Segunda-feira, 27 de Abril de 2009

JOÃO PAULO I, MORTE E MISTÉRIO NO VATICANO

 

 

Vaticano, 26 de agosto de 1978, vinte dias após a morte do papa Paulo VI, os cardeais reunidos em conclave na Capela Sistina, votam o nome de um novo papa. Os votos são contados e queimados, formando uma fumaça branca. “Habemus Papam!” (Temos Papa), anunciava o deão. Na varanda principal aparecia Albino Luciani, já feito sumo sacerdote, com o seu sorriso peculiar no rosto, dando a sua benção ao mundo católico.
Com uma simplicidade secular, Albino Luciani recusou a cerimônia formal da coroação, abdicando da tiara (coroa pontifical) e da entronização papal, fato inusitado desde Clemente V, papa do início do século XIV. Em homenagem aos seus antecessores, os papas João XXIII e Paulo VI, Luciani adoto o nome de João Paulo I, sendo o primeiro papa a ter nome duplo. Conta-se que o patriarca de Veneza, ao ser eleito papa, mostrou-se incrédulo diante do inusitado, tendo declinado à missão, mas que teria sido convencido pelo cardeal Johan Wildebrands, que lhe teria dito: “Coragem! O Senhor dá o fardo, mas também a força para carregá-lo.” O novo papa declararia, logo após os resultados do conclave: “Quando cheguei ontem de manhã, fui à Capela Sistina para votar tranqüilamente. Eu nunca teria imaginado o que estava prestes a acontecer."
João Paulo I, com o seu jeito carismático, ficou conhecido como o “Papa Sorriso” ou “Papa Sorridente”. Veio disposto a fazer mudanças dentro das estruturas de uma das instituições mais poderosas da humanidade. João Paulo I teria dito aos secretários mais próximos as suas intenções peremptórias: rever a estrutura da Cúria, com a publicação de várias cartas pastorais sobre a colegialidade dos bispos, rever as condições das mulheres na Igreja, a pobreza no mundo e a unidade da Igreja; além de acabar com o negócio da IOR (Instituto para Obras Religiosas), em especial o seu casamento com Banco Ambrosiano, exigindo transparência, mesmo em frente aos maçons e à máfia.
29 de setembro de 1978. 33 dias após João Paulo I ter sido eleito o sumo sacerdote da igreja católica, subitamente o Vaticano declarava ao mundo: o papa estava morto, por causa de um enfarte agudo do miocárdio. O sorriso do rosto de João Paulo I esvaiu-se, assim como a sua vida. Uma morte envolta em mistérios e circunstâncias jamais explicadas, o que levou à suspeita de assassínio. 30 anos passados, a pergunta continua a ser feita, João Paulo I, o Papa Sorriso, teria morrido naturalmente ou teria sido assassinado?

Máfia e Maçonaria nos Negócios do Banco do Vaticano

Esta manhã, 29 de setembro de 1978, pelas 05h30, o secretário particular do Papa, não tendo encontrado o Santo Padre na capela, como de costume, procurou-o no seu quarto e encontrou-o morto na cama, com a luz acesa, como se ainda estivesse a ler. O médico, Dr. Renato Buzzonetti, que acudiu imediatamente, constatou a sua morte, ocorrida provavelmente pelas 23h00 de 28 de setembro, devido a um enfarte agudo do miocárdio. "
O anúncio oficial da morte de João Paulo I foi feito em cima de mentiras e ocultações de fatos que por si só eram bastante para que se abrissem suspeitas de assassínio, falta de transparência e um terrível mal-estar diante do sucedido. Aos poucos, algumas verdades foram reveladas, transformando o óbito do papa em um poço de contradições até hoje não esclarecidas.
Mas o que levaria um papa a ser assassinado 33 dias após a sua eleição? O que realmente estava envolvido no futuro pontificado de João Paulo I que pudesse causar tanta preocupação e medo? O fato que mais pesa sobre um suposto assassínio do sumo pontífice seria a sua determinação em limpar a corrupção que se abatera sobre o Banco do Vaticano, o IOR. Sobre os negócios ilícitos da instituição financeira e a posição da igreja em relação a ela, teria dito:
Aquela que se chama sede de Pedro e que se diz também santa, não pode degradar-se até a ponto de misturar as suas atividades financeiras com as dos banqueiros, para os quais a única lei é o lucro e onde se exerce a usura, permitida e aceita, mas ao fim e ao cabo usura. Perdemos o sentido da pobreza evangélica; fizemos nossas as regras do mundo.
Para limpar a corrupção do IOR, João Paulo I tinha como objetivo destituir o seu poderoso presidente, Paul Marcinkus, conhecido como o “banqueiro de Deus”. A participação da máfia e da loja maçônica italiana Propaganda Due (P-2) nas finanças do IOR geraram vários inquéritos e assassínios dos envolvidos no decorrer dos anos, sem jamais ficar esclarecida. João Paulo I estava disposto a tomar uma posição diante de todos perante a maçonaria e a máfia. A esta oposição, teria dito ao secretário de Estado do Vaticano, Jean Villot, o qual desejava substituir por Johan Wildebrands: “São duas (máfia e P-2) potências do mal. Devemos enfrentar com coragem as suas ações perversas.” Com esta atitude, estaria selado o destino de João Paulo I, ou seja, o seu assassínio.
As suspeitas aumentaram, quando foi vazada a informação de que no quarto de João Paulo I, sobre a sua mesa de trabalho, teria sido encontrada uma lista com nomes de supostos maçons do Vaticano. Esta lista teria sido elaborada pelo jornalista Mino Pecorelli, membro arrependido da P-2, que seria assassinado em 1979. Nesta lista constariam os nomes de Jean Villot e Paul Marcinkus. A corrupção levaria à falência fraudulenta do Banco Ambrosiano, em 1982, do qual o IOR era o principal acionista.

Morte pela Ingestão em Excesso de um Vasodilatador

Deixando os suspeitos, se mergulharmos nas contradições oficiais sobre a morte de João Paulo I e as revelações que se fizeram através dos anos, vamos encontrar a sensação explícita de que um grande mistério foi mantido em preterimento à memória do papa.
A verdadeira causa da morte do Papa Sorriso, enfarte do miocárdio ou assassínio, teria sido facilmente esclarecida com uma simples autópsia ao corpo. Oficialmente o Vaticano negou-se a fazê-la, mantendo a versão da inviolabilidade do corpo. Em 1987, o jornalista Giovanni Gennari, amigo pessoal de Albino Luciani, declararia em um artigo publicado, que teria sido feita uma autópsia secreta ao cadáver do papa, que se teria revelado a ingestão de uma fortíssima dose de um vasodilatador a verdadeira causa da morte. A droga teria sido receitada por telefone, pelo médico pessoal do papa em Veneza, o Dr. Antonio Da Ros. Após o telefonema do médico, o papa teria feito abrir a farmácia do Vaticano às 22h30. Daqui nascia a teoria de que o sumo pontífice enganara-se e tomado uma dose excessiva do remédio. 15 anos depois da morte de João Paulo I, em 1993, Antonio Da Ros, declarou à revista “30 Giorni”, que o seu telefonema ao papa teria sido de rotina, não lhe receitando remédio algum, pois o tinha visto cinco dias antes e a sua saúde era excelente.
Ao contrário do que declarou Antonio Da Ros sobre a excelente saúde do papa, na ocasião o Vaticano tentou passar para a opinião pública que ele tinha uma saúde debilitada e muito frágil. Diego Lorenzi, secretário do papa e quem revelou que uma autópsia secreta teria sido feita com um pedaço retirado do corpo, provavelmente as vísceras; também rebateu a teoria da fragilidade da saúde do papa, confirmando de que durante os 26 meses que esteve com ele, jamais ficou doente ou apresentou qualquer problema de saúde, a não ser que tinha uma pressão arterial um pouco baixa. Também funcionários da farmácia do Vaticano declarariam que remédio algum tinha saído dali para João Paulo I durante o curto tempo do seu pontificado.
Se a morte de João Paulo I se deu por ingestão de um vasodilatador e não por um enfarte do miocárdio, e se não foi receitado remédio algum por seu médico, tão pouco ele saiu da farmácia do Vaticano, mais uma vez surge a sombra da dúvida de quem e em que circunstâncias teria administrado a droga a ele.

Contradições e Mentiras Oficiais

Mais algumas contradições surgiram quanto ao relato oficial: quem encontrou o corpo do papa? Em que posição foi encontrado e a que horas morreu de fato? Estas três perguntas foram respondidas mais tarde, pelo testemunho revelador da irmã Vicenza Taffarel, freira que cuidava de João Paulo I.
Na versão oficial do Vaticano, o bispo John Magee teria sido quem encontrara o papa morto em seus aposentos, e que na ocasião trazia entre os dedos “A Imitação de Cristo” e outras coisas, apontamentos, homilias e discursos; teria morrido por volta das 23h00 do dia 28 de setembro.
Em 1988, a verdade quanto ao descobrimento do cadáver veio à tona. John Magee reconheceu não ter sido ele, mas a irmã Vicenza Taffarel, quem encontrara o papa morto. A irmã Vicenza teria sido proibida pela secretaria do Estado do Vaticano a não revelar a verdade. Teria vivido atormentada o resto dos seus dias por manter esta mentira. Em 1983, no momento da sua morte, a freira sentiu-se libertada da imposição, revelando a verdade a familiares. Irmã Vicenza revelou que encontrara o papa sentado na cama, com os óculos postos e alguns papéis na mão. Trazia a cabeça tombada para a direita e uma das pernas estendia sobre a cama. Trazia ainda, um leve sorriso no rosto e a testa morna. Foi a irmã Vicenza, ajudada por outra freira, quem lavou o cadáver, elas constataram que as costas estavam ainda mornas. Este fato leva à dedução de que a morte teria acontecido de madrugada, entre às 2h00 e às 4h00 do dia 29 de setembro. O fato de estar com uma perna sobre a cama, sem vestígios de luta contra a morte, demonstra que não é um quadro típico de enfarte do miocárdio.
Outras contradições viriam, como o que estaria a ler o papa na hora da sua morte. Dom Germano Pattaro, conselheiro em Roma de João Paulo I, afirmou que não era “A Imitação de Cristo” ou homilias, mas anotações sobre uma conversa que o papa teria tido com o secretário de Estado Jean Villot, na última tarde da sua vida. Teria sido nesta conversa que o papa revelara a Villot as mudanças imediatas e revolucionárias que pretendia fazer, mudanças essas que o secretário teria refutado, demonstrando ser contrário a elas.

O Silêncio da Verdade nos Ecos da História

Três décadas depois da sua morte, quem foi este papa que se sentou na cadeira de Pedro por apenas 33 dias? Que mistérios envolveram esta morte? Numa imagem deturpada pelo Vaticano, a de homem fisicamente debilitado e de saúde frágil, aos poucos, através dos anos e de investigações de homens como o jornalista britânico David Yallop, que escreveu “Em Nome de Deus” (1982), e do sacerdote Jesús López Sáez, autor de “Se Pedirá Cuenta” e muitos escritos sobre a morte do papa, considerando-a um assassínio; surge-nos a imagem de um papa decidido, afável e de caráter revolucionário dentro das estruturas de uma igreja constantemente questionava pela evolução das civilizações cristãs.
Albino Luciani nasceu em 17 de outubro de 1912, cinco anos antes da revolução Bolchevique. Nasceu em Belluno, região de Veneto, na Itália. Oriundo de uma família humilde, assistiu às dificuldades do pai, que diante da miséria causada pela Primeira Guerra Mundial, foi obrigado a migrar para diversos países vizinhos para trazer o sustento da família. Aos 11 anos de idade entrou para o seminário, vindo a ordenar-se sacerdote a 7 de julho de 1935. Em 1954 foi nomeado vigário geral de diocese e, quatro anos depois, bispo de Vittorio Veneto. Em 15 de dezembro de 1969, Paulo VI nomeou-o Patriarca de Veneza, e três anos mais tarde, cardeal. Assim permaneceu até a sua eleição para papa, em agosto de 1978, poucos dias antes de completar 65 anos. Não viveria suficientemente para mostrar a verdadeira face do seu pontificado. Dele ficou para o mundo a grandiosidade do seu sorriso, que lhe valeu a alcunha de Papa Sorriso e um grande mistério sobre a sua morte, que urge em ser desvendado. A história e o Vaticano devem a João Paulo I este esclarecimento, seja qual for a verdade. A este respeito o cardeal brasileiro Aloísio Lorscheider teve a coragem de falar há uma década atrás: “As suspeitas continuam no nosso coração como uma sombra amarga, como uma pergunta à qual não foi dada resposta.”Mesmo depois de três décadas da morte suspeita de João Paulo I, o assunto, apesar das especulações e das várias investigações por conta de tantas pessoas, o silêncio ainda é absoluto dentro do Vaticano. E a história continua a dever a reparação da verdade ao Papa Sorriso e ao que lhe sucedeu de fato, naquela tumultuada madrugada de 28 para 29 de setembro. Só o tempo fará os acertos com a história e com este silêncio aparentemente perpétuo.
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Sábado, 25 de Abril de 2009

CANTAR - SOFISTICADA BOSSA NOVA DE GAL COSTA

 

 

Após o show Temporada de Verão, que culminou com o lançamento do álbum Temporada de Verão – Ao Vivo na Bahia, Gal Costa lançaria, em maio de 1974, o álbum Cantar. Este álbum confirmava o que apenas tinha sido sugerido no Temporada de Verão, ou seja, uma Gal Costa contida, usando a emoção do canto de forma que dava uma nova cor à Bossa Nova. O repertório do disco parece ter sido esboçado nos shows daquele verão na Bahia, pois traz além de Caetano Veloso e Gilberto Gil, faixas de outros compositores que participaram do álbum ao vivo: João Donato, Jorge Mautner e Péricles R. Cavalcanti. Com produção de Caetano Veloso e Perinho Albuquerque, o disco que trazia na capa fotografias de Tereza Eugênia, numa imagem do perfil da cantora, coberta pelos cabelos e com uma flor perdida entre eles, e forte presença de João Donato; não agradou aos que se tinham acostumado com Gal Costa como a musa do desbunde ou como a leoa roqueira de “Meu Nome é Gal”.
1974 foi um ano de intensa produção discográfica da cantora. Começou com o compacto lançado para o carnaval, que trazia as músicas “Sem Grilos” (Caetano Veloso – Moacyr Albuquerque) e “Acorda Pra Cuspir” (Haroldinho Sá), ainda sob a vertente do desbunde. Depois veio o lançamento do álbum Temporada de Verão – Ao Vivo na Bahia, com Caetano Veloso e Gilberto Gil, além do compacto com as canções “Saia do Caminho” (Custódio Mesquita – Ewaldo Ruy) e “De Amor Eu Morrerei” (Dominguinhos – Anastácia), sendo esta última gravada para fazer parte da trilha sonora da novela Os Inocentes, da TV Tupi. Ao contrário do primeiro compacto, estes dois trabalhos mostram Gal Costa totalmente distanciada do desbunde, trazendo um canto cool, que atingiria o seu apogeu com o álbum Cantar.

Um Gosto de Bossa Nova

O álbum começa com a alegre “Barato Total” (Gilberto Gil), canção que arrematava os “baratos” de Gal Costa, surgidos nas dunas que levaram o seu nome nas praias do Rio de Janeiro. Se o barato começara modesto, agora ele era total. Letra que transita entre a leveza bicho grilo-hippie de Gilberto Gil e a suavidade da beleza da voz da cantora. O disco começa alegre e leve, mostrando uma Gal Costa tranqüila após o vendaval tropicalista, que terminara com prisões, revolta e exílio dos amigos. Gal Costa que até então se apresentava séria, introspectiva, mesmo quando cantava roque, começa a mudar a performance e a cantar com um grande sorriso no rosto, que se tornaria sua marca registrada. A canção de Gilberto Gil, apesar de trazer uma linguagem tipicamente dos anos setenta, torna-se atemporal, fazendo parte das indispensáveis do acervo da cantora.
Se o disco começa “bicho grilo”, ele continua com a proposta, com a panteísta “A Rã” (Caetano Veloso – João Donato). O panteísmo da canção é diluído em um som totalmente bossanovista, que se consegue manter distante das praias cariocas, onde surgiu o movimento, dando à canção o tropicalismo de uma bossa baiana.
Lua, Lua, Lua, Lua” (Caetano Veloso) é interpretada ao som de violões, a voz da cantora é acompanhada da voz de Caetano Veloso, que cria um efeito de pulsação, dando a sensação de coração e voz a baterem suavemente, quase ao ritmo da vida.
O lirismo atinge um apogeu na voz de Gal Costa quando ela interpreta “Canção Que Morre no Ar” (Carlos Lyra – Ronaldo Bôscoli), a cantora experimenta um timbre jovial, como uma menina-mulher a cantar docemente o amor, conduzindo as notas em labirintos emocionais que explodem na beleza única da sua voz. Poucas vezes uma canção encontra uma delicadeza tão emotiva como esta interpretação de “Canção Que Morre no Ar”.
Flor de Maracujá” (João Donato – Lysias Enio) dá um tom de eterno verão nas paixões. A canção é um delicioso convite para mergulharmos na brisa das paixões, no gosto do mar, nas flores espalhadas pelos cabelos da cantora, girando e rodando nas paisagens do amor, na evolução da delicadeza dos sentimentos:

"Dia de sol
Cheiro de flor
Gosto de mar, amor
A tua cor
Luz do luar”

Se nos perdemos no cheiro da flor de maracujá, uma nova flor nos é apresentada: “Flor do Cerrado” (Caetano Veloso). A letra da música é uma espécie de juízo final implícito de Caetano Veloso, que apesar de negar, estava a pensar nas previsões de um lunático que dizia que ele morreria em 1975.

“Todo fim de ano é fim de mundo e todo fim de mundo é tudo que já está no ar
Tudo que já está
Todo ano é bom todo mundo é fim
Você tem amor em mim”

Se o tema é presságio, o compositor baiano transforma a canção de apocalíptica a total bossa nova, participando da faixa com “Garota de Ipanema” (Vinícius de Moraes – Tom Jobim) de música incidental. Escancara-se de vez a tendência bossa nova do disco.

Momentos de Delicada Beleza

Bem tropicalista é “Jóia” (Caetano Veloso), uma canção sob medida para a dupla Gal Costa-Caetano Veloso, cantora-autor, musa-poeta. Apesar de ser interpretada de forma contida, a canção não deixa de ser resquício do movimento do desbunde, que já não se afirma apenas no underground, mas na evolução que a década de setenta ia propondo. “Jóia” mistura Copacabana com Coca-Cola, ou seja, um símbolo nacional com o grande símbolo do capitalismo da guerra fria.
Até Quem Sabe” (João Donato – Lysias Neto) é mais um momento intimista do álbum, com Gal Costa cantando o findar do amor com a precisão sedutora e trágica de uma voz de sereia. Piano e voz, o amor e o adeus, a perda da vida compartilhada e a identidade solitária recuperada.
No Temporada de Verão – Ao Vivo na Bahia, Gal Costa abria o disco com a música “Quem Nasceu”, de Péricles R. Cavalcanti. Uma nova faixa do mesmo autor surge em Cantar: “O Céu e o Som”. Se na primeira canção falava-se do templo do pai, da mãe natureza, o tema continua o mesmo em “O Céu e o Som”, desta vez segue-se o caminho do mar, onde a cantora pede que “me ensine a cantar, me ensine a voar”, como se ela não soubesse fazer tão bem as duas coisas.
Lágrimas Negras” (Jorge Mautner – Nelson Jacobina) é um grande momento do disco. Canção melancólica, triste, visceral, de uma beleza ímpar. 1973 tinha sido o ano do fim do milagre brasileiro, da grande crise mundial do petróleo. Não se falava em outra coisa naquele ano se não no “ouro negro”. Num paradoxo poético, recheado de eufemismos, a música dá às lágrimas a cor e densidade do petróleo. Lágrimas negras inundavam o mundo, o fim dos sonhos flower power. Como num cortejo fúnebre, a voz de Gal Costa esvai-se da melancolia da letra, dando um tom triste, definitivo, que contrasta com a leveza de várias faixas, se ela começou “contente” com “Barato Total”, ela termina triste, densa, com “Lágrimas Negras”, são nestes contrastes que a Gal Costa tropicalista sobressai à Gal Costa bossanovista:

Belezas são coisas acesas por dentro
Tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento
Belezas são coisas acesas por dentro
Tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento
Lágrimas negras caem, saem Dói”

Mas Gal Costa suaviza os contrastes, terminando, imprevisivelmente, o disco com uma linda e pequena canção de ninar: “Chululu” (Mariah Costa), singela homenagem à sua mãe, a autora, dividindo com o público a canção que muitas vezes a fez dormir.

