Domingo, 21 de Dezembro de 2008

1968, O ANO DE TODOS OS GRITOS

 

 

O ano de 1968 provavelmente foi um dos mais convulsivos do século XX. É tido como o ano que modificou os costumes e abriu as portas para os comportamentos sociais que hoje fazem parte da sociedade ocidental. Foi o ano de todos os sonhos e de todos os pesadelos. Ano dos festivais e manifestações estudantis e políticas no Brasil, que se encerraria com o fechamento do Congresso e a promulgação do Ato Institucional número 5 – o AI-5.
Nas contestações que abalaram o mundo, 1968 trazia uma expectativa de liberação sexual, política e filosófica. O mundo mudava, a família perdia valores antigos e ansiava por outros. A repressão e as limitações impostas pela Guerra Fria, fazia daquela geração genial prisioneira do sistema controlado por duas ideologias, deixando-a estagnada diante de um mundo tecnológico e social que não parava de evoluir. A mulher conquistava um novo espaço diante da família e da sociedade, rompia com a filosofia da concepção e mostrava que tinha uma sexualidade a ser explorada, da qual tinha o direito de sentir prazer. Esta geração de mulheres queimou soutiens em praça pública, aderiu à pílula anticoncepcional, enfrentaram o papa Paulo VI e à igreja, que naquele ano publicou a encíclica Humanae Vitae, condenando o uso do anticoncepcional.
Mulheres, homens, políticos, estudantes, artistas, o mundo saiu às ruas no ano de 1968, protestou, enfrentou tanques de guerra, polícia de choque e a violência dos costumes, ousaram confrontar o sistema. Reprimidos ou bem sucedidos, o mundo jamais foi o mesmo depois do infindável 1968. 40 anos passados, o mundo ainda questiona os resquícios de um dos mais longos anos da história.

O Mundo em 1968

1968 começou com a ascensão de Alexandre Dubcek , como secretário-geral do Partido Comunista da Tchecoslováquia, país do leste europeu, que fazia parte do chamado bloco da Cortina de Ferro, liderada pela política da ex-União Soviética. A tentativa reformista de membros do partido, de desenvolver um "socialismo com face humana”, abrindo as portas do país para o mundo, dando liberdade à população de ir e de vir, sem abandonar o regime, incomodaria os governantes dos países vizinhos. Esta humanização do regime, aconteceria de janeiro a agosto, entraria para a história como a “Primavera de Praga”. Terminou com a invasão da Tchecoslováquia por 600 mil soldados e 7 mil tanques de guerra, enviados por Moscou e por todos os países do bloco do Pacto de Varsóvia, todos em defesa da ditadura do Kremlin, construída dentro do marxismo-leninismo. Outra primavera como esta só aconteceria em 1989, quando o muro de Berlim foi derrubado, e as raízes do socialismo de face humana recuperados.
Nos Estados Unidos, a televisão começou a mostrar a face cruel da Guerra do Vietnã. Os pais começaram a questionar o porquê de ter que enviar os seus filhos para os campos de batalha. Os jovens passaram a contestar a guerra e as suas conseqüências. No Vietnã, palco dos conflitos sangrentos, os Vietcongs atacaram a embaixada americana em Saigon, ato que desencadearia a primeira batalha nesta cidade, onde as tropas americanas matariam milhares de civis.
No meio aos violentos protestos contra a guerra, os americanos perdem dois dos seus grandes líderes, Martin Luther King, assassinado em 4 de abril, na cidade de Menphis e, Robert Kennedy, candidato à presidência da república, morto a tiros no Hotel Ambassador, em Los Angeles, na Califórnia. Aquele ano jamais sairia do imaginário americano, que terminaria com a promessa do governo de enviar mais 24.000 soldados para a Guerra do Vietnã e com a eleição de Richard Nixon como presidente.
É neste conturbado ano que floresce na França, o Maio de 1968. Estudantes em busca de ideais políticos e da quebra dos costumes sociais com os seus tabus comportamentais, fazem barricadas pelas ruas de Paris, desencadeando uma série de greves que atingiria também os trabalhadores da França do general De Gaulle. O país inteiro apóia os estudantes na Noite das Barricadas. Violentos confrontos entre estudantes e a polícia fazem com que a Sorbonne seja fechada pelas autoridades. “É proibido proibir”. “A imaginação no poder”. “Seja realista, peça o impossível”. Palavras de ordem que caracterizaram o movimento, que assim como começou, esvaiu-se, mas deixou para o mundo um questionamento da política tradicional, dos costumes e do autoritarismo. A utopia do Maio de 1968 introduziria na cultura ocidental alguns valores como pacifismo, feminismo, ecologia, além de popularizar a contracultura, a música de protesto, o som pop e as drogas.
Em Portugal, o ditador Antonio de Oliveira Salazar, foi afastado do governo, onde esteve no poder desde 1928, após ser vitimado por um hematoma craniano, que lhe causou danos cerebrais graves, depois de uma queda em 7 de Setembro. Marcelo Caetano torna-se primeiro ministro, será o último presidente do conselho do Estado Novo português, responsável por uma ditadura de mais de quatro décadas.
Ainda nos tumultos do ano, pela primeira vez um país da América Latina recebe os Jogos Olímpicos, realizados na Cidade do México. Poucos dias antes de receber as olimpíadas, o exército mexicano mata 48 pessoas durante uma manifestação estudantil, que ficou conhecido como o Massacre de Tlateloco.

