu esforço de alcançar o amado, que onde ela estendeu o corpo de serpente, das suas contorções desenhou-se sete colinas sobre Olisipo. Mas Ulisses já estava longe, e a infeliz rainha não resistiu, morreu após tamanho esforço.
Sem a sua rainha, as serpentes fugiram da cidade. No antigo reino de veneno e morte, ficou edificada altaneira, a cidade de Ulisses, erguida sobre as suas sete colinas. Ulisses jamais retornou, mas Olisipo tornou-se a principal cidade às margens do Tejo. Muitos anos mais tarde a cidade de Ulisses passou a ser conhecida como Lisboa.

A Dama Pé de Cabra

Esta história é do tempo que os cristãos lutavam com os mouros pelo domínio do oeste da Ibéria e pela formação do reino cristão de Portugal. Dom Diogo era um bravo cristão que tinha como missão a expulsão dos mouros daqueles reinos. Destemido e arrojado, o fidalgo gostava de montar o seu cavalo branco e sair pelos bosques e montes a caçar veados, javalis, lobos e ursos. Fizesse sol ou chuva, fosse inverno ou verão, lá estava o inquieto fidalgo longe do seu castelo, em caças perigosas a animais silvestres ou aos mouros infiéis.
Foi a perseguir um javali em um monte agreste e coberto de silvas espinhentas, que o valente fidalgo um dia deparou-se com o mais belo canto que já ouvira. O canto ecoava pelo ar, fazendo que o javali ficasse manso e esperasse pela sua lança, como se encontrasse a redenção. Embriagado por tão bela e aguda voz, dom Diogo correu com os olhos em direção a um pedregulho que se lhe aparecia à frente, ao cimo encontrava-se, sentada, a mais formosa das mulheres. O coração do fidalgo disparou. Aproximou-se da mulher e perguntou:
-Quem sois vós, encantadora senhora? Quem sois vós que me cativou com o vosso belo canto?
Ela riu, do riso saltava-lhe a mais bela feição, rimando com o olhar vindo de duas contas cristalinas, seus cabelos dourados dobravam-se ao vento, sua face gentil reluzia o dia de sol, suas mãos brancas traziam uma pele macia como a neve.
-Sou uma dama tão nobre quanto sois vós.
Ao ouvir-lhe as palavras, dom Diogo não se conteve, aproximou-se com o coração a arfar-lhe cada mais, descompassado de amor.
-Formosa senhora, se casardes comigo, ofereço-vos as minhas terras e os meus castelos, além do meu coração que já vos pertence!
-Guarda as tuas terras que precisas para cavalgar a tua inquietude da alma.
-Que posso oferecer-te então para que sejas minha?
Numa malícia que se traduzia em constrangimento, a mulher baixou a cabeça, a demonstrar um fulgurante pudor. A olhar com um encanto de serpente para o homem, pronunciou as palavras com a mais doce das vozes:
-A única coisa que me interessa, não ma podes dar, porque foi um legado da tua mãe.
-E seu te amar mais do que à minha própria mãe?
-Então tens de jurar que não tornas a fazer o sinal da cruz que ela te ensinou quando eras pequeno.
Por alguns instantes, dom Diogo hesitou ante tão estranho pedido, que lhe pareceu coisa do diabo. Olhou-a com estranheza, mas ao deparar-se com tamanha beleza, com aquele sorriso tão puro, afastou as dúvidas e os pensamentos obscuros. Já se apaixonara irreversivelmente por ela. Questionou-se para que serviam as benzeduras? Chegou à conclusão que se deixasse de benzer, continuaria a ser o mais puro dos cristãos. Para compensar esta omissão, decidiu que mataria duzentos mouros e todos os pecados ser-lhe-iam perdoados.
-Que assim seja, minha amada!
Movido pela paixão, arrebatou-a nos braços, esporeou o cavalo e partiu a galope para o castelo. À noite, quando se deitaram, embriagados de amor, dom Diogo apercebeu-se que a dama tinha pés de cabra. Mas o seu coração apaixonado não deu importância àquele defeito, pois o corpo da amada era esbelto, esguio, os cabelos eram lisos e perfumados, a pele fina como a seda.
Durante alguns anos o casal viveu em paz, felizes e apaixonados. Da união nasceu um menino que chamaram Inigo, e uma menina que deram o nome de Sol. Assim correram os anos, Diogo continuou inquieto em suas caças, mas com a certeza que ao final delas, encontraria a paz que precisa nos braços da amada e no aconchego da família.
Numa noite, durante a ceia, Diogo reparou que o seu melhor cão de caça dormitava junto à lareira, enquanto que uma feroz cadela, pertencente à mulher, andava inquieta de um lado para o outro, com um rosnar estranho. Por algum motivo dom Diogo não gostava da cadela. Para afrontá-la, pegou um grande pedaço de osso, atirou-o para junto do focinho do cão que se encontrava próximo à lareira, e disse:
-Toma lá tu, Silvano, valente caçador, precisas te alimentar. À cachorra não dou nada, porque não pára quieta!
Satisfeito e agradecido, Silvano abocanhou tão generoso osso, mas não teve tempo de comê-lo, pois a fúria da cadela fez com que se atirasse ao cão, abocanhando-lhe mortalmente a garganta. Ao ver o seu cão preferido morto no chão, dom Diogo levantou-se furioso, entornando o vinho sobre as tábuas. Com a ponta da bota, virou o corpo do cão e viu a sua garganta dilacerada.
-Maldita cadela! Por minha fé cristã, jamais vi coisa assim! Por cá andam artes de Belzebu...
Ao dizer tais palavras, dom Diogo esqueceu-se do juramento que fizera à mulher alguns anos antes, benzendo-se repetidas vezes. Foi quanto bastou para que a mulher emitisse urros pavorosos. Aos olhos apavorados de dom Diogo, a mulher parecia desmanchar-se em outra, a pele branca e sedosa tornou-se áspera e negra, os olhos reviraram, a boca ficou torta. A mulher tornara-se um animal horrendo, que se erguia no ar, leve como uma pena. Debaixo do braço esquerdo levava a filha, dona Sol, o braço direito alongava-se para o filho.
-Santo Deus! Jesus Cristo! – Bradava o fidalgo. – A minha mulher é o diabo!
Antes que o braço direito da mulher alcançasse Inigo, o fidalgo agarrou o filho e fez vários sinais da cruz. A mulher soltou um último e horripilante grunhido, desaparecendo de vez por uma fresta próxima ao teto, levando consigo a menina. Desde àquela noite, ninguém no castelo tornou a pôr os olhos em cima da mãe, da filha e da cadela. Desapareceram entre as artes mágicas.
Mesmo a saber que a mulher talvez fosse o diabo, dom Diogo Lopes sofreu a dor da sua perda, vivendo muito tempo cabisbaixo, triste e aborrecido com a vida. Para esquecer a dor que sentia no coração, decidiu partir para a guerra. Entregou ao filho Inigo o governo dos castelos. Os servos desenferrujaram-lhe as armas, preparando-lhe o cavalo. Partiu assim, para lutar contra os mouros e ajudar na formação do reino cristão de Portugal.

O Galo de Barcelos

Há muitos anos, em tempos remotos, aconteceu em Portugal um crime de morte, que, por mais minuciosas investigações feitas, jamais se descobriu o assassino.
Tempos depois, quando tudo parecia já estar esquecido, surgiu na povoação de Barcelos um galego peregrino, que se dirigia para Santiago da Compostela. Diante da figura do romeiro, alguém levantou perante as autoridades uma questão, aquele homem era o autor do crime há tempos ali acontecido. Diante da acusação, houve quem garantisse que o romeiro estivera no local do crime no dia do assassínio. De frente com as evidências, as autoridades deram o caso como solucionado, aprisionado o romeiro.
Mesmo diante de grande tortura e suplício, o galego afirmou-se sempre inocente. Mas todas as evidências e coincidências apontavam o homem como o verdadeiro assassino. Sem provas que lhe garantissem a inocência, foi julgado e condenado à morte, através da forca.
Finalmente chegara o dia do suplício do pobre homem, que jamais deixou de jurar estar alheio e inocente ao crime. Tudo em vão! No meio do povoado erguera-se a forca. Como último desejo, o infeliz pediu que fosse levado à presença do juiz. O malogrado romeiro foi encontrar o juiz em uma grande ceia, ladeado de vários amigos e admiradores. Diante do juiz e de todos os presentes, o galego voltou a afirmar a sua inocência, pedindo pela fé cristã que dele tivessem misericórdia e que o não enforcassem. Mas o magistrado, homem que aprendera as leis em Salamanca, apesar de ficar confuso diante da veemência com que o infeliz proclamava-se inocente, nada pôde fazer, pois já acontecera o julgamento e a condenação à morte, portanto era preciso que se cumprisse a sentença.
Vendo que todos faziam escárnio das suas palavras, e continuavam a comer e a beber; o pobre galego, a olhar para um frango assado em cima da mesa do magistrado e dos seus amigos; clamou para São Tiago, o santo que iria visitar quando fora interrompido em sua romaria:
-Oh São Tiago, sabeis que estou tão inocente que, antes de morrer, esse galo que está em cima da mesa, morto e assado, cantará!
Todos riram das palavras de clamor do galego. O magistrado ordenou que o condenado fosse levado à forca e que se cumprisse à sentença. Assim foi feito. Passado o mal estar, todos continuaram a comer e a beber normalmente. Por uma estranha superstição, ninguém ousou a tocar no galo assado que indicara o sentenciado. Todos estavam ansiosos para que se desfechasse o suplício do galego, cumprindo-se finalmente, a justiça.
De repente, diante do espanto geral de todos os presentes, o galo assado passou a ter penas, transformando-se em uma bela ave, tão viva quanto eles, que passou a cantar alegremente!
O espanto foi geral. O juiz e os seus convidados correram ao local que se erguera a forca. Encontraram o galego suspenso no ar, com a corda no pescoço solta. Com grande espanto, descobriram que ele ainda estava vivo! Imediatamente libertaram o supliciado, deixando que ele seguisse viagem até Santiago da Compostela, para que cumprisse a sua promessa de romeiro.
Meses depois, o galego regressou da sua romaria, já com a promessa cumprida. Em sinal de agradecimento aos que atestaram a sua inocência, mandou que se erguesse um padrão, tendo de um dos lados São Paulo e a virgem, o sol, a lua e um dragão. Do outro lado o Cristo crucificado, um galo e São Tiago sustentando um enforcado! A justiça fora feita através do canto do galo ressuscitado, que se tornaria o símbolo de Barcelos.
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Domingo, 26 de Julho de 2009

A IGREJA CATÓLICA E A DITADURA MILITAR NO BRASIL

 

 

O apoio da igreja católica aos militares em 1964, foi decisivo para a concretização do golpe de estado que levaria o país a uma ditadura de vinte anos. Se a Guerra Fria obrigou pessoas e entidades a escolher um lado, com a igreja católica, presumivelmente neutra, não foi diferente, ficou do lado das designações de Washington. A ambigüidade da igreja na época da Segunda Guerra Mundial, que foi acusada de apoiar e até a abençoar os exércitos nazistas, valeu-lhe a expulsão de todo o leste europeu com a chegada dos comunistas soviéticos, que libertaram os povos empobrecidos pela guerra do domínio nazista e na leva, do domínio secular da igreja. Temendo que o mesmo sucedesse na América Latina, a igreja católica combateu a ameaça comunista, incitando os seus fiéis a temê-los e repudia-los. Nas missas era comum padres acusar os comunistas de hereges e ateus inimigos da fé.
Ludibriados pelo sentimento anticomunista e pelo falso golpe que a esquerda preparava, segundo os golpistas de 1964, a igreja católica recebeu os militares de braços abertos, dom Paulo Evaristo Arns chegou a ir ao encontro das tropas do general Olimpio Mourão Filho, deflagrador do golpe, quando elas marchavam de Juiz de Fora rumo ao Rio de Janeiro. Em 31 de março, dom Paulo encontrou-se com as tropas golpistas em Pedro do Rio, Três Rios, oferecendo aos mineiros assistência religiosa. O encontro deixou o clérigo tranqüilo, com a simpatia de que não entraria no poder nem a anarquia, nem o comunismo.
Este apoio da igreja aos golpistas começou a enfraquecer tão logo perceberam o engodo que o país fora vítima, e a ditadura militar começou a mostrar o caráter repressivo e autoritário do regime. Dentro da igreja católica começou um movimento de repúdio à repressão, o envolvimento do clero com militantes resistentes ao regime, e a própria proteção do clero aos perseguidos e torturados. O próprio dom Paulo Evaristo Arns tornou-se um símbolo da defesa dos direitos humanos no Brasil, denunciando as torturas do regime. Também dom Hélder Câmara (foto) e dom Pedro Casaldáliga fizeram voz ativa contra a repressão. Diante da nova posição da igreja católica, a ditadura militar prendeu, torturou e matou padres. O banho de sangue estendeu-se aos clérigos. A Teologia da Libertação, que deu os primeiros passos em 1952, tornar-se-ia uma grande força no Brasil a partir de 1970. O apoio inicial da igreja ao golpe de 1964 deu a sua grande reviravolta quando a violência do regime matou e torturou quem lhe contestasse, desde então, a igreja católica no Brasil pendeu quase toda contra a ditadura militar.