Intimismo e Sofisticação Criticados na Época

Cantar foi visto por alguns críticos como saudosista da Bossa Nova, desatualizado para aquele 1974 tão fustigado pela ideogenia. O álbum recupera o que a Tropicália havia interrompido, ou seja, é como se viesse cronologicamente depois do álbum Domingo (1967). Não há como não comparar os dois álbuns. Se Domingo é o início, Cantar é a concretização deste início. É como se entre um e outro não tivesse existido a turbulência da Tropicália, o desbunde, talvez esta negação não proposital, tivesse refletido na crítica. Se Cantar foi criticado na década de setenta, quando relançado na década de oitenta, tornou-se um álbum cult e dos mais elogiados da discografia da cantora. Faltaram no disco duas canções imprescindíveis do show: “Me Deixe Mudo” (Walter Franco) e “Teco Teco” (Pereira da Costa – Milton Vilella). A ausência de “Teco Teco” foi reparada com o lançamento de um compacto duplo trazendo três faixas do Cantar e a música. Curiosamente, a canção que se tornou hit de Gal Costa naquele ano foi “Teco Teco”.
Cantar apresentou uma Gal Costa mais amadurecida e sofisticada nas interpretações, distanciada dos arroubos juvenis e dos cabeludos de então. E para quem ainda duvidava até onde ela poderia chegar, o coro da canção “O Céu e o Som” professava claramente:

Quem foi que disse que essa mulher não voa?”

Ficha Técnica:

Cantar
Philips
1974

Direção de produção e estúdio: Caetano Veloso e Perinho Albuquerque
Estúdio: Phonogram
Arranjos: João Donato, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Perinho Albuquerque
Técnico de som: João Moreira
Assistente: Paulinho Chocolate
Capa: Rogério Duarte
Fotos: Tereza Eugênia

Músicos Participantes:
Piano: João Donato e Aloísio Milanês
Violão: Gilberto Gil e Perinho Albuquerque
Baixo: Rubão Sabino, Novelli, Milton Botelho e Luís Alves
Bateria: Tuty Moreno e Enéas Costa
Guitarra: Chiquito e Perinho Albuquerque
Percussão: Ariovaldo Peninha e Bira da Silva
Tumba: Hermes Contesti
Bordão: Perinho Albuquerque
Regência: Mário Tavares
Efeito de voz: Caetano Veloso (Lua,Lua, Lua, Lua)
Efeito de mesa: João Moreira (Lua, Lua, Lua, Lua)

Faixas:

1 Barato total (Gilberto Gil), 2 A rã (Caetano Veloso - João Donato), 3 Lua, lua, lua, lua (Caetano Veloso), 4 Canção que morre no ar (Carlos Lyra - Ronaldo Bôscoli), 5 Flor de maracujá (Lysias Ênio - João Donato), 6 Flor do Cerrado (Caetano Veloso), 7 Jóia (Caetano Veloso), 8 Até quem sabe (Lysias Ênio - João Donato), 9 O céu e o som (Péricles Cavalcanti), 10 Lágrimas negras (Nelson Jacobina - Jorge Mautner), 11 Chululu (Mariah Costa)

 
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Sexta-feira, 24 de Abril de 2009

A ATUAÇÃO DAS MULHERES NO GOLPE MILITAR DE 1964

 

 

É certo que o golpe militar de 1964 não vingaria não fosse o apoio conspiratório de várias entidades e segmentos da sociedade brasileira. Passados os anos da catástrofe contra a democracia instaurada naquele ano, pouco foi dito sobre os conspiradores ou sobre as entidades que ajudaram o golpe de estado. Uma das participações mais determinantes no movimento de 1964 foi a das mulheres. Pouco se tem dito, mas elas foram essenciais para a queda do governo de João Goulart.
Nos anos 60 uma nova história da participação da mulher dentro da política e da sociedade seria escrita. É a década da quebra de tabus, da liberação sexual e da emancipação da mulher, desde então feita dona do seu corpo e destino. A ciência conspirou a favor dessa emancipação, lançado através da pílula anticoncepcional uma nova visão da maternidade. Se foi nessa década que a mulher adotou a pílula, queimou sutiãs em praça pública pelo mundo, no Brasil elas permaneciam conservadoras e voltadas para os princípios básicos e eternos do conceito de família e da religião cristã romana.
A voz feminina nas decisões políticas do país deixou, nesta década, o papel habitual de coadjuvante, tornando-se uma arma poderosa, bem usada e manipulada pela direita conservadora e pela igreja católica. No início dos anos 60 as conservadoras mulheres da classe média organizaram-se, surgiram entidades políticas femininas patrocinadas pelo Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) e pelo Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), destinadas a colaborarem com uma imensa conspiração que urdia para derrubar o então presidente João Goulart. Distintas senhoras mães de família, mulheres de políticos, militares, e até mesmo artistas, organizaram-se nos principais estados conspiradores, Guanabara, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, formando a União Cívica Feminina (UCF), a Campanha da Mulher pela Democracia (Camde) e a Liga da Mulher Democrata (Limde), entre outras organizações. Decididas, empunhando rosários nas mãos, as mulheres brasileiras, amparadas em suas entidades, marcharam pelas ruas das principais cidades do Brasil, primeiro exigindo a queda de João Goulart, depois, concretizado o objetivo, para saudar os militares golpistas que instaurariam uma ditadura que duraria mais de 20 anos. Vitoriosas, as mulheres aplaudiram ao ato que confortavelmente chamaram de “revolução”.

Entidades Femininas Sob a Influência do IBAD, do IPES e da Igreja Católica

A divisão do mundo político em dois blocos após a Segunda Guerra Mundial, tendo de um lado os Estados Unidos e a Europa ocidental, do outro lado a União Soviética, fez com que se instaurasse a Guerra Fria. Não só os interesses ideológicos e econômicos foram postos em causa, como também o destino e o futuro da igreja romana no mundo. A Europa estava completamente ocupada e devastada pelo poderio nazista. Duas frentes dos aliados vieram em seu socorro, uma liderada pelos americanos, que entrou nos países ocupados pela Normandia, e outra liderada pelos soviéticos, vinda do leste, a partir de Moscou. Ao libertar o leste europeu, os soviéticos não só expulsaram os nazistas dali, como também a igreja, considerada pelos comunistas a responsável direta pela miséria e alienação dos povos através dos tempos. Estava instaurado o chamado comunismo ateu.
A Guerra Fria estava em seu auge no início dos anos 60. A revolução socialista cubana em 1959, deu o sinal de alerta para os americanos, a desigualdade social, a miséria e o poder latifundiário, faziam da América Latina campo fértil para as revoluções socialistas. O catolicismo enraizado nesses países também estava ameaçado. Quando John Kennedy ascendeu à presidência dos EUA, tornava-se o primeiro presidente católico daquela nação. Em 1961 Kennedy lançou o programa de ajuda econômica e social à América Latina, a Aliança para o Progresso, surgindo paralelamente o plano Caritas. Em princípio de caráter humanitário, o Caritas (caridade em latim) além de distribuir alimentos, medicamentos e esmolas para os latinos americanos, ele servia como atenuante dos ideais revolucionários socialistas, apontando-os como incessíveis à fé. Financiado pelos católicos dos países ricos, o Caritas alertava o povo, propagando que o ateísmo marxista destruiria as igrejas, separaria as famílias e mataria todos os conceitos familiares tradicionais do povo latino americano. No final de 1963, foi enviado para o Brasil o padre Patrick Peyton, devidamente chancelado por Kennedy e pela Agência Central de Inteligência (CIA), que o tinha sido preparado. Peyton era famoso por gostar de aparecer ao lado de celebridades. O padre iniciou uma pregação pelo Brasil, aliciando principalmente, as mulheres católicas do país. No início de 1964, com suporte técnico feito por Washington, o primeiro programa em rede da televisão a cobrir todo o Brasil, foi uma missa celebrada por Peyton. O padre abriu caminho para as chamadas marchas da família, dando origem à Cruzada pelo Rosário em Família. Promovia o lema de que a família que rezava unida, permanecia unida. Seus rosários em família eram disputados pelos brasileiros. A Cruzada do Rosário tinha surgido nos Estados Unidos em 1945, e adotara como símbolo o rosário católico como principal arma contra o comunismo.
Paralelo ao trabalho da igreja, foi reativado o IPES, existente desde 1952, mas até então com pouca relevância. Sob o comando do coronel Golbery do Couto e Silva, esta entidade era uma organização que corresponderia às atuais organizações não-governamentais (ONGs), era financiado por empresas nacionais e multinacionais e pelo próprio governo. O IPES tornou-se forte articulador da desestabilização do governo. Em 1959, o economista Ivan Hasslocher criou o IBAD. Apoiada por poderosos empresários brasileiros e estrangeiros, a entidade financiava meios de comunicações, políticos e entidades de oposição ao governo de João Goulart. IPES, IBAD e a igreja católica, seriam os principais incentivadores das organizações das mulheres, ajudando na criação de várias delas, incitando-lhes às marchas contra o suposto comunismo do governo janguista, e até financiando essas entidades.
Sob a benção do IPES, em 1962 surgiu em São Paulo, a União Cívica Feminina (UCP). A entidade era composta pelas mulheres da mais alta elite paulistana. Se a UCP começou a campanha contra João Goulart em nome da defesa da moral e dos bons costumes da família e do direito à integridade religiosa, terminou por defender a elite, atemorizada pela convicção do presidente em promover reformas de base que beneficiariam grande parte da população, contrariando interesses de empresários, latifundiários e de multinacionais.
Na cidade do Rio de Janeiro, capital do estado da Guanabara, a elite reuniria as suas mulheres dentro da Campanha da Mulher pela Democracia (Camde). Em Belo Horizonte, Minas Gerais, surgiria a Liga da Mulher Democrata (Limde). UCP, Camde e Limde unir-se-iam em uma das maiores cruzadas políticas feitas pelas mulheres brasileiras, marchando de encontro aos golpistas militares que implantariam uma longa ditadura no Brasil, a mais feroz de todas que o país viveu em sua história.

As Ofensivas das Mulheres da Elite

João Goulart era conhecido pela sua grande capacidade de dialogar com todos os setores da sociedade. Nem assim conseguiu a simpatia da elite brasileira, que sempre o viram com desconfiança. Isolado pelos empresários e por grande parte dos políticos, Jango, a partir de janeiro de 1964, voltou-se para as entidades que lhe apoiavam, entre elas a União Nacional dos Estudantes (UNE) e o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). Para mostrar ao povo a força do governo, apoiado pelas entidades de esquerda, o presidente marcou um comício para o dia 13 de março, que se realizaria no Rio de Janeiro.
A tensão estava criada. As mulheres da elite, cada vez mais organizadas, participavam de cursos financiados pelo IPES, nos quais recebiam aulas de preparação para pregar a união da família contra o perigo do comunismo ateu. Devidamente instruídas, elas levavam às amigas, aos empregados domésticos, às comunidades, as lições aprendidas contra o perigo vermelho. A Limde, a UCF e a Camde, promoviam grandes participações em programas de rádios, reuniões com adesões cada vez maiores, distribuíam panfletos, enviavam telegramas e cartas aos políticos e às entidades representativas, sempre em nome da defesa da pátria e da família cristã; chegaram a enviar mais de 50 mil cartas ao Congresso Nacional.
Conforme a tensão aumentava os conflitos entre a esquerda e a direita, também as mulheres ficavam mais ofensivas. Em janeiro do fatídico 1964, Belo Horizonte iria receber o congresso da Central Única dos Trabalhadores da América Latina. Em resposta à realização do evento, a Limde espalhou que enviaria as suas militantes para o aeroporto, deitar-se-iam na pista, evitando que as delegações pudessem desembarcar. Diante do impasse, o congresso foi transferido para Brasília. A mesma entidade voltaria a radicalizar em fevereiro, quando Leonel Brizola, de passagem por Belo Horizonte, discursava na Secretária de Saúde a favor das reformas de base; as mulheres invadiram o auditório com rosários na mão e pronunciando orações, calando o deputado, causando um grande tumulto. O episódio passaria para a história como a “noite das cadeiradas”.

Vermelho Bom, Só o Batom

Como já elucidado acima, a Cruzada do Rosário, promovida pela pregação do padre Peyton, atingiu as mulheres da elite brasileira, e também, grande parte da população católica. O que não era citado era o profundo teor reacionário desses conservadores católicos que além dos comunistas, punham no mesmo saco de inimigos o espiritismo, a umbanda, o protestantismo e a maçonaria. No comício da Central do Brasil do dia 13 de março, João Goulart daria uma resposta à hipocrisia conservadora da Cruzada do Rosário:
Não podem ser levantados os rosários da fé contra o povo, que tem fé numa justiça social mais humana e na dignidade das suas esperanças. Os rosários não podem ser erguidos contra aqueles que reclamam a discriminação da propriedade da terra, hoje ainda em mãos de tão poucos, de tão pequena minoria.”
O discurso de João Goulart foi considerado ofensivo às mulheres, às suas entidades e à Nossa Senhora. A verdade é que o comício da Central do Brasil incomodou profundamente aos conservadores. Mais uma vez a hipocrisia religiosa foi dada como desculpa para que a elite pudesse defender os seus interesses seculares. Em resposta ao comício, a UCP organizou uma grande manifestação em São Paulo, em defesa da “ofensa” feita pelo presidente à Nossa Senhora. Foi escolhida a data de 19 de março, dia de São José, o santo protetor da família, para a realização de uma grande marcha que se destinava a sensibilizar os brasileiros da ameaça comunista que pairava contra a nação. À frente da convocação à família paulistana, foi usado o nome de Leonor Mendes de Barros, mulher do então governador de São Paulo, Adhemar de Barros. Entre 14 e 16 horas, formaram-se na Praça da República, grupos de pessoas em volta de elegantes mulheres, que traziam nas mãos bandeirinhas do Brasil e rosários. As mulheres eclodiam pelo país as “marchas da família, com Deus, pela liberdade”. Se o comício da Central do Brasil reunira 100 mil pessoas, quando a marcha desembocou-se na Praça da Sé, cerca de 500 mil pessoas a acompanhava. Aproximadamente 80 entidades participaram do manifesto. Durante o trajeto, faixas estampavam o objetivo da marcha, trazendo frases que entrariam para a historia, como “Está chegando a hora de Jango ir embora”, “Verde e amarelo, sem foice nem martelo” e “Vermelho bom, só o batom”.
O palanque montado na Praça da Sé só foi atingido uma hora depois do início da marcha. Leonor Mendes de Barros hasteou a bandeira brasileira, o Hino Nacional foi tocado pela banda da Força Pública. Foi feita uma oração pela salvação da democracia, abrindo-se logo a seguir, o palanque para os discursos. Carlos Lacerda e Adhemar de Barros limitaram as suas presenças no evento, o primeiro não discursando, o segundo sobrevoando a praça de helicóptero. Ao agir assim, deixaram estrategicamente as glórias do evento às mulheres.

Mulheres Saúdam o Golpe Militar

O sucesso da Marcha da Família com Deus pela Liberdade (que inicialmente deveria se chamar Marcha de Desagravo ao Santo Rosário) em São Paulo, abriu caminho para que outras fossem realizadas por todo o país, sempre com as mulheres à frente, trazendo rosários nas mãos. Uma marcha gigantesca e tão marcante quanto a de São Paulo, seria marcada para ser realizada no Rio de Janeiro no dia 2 de abril. No dia 31 de março o general Olimpio Mourão Filho, subleva as suas tropas da 4ª RM e 4ª DI, em Juiz de Fora, começando o movimento que culminaria na deposição do presidente João Goulart. Quando se realizou a marcha na capital da Guanabara, ela já se dá como festa para receber os militares do golpe, que é chamado de “revolução”. O evento passa então, a ser chamado de Marcha da Vitória, chancelando o golpe de estado que se dava naquele momento.
Com a implantação do governo ditatorial dos militares, as entidades femininas formadas naqueles tumultuados anos do início da década de 60 deixaram de ter uma utilidade objetiva. Afinal tinham sido criadas para a desestabilização do governo que fora derrubado. Qualquer ameaça da esquerda foi reprimida através de prisões e torturas. Os rosários já não eram necessários diante dos fuzis. Assim como surgiram, as entidades da conservadora elite das mulheres brasileiras foram extintas e esquecidas. Pouco ou nada é falado, quando acontece, apenas as mais beatas são citadas, causando-se a impressão de um fanatismo de mulheres velhas. Mero engano. Mulheres de todas as idades participaram dessas entidades, e de fanatismo nada tinham, eram movidas pelos interesses das classes sociais que se criaram e que delas sempre tiraram proveitos. Mulheres inteligentes e de acesso cultural elevado usaram do seu poder na defesa de uma elite secular. Algumas dessas mulheres futuramente perderiam os seus filhos para o romantismo de uma esquerda revolucionária que se voltaria contra a ditadura. Ironicamente os homens que ajudaram a chegar ao poder é que iriam matar ou desaparecer com alguns dos seus filhos.
De todas as entidades citadas, a única que persiste até os nossos dias é a UCF, em São Paulo. Mais de quatro décadas depois da implantação da ditadura e de todos os males que causaram historicamente, a UCF jamais fez uma retratação ou autocrítica da sua participação no movimento de 1964. Atua como uma entidade politicamente correta, ainda a serviço da elite. Limitam-se a entregar panfletos pelas ruas de São Paulo lembrando datas cívicas esquecidas ou promovendo manifestações mornas de apoio a alguma CPI (Comissão Parlamentar de Inquéritos) contra a corrupção. Suas integrantes ainda chamam o golpe militar de revolução, pouco comentam, talvez pela necessidade de tentar apagar da história uma participação tão polêmica e nada honrosa da mulher na construção da nação.
As mulheres brasileiras redimir-se-iam mais tarde, eliminando dos movimentos femininos futuros o conservadorismo de outrora. Nos anos 70 voltariam com força à cena política, sendo imprescindíveis na restauração da abertura política, na sanção da lei da Anistia, em 1979, ou ainda no movimento pelas Diretas Já, em 1984. Mas jamais tiveram tanta evidência em seus movimentos, como quando desfilaram pelas avenidas da história com os seus rosários nas mãos.
 
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Terça-feira, 21 de Abril de 2009

KOUDELKA - IMAGENS SILENCIOSAS

 

 

Ao longo dos séculos, os países da Europa do leste tiveram suas fronteiras alteradas várias vezes. Quando no século XX o conceito de nação moderna foi protegido pelos tratados e pela formação de ligas para defender o direito da soberania e preservação dos estados, guerras e revoluções transformaram a paisagem geográfica do oriente europeu, varrendo várias nações do mapa em sua história recente. Uma vez desaparecidos alguns países, coube aos que neles nasceram, adaptarem-se à inexistência das suas pátrias. Josef Koudelka faz parte daqueles que em determinada época da história, viu extinguir o país onde nasceu. Fotógrafo genial, registrou nas lentes da sua objetiva a fragmentação da história contemporânea. É dele as imagens que correram o mundo mostrando o estrangulamento da Primavera de Praga, em 1968. Imagens que dispensam qualquer legenda, trazendo a dor latente de um povo que viu a sua festa de liberdade ser bruscamente terminada pela chegada dos tanques e soldados dos países vizinhos.
As belíssimas fotografias de Josef Koudelka, com as quais ilustrei o artigo “Praga 1968, Florescimento e Morte de uma Primavera”, não serão aqui repetidas, para que se possa expandir o universo do fotógrafo. As imagens de Koudelka não nos convidam a um voyeurismo, mas a uma reflexão silenciosa, muitas vezes sem explicação das palavras, outras vezes rasgando em pungente um mundo esteticamente perfeito através das objetivas. Seja nos retratos do povo cigano, seja no desalento de uma nação diante dos canhões a dilacerar os sonhos, o mundo de Koudelka parece-nos estranho, mas sabemos que ele existe tão próximo a nós, que os rostos retratados podem emergir a qualquer momento da fotografia e assustar-nos na esquina da história, no bairro das frágeis fronteiras construídas pelo homem para legitimar o abstrato conceito de nação e país.