O Ano Que Terminaria Mais Cedo no Brasil

No Brasil, 1968 é o ano dos festivais da canção, do manifesto da Tropicália de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Torquato Neto e Gal Costa. Ano da explosão das cores e da estética nacional. No meio das convulsões políticas e culturais, a bela brasileira Martha Vasconcellos é eleita Miss Universo.
Em março, o estudante secundarista Edson Luís de Lima Souto, então com 16 anos, é assassinado pela polícia no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro. O estudante almoçava no restaurante quando foi mortalmente baleado por uma polícia repressiva. Edson não era líder estudantil e não participava de confrontos armados, conforme propagara a polícia, a justificar o crime diante da nação indignada. A resposta dos brasileiros viria em junho, que incentivados pelo Maio de 1968, realizaram na Avenida Rio Branco, Rio de Janeiro, a Passeata dos Cem Mil. O ato é o maior que se realizou contra a ditadura militar, teve a participação de intelectuais, artistas e ativistas políticos. Era um protesto contra a repressão aos estudantes. Pedia pelo fim da ditadura e pela volta da democracia ao país. A passeata foi dedicada à memória do estudante Edson Luís.
Em São Paulo, a rua Maria Antônia, onde se situavam a Universidade Mackenzie e a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, foi palco do conflito que ficou conhecido como a "Batalha da Maria Antônia”, ocorrido em outubro. No Mackenzie, os estudantes eram tidos como conservadores de direita, e abrigavam o CCC (Comando de Caça aos Comunistas), enquanto que na Faculdade de Filosofia da USP, a esquerda era absoluta. Do violento confronto entre os estudantes, resultou a morte de um deles, vítima de bala perdida.
O outubro de 1968 foi negro para o movimento estudantil, que sofreria mais um golpe, o XXX Congresso da UNE, realizado clandestinamente num sitio, em Ibiúna, São Paulo, terminou com a prisão de cerca de mil estudantes que dele participavam. Sem oferecer resistência, todas os líderes do movimento estudantil foram presos: José Dirceu, presidente da UEE, Luís Travassos, presidente da UNE, Vladimir Palmeira, presidente da União Metropolitana de Estudantes, e Antonio Guilherme Ribeiro Ribas, presidente da União Paulista de Estudantes Secundários, entre outros. Um golpe violento na última resistência estudantil à ditadura militar.
O ano de 1968 encerraria mais cedo para as tênues esperanças de uma volta à democracia ao Brasil, no dia 13 de dezembro, o presidente general Artur da Costa e Silva decretou o AI-5 – Ato Institucional número 5, iniciando o período mais obscuro, fechado e violento da ditadura militar no país. O ato foi motivado pela recusa do Congresso Nacional em condenar o deputado Márcio Moreira Alves, pelo discurso que fizera em setembro, afrontando a ditadura.
Conturbado, violento, coberto de esperanças dúbias, de ideologias acirradas, ironicamente o ano de 1968 foi decretado pelas Nações Unidas como o Ano Internacional dos Direitos Humanos.

 

 
 
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Sábado, 20 de Dezembro de 2008

OS MESES DO ANO - MAIO

 