A Igreja Católica e o Golpe Militar de 1964

Desde que se estabeleceu em Roma como instituição, que a igreja estendeu o seu poder por todos os reinos europeus. Conviveu lado a lado com as monarquias absolutistas, só enfraquecendo o seu poder com a chegada do protestantismo no século XVI. Aos poucos os estados tornaram-se laicos, separando-se definitivamente da igreja católica. Mas o maior golpe ao poder da instituição foi no fim da Segunda Guerra Mundial, quando os países do leste europeu foram libertados da opressão nazista pelos soviéticos, que neles estabeleceu regimes socialistas e expulsaram a igreja, considerada alienante e conivente com as atrocidades de regimes opressivos. Esta expulsão valeu a retratação de vários membros da igreja, que analisaram a sua atuação no leste europeu e o porquê de ser preterida aos comunistas.
Diante da Guerra Fria, o comunismo representava para a igreja católica uma forte ameaça diante da sua doutrina considerada alienante pelos engajados. A visão de que comunismo e ateísmo eram indissolúveis passou a fazer parte do imaginário popular brasileiro, incitado pelos padres em seus sermões dominicais. Alguns anos antes do golpe militar, subiu ao poder nos EUA John Kennedy, primeiro presidente católico daquele país. Esta condição religiosa de Kennedy fortaleceu a boa imagem deste lado da Guerra Fria diante da América Latina. Em 1961 os países católicos ricos criaram e financiaram o plano Caritas (caridade, em latim), que tinham como objetivo distribuir pela América Latina alimentos, esmolas e medicamentos. Implantado em quase todas as dioceses do Brasil, o Caritas também servia como doutrinador dos pobres que ajudava, incitando o repúdio total contra os perigos do “comunismo ateu”.
Nos fins de 1963, sob as bênçãos do presidente Kennedy, chegava ao Brasil o padre Patrick Peyton, um irlandês naturalizado estadunidense, conhecido como o padre das “estrelas”, por gostar de aparecer ao lado das celebridades de Hollywood. Padre Peyton foi preparado pela Agência Central de Inteligência (CIA) do serviço secreto norte-americano, promovendo no Brasil a Cruzada pelo Rosário em Família. A pregação de Patrick Peyton em seus concorridos encontros, atingiu em cheio milhares de famílias brasileiras. Essa pregação consistia em alertar aos brasileiros quanto aos perigos de um governo que não fosse como os dos EUA, e contra a ameaça comunista à família e à religião. No início de 1964 uma missa celebrada por padre Peyton foi o primeiro programa de televisão em rede a cobrir todo o país, tendo o suporte técnico feito em Washington.
Nos meandros do golpe, agentes religiosos colaboraram decisivamente com os golpistas. Deflagrado o golpe, a igreja católica aplaudiu. Para garantir que os militares não sofressem reveses da esquerda, muitos clérigos atuaram como delatores. Participações contundentes de ativistas anticomunistas e da igreja estão registradas nas atuações de Antônio de Castro Mayer, bispo de Campos, e de Geraldo de Proença Sigaud, arcebispo de Diamantina.
Na marcha que recebeu os militares golpistas no Rio de Janeiro, em 2 de abril de 1964, mulheres representantes da tradicional família brasileira, seguindo o lema de Patrick Peyton (na foto com um quadro de Maria com o menino Jesus), “família que reza unida, permanece unida”, estenderam os seus rosários, assinalando com este gesto o papel que exercera a igreja católica na consolidação do novo regime ditatorial que se instalava no Brasil.

Núcleos Conservadores e Progressistas da Igreja

O apoio da igreja católica aos golpistas militares começou a esvair-se tão logo a truculência da caserna mostrou ao que veio. Mandatos foram cassados, assim como direitos civis de exercer o sufrágio, a liberdade de expressão, no mesmo caldeirão incluíram a violência e a tortura. A ditadura, ladeada por grande violência, estava estabelecida. Diante das atrocidades, a igreja deixou de ser uma aliada para transformar-se em feroz opositora ao regime militar.
Nos primeiros anos do regime militar, dois núcleos da igreja mostraram claramente as suas posições: os católicos conservadores e os católicos progressistas. Para os conservadores, o regime militar evitaria o “comunismo ateu”. Além dos comunistas, esse núcleo reacionário incluiu como inimigos o espiritismo, a maçonaria, a umbanda, o protestantismo e todas as idéias estabelecidas no Concílio do Vaticano II, por João XXIII. Muitos foram os clérigos delatores que surgiram com o núcleo.
O núcleo dos católicos progressistas começou a ser perseguidos pelo regime militar, o que desencadeou da parte deles um engajamento que os fez combater veementemente a ditadura. Destacaram-se como árduos defensores da liberdade e opositores à violência militar, dom Hélder Pessoa Câmara, em Pernambuco; dom Paulo Evaristo Arns, em São Paulo; e dom Pedro Casaldáliga, na região rural do Araguaia.

Torturado, Castrado e Assassinado

A grande tragédia que marcaria de vez inclinação da igreja católica à oposição à ditadura foi o assassínio do padre Antônio Henrique Pereira Neto em Pernambuco. Coordenador da Pastoral da Arquidiocese de Olinda e Recife, Antônio Henrique desenvolvia atividades contra os métodos de repressão usados pelo regime, ao lado do arcebispo Hélder Câmara, de quem era braço direito.
Em março de 1968 o estudante de 17 anos, Edson Luís de Lima e Souto, foi morto pelos militares no restaurante “Calabouço”, no centro do Rio de Janeiro, desencadeando revolta e protestos por todo o país. Padre Antônio Henrique celebrou uma missa em memória do estudante assassinado, tornando-se desde então, alvo da ira dos militares. No dia 26 de maio de 1969 o CCC (Comando de Caça aos Comunistas) seqüestrou, torturou e matou o padre. O corpo foi deixado em um matagal da cidade universitária do Recife. Padre Antônio Henrique estava pendurado pelos pés em um galho de árvore; trazia marcas brutais de tortura, como queimaduras de cigarro, castração da genitália, marcas de espancamento, cortes profundos em todas as partes do corpo e dois ferimentos de bala que indicavam a execução final.
Dom Hélder Câmara repudiou a violência da ditadura militar. Após divulgar um manifesto de apoio à ação católica operária no Recife, ficou proibido pelo regime de falar em público no Brasil. Silenciado no país, dom Hélder passou a aceitar convites para participar de conferências no exterior. Para que as palavras do religioso, ditas fora do país, aqui não chegassem, o governo proibiu qualquer menção de apoio da imprensa a ele. Durante anos, apesar de atuação intensa contra a ditadura, o nome de Hélder Câmara jamais foi mencionado pela mídia. Mesmo acusado pelos militares de demagogo e comunista, o religioso ficou conhecido como Peregrino da Paz e Irmão dos Pobres.
Diante da morte do padre Antônio Henrique, as relações da igreja católica com a ditadura militar deterioraram-se de vez, fazendo com que a primeira atuasse de forma decisiva contra o regime, combatendo-o veementemente até o fim.

A Ira da Ditadura Contra os Dominicanos

A ordem dos dominicanos foi a mais perseguida pela ditadura militar, seus integrantes eram considerados por demais progressistas e de cunho subversivo. Em 1965 chegou a ser cogitado a expulsão da ordem do Brasil. O cerco aos dominicanos passou a ser mais intenso quando o regime descobriu que havia uma ligação da ordem com Carlos Marighella, líder guerrilheiro, fundador do grupo armado Aliança Libertadora Nacional (ALN), considerado o maior inimigo da ditadura militar.
Carlos Alberto Libânio Christo (Frei Betto), Fernando de Brito, Ivo Lesbaupin, Ratton, Magno e Tito de Alencar Lima, eram dominicanos que colaboravam com diversas organizações políticas clandestinas que combatiam a ditadura militar. O apoio dos dominicanos incluía proteger perseguidos políticos de cair nas garras de torturadores quando presos, escondendo-os em lugares seguros, transportando-os para outras cidades ou mesmo para outro país.
Para proteger os perseguidos do regime, os dominicanos envolveram-se em perigosas operações. Frei Betto (foto) foi um dos que mais correu risco. Trabalhou como chefe de reportagem do jornal “Folha da Tarde”, do grupo Folhas, considerado um veículo de comunicação progressista. Em 1967 Frei Betto foi demitido ao lado de vários outros colegas, e a “Folha da Tarde”, sob a direção Antônio Aggio Junior, passou a ser porta-voz da ditadura. Ameaçado de ser preso, Frei Betto passou a viver na clandestinidade. Escondeu-se por algum tempo na casa de uma família estadunidense. Por fim conseguiu uma bolsa de estudos para a Alemanha, que lhe fez viver algum tempo no Seminário Cristo Rei, em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, onde tentava familiarizar-se com os hábitos alemães, bastantes comuns no sul do país. Durante este tempo, Frei Betto arriscou a vida ao aceitar a tarefa designada por Marighella, de ajudar perseguidos políticos a atravessar a fronteira do Brasil com o Uruguai. Preso, Frei Betto foi condenado a quatro anos de prisão. Após o fim do regime militar continuou a viver em São Paulo, a escrever e assessorar movimentos sociais.
Frei Fernando de Brito trabalhava na Livraria Duas Cidades, em São Paulo. O dominicano estava sob a vigilância da repressão desde 1 de abril de 1964, quando o jornal que editava “Brasil Urgente” saiu pela última vez com a manchete “O golpe está nas ruas”. Em 2 de novembro de 1969, Frei Fernando foi para o Rio de Janeiro para tratar de uma publicação com o secretário da Editora Vozes. Ao seu lado embarcou Frei Ivo, carioca que aproveitava a viagem para visitar a família. Poucas horas no Rio de Janeiro e os dominicanos foram presos pela repressão, sendo levados para o temível Centro de Informações da Marinha (Cenimar). Isolados, os religiosos foram torturados. Frei Fernando foi despido e pendurado no famoso pau-de-arara, sofrendo choques por todo o corpo, culminando com um fio elétrico sendo-lhe introduzido na uretra. O objetivo da tortura era descobrir o paradeiro de Marighella, considerado o inimigo número um do governo. Após horas de tortura, Fernando terminou por revelar a senha que possibilitava um encontro com Marighella. Feita a revelação, Fernando foi levado ao encontro de Frei Ivo, reconhecendo-o apenas pelas roupas, pois o amigo trazia o rosto deformado pela tortura. Levado para o Dops de São Paulo, Fernando descobriu que lhe fora poupado o rosto para que ele voltasse a trabalhar na Livraria Duas Cidades no dia 4 de novembro, e assim, atraísse Marighella para uma cilada. No fim da tarde Fernando recebeu um telefonema que dizia:
Ernesto pediu que vocês o encontrem na gráfica hoje às 20 horas.”
A senha era para um contacto com Marighella. Fernando pensou que a voz fosse de um dos homens que o interrogara no Dops, a fazer-lhe um teste, o frei confirmou com um “sim”. Mas a voz era mesmo do contacto de Marighella. Com o telefone grampeado, a conversa tinha sido gravada pela repressão. Poucas horas depois, os freis Fernando e Ivo foram obrigados a entrar no fusca azul que costumavam ir ao encontro de Marighella. Assim, forçadamente, os dominicanos participaram da emboscada que tirou para sempre das páginas da história do Brasil Carlos Marighella, morto por vários tiros na esquina da Rua Oscar Freire com a Alameda Casa Branca. Frei Fernando e Frei Ivo foram condenados a quatro anos de prisão. Com o fim da ditadura, Fernando passou a viver em Conde, Bahia, passando a trabalhar com a relação entre o cristianismo e as religiões africanas. Ivo deixou os dominicanos, passando a viver no Rio de Janeiro como professor de ciências políticas, casando-se e tendo dois filhos.
Outro envolvido com Marighela era Frei Tito, preso em São Paulo naquele fatídico novembro de 1969, e entregue ao temido delegado Sérgio Fleury. Na prisão sofreu todos os tipos de tortura, recebeu cutiladas, choques, foi sentado nu em uma cadeira de metal eletrificada e, com o chão molhado, a intensidade dos choques aumentava. Tito sofreu ainda, todas as ofensas religiosas, massacre sexual, queimaduras de cigarro, tapas simultâneos com as duas mãos nos ouvidos, pau-de-arara e pauladas. Condenado a quatro anos de prisão, Tito foi um dos 70 presos políticos trocados pelo embaixador suíço Bücher, seqüestrado por guerrilheiros em 1971. Deportado para o Chile, seguiu para a Europa. Mesmo depois de exilado em Paris, a receber total apoio dos dominicanos, Frei Tito jamais se recuperou emocionalmente, enforcar-se-ia aos 29 anos, em 10 de agosto de 1974, totalmente enlouquecido pelos traumas das torturas que sofrera.
Na fotografia acima, momento histórico do julgamento dos dominicanos, todos condenados a quatro anos de prisão. Da esquerda para a direita, Frei Fernando, Frei Betto, Frei Ivo e Frei Tito.

Prisões, Torturas, Humilhações e Mortes Dentro da Igreja

A ditadura militar chegou aos anos 1970 com o total repúdio da igreja católica, que se tornou grande opositora das suas atrocidades truculentas. A Teologia da Libertação explodiu pelo país, sendo os seus seguidores grandes opositores do regime militar.
Mas os embates entre a igreja católica e os ditadores começou bem antes. Um grande incidente acontecera em 1967, quando a repressão invadira a casa de dom Valdir Calheiros, bispo de Volta Redonda, seguida da prisão de um diácono francês e de seminaristas. Diante da truculência, Costa e Silva enviou o senador Daniel Krieger ao cardeal Avelar Brandão, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em missão de paz. Já no final de 1968 a relação entre a igreja e o regime militar estava combalida. No dia 1 de outubro daquele ano, o cardeal de São Paulo, Agnelo Rossi, em solidariedade aos sacerdotes presos, recusou a medalha da Ordem Nacional do Mérito, oferecida por Costa e Silva, causando constrangimento ao então presidente.
Ainda em novembro de 1969, outra truculência contra religiosos aconteceria com a prisão da freira Maurina Borges da Silveira, em Ribeirão Preto. Diretora do orfanato Lar Santana, a freira cedia uma sala para que se efetuasse a realização de reuniões de estudantes. A freira não sabia que eles pertenciam à clandestina Frente Armada de Libertação Nacional (FALN). Presa, foi vítima de tortura com espancamentos, choques e violência sexual. Houve comentários que a freira teria ficado grávida do torturador, o delegado Fleury. A freira desmentiu os boatos.
Outro grande opositor do regime militar foi o catalão dom Pedro Casaldáliga, que atuou energicamente a favor dos camponeses, dos índios e sem-terras do Araguaia. Corajosamente denunciou o autoritarismo da ditadura, sofrendo com isto perseguições e ameaças de morte. O governo chegou a pressionar o Vaticano para que retirasse Casaldáliga do Araguaia, mas o então papa João Paulo II não permitiu que a pressão vingasse. Em outubro de 1976, Casaldáliga e o jesuíta João Bosco Penido Burnier, missionário entre os posseiros de São Félix do Araguaia, Mato Grosso, foram ao povoado de Ribeirão Bonito participar da celebração da novena de Nossa Senhora Aparecida, celebrando a cerimônia principal. Ficaram sabendo que duas mulheres estavam a ser torturadas na delegacia local. Os dois tentaram interceder pelas mulheres, mas foram recebidos por policiais no pátio da delegacia; após breves minutos de diálogo, um dos policiais agrediu com um soco e uma coronhada o padre João Bosco Burnier, terminando com um tiro fatal no padre. Considerado um protetor dos pobres, o jesuíta foi pranteado por todos. Após a missa de sétimo dia do padre, o povo seguiu em procissão até a delegacia, libertou os presos e destruiu o prédio. No local de martírio do padre Burnier, foi erguido um santuário.
Outro que sofreu perseguição dos militares foi o bispo de Nova Iguaçu, dom Adriano Hipólito, tido como um grande defensor dos perseguidos políticos de toda a Baixada Fluminense. Amigo dos oprimidos e amado pelo povo, começou a incomodar a ditadura, tanto que, em 22 de setembro de 1976, foi seqüestrado por militares, que o espancou, pintando-lhe o corpo de vermelho, finalmente foi deixando nu no meio da noite, em um local ermo. Teve o carro explodido por uma bomba quando se encontrava à porta da CNBB, no Rio de Janeiro. Uma outra bomba foi detonada na catedral de Nova Iguaçu, destruindo o altar. Mas nada intimidou dom Adriano. Fez alianças com vários partidos de esquerda, denunciaria grupos de extermínios na Baixada Fluminense. Só parou com a luta em defesa do povo em 10 de agosto de 1996, quando morreu, já vivendo ao vento da democracia.