O Fotógrafo dos Silêncios

Josef Koudelka nasceu em 1938, na Moravia, região da antiga Tchecoslováquia, país formado em 1918 dos escombros do antigo Império Austro-Húngaro e dividido em dois, República Tcheca e Eslováquia, em 1993. Para que se perceba a obra de Koudelka, é preciso que se entenda o país onde ele nasceu. A Tchecoslováquia foi totalmente ocupada por Hitler durante a Segunda Guerra Mundial, sendo devastada pelos males da guerra. Em 1945 foi libertada do julgo nazista pelos soldados soviéticos. Na divisão do mundo que as grandes nações fizeram após a guerra, o pequeno país ficou fazendo parte dos países do bloco soviético. É em uma nação socialista que Koudelka cresceu e fez-se um engenheiro da força aérea. Paralelamente a esta profissão, passou, a partir da década de 60, a exercer a profissão de fotógrafo.
Koudelka começou por fotografar a performance dos atores de teatro. Deste período revela-se um observador dos gestos do ator, tirando-lhe o sentido dramático da palavra, dando-lhe uma nova interpretação diluída na imagem dilatada através do silêncio.
Ainda nos primeiros anos da década de 1960, Koudelka passa a fotografar, além do teatro, os ciganos do seu país. Sua identificação com a temática está nas suas próprias origens. Koudelka fotografou a vida dos ciganos da Europa do leste por quase uma década, formando um dos mais importantes acervos da sua obra com os rostos desnudos dessa gente itinerante. Em 1967 o fotógrafo já se libertara da profissão de engenheiro. A Romênia é considerada o berço dos ciganos europeus. Foi para lá que ele se dirigiu quando se deu a Primavera de Praga, em busca de novas imagens para as suas fotografias temáticas.
Coincidentemente, viajou para Praga um dia antes da chegada das tropas dos países do Pacto de Varsóvia. Na noite de 20 para 21 de agosto, aos 30 anos, Koudelka presenciou um dos momentos mais tensos da recente história contemporânea. Com aguda sensibilidade jornalística e artística, registrou este momento de violência e violação à liberdade e ao povo de uma nação. As imagens silenciosas feitas pelo fotógrafo dispensaram qualquer relato, apagado pelos invasores. Tão fortes e de impacto perturbador, os retratos do fim da Primavera de Praga correram o mundo, abrindo as portas para a genialidade de Koudelka.
Josef Koudelka saiu da Tchecoslováquia pela primeira vez em 1969. No ano seguinte ele pediu asilo à Inglaterra, onde permaneceria até 1971. Depois decidiu tornar-se apátrida, percorrendo o mundo, assim como os ciganos que fotografara em sua obra. No mesmo ano que deixou a Inglaterra, começou a trabalhar para a agência Magnum, tornando-se membro da cooperativa em 1974.
Josef Koudelka declarou que o seu maior medo não é das nações que viu desaparecer, ou da força bruta que registrou em suas lentes, mas de parar de fotografar, de perder a inspiração. Segue registrando o mundo, mostrando-nos personagens que se desenham aos nossos olhos a todo instante, mas que na nossa cegueira intrínseca, recusamo-nos a ver.

As Imagens da Morte de uma Primavera

Escolher imagens registradas por Koudelka não é fácil. Cada uma traz um pedaço da história contemporânea, que não se dissocia do seu contexto. Voltemos aqui à noite em que a Primavera de Praga morreu, em cinco imagens definitivas:
Primeira imagem: Josef Koudelka - CZECHOSLOVAKIA. Prague. August 1968. Warsaw Pact tanks invade Prague. Praga, 1968, o verão está no seu auge, também a ebulição das utopias e dos sonhos de um novo tempo, uma nova liberdade dentro de um mundo velho, mas nem por isto repudiado por aquela gente. As velhas dialéticas sentem-se ameaçadas, estão em causa todos os princípios do lado da esquerda da Guerra Fria. A imagem de Koudelka mostra a ponta do canhão abrindo a avenida da cidade. O canhão entra como se rasgasse o sonho de liberdade numa terebração na carne da utopia.
Segunda imagem: Josef Koudelka - CZECHOSLOVAKIA. Prague. August 1968. Protesting the Warsaw Pact troops Invasion. National flag decorated with photographs of leaders removed by Russians. Contra os canhões restam as bandeiras, flamejantes como um último grito, aqui são colados à flâmula retratos dos líderes da Primavera de Praga, a essa altura, já levados prisioneiros para Moscou. A bandeira nas mãos de homens que representavam o sonho que estava a ser calado por fuzis e outros homens de farda.
Terceira imagem: Josef Koudelka - CZECHOSLOVAKIA. Prague. August 1968. Várias gerações de homens, adolescentes, jovens, maduros, mostram na desolação dos seus rostos, a dor da perda do sonho, a tristeza de saber que um longo período de repressão viria. Koudelka capta a expressão exata que angustia cada homem, formando uma só voz silenciada.
Quarta imagem: Josef Koudelka - CZECHOSLOVAKIA. Prague. August 1968. Warsaw Pact troops invasion. Quantas palavras podem definir um espanto? Todas e nenhuma. É o que retrata esta imagem, duas mulheres que não acreditam no que se sucede. Uma tampa a boca, contendo a angústia cada vez mais latente, a outra segura o rosto, como se todas as palavras tivessem transbordado do seu âmago, como se pudesse segurar o pavor, o horror.
Quinta imagem: Josef Koudelka - CZECHOSLOVAKIA. Prague. August 1968. Wenceslas Square. Protesting the Warsaw Pact troops invasion. Sem saída, as pessoas protestam no centro da Praga. Estão todos sentados na rua, enquanto um homem, no centro da fotografia, exibe um jornal, como um manifesto da liberdade. A sua figura está em alinhamento com a estátua ao fundo; ambos, homem e estátua, representam a história escrita no passado e a que se escrevia naquele momento, no mesmo cenário da Praça Wenceslau, o coração de Praga.
Nunca uma tragédia da história foi tão fartamente ilustrada, captada e registrada, como o fim da Primavera de Praga. Aqui a arte da fotografia fundiu-se com o fotojornalismo, imortalizando a obra de Koudelka.

As Imagens do Mundo Cigano

Deixando a Primavera de Praga, percorremos o registro obsessivo de Koudelka do universo dos ciganos da Europa do leste. Este tema deu origem a grandes momentos na fotografia de Koudelka. Infelizmente, impossível de ser mostrado em um único artigo. Foram selecionadas duas imagens, para que se perceba o mundo através dos olhos deste fotógrafo singular.
Primeira imagem: Josef Koudelka - CZECHOSLOVAKIA. Slovakia. Bardejov. 1967. Gypsies. A cigana vela o seu morto. Seria o seu filho? O contraste da morte aqui tragicamente revelado, a ordem natural seria o contrário, o jovem a velar a velha, mas a vida não é exata, muito menos a morte. Imagem perturbadora, como é a morte. Pungente no olhar da mulher e no silêncio do morto. Excruciante na absorção de quem a contempla. Realista na visão de um mundo nem sempre perfeito.
Segunda imagem: Josef Koudelka - CZECHOSLOVAKIA. Slovakia. Velka Lomnica. 1966. Gypsies. Um casal idoso de ciganos posa para o retrato. Nada no registro é singelo, pelo contrário, retrata a crueza de uma vida miserável de uma gente eternamente perseguida pelo racismo e pelo preconceito. A mulher não mostra um momento de vaidade para as lentes do fotógrafo, mas todo o peso da vida que sente diante do mundo. Seu olhar é de dor, como se penetrasse no vazio do mundo. O homem traz um olhar duro, quebrado pelo exotismo do chapéu, que mostra o seu momento de vaidade diante da objetiva. Koudelka não registra a beleza estética, mas a verdadeira concepção da alma humana, a sua história nua, sem retoques, escancarada pela luz da imagem.
Os ciganos de Josef Koudelka são místicos, enraizados em seus costumes, mais voltados para a salvação da alma do que da vida, jogada a uma existência perseguida e discriminada. Uma vida de minorias dentro da intolerância da maioria. Também Koudelka tornara-se cigano, itinerante, andarilho sem pátria e sem amarras, voltado para a captação da história e do homem.

Retratos do Avesso das Almas Humanas

O universo de Josef Koudelka traduz a de um menino que conviveu com a guerra. Um jovem que cresceu dentro de um regime autoritário, na concepção dos estados de papel da Europa central. Em suas viagens pelo mundo, o fotógrafo passou por guerras, pela miséria humana. Aprendeu a olhar e registrar o cotidiano do homem fora dos seus sonhos, mas à luz das suas verdades. Não retrata as esperanças da vida, mas a crueza da luta para sobreviver ao sol.
Vicki Goldberg, crítica de fotografia, descreve Josef Koudelka de uma forma definitiva:
Um estranho que nos lembra como o mundo é verdadeiramente estranho, um fotógrafo que consegue perfurar as superfícies do nosso pequeno momento na história com a sua visão escura e vigorosa e descobrir um mundo que é assombrado por pessoas muito parecidas conosco.”
Se o mundo das palavras não satisfaz a humanidade, a imagem muitas vezes preenche essa lacuna. As imagens de Koudelka evidenciam não a beleza, mas as mazelas humanas, defeitos que muitas vezes não queremos vê-los refletidos, tão pouco registrados. São imagens que mesmo não compreendidas em uma primeira leitura, causa um arrepio que nos faz temer a alma humana se ela saltar dali.
 
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Quarta-feira, 15 de Abril de 2009

O CARTEIRO DE PABLO NERUDA

 

 

O cinema italiano de tempos em tempos, brinda o mundo com obras de linguagens lírica e emocionante, que transcendem tão singular estilo na sétima arte. O Carteiro e o Poeta (Brasil) ou O Carteiro de Pablo Neruda (Portugal), é um desses momentos mágicos vindos das lentes itálicas, que funde a imagem e as palavras em um poema lúdico, fazendo dele um filme de ode às metáforas. Baseado no romance do escritor chileno Antonio Skármeta, “Ardiente Paciencia”, o filme de Michael Radford transformou a personagem Mario Jimenéz, um chileno de 17 anos, em Mario Ruoppolo, um italiano de pouco mais de trinta anos.
O sucesso do filme foi imediato, emocionando as platéias de todo o mundo. Concorreu a cinco indicações do Oscar, entre elas a de melhor ator, melhor filme e melhor diretor. Ganharia apenas uma estatueta, a de melhor trilha sonora.
Ao transportar a personagem chilena para uma ilha no sul da Itália, o filme assume uma ruptura genial com o livro em que foi baseado, assumindo uma identidade itálica transposta no rosto e nos gestos do ator Massimo Troisi. A conjunção Mario Ruoppolo-Massimo Troisi desenha uma das mais belas criações do cinema universal, revelada em uma fina tela de emoções refletidas nos olhos do ator. Se o filme é um momento de beleza que encanta, para o ator Massimo Troisi é um momento definitivo. Através da personagem, Troisi tem a maior e derradeira interpretação da sua carreira, perseverantemente lutou contra a saúde debilitada durante as gravações, vindo a falecer pouco depois de concluí-las. Personagem e ator fundem-se na vida e na morte, não sabemos onde um encerra e o outro prossegue. Troisi sabia que aquele era o momento de acertos entre a vida e a arte, ludicamente despede-se das duas, deixando impregnado a imagem do carteiro de um dos maiores poetas do século XX. Il Postino, no título original, é um momento raro de encontro entre a palavra e a imagem, na metáfora mais perfeita entre Mario Ruoppolo e Massimo Troisi, registrando um dos mais belos filmes já feitos pelo cinema italiano.

Surge o Carteiro de Neruda

O cenário é a Itália do pós-guerra, sobrevivente do fascismo e da humilhação de ter feito parte do eixo que apoiou o nazismo alemão. Empobrecida, esta Itália vê como saída a migração dos seus filhos para a América. O filme abre as suas lentes para aquele lugar pobre e esquecido pelo progresso, mas belo nas entrâncias do mar e de ilha paradisíaca no meio do nada. Emerge dali Mario Ruoppolo, um homem inquieto e retraído em uma existência demarcada pelas limitações e sobrevivência do local que vive. Lugar atrasado, onde o principal meio de sustento é ser pescador, Mario sofre com a incapacidade de cumprir este destino. De saúde frágil, não tem jeito para a pesca, sendo visto pelos outros como preguiçoso e inadaptado.
Em um mundo de homens rudes e sem cultura, a sensibilidade de Mario está escondida numa poesia que ele desconhece dentro de si mesmo, mas que pressente diante de um mar de pescadores. Mario é um dos poucos do lugar que sabe ler, e é este pouco saber que o faz diferente. Vive uma vida modesta e sem atrativos, quando o marasmo é interrompido por um acontecimento súbito, a chegada do poeta Pablo Neruda (Philippe Noiret), que por motivos políticos é obrigado a exilar-se naquela ilha. A chegada de Neruda à ilha é anunciada através do jornal do cinema, único meio de comunicação de tão inóspito lugar ao progresso. O diferencial de Mario Ruoppolo diante dos outros habitantes do vilarejo vale a ele um emprego singular, ser carteiro do poeta exilado. Sendo um homem erudito e conhecido em todo mundo, Neruda recebe uma grande quantidade de cartas. Como a casa onde está exilado é distante, isolada no alto de um morro, é preciso destinar alguém só para lá ir entregar tão numerosa correspondência. O pouco que Mario sabe ler e o fato de ter uma bicicleta, habilita-o para o cargo. É contratado como carteiro de Pablo Neruda.

Um Sentido de Vida Verdadeiro para Mario

Se a vida parecia perdida para Mario, ela começa a recuperar o verdadeiro sentido do que lhe estava destinado, quando ele tem o primeiro contacto com Neruda. Mario tem fome do saber, das palavras e da poesia. Neruda está longe do seu universo, dos seus seguidores e admiradores. O encontro é perfeito. Se Neruda está exilado do seu cotidiano e da sua vida, Mario está à procura de uma ruptura, de uma mudança que lhe satisfaça a existência miúda diante da miséria e mesquinhez da existência humana.
Mario dentro da sua simplicidade de vida, é um homem de alma complexa, obstinada e sempre pronta a aprender. Não se limita a ser um simples carteiro particular do poeta das mulheres. Aprofunda-se nos recursos escassos que tem, como olhar no mapa e aprender onde estava o Chile, terra natal de Neruda. Honesto, de personalidade inteligente, sensibilidade aguçada e emotiva, Mario trava um diálogo com Neruda, que simples ao começo, torna-se amplo. O carteiro sabe aproveitar todos os conhecimentos que lhe traz Neruda. Anota-os, estuda-os, aprende-os. Sua alma é fértil diante dos conhecimentos, todo o saber que nela é plantado germina, avança e evoluí para a erudição de uma existência persistente e honesta, demarcada pelas feições que traz no rosto e nos gestos.
A admiração de Mario por Neruda é real, profunda, é a razão da sua existência, até ali banal e desencontrada. Enquanto o chefe do correio chama Neruda de poeta do povo”, para o carteiro ele é o “poeta do amor”. Diante do espelho ele ensaia como deverá pedir que o poeta lhe autografe um livro, diante de Neruda pede simples e espontâneo. O contraste da alma aprendiz de Mario salta em paradoxo com o corpo do homem que montado em uma bicicleta, apresenta-se todos os dias bucolicamente ao poeta.
Mario vai além das suas limitações. Aprende com a poesia de Neruda. Toma-a para si e a declara a bela Beatrice Russo (Maria Grazia Cucinotta). Aqui ele mostra que a poesia só pertence ao poeta até transposta para o papel, depois é de todos os homens que precisam dela para amar e para que se seja amado. Quando questiona ao poeta certos poemas, recebe deste a mais verdadeira das explicações:
Quando explicamos a poesia ela torna-se banal. Melhor do que qualquer explicação é a experiência direta das emoções, que a poesia revela a uma alma predisposta a compreendê-la."
O carteiro aprende os labirintos das metáforas. Ajudado por Neruda, conquista o amor da mais bela mulher do lugar, a sua eterna Beatrice. Sob a benção e o apadrinhado do poeta, casa-se com ela.

Paradoxo Entre a Poesia, os Ideais e a Morte

Após conquistar Beatrice, Mario Ruoppolo descobre que diante dos conhecimentos, a vida torna-se ilimitada às ideologias humanas. Mario já não se restringe às metáforas da poesia ou da linguagem, mas aos meandros da política. A visão da esquerda comunista de Neruda contagia aquele homem simples, que salta para além daquele vilarejo governado por demagogos, que nem água traz ao lugar. Mario torna-se militante sindicalista. Leva consigo o ideal de Neruda, tantas vezes perseguido e dilacerado pela força bruta dos regimes totalitários da guerra fria.
Mas um dia os ventos mudam. Neruda já pode voltar do seu exílio. Antes de deixar a ilha, despede-se de Mario, prometendo mandar notícias, e um dia voltar para uma visita. Pede ao discípulo que lhe mande o que há mais bonito naquela ilha. Neruda parte, deixando para trás um novo Mario, casado com a mulher que ama, consciente dos valores políticos e sociais, muito além do homem simples e perdido que fora até o encontro com o poeta.
O tempo passa e Mario nunca esquece Neruda. Espera sempre por uma carta, uma notícia, uma visita, que nunca chega. Quando questionado pela indiferença do amigo, ele nunca o recrimina, justifica-se, dizendo que Neruda é um homem muito ocupado. Com uma paciência estóica, ele aguarda a volta do poeta. Enquanto espera por notícias de Neruda, Mario, apesar da militância política, jamais perdeu a sensibilidade da poesia, o sentido das metáforas. Decide cumprir a promessa que fizera ao poeta, registrar e enviar o que de mais belo tem na sua ilha. É aqui que surge uma das mais belas cenas do filme. Além da bela Beatrice, para Mario o registro das ondas do mar, o som do vento, tudo isto ele põe em gravador para enviar para Neruda. O poeta do filme já não Pablo Neruda, mas o próprio Mario Ruoppolo, que ao registrar o mar da sua ilha, mostra a palavra de todos os poetas analfabetos do mundo, muito além dos símbolos gráficos e das letras.
Passados muitos anos, um dia Neruda cumpre a promessa que fizera ao carteiro, retornando à ilha para rever o amigo. Neruda entra sorridente no bar que pertencia a Beatrice, procura saudoso pelo amigo. Tarde demais! Paradoxalmente, os conhecimentos e ideais que aprendera com Neruda, levaram Mario à morte. O homem sensível que só queria trazer água corrente para a sua ilha, tinha sido morto durante um comício do Partido Comunista Italiano, em uma grande cidade, que fora violentamente reprimido pela polícia de estado. Beatrice conta para Neruda a longa espera do marido pela sua volta. Entrega-lhe o registro poético das ondas que ele fizera em sua homenagem. Emocionado, Neruda vai ao lugar onde Mario gravara o som das ondas do mar. A poesia condensa-se com a imagem. Realidade e ficção unem-se em uma ode final. Morrera Mario Ruoppolo. Morrera doze horas depois de concluir o filme, Massimo Troisi. Surgem as letras na imensa tela, com a dedicatória “ao nosso amigo Massimo Troisi”.

Ficha Técnica:

O Carteiro e o Poeta

Direção: Michael Radford
Ano: 1994
País: Itália, França e Bélgica
Gênero: Drama, Romance
Duração: 109 minutos / cor
Título Original: Il Postino
Roteiro: Michael Radford, Anna Pavignano, Massimo Troisi, Giacomo Scarpelli e Furio Scarpelli, baseado no livro de Antonio Skármeta
Produção: Mario Cecchi Gori, Vittorio Cecchi, Gori e Gaetano Daniele
Música: Luiz Enríquez Bacalov
Direção de Fotografia: Franco Di Giacomo
Desenho de Produção: Lorenzo Baraldi
Figurino: Gianna Gissi
Edição: Roberto Perpignani
Estúdio: Miramax Films / Blue Dahlia Productions / Cecchi Gori Group Tiger Cinematografica / Esterno Mediterraneo Film / Penta Films, S.L.
Elenco: Massimo Troisi, Philippe Noiret, Maria Grazia Cucinotta, Renato Scarpa, Linda Moretti, Mariano Rigillo, Anna Bonaiuto, Nando Néri, Sergio Solli, Carlo Di Maio, Vicenzo Di Sauro, Orazio Stracuzzi, Alfredo Cozzolino
Sinopse: Por razões políticas o poeta Pablo Neruda (Philippe Noiret) exila-se em uma ilha na Itália. Lá um desempregado (Massimo Troisi) quase analfabeto é contratado como carteiro extra, encarregado de cuidar da correspondência do poeta, e gradativamente entre os dois se forma uma sólida amizade.