 
Mês marcado pela primavera do hemisfério norte, ocorrendo o período do outono no hemisfério sul. Maio tem 31 dias e é o quinto mês do calendário gregoriano. Tem o seu início com sinal na constelação de Touro e termina com o sinal na constelação de Gêmeos.
Maio é considerado o mês de Maria pela igreja católica, e mês que se presta homenagens às mães. Maio mantém a tradição de ser um mês propício para o casamento, daí ser chamado em alguns países, de mês das noivas.
Segundo algumas tradições, o mês de Maio deve o seu nome à ninfa grega Maia, mãe de Hermes (Mercúrio), deus do comércio e dos viajantes. Ao ser amada pelo senhor dos deuses, Zeus (Júpiter), Maia teria concebido Hermes. Dentre as amantes do senhor do Olimpo, somente Maia e o seu filho não foram perseguidos pela deusa Hera (Juno), a ciumenta e vingativa esposa de Zeus, que se encheu de simpatia por ambos, protegendo-os. Maia tinha o dia 15 de Maio como data comemorativa. Era considerada uma deusa de fertilidade.
Maia era uma das sete filhas de Atlas e de Plêione, por este motivo, ela e as suas irmãs, são denominadas de Plêiades. Conta a lenda que as Plêiades eram perseguidas pelo caçador Órion. Para livrá-las dessa perseguição, Zeus as transformou em uma constelação. São as Plêiades da constelação de Touro. Das estrelas das Plêiades, Maia, quando vista no céu, é a mais brilhante.
Na mitologia romana, Maia era identificada com Bona Dea (literalmente Boa Deusa), filha do deus Fauno, por este motivo também era conhecida como Fauna.

Maios na História do Mundo

01 de Maio
1886 – Eclode uma grande greve de trabalhadores em Chicago (foto), reivindicando direitos trabalhistas. A greve resulta na morte de cinco trabalhadores.
1889 – Congresso da Internacional Socialista em Paris, cria o Dia do Trabalho, em homenagem aos grevistas de Chicago.
1994 – Morre tragicamente, em um acidente no Grande Prêmio de Fórmula 1 de Imola, o piloto Ayrton Senna.

02 de Maio
1927 – Fundada a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, responsável pela entrega do prêmio Oscar.
1953 – Coroado o rei Hussein, da Jordânia.
1982 – Início formal das hostilidades entre as forças britânicas e argentinas no Atlântico Sul, pela ocupação das Ilhas Malvinas.

03 de Maio
1523 – Cristóvão de Olid desembarca nas terras de Honduras, tomando posse do território em nome do rei da Espanha.
1911 – Criação da Guarda Nacional Republicana, em Portugal, tornando-se a Guarda Pretoriana do regime republicano português.
1945 – O governo português decreta três dias de luto oficial pela morte de Adolf Hitler, que se suicidara dias antes, em Berlim.

04 de Maio
1904 – A Companhia Francesa do Canal do Panamá entrega a suas propriedades a um representante do governo norte-americano.
1949 – Morrem, em um acidente aéreo, todos os jogadores da seleção italiana.
1979 – Margaret Thatcher é eleita primeira-ministra da Grã-Bretanha, pelo Partido Conservador, sendo a primeira mulher a ocupar o cargo.

05 de Maio
1494 – Numa segunda viagem à América, Cristóvão Colombo descobre a ilha de Santiago, atual Jamaica.
1821 – Morre exilado na ilha de Elba, Napoleão Bonaparte.
1983 – Identificado por cientistas do Instituto Pasteur de Paris, o vírus da Aids.

6 de Maio
1840 – Posto à venda, na Inglaterra, o primeiro selo de correios do mundo.
1968 – Decretado estado de sítio em Paris, devido aos tumultos da revolta estudantil na França.
1994 – Inaugurado o Eurotúnel, túnel subterrâneo do Canal da Mancha, que une a Grã-Bretanha à França.

07 de Maio
1910 – Passagem pela Terra do cometa Halley (foto).
1945 – A Alemanha assina a sua rendição, pondo fim à Segunda Guerra Mundial.
1995 – Na França, Jacques Chirac é eleito presidente da República.

08 de Maio
1350 – Assinado o Tratado de Bretgny, pondo fim ao primeiro período da Guerra dos Cem Anos, entre a Inglaterra e a França.
1919 – A Holanda implanta o direito ao voto feminino.
1996 – Aprovada, pela Assembléia Constituinte, a nova Constituição da África do Sul.

09 de Maio
1927 – Camberra, cidade australiana, é eleita como sede do governo da Austrália.
1940 – Adolf Hitler autoriza a eutanásia na Alemanha.
1978 – Encontrado, em Roma, o corpo do líder político italiano Aldo Moro, seqüestrado e assassinado pelas Brigadas Vermelhas.

10 de Maio
1508 – Michelangelo Buonarroti inicia a pintura dos afrescos da Capela Sistina, no Vaticano.
1877 – Proclamada a independência da Romênia.
1994 – Nelson Mandela assume a presidência da África do Sul, sendo o primeiro negro da história do país e assumir o cargo.