Dom Paulo Evaristo Arns: “Brasil Nunca Mais

Durante a ditadura, dom Paulo Evaristo Arns tornou-se o maior defensor dos direitos humanos no Brasil, mesmo sendo um dos que recebeu o golpe militar de braços abertos em 1964. Contrariando os militares, dom Paulo Evaristo Arns rezou missa pelo estudante Alexandre Vanucchi Leme, morto pela ditadura em 1973.
Em 1975 foi morto sob tortura, o jornalista Vladimir Herzog. A ditadura ainda tentou simular um suicídio, divulgando um falso laudo sobre a morte do jornalista. A resposta da sociedade brasileira foi um culto ecumênico realizado na Catedral da Sé, em São Paulo, celebrado por dom Paulo Evaristo Arns, pelo rabino Henry Sobel e pelo reverendo Jaime Wright. As religiões uniam-se, pela primeira vez, contra as atrocidades da ditadura militar.
Dom Paulo Evaristo Arns é um dos autores do dossiê que documenta prisões, torturas e desaparecimentos no país: “Brasil, Nunca Mais”.
Se a tortura era veemente negada pelo regime militar, com a morte de Vladimir Herzog tornou-se impossível escondê-la. Uma vez revelada e provada a sua existência, era mais difícil sumir com os presos. Através das pastorais, a igreja passou a desenvolver trabalhos com os presos e a apoiar as suas famílias; organizava visitas freqüentes aos presos políticos, como forma de alerta aos torturadores, como se dissesse: “sabemos que essa pessoa existe e que está presa, cuide para que ela não desapareça”. Dom Paulo Evaristo Arns foi enérgico com esta postura, incentivando a mesma ação de proteção aos direitos humanos por todas as igrejas do Brasil. Assim a igreja católica, forte aliada dos golpistas de 1964, passou a repudiar a violência, a tortura e o próprio regime militar. Sua oposição à ditadura foi decisiva para a sua queda e, para a proteção de várias vidas dentro dos calabouços. Lutar contra a repressão, foi uma forma da igreja católica redimir-se diante deste período negro da história do Brasil.

 
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Sexta-feira, 24 de Julho de 2009

A CANÇÃO DE AMOR DE J. ALFRED PRUFROCK - T. S. ELIOT

 

 

Um dos mais belos poemas produzidos na literatura inglesa do século XX, “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock”, com as suas imagens floridas em uma densa agonia destilada em versos livres, a traduzir um angustiante estado da alma, complexa, com palavras sopradas como uma canção simbolista, rumando ao vazio.
T. S. Eliot escreveu o poema em 1912, numa época de marasmo que se seguiu aos novos costumes trazidos pela Revolução Industrial, e o período de conturbações que culminaria com o início da Primeira Guerra Mundial. “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock” só seria publicado pela primeira vez em 1915, na revista “Poetry”, e lançado no livro “Prufrock e Outras Observações”, em 1917, que trazia uma recolha de poemas do autor. Uma vez publicado, o poema deu uma outra visão à poesia inglesa que se espalhou pelo mundo.
Longo, angustiado e angustiante, T. S. Eliot mostra o medo de existir no tédio, a luta entre o desejo e a impotência, a existência e o envelhecer, a ansiedade de transitar em um novo mundo urbano e a necessidade de alienar-se a ele. Numa concepção metafísica, sentimentos e idéias interligam-se aos objetos em volta.
Na seqüência da epígrafe de Dante, “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock” abre-se em um monólogo misterioso, quase familiar, nos antípodas da dicção vitoriana. Prufrock deambula entre imagens claras e sombrias, desenha-se o homem sensível, burguês, blasé, que oscila entre a erudição sublime dos sentimentos, traduzida por cantos de sereias e alusões a Michelangelo; e ao grotesco do cotidiano, revelado em imagens de hotéis baratos, de homens em mangas de camisa. Se ao início Prufrock conduz o desejo e a intenção de levar a amada para o quarto de hotel, por fim ele revela-se estéril diante do mundo.
O poema não deixa de ser uma canção de amor, bela e inquietante, que sopra sobre uma hesitação perene, os sentimentos parecem petrificados pela existência, oscilando entre o desejo e a estabilidade do tédio. As máscaras de Prufrock revelam-lhes os sentimentos e também o próprio T.S. Eliot.
A tradução do poema aqui apresentada é do português João Almeida Flor, que a designou como “uma ordem de construção musical”. Na transposição para a língua portuguesa, os versos ficaram maiores do que os do poema original. O tradutor preferiu estar atento aos ritmos sonoros e à musicalidade do poema.

T. S. Eliot

Thomas Stearns Eliot nasceu em St. Louis, Estados Unidos, a 26 de setembro de 1888. Mudou-se para a Inglaterra aos 25 anos, em 1914. Em 1927, aos 39 anos, tornou-se cidadão britânico, e como tal, tornou-se um dos maiores representantes do modernismo britânico, sendo um dos seus principais poeta e dramaturgo.
A poesia de T. S. Eliot revela uma originalidade profunda e singular, repleta de muitas influências, entre elas a dos simbolistas franceses. Ao ler o livro “The Symbolist Movement in Literature”, de Arthur Symons, revelou-se-lhe uma grande influência, que culminaria com a poesia de Laforgue. Os estudos de filosofia auxiliaram o escritor a ter uma sensível concepção metafísica, ligando assim as palavras e idéias a objetos singulares, traduzindo-as em linguagem falada.
T. S. Eliot rompeu com a tradição poética do século XIX. Os temas da sua obra eram o vazio, a penitência, a redenção, a futilidade da existência, a angústia, a incerteza do tédio e a morte.
O escritor recebeu o prêmio Nobel de literatura em 1948. Era um homem angustiado com o tédio, um denso propagador da desolação vincada pelas palavras livres, límpidas em seus símbolos. Morreu em Londres, em janeiro de 1965.


A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock (tradução)

S’i credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza più scosse.
Ma però che già mai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s’i’odo il vero,
Sanza tema d’infamia ti rispondo.


(Dante Alighieri, La Divina Commedia, Inferno)


Então vem, vamos juntos os dois,
A noite cai e já se estende pelo céu,
Parece um doente adormecido a éter sobre a mesa;
Vem comigo por certas ruas semidesertas
Que são o refúgio de vozes murmuradas
De noites em repouso em hotéis baratos de uma noite
E restaurantes com serradura e conchas de ostra:
Ruas que se prolongam como argumento enfadonho
De insidiosa intenção
Que te arrasta àquela questão inevitável...
Oh, não perguntes “Qual será?”
Vem lá comigo fazer a tal visita.

Passeiam damas na sala para além e para aqui
E falam de Miguel Ângelo Buonarroti
A névoa amarela que esfrega as costas nas vidraças
O fumo amarelo que esfrega o focinho nas vidraças
Passou a língua dentro dos recantos da noite,
Demorou-se nos charcos que ficam na sarjeta,
Deixou cair nas costas a fuligem solta das chaminés,
Deslizou pelo terraço, de repente deu um salto,
E, ao ver serena aquela noite de Outubro,
Deu uma volta à casa, enroscou-se e dormiu.

Haverá por certo um tempo
Para o fumo amarelo que desliza pela rua
E esfrega as costas nas vidraças;
Haverá um tempo, tempo
De compor um rosto para olhares os rostos que te olharem;
Tempo de matar, tempo de criar,
E tempo para todos os trabalhos e os dias, de mãos
Que se erguem e te deixam cair no prato uma pergunta;
Tempo para ti e tempo para mim,
E tempo ainda para cem indecisões
E outras tantas visões e revisões
Antes de tomar o chá e a torrada.

Passeiam damas na sala para além e para aqui
E falam de Miguel Ângelo Buonarroti.

Haverá por certo um tempo
De pensar se corro tal risco. “Corro tal risco?”
Tempo de virar costas e descer as escadas
Com esta clareira calva no meio do cabelo –
(Hão-de dizer: “Este já tem pouco cabelo!”)
Com a casaca, colarinho hirto subido até ao queixo,
Gravata distinta e discreta mas ornada de um sóbrio alfinete –
(Hão-de dizer: “Que magro está, nos braços e nas pernas!”)
Vou correr o risco
De perturbar o universo?
Num só minuto há tempo
Para decisões e revisões, a revogar noutro minuto.

Pois já as conheço todas bem, conheço todas –
Sei as noites, as tardes, as manhãs,
Às colheres de café andei medindo a minha vida;
Sei que em breve agonia se esvaem as vozes
Abafadas na música de um quarto mais além.
Como havia eu de ousar, assim?

E já conheço os olhares, conheço todos –
Olhares que te reduzem a fórmulas e a dizeres,
E quando eu for apenas fórmula, esticado em alfinete,
Quando estiver na parede, trespassado, contorcido,
Como haverei então de começar
A cuspir as pontas de cigarro dos meus dias e jeitos?

E como havia eu de ousar, assim?
E já conheço os braços, conheço todos –
Braceletes nos braços brancos e nus
(Mas com uma penugem loira à luz do candeeiro)
Será pelo perfume de um vestido
Que sou levado assim a divagar?
Braços estendidos na mesa ou envoltos num xaile.
E havia eu de ousar assim?
Por onde havia eu de começar?

E se eu disser que dou passeios por becos quando anoitece,
E vou fitando o fumo que sobe do cachimbo
De homens em mangas de camisa, à janela, solitários?...

Eu devia ter sido um ferro de duas garras
A rasgar o fundo desses mares de silêncio.

E a tarde, a noite, a dormir tão sossegada!
Afagada por dedos esguios,
A dormir... exausta... ou a fingir,
Estirada aqui no chão, à beira de nós dois.
Depois do chá, dos bolos, dos gelados, eu tinha ainda
Aquela força que provoca a crise do instante?
Mas apesar de lágrimas e jejuns, lágrimas e preces,
E apesar de ter visto a minha cabeça (um tanto calva já) ser entreguenuma salva,
Não sou nenhum profeta – e isso pouco importa;
Já vi tremer o meu instante de esplendor
E vi o eterno lacaio agarrar-me a casaca, rindo sorrateiro,
E bastará dizer que tive medo.

E tinha valido a pena, depois de tudo isto,
Depois da geleia, das xícaras, do chá,
Entre porcelanas, a meio de qualquer conversa de nós dois,
Tinha valido a pena
Ter rematado o assunto com um sorriso,
Ter estreitado o universo numa bola
E fazê-la rolar, rumo a qualquer questão inevitável,
E dizer: “Sou Lázaro e venho de entre os mortos.
Voltei para vos contar tudo, vou contar-vos tudo” –
Se alguém, ajeitando a cabeça dela numa almofada,
Dissesse: “Não era nada disso que eu queria dizer
Não é isso, nada disso.”

E tinha valido a pena, depois de tudo,
Tinha mesmo valido a pena,
Depois dos pátios, dos poentes, das ruas chuviscadas,
Dos romances, das xícaras de chá, das saias arrastando pelo chão –
E depois disto e tantas coisas mais? –
Não é possível dizer mesmo o que quero dizer!
Mas se uma lanterna mágica mostrasse na tela a imagem dos nervos:
Tinha valido a pena
Se alguém, compondo a almofada ou tirando um xaile,
Dissesse, ao voltar-se para a janela:
“Não é isso, nada disso,
Não era nada disso que eu queria dizer.”

Não! Não sou o príncipe Hamlet e nem tinha que ser;
Sou um fidalgo da corte, desses que servem
Para aumentar a comitiva, abrir uma ou duas cenas,
Dar conselhos ao príncipe; instrumento dócil, é claro,
Reverente, satisfeito por ser prestável,
Político, meticuloso e avisado;
Cheio de sentenças doutas, um tanto obtuso todavia;
Às vezes, por sinal, quase ridículo –
Quase o bobo, às vezes.

Estou a ficar velho... Estou a ficar velho...
Hei-de andar com a dobra da calça revirada.

E se eu puxar atrás o risco do cabelo? Arrisco-me a trincar
um pêssego?
Hei-de vestir calça de flanela branca e passear na praia.
Já ouvi as sereias cantando, umas às outras.

Creio que para mim não vão cantar.
Tenho-as visto na direcção do mar a cavalgar as ondas
Penteando crinas brancas de ondas encrespadas
Quando o vento revolve as águas escuras e brancas.

Ficámos nas mansões do mar nós dois em abandono
Entre as ondinas com grinaldas de algas castanhas purpurinas
Até que vozes humanas nos despertam e morremos naufragados.

Tradução: João Almeida Flor

The Love Song of J. Alfred Prufrock (original)

S’i credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza più scosse.
Ma però che già mai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s’i’odo il vero,
Sanza tema d’infamia ti rispondo.

(Dante Alighieri, La Divina Commedia, Inferno)

Let us go then, you and I,
When the evening is spread out against the sky
Like a patient etherized upon a table;
Let us go, through certain half-deserted streets,
The muttering retreats
Of restless nights in one-night cheap hotels
And sawdust restaurants with oyster-shells:
Streets that follow like a tedious argument
Of insidious intent
To lead you to an overwhelming question. . .
Oh, do not ask, "What is it?"
Let us go and make our visit.

In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.

The yellow fog that rubs its back upon the window-panes
The yellow smoke that rubs its muzzle on the window-panes
Licked its tongue into the corners of the evening
Lingered upon the pools that stand in drains,
Let fall upon its back the soot that falls from chimneys,
Slipped by the terrace, made a sudden leap,
And seeing that it was a soft October night
Curled once about the house, and fell asleep.

And indeed there will be time
For the yellow smoke that slides along the street,
Rubbing its back upon the window-panes;
There will be time, there will be time
To prepare a face to meet the faces that you meet;
There will be time to murder and create,
And time for all the works and days of hands
That lift and drop a question on your plate;
Time for you and time for me,
And time yet for a hundred indecisions
And for a hundred visions and revisions
Before the taking of a toast and tea.

In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.

And indeed there will be time
To wonder, "Do I dare?" and, "Do I dare?"
Time to turn back and descend the stair,
With a bald spot in the middle of my hair -
[They will say: "How his hair is growing thin!"]
My morning coat, my collar mounting firmly to the chin,
My necktie rich and modest, but asserted by a simple pin -
[They will say: "But how his arms and legs are thin!"]
Do I dare
Disturb the universe?
In a minute there is time
For decisions and revisions which a minute will reverse.

For I have known them all already, known them all;
Have known the evenings, mornings, afternoons,
I have measured out my life with coffee spoons;
I know the voices dying with a dying fall
Beneath the music from a farther room.
So how should I presume?

And I have known the eyes already, known them all -
The eyes that fix you in a formulated phrase,
And when I am formulated, sprawling on a pin,
When I am pinned and wriggling on the wall,
Then how should I begin
To spit out all the butt-ends of my days and ways?
And how should I presume?