Michael Radford

Michael Radford é um diretor de cinema britânico. Filho de pai britânico e mãe austríaca, nasceu em 24 de fevereiro de 1946, em Nova Deli, Índia, quando esta ainda era uma colônia britânica. Radford trabalhou muitos anos para a BBC, fazendo vários documentários para a televisão (1976-1982).
No cinema, o primeiro filme que projetou Radford internacionalmente foi 1984, baseado na obra homônima de George Orwell, filme que seria o último da vida do ator Richard Burton. O filme foi realizado no ano que Orwell indicou no livro, escrito em 1948.
Sem dúvidas, o filme da carreira de Michael Radford é Il Postino, de 1994. Sensível adaptação ao livro de Antonio Skármeta. Um dos momentos mais brilhantes da sua carreira e do cinema europeu, culminando com uma indicação para o Oscar de melhor diretor.
Em 2004 Radford dirigiu o filme O Mercador de Veneza, baseado na obra homônima de William Shakespeare, que trazia um elenco de luxo, com nomes como Al Pacino e Jeremy Irons.

Filmografia de Michael Radford:

1980 – The White Bird Passes (televisão)
1980 – Van Morrison in Ireland
1983 – Another Time, Another Place
1984 – 1984
1988 – White Mischief
1994 – Il Postino
1998 – B. Monkey
2000 – Dancing at the Blue Iguana (Divas do Blue Iguana)
2002 – Tem Minutes Older: The Cello
2004 – The Merchant of Venice (O Mercador de Veneza)
2007 – Flawless (Um Plano Brilhante)
2008 – Mula, La
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Terça-feira, 14 de Abril de 2009

HADES E PERSÉFONE - A PRIMAVERA ADORMECIDA

 

 

Hades (Plutão), ao lado dos irmãos Zeus (Júpiter) e Poseidon (Netuno), travaram uma longa guerra de dez anos contra o pai Cronos (Saturno) e os Titãs. Após a vitória dos três irmãos, uma nova ordem e poder estabeleceu-se sobre o mundo e os deuses, na partilha dessa nova ordem, coube a Zeus o reino do céu e da terra, a Poseidon o mar, e a Hades as profundezas da terra, conhecidas por Érebo, Infernos ou Hades. Se Zeus reina do Olimpo, ao lado de mais 11 deuses, Hades é o senhor absoluto do reino dos mortos, o décimo terceiro deus.
Hades tem como súditos os mortos, mas o seu domínio é a extensão final de todos os vivos, daí ser respeitado e venerado por eles. Reina taciturno nos subterrâneos, sendo auxiliado pelas criaturas infernais, que ao seu lado, mantêm a ordem e as sentenças nos reinos das trevas. Hades traz um capacete mágico, feito pelos Ciclopes, que o torna invisível diante dos deuses e dos vivos. Esta capacidade é a raiz da origem do seu nome, Hades em grego significa invisível.
O mito de Hades não gerou muitas lendas diretas, mas às criaturas adjacentes ao seu mundo. A lenda mais conhecida é a do seu amor por Perséfone (Prosérpina), movido por uma violenta e arrebatadora paixão que o faz raptar a jovem e levá-la da Terra para o subterrâneo do seu reino. No Érebo, o deus dos mortos faz de Perséfone a sua esposa, dividindo com ela o trono. A lenda do rapto de Perséfone, uma das mais belas da mitologia, retrata a origem da primavera sobre a terra. É o amor no mundo dos mortos estendo-se às belezas terrestres.

Hades e as Divindades Infernais

No princípio da civilização gregas, a representação do mundo dos mortos não trazia qualquer conotação de prêmio ou castigo para os seres humanos que findavam, o Érebo era descrito como uma vasta planície no subterrâneo da terra, onde os mortos vagueavam como sombras, desprovidos de sentimentos como a dor, a alegria e sem a inteligência da alma. O mundo dos mortos representava a apatia total e eterna sobre a vida. À medida que a civilização helênica evoluiu, criando as cidades estados, a sua organização trouxe a disciplina, a justiça e a ordem, elementos essenciais para a sobrevivência da vida coletiva. Esta organização não evita a morte, e ela passa a ser refletida na ordem dos vivos, e na recompensa que se tem de ser justo. Um novo conceito dos Infernos surge, e ele é dividido em dois lados separados pelo rio Aqueronte. De um lado está o Tártaro, lugar da expiação dos maus, onde os injustos pagam as suas culpas; do outro lado os Campos Elísios, conhecidos também como a ilha dos Bem-Aventurados, lugar no mundo das trevas onde os que foram bons em vida usufruem, depois de mortos, as recompensas das suas ações.
Se Zeus tem os deuses do Olimpo para governar sobre o céu e a terra, Poseidon tem as nereidas, as sereias, os tritões e outros seres marítimos para governar os mares e rios, também Hades tem as divindades infernais. Três juízes, Minos, Radamanto e Éaco, decidem em julgamento presidido pelo próprio Hades, de que lado dos Infernos habitará cada morto.
Caronte é o barqueiro que recebe os mortos quando chegam ao Érebo, cabe a ele, pelo pagamento de um óbolo, atravessar as almas pelo rio Aqueronte. O pagamento de Caronte é feito pela moeda que os parentes dos mortos punham na sua língua durante o funeral. Quem não levasse a moeda, os insepultos, ficariam vagando para sempre, às margens do rio, chorando.
O guardião dos portões do Hades é Cérbero, furioso cão negro de muitas cabeças, filho do monstro Tifão e de Equidina.
Tânatos (Morte) é o principal auxiliar de Hades. Tânatos é quem traz as almas, independente dos desígnios de Hades. A ele ninguém escapa. Tânatos é um deus grego, na mitologia romana a morte é uma deusa, Mors. Tânatos auxilia Hades, mas está ligado diretamente às vontades do Destino, deus de força superior aos próprios deuses. Quando o Destino marca a hora final de um ser vivo, Tânatos envia as Queres, divindades que se apoderam do mortal, golpeando-o e arrastando-o para o Érebo. Se o mortal era um assassino ou perjuro, cabe às Erínias ou Fúrias, três deusas negras, aladas, com cabeleiras de serpentes, ir buscá-lo no lugar da Queres.
Hades, apesar de todo o poder do seu reino, raramente interfere nos desígnios humanos ou dos deuses do Olimpo, a menos que por eles invocado, para que se cumpra a justiça da morte sobre a iniqüidade dos vivos. Hades quando invocado, abre o caminho para as maldições, findadas na tragédia da morte. Por ser um deus que vive debaixo da terra fértil, era visto como quem propiciava o desenvolver da semente plantada nos limites dos seus domínios, favorecendo a germinação e produtividade dessas. Esta veneração era feita principalmente pelos romanos, que identificaram Hades com Plutão, nome que significava “aquele que dá a abundância”. Para invocar Hades, eternamente invisível aos olhos humanos, os seus devotos batiam no chão com as mãos ou com varas.
Hades, ao lado de Perséfone e das divindades infernais, reina sob os mortos, não submergindo nunca ao reino dos vivos. Apesar do amor por Perséfone, é estéril, deste amor não nasce nenhum filho.

Hades e Perséfone, o Amor no Reino dos Mortos

Hades sempre fora um deus soturno, solitário e recolhido em si. Nascera da união entre Cronos e Réia (Cibele). Cronos, deus do tempo e rei dos deuses, temendo à profecia de que um dos filhos o iria destronar e aprisionar, devorou-o tão logo nasceu. Mais tarde, Hades foi vomitado pelo pai, depois que o irmão Zeus dera ao deus do tempo, uma porção mágica para ingerir. Saído das entranhas de Cronos, Hades lutou ao lado dos irmãos contra o reinado do pai. Após a vitória, coube a ele, por seu jeito taciturno e solitário, reinar sobre os mortos.
Hades mostrava-se imune ao amor de qualquer deusa ou de qualquer mortal. Seu frio coração irritava Afrodite (Vênus), deusa do amor, que sempre fizera deuses e mortais sucumbirem à sua arte. Hades continuava com o coração intacto e frio. Corria solitário todas as partes do Érebo, que governava energicamente. Um dia, Hades ouviu as varas que os humanos batiam sobre a terra, invocando-o com o sacrifício de duas cabras negras. Ao sentir o sangue quente dos animais molhar o chão, Hades pôs sobre a cabeça o capacete que o deixava invisível, submergindo das entranhas mais profundas da terra, até a superfície do mundo dos vivos, aceitando assim, o sacrifício.
Raramente o senhor dos mortos vinha ao mundo dos vivos. Na terra os campos eram eternamente floridos e cobertos de frutos. Hades caminhava invisível, por onde passava, trazia um vento frio que soprava sobre os humanos, fazendo-os arrepiar e a invocar proteção aos deuses do Olimpo. Caminhando solitário, Hades avistou ao longe, no meio do bosque florido, a mais bela jovem que os seus olhos já tinham contemplado. Era Core. Com o coração a bater como nunca sentira dantes, o frio senhor dos mortos viu emergir de dentro dele um estranho e implacável calor. Invisível, aproximou-se de Core e das amigas. Carinhosamente soprou em seus ouvidos. Core sentiu aquele estranho sopro. Enquanto as amigas arrepiaram-se de temor, a jovem arrepiou-se acometida de uma ternura infinita.
Core sorriu, de repente, o que fez com
que Hades se mostrasse visível aos seus olhos. A bela jovem viu surgir à frente o rosto daquele deus forte, olhar grave, de sorriso escorrido e gestos austeros. Apaixonado, Hades cobriu o cabelo de Core com as violetas que colhera no bosque. Revelou-lhe o amor e o desejo de fazê-la a sua esposa eterna. Core ouviu a declaração de Hades, mas nada respondeu, precisava consultar a mãe, a deusa Deméter (Ceres), e o pai, o poderoso Zeus.
Mas o imprevisto aconteceu, Deméter, deusa da agricultura e dos alimentos, sabia que o reino de Hades, o seu irmão, era nas profundezas da terra. Decidiu que não se iria separar da filha, proibindo que ela desposasse o senhor da escuridão.
Hades ficou inconsolável. Subiu ao Olimpo e pediu a ajuda do irmão Zeus. Estava perdidamente apaixonado por Core, já não conseguia viver sem ela. Zeus ouviu o irmão, como sabia da recusa de Deméter em deixar a filha partir para o Érebo, aconselhou a Hades que esperasse algum tempo, para convencer a deusa da agricultura a aceitar o casamento da filha.
Algum tempo se passou, mas Deméter não removeu a recusa. Proibiu definitivamente que Hades cortejasse a filha. Diante da dor causada pelos obstáculos impostos por Deméter, Hades não desistiu, fortaleceu ainda mais o amor que trazia dentro de si. Perdido de paixão, subiu à Terra, disposto a ter definitivamente, o amor da bela Core, mesmo sem a permissão de Deméter.
Hades foi encontrar Core a passear pelo vale de Ena, que trazia em sua paisagem a beleza da eterna primavera. A bela colhia os lírios e as violetas às margens do lago de água cristalina. De repente surgiu o mais belo dos narcisos à beira do lago, de uma cor tão reluzente que encantou Core. Como se hipnotizada pela flor, ela debruçou-se sobre o lago para pegá-lo. Foi quando a terra abriu-se em um imenso abismo de escuridão, dele emergindo um carro de ouro puxado por cavalos, conduzidos pelo próprio Hades. Num impulso rápido e certeiro, o senhor do Érebo arrebatou a frágil e bela Core. Assustada, a jovem lançou um grande grito que ecoou pelos campos, enquanto o carro de ouro a conduzia até o Tártaro.
Deméter ouviu o grito da filha. Correu em seu auxílio, mas quando chegou, viu a terra fechar-se e ela desaparecer nas profundezas do mundo dos mortos. Desesperada, a deusa procura pela filha. Ninguém no Olimpo sabe o que lhe aconteceu. Quem lhe alivia a falta de notícias é Hélios (Sol), que tudo vê, revelando à deusa que Hades tinha raptado Core. Zeus confirma o rapto. Revela à deusa que Core ao cruzar as fronteiras dos Infernos, tornara-se a esposa de Hades, e como rainha do Érebo, passou a chamar-se Perséfone (Prosérpina). Sem poder atravessar as fronteiras do Érebo em socorro da filha, indignada com Zeus e Hades, Deméter abandou o Olimpo, indo viver com os homens da terra. Abandonou os campos e as plantações, deixando de proteger as colheitas. A primavera eterna desapareceu da terra, levando-a ao inverno e à fome.
Zeus viu a fome assolar a humanidade. Interviu diante de Deméter, mas a deusa só voltaria a proteger a agricultura e aos campos se tivesse a filha de volta. À face da catástrofe que se abatia sobre o mundo, Zeus enviou Hermes (Mercúrio), ao reino de Hades, com a ordem de que ele devolvesse Perséfone à mãe, para evitar que a humanidade faminta, rebelasse-se contra o poder dos deuses.
Hades não se contentou em perder a amada. Mas não poderia desobedecer a ordem de Zeus. Chamou Perséfone à sua presença. Olhou com paixão para a esposa. Diz a ela que deverá acompanhar Hermes até o mundo dos vivos, sendo devolvida à mãe. Triste, beija a face da amada. Em um último ardil, oferece-lhe uma saborosa romã como lembrança do seu amor. Perséfone come a fruta, sem saber da regra que estabelecia: quem comesse qualquer fruto no Tártaro a ele teria que retornar. Perséfone despediu-se do marido, regressando ao mundo dos vivos.
Deméter recebeu a filha com alegria. Os campos voltaram a florir. Ao abraçar a filha, a deusa lembrou-se de perguntar se ela havia comido alguma fruta no Tártaro, ao que a jovem respondeu afirmativamente, comera o bago de uma romã. A deusa desolou-se, sabia que a filha teria que voltar ao Tártaro todos os anos. Diante do ardil, ficou estabelecido por Zeus que Perséfone passaria uma parte do ano ao lado do marido, reinando no Érebo, outra parte ao lado da mãe, na terra e no Olimpo. Assim, durante o tempo que Perséfone despede-se da mãe e retoma o caminho do Érebo, a deusa recolhe-se à tristeza da sua saudade. Em conseqüência dessa tristeza, as árvores perdem as folhas e as flores, os campos ficam sem as plantas, o inverno invade a terra com o seu vento frio e cortante, deixando-a desolada e coberta pelo gelo. Quando Perséfone retorna aos braços da mãe, alegrando-lhe o coração, as folhas voltam verdes às arvores, as flores invadem os campos, trazendo a primavera novamente ao mundo.
 
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Sábado, 11 de Abril de 2009

OS MESES DO ANO - DEZEMBRO

 

 
Dezembro é o décimo segundo e último mês do ano do Calendário Gregoriano, possuindo 31 dias. Tem a característica de ser um mês que se inicia no mesmo dia da semana que Setembro.
Dezembro tem o seu nome derivado do latim Decem (significa dez), no antigo Calendário Romano Dezembro era o décimo mês do ano, que se iniciava em Março. Com a reforma do Calendário Juliano, Janeiro passou a ser o primeiro mês do ano. Originalmente Dezembro tinha 30 dias, com a transformação do mês de Sextilis em Agosto e este passar a ter 31 dias, Outubro e Dezembro mudaram a disposição que alternavam os dias dos meses, passando ambos a ter 31 dias.
Em Dezembro acontece o segundo e último solstício do ano. Aproximadamente no dia 21, o Sol atinge o ponto mais ao sul em sua trajetória pelo céu, formando o menor dia do ano no hemisfério boreal e o mais longo no hemisfério austral. É o marco do Solstício de Inverno no hemisfério norte e do Solstício de Verão no hemisfério sul.
No mês de Dezembro é comemorado na maioria dos países cristãos, o nascimento de Cristo, uma das datas mais importantes do cristianismo.
Dezembro inicia-se astrologicamente com o Sol no signo de Sagitário e termina no signo de Capricórnio. Astronomicamente, o Sol inicia-se na constelação de Escorpião e termina na constelação de Sagitário.

Dezembros na História do Mundo

01 de Dezembro
1640 – Iniciada em Portugal a revolta que culminaria com o fim da união com a Espanha, restaurando a independência de Portugal, levando ao poder a família de Bragança (na imagem A Aclamação de Dom João IV, de Veloso Salgado).
1909 – Fundado na Palestina, o primeiro kibutz, com o nome de Deganya Alef.
1918 – Aprovado pelo parlamento da Dinamarca, o decreto que proclamava a independência da Islândia.

02 de Dezembro
1804 – Napoleão Bonaparte é coroado na catedral de Notre Dame, em Paris, tornando-se o primeiro imperador da França.
1918 – A Armênia torna-se independente do Império Otomano.
1971 – Seis emirados árabes da costa oriental da península Arábica, unem-se formando os Emirados Árabes Unidos, sendo eles: Dubai, Abu Dhabi, Sharjah, Ajman, Umm al Qaiwain e Fujairah. Posteriormente, em 1972, uma sétima monarquia árabe, Ras al-Khaimah adere ao Emirado.

03 de Dezembro
1910 – O porto de Agadir, no Marrocos, é ocupado pela França.
1967 – Realizado, na cidade do Cabo, África do Sul, pelo médico Christian Barnard, o primeiro transplante de coração humano, feito em Louis Washkansky, que sobreviveu por 18 dias.
1996 – Sonda espacial encontra gelo na Lua.

04 de Dezembro
1829 – A Grã-Bretanha proíbe a prática do suttee, na Índia, ato que consistia em incinerar vivas as mulheres indianas viúvas, na pira funerária do marido.
1918 – Proclamação do reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, que formariam, futuramente, a Iugoslávia.
1980 – Morre Francisco Sá Carneiro, primeiro ministro de Portugal, em um acidente aéreo em Lisboa.

05 de Dezembro
1792 – Julgamento do rei da França, Luís XVI.
1933 – Após 13 anos em vigor, é abolida a lei seca nos Estados Unidos, que proibia a venda e o consumo de bebidas alcoólicas.
1946 – Nova York é a cidade eleita como sede permanente da Organização das Nações Unidas (ONU).

6 de Dezembro
1185 – Morre em Coimbra, dom Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal.
1917 – A Finlândia declara-se independente da Rússia.
1921 – Surge o Estado independente da Irlanda, formado pelo sul da ilha, de maioria católica. O Ulster, no norte da ilha, de maioria protestante, permanece vinculado ao Reino Unido da Grã-Bretanha.

07 de Dezembro
1941 – A base naval norte-americana de Pearl Harbour, no Havaí, é atacada pelo Japão, obrigando os Estados Unidos a entrar na Segunda Guerra Mundial (na fotografia, momento do ataque).
1975 – Invadido, pela Indonésia, o leste de Timor, então colônia de Portugal.
1988 – O líder palestino Yasser Arafat admite, pela primeira vez, a existência do Estado judaico de Israel.

08 de Dezembro
1925 – Publicado na Alemanha, o livro “Mein Kampf” (“Minha Luta”), de Adolf Hitler.
1980 – Morre assassinado em Nova York, o músico, cantor e compositor John Lennon.
1991 – A União Soviética é dissolvida oficialmente. Doze países membros fundam a Comunidade dos Estados Independentes (CEI).

09 de Dezembro
1905 – Decretada na França, a separação entre a igreja e o Estado.
1990 – O sindicalista e político polonês, Lech Walesa, é eleito presidente da Polônia.
1992 – Anunciada oficialmente, pelo primeiro ministro britânico, John Major, a separação do príncipe Charles da sua mulher, a princesa Diana.

10 de Dezembro
1896 – Morre o industrial sueco Alfred Nobel, deixando a fortuna em testamento, para premiar pessoas que contribuíssem para o bem da humanidade, criando assim, o Prêmio Nobel.
1901 – Entregues pelo rei da Suécia, os primeiros prêmios Nobel.
1948 – Proclamada pela Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

11 de Dezembro
1936 – Abdicação do rei Eduardo VIII, da Inglaterra, deixando o trono para casar-se com Wallis Simpson, uma norte-americana divorciada.
1946 – Fundada, pela ONU, a UNICEF, entidade voltada para o atendimento às necessidades básicas das crianças no mundo.
1993 – Eduardo Frei vence as eleições no Chile.

12 de Dezembro
1112 – Morre o príncipe cruzado Tancredo da Galileia.
1963 – Proclamadas a independência e República do Quênia.
1992 – Transportados para a Ilha Negra, Chile, os restos mortais do poeta Pablo Neruda e da sua companheira Matilde Urrutia.

13 de Dezembro
1521 – Morre, tombado pela peste, dom Manuel I, rei de Portugal.
1642 – Descoberta a Nova Zelândia, pelo navegador holandês Abel Tasman.
1959 – O arcebispo Makarios é eleito presidente de Chipre.

14 de Dezembro
1799 – Morre George Washington, primeiro presidente dos Estados Unidos.
1911 – Roald Amundsen, explorador norueguês, é o primeiro homem a atingir o Pólo Sul (na fotografia, Roald Amundsen e cães no Pólo Sul).
1918 – Assassinado em Lisboa, o político Sidónio Pais.