11 de Maio
1911 – Firmada a paz entre os revolucionários e o presidente Porfírio Diaz, no México.
1941 – Grande bombardeio aéreo sobre Londres, efetuado pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.
1985 – Incêndio no estádio de futebol de Bradford City, no norte da Inglaterra, deixa cinqüenta e dois mortos.

12 de Maio
1937 – Coroação de George VI, da Inglaterra, após a abdicação do irmão mais velho, Eduardo VIII.
1951 – Estados Unidos testam nas ilhas Marshall, no oceano Pacífico, a explosão de uma bomba de hidrogênio.
2001 – Assassinado Motasem Sabagh, líder do partido palestino Al Fatah.

13 de Maio
1917 – Três pequenos pastores do interior de Portugal afirmam ter visto a Virgem do Rosário da Cova de Eiria, dando origem à devoção à Nossa Senhora de Fátima.
1981 – O turco Ali Agca atira contra o papa João Paulo II, na Praça de São Pedro, no Vaticano.
1994 – Entra em vigor a autonomia palestina na faixa de Gaza e Jericó.

14 de Maio
1940 – Em Rotterdam, na Holanda, mais de novecentas pessoas são mortas durante um bombardeio de aviões alemães.
1948 – Criado, na Palestina, o Estado de Israel.
1955 – Liderado pela União Soviética, é criado o Pacto de Varsóvia, entre oito países socialistas do leste europeu (na foto: cartaz comemorativo dos 35 anos do Pacto de Varsóvia).

15 de Maio
1891 – Publicação da Rerum Novarum, do papa Leão XIII, definindo a doutrina social da igreja católica.
1957 – A Grã-Bretanha realiza, na ilha de Páscoa, a sua primeira experiência com uma bomba H.
1974 – Após a Revolução dos Cravos, é escolhido, pela Junta de Salvação Nacional, o general Spínola, para presidente da República de Portugal.

16 de Maio
1974 – A Índia anuncia ao mundo que tem a bomba atômica.
1986 – Argélia e Marrocos rompem as relações diplomáticas.
1930 – Eleito o general Leônidas Trujillo para presidente da República Dominicana.

17 de Maio
1940 – Durante a Segunda Guerra Mundial, tropas alemãs entram em Bruxelas, na Bélgica.
1973 – Iniciado o processo Watergate no comitê do senado dos Estados Unidos, que provocaria a queda do presidente Nixon.
1997 – No Zaire, Laurent Kabila proclama-se chefe de Estado, rebatizando o país como República Democrática do Congo.

18 de Maio
1680 – Publicada uma compilação das Leis das Índias, contendo nove livros e mais de seis mil leis.
1804 – O general Bonaparte é proclamado imperador, pelo Senado francês, com o nome de Napoleão I.
1973 – O presidente chileno Salvador Allende, anuncia a expropriação de todas as empresas estrangeiras no país.

19 de Maio
1874 – Criada na França, uma lei que proíbe o trabalho de mulheres e de crianças em minas.
1935 – Morre Thomas Edward Lawrence, arqueólogo, militar, agente secreto e escritor britânico, conhecido como Lawrence da Arábia.
1989 – Tropas da África do Sul iniciam a sua retirada da Namíbia, implementando o plano previsto para a independência do território.

20 de Maio
325 – Iniciado, formalmente, o Concílio de Nicéia, pelo imperador romano Constantino, considerado o primeiro de três concílios fundadores da igreja católica.
1498 – Chegada de Vasco da Gama a Calicute, na Índia.
1940 – Inaugurado o maior campo de concentração nazista, o de Auschwitz, na Polônia.

21 de Maio
1968 – Dez milhões de franceses entram em greve, dando prosseguimento aos protestos do Maio de 1968 (foto).
1991 – Unificação do Iêmen do Norte e do Sul, na península Arábica.
1998 – Queda do presidente da Indonésia, o ditador general Suharto, que se manteve no poder por 32 anos.

22 de Maio
1671 –
o rei da França, Luís XIV, outorgada a Carta da fundação de Versalhes.
1939 – Alemanha e Itália assinam em Berlim, o chamado Pacto de Acero, que concretiza uma aliança militar entre os dois países.
1992 – Eslovênia, Croácia e Bósnia-Herzegovina são admitidas como membros da ONU.

23 de Maio
1915 – Abandonando a neutralidade, a Itália declara guerra à Áustria, entrando na Primeira Guerra Mundial ao lado da França e da Grã-Bretanha.
1971 – Terremoto na Turquia mata cerca de mil pessoas.
1989 – O Egito é readmitido na Liga Árabe.