And I have known the arms already, known them all -
Arms that are braceleted and white and bare
[But in the lamplight, downed with light brown hair!]
Is it perfume from a dress
That makes me so digress?
Arms that lie along a table, or wrap about a shawl.
And should I then presume?
And how should I begin?

Shall I say, I have gone at dusk through narrow streets
And watched the smoke that rises from the pipes
Of lonely men in shirt-sleeves, leaning out of windows? . . .

I should have been a pair of ragged claws
Scuttling across the floors of silent seas.

And the afternoon, the evening, sleeps so peacefully!
Smoothed by long fingers,
Asleep . . . tired . . . or it malingers,
Stretched on the floor, here beside you and me.
Should I, after tea and cakes and ices,
Have the strength to force the moment to its crisis?
But though I have wept and fasted, wept and prayed,
Though I have seen my head (grown slightly bald) brought in upon a platter,
I am no prophet–and here's no great matter;
I have seen the moment of my greatness flicker,
And I have seen the eternal Footman hold my coat, and snicker,
And in short, I was afraid.

And would it have been worth it, after all,
After the cups, the marmalade, the tea,
Among the porcelain, among some talk of you and me,
Would it have been worth while,
To have bitten off the matter with a smile,
To have squeezed the universe into a ball
To roll it toward some overwhelming question,
To say: "I am Lazarus, come from the dead,
Come back to tell you all, I shall tell you all"
If one, settling a pillow by her head,
Should say, "That is not what I meant at all.
That is not it, at all."

And would it have been worth it, after all,
Would it have been worth while,
After the sunsets and the dooryards and the sprinkled streets,
After the novels, after the teacups, after the skirts that trail along the floor -
And this, and so much more? -
It is impossible to say just what I mean!
But as if a magic lantern threw the nerves in patterns on a screen:
Would it have been worth while
If one, settling a pillow or throwing off a shawl,
And turning toward the window, should say:
"That is not it at all,
That is not what I meant, at all."

No! I am not Prince Hamlet, nor was meant to be;
Am an attendant lord, one that will do
To swell a progress, start a scene or two
Advise the prince; no doubt, an easy tool,
Deferential, glad to be of use,
Politic, cautious, and meticulous;
Full of high sentence, but a bit obtuse;
At times, indeed, almost ridiculous -
Almost, at times, the Fool.

I grow old . . . I grow old . . .
I shall wear the bottoms of my trousers rolled.

Shall I part my hair behind? Do I dare to eat a peach?
I shall wear white flannel trousers, and walk upon the beach.
I have heard the mermaids singing, each to each.

I do not think they will sing to me.

I have seen them riding seaward on the waves
Combing the white hair of the waves blown back
When the wind blows the water white and black.

We have lingered in the chambers of the sea
By sea-girls wreathed with seaweed red and brown
Till human voices wake us, and we drown.

Cronologia

1888 – Nasce a 26 de setembro, em St. Louis, Missouri, EUA, Thomas Stearns Eliot.
1898 – Torna-se estudante da Smith Academy, em St. Louis.
1905 – Freqüenta a Milton Academy, em Massachusetts.
1906 – Entra para Harvard. Lê o livro “The Symbolist Movement in Literature”, de Arthur Symons. Conhece a poesia de Laforgue.
1910 – Termina licenciatura em Harvard.
1912 – Termina o poema “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock”.
1914 – Muda-se para a Inglaterra. Reúne-se com Ezra Pound.
1915 – Casa-se com Vivien Haigh-Wood. Publica “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock” pela primeira vez, na revista “Poetry”.
1916 – Trabalha como professor em Highgate Junior School.
1917 – Publica “Prufrock e Outras Observações”.
1922 – Publicado “A Waste Land”.
1927 – Torna-se cidadão britânico.
1928 – Publica “Lancelot Andrewes”.
1933 – Separa-se judicialmente de Vivien Haigh-Wood.
1940 – Publicado “East Coker”.
1941 – Publicado “A Dry Salvages”.
1947 – Morre Vivien Eliot.
1948 – Laureado com o Prêmio Nobel de Literatura.
1957 – Casa-se com Valerie Fletcher.
1965 – Morre em 4 de janeiro. Suas cinzas são levadas para East Coker.
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Terça-feira, 21 de Julho de 2009

O HOMEM NA LUA

 

 
No auge da Guerra Fria, União Soviética e Estados Unidos comparavam forças sobre o controle ideológico das nações do planeta. A produção em série de armas nucleares era uma prioridade, medindo-se o potencial de uma nação pela quantidade de ogivas nucleares que tinha em seu poder. No fim dos anos 1950, o espaço tornou-se alvo da demonstração desse poder. Iniciava-se, em 1957, a corrida espacial com o lançamento do satélite artificial soviético Sputnik. Desde então, o governo norte-americano tomou como objetivo levar o primeiro homem a pousar em solo lunar, antecipando-se aos soviéticos.
No dia 20 de julho de 1969, a Apollo 11 cumpria a sua missão. Neil Armstrong, astronauta norte-americano, era o primeiro homem a pisar no satélite da Terra. Numa eloqüente e solene frase, ele sintetizou os seus passos no solo da Lua: “Foi um pequeno passo para o homem, mas um salto gigantesco para a Humanidade”.
A viagem à Lua, um velho sonho dos homens desde a mais remota antiguidade, representou um ápice na aventura humana no século XX. Depois da conquista dos pólos e das grandes altitudes do planeta, o homem estendia a sua saga pelo mítico satélite da Terra. Politicamente, era uma grande vitória da ideologia do ocidente contra a do oriente, dos capitalistas contra os comunistas, dos americanos contra os soviéticos. No momento em que os meios utilizados para manter tal ideologia eram contestados, com grandes manifestações nos Estados Unidos e no mundo contra a Guerra do Vietnã, chegar à Lua serviu para que o governo americano distraísse a atenção da nação, proporcionando-lhe um grande espetáculo, e, ao mesmo tempo, mantendo a supremacia tecnológica do poder, amenizando as críticas e contestações. Cientificamente, a ida do homem quase nada acrescentou à humanidade, sendo uma desolação absoluta, fazendo com que o projeto fosse encerrado, sem jamais ser retomado.
Enquanto Neil Armstrong e Edwin “Buzz” Aldrin fincavam a bandeira norte-americana em solo lunar, os terráqueos assistiam extasiados à grande aventura, transmitida pela televisão para todo o planeta. A emoção de ver o homem pisar no solo da Lua concretizava todas as lendas mitológicas, atingindo tanto o ocidente, como os países da Cortina de Ferro. Quatro décadas depois da conquista, a façanha continua a criar polêmicas, com correntes a declarar que tudo não passou de uma farsa. Mesmo assim, a chegada da missão Apollo 11 à Lua continua a ser a maior aventura do homem sobre a conquista das fronteiras do universo, sendo o lugar mais distante que ele já alcançou no tempo e no espaço.

O Sputnik é Lançado no Espaço

A beleza da Lua pairando no horizonte, a complexidade e influência do satélite em diversos fenômenos da Terra, sempre despertou a imaginação do homem. Poetas, escritores, cientistas, todos sonharam um dia pisar em solo lunar, uma aventura alimentada bem antes das grandes civilizações escreverem a sua história.
Oficialmente, a aventura que culminaria com o primeiro homem a passear pelo satélite da Terra, em 1969, iniciou-se em 1957. Em 4 de outubro daquele ano, cientistas e engenheiros soviéticos lançaram do Cosmódromo de Baikonur, em Tyuratam, na União Soviética (atual Cazaquistão), o satélite artificial Sputnik, que consistia numa bola de 84 quilos. Pela primeira vez um satélite artificial foi posto na órbita da Terra. Estava iniciado o período que passou para a história como a era espacial, demarcando a corrida ao céu.
Nikita Khrustchov, então líder da União Soviética, sob a colaboração do cientista Serguei Korolev, pôs o seu país à frente dos Estados Unidos na questão espacial. Para comprovar o êxito do Sputnik, era preciso esperar noventa minutos, tempo que o satélite levava para completar uma órbita em torno da Terra. Findos os noventa minutos, eram captados pelos cientistas sons emitidos por um transmissor do Sputnik, confirmando a missão. Ainda em 1957, em 3 de novembro, o Sputnik 2 levava ao espaço o primeiro ser vivo, a cadela Laika, da raça Kudriavka. Os soviéticos tornaram-se os donos do espaço, enviando várias missões não tripuladas à Lua.

Yuri Gagarin, o Primeiro Astronauta no Espaço

O sucesso do satélite russo causou grande repercussão no mundo. Nos Estados Unidos, o governo do presidente Eisenhower foi criticado por deixar que os soviéticos saíssem à frente. Quatro meses depois do lançamento do Sputnik, em 31 de janeiro de 1958, os americanos responderam com o Explorer I, primeiro satélite artificial daquele país. Para minimizar a época dourada espacial soviética, os Estados Unidos, sempre a reboque dos seus opositores comunistas, decidiram criar uma agência espacial de índole civil, assim, em 29 de julho de 1958, surgia a National Aeronautics and Space Administration, a NASA. A instituição passou a centralizar todas as atividades espaciais que não fossem de caráter estritamente militar.
Ainda ofuscados pela União Soviética, os Estados Unidos criou o programa Mercury, que tinha como principais objetivos pôr em órbita um ser humano, estudar os seguimentos de controle de uma nave espacial e adquirir conhecimentos sobre a ausência de gravidade no corpo humano. Em abril de 1959, já se tinha selecionado os primeiros sete astronautas do programa Mercury.
A conquista espacial foi um dos temas que centralizou as eleições presidenciais norte-americanas, em 1960, que deram vitória a John F. Kennedy sobre Richard Nixon.
Em 12 de abril de 1961, mais uma vez os soviéticos saíram à frente dos seus rivais norte-americanos, pondo em órbita, pela primeira vez, um ser humano, o astronauta Yuri Gagarin, que se iria tornar um herói em todo o planeta, visitando vários países, levando consigo a propaganda do regime do seu país.
A resposta norte-americana veio em 5 de maio de 1961, com o vôo do projeto Mercury, que enviou o primeiro astronauta estadunidense, Alan B. Shepard, ao espaço. Shepard não conseguiu a projeção internacional obtida por Yuri Gagarin, muito menos ofuscar o seu carisma. Os soviéticos continuavam como os líderes absolutos da corrida ao espaço.
John Kennedy, já como presidente dos Estados Unidos, não se deixou ir à deriva do sucesso espacial soviético, em 25 de maio de 1961, fez o célebre discurso na Universidade Rice, que conclamava aos americanos o desafio de enviar homens à Lua, trazendo-os de volta a salvo. O feito, segundo o discurso, teria que ser alcançado antes que a década de 1960 terminasse. Para viabilizar o projeto, John F. Kennedy pediu ao Congresso as verbas necessárias àquele, que se tornara o maior desafio da Guerra Fria, vencer a corrida espacial. Assassinado em novembro de 1963, o presidente Kennedy não assistiria à chegada do homem à Lua.

Os Projetos Gemini e Apollo

O projeto Mercury consistia em uma nave espacial com capacidade de levar apenas um passageiro a bordo. Com a evolução tecnológica dos equipamentos e das naves, também os projetos deveriam ser mais sofisticados. Para suprir as deficiências antigas, foi criado o programa Gemini, que pretendia testar as técnicas desenvolvidas para a realização de uma viagem tripulada à Lua.
O programa Gemini, criado em março de 1965, realizou com êxito, dez missões tripuladas ao espaço. Suas naves comportavam dois astronautas por missão. O Gemini foi encerrado em 1966, conseguindo que os Estados Unidos alcançasse e ultrapasse a União Soviética na corrida ao espaço.
O sucessor do Gemini foi o programa Apollo, o mais complexo e desenvolvido de todos eles, que tinha como objetivo levar os primeiros seres humanos à Lua. Suas naves foram desenvolvidas para que pudessem transportar três passageiros. Três metas foram traçadas pela NASA para que se concretizasse o objetivo de chegar ao solo lunar: o número de passageiros, a forma da nave e o foguete que a iria propulsar ao espaço.
O projeto teve a genialidade do alemão Wernher von Braun, engenheiro famoso da época do regime nazista, que deserdou, fugindo do seu país, naturalizando-se norte-americano. Von Braun criou o foguete Saturno V, o maior até então, com potência suficiente para lançar uma nave ao espaço, levando três astronautas e, a partir daí, levá-la à Lua. Para a alunagem, Von Braun criou o módulo lunar.
A primeira nave do projeto, a Apollo 1, teve o espectro da tragédia a desenhar a sua história. Em 27 de janeiro de 1967, durante um treino em terra, um curto-circuito incendiou a cabine da Apollo 1, matando os astronautas Gus Grissom, Ed White e Roger Chaffee. A partir de então, os engenheiros da NASA modificaram por completo a cabine do módulo de comando.
A tragédia adiou o projeto, que só foi ter a sua primeira missão tripulada com a Apollo 7, lançando três tripulantes em órbita, Walter Schirra, Don Eisele e Walter Cunningham. Era o primeiro teste para que o homem pudesse chegar à Lua.
Em 21 de dezembro de 1968, foi lançada a Apollo 8, levando os astronautas Frank Borman, Jim Lovell e Bill Anders a bordo. A missão Apollo 8 foi a primeira a levar o homem à órbita da Lua. A nave apresentou graves defeitos, passou por uma tempestade solar e enfrentou um choque com um meteorito, o que impossibilitou que os tripulantes pousassem na Lua. Os astronautas da Apollo 8 foram os primeiros a contemplar a Terra a partira da Lua. Esta imagem, fotografada pelos tripulantes, correu o planeta.

A Apollo 11

Duas outras missões, a Apollo 9 e a Apollo 10, apesar de terem êxito, não chegaram ao solo lunar. A conquista só seria alcançada com a Apollo 11. Em 16 de julho de 1969, mais de um milhão de pessoas concentrou-se em torno do Centro Espacial Kennedy, na Flórida, para poder ver o lançamento daquela que estava programada para, finalmente, pousar na Lua, a Apollo 11. Às 9h32 da costa leste dos Estados Unidos, a nave foi lançada ao espaço, levando a bordo os astronautas Neil Armstrong, Edwin E. Aldrin e Michael Collins. Após várias voltas em torno da Terra, a nave alcançou a órbita do planeta, sendo os motores acionados para iniciar a viagem de três dias. O mundo acompanhava o espetáculo em todas as televisões do mundo.
No dia 20 de julho, às 16h05, o módulo de comando Columbia, onde estavam os três astronautas, separou-se do módulo lunar Eagle, levando Neil Armstrong e Edwin Aldrin a bordo. Michael Collins permaneceria no Columbia. Às 16h17 daquele dia histórico, Armstrong após manobrar o módulo, concretizava a alunagem. No módulo, restava combustível para mais vinte segundos. Armstrong entrava em contacto com a Terra, avisando que pousara na Lua.