15 de Dezembro
1939 – Estréia de um dos maiores clássicos do cinema, o filme “... E o Vento Levou”, produção de David Selznick, com Clark Gable e Vivien Leigh.
1961 – Adolf Eichmann, líder nazista responsável pela deportação de judeus para campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial, é condenado à morte, por um tribunal erguido em Israel.
1995 – Denominada de Euro a unidade de conta européia, futura moeda da União Européia.

16 de Dezembro
1631 – Erupção do vulcão Vesúvio, no sul da Itália, destruindo cinco cidades e matando mais de 3 mil pessoas.
1916 – Assassinado em Petrogrado, atual São Petersburgo, o monge Rasputin.
1969 – Abolida, pelo Parlamento britânico, a pena de morte.

17 de Dezembro
1538 – Excomungado Henrique VIII, da Inglaterra, pelo papa Paulo III, após o soberano inglês declarar-se chefe da igreja Anglicana.
1571 – Iniciado em Salamanca, Espanha, o processo inquisitorial contra o frei Luís de Leon.
1996 – Invadida, em Lima, Peru, a embaixada do Japão, pelo Movimento Revolucionário Tupac Amaru.

18 de Dezembro
1644 – Início do reinado da rainha Cristina da Suécia.
1916 – Fim da Batalha de Verdun, uma das mais sangrentas da Primeira Guerra Mundial, responsável pela morte de quase um milhão de combatentes de ambos os lados.
1956 – O Japão é aceito como membro da Organização das Nações Unidas.

19 de Dezembro
1991 – No ano em que a União Soviética foi extinta, Boris Yeltsin assume o controle do Kremlin.
1996 – Morre o ator italiano Marcello Mastroianni.
1999 – Macau é devolvida para a China, pelo governo português.

20 de Dezembro
1694 – Frederico de Brandeburgo reconquista Schfibus para o Sacro Império Romano.
1976 – O primeiro ministro de Israel, Yitzhak Rabin, renuncia ao cargo.
2001 – Grande crise econômica e política na Argentina levam à renuncia o presidente Fernando de La Rua e o seu ministro da Economia, Domingo Cavallo.

21 de Dezembro
1846 – Robert Liston utiliza em Londres, pela primeira vez, o uso da anestesia em uma cirurgia.
1898 – Descoberto o elemento rádio pelos cientistas Pierre e Marie Curie.
1988 – Atentado terrorista da organização “Guardiões Islâmicos” provoca a queda de um Boeing 747 da Pan Am, que cai em Lockerbie, na Escócia, matando 258 passageiros e 17 habitantes do local (na fotografia, destroços do avião).

22 de Dezembro
69 – Assassinado o imperador romano Vitelius.
1981 – O general Leopoldo Galtieri torna-se presidente da Argentina, após uma junta militar ter deposto o presidente Viola.
1989 – Revolta popular na Romênia derruba o governo comunista do ditador Nicolau Ceausescu.

23 de Dezembro
1667 – O padre Antonio Vieira é condenado pela Inquisição à reclusão e ao silêncio.
1888 – Movido por uma forte depressão, o pintor holandês Vincent Van Gogh corta parte da sua orelha esquerda.
1972 – Um grande terremoto atinge Manágua, capital da Nicarágua, causando a morte de cerca de 7 mil pessoas.

24 de Dezembro
1779 – Dona Maria I, rainha de Portugal, cria a Academia Real das Ciências de Lisboa.
1865 – Fundada no Tennessee, Estados Unidos, a Klu Klux Klan, organização secreta que promovia o terrorismo contra as minorias raciais, em especial, aos negros.
1866 – O ducado de Schleswig-Holstein é incorporado à Prússia.

25 de Dezembro
336 – Celebrado em Roma, pela primeira vez, o Natal no dia 25 de dezembro.
800 – Carlos Magno é coroado como imperador pelo papa Leão III.
1977 – Morre em sua casa, na Suíça, o diretor e ator Charles Chaplin.

26 de Dezembro
1941 – Os Estados Unidos declaram Manila, nas Filipinas, como cidade aberta durante a Segunda Guerra Mundial.
1974 – A União Soviética lança no espaço a estação espacial “Salyut 4”.
1985 – O Mali e o Burkina Faso travam entre si, violentos combates por causa de uma disputa fronteiriça.

27 de Dezembro
1927 – Leon Trotski é expulso do Partido Comunista da União Soviética, dando passagem para que Stalin se torne o líder absoluto do país.
1945 – É criado o Fundo Monetário Internacional (FMI), na Conferência de Bretton Woods, nos Estados Unidos.
1979 – Tropas da União Soviética invadem o Afeganistão.

28 de Dezembro
1895 – Realizada no subterrâneo do Grand Café, em Paris, a primeira projeção pública de cinema, feita pelos irmãos Lumiére (foto).
1937 – Estabelecida a primeira Constituição da República da Irlanda.
1940 – Os alemães lançam milhares de bombas sobre Londres, destruindo prédios importantes da cidade.

29 de Dezembro
1170 – Thomas Becket, arcebispo de Canterbury, é assassinado na Inglaterra, por ordem do rei Henrique II.
1949 – Após nacionalizar as suas industrias, a Hungria passa a viver sob um regime comunista.
1997 – Rebeldes integralistas muçulmanos matam 42 pessoas em províncias da Argélia.

30 de Dezembro
1803 – Os Estados Unidos tomam posse do território da Louisiana, comprado dos franceses.
1922 – Em Moscou, o Congresso dos Soviets aprovam a criação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.
2006 – Executado por enforcamento, o ex-presidente do Iraque, Saddam Hussein.

31 de Dezembro
1857 – Ottowa é eleita como capital do Canadá, pela rainha Vitória.
1978 – Morre em combate, Nicolau dos Santos Lobato, presidente da Frente de Libertação de Timor-Leste (Fretilim).
1999 – O canal do Panamá deixa de ser domínio norte-americano, passando a ser do Panamá.


Dezembros na História do Brasil

01 de Dezembro
1822 – Sagração e coroação de dom Pedro I, no Rio de Janeiro.
1822 – Criada por dom Pedro I, a Imperial Ordem do Cruzeiro, primeira e mais importante condecoração do Brasil (na fotografia, medalhas de condecoração da Ordem Imperial do Cruzeiro).
1903 – Lançamento da obra “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, retratando a Guerra de Canudos.

02 de Dezembro
1825 – Nasce no Rio de Janeiro, dom Pedro de Alcântara, futuro dom Pedro II.
1833 – O ator João Caetano inicia a sua carreira em Niterói, Rio de Janeiro.

03 de Dezembro
1530 – Parte de Lisboa, Portugal, a frota de Martim Afonso de Sousa, com o objetivo de iniciar a colonização efetiva do Brasil.
1811 – O príncipe regente, dom João, abre aos estudiosos a Real Biblioteca, antes privativa da Corte.

04 de Dezembro
1532 – Morre em Portugal o frei Henrique Soares de Coimbra, que celebrou a primeira missa no Brasil, em 1500.
1810 – Criada, por carta de lei de dom João VI, a Academia Real Militar na Corte e Cidade do Rio de Janeiro, atual Academia Militar das Agulhas Negras.

05 de Dezembro
1697 – Destruído, por expedição de Domingos Jorge Velho, o Quilombo dos Palmares, reduto de resistência à escravidão por 64 anos, situado na Serra da Barriga, região do atual Estado de Alagoas.
1891 – Morre em Paris, num quarto do Hotel Bedford, o ex-imperador dom Pedro II.
1932 – Getúlio Vargas restabelece a Ordem do Cruzeiro, extinta com a República, agora Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul.

06 de Dezembro
1741 – Basílio da Gama, autor do poema épico O Uruguai, é batizado na capitania de Minas Gerais.
1868 – O exército brasileiro vence a Batalha de Itororó, um dos enfrentamentos decisivos da Guerra do Paraguai.

07 de Dezembro
1843 – Nasce no Rio de Janeiro, Marc Ferrez, fotógrafo e pioneiro da exibição de filmes no Brasil.
1866 – Império autoriza a navegação mercantil estrangeira na bacia do Amazonas.

08 de Dezembro
1872 – O Elevador Lacerda (foto) é inaugurado em Salvador.
1994 – Morre nos Estados Unidos, o maestro soberano Antônio Carlos Jobim, um dos maiores nomes da MPB.

09 de Dezembro
1839 – Resolução nº 11 do governo de Alagoas, eleva à condição de cidade a Vila de Maceió, sede da província.
1965 – Tiradentes é declarado pelo regime militar o patrono do Brasil.

10 de Dezembro
1570 – A Coroa portuguesa regulamenta a força militar no Brasil, através do regimento dos capitães-mores.
1825 – Brasil declara guerra às Províncias Unidas do Rio da Prata (atual Argentina) pela posse da Província Cisplatina (atual Uruguai).

11 de Dezembro
1857 – Nasce no Rio de Janeiro, Rodolfo Amoedo, um dos responsáveis pela renovação do ensino de arte no Brasil, autor de belíssimas telas, como Amuada, de 1882.
1868 – Sob o comando do general Osório, os brasileiros vencem os paraguaios no confronto conhecido como Batalha do Avaí (na foto, quadro Batalha do Avaí, de Pedro Américo).

Dia 12 de Dezembro
1605 – Feito em Lisboa o Regimento do Pau-Brasil, que regulamenta o corte dessa espécie de árvore e a protege das queimadas.
1897 – A capital de Minas Gerais é transferida de Ouro Preto para Belo Horizonte.
1968 – O governo militar pede licença à Câmara para processar o deputado Márcio Moreira Alves, tendo o pedido negado por 216 a 141 votos.

13 de Dezembro
1519 – Fernão de Magalhães chega à atual baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, chamada por ele de Santa Luzia.
1968 – Editado o Ato Institucional nº 5, que restringirá por dez anos as liberdades individuais e os direitos políticos dos brasileiros.

14 de Dezembro
1775 – Nasce em Lanarkshire, Escócia, Thomas Cochrane, o lorde Cochrane, primeiro almirante da marinha brasileira.
1833 – José Bonifácio é destituído do cargo de tutor de dom Pedro II.

15 de Dezembro
1944 – Nasce em Xapuri, Acre, Francisco Alves Mendes Filho, o líder seringueiro Chico Mendes.
1967 – Regime militar institui o Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral), para alfabetizar adultos.

16 de Dezembro
1500 – Morre em Calicute, Índia, Pero Vaz de Caminha, autor do primeiro documento descritivo sobre o Brasil.
1815 – Príncipe regente dom João eleva o Brasil à categoria de Reino Unido a Portugal e Algarve.

17 de Dezembro
1548 – O rei dom João III de Portugal, cria o governo geral do Brasil, com sede em Salvador, Bahia.
1915 – Destruição da Cidade Santa de São Pedro, em Santa Catarina, selando o fim da Guerra do Contestado.

18 de Dezembro
1711 – Fundado por iniciativa de Alexandre de Gusmão, ministro do rei de Portugal dom João V, o Seminário de Belém, primeiro internato de ensino secundário no Brasil.
1833 – Morre em Salvador João das Botas, o “marinheiro da Independência”, importante figura nas lutas de emancipação da Bahia.

19 de Dezembro
1983 – Roubada na sede da CBF, no Rio de Janeiro, a Taça Jules Rimet, conquistada pela seleção brasileira de futebol em 1970.
1990 – Morre o cronista Rubem Braga, no Rio de Janeiro.

20 de Dezembro
1627 – Frei Vicente do Salvador termina a sua História do Brasil, primeiro livro com este nome e escrito por um natural da terra.
1633 – Nasce em Salvador, o poeta satírico Gregório de Matos, conhecido como “Boca do Inferno”.

21 de Dezembro
1889 – O governo provisório da República recém-proclamada bane do território nacional o imperador deposto, dom Pedro de Alcântara, e sua família, que já haviam partido para a Europa.
1980 – Morre o dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues, no Rio de Janeiro.

22 de Dezembro
1978 – O Diário de Pernambuco divulga lista com o nome de 78 torturadores.
1988 – Assassinado Chico Mendes, no quintal da sua casa em Xapuri.

23 de Dezembro
1667 – Sentença da Santa Inquisição condena o padre Antônio Vieira à reclusão e ao silêncio.
1907 – Em São Paulo, Anita Tibiriçá é a primeira mulher brasileira a receber habilitação de motorista.

24 de Dezembro
1951 – Salário mínimo tem aumento de 215%, após oito anos de congelamento.
1999 – Morre no Rio de Janeiro, o general João Baptista de Oliveira Figueiredo, último presidente da ditadura militar (1979 -1985).

25 de Dezembro
1591 – Soldados do corsário inglês Thomas Cavendish desembarcam em Santos, permanecendo ali por dois meses, saqueando e incendiando o local antes de partirem.
1599 – Instalada no Rio Grande do Norte, a vila de Natal.

26 de Dezembro
1812 – Nasce em São Paulo de Luanda, Angola, Eusébio Matoso Câmara, responsável pela lei que proíbe o tráfico de escravos para o Brasil.
1924 – 250 presos políticos partem em navio para a colônia penal de Clevelândia, no extremo norte do país. Quase metade morre antes de chegar ao destino.

27 de Dezembro
1797 – Nasce na cidade de São Paulo, Domitila de Castro Canto e Melo, futura marquesa de Santos e amante favorita de dom Pedro I (na foto em um óleo de F. P. do Amaral).
1969 – Morre em Roma, o jesuíta Serafim Leite, autor dos dez volumes de História da Companhia de Jesus no Brasil.

28 de Dezembro
1889 – Morre em Portugal dona Teresa Cristina, imperatriz deposta do Brasil.
1921 – O Decreto nº 4.419 determina o traslado para o Brasil do corpo de dona Isabel de Orleans e Bragança, a princesa Isabel, que assinou a Lei Áurea em 1888.

29 de Dezembro
1917 – Lei estadual de São Paulo proíbe trabalho de menores de 12 anos.
1992 – Fernando Collor de Melo, a enfrentar um processo de impeachment, renuncia à Presidência da República.

30 de Dezembro
1899 – Nasce em Natal, Rio Grande do Norte, o folclorista e etnólogo Luís da Câmara Cascudo.
1930 – Gravado o samba Com que Roupa, de Noel Rosa.

31 de Dezembro
1896 – Inaugurado o Teatro Amazonas, em Manaus.
1964 – O regime militar cria o Banco Central do Brasil.

Nascidos em Dezembro

01 de Dezembro
Anselmo Vasconcelos, ator brasileiro
Bette Midler, atriz e cantora norte-americana
Mary Martin, atriz norte-americana
Richard Pryor, ator norte-americano
Walcyr Carrasco, escritor e novelista brasileiro
Woody Allen, ator e diretor norte-americano

02 de Dezembro
Anita Malfatti, pintora brasileira
Gianni Versace, estilista italiano
Gustavo Borges, atleta da natação brasileiro
Maria Callas, cantora lírica norte-americana
Pedro II do Brasil, último imperador brasileiro
Stepan Nercessian, ator brasileiro

03 de Dezembro
Antonio Variações, cantor e compositor português
Brendan Fraser, ator norte-americano
Daryl Hannah, atriz norte-americana
Jean-Luc Godard, cineasta francês
Joseph Conrad, escritor polaco-britânico
Julianne Moore, atriz norte-americana
Roberto Marinho, jornalista e empresário brasileiro

04 de Dezembro
Francisco Franco, chefe de Estado e ditador espanhol
Jeff Bridges, ator norte-americano
Luma de Oliveira, atriz e modelo brasileira
Marisa Tomei, atriz norte-americana
Wassily Kandinsky, pintor russo

05 de Dezembro
Ângela Rô Rô, cantora e compositora brasileira
Carlos Marighela, político e líder guerrilheiro brasileiro
Danielle Winits, atriz brasileira
Egberto Gismonti, compositor e músico brasileiro
Fritz Lang, cineasta austríaco
José Carreras, cantor lírico espanhol
Otto Preminger, cineasta austríaco
Tozé Martinho, ator e roteirista português
Walt Disney, cineasta e produtor de desenhos animados norte-americano

06 de Dezembro
Agnes Moorehead, atriz norte-americana
Antonio Calloni, ator brasileiro
Emílio Santiago, cantor brasileiro
Tom Hulce, ator norte-americano

07 de Dezembro
Eli Wallach, ator norte-americano
Ellen Burstyn, atriz norte-americana
Giovanni Bernini, arquiteto e escultor italiano
Marc Ferrez, fotógrafo brasileiro
Mário Soares, político e estadista português
Rosemary, cantora brasileira
Tom Waits, compositor, cantor, músico e ator norte-americano
Xuxa Lopes, atriz brasileira

08 de Dezembro
Ângela Leal, atriz brasileira
Camille Claudel, escultora francesa
David Carradine, ator norte-americano
Diego Rivera, pintor norte-americano
Florbela Espanca, poetisa portuguesa
Kim Basinger, atriz norte-americana
Lee J. Cobb, ator norte-americano
Maximilian Schell, ator austríaco
Richard Fleischer, cineasta norte-americano
Sammy Davis Jr, ator e cantor norte-americano

09 de Dezembro
Douglas Fairbanks Jr, ator norte-americano
John Cassavetes (foto), ator e cineasta norte-americano
John Malcovich, ator norte-americano
John Milton, escritor britânico
Kirk Douglas (foto), ator norte-americano
Milton Gonçalves, ator e diretor brasileiro

10 de Dezembro
Cássia Eller, cantora brasileira
Clarice Lispector, escritora brasileira nascida na Ucrânia
Dorothy Lamour, atriz norte-americana
Emily Dickinson, poetisa norte-americana
Kenneth Branagh, ator e diretor britânico
Susan Dey, atriz norte-americana
Wilson Grey, ator brasileiro

11 de Dezembro
Carlo Ponti, produtor de filmes italiano
Carlos Gardel, cantor de tango argentino nascido na França
Elizângela, atriz brasileira
Ewerton de Castro, ator brasileiro
Manoel de Oliveira, cineasta português
Noel Rosa, compositor brasileiro
Rita Moreno, atriz e cantora porto-riquenha
Teri Garr, atriz norte-americana
Tuca Andrada, ator brasileiro

12 de Dezembro
Arnaldo Jabor, crítico, escritor e cineasta brasileiro
Connie Francis, cantora norte-americana
Dionne Warwick, cantora norte-americana
Edward G. Robinson, ator norte-americano
Emerson Fittipaldi, corredor automobilístico brasileiro
Frank Sinatra, cantor e ator norte-americano
Guel Arraes, diretor brasileiro
Gustave Flaubert, escritor francês
Jorge Dória, ator brasileiro
Kátia D’Ângelo, atriz brasileira
Silvio Santos, empresário e apresentador de Tv brasileiro

13 de Dezembro
Christopher Plummer, ator canadense
Curd Jürgens, ator alemão
Dick Van Dyke, ator norte-americano
Luiz Gonzaga, cantor e compositor brasileiro
Van Heflin, ator norte-americano

14 de Dezembro
Eva Wilma, atriz brasileira
Jane Birkin, atriz e cantora britânica
Lee Remick (foto), atriz norte-americana
Nostradamus, apotecário e astrólogo francês

15 de Dezembro
Adriana Esteves, atriz brasileira
Chico Mendes, líder seringueiro, ambientalista e político brasileiro
Cristiana Oliveira, atriz brasileira
Don Johnson, ator norte-americano
Gustave Eiffel, engenheiro e arquiteto francês
Jeff Chandler, ator norte-americano
Miguel Arraes, político brasileiro
Oscar Niemeyer, arquiteto brasileiro

16 de Dezembro
Arthur C. Clark escritor e inventor britânico
Jane Austen, escritora inglesa
Liv Ullmann, atriz norueguesa nascida no Japão
Luciana Braga, atriz brasileira
Ludwig van Beethoven, compositor erudito alemão
Olavo Bilac, poeta brasileiro

17 de Dezembro
Bill Pullman, ator norte-americano
Érico Veríssimo, escritor brasileiro
Milla Jovovich, atriz e modelo ucraniana

18 de Dezembro
Betty Grable, atriz, cantora e dançarina norte-americana
Brad Pitt, ator norte-americano
Ray Liotta, ator norte-americano
Steven Spielberg, cineasta norte-americano

19 de Dezembro
Edith Piaf, cantora francesa
Jake Gyllenhaal, ator norte-americano
Robert Urich, ator norte-americano

20 de Dezembro
Gigliola Cinquetti, cantora italiana
Irene Dunne, atriz norte-americana
Silvio de Abreu, novelista brasileiro
Uri Geller, místico e ilusionista israelita