24 de Maio
1844 – Emitida, por Samuel Morse, a primeira mensagem telegráfica, enviada do Capitólio, em Washington, a Baltimore.
1900 – A Grã-Bretanha anexa o Estado Livre de Orange, na África do Sul.
1993 – A Eritréia declara a sua independência da Etiópia, tornando-se mais um Estado independente da África.

25 de Maio
1883 – Instituído o seguro de saúde na Alemanha, por sugestão de Bismarck, sendo a primeira conquista social no gênero.
1887 – Um grande incêndio destrói o Teatro da Ópera Cômica de Paris, causando a morte de 80 pessoas.
1993 – Aprovado, pelo Conselho de Segurança da ONU, a criação de um Tribunal Internacional de Crimes de Guerra na antiga Iugoslávia.

26 de Maio
1963 – Fundada a Organização para a Unidade Africana (OUA).
1985 – Seis cidades do Irã são bombardeadas pelo Iraque.
1994 – Zacatecas, cidade mexicana, é declarada Patrimônio Cultural da Humanidade.

27 de Maio
1564 – Morre João Calvino, reformista protestante, fundador do calvinismo.
1941 – Navios de guerra da Grã-Bretanha afundam o encouraçado alemão Bismarck.
1980 – Restabelecida em Coimbra, Portugal, a tradicional festa da Queima das Fitas, que não se realizava desde 1969.

28 de Maio
1911 – Em Portugal, são realizadas as primeiras eleições legislativas do novo governo republicano.
1918 – Proclamada, pelo partido nacionalista Mussavet, a independência do Azerbaijão.
1933 – Confiscados os bens do Partido Comunista da Alemanha.

29 de Maio
1453 – Constantinopla é conquistada pelos turcos, passando a ser chamada de Istambul, pondo fim ao Império Bizantino, marcando a passagem da Idade Média para a Idade Moderna (foto: pintura do cerco de Constantinopla).
1996 – O líder do partido conservador Likud, Benjamin Netanyahu, é eleito primeiro ministro de Israel.
1999 – Após 15 anos de regimes militares, o civil Olusegun Obasanjo assume a presidência da Nigéria.

30 de Maio
1431 – Queimada viva, em Ruão, aos dezenove anos, Joana D’Arc, condenada por heresia.
1920 – Canonização de Joana D’Arc, queimada em Ruão neste dia, em 1431.
1942 – Aviões britânicos bombardeiam a cidade de Colônia, na Alemanha.

31 de Maio
1962 – Executado o ex-coronel das SS, Adolfo Eichman, em Tel Aviv, Israel, condenado por crimes contra os judeus na Segunda Guerra Mundial.
1966 – Em Saigon, monges budistas ateiam fogo contra os próprios corpos, em protesto contra o governo militar do Vietnã do Sul.
1995 – A Rússia formaliza o seu ingresso na Associação para a paz da OTAN.

Maios na História do Brasil

01 de Maio
1500 – Pero Vaz de Caminha termina sua carta ao rei d. Manuel, dando notícia da chegada da frota de Cabral ao que viria a ser o Brasil.
1500 – Frei Henrique de Coimbra celebra a primeira missa no Brasil.

02 de Maio
1826 – D. Pedro I (IV de Portugal) abdica o trono português em favor de sua filha, d. Maria da Glória.
1997 – Morre Paulo Freire, autor de um clássico sobre educação no Brasil, Pedagogia do Oprimido, de 1969.

03 de Maio
1660 – Nasce em Salvador, Bahia, Sebastião da Rocha Pita, autor da célebre História da América Portuguesa, de1730.
1823 – Instalada no Rio de Janeiro, por d. Pedro I, a Assembléia Constituinte, dissolvida por ele mesmo semanas depois.

04 de Maio
1617 – Carta régia de Felipe II de Portugal determina que o Maranhão faça parte do Brasil para fim de degredos, com o objetivo de povoar a região.
1937 – Morre no Rio de Janeiro, Noel Rosa.

05 de Maio
1928 – Inaugurada a Rodovia Rio-São Paulo, mais tarde Presidente Dutra, ligando as duas maiores cidades do país.
1994 – Morre o poeta Mário Quintana.

06 de Maio
1644 – Maurício de Nassau, em conflito com a direção da Companhia das Índias Ocidentais, entrega o governo das possessões holandesas no Brasil ao Supremo Conselho do Recife e retorna para a Europa.
1926 – Inaugurado, no Rio de Janeiro, o Palácio Tiradentes, sede da Câmara dos Deputados da República, atual Assembléia Legislativa.

07 de Maio
1880 – Morre em Vassouras, Rio de Janeiro, Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias.
1900 – Começa a funcionar a primeira linha de bondes elétricos de São Paulo, ligando o centro à Barra Funda.