O Homem Pisa na Lua

Antes da descida para explorar o solo lunar, os astronautas deveriam comer e descansar algumas horas. Teriam que estar em forma para que pudessem enfrentar um meio hostil, sem água, atmosfera ou vento, que causavam drásticas oscilações de temperatura, além de uma gravidade inferior a um sexto da terráquea. Após o descanso, os astronautas vestiram os seus trajes espaciais, estavam prontos para enfrentar o exterior. Às 22h56 do dia 20 de Julho, Neil Armstrong põe o pé na superfície lunar. É o primeiro homem a fazê-lo. Sua frase ecoa pelo espaço:
Este é um pequeno passo para um homem, mas um salto gigantesco para a humanidade.
A frase, segundo o astronauta, foi espontânea, mas a sua solenidade faz com que se desacredite numa suposta improvisação. Dezoito minutos depois, “Buzz” Aldrin juntou-se ao companheiro. Os dois caminharam com grande dificuldade pela superfície da Lua por duas horas e meia. No decorrer do tempo, promoveram o hasteamento da bandeira dos Estados Unidos, fincando-a em solo lunar, afirmando a supremacia norte-americana na Guerra Fria, fazendo com que as outras nações se prostrassem diante da sua ideologia. Além da bandeira, os astronautas descerraram uma placa comemorativa que trazia um mapa dos hemisférios da Terra, contendo gravada a legenda:
Aqui os homens do planeta Terra pisaram pela primeira vez na Lua. Julho de 1969 d.C. Viemos em paz em nome de toda a humanidade.
Paradoxalmente, aquela aventura dava-se no auge da Guerra Fria, que ao contrário do que afirmava a placa, promovia guerras sanguinárias na Terra em nome das ideologias vigentes. Armstrong e Aldrin recolheram amostras do solo lunar, instalaram um instrumento para medir as oscilações do solo, uma folha de alumínio em forma de bandeira vertical para que se captasse vento solar e um aparelho para que se pudesse medir com precisão a distância entre a Lua e a Terra. Cumprida a missão, os astronautas regressaram ao módulo Eagle, ali permanecendo por várias horas. Armstrong e Aldrin retornam à órbita lunar, onde Michael Collins os aguarda no módulo Columbia. Os dois módulos foram acoplados. No módulo de comando, os três astronautas juntaram-se novamente, iniciando a viagem de regresso à Terra. No dia 24 de julho, aterrisavam, às 12h50, em um ponto do oceano Pacífico. Estava cumprida a missão que levara o homem à Lua.
O projeto Apollo enviaria ao espaço mais seis missões, cinco delas alunaram, tendo a Apollo 13 falhado em sua missão. A Apollo 17, lançada em dezembro de 1972, foi a última missão em que o homem pisou no solo lunar. A partir de então, as viagens à Lua ficaram suspensas, e só voltarão a ser retomadas caso haja interesse econômico e científico. O objetivo principal tinha sido atingido, os Estados Unidos venceram a corrida espacial, mostrando-se a nação mais potente nos meandros da Guerra Fria. A ciência ficaria para depois!
Anos mais tarde, teorias da conspiração tentam desacreditar que a Apollo 11 tenha pousado no solo lunar, fazendo com que algumas milhares de pessoas duvidem que um dia o homem pisou na Lua. Teorias à parte, a chegada do homem à Lua foi um dos maiores espetáculos da Terra, ainda hoje suscitando paixões e arroubos. A Lua, apesar de desvendada, continua a exercer um misterioso fascínio sobre a humanidade.


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Terça-feira, 14 de Julho de 2009

TROPICÁLIA OU PANIS ET CIRCENCIS - O ÁLBUM MANIFESTO

 

 

O movimento da Tropicália teve a sua origem sustentada por quatro marcos inaugurais, todos acontecidos em 1967: a exposição “Tropicália, manifestação ambiental, de Hélio Oiticica, no MAM do Rio de Janeiro, em abril; a estréia do filme "Terra em Transe”, de Glauber Rocha, em maio; a estréia da peça “O Rei da Vela”, de Oswald de Andrade, encenada em setembro pelo Grupo Oficina, sob a direção de José Celso Martinez Corrêa e, as participações de Caetano Veloso e Gilberto Gil no III Festival da Record, em outubro, interpretando respectivamente “Alegria, Alegria” e “Domingo no Parque”, que traziam uma nova linguagem e inaugurava a guitarra elétrica na MPB.
Se na arte o movimento tropicalista reflete uma transformação essencial nos critérios de produção e no consumo das obras de arte, situando o artista no mundo e, principalmente, no Brasil, na música é a síntese da poesia, a alegorização e carnavalização de um Brasil culturalmente indomável, delimitando as tênues tendências da MPB, mesclando Bossa Nova e canções folclóricas, a contestação social e a cafonice, o candomblé e o catolicismo.
Se nas outras esferas artísticas os manifestos da Tropicália (“Tropicália”, de Helio Oiticica nas artes plásticas, “Terra em Transe” de Glauber Rocha no cinema, “Pan América” livro de José Agripino de Paula na literatura) eram uma realidade, faltava um manifesto contundente na MPB. Este manifesto foi elaborado em maio de 1968, quando foi gravado “Tropicália ou Panis et Circencis”, um álbum histórico, que reunia as vozes de Caetano Veloso, Gal Costa, Nara Leão, Gilberto Gil e Os Mutantes, associadas à poesia de Torquato Neto e de Capinam, ao som de Tom Zé e à genial regência musical de Rogério Duprat.
Doze canções sem ligações estéticas, mas arrematados em um repertório feito para traduzir o movimento tropicalista sonoramente, deram um tom de contestação jamais visto, mostrando músicas que se fincaram no âmago da MPB, como a urbana “Baby”. Doze canções e estava registrado um dos mais geniais álbuns da MPB, amado ou odiado, mas jamais um consenso. Era a voz da Tropicália a ecoar pelos quatro cantos do Brasil pré-AI 5.

A Mítica Fotografia da Capa do Álbum

Quando Caetano Veloso, Gilberto Gil, Nara Leão, Gal Costa, Torquato Neto, Capinam, Guilherme Araújo, Os Mutantes, Júlio Medaglia e Tom Zé juntaram-se para a gravação de um disco, era a concretização de um novo estilo de música que se fazia no Brasil, adquirindo a visibilidade de um manifesto musical.
A irreverência começa pela capa do álbum. Elaborada pelo artista plástico Rubens Gerchman, sob fotografia de Oliver Perroy, a imagem final, feita na casa do fotógrafo, teve nos adereços alegóricos uma criação coletiva, com todos os envolvidos opinando.
Imaginada como uma paródia do álbum dos Beatles, “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, a capa adquiriu um formato final do underground tropicalista, coberta de alegorias do Brasil. Se percorrermos um olhar rápido, encontramos o grupo à maneira dos retratos patriarcais tradicionais. Caetano Veloso aparece ladeado pelos Mutantes (Sérgio Dias, Rita Lee e Arnaldo Batista), que trazem uma expressão séria e carrancuda, empunhando as guitarras, símbolos de uma nova musicalidade. O baiano, de olhar atrevido e cabeleira a tomar conta, traz na mão o retrato de Nara Leão, que participa do disco, mas não da fotografia da capa. Na extrema direita dos Mutantes aparece Tom Zé, de terno e mala de couro na mão, representando a alegoria da migração nordestina. Sentados lado a lado, aparecem Rogério Duprat, que segura um penico na mão, como se segurasse uma xícara, significa Duchamp; Gal Costa e Torquato Neto, ela com penteado modesto, ele com uma boina, ambos representam o casal recatado do interior. Finalmente, à frente de todos, está um ostensivo Gilberto Gil vestido de toga com cores tropicais, segurando o retrato da formatura do curso normal de Capinam.
Feito o retrato, ele é emoldurado por faixas compostas pelas cores nacionais, verde, azul e amarelo, dando a brasilidade necessária à arte final.
Após visitarmos a emblemática fotografia, vamos encontrar na contra capa do álbum o texto de um suposto roteiro cinematográfico feito por Caetano Veloso, em que as personagens são os próprios tropicalistas a travarem um diálogo irreverente e sem nexo. No diálogo surgem Celly Campelo, João Gilberto e Pixinguinha, entre muitas referências dissonantes.

Da Cafonice à Alegoria do Brasil

Gravado em maio de 1968, o disco seria lançado entre julho e agosto daquele ano. Seguindo a concepção de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, a estrutura musical é o de uma polifonia, ou longa suíte, as faixas sucedem-se sem haver interrupções, com a abertura recapitulada no final. Cada canção funciona como se dialogasse uma com a outra, mesclando no final uma metáfora alegórica do Brasil. O seu protesto como mensagem é comportamental, não politicamente engajado em movimentos da época, não há a demarcação lírica da Bossa Nova, muito menos o protesto épico das músicas contra o sistema político vigente e à opressão da ditadura instaurada.
O álbum inicia-se com a faixa “Miserere Nóbis” (Gilberto Gil – Capinam), interpretada por Gilberto Gil. O intróito traz um solo de órgão de igreja com o tilintar de pequenos sinos, que dão passagem para o violão, perdendo-se do sacro inicial ao profano épico da voz de Gilberto Gil. A canção é quase arrancada de um momento de silêncio, se não traz o protesto contundente e declarado das músicas de Geraldo Vandré, está longe de não ser uma crítica à força bruta imposta pela ditadura militar. O cantor assume um canto em ritmo de marcha militar, repetindo a invocação “É no sempre será, ó iaiá / É no sempre serão” ao final de cada estrofe, numa metáfora ao imobilismo da situação política vivida e de nele intervir. A canção termina com tiros de canhão abafados, silenciando o protesto.
A cafonice, diluída nos arranjos inovadores de várias canções, escancara-se na segunda faixa, “Coração Materno” (Vicente Celestino). A música considerada de mau gosto por muitos críticos, contrasta com a modernidade do som genuíno que trazia a Tropicália, realçada em “Baby”. Aqui a musicalidade do Brasil rural era cantada por Caetano Veloso. O arranjo de Rogério Duprat confunde-se com a versão original de Vicente Celestino, assim como a própria interpretação de Caetano Veloso. Inicia-se com violoncelos e tons graves, em um clima de opereta dramática. Em tom intimista, sempre apontando para o ápice dramático, Caetano Veloso não perde o lirismo emprestado pela orquestra. Ao contrário do que disseram os puritanos defensores da Tropicália, para minimizar o preconceito dos críticos contra a música, Caetano Veloso não escolheu esta canção como uma paródia e para ressaltar o grotesco de uma música tida como representante da expressão rural brasileira, mas sim como uma homenagem a Vicente Celestino. Caetano Veloso gosta da canção, tanto que voltaria a cantá-la no erudito recital que deu em homenagem a Federico Fellini e Giulietta Masina, em 1999, na Itália, registrado no álbum “Omaggio a Federico e Giulietta”. Aqui, um amadurecido Caetano Veloso volta às origens, dando um aspecto de trova medieval à canção de Vicente Celestino.
A proposta tropicalista começa a esquentar na terceira faixa, “Panis et Circencis” (Gilberto Gil – Caetano Veloso), interpretada pelo grupo Os Mutantes. A letra da canção sugere a ruptura entre o cotidiano secular e o desejo de liberdade, o contraste entre o nascer e o morrer, não só dos costumes e tradições, como dos sonhos e das utopias juvenis. Gilberto Gil e Caetano Veloso criam aqui um prelúdio do que seria a parceria dos dois que culminaria com “Divino, Maravilhoso”. Os costumes estão presos na sala de jantar, assim como a passagem para a liberdade que se quer fazer alcançar. A canção inicia-se com o coro da banda, em uma estrutura harmônica com uma sutil dissonância. Por fim a canção evolui para o psicodelismo absoluto. De repetente a música é interrompida, sendo recriado um jantar, ouve-se vozes à mesa, ruídos de talheres e a valsa “Danúbio Azul” ao fundo. O psicodelismo é crescente, com ruídos de copos a espatifarem-se, numa metáfora do rompimento com os costumes. A música encerra-se com um corte súbito. Sua eternidade na MPB atingiria vários intérpretes ao longo das quatro décadas que se passaram desde o seu lançamento. Mas nenhuma interpretação alcançaria o clima que esta versão original de Os Mutantes alcançou.
Lindonéia” (Gilberto Gil – Caetano Veloso), é uma canção feita pelos tropicalistas para a musa da Bossa Nova, Nara Leão. A voz contida e educada de Nara Leão traz o resquício suave da Bossa Nova, em contraste com este bolero melancólico, inspirado em um quadro de Rubens Gerchman, “Lindonéia, a Gioconda do Subúrbio”. Nara Leão empresta a delicadeza da sua voz aos sonhos românticos de uma jovem do subúrbio, solteira, empregada doméstica, que se deixa embalar pelas fotonovelas que lê, pelo rádio que ouve e pela televisão que vê. As imagens violentas da letra sobrepõem-se ao sentimentalismo romântico que sugere a personagem. No mundo de Lindonéia não há alternativas, há um labirinto onírico de uma fuga da realidade e de um mundo cruelmente claustrófobo. Um dos grandes momentos do álbum.
Parque Industrial” (Tom Zé), continua a temática do urbanismo cubista do tropicalismo. É interpretada por Gilberto Gil, Gal Costa, Caetano Veloso e Os Mutantes. A inspiração do título é de um livro homônimo de Patrícia Galvão, a Pagu, escritora modernista e agitadora cultural das décadas de 1920 e 1930. A letra é uma crítica ao ufanismo do desenvolvimento e aos fantoches por ele gerado, em um discurso de deboche e ironia típicos do universo mimetizado da canção de Tom Zé, um redemoinho na poeira da natureza urbanizada. A canção inicia com metais a reproduzir os timbres de uma banda de coreto. Intervêm as vozes de Gilberto Gil, Caetano Veloso e Gal Costa separadamente, até que entra Tom Zé a trazer uma entonação ufanista. O refrão “Made in Brazil” realça o tom de paródia da canção, que mescla o que se vem de fora com o que se tem dentro do país. A música é uma sátira tenaz do Brasil que se fazia na época. Talvez “Parque Industrial” seja a única canção do álbum que deixou um leve trave de datada.
Concebido nos moldes dos LPs, o álbum chega ao final do lado A com “Geléia Geral” (Torquato Neto – Gilberto Gil). Esta música, ao lado de “Parque Industrial”, formava o núcleo das canções panfletárias do disco. Se em “Parque Industrial” há uma sátira do Brasil, “Geléia Geral” traz um retrato alegórico do país. É a canção matriz da Tropicália, a canção que resume toda a proposta do disco, mostrando a raiz do seu manifesto, é a porta-voz do movimento. Aqui todas as propostas musicais são condensadas, arrematando o repertório do álbum, sintetizando a sua proposta. Na interpretação magnífica de Gilberto Gil, o Brasil vai desfilando pela canção, trazendo os seus ícones e relíquias de uma cultura pulsante: o bumba-meu-boi, a doce mulata malvada, Oswald de Andrade, a “Carolina” de Chico Buarque. Numa certa altura, Gilberto Gil canta “Tropicália, bananas ao vento”, definindo sinteticamente o que é o movimento. A canção termina com um acorde citando a introdução de “Disparada”, de Geraldo Vandré, numa tentativa sutil de conciliação dos tropicalistas com o seu maior opositor e com um breve flerte com a canção de protesto. Encerra-se a primeira parte do manifesto musical.