21 de Dezembro
Altamiro Carrilho, músico, compositor e flautista brasileiro
Carlos do Carmo, cantor fadista português
Jane Fonda (foto), atriz norte-americana
Joseph Stalin, líder soviético nascido na Geórgia
Kiefer Sutherland, ator inglês
Norma Geraldy, atriz brasileira
Samuel L. Jackson, ator norte-americano

22 de Dezembro
Aline Moraes, atriz brasileira
Eri Johnson, ator brasileiro
Gerson Brener, ator brasileiro
Giacomo Puccini, compositor de óperas italiano
Jean-Michel Basquiat, artista plástico norte-americano
Jean Racine, dramaturgo francês
João Signorelli, ator brasileiro
Ralph Fiennes, ator britânico
Ricardo Waddington, diretor de televisão brasileiro
Tato Gabus Mendes, ator brasileiro

23 de Dezembro
Cláudia Raia, atriz brasileira
Dino Risi, cineasta italiano
Giba, jogador de vôlei brasileiro
Sissi, princesa da Áustria nascida na Alemanha

24 de Dezembro
Ava Gardner (foto), atriz norte-americana
Cláudio Cavalcanti, ator brasileiro
Howard Hughes, aviador, produto e diretor de cinema norte-americano
Mafalda Veiga, cantora e compositora portuguesa
Ricky Martin, cantor porto-riquenho

25 de Dezembro
Anwar Sadat, político egípcio
Humphrey Bogart (foto), ator norte-americano
Isaac Newton, cientista britânico
Simone, cantora brasileira
Sissy Spacek, atriz norte-americana

26 de Dezembro
Henry Miller, escritor brasileiro
Mao Tse-tung, líder político chinês
Richard Widmark, ator norte-americano

27 de Dezembro
Domitília de Castro e Canto Melo (Marquesa de Santos), personagem histórica brasileira
Gerard Depardieu, ator francês
Louis Pasteur, cientista francês
Marlene Dietrich (foto), atriz alemã

28 de Dezembro
Denzel Washington, ator norte-americano
Giulia Gam, atriz ítalo-brasileira
Irineu Evangelista de Sousa (Visconde de Mauá), industrial, banqueiro e político brasileiro
Leonardo Vieira, ator brasileiro
Maggie Smith, atriz britânica
Mariana Rey Monteiro, atriz portuguesa

29 de Dezembro
Alves Redol, escritor português
Canarinho, ator e humorista brasileiro
Cândido Portinari, pintor brasileiro
Jon Voight, ator norte-americano
Jude Law (foto), ator inglês
Mary Tyler Moore, atriz norte-americana
Ted Danson, ator norte-americano

30 de Dezembro
Jack Lord, ator norte-americano
Luís da Câmara Cascudo, jornalista, folclorista e antropólogo brasileiro
Selton Mello, ator brasileiro

31 de Dezembro
Anthony Hopkins, ator britânico
Ben Kingsley, ator britânico
Donna Summer, cantora norte-americana
Henri Matisse, pintor francês
Luciano Szafir, ator brasileiro
Pedro Cardoso, ator brasileiro
Rita Lee, cantora e compositora brasileira
Val Kilmer, ator norte-americano

Datas Comemorativas

01 de Dezembro – Dia Internacional da Luta Contra a AIDS
01 de Dezembro – Dia da Restauração da Independência Portuguesa
01 de Dezembro – Dia do Imigrante
01 de Dezembro – Dia do Numismata
02 de Dezembro – Dia Nacional do Samba
02 de Dezembro – Dia da Astronomia
02 de Dezembro – Dia Pan-Americano da Saúde
02 de Dezembro – Dia Nacional das Relações Públicas
03 de Dezembro – Dia Internacional do Portador de Deficiência
04 de Dezembro – Dia da Propaganda
04 de Dezembro – Dia do Pedicuro
04 de Dezembro – Dia do Orientador Educacional
05 de Dezembro – Dia da Bíblia
07 de Dezembro – Dia do Ataque a Pearl Harbor (EUA)
08 de Dezembro – Dia da Imaculada Conceição
08 de Dezembro – Dia da Família
08 de Dezembro – Dia da Justiça
09 de Dezembro – Dia da Criança Defeituosa
09 de Dezembro – Dia do Fonoaudiólogo
09 de Dezembro – Dia do Alcoólico Recuperado
10 de Dezembro – Declaração Universal dos Direitos Humanos
10 de Dezembro – Dia Internacional dos Povos Indígenas
10 de Dezembro – Dia Universal do Palhaço
11 de Dezembro – Dia do Arquiteto
11 de Dezembro – Dia do Engenheiro
13 de Dezembro – Dia do Cego
13 de Dezembro – Dia do Marinheiro
13 de Dezembro – Dia Ótico
13 de Dezembro – Dia de Santa Luzia
13 de Dezembro – Dia do Engenheiro Avaliador e Perito de Engenharia
14 de Dezembro – Dia Nacional do Ministério Público
15 de Dezembro – Dia do Cliente
16 de Dezembro – Dia do Reservista
18 de Dezembro – Dia do Museólogo
20 de Dezembro – Dia do Mecânico
21 de Dezembro – Dia do Atleta
22 de Dezembro – Solstício: de verão no hemisfério sul e de inverno no hemisfério norte
23 de Dezembro – Dia do Vizinho
24 de Dezembro – Dia do Órfão
25 de Dezembro – Natal
26 de Dezembro – Dia da Lembrança
28 de Dezembro – Dia do Salva-Vidas
31 de Dezembro – Dia de São Silvestre
31 de Dezembro – Reveillon
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Quinta-feira, 9 de Abril de 2009

DOM CASMURRO - MACHADO DE ASSIS

 

 

Em 2008 completou-se cem anos da morte de Machado de Assis, considerado o maior escritor brasileiro de todos os tempos. Autor de uma obra singular, densa e rica, Machado de Assis foi um escritor completo, deixou-nos romances, poesias, contos e peças teatrais. Como romancista nos legou verdadeiras obras-primas da literatura universal, como Dom Casmurro, Quincas Borba e Helena. É sobre o primeiro, Dom Casmurro, que, mais uma vez, se irá falar e tentar desvendar os seus meandros e armadilhas psicológicas.
Dom Casmurro é o mais famoso livro de Machado de Assis, e também o mais enigmático. Os amores de Bentinho e Capitu, desde que o livro foi lançado em 1899, gerou polêmicas, debates e arroubos dos leitores. Uma primeira leitura a Dom Casmurro, remete-nos a sensação de que temos mais um livro sobre o adultério feminino, tão magistralmente explorado na literatura realista do século XIX, em obras como Madame Bovary, de Gustave Flaubert; Ana Karenina, de Leon Tolstoi, e O Primo Basílio, de Eça de Queiroz. Esta interpretação simplista esvai-se conforme nos aprofundamos na leitura. Se nos outros romances citados o adultério das protagonistas é explícito, levando as personagens ao êxtase dos amores fora dos leitos conjugais, remetendo-as mais tarde à culpa, à insatisfação e à morte, em Dom Casmurro o adultério de Capitu é apenas sugerido diante das desconfianças do marido. Em momento algum há uma confissão dos acusados, Capitu e Escobar. O adultério está refletido na face e nos gestos de Ezequiel, que Bentinho, em seu ciúme obsessivo e perturbado, insiste em ver como uma cópia física de Escobar.
Mas até onde Capitu é culpada? Além da visão embaçada de Bentinho, mortificada pelo ciúme, que outra prova temos das verdades ou mentiras dos sentimentos e dos seus abismos? Por cerca de 60 anos, o adultério de Capitu foi dado como verdadeiro pelos leitores e críticos da obra. A palavra de Bentinho era aceita sem dúvidas. Somente em 1960, quando a crítica e escritora norte-americana, Helen Caldwell, publicou The Brazilian Othelo of Machado de Assis (O Otelo Brasileiro de Machado de Assis), é que esta visão definitiva passou a ser contestada. Helen Caldwell, uma especialista na obra de Machado de Assis desde os anos 50, questiona que em momento algum Machado de Assis diz que Capitu cometeu adultério, prevalecendo apenas a acusação baseado nas suspeitas de Bentinho. Ao contrário da Ana Karenina ou da Luísa de O Primo Basílio, Capitu não se confessa adúltera. Na visão de Helen Caldwell, Bentinho é a versão brasileira do Otelo de Shakespeare, que por ciúmes e por julgar-se traído, matou a amada Desdêmona, inocente diante da acusação fatal. Esta nova análise de Dom Casmurro foi, a princípio, mal aceita pelos críticos, mas com o passar do tempo, lançou uma nova perspectiva sobre a obra machadiana. Desde então, o enigma foi criado e jamais desvendado. Teria a bela Capitu cometido adultério, ou seria, assim como Desdêmona, vítima dos ciúmes de Bentinho-Otelo?

Construindo a Narrativa

Dom Casmurro traz impregnado em sua narrativa o estilo peculiar de Machado de Assis, capítulos curtos, frases concisas, em uma linguagem que percorre da mais tenra ironia ao sarcasmo agudo. O autor trava um diálogo direto com o leitor. Muitas vezes explica a forma da narração, contesta-a, alerta o leitor, incentiva-o ou desaconselha-o a continuar a leitura.
A história é narrada na primeira pessoa de Bento Santiago, o Bentinho, o protagonista. Bentinho, homem amargo e solitário, retido nas lembranças das desconfianças e do rancor, já no crepúsculo da vida, decide escrever um livro sobre a sua existência corroída. Encontra o título para a sua história na alcunha de casmurro, dada pelas pessoas ao seu temperamento recluso e taciturno. Acrescenta ironicamente à alcunha o título de dom, daí Dom Casmurro, senhor absoluto das dores contidas, das amarguras da vida, isolado em si mesmo e no sarcasmo filosófico pelo qual trocou a felicidade bucólica de uma vida em família.
Bentinho traz uma narrativa psicológica, onde o tempo salta do presente para o passado esmiuçado nas lembranças, situando-se cronologicamente na segunda metade do século XIX. Construída em flash-back, a narrativa de Bentinho depara-se em determinadas datas, partindo oficialmente das lembranças do ano de 1857, apesar de fazer algumas referências ao pai e à vida no campo antes deste momento cronológico. A história decorrerá toda no segundo império do Brasil, na cidade do Rio de Janeiro. É-nos apresentado a casa da Rua de Matacavalos, com os seus moradores, dona Glória, mãe de Bentinho, senhora que vive para as lembranças da sua viuvez e o amor ao filho; tio Cosme, irmão de Glória, a prima Justina e o agregado José Dias. Este é o mundo do menino e do adolescente Bentinho, complementado pelos vizinhos Pádua, a mulher Fortunata, e a filha Capitolina, a Capitu.
Bentinho escreve da sua casa no Engenho Novo. Concentra a maior parte da narrativa nas memórias da sua adolescência. Na descoberta do amor pela bela Capitu, companheira das suas brincadeiras de infância. Bentinho e Capitu descobrem este amor com quinze e catorze anos respectivamente. A história singela dos adolescentes transcorreria normalmente como tantas outras, não fosse o espectro do seminário que pousa sobre o destino do rapaz.

Capitu, Olhos de Cigana Oblíqua e Dissimulada

Diante da perda do primeiro filho, que não vingou ao nascer, dona Glória prometeu que se o segundo vingasse, entregar-lhe-ia à igreja, tornando-o padre. Assim, Bentinho cresceu sabendo do destino que lhe aguardava como padre. Se na infância a idéia lhe agradava, na adolescência passa a sentir pavor a ela. Assustado, o adolescente Bentinho ficará refém da promessa da mãe e do amor que lhe despertou Capitu. Diante deste dilema, será traçada a personalidade de Capitu, já anunciada a sua essência pela frase de José Dias:

Capitu, apesar daqueles olhos que o Diabo lhe deu... Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada.

Para justificar, talvez a Capitu adúltera, a dissimulação é a principal característica que dela Bentinho irá ressaltar em suas memórias de adolescente. Se a descoberta do amor juvenil deixa Bentinho sem controle de si, Capitu mantém pulso diante do sentimento descoberto. Trôpegos e assustados, os dois trocam o primeiro beijo, as primeiras carícias, as primeiras tempestades dos sentimentos. Beijos roubados, carícias furtivas, muitas vezes quase descobertas pelos adultos. Se a iminência da descoberta do romance pela família apavora Bentinho, Capitu sabe dissimular e manter os sentimentos às rédeas. E ao lado do jovem amado, traça planos e planos para livrá-lo do seminário.
Mas a dissimulação de Capitu durante o decorrer do seminário é condenável? Só ela dissimula? Não seria uma virtude, a luta verdadeira pelo amor de Bentinho? Afinal ela é vista como a usurpadora da igreja e da promessa de Glória na vida de Bentinho. Poderia ela declarar abertamente o seu amor por Bentinho? Ou não dissimular às vezes que quase fora apanhada a roubar um beijo adolescente? Qual mulher não dissimularia naquelas décadas moralistas da segunda metade do século XIX? Evidenciar a dissimulação de Capitu não seria a estratégia de Bentinho para justificar as suas suspeitas e o seu ciúme?

O Seminário e as Pistas da Personalidade de Bentinho

Apesar dos planos de Bentinho e Capitu, aliados aos de José Dias, para que dona Glória desistisse da promessa, o inevitável acontece. Bentinho é mandado para o seminário. Ali conhece o seminarista Ezequiel de Sousa Escobar, simplesmente conhecido como Escobar. Travam uma grande amizade que se seguiria por toda a vida de ambos.
È na fase de seminarista que se desenha lentamente o perfil psicológico escondido de Bentinho. Se durante toda a narrativa, Bentinho evidencia uma Capitu decidida e repleta de truques na sua essência feminina, ele vai deixando pistas ao leitor da sua verdadeira personalidade e do que ela seria futuramente. Aos poucos, são sopradas as bases da sua também dissimulação, o fantasma de Otelo emerge em momentos rápidos, como no capítulo LXII, sutilmente chamado de “Uma Ponta de Iago”. Iago foi o grande vilão causador da tragédia de Otelo. É através das intrigas de Iago que Otelo mata a amada. No capítulo, uma insinuação de José Dias em visita ao seminário, transborda, pela primeira vez, o lado ciumento de Bentinho.

“- Tem andado alegre, como sempre; é uma tontinha. Aquilo enquanto não pegar algum peralta da vizinhança, que case com ela...
Estou que empalideci; pelo menos, senti correr um frio pelo corpo todo. A notícia de que ela vivia alegre, quando eu chorava todas as noites, produziu-me aquele efeito, acompanhado de um bater de coração, tão violento, que ainda agora cuido ouvi-lo. Há alguma exageração nisto; mas o discurso humano é assim mesmo, um composto de partes excessivas e partes diminutas, que se compensam, ajustando-se. Por outro lado, se entendermos que a audiência aqui não é das orelhas, senão da memória, chegaremos à exata verdade. A minha memória ouve ainda agora as pancadas do coração naquele instante. Não esqueças que era a emoção do primeiro amor. Estive quase a perguntar a José Dias que me explicasse a alegria de Capitu, o que é que ela fazia, se vivia rindo, cantando ou pulando, mas retive-me a tempo, e depois outra idéia...
Outra idéia, não, – um sentimento cruel e desconhecido, o puro ciúme, leitor das minhas entranhas. Tal foi o que me mordeu, ao repetir comigo as palavras de José Dias: "Algum peralta da vizinhança." Em verdade, nunca pensara em tal desastre. Vivia tão nela, dela e para ela, que a intervenção de um peralta era como uma noção sem realidade; nunca me acudiu que havia peraltas na vizinhança, vária idade e feitio, grandes passeadores das tardes. Agora lembrava-me que alguns olhavam para Capitu, – e tão senhor me sentia dela que era como se olhassem para mim, um simples dever de admiração e de inveja. Separados um do outro pelo espaço e pelo destino, o mal aparecia-me agora, não só possível mas certo. E a alegria de Capitu confirmava a suspeita; se ela vivia alegre é que já namorava a outro, acompanhá-lo-ia com os olhos na rua, falar-lhe-ia à janela, às ave-marias, trocariam flores e...”


Esta face do ciúme negro de Bentinho voltaria no capítulo LXXIII, quando Escobar conhece ao longe, Capitu, que está à janela da sua casa. Após a saída do amigo, passa na rua um cavalheiro montado em seu cavalo, rumando para o seu namoro. Bentinho vê o cavalheiro lançar um olhar insinuante para Capitu, e, envenenado, sente que ela retribuiu aquele olhar. É o bastante para a ira, o ciúme e o desespero tomar conta dele. Mais tarde, Capitu defende-se, não nega que olhou para o cavalheiro, mas com curiosidade, não com malícia. Este mesmo olhar, Bentinho iria supor ver novamente em Capitu no velório de Escobar.

O Casamento e o Abismo

A narrativa de Machado de Assis é lenta, desenvolvida quase toda na adolescência das personagens. Dos 148 capítulos, somente a partir do capítulo XCVII é que é deixada esta fase, entrando de vez na vida adulta das personagens, já quase no final da história.
A fase seguinte dá-se quando é encerrada a vida de Bentinho no seminário. Após um plano eloqüente de José Dias, Escobar sugere ao amigo que faça a mãe cumprir a promessa à igreja através de um substituto. Assim, dona Glória manda um escravo para ser padre em lugar do filho, quitando a sua dívida com o céu.
Livre do seminário, Bentinho vai para São Paulo estudar direito. Volta adulto e bacharel. Durante a sua ausência, Capitu tornara-se amiga e companheira de dona Glória. O perfil adulto de Capitu deixa de ser traçado como dissimulado, para fazê-la uma mulher íntegra e bondosa. Com a morte da mãe, Capitu toma conta do pai e da casa. Está tudo pronto para que a promessa feita quando adolescentes se cumpra, Bentinho e Capitu casam-se finalmente.
O casamento transcorre feliz. Capitu é vista como mulher exemplar, econômica, afetuosa e apaixonada. Escobar casa-se com Sancha, a melhor amiga de Capitu. Os dois casais travam uma longa e afetuosa amizade. Tão profunda que quando nasce o filho de Bentinho, ele pensa em fazer Escobar o padrinho. Mas o desejo de Bentinho é frustrado diante da insistência de tio Cosme em batizar a criança. Não tendo Escobar como padrinho, Bentinho faz uma homenagem ao amigo, dando ao filho o primeiro nome de Escobar, Ezequiel.
A vida corre feliz para Bentinho, Capitu e Ezequiel. Até que a fatalidade traga Escobar, que morre afogado. É no velório de Escobar que o casamento feliz de Bentinho começa a sucumbir. Ele vê nos olhos de “ressaca” de Capitu o mesmo olhar que vira anos antes, quando o cavalheiro desconhecido passou debaixo da janela da amada. Bentinho jura para si mesmo que Capitu olhou para o defunto com um olhar de paixão. Começa o seu desespero e a sua desconfiança. Meses depois, ingenuamente Capitu comenta com Bentinho que acha Ezequiel parecido com o falecido Escobar. A partir de então Bentinho vê o fantasma de Escobar em cada gesto do filho, começa a enxergar uma semelhança exacerbada que o faz acreditar que Ezequiel não é seu filho. Naquele instante Betinho mata a paternidade dentro de si, vê em Ezequiel o retrato da confirmação da traição e do adultério do amigo com a mulher amada.
Abre-se o abismo. Não há mais volta para as desconfianças de Bentinho. Ele apega-se às dúvidas e ao ciúme, deixando-se envenenar dia após dia. A obsessão pela suposta traição que sofrera torna Bentinho um homem amargo. Em um sábado ele decide pôr fim à vida. Compra veneno na farmácia. Antes de consumar o ato, vai ao teatro. Novamente Machado de Assis dá uma pista do que se passa com Bentinho, pois o capítulo CXXXV chama-se “Otelo”.

"Jantei fora. De noite fui ao teatro. Representava-se justamente Otelo, que eu não vira nem lera nunca; sabia apenas o assunto, e estimei a coincidência. Vi as grandes raivas do mouro, por causa de um lenço – um simples lenço! – e aqui dou matéria à meditação dos psicólogos deste e de outros continentes, pois não me pude furtar à observação de que um lenço bastou a acender os ciúmes de Otelo e compor a mais sublime tragédia deste mundo. Os lenços perderam-se. hoje são precisos os próprios lençóis; alguma vez nem lençóis há e valem só as camisas. Tais eram as idéias que me iam passando pela cabeça, vagas e turvas, à medida que o mouro rolava convulso, e Iago destilava a sua calúnia. Nos intervalos não me levantava da cadeira; não queria expor-me a encontrar algum conhecido. As senhoras ficavam quase todas nos camarotes, enquanto os homens iam fumar. Então eu perguntava a mim mesmo se alguma daquelas não teria amado alguém que jazesse agora no cemitério, e vinham outras incoerências, até que o pano subia e continuava a peça. O último ato mostrou-me que não eu, mas Capitu devia morrer. Ouvi as súplicas de Desdêmona, as suas palavras amorosas e puras, e a fúria do mouro, e a morte que este lhe deu entre aplausos frenéticos do público.
“E era inocente”, vinha eu dizendo rua abaixo; “que faria o público, se ela deveras fosse culpada, tão culpada como Capitu? E que morte lhe daria o mouro? Um travesseiro não bastaria; era preciso sangue e fogo, um fogo intenso e vasto, que a consumisse de todo, e a reduzisse a pó, e o pó seria lançado ao vento, como eterna extinção...”