08 de Maio
1850 – Nasce em Itu, São Paulo, o pintor Almeida Júnior, autor do quadro Descanso da Modelo, de 1882.
1970 – O governo militar, presidido pelo general Médici, divulga nota classificando notícias sobre tortura a presos políticos publicadas como parte de uma “campanha difamatória”.

09 de Maio
1624 – Armada holandesa comandada por Jacob Willekens inicia ataque a Salvador, Bahia. No dia seguinte os invasores tomam a cidade e prendem o governador Diogo de Mendonça Furtado.
1963 – Em feito inédito no país, a TV Tupi inicia em São Paulo, em caráter experimental, a transmissão em cores.

10 de Maio
1728 – Militares se rebelam em Salvador, Bahia, no movimento que ficou conhecido como Levante do Terço Velho. 7 deles foram condenados à morte.
1789 – Preso na Rua dos Latoeiros, atual Gonçalves Dias, Rio de Janeiro, o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, acusado de conspirar contra a Coroa portuguesa.

11 de Maio
1852 – Inaugurada a primeira linha de telégrafo no Brasil, ligando o Paço de São Cristóvão ao Quartel General, no Rio de Janeiro.
1881 – Fundada no Rio de Janeiro, a Igreja Positivista do Brasil.

12 de Maio
1648 –
Salvador Correia de Sá e Benevides parte do Rio de Janeiro com o objetivo de reconquistar, para o rei de Portugal, São Tomé e Angola, até então sob domínio holandês.
1888 – Aprovada no Senado, por 83 votos a favor e 9 contra, a lei que extinguiu a escravidão no Brasil.

13 de Maio
1767 – Nasce em Lisboa, o príncipe d. João, futuro d. João VI.
1888 – Isabel, princesa imperial regente, assina a Lei Áurea, que na véspera tinha sido aprovada pelos parlamentares.

14 de Maio
1835 – Fuzilados em Salvador, Bahia, 5 líderes da Revolta dos Malês, o maior levante de escravos da história do Brasil.
1837 – Fundado no Rio de Janeiro o atual Real Gabinete Português de Leitura.

15 de Maio
1828 – Inaugurado o Curso Jurídico de Olinda, origem da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Pernambuco.
1906 – Repressão à greve dos funcionários da Estrada de Ferro Paulista resulta na morte de vários trabalhadores.

16 de Maio
1818 – Decreto de d. João VI aprova o estabelecimento de uma colônia de imigrantes suíços, dando origem à atual Nova Friburgo, no Rio de Janeiro.
1869 – Primeira corrida do atua Jóquei Clube Brasileiro, no Rio de Janeiro.

17 de Maio
1934 –
Lançado o jornal A Ofensiva, do integralista Plínio Salgado, com orientação editorial inspirada no fascismo italiano.
1985 – Morre Vitor Nunes Leal, autor de tese clássica sobre o sistema político brasileiro, Coronelismo, Enxada e Voto, de 1948.

18 de Maio
1850 – Inaugurado em Recife, o Teatro Santa Isabel.
1961 – O presidente Jânio Quadros baixa decreto proibindo as rinhas de galo no país.

19 de Maio
1971 – Empresa norte-americana Westinghouse é escolhida pelo governo para construir a primeira usina nuclear brasileira.
1977 – Em plena ditadura militar, estudantes promovem o Dia Nacional de Luta pela Anistia.

20 de Maio
1880 – Morre Ana Néri, enfermeira voluntária na Guerra do Paraguai, que recebeu o título de Mãe dos Brasileiros.
1900 – Começa a Circular no Rio de Janeiro a Revista da Semana, primeira na América do Sul a utilizar fotografias.

21 de Maio
1748 – Populares e representantes da elite de Campos, Rio de Janeiro, contrários à posse do novo governador, iniciam violento levante, chamado Revolta de Benta Pereira, resultando em várias mortes.
1997 – Aprovada no Senado a emenda constitucional que permite a reeleição para presidente, governador e prefeito.

22 de Maio
1644 – Maurício de Nassau retorna à Europa após deixar o governo das possessões holandesas no Brasil.
1965 – A pedido dos Estados Unidos o governo brasileiro envia 280 soldados à República Dominicana, em apoio ao golpe militar que depôs o presidente Juan Bosch, de tendência socialista.

23 de Maio
1535 - Num domingo, dia consagrado ao Espírito Santo, Vasco Fernandes Coutinho chaga à sua donataria. Após combate com indígenas da região, inicia a colonização portuguesa do Espírito Santo.
1536 – Bula do Papa Paulo III estabelece a Inquisição em Portugal e seus domínios.