Concretismo e Sincretismo Lado a Lado

A segunda parte do disco inicia-se com aquela que se tornaria a sua canção mais conhecida, “Baby” (Caetano Veloso), miticamente interpretada por Gal Costa. A canção tinha sido feita para Maria Bethânia interpretar, mas a irmã de Caetano Veloso não quis envolvimento direto com o movimento tropicalista, recusando a canção. Gal Costa, que se apaixonou de imediato pela beleza de “Baby”, agarrou a oportunidade com a sua voz de cristal límpido, garantido o maior sucesso do álbum e despontando nas paradas de todo Brasil, consolidando de vez a sua carreira e obtendo o passaporte para vir a ser a musa da Tropicália. O lirismo de “Baby” confronta-se com o dia a dia econômico-político e o amor. O amor e romantismo tropicalistas inserem-se nos problemas cotidianos. Não se pode ignorar a economia (“da gasolina”), a cultura e os movimentos à volta (a “Carolina” de Chico Buarque ou “aquela canção do Roberto” Carlos). O mundo é imperialista, o inglês é a sua língua oficial. A palavra “querida” ou “amor” no sentindo de tratamento à pessoa amada é substituída pelo americanismo “baby”. Baixo e percussão anunciam no início, uma balada pop romântica, contrapontos de cordas anunciam o motivo e preparam a voz de Gal Costa, que entra com entonação intimista, numa voz crescida em comparação ao seu primeiro álbum, “Domingo”, de 1967. “Baby” mudava de vez o conceito das canções românticas, formando uma concepção de suaves metáforas que não separam o homem apaixonado do mundo que o ladeia. A canção aproxima a Jovem Guarda de Roberto Carlos e o mundo do samba influenciado por Noel Rosa do Chico Buarque do início da sua carreira. Mesmo a esquerda radical, que preferia aprender russo ao inglês imperialista, não resistiu a “Baby”. A canção termina com a intervenção de Caetano Veloso ao fundo, a cantar “Diana”, balada rock de grande sucesso dos anos 1950, em contraponto com a voz de Gal Costa, que canta o refrão de “Baby”. Esta versão é a mesma que sairia no álbum solo da cantora “Gal Costa” de 1969. “Baby” daria de vez o título a Gal Costa como a maior intérprete de Caetano Veloso.
A segunda parte do álbum terá uma característica menos panfletária e voltada para o sincretismo religioso. “Três Caravelas (Las Tres Carabelas)” (E. Moreu - A. Alguerô Jr. – versão João de Barro), interpretada por Caetano Veloso e Gilberto Gil, é uma canção caribenha que faz uma ode à viagem de Cristóvão Colombo que em 1492, descobriria o continente americano. O refrão cita os nomes das suas caravelas, “La Pinta”, “La Niña” e “La Santa Maria”. Os arranjos de metais anunciam um delicioso mambo. Caetano Veloso entra cantando a letra original, em espanhol, Gilberto Gil entra cantando a versão da canção em português, feita por João de Barro. No final, o refrão, os nomes das naus de Colombo, adquire uma certa entonação religiosa, contrastando com o som do mambo, que se diluí dentro deste sincretismo aparente e dissimulado.
Enquanto Seu Lobo Não Vem” (Caetano Veloso) é um passeio através de uma floresta escondida que desemboca no concreto da cidade. Em 1968 a esquerda tomou a postura de denunciar a ditadura instalada em 1964, de confrontá-la, tentar derrubá-la sem medo. Para isto elegeu canções de protestos como “Disparada” e “Caminhando”, com uma linguagem mais direta, sem as metáforas tropicalistas. “Enquanto Seu Lobo Não Vem” não deixa de ser uma contestação política, longe de ser alienada como a Tropicália passou a ser vista. Se para a esquerda engajada tomar o poder e acabar com a ditadura militar era a principal meta, para os tropicalistas não o era, para eles as mudanças de comportamento, a revolução sexual, vão adquirindo cada vez mais importância, e, com estas mudanças, aí sim a queda da repressão. Este diálogo entre os tropicalistas e a esquerda tradicional vai se diluindo cada vez mais. No fim do movimento, a psicodelia e o rock absorvem toda a proposta. “Enquanto Seu Lobo Não Vem” é um dos últimos diálogos com engajamento, que se iria romper para sempre quando Caetano Veloso interpretou em um festival a música “É Proibido Proibir”. Interpretada a solo por Caetano Veloso, com vocais de um coro luxuoso formado por Gal Costa e Rita Lee, a canção é um passeio pelas avenidas da ditadura, da força repressiva que se respira no ar. O passeio é interrompido pelas vozes femininas do coro, que estão sempre a repetir “Os clarins da banda militar”. Se este verso assume na canção “Dora” (Dorival Caymmi) uma entrada épica da beleza feminina, aqui ele funciona como um estado perene de alerta e de repressão. A canção inicia-se com a percussão de agogô, sugerindo a tranqüilidade monótona do início do passeio. Há um momento da citação musical da “Internacional”, o hino da revolução comunista, numa alusão clara de que a Tropicália era muito mais do que um movimento de alienados.
Um outro grande momento é a mítica “Mamãe Coragem” (Torquato Neto – Caetano Veloso), interpretada por uma Gal Costa que transita entre o intimismo e a ruptura vocal, que se desaguaria muito em breve nos agudos mais famosos da história da MPB. A canção inicia-se com sirenes de fábricas, mostrando a urbanidade que atrai os jovens de todas as partes, é a ruptura da inocência familiar dos jovens, sua ânsia em descobrir o mundo, de tomar para si uma vida repleta de perigos e mutações sem fim. Um poema belíssimo, que na fusão com a música reflete os grandes momentos que sempre encontramos quando Torquato Neto, o anjo torto da Tropicália; e Caetano Veloso, juntos criaram canções. A música adquire na voz de Gal Costa a dimensão exata da ruptura sintetizada, ela própria a romper com a timidez latente, atirada aos leões dos movimentos musicais que se faziam naquele fatídico 1968.
O sincretismo religioso do disco começa a tomar fôlego com a faixa “Bat Macumba” (Gilberto Gil – Caetano Veloso). Se dentro do contexto da MPB a canção passou indiferente, sem grandes marcas, dentro da estética sugerida pela Tropicália, é a única que realiza a proposta concreto-antropofágica. Seus versos são concretistas, a letra forma um K, sugerindo a realização de códigos verbal, sonoro e visual. A macumba, elemento popular de atos sincréticos no Brasil, é associada ao Batman, o homem morcego dos quadrinhos e das séries da televisão de então. A letra ao formar uma grande K, dá a estética concretista a qual o movimento aliara-se, sendo uma letra mais literária do que com mensagem musical:

Batmakumbayêyê batmakumbaoba
Batmakumbayêyê batmakumbao
Batmakumbayêyê batmakumba
Batmakumbayêyê batmakum
Batmakumbayêyê batman
Batmakumbayêyê bat
Batmakumbayêyê ba
Batmakumbayêyê
Batmakumbayê
Batmakumba
Batmakum
Batman
Bat
Ba
Bat
Batman
Batmakum
Batmakumba
Batmakumbayê
Batmakumbayêyê
Batmakumbayêyê ba
Batmakumbayêyê bat
Batmakumbayêyê batman
Batmakumbayêyê batmakum
Batmakumbayêyê batmakumbao
Batmakumbayêyê batmakumbaoba

A interpretação de Gilberto Gil entrelaça-se com o coro de Caetano Veloso, Gal Costa e Os Mutantes. É em cima dos arranjos que se percebe o sincretismo cultural, que se inicia com os vocais, uma viola ao fundo e percussão de atabaque, sugerindo “ponto” de terreiro. Dois ícones que irritavam a esquerda engajada, a religião, considerada por ela o “ópio do povo”, e o imperialismo, aqui diluído na personagem do Batman.
O álbum encerra-se com “Hino ao Senhor do Bonfim” (Petion de Vilar - João Antônio Wanderley), um hino sincrético e de grande popularidade religiosa. Metais e tons graves anunciam o hino, que Caetano Veloso e Gilberto Gil cantam com contrição. O coro que além dos dois cantores conta com Gal Costa e Os Mutantes, assume uma poderosa interpretação do refrão da música. Numa segunda fase, Caetano Veloso interpreta a melodia em ritmo de samba, de uma forma sincopada. Na parte final, o coro emite vozes sem cadência, reproduzindo um efeito acústico vertiginoso, diluindo-se entre o profano e o religioso, terminado com tiros abafados de canhão. Encerra-se o álbum. Está pronto o manifesto musical tropicalista.
A gravação da canção “Hino do Senhor do Bonfim” desagradou profundamente um grupo de católicos fervorosos, que ofendidos na sua religiosidade profanada, queriam mover uma ação contra o grupo. Também a esquerda engajada considerou a gravação como o ponto de arremate da alienação dos tropicalistas.
Longe de ser consenso, “Tropicália ou Panis et Circencis” foi como o movimento do qual se fez manifesto, amado e idolatrado por uns e odiado e repudiado por outros. Caetano Veloso considera o melhor álbum tropicalista produzido, já Gilberto Gil confessou não gostar dele quando o viu pronto. Com influências visíveis dos Beatles, o álbum cumpriu o objetivo de sintetizar a mensagem tropicalista e trazer à luz o movimento como um todo. Depois de lançado, em julho de 1968, a Tropicália seria interrompida em dezembro, com as prisões de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Com o fim do movimento, o álbum ficaria esquecido por muitos anos, só sendo relançado quando os seus intérpretes já tinham uma carreira sólida, e alguns deles, tornaram-se estrelas máximas da MPB.

Ficha Técnica:

Tropicália ou Panis Et Circencis
Philips
1968

Arranjos e regência: Rogério Duprat
Produção: Manuel Barenbein
Técnico de gravação: Estélio
Estúdio: RGE, SP
Período de gravação: maio de 1968
Concepção da capa: Rubens Gerchman
Fotografia: Oliver Perroy

Faixas:

1 Miserere Nobis
(Capinan - Gilberto Gil)
Interpretação: Gilberto Gil
2 Coração materno
(Vicente Celestino)
Interpretação: Caetano Veloso
3 Panis et circenses
(Caetano Veloso - Gilberto Gil)
Interpretação: Mutantes
4 Lindonéia
(Caetano Veloso)
Interpretação: Nara Leão
5 Parque industrial
(Tom Zé)
Interpretação: Caetano Veloso / Gal Costa / Gilberto Gil / Mutantes
6 Geléia geral
(Gilberto Gil - Torquato Neto)
Interpretação: Gilberto Gil
7 Baby
(Caetano Veloso)
Interpretação: Gal Costa / Caetano Veloso
8 Três caravelas (Las tres carabelas)
(E. Moreu - A. Alguerô Jr. - versão João de Barro)
Interpretação: Caetano Veloso / Gilberto Gil
9 Enquanto seu lobo não vem
(Caetano Veloso)
Interpretação: Caetano Veloso
10 Mamãe coragem
(Caetano Veloso - Torquato Neto)
Interpretação: Gal Costa
11 Bat macumba
(Caetano Veloso - Gilberto Gil)
Interpretação: Gilberto Gil
12 Hino ao Senhor do Bonfim
(Petion de Vilar - João A. Wanderley)
Interpretação: Caetano Veloso / Gal Costa / Gilberto Gil / Mutantes

 
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Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

CENTAUROS - SÁTIROS - SILENOS - FAUNOS: METADE HOMEM, METADE ANIMAL

 

 

A mitologia grega está povoada de estranhas figuras, desde monstros terríveis, como a Medusa, que trazia na cabeça não fios de cabelos, mas serpentes, aos Ciclopes, homens gigantes que traziam um olho no meio da testa, ou Cérbero, cão de muitas cabeças que guardava as portas do inferno. Os monstros mitológicos normalmente são seres malignos que desafiam os heróis e os deuses, sendo por eles destruídos ou aprisionados.
Dentro da criatividade mitológica, há alguns monstros de caráter benéfico, que acompanham os deuses em seus cortejos, tendo a aparência híbrida, metade humana, metade animal. Nos mares vamos encontrar as sereias e os tritões, metade humanos, metade peixes, que seguem o cortejo do deus dos mares, Poseidon. Nos campos temos as alegres figuras das divindades campestres, que trazem duas naturezas, a humana e a caprina, representada pelos Sátiros e os Silenos. Não são deuses, mas não são meros mortais, pois tomam do néctar e assim como as ninfas, não envelhecem, têm uma longa vida. São gênios campestres que protegem os homens e os seus rebanhos das feras da floresta. Os Sátiros têm o seu mito ligado não apenas ao campo, mas à fertilidade e à música, sendo que o mais famoso deles, Pã, foi o inventor da flauta que leva o seu nome.
Também possuidores de duas naturezas, a humana e a eqüestre, estão os Centauros, originários da Tessália, lugar cheio de montanhas e terras áridas, que tinha na pecuária a sua principal atividade econômica. Este povo montava os seus cavalos para mais facilmente conduzir os seus rebanhos. Esta fusão homem-cavalo originou a figura do Centauro, homem da cabeça ao tronco e cavalo da cintura para baixo. Monstro benéfico, representava a eterna luta das civilizações, do homem que traz em si o irracional e o racional.
Sátiros, Silenos e Centauros, estranhas e fascinantes criaturas mitológicas que com a dualidade do seu corpo, traduziam a essência da evolução da civilização humana, muitas vezes racional, outras vezes meramente animal.