Bentinho questiona a inocência de Desdêmona, que se reflete na suposta culpa de Capitu. A cegueira continua. Aqui ele decide que Capitu é quem tem que morrer. Ao voltar para casa, passa a noite na sala. Ao amanhecer, diluí o veneno no seu café. É interrompido do ato suicida pela entrada de Ezequiel, que corre afetuoso para os braços do pai. Mas já não há amor paternal no coração negro de Bentinho. Uma idéia cruel passa-lhe pela mente, seguindo o instinto, ele tenta fazer com que o filho tome o café envenenado. Termina por não ter coragem de matar o filho. Capitu entra. Pela primeira vez Bentinho acusa a mulher de adultério. Ela ri a princípio, depois se indigna diante das acusações. Capitu não confessa o adultério. Resigna-se, sente-se ultrajada. E com uma dignidade inviolável, aceita a separação do casal, mostrando-se mais uma vez, que sempre fora mais mulher do que Bentinho fora homem.
Bentinho leva a mulher e o filho para a Europa, onde os confina para sempre. Assim como Otelo, mata a mulher, não fisicamente, mas exilando-a longe da sua terra e das suas origens. Para manter as aparências, Bentinho faz várias viagens à Europa, em nenhuma delas visita Capitu e Ezequiel. Recebe ao longo dos anos, cartas de Capitu, sempre pedindo para voltar, jamais confessando o adultério. Capitu morre exilada na Europa. Ezequiel volta para o Brasil já adulto, tornara-se um arqueólogo. O jovem, ao contrário do pai, nunca se esqueceu da infância vivida ao seu lado. Bentinho não vê chegar o Ezequiel Santiago, mas o próprio Ezequiel de Sousa Escobar. Vê em cada gesto do rapaz os gestos de Escobar. Ezequiel fala dos planos que tem para a sua carreira de arqueólogo, quer visitar as terras históricas. Uma idéia sarcástica toma conta de Bentinho, a de financiar a expedição de Ezequiel na esperança de que ele apanhe a lepra pelos sarcófagos dos reis da antiguidade. Ezequiel parte para Jerusalém, financiado pelo pai. Não morre de lepra, mas de uma febre tifóide que apanha na cidade santa.
Casmurro, amargo, sarcástico, Bentinho enterra todas as personagens da sua história. Um a um, todos sucumbem à sua volta. Tudo ao seu redor é estéril. Todos os filtros do conceito de amor, família e felicidade, são diluídos pelo niilismo amargo e obsessivo de quem se sentiu traído pela vida, pelo amor da mulher amada e pelo melhor amigo. Não há o conceito do perdão ou do amor paternal, mas do sarcasmo e do ciúme. Bentinho é o único sobrevivente da sua história. Também o único juiz.

Capitu e Bentinho, Qual o Verdadeiro Culpado?

O que nos prova a culpa de Capitu? Teria ela cometido o adultério? Se Bentinho acusou a mulher de adultério, o próprio Machado de Assis deu prova de que ela poderia ser inocente, sem afirmar-lhe nunca a inocência ou a culpa.
Vejamos os pontos que levaram às suspeitas de Bentinho: o olhar de Capitu ao morto e a semelhança de Ezequiel e Escobar.
Um olhar parecido já tinha sido identificado por Bentinho na adolescente Capitu, quando um estranho passou montado no cavalo embaixo da sua janela. Capitu defendeu-se na época. Este olhar visto por Bentinho existiu? Não seria um olhar de pesar pela perda de tão querido amigo do casal? Na noite que precedeu à morte de Escobar, também Bentinho viu no olhar de Sancha, a mulher do amigo, um desejo mais profundo e sexual. Chegou a sonhar com um suposto olhar de sedução da mulher do amigo. No outro dia, vendo Sancha chorar pelo marido morto, Bentinho percebeu que se tinha enganado, que o gesto de Sancha tinha sido amigável e cordial, ele que sempre foi de uma imaginação fértil, transitando muita vez entre o real e o imaginário. Não estaria fazendo o mesmo com o olhar de Capitu? O próprio Bentinho pergunta-se sobre este possível engano.
Se Machado de Assis dá provas da culpa de Capitu, ele também fornece pistas contrárias. É o caso da semelhança física entre Ezequiel e Escobar. Ainda quando não há suspeitas, Bentinho vê semelhanças nos pés e nos braços, quando o menino imita Escobar. Ezequiel tem o dom de imitar os adultos, se o faz com Escobar, também o faz com José Dias e a prima Justina. Mas a própria Capitu acha que há semelhanças físicas entre Ezequiel e Escobar. Se tivesse atraiçoado o marido e gerado um filho com o amigo, Capitu faria tão inocente declaração? Não se calaria e procuraria esconder as evidências do adultério?
No capítulo LXXXIII, intitulado “O Retrato”, Gurgel, o pai de Sancha, mostra a Bentinho o retrato da mulher morta. Gurgel acentua a inexplicável semelhança entre Capitu e a mulher. O capítulo passa despercebido, mas volta a ser mencionado no fim da história, no auge das suspeitas de Bentinho. É a consciência de Bentinho que repete as palavras de Gurgel: “Na vida há dessas semelhanças assim esquisitas”. É um paralelo que Machado de Assis faz, lançando mais uma vez uma pista da possível inocência de Capitu.
Por duas vezes Bentinho soube da presença de Escobar na sua casa durante a sua ausência, a primeira, quando o amigo trouxera as libras que Capitu economizara do dinheiro que Bentinho lhe dava. Outra vez Escobar estava à porta da casa do casal, quando Bentinho deixara Capitu adoentada e fora ao teatro, retornando antes do previsto, por estar preocupado com a mulher. As duas vezes seriam provas suficientes do adultério?
A acusação de Bentinho é unilateral. Não é mostrado ao leitor o lado de Capitu. Também Escobar já estava morto, sem qualquer possibilidade de defender a sua memória. A aparência física de Ezequiel com Escobar era evidenciada por um Bentinho com a alma já tomada pelo ciúme e pelo peso da suposta traição.
Finalmente, o silêncio e a resignação de Capitu seriam uma confirmação da culpa ou a indignação da inocência? Ela que nos foi apresentada decidida, implacável no que queria, muitas vezes dissimulada, por que se calou tão repentinamente? A mulher adulta já não era tão voluntariosa quanto a adolescente? Seu silêncio seria de dissimulação ou de dor? De culpa ou de inocência?
Bentinho acusou, julgou e condenou Capitu, Ezequiel e Escobar, sem direito à defesa. Como um Otelo implacável, cumpriu apenas o desejo vil da vingança e da alma dilacerada pelo ciúme. Bentinho matou moralmente os três. Se eram inocentes, só Machado de Assis poderia dizê-lo, mas o autor levou consigo o segredo da bela mulher de olhos de cigana oblíqua e dissimulada, deixando-nos o mais instigante mistério da literatura universal.

Machado de Assis

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu a 21 de junho de 1839, no Rio de Janeiro, então capital do império do Brasil. É esta cidade e os seus costumes que ele vai brilhantemente descrever em sua literatura, mostrando-a, às vezes com amor, outras vezes com sarcasmo. Filho de um mulato pintor de paredes e de uma lavadeira portuguesa, Machado de Assis passou a maior parte da infância entre a chácara da madrinha e a casa pobre dos pais. Ficou órfão da mãe quando ainda era criança. O pai casou-se com Maria Inês, que foi quem lhe ensinou as primeiras letras e criou-o com carinho após a morte do pai.
Machado de Assis vendeu balas nas ruas feitas pela madrasta, empregou-se como aprendiz de tipógrafo e logo a seguir, estreou-se no jornal A Marmota, com os versos de amor Meu Anjo. Três anos depois, em 1858, passou a escrever regularmente para o Correio Mercantil.
Machado de Assis fora uma criança isolada em sua timidez, pobreza e gagueira, o que refletiria na sua vida adulta e em sua obra literária. Mais tarde seria acometido por ataques de epilepsia que o deixaria ainda mais isolado em si. Casou-se com Carolina Xavier de Novais, em 1869, com quem viveria uma vida conjugal calma até 1904, quando ficou viúvo.
Machado de Assis inaugurou a sua obra literária em prosa, em 1870, quando foi publicado o livro “Contos Fluminenses”. Desde então, tornar-se-ia o maior escritor da literatura brasileira, deixando obras românticas como A Mão e a Luva, Helena e Iaiá Garcia, e realistas como Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro e Esaú e Jacó.
Após a morte da mulher Carolina, doente, triste e solitário, Machado de Assis deixou-se definhar, vindo a morrer no dia 29 de setembro de 1908. No leito de morte recusou-se a receber a presença de um padre para que se confessasse. 100 anos após a sua morte, Machado de Assis continua a ser o maior escritor do Brasil, e um dos maiores da literatura universal.

OBRAS:

Romance:

1872 – Ressurreição
1874 – A Mão e a Luva
1876 – Helena
1878 – Iaiá Garcia
1881 – Memórias Póstumas de Brás Cubas
1885 – Casa Velha
1891 – Quincas Borba
1899 – Dom Casmurro
1904 – Esaú e Jacó
1908 – Memorial de Aires

Poesia:

1864 – Crisálidas
1870 – Falenas
1875 – Americanas
1880 – Ocidentais
1901 – Poesias Completas

Conto:

1870 – Contos Fluminenses
1873 – Histórias da Meia-Noite
1882 – Papéis Avulsos
1884 – Histórias sem Data
1896 – Várias Histórias
1899 – Páginas Recolhidas
1906 – Relíquias da Casa Velha

Teatro:

1860 – Hoje Avental, Amanhã Luva
1861 – Queda que as Mulheres Têm Para os Tolos
1861 – Desencantos
1863 – O Caminho da Porta
1863 – O Protocolo
1864 – Quase Ministro
1866 – Os Deuses de Casaca
1880 – Tu, Só Tu, Puro Amor
1896 – Não Consultes Médico
1906 – Lição de Botânica

CRONOLOGIA:

1839 – Nasce, a 21 de junho, no Rio de Janeiro, Joaquim Maria Machado de Assis.
1851 – Morre-lhe o pai. Passa a ser criado pela madrasta, Maria Inês.
1855 – 12 de janeiro, publica o primeiro poema. Colabora com o jornal A Marmota.
1856 – Admitido como aprendiz de tipógrafo na Tipografia Nacional.
1858 – Escreve para O Paraíba, de Petrópolis. Passa a colaborar com o Correio Mercantil.
1859 – Estréia como crítico teatral na revista O Espelho.
1860 – Convidado para redator do Diário do Rio de Janeiro. Torna-se um dos redatores de A Semana Ilustrada.
1861 – Publica os textos teatrais Queda que as Mulheres Têm Para os Tolos e Desencantos.
1862 – Admitido como sócio do Conservatório Dramático Brasileiro, exercendo a função de auxiliar da censura.
1863 – Publica o Teatro de Machado de Assis, volume composto pelas comédias O Protocolo e O Caminho da Porta.
1864 – Publica o primeiro livro de poesias, Crisálidas.
1866 – Publica a comédia Os Deuses de Casaca e uma tradução que fez do romance Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo.
1868 – Apresentado em carta, por José de Alencar, a Castro Alves.
1869 – Casa-se com a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais.
1870 – Publica os livros Falenas (poesia) e Contos Fluminenses (contos).
1872 – Publica o romance Ressurreição.
1873 – Publica Histórias da Meia-Noite.
1874 – De setembro a novembro, publica em O Globo, o romance A Mão e a Luva.
1875 – Publica Americanas.
1876 – Escreve para a revista Ilustração Brasileira. Publica de agosto a setembro, em O Globo, o romance Helena.
1878 – Publica de janeiro a março, em O Cruzeiro, o romance Iaiá Garcia. Adoece, entrando de licença, seguindo para Friburgo.
1879 – Começa a escrever para a Revista Brasileira.
1881 – Publica em volume as Memórias Póstumas de Brás Cubas. Escreve com assiduidade para a Gazeta de Notícias.
1888 – Elevado a oficial da Ordem da Rosa. Desfila a 20 de maio para celebrar a Abolição.
1890 – Visita, ao lado da mulher Carolina, as fazendas da Companhia Pastoril Mineira, em Minas Gerais.
1891 – Publica, em volume, Quincas Borba.
1896 – Aclamado, em 15 de dezembro, para dirigir a primeira sessão preparatória da fundação da Academia Brasileira de Letras.
1899 – Publica o romance Dom Casmurro.
1901 – Publica Poesias Completas.
1904 – Publica o romance Esaú e Jacó. Em janeiro, devido à enfermidade de Carolina, segue com ela para Friburgo. Carolina morre, a 20 de outubro, poucos dias de completar 35 anos de casados.
1906 – Publica Relíquias da Casa Velha.
1908 – Publica o romance Memorial de Aires. Afasta-se do trabalho, em 1 de junho, para tratar da saúde. Morre na madrugada de 29 de setembro, em sua casa, na Rua Cosme Velho. Por sua determinação, é enterrado na sepultura de Carolina, no Cemitério São João Batista.
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Segunda-feira, 6 de Abril de 2009

O AMOR ENTRE IGUAIS NAS TELENOVELAS


 

As telenovelas brasileiras foram evoluindo a sua linguagem desde1963, quando 2-5499 Ocupado foi ao ar, sendo considerada o marco zero desse gênero de teledramaturgia. Com o passar das décadas, as telenovelas tornaram-se o principal veículo de comunicação entre a televisão e o povo brasileiro. Em quase 5 décadas, a telenovela ditou modas, mexeu com os costumes, tocou nas feridas de uma sociedade mutante, às vezes de uma forma hipócrita, outras de um jeito menos superficial. A única certeza é que a telenovela brasileira promoveu, ao longo da sua história, modelos de comportamento e tendências a ser seguidas pelo seu público.
Mas, nem sempre os espelhos refletidos da sociedade brasileira na pequena tela da televisão eram sinceros ou realistas. Houve um tempo, e não muito longe, que os estereótipos dos protagonistas deveriam ser perfeitos, maniqueístas e de um racismo velado. O herói não poderia ter relacionamentos entre raças, ou sexo entre iguais. Era bom, perfeito e branco. Preconceitos raciais e sexuais foram, aos poucos, tendo abordagens tímidas, superficiais, mas que diante das imposições de uma sociedade plural como é a brasileira, sedenta de transgressões e de mudanças de costumes, tiveram que ter uma explosão temática mais evidenciada.
Discutir o homossexualismo, seja ele masculino ou feminino, tornou-se um filão obrigatório nas telenovelas atuais. Mesmo assim, ainda é um tema delicado, coberto de tabus e medos de que a nudez da temática seja escancarada ao público. Dos anos 70, quando o tema foi abordado abertamente pela primeira vez, à década atual, quando é uma constante nos núcleos das telenovelas, muito foi discutido sobre a diversidade sexual do brasileiro, mas muito ficou por ser dito. Porque esta sexualidade é universal, indo além do que uma sociedade formada por várias raças e religiões quis, através dos seus preconceitos, impor como um modelo padrão.

As Primeiras Abordagens da Temática

Antes da telenovela, a primeira vez que a televisão brasileira abordou o tema do homossexualismo foi na década de 60, num dos episódios do Grande Teatro Tupi, na extinta Rede Tupi, em que as atrizes Vida Alves e Geórgia Gomide protagonizaram o primeiro beijo entre mulheres da pequena tela. Depois deste episódio histórico, o tema sempre foi tabu, e quando era abordado, era feito de uma forma camuflada, que só os mais atentos conseguiam perceber a intenção do autor ou do diretor.
Em 1974, o novelista Bráulio Pedroso, pioneiro e criador de uma nova linguagem da telenovela desde que Beto Rockfeller (1969), de sua autoria, foi ao ar; resolveu ousar mais uma vez, criou o primeiro personagem homossexual da televisão brasileira, o milionário Conrad Mahler (Ziembinski), da novela O Rebu. A novela era exibida no extinto horário das 22 horas da Rede Globo. A personagem não era secundária, era uma das principais da trama. Conrad não trazia trejeitos, tinha um caso velado com o jovem Cauã (Buza Ferraz). Por ciúme, o milionário matou Silvia (Bete Mendes), a namorada do rapaz. Além do caso de Conrad e Cauã, também é revelado um relacionamento entre Glorinha (Isabel Ribeiro) e Roberta (Regina Viana). Pela primeira vez, depois das 22 horas da noite, o homossexualismo foi tratado abertamente em uma telenovela brasileira. Bráulio Pedroso voltaria ao tema em 1978, em O Pulo do Gato, com a personagem Pacheco (Carlos Kroeber), milionário casado com Regina (Lady Francisco), que gostava dos garotões da praia, seduzindo com o dinheiro o aproveitador surfista Billy (Kadu Moliterno). Aqui o relacionamento faz parte de um golpe do protagonista Bubby Mariano (Jorge Dória), que usa o jovem Billy para arrancar dinheiro de Pacheco e da sua “fraqueza”.
Durante toda a década de 70 e 80, época que decorreu a censura às artes no Brasil, os políticos moralistas e defensores dos costumes tradicionais, vetaram várias vezes o tema. Numa ditadura militar, supostamente composta por homens rudes e viris, seguidores fiéis das práticas cristãs da igreja romana medieval, era inconcebível falar abertamente sobre homossexualismo numa telenovela, era fazer uma apologia a qual os militares chamavam de fraqueza e desvio de caráter e moral. Daí vários personagens caricatos, afetados e exagerados transitavam em papéis decorativos pelas novelas, sem um perfil psicológico definido. Foi assim em Pecado Capital (1975), de Janete Clair, em que Rogê (Nestor de Montemar), um afetado costureiro, redime-se no último capítulo e apaixona-se por Djanira (Maria Pompeu), deixando a afetação que o consumira durante a novela. Também o afetado Everaldo (Renato Pedrosa), de Dancin’ Days (1978), de Gilberto Braga, mordomo de Yolanda Pratini (Joana Fomm), vivia para idolatrar a patroa, fazendo da sua afetação um ser assexuado.