24 de Maio
1827 – A Argentina (na época Províncias Unidas do Rio da Prata), devolve ao Brasil, com quem estava em guerra desde 1825, a Província Cisplatina, atual Uruguai.
1870 – D. Pedro II alforria setenta filhos de escravas da Fazenda Imperial.

25 de Maio
1871 – D. Pedro II parte para a Europa, na sua primeira viagem ao exterior.
1992 – Em carta à nação, o presidente Collor nega as declarações dadas por seu irmão à revista Veja, denunciando o esquema PC Farias.

26 de Maio
1824 – O presidente norte-americano James Monroe recebe o representante dos negócios estrangeiros brasileiro, reconhecendo a Independência do Brasil.
1992 – Instaurada no Congresso Nacional, CPI que resultaria no processo de impeachment do presidente Collor na sua renúncia.

27 de Maio
1982 – Desativado o Departamento de Ordem Política e Social do Rio Grande do Sul. Antigo símbolo da repressão, é o primeiro DOPS do país a ser extinto.
1989 – Militares são proibidos pelo exército de depor em inquérito civil sobre morte de operários em Volta Redonda, Rio de Janeiro.

28 de Maio
1537 – Bula Universis Christi Fidelibus do papa Paulo III, reconhece que os índios têm alma e são verdadeiros homens.
1902 – Fundado em São Paulo, o Partido Socialista Brasileiro.

29 de Maio
1858 – Morre em Weilheim, Alemanha, o artista viajante Johann Moritz Rugendas, que registrou a vida cotidiana do Brasil no primeiro reinado.
1936 – Criado pelo governo Vargas, o Instituto Nacional de Estatística, atual IBGE.

30 de Maio
1843 – Celebrado em Nápoles, Itália, o casamento por procuração, de d. Pedro II com a princesa d. Teresa Cristina.

31 de Maio
1887 – Fundado em Belém, Pará, o Clube Republicano.
1978 – Funcionários de 18 empresas do ABC paulista, à frente o metalúrgico Lula, recebem aumento de salário como resultado de uma greve.

Nascidos em Maio

01 de Maio
Buza Ferraz, ator brasileiro
Glenn Ford (foto), ator norte-americano
John Woo, cineasta chinês
José de Alencar, escritor brasileiro
Otto Lara Resende, jornalista e escritor brasileiro
Patrícia Travassos, atriz e roteirista brasileira

02 de Maio
Ataulfo Alves, compositor brasileiro
David Beckham, jogador de futebol britânico
Friedrich Novalis, escritor alemão
Mayara Magri, atriz brasileira

03 de Maio
Agnaldo Rayol, cantor e ator brasileiro
Bing Crosby, ator e cantor norte-americano
Golda Meir, estadista israelense nascida na Rússia
James Brown, cantor e compositor norte-americano
Nicolau Maquiavel, filósofo italiano
Silvia Salgado, atriz brasileira

04 de Maio
Audrey Hepburn (foto), atriz norte-americana
Herbert Vianna, cantor e compositor brasileiro
Lulu Santos, cantor e compositor brasileiro
Ronald Golias, ator e humorista brasileiro

05 de Maio
Alice Faye, atriz norte-americana
Beth Carvalho, cantora brasileira
Dalva de Oliveira, cantora brasileira
Karl Marx, filósofo alemão
Paulo Gorgulho, ator brasileiro
Tyrone Power (foto), ator norte-americano

06 de Maio
George Clooney, ator norte-americano
Orson Welles, ator, diretor e escritor norte-americano
Robespierre, político francês
Rodolfo Valentino, ator italiano
Sigmund Freud, psicanalista tcheco
Stewart Granger, ator britânico
Tony Blair, político britânico

07 de Maio
Anne Baxter, atriz norte-americana
Eva Perón, política argentina
Gary Cooper, ator norte-americano
Johannes Brahms, músico alemão
Pyotr Tchaikovsky, músico russo

08 de Maio
Adelaide Chiozzo, atriz brasileira
Betty Faria, atriz brasileira
Enrique Iglesias, cantor espanhol
Etty Fraser, atriz brasileira
Lex Barker, ator norte-americano
Maria Padilha, atriz brasileira

09 de Maio
Albert Finney, ator britânico
Candice Bergen, atriz norte-americana
Dedé Santana, humorista brasileiro
Glenda Jackson, atriz britânica

10 de Maio
David O. Selznick, produtor de cinema americano
Ettore Scola, cineasta italiano
Fred Astaire, ator norte-americano
João Villaret, ator, diretor e declamador português
Luiza Tomé, atriz brasileira