Nascidos da Mulher Feita de Nuvem

O cavalo é um animal veloz, quando montado pelo homem, ao longe parecem um só em uma imagem definitiva. Símbolo nas civilizações antigas da força e da ousadia, o cavalo despertava a simpatia dos gregos. A partir desta admiração, surge o mito dos Centauros, nascido na Tessália, considerada na antiga Grécia, um lugar de habitantes bárbaros, cruéis e ignorantes. Por este motivo, há duas vertentes no caráter do Centauro, quando visto pelos gregos como um reflexo dos pastores e habitantes da Tessália, assumiam aspectos rude e ignorante, levados à crueldade quando embriagados. Mas a maioria das lendas sobre os Centauros, mostra-os benéficos e inteligentes, festejando com os mortais os casamentos e banquetes.
A origem dos Centauros está ligada ao mito de Ixião, habitante da Tessália, que matara a sangue frio o próprio sogro. Perseguido pelos habitantes do lugar, Ixião fugiu, percorrendo vários lugares da Grécia. Todas às vezes que era descoberto, era obrigado a fugir do lugar onde se encontrava, sem jamais ter paz. Diante da infelicidade de Ixião, Zeus (Júpiter), o senhor dos deuses, apiedou-se dele, convidando-o para viver no Olimpo.
No Olimpo Ixião não se mostrou agradecido, pelo contrário, pérfido e traiçoeiro, apaixonou-se por Hera (Juno), a rainha dos deuses, esposa de Zeus. Não contente, tentou seduzir a fiel esposa do senhor do Olimpo, confessando-lhe o seu amor e desejo. Indignada, Hera contou ao marido a ousadia de Ixião.
Zeus não castigou o seu hóspede ingrato tão logo soube das suas intenções, pelo contrário, como muita calma, preparou-lhe um grande ardil. Num pedaço de nuvem, o senhor dos deuses confeccionou uma réplica de Hera. Deu-lhe movimentos e sopros de vida. Assim, ao ver a nuvem em forma da rainha do Olimpo sorrir-lhe insinuante, Ixião não pensou duas vezes, tomou-a nos braços e a possuiu arrebatadamente, com sôfrega paixão.
Do amor traiçoeiro e infame de Ixião com uma mulher feita de nuvem, nasceu o monstro Centauro, metade homem, metade cavalo. Após o ardil, Ixião foi atirado ao Tártaro, onde ouviu, por muitos séculos, os deuses rindo da sua infâmia amorosa. Do alto do Olimpo Néfele, a mulher de nuvem que tinha o rosto de Hera, desfez-se em pranto.
Centauro foi deixado sozinho no monte Pélion. Trazia em si o irracional e o racional, a razão e a consciência mescladas com a sua natureza bestial. Centauro trazia na sua cabeça de homem o pensamento, a inteligência humana, e no seu corpo animal o desejo, o impulso naturalmente eqüino. No monte Pélion uniu-se a uma égua, gerando uma criança, dando início aos Centauros.

Vítimas da Embriaguez do Vinho

Os gregos não apresentavam os Centauros como seres totalmente malignos e que transmitiam o terror. Ora eram vistos como seguidores do cortejo de Dioniso (Baco), deus do vinho.
Conta a lenda que os Centauros não têm o hábito do vinho, por isto embebedam-se com facilidade, o que influi na sua parte animal, tornando-os violentos e cruéis, brigando entre si e atacando as ninfas. Esta fraqueza ante ao álcool é sintetizada na lenda do casamento de Pirítoo, o rei dos lápitas, que os convidara para as bodas. Embriagados, os Centauros provocaram confusão e briga entre os convidados. Um deles, Euritião, apoiado pelos outros, tentou violar Hipodâmia, a noiva de Pirítoo.
O incidente originou uma longa guerra entre os lápitas e os Centauros. A lenda talvez sirva para relatar uma guerra que se sucedeu de verdade. Centauros parece significar “bando de cem guerreiros”, e lápitas “os que quebram pedras de fogo”, e seriam dois povos provenientes da época neolítica, isolados nas montanhas da Tessália e na região pastoril da Arcádia, travando entre ambos, lutas constantes.
Um outro Centauro famoso foi Folo, filho de Sileno e de uma ninfa, habitante da região de Fóloe, na Élida. Conta a lenda que durante os seus doze trabalhos, Héracles (Hércules) atravessou esta região. O herói encontrou boa hospitalidade na casa de Folo, que lho ofereceu comida e pouso. Durante a ceia, Héracles solicitou vinho a Folo, mas o Centauro hesitou em servi-lo, temendo que o cheiro da bebida atraísse aos demais Centauros, que diante da embriaguez tornavam-se bestiais. Mas Héracles insistiu e Folo acabou por ceder. Ao sentir o cheiro do vinho, outros Centauros foram atraídos à casa de Folo. Lá chegando, exigiram que lhes fosse servida a bebida. Embriagados, envolveram-se em uma grande luta, fazendo com que Héracles intervisse. A luta só parou quando muitos deles foram mortos pelo herói, e outros tantos fugiram.

O Sábio Quirão

O mais famoso dos Centauros é o sábio Quirão, o preceptor do grande herói Aquiles. Quirão, segundo uma vertente da lenda, seria filho de Cronos (Saturno) e da ninfa oceânida Filira. Sua origem foge totalmente à lenda de Centauro, filho de Ixião e da nuvem em forma de mulher. Conta a lenda que para fugir da desconfiança da mulher, a deusa Réia (Cibele), Cronos metamorfoseia-se de cavalo para amar a bela Filira. Da união dos amantes nasce, no monte Pélion, um menino metade homem, metade cavalo. Inconformada em ter gerado um Centauro, Filira passa a ter repulsa do filho. Para não sofrer tanto com a imagem do pequeno monstro, ela pede aos deuses que a transformem em uma árvore, que nada sente. Compadecidos, os deuses a transformam em uma tília. Ao ver a amada imóvel em forma de árvore, só resta a Cronos protegê-la dos raios e dos lenhadores, fazendo com que a tília exale um agradável e inebriante perfume quando floresce na primavera.
Cronos ama o filho, decidindo que ele não terá o mesmo destino da espécie, não será cruel, violento e nem bestial. Dota-o com todas as suas virtudes de deus do tempo, fazendo-o o mais sábio dos Centauros.
Quirão herdara do pai titã, os conhecimentos da magia, da astronomia e o dom de prever o futuro. Mesmo tendo o seu lado bestial, é um Centauro gentil e sábio, conhecedor das artes e da música. É um ilustre portador de ensinamentos filosóficos e morais. Habita uma gruta, onde para lá se dirigem deuses, heróis e reis para confiar ao Centauro a educação de seus filhos. Quirão é o símbolo da superação bestial diante da razão e da cultura. É um Centauro helenizado, longe da rudeza dos Centauros da Tessália.

As Divindades Campestres

As terras gregas, compostas por ilhas e penínsulas, são montanhosas, castigadas por rigorosos invernos e verões escaldantes, fazendo com que as atividades agrícolas fossem desenvolvidas em poucas áreas cultiváveis, e as pastoris realizadas no alto das montanhas, onde ventos fortes permitiam apenas o crescimento de ervas próprias à alimentação dos rebanhos. Para percorrer o alto das montanhas e suas pastagens, os antigos gregos tinham que atravessar florestas cerradas e bosques densos, através de trilhas estreitas e perigosas, habitadas por feras como javalis e lobos.
Para vencer a difícil luta contra um clima hostil e um relevo difícil, os gregos pediam ajuda aos deuses, venerando tenazmente as divindades agrícolas, refletidas principalmente em Deméter (Ceres), deusa da agricultura e protetora do trigo, e em Dioniso, deus protetor da vinha. Estas divindades principais, não eram as únicas veneradas pelos camponeses e pelos pastores. Outras divindades secundárias como os Sátiros, os Egipãs e os Silenos, eram cultuadas como protetoras dos rebanhos, facilitando a fertilidade do solo e à procriação dos animais.
O Sátiros, os Egipãs e os Silenos são divindades agrestes secundárias, híbridos em sua forma, meio animal, meio humano.Vivem nas florestas, em lugares impenetráveis, longe do alcance dos olhares humanos. Participam sempre do cortejo de Dioniso. São alegres e ruidosos, amam as festas, o vinho, as Ninfas e, principalmente, amam os bosques, dos quais são protetores.

Os Sátiros

Os Sátiros têm a sua origem em duas versões mitológicas: a primeira é que seriam filhos de Hermes (Mercúrio) e de Iftiméia, outros autores atribuem a paternidade ao deus do vinho, Dioniso, com a ninfa Nicéia. São seres que trazem traços de homem e de bode. São caracterizados com uma bestialidade arrebatadora, como gênios preguiçosos, covardes e movidos por uma sensualidade que lhe dão uma sexualidade sempre em ebulição, à flor da pele. Gostam de aterrorizar os pastores e os viajantes, mas, ao mesmo tempo, protege-os das feras dos bosques, assim como protegem os seus rebanhos.
A permanente sensualidade dos Sátiros revela-lhes uma vigorosa forma física. Seu apetite sexual é insaciável, assim como a voracidade que sentem em relação ao vinho e à embriaguez.
Com o tempo há uma mudança na descrição destas entidades, que passam a ser descritos como dóceis, maliciosos e travessos, amantes da dança e da música. Esta nova imagem conserva-lhes as orelhas pontiagudas, os pequenos chifres e os pés caprinos. São eternos perseguidores das Dríades (Ninfas das árvores, em geral) e das Hamadríades (Ninfas dos carvalhos).

Os Egipãs e os Silenos

Os Egipãs são descendentes diretos do deus Pã. São pequenos homens peludos, com chifres e pés de cabras, trazendo o corpo terminado em cauda de peixe. Egipã seria filho de Pã e da ninfa Ega. Foi concebido numa noite de embriaguez dos pais. Atribui-lhe o som que se ouve nas conchas, tornando-a um instrumento de sopro. Egipã, assim como os seus descendentes, repetem o próprio Pã.
Os Silenos são muito parecidos com os Sátiros, embora descritos como portadores de uma aparência menos jovial. Os Silenos não surgiram na Grécia, são oriundos da Frigia. São divindades que trazem como evidências físicas uma cauda, patas e orelhas de cavalo (diferentes dos Centauros, os Silenos alongam as pernas em forma de patas eqüinas). Por estas características, são considerados gênios das águas, pois o cavalo é um animal que simboliza a água.
Através dos Silenos surgiu o mito de Sileno, nascido na Grécia, e que é diferente de todos os outros. Sua forma física em nada lembra os Silenos tradicionais, é gordo e calvo, sendo a personagem mais pitoresca do cortejo de Dioniso. Está sempre embriagado, sendo carregado pelos Sátiros. Sileno seria filho de Hermes e Gaia (Terra), ou ainda, em uma segunda versão, nascera do sangue de Urano (Céu), quando este tivera os testículos amputados pelo filho Cronos. Sileno é sábio, e tem o dom de prever o futuro, mas só revela a verdade quando está embriagado, sob os efeitos do vinho.
Sátiros, Egipãs e Silenos eram ardentemente cultuados pelos pastores e agricultores gregos, mas nenhum deles possuía festas próprias ou templos erguidos para devoção. Eram venerados pelos antigos gregos com ofertas de animais e produtos da terra.

Pã, o Deus dos Rebanhos

O mais famoso dos Sátiros é Pã, o deus pastor. Há várias lendas em torno do seu nascimento, a versão mais aceita diz que é filho de Hermes e da ninfa Dríope. É em torno dele que vivem os gênios campestres, os espíritos dos bosques. Pã é um deus secundário, representado na maioria das vezes com barba, coberto por pêlos negros no corpo, com chifres na cabeça e patas de bode. A origem do mito vem da Arcádia, lugar montanhoso, que tinha como riqueza apenas a criação de cabritos e carneiros.
Segundo a lenda, Dríope rejeitou o filho tão logo nasceu, por não aceitar a sua forma híbrida. Hermes levou-o para o Olimpo, onde foi criado. Por seu jeito alegre, logo conquistou a simpatia e a afeição de todos os deuses, sendo chamado por eles de Pã, que em grego significa “tudo”.
Pã é o deus dos rebanhos. Vive errante pelas montanhas e pelos vales, aterrorizando as Ninfas dos bosques com a sua impetuosidade viril. Além de pastor e caçador, é músico. Segundo a lenda, foi o inventor da flauta agreste que leva o seu nome.
O mito de Pã traz várias lendas com as suas aventuras amorosas. A sua maior amante teria sido a ninfa Eco, que o deixou por se apaixonar pelo belo Narciso. Como vingança à amante infiel, Pã tirou-lhe a capacidade da fala, limitando-a a repetir o que os outros diziam.
A partir de uma certa altura, Pã deixou de ser visto pelos autores mitológicos como um deus, tornando-o mortal. O romano Plutarco (50? – 125? D.C.) relata a sua morte. Com o passar dos tempos, o seu culto e o culto às divindades campestres, foram desaparecendo, muito antes da cristianização da Grécia e da Roma antiga.

Faunos, Divindades Campestres Romanas

Em Roma a figura mitológica dos Sátiros era associada aos Faunos, divindades agrícolas, que tiveram a sua origem em Fauno, deus agrícola e da fecundidade. Assim como o Sileno grego, Fauno tem o dom da profecia, mas só as revela quando capturado e amarrado. Diversas versões identificam como sendo filho de Marte, outras fazem-no filho de Pico.
Fauno era venerado pelos romanos em um templo construído no monte Palatino. Nas venerações recebia o nome de Luperco. Suas festas, as Lupercálias, eram celebradas em fevereiro, tendo um caráter de purificação. No ritual eram feitos sacrifícios de cabras e bodes. Imolados os animais, o sacerdote passava a faca suja de sangue na fronte de dois jovens, em seguida lavava-lhes com leite as manchas de sangue, completando a purificação.
Os sacerdotes de Fauno vestiam-se apenas com uma pele de cabra, ou outras vezes, apresentavam-se completamente nus durante os cultos. Fauno não admitia pessoas vestidas na sua presença desde o dia que confundira Hércules e Ônfale. A lenda conta que, apaixonado por Ônfale, amante de Hércules, Fauno esperou que o casal adormecesse e adentrou o quarto escuro onde estavam. Sabia que Hércules trazia vestido sobre o corpo uma pele de leão, e Ônfale uma fina túnica. No escuro procurou o corpo que trazia a túnica e tentou possuí-lo, mas os amantes em uma brincadeira sutil, tinham trocado as roupas. Na confusão, Fauno enganara-se, deitando-se ao lado de Hércules, que despertou bruscamente, atirando-o da cama ao chão. Ao perceber o logro, Fauno sentiu grande vergonha, sendo motivo de escárnio diante dos amantes e dos deuses, que se riram do ardil. Desde então, segundo a tradição da lenda, Fauno, para evitar que se enganasse, não admitia aos sacerdotes que se lhe pusessem à frente vestidos.
Os Faunos herdaram do pai o dom da profecia. São divindades campestres semelhantes aos Sátiros gregos, sendo menos brutais e repulsivos em suas conquistas amorosas. Dividem com os Silvanos, divindades campestres como eles, que diferem apenas por preferirem morar nos bosques, sem nunca visitarem os trigais. Os Silvanos são descendentes de Silvano, a mais popular divindade agrícola romana. Assim como as divindades gregas, com o tempo foram esquecidas pelo povo que as criou.
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Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

VIAGEM PITORESCA AO BRASIL DE DEBRET E RUGENDAS

 

 

A fotografia jornalística, as imagens que documentam o homem e o seu cotidiano, a cidade e o campo, a paisagem e os fatos gerados por ela, é hoje uma realidade corriqueira, que pode ser exercida por qualquer um, desde que se tenha uma objetiva na mão e observe o mundo ao seu redor. Nem sempre dispositivos como uma câmera digital, estiveram à disposição. Cabia no passado, aos desenhistas e pintores retratarem o cotidiano do mundo em que viviam, através de litografias que registravam o seu tempo e a sua época.
O Brasil colonial foi fartamente retratado por grandes pintores e desenhistas, como o francês Jean-Baptiste Debret e o alemão Johann Moritz Rugendas. Pintores e desenhistas das cenas brasileiras da primeira metade do século XIX, eles trazem a paisagem humana viva de uma colônia que elevada à categoria de reino unido, ainda não rompera com as amarras econômicas que se sustentava pela escravidão tanto dos negros africanos quanto dos indígenas nativos. Do homem à botânica, das etnias que construíam a Colônia aos animais que habitavam as suas florestas, tudo foi retratado por estes grandes desenhistas.
Aqui fazemos uma viagem ao Brasil colônia do século XIX, com Debret e Rugendas (autor da gravura acima, “Missa de Nossa Senhora da Candelária em Pernambuco”, da obra “Voyage Pittoresque au Brésil”), mergulhando em um passado que não mais existe, mas mesmo distante, deixou suas marcas indeléveis na paisagem humana e nos costumes da nação que se construiu a partir desta época.