Muitos Bonzinhos e Poucos Vilões

Em 1981, na novela Brilhante, Gilberto Braga decidiu enfrentar de vez o tema, trazendo-o finalmente, para o horário nobre da televisão brasileira. Inácio (Denis Carvalho), é o herdeiro de uma rica, conservadora e tradicional família. É homossexual, mas é obrigado a esconder da família a sua opção. A censura proibiu que a palavra “homossexual” fosse dita, dificultando o crescimento psicológico da personagem. Mesmo enfrentando os cortes da censura, Gilberto Braga tentou aprofundar a personagem, fazendo com que Inácio forjasse um casamento com a ambiciosa Leonor (Renata Sorrah). Leonor aceita o casamento por dinheiro, mas apaixona-se por Inácio, que termina a farsa e assume o seu romance com Sérgio (João Paulo Adour). Foi um momento tenso entre a censura, o público e a teledramaturgia brasileira. O tema era abordado abertamente, mas as cenas e a ação eram feitas nas entrelinhas, com uma discrição franciscana, longe do que é abordado nos dias de hoje.
Gilberto Braga voltaria ao tema em Vale Tudo (1988), desta vez abordando o homossexualismo feminino com as personagens Laís (Cristina Prochaska) e Cecília (Lala Deheinzelin), duas mulheres que viviam juntas há muitos anos. Já a ditadura militar tinha acabado, mas a censura continuava moralista. O autor teve que reescrever vários diálogos censurados. Na trama Cecília morria, para alívio do telespectador, que na época sentia-se incomodado com o romance lésbico. Esta morte não foi uma imposição do público ou da censura, e sim do tema que o autor queria abordar: os direitos legais que tinha um casal homossexual diante da morte de um dos parceiros. O tema vinha do escândalo então recente, que envolvera o processo que o fotógrafo Marco Rodrigues movia contra a família do seu companheiro, o artista plástico Jorginho Guinle Filho, com quem vivera 17 anos, e que falecera em 1987, vítima da Aids. No processo, Marco Rodrigues reivindicava a metade dos bens do companheiro, negada pela mãe do falecido. Gilberto Braga soube conduzir o tema com inteligência, sem criar grandes polêmicas. Ironicamente, Gilberto Braga, desbravador do tema na televisão brasileira, criou em Paraíso Tropical (2007) um casal homossexual sem veia dramática e de caráter decorativo: Tiago (Sérgio Abreu) e Rodrigo (Carlos Casagrande), apenas demarcando a temática na sua trama.
Para que o grande público aceitasse a temática das opções sexuais de determinadas personagens, várias condições aos perfis psicológicos foram-lhes impostas. Além de regras padronizadas e intocáveis. Normalmente as personagens homossexuais não podem ser vilãs, têm que ser boas, amigas dos protagonistas e de carisma indelével. Lauro César Muniz fugiu a este padrão, criando o grande vilão homossexual Mário Liberato (Cecil Thiré) de Roda de Fogo (1986). Mário persegue durante toda a trama da novela o protagonista Renato Villar (Tarcísio Meira), por nutrir por ele uma paixão platônica implacável. Cenas de insinuações explícitas entre Mário e o mordomo Jacinto (Cláudio Curi) deram grandes cortes aos censores da época. Lauro César Muniz abordou o tema outras vezes em suas novelas, como em Cidadão Brasileiro, de 2006.
Também Dias Gomes transitou na contramão das regras, criando dois grandes vilões homossexuais em Mandala (1987): Laio (Perry Salles) e Argemiro (Carlos Augusto Strazzer), que viviam um triângulo composto no seu terceiro vértice por Cris (Marcelo Picchi). Laio, um bissexual dividido entre o amor da bela Jocasta (Vera Fischer) e do jovem Cris, saiu diretamente da tragédia grega de Sófocles, Édipo Rei, para as telas da televisão. A conotação homossexual não foi criada por Dias Gomes, mas pelo próprio mito grego de Laio, que na mitologia, enamora-se do príncipe Crisipo, filho do rei Pélope.

Personagens Que Não Agradaram

Silvio de Abreu é um dos autores que abordou o tema várias vezes, mas raramente teve bons resultados com o público, que nunca aceitou complacente as personagens homossexuais do autor. Em A Próxima Vítima (1995), Silvio de Abreu só revelou o caso entre iguais de Jefferson (Lui Mendes) e Sandrinho (André Gonçalves) lá pela metade da novela, quando o público já se acostumara com as personagens. Mesmo assim, uma certa rejeição foi inevitável. Diante da rejeição do público, o ator André Gonçalves chegou a ser agredido e ameaçado de morte por alguns mais radicais.
Silvio de Abreu voltou à temática em Torre de Babel (1998), com as personagens Leila (Silvia Pfeifer) e Rafaela (Christiane Torloni), duas empresárias bem-sucedidas que viviam juntas. A rejeição às personagens foi imediata e total, obrigando o autor a matar as duas em uma explosão do shopping. Na sinopse a morte de Rafaela estava prevista, deixando Leila livre para viver um romance com a madura Marta (Glória Menezes), diante da rejeição do público, Leila também morreu e a atriz Silvia Pfeifer voltou à novela como a heterossexual Leda, irmã gêmea da personagem morta.
Em 2001 Silvio de Abreu criou, em tom de comédia, o transexual Ramona (Cláudia Raia), na novela As Filhas da Mãe. Aqui o autor não quis criar polêmicas, Ramona tinha um perfil psicológico superficial e enganava o público com um certo mistério à sua volta, de que ela poderia ser uma mulher a se fazer passar por um transexual. Não houve rejeição do público, mas a novela também não marcou, sendo um grande fracasso, apesar de contar com um elenco de luxo, sendo encurtados os números de capítulos.

Delicadeza do Tema nas Ópticas de Glória Perez e Manoel Carlos

Glória Perez soube tratar sempre com maestria e delicadeza este tema. Criou o carismático e afetado Lulu (Eri Johnson) em Barriga de Aluguel (1990), que teve um bom índice de popularidade. Em Explode Coração (1995) a autora foi mais ousada, trazendo um transexual para o horário nobre: Sarita Vitti (Floriano Peixoto). Glória Perez emprestou uma grande dignidade e generosidade à personagem, criando uma empatia do público com ela, numa das mais bem sucedidas abordagens ao tema em uma telenovela.
Em América (2005), Glória Perez abordou com grande delicadeza a descoberta da homossexualidade por Júnior (Bruno Gagliasso), e a sua paixão pelo peão Zeca (Erom Cordeiro). A aceitação das personagens foi tão grande, que se anunciou, para o último capítulo, o primeiro beijo entre um casal gay na televisão brasileira, gerando grande expectativa, fazendo a novela bater índices de audiência na hora que a cena iria ao ar. A Tv Globo não quis arriscar, cortando a cena do beijo, que tinha sido escrita e gravada, o que causou grande protesto e indignação das comunidades gays.
Manoel Carlos, um dos autores de novelas que mais se utiliza de um elaborado perfil psicológico para desenhar as suas personagens, sempre tratou temas polêmicos com sofisticação, delicadeza e sensibilidade, dando uma veracidade humana às personagens que criou. Foi com seriedade que ele mostrou o casal Virginia (Ângela Vieira) e Rafael (Odilon Wagner) em Por Amor (1997). Na trama ambos viviam um casamento supostamente feliz e sem crises, até que Rafael descobre a sua bissexualidade, e aos poucos, distancia-se da mulher e dos filhos, decidindo por fim, sair de casa para ir viver com um homem mais novo pelo qual se apaixonara.
Em Mulheres Apaixonadas (2003), a temática gira em torno de um casal lésbico de adolescentes, Clara (Aline Moraes) e Rafaela (Paula Picarelli). A beleza e carisma das atrizes, juntamente com o texto de Manoel Carlos, conquistaram o Brasil. Uma pesquisa feita diante do público, revelou que todos aceitavam o casal, desde que não houvesse cenas de beijos entre elas. No último capítulo da novela, Clara e Rafaela encenam na trama a peça Romeu e Julieta. Manoel Carlos faz com que elas se beijem como as personagens da peça, não da novela.
Em Páginas da Vida (2006), o autor criou Rubinho (Fernando Eiras) e Marcelo (Thiago Picchi), que viviam juntos. Através deles, abordou os problemas de um casal gay, como ter que ir dormir em outra casa quando os pais de um deles decidem visitá-los.

O Homossexualismo Latente das Novelas de Carlos Lombardi

Carlos Lombardi raramente aborda abertamente o tema do homossexualismo em suas tramas, mas é com certeza o autor que mais emana uma atmosfera de uma homossexualidade latente em suas personagens. Os protagonistas do autor são homens machistas, mulherengos, limitados pela força bruta e exploração da sua suposta nudez viril. Nas novelas de Carlos Lombardi os corpos dos atores são explorados capítulo a capítulo, onde aparecem musculosos e sem camisa, quando não estão nus. As mulheres lombardianas veneram o machismo dos homens e se sentem atraídas por aquela brutalidade viril que esconde um homossexualismo latente.
O homossexualismo no universo das telenovelas de Carlos Lombardi torna-se evidente na obsessão que o autor tem pelo amor viril entre irmãos, quase uma paixão camuflada, maior que o herói sente pela heroína da trama. Esta obsessão começou na novela Bebê a Bordo (1988), onde os irmãos Rei (Guilherme Fontes) e Rico (Guilherme Leme), aparentemente têm um amor fraternal que os une, mas que se torna tão profundo, quase que uma conotação sexual, revelando-lhes uma homossexualidade a flor da pele, escondida diante da palavra fraternal. O mesmo filão é explorado pelo autor, à exaustão e cada vez mais obsessivamente nas novelas Viralata (1996), com os irmãos Lênin (Humberto Martins) e Fidel (Marcelo Novaes); Uga Uga (2000), com os irmãos Baldochi (Humberto Martins) e Casimiro (Marcos Pasquim) e, em Pé na Jaca (2006), com os irmãos Lance (Marcos Pasquim) e Tadeu (Rodrigo Lombardi). Carlos Lombardi consegue transpor explicitamente este amor gay camuflado entre irmãos na série O Quinto dos Infernos (2002), em que dom Miguel (Caco Ciocler) tem um amor e atração sexual assumida pelo irmão dom Pedro (Marcos Pasquim). Infelizmente Carlos Lombardi decidiu viver a sua fantasia homossexual incestuosa com personagens da história do Brasil e de Portugal, que nunca tiveram paixão alguma um pelo outro.

A Temática Escrita de Forma Visceral

Outro autor que merece referências por sempre tratar da temática da diversidade sexual é Agnaldo Silva. Se em Tieta (1989) brincou levemente com a personagem bem-humorada de Ninete (Rogéria), foi muito mais profundo em Pedra Sobre Pedra (1992), onde Adamastor (Pedro Paulo Rangel) viveu uma vida inteira dedicada ao amor que sentia por Carlão (Paulo Betti). Carlão nunca assumiu os sentimentos que Adamastor tinha por ele, mas soube como ninguém tirar proveito do amor velado do amigo. No final da novela Adamastor põe Carlão contra a parede, não tendo resposta para os seus sentimentos, decide esquecer o amigo e apaixonar-se por outro.
Em Suave Veneno (1999), o autor criou o divertido e inteligente Uálber (Diogo Vilela), uma espécie de guru que serve de alicerce para várias personagens da trama. Uálber tem como amigo o afetado e engraçado Ediberto (Luiz Carlos Tourinho). Durante toda a trama Uálber nutre uma paixão secreta pelo rude Claudionor (Heitor Martinez), que tem um grande preconceito com os gays. Quando Uálber parece vencer os preconceitos de Claudionor e o final feliz parece eminente, o autor surpreende o público, fazendo com que o guru entregue o rapaz nos braços da fogosa Eliete (Nívea Stelman).
Em Senhora do Destino (2004), Agnaldo Silva trata o tema de amor entre duas mulheres com uma delicadeza digna de um Manoel Carlos, fazendo de Eleonora (Mylla Christie) e Jenifer (Bárbara Borges), duas personagens queridas pelo grande público. Agnaldo Silva mostra passo a passo o sofrimento de Jenifer ao descobrir a sua homossexualidade, a rejeição, e finalmente, a aceitação. Mostra a luta das personagens para que sejam aceitas pela família e finalmente, a coragem das duas de ir viver juntas e adotarem uma criança.
Se em Senhora do Destino Agnaldo Silva abordou com delicadeza o amor de Eleonora e Jenifer, em Duas Caras (2007) ele volta ao tema de uma forma crua e visceral jamais abordada em uma telenovela. O amor marginal entre Bernardinho (Thiago Mendonça) e Carlão (Lugui Palhares) é contado sem subterfúgios. Carlão deixa claro que é o ativo da relação, bate, explora, humilha e rouba o companheiro, até que se apaixona por ele, rendendo-se a esta paixão e à sua verdadeira essência sexual. Nunca o amor gay foi tão explícito na televisão como o de Bernardinho e Carlão, culminando no primeiro casamento entre iguais da televisão.
Na última década, a presença do homossexual nas telenovelas tornou-se uma constante, quase que obrigatório. Eles estiveram em Roda da Vida (2001), Malhação (2001), Um Anjo Caiu do Céu (2001), Desejos de Mulher (2002), Kubanakan (2003), A Lua me Disse (2005), Caminhos do Coração (2007), Beleza Pura (2008), A Favorita (2008), só para citar exemplos. Se antes a rejeição do público era latente, hoje há uma aceitação consentida. O público acostumou-se em ver as diferenças no pequeno ecrã da televisão, e até a vibrar e torcer pelas personagens. Mesmo assim, ainda há regras que foram fincadas, décadas e décadas do tema sendo mostrado, e até hoje não houve uma cena de beijo entre dois iguais, ou cenas que atestem uma maior intimidade entre os casais homossexuais das tramas. O que mostra que o preconceito está menor, mas que não desapareceu. A teledramaturgia pode focar o amor entre iguais, desde que não ultrapasse as regras da intolerância, delineadas por um jogo de códigos morais e imposições jogado entre o público e as emissoras de televisão.
 
publicado por virtualia às 20:22
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Sábado, 4 de Abril de 2009

A INVENÇÃO DO 7 DE SETEMBRO

 


O Brasil como nação e estado soberano, surgiu em 1822, quando rompeu os laços coloniais com Portugal. Desde então, aos poucos, foi criada uma identidade nacional repleta de símbolos e datas, contando de forma épica a história de uma jovem nação, muitas vezes gerando fatos míticos fantasiosos. Um dos símbolos dessa identidade é a comemoração da Independência, repleta de heróis e arroubos patriotas, gerando assim, um glamuroso momento da construção do Estado.
Mas até onde os fatos históricos e o que é contado coincidem? Aos poucos, os historiadores atuais lapidam o glamour da mística em torno do grito do Ipiranga, recontando esta página instigante da nação brasileira.
Se a data da Independência é hoje comemorada no Brasil no dia 7 de setembro, nem sempre foi assim. Quando se deu o rompimento com Portugal, em 1822, o primeiro relato que exaltou o grito do Ipiranga foi feito em 20 de setembro daquele ano, no jornal O Espelho, publicação da Imprensa Nacional que circulava no Rio de Janeiro (1821-1823). Naquele momento dom Pedro foi aclamado o herói nacional e a Coroa portuguesa a grande vilã. A data da comemoração do dia da Independência desde então, foi comemorada de acordo com o momento político vivido e a necessidade dos mitos exaltados para fincar a identidade da jovem nação. Aclamado imperador do Brasil em 12 de outubro do ano da independência, dom Pedro era o ícone proclamador da liberdade da nação. A data de nascimento do imperador era também o dia 12 de outubro. Assim, ficou estabelecido que esse era o dia para que se comemorasse a Independência. Quando em 1 de dezembro daquele ano, dom Pedro I foi coroado, também esta data passou a ser comemorada como dia da independência. Curiosamente, este é o dia histórico da restauração da independência de Portugal do domínio da Espanha (1580-1640), muito comemorado pela ex-nação colonizadora, o que trazia um incômodo para os exaltados brasileiros da época, ansiosos de apagar a condição de colônia das suas páginas. Ao longo do século XIX, com a decadência da popularidade de dom Pedro I, também a sua importância no grito do Ipiranga passou a ser amenizada, e, a partir de 1870, consolidou-se a história do Estado nacional, transformando o 7 de setembro no dia da independência do Brasil. Estava inventado o 7 de setembro, o símbolo maior da identidade brasileira.

Dom Pedro I, Símbolo Mítico da Independência

Ao olharmos para o famoso quadro de Pedro Américo, o “Grito do Ipiranga”, encontramos um imponente e destemido dom Pedro I no centro da imagem, montado em um cavalo de raça, ladeado pela Guarda de Honra do Imperador. Aqui começa a fantasia sobre o fato histórico. Concluído em 1888, o quadro apagou da história a mula montada pelo então príncipe, e ainda trouxe para o cenário a elegante guarda criada depois do dia do grito, quando ele, como o nome do regimento sugere, já era o imperador do Brasil.
Esta imagem de herói de dom Pedro I, vista no quadro de Pedro Américo foi construída bem antes, e retocada através dos anos, muitas vezes transformando o imperador em vilão. Quando se deu o grito do Ipiranga, a figura emblemática do primeiro imperador brasileiro tornou-se mais importante que a própria independência, centralizando nele as comemorações patrióticas. No ápice da popularidade de dom Pedro I, era incontestável que a data do seu aniversário e da sua aclamação como imperador, fosse a da comemoração do dia nacional. Assim, até 1826, o 12 de outubro era o dia da Independência. É neste ano que o parlamento cria cinco datas comemorativas da Independência, entre elas o 7 de setembro.
Nos dias da comemoração da Independência (12 de outubro e 7 de setembro passaram, desde 1826, a ter peso igual), Dom Pedro I recebia o beija –mão no Paço do Rio de Janeiro, promovia-se o Te Deum na capela imperial, e uma grande parada das milícias e do exército na praça. Quando a noite caía, velas e lâmpadas de azeite eram acesas pelos moradores nas janelas das suas casas, enquanto havia um espetáculo de gala nos teatros, do qual participava o imperador e a imperatriz. Com o passar do tempo, dom Pedro I mostrou-se autoritário e a sua imagem foi desgastando-se politicamente. Em 1830 Moderados e Conservadores, em uma campanha contra o imperador, organizam uma comemoração ao 7 de setembro na Praça da Constituição, no Rio de Janeiro, não comemorando, a partir de então, o dia 12 de outubro. A impopularidade levou o imperador a abdicar, em 1831, a favor do filho, dom Pedro II, então com 5 anos, e partir para Portugal.

Comemorações da Independência no Segundo Império

Com a abdicação de dom Pedro I e o costume da concentração das comemorações da Independência na sua pessoa, as datas passaram a ficar esquecidas pelos brasileiros nos anos que se seguiram. Quando chegou a notícia da morte do imperador em Portugal, em 1834, a sua imagem voltou a ser revitalizada, e novamente foi aclamado como o verdadeiro herói e proclamador da independência. Em 1854, nas comemorações dos vinte anos da morte de Dom Pedro I, começou uma ampla campanha para que se fosse feita uma grande estátua em sua homenagem. Na seqüência desse movimento, em 1855, foi fundada a Sociedade Ipiranga, que tinha como finalidade restaurar as comemorações da independência. A sociedade incitava à população a voltar a iluminar as suas janelas, trazia bandas para tocar no meio da Praça da Constituição, onde deveria ser posta a estátua do imperador. A estátua eqüestre de dom Pedro I, fundida na França, só foi ali inaugurada no dia 30 de março de 1862, e representava as comemorações da Independência e da Constituição, outorgada pelo imperador em 1824. Com o início da Guerra do Paraguai, em 1864, o entusiasmo das comemorações esvaiu-se, sendo aos poucos, esquecido. A partir de 1870, já não se comemora o 12 de outubro, e o 7 de setembro tem parcas comemorações pela população.
À medida que o Império entrou em decadência, também a imagem de dom Pedro I voltou a ser atingida, e, novamente, minimizada, desta vez pelos republicanos, ansiosos por acabar com a monarquia. Na década de 1880, o monumento eqüestre do fundador do império na Praça da Constituição, passou a ser o símbolo de contestação contra o governo de dom Pedro II. A história da independência voltou a ser contestada, a legitimidade de dom Pedro I como dela proclamador passou a ser questionada. Em 1889 é proclamada a República, findando mais de sessenta anos de Império.

A Criação da Praça Tiradentes

Com a chegada da República, outra história passou a ser contada. Surgiu uma nova necessidade da criação de uma identidade nacional descolada dos heróis do extinto Império. Os republicanos vão buscar na imagem de Tiradentes, a criação de um novo herói nacional. Dom Pedro I passou a ser visto como um mero representante diante do desejo dos brasileiros de emancipação, e exaltá-lo seria enxergar a independência como uma doação da família bragantina.
Na nova história contada pela jovem República, Portugal e Brasil eram inconciliáveis, representavam o opressor e o oprimido. Dar as glórias da independência a um português era humilhante para uma nova identidade que se queria apresentar ao brasileiro. A história de Tiradentes, traído como fora o próprio Cristo, oprimido e morto pelo desejo de liberdade, o seu suplício pungente, caiu perfeito para o herói que o Brasil republicano precisava. Em 1890, sob os aplausos de exaltados manifestantes, a Praça da Constituição mudou de nome, passou-se a chamar Praça Tiradentes. Para justificar a homenagem, os republicanos aclamaram a praça como o local do suplício de Tiradentes. O republicano Miguel Lemos criou a falsa história que o inconfidente mineiro, que fora enforcado no século XVIII no subúrbio de São Domingos, altura do atual cruzamento da Rua Senhor dos Passos com a Avenida Passos, tinha sido morto na Praça Tiradentes. O que os republicanos não tiveram coragem de fazer foi retirar a estátua eqüestre de dom Pedro I do meio da praça. Por isto, até os dias atuais, quem visita a Praça Tiradentes no centro da cidade do Rio de Janeiro, pode contemplar a estátua do homem do grito do Ipiranga, e não a do mártir dos inconfidentes.
Com a consolidação da República e o passar dos anos, dom Pedro I voltou a ser visto como o herói da Independência, principalmente depois das comemorações do seu centenário, em 1922. Nas comemorações dos 150 anos do grito do Ipiranga, em 1972, Portugal doou os restos mortais do imperador, que foi transladado do Panteão Nacional de Lisboa para o Museu do Ipiranga, em São Paulo. Reabilitado como herói, dom Pedro I finalmente repousa no local onde o 7 de setembro foi inventado.
 
 

 

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