Jean-Baptiste Debret e a Missão Artística Francesa

Jean-Baptiste Debret (1768-1848), pintor e desenhista nascido em Paris, integrou a Missão Artística Francesa, chegando ao Brasil em 1816, ao lado do arquiteto Grandjean de Montigny. A missão aconteceu por solicitação de dom João VI, sendo planejada por António Araújo e Azevedo, o conde da Barca. O objetivo da missão era, entre outros, organizar a criação da Academia de Belas Artes.
Durante a época que esteve no Brasil, de 1816 a 1931, Debret, com os seus traços do neoclassicismo, retratou com detalhes históricos únicos o Brasil de então. Da corte portuguesa no país à corte instalada pelo proclamador da independência, dom Pedro I, nada passou despercebido na obra de Debret. Quando retornou à França, publicou, entre 1834 e 1839, “Voyage Pittoresque et Historique au Brésil” (Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil), que documentava os aspectos do homem, da natureza e da sociedade brasileira.

O Brasil de Debret

As gravuras aqui mostradas têm textos do próprio Jean-Baptiste Debret, extraídos de “Voyage Pittoresque et Historique au Brésil”.

Charruas Civilizados – Jean-Baptiste Debret – Da obra “Voyage Pittoresque et Historique au Brésil”. – “Em uma das províncias meridionais do Brasil... existe uma nação de indígenas completamente selvagens denominados Charruas, que ocupam uma vasta área de pântanos e bosques. Vivem em meio a manadas de cavalos selvagens, de que comem a carne, preferindo-a a qualquer alimento.
... É somente na província de São Pedro e de Espírito Santo que se encontra grande número de Charruas civilizados, a maior parte originários do Paraguai. Andam quase sempre a cavalo, envolvidos pelo poncho... e trazem sempre uma grande faca à cintura, ou simplesmente colocada em uma das botas. O comércio de animais é a sua principal ocupação; e freqüentemente, sob o nome de peões, servem de guias aos viajantes que percorrem estas províncias. Não menos intrépidos a pé que a cavalo, eles não temem atacar a onça, o braço esquerdo envolvido pelo poncho com toda precaução, e coberto por um pedaço de couro. Assim preparado ao combate, e tendo na mão direita a sua faca, ele vai ao encontro do animal e o desafia. O caçador avança o braço esquerdo, e quando a onça arremete, ele lhe mergulha a faca no peito e a mata de um só golpe. Este gênero de combate lhes é tão familiar que estão sempre dispostos a proporcionar soberbas peles de onça pela quantia de cinco francos (um patacão); é uma especulação que eles reservam para fazer frente às despesas com suas diversões, pouco variadas na verdade, pois consistem em passar grande parte de seu tempo nas tavernas fumando, bebendo aguardente e jogando cartas, prazer que termina quase sempre em golpes de faca. Embora naturalmente inclinados ao roubo e ao assassinato, eles são de uma fidelidade a toda prova, caso tenham sido contratados para a escolta de um viajante.”

Retour à la Ville de Nègres Chasseurs – Jean-Baptiste Debret – Da obra “Voyage Pittoresque et Historique au Brésil”. – “É sobretudo na roça que são criados os negros que se tornam caçadores de profissão. É lá que, devendo desde jovens acompanhar os comboios, ou em companhia somente de seu senhor, em longas e penosas viagens, eles vão sempre armados de um fuzil, tanto para sua segurança pessoal quanto para obter alimento... Este gênero de vida torna-se uma paixão a tal ponto dominante entre os negros da roça, que ele não aspira à liberdade senão para penetrar nas florestas como caçador profissional, e se dar sem reservas às atrações de uma inclinação que serve ao mesmo tempo a seus interesses. Então, livre, longe da opressão do chicote, o direito de pensar faz dele um fornecedor tão hábil quanto o homem branco, de quem conhece os gestos; e, perfeitamente a par do valor de uma peça fina que se encontra misturada à caça grossa que ele traz à cidade, ele vai oferecê-la de preferência ao cozinheiro de uma grande casa, que o paga de modo satisfatório; assim, aliando a inteligência ao esforço, freqüentemente ele torna sua profissão muito lucrativa.”

Selvagens Civilizados Soldados Índios da Província de Curitiba Conduzindo Prisioneiros Indígenas – Jean-Baptiste Debret – Da obra “Voyage Pittoresque et Historique au Brésil”. – “Observa-se na província de São Paulo, Comarca de Curitiba, as aldeias de Itapeva e Curros, cuja população inteira se compõe de caçadores indígenas, empregados pelo governo brasileiro para lutar contra os selvagens e os expulsar pouco a pouco dos locais próximos às terras por onde os cultivos começam a avançar...
Estes soldados aguerridos... dormem sem acender fogo na floresta, para que sua presença não seja percebida pelos selvagens que eles procuram surpreender... Cada ano, numa certa época, o governo lhes dá munições para a campanha; uma vez em marcha, eles não retornam antes de haver esgotado suas provisões de guerra; então, repousam até a campanha seguinte. Durante este intervalo eles cultivam suas terras e servem de guia aos viajantes estrangeiros... Sua tática é atacar os ranchos dos selvagens, matar os homens e trazer prisioneiras as mulheres e crianças. Selvagens até época recente, eles mostram-se mais aptos que os europeus a empregar as artimanhas necessárias a este gênero de expedições.”

Múmia de um Chefe Coroado – Jean-Baptiste Debret – Da obra “Voyage Pittoresque et Historique au Brésil”. – “Segundo a opinião de um escritor muito respeitado, os selvagens do Brasil chamados Coroados seriam os antigos Goitacazes. Este nome de Coroados lhes foi primitivamente dado pelos portugueses por causa do penteado de seus chefes, que efetivamente cortam o cabelo de modo a deixar uma espécie de coroa isolada no alto da cabeça; no entanto, muito deles trazem os cabelos caídos sob as espáduas...
Os Coroados tinham antigamente o costume de enterrar seus chefes de uma maneira particular: os restos mortais deste chefe reverenciado eram encerrados em um grande vaso denominado camucis, enterrado em seguida profundamente junto a uma grande árvore...
Estas múmias, revestidas de suas insígnias, estão perfeitamente intactas, e são sempre colocadas, em sua urna funerária, de modo a conservar a atitude de um homem sentado sob seus calcanhares, posição habitual do selvagem quando em repouso. Pretendiam, por este meio, fazer uma alusão à morte, este eterno repouso?”

Rugendas, Vindo com a Expedição do Barão de Langsdorff

O desenhista Johann Moritz Rugendas (1802-1858), nascido em Augsburg, chegou bem jovem ao Brasil, em 1921, vindo como membro da expedição do Barão de Langsdorff, cientista e diplomata russo.
No Brasil, Rugendas logo deixou a expedição e passou a viajar por sua própria conta, percorrendo de 1822 a 1825 várias partes do país, dedicando-se a retratar os mais variados aspectos da vida da nação que se formava depois da independência em relação a Portugal. Rugendas registra justamente o momento de transição entre o Brasil colônia e o Brasil nação independente.
Os registros de Rugendas do cotidiano brasileiro, formaram uma coletânea de cem trabalhos publicada em Paris, em 1835, sob o título de “Voyage Pittoresque au Brésil” (Viagem Pitoresca ao Brasil).

O Brasil de Rugendas

É da obra “Voyage Pittoresque au Brésil”, que se extraiu os textos que ilustram as imagens aqui apresentadas, escritos por Koster, citados por Rugendas.

Nègres a Fond de Calle (Negros no Porão de Navio) – Johann Moritz Rugendas – Da obra “Voyage Pittoresque au Brésil”. – “Embarcam-se, anualmente, cerca de 120 000 negros na costa da África, unicamente para o Brasil, e é raro chegarem ao destino mais de 80 a 90 mil. Perde-se, portanto, cerca de um terço durante a travessia de dois meses e meio a três meses... Ao chegarem à fazenda, confia-se o escravo aos cuidados de um ou outro mais velho e já batizado. Este o recebe na sua cabana e procura fazê-lo, pouco a pouco, participar de suas ocupações domésticas; ensina-lhe também algumas palavras em português.
E somente quando o novo escravo se acha completamente refeito das conseqüências da travessia que se começa a fazê-lo tomar parte nos trabalhos agrícolas...”

Habitações de Negros – Johann Moritz Rugendas – Da obra “Voyage Pittoresque au Brésil”. – “Enviam-se os escravos logo ao nascer do sol... Às oito horas concede-se-lhes meia hora para almoçar e descansar. Em algumas fazendas fazem os escravos almoçarem antes de partirem para o trabalho, isto é, imediatamente depois do nascer do sol. Ao meio dia eles têm duas horas para o jantar e o repouso e, em seguida, trabalham até as seis horas.
As mulheres casam-se com catorze anos, os homens, com dezessete e dezoito; em geral incentivam-se esses casamentos. As jovens mulheres participam do trabalho do campo e aos recém-casados se dá um pedaço de terra para construir sua cabana e plantar, por conta própria, em certos dias... Nos domingos, ou dias de festa, tão numerosos que absorvem mais de cem dias por anos, os escravos são dispensados do trabalho por seus senhores e podem descansar ou trabalhar para si próprios... Assim, um dos mandamentos da Igreja Católica, tão amiúde censurado como abusivo e pernicioso, tornou-se um verdadeiro benefício para os escravos, e quando o Governo português achou que devia atender às necessidades do progresso, tomando medidas para diminuir o número de festas, a inovação não alcançou a aprovação dos homens mais esclarecidos do Brasil. Diziam estes, com razão, que o que podia ser benefício para Portugal não passava de crueldade para com os escravos. Que responder a isso, senão que essa contradição já constitui uma prova do absurdo de todo o sistema? Como quer que seja, as cabanas dos escravos contêm mais ou menos tudo que neste clima pode ser considerado necessário. Por outro lado, eles possuem galinhas, porcos, às vezes mesmo um cavalo ou uma besta, que alugam com vantagem porque a alimentação nada lhes custa.”

Guerrilhas – Johann Moritz Rugendas – Da obra “Voyage Pittoresque au Brésil”. – “Os relatórios dos mais antigos visitantes, como Jean Léry, Hans Staden, etc., demonstraram que, na época da conquista, os habitantes primitivos do Brasil estavam num estágio de civilização mais elevada que aquele em que os vemos hoje. A razão principal dessa decadência está, sem dúvida, nas relações com os portugueses... os índios não são homens em estado natural e não são selvagens, mas sim homens que retrocederam ao estado de selvageria, porque foram rechaçados violentamente do ponto a que haviam chegado...
...limita-se o governo a instalar, nos lugares mais expostos do país, ou naqueles em que a estrada atravessa a floresta, quartéis ou presídios; são geralmente simples postos, com alguns soldados, sob o comando de um suboficial...
Quando os índios praticam algum ato de hostilidade em determinado lugar, ou quando, como acontece, atacam de surpresa um desses postos, para puni-los e amedrontá-los faz-se uma entrada. Reúnem-se alguns postos, sob o comando do capitão do distrito e dá-se caça aos índios, atacando-os em toda parte onde se encontrem. Procura-se de preferência surpreendê-los nos acampamentos e, quando descobertos, são cercados durante a noite, e ao clarear do dia faz-se fogo, de todos os lados, contra os índios ainda adormecidos. Assim surpreendidos, os selvagens tentam escapar pela fuga. Em regra geral, os soldados massacram tudo que lhes cai nas mãos e só poupam as mulheres e crianças muito raramente, e assim mesmo quando cessa toda a resistência, a qual é, não raro, obstinada.“

Fête de Ste. Rosalie, Patrone dês Nègres” (Festa de Nossa Senhora do Rosário, Padroeira dos Negros) – Johann Moritz Rugendas – Da obra “Voyage Pittoresque au Brésil”. – “No mês de maio, os negros celebram a festa de Nossa Senhora do Rosário. É nesta ocasião que têm por costume eleger o Rei do Congo, o que acontece quando aquele que estava revestido dessa dignidade morreu durante o ano, quando um motivo qualquer o obrigou a demitir-se, ou ainda, o que ocorre às vezes, quando foi destronado pelos seus súditos. Permitem aos negros do Congo eleger um rei e uma rainha de sua nação, e essa escolha tanto pode recair num escravo como num negro livre. Este príncipe tem, sobre seus súditos, uma espécie de poder que os brancos ridicularizam e que se manifesta principalmente nas festas religiosas dos negros como, por exemplo, na de sua padroeira Nossa Senhora do Rosário...
... Às onze horas fui à igreja com o capelão e, não demorou muito, vimos chegar uma multidão de negros, ao som dos tambores. Homens e mulheres usavam vestimentas das mais vivas cores que haviam encontrado. Quando se aproximaram, distinguimos o Rei, a Rainha, o Ministro de Estado. Os primeiros usavam coroas de papelão, recobertas de papel dourado... As despesas da cerimônia deviam ser pagas pelos negros, por isso haviam colocado na igreja uma pequena mesa à qual estavam sentados o tesoureiro e outros membros da irmandade negra do Rosário, os quais recebiam os donativos dos assistentes dentro de uma espécie de cofre.”

Chasse au Tigre (Caça à Onça) – Johann Moritz Rugendas – Da obra “Voyage Pittoresque au Brésil”. – “O arco e a flecha são as armas principais dos índios. São muito mais compridos do que as de outros selvagens, embora a maior parte dos índios da América Meridional use também arcos e flechas muito compridos. A lança e o laço se encontram apenas em algumas tribos que, depois do descobrimento, adotaram o cavalo para combater. E somente nessas tribos foram os arcos e as flechas encurtados. O arco dos brasileiros tem muitas vezes cinco, seis e mesmo sete pés de cumprimento...
Há três espécies de flecha. Uma de ponta larga, feita em geral de bambu tangaraçu; é dura e muito aguçada. Para aumentar ainda a força da penetração, a ponta é encerada e a taquara, também encerada ao fogo, torna-se tão dura quanto o chifre. Como na taquara a ponta é oca, os ferimentos que ela produz sangram fortemente. Por isso é empregada, principalmente, na guerra e na caça de grandes animais.”
publicado por virtualia às 04:46
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