11 de Maio
Bete Mendes, atriz brasileira
Bidu Sayão, cantora lírica brasileira
Camilo José Cela, escritor espanhol
Carlos Lyra, compositor e músico brasileiro
Fernanda Lapa, atriz e encenadora portuguesa
Rubem Fonseca, escritor brasileiro
Salvador Dali, pintor espanhol
Sandra Bréa, atriz brasileira

12 de Maio
Emilio Estevez, ator norte-americano
Gabriel Byrne, ator irlandês
Jamelão, cantor brasileiro
Katharine Hepburn (foto), atriz norte-americana
Ruth de Souza, atriz brasileira
Tizuka Yamasaki, diretora de cinema e televisão brasileira

13 de Maio
Ângela Maria, cantora brasileira
Harvey Keitel, ator norte-americano
João VI de Portugal, rei português
Lima Barreto, escritor brasileiro
Ritchie Valens, cantor e músico norte-americano
Otaviano Costa, ator e apresentador brasileiro
Stevie Wonder, cantor e compositor norte-americano
Waldick Soriano, cantor e compositor brasileiro

14 de Maio
Cate Blanchett, atriz australiana
George Lucas, diretor de cinema norte-americano
Thalma de Freitas, atriz e cantora brasileira
Tim Roth, ator britânico

15 de Maio
Humberto Delgado, político português
James Mason, ator britânico
Joseph Cotten, ator norte-americano
Paulo de Carvalho, acntor e compositor português
Raí, jogador de futebol brasileiro

16 de Maio
Debra Winger, atriz norte-americana
Henry Fonda, ator norte-americano
Laura Pausini, cantora italiana
Pierce Brosnan, ator irlandês
Thierry Figueira, ator brasileiro

17 de Maio
Ayatollah Khomeini, líder político iraniano
Bill Paxton, ator norte-americano
Dennis Hopper, ator norte-americano
Enya, cantora irlandesa
Jean Gabin, ator francês
John Herbert, ator brasileiro
Maureen O'Sullivan, atriz irlandesa

18 de Maio
Anabela Teixeira, atriz portuguesa
Felipe Folgosi, ator brasileiro
Frank Capra, cineasta italiano
João Paulo II, papa polonês

19 de Maio
Cacá Diegues, cineasta brasileiro
Daniel Boaventura, ator e cantor brasileiro
Grace Jones, modelo, cantora e atriz jamaicana
Johnny Alf, Cantor e cmpositor brasileiro
Malcolm X, líder negro norte-americano
Mário de Sá-Carneiro, poeta e contista português

20 de Maio
Cher, atriz e cantora norte-americana
Honoré de Balzac, escritor francês
James Stewart (foto), ator norte-americano
Joe Cocker, cantor britânico
Lucélia Santos, atriz brasileira

21 de Maio
Albrecht Dürer, pintor alemão
António Vitorino de Almeida, maestro português
Gracindo Junior, ator brasileiro
Paloma Duarte, atriz brasileira
Raymond Burr, ator norte-americano

22 de Maio
Arthur Conan Doyle, escritor escocês
Laurence Olivier (foto), ator britânico
Naomi Campbell, modelo e atriz britânica
Paul Winfield, ator norte-americano
Richard Wagner, autor e músico alemão

23 de Maio
Douglas Fairbanks, ator e diretor norte-americano
Joan Collins, atriz britânica
Othon Bastos, ator brasileiro
Silvio Caldas, cantor e compositor brasileiro

24 de Maio
Alfred Molina, ator britânico
Bob Dylan, cantor norte-americano
Carvalhinho, ator e humorista brasileiro
Helena Ranaldi, atriz brasileira
José de Abreu, ator brasileiro
Kristin Scott Thomas, atriz britânica
Luíza Brunet, atriz e modelo brasileira
Vitória, rainha britânica
Vivianne Pasmanter, atriz brasileira

25 de Maio
Anne Heche. atriz norte-americana
Chris Duran, cantor e modelo francês
Curado Ribeiro, ator português
Maria Fernanda Cândido (foto), atriz brasileira

26 de Maio
Al Jolson, ator e cantor lituano
John Wayne, ator norte-americano
Maria do Céu Guerra, atriz portuguesa
Peter Cushing, ator britânico
Robert Morley, ator britânico
Sivuca, músico e compositor brasileiro
Tony Tornado, ator e cantor brasileiro

27 de Maio
Christopher Lee, ator britânico
Consuelo Leandro, atriz e humorista brasileira
Isadora Duncan, bailarina norte-americana
Joseph Fiennes, ator britânico
Louis Gossett Jr, ator norte-americano
Vincent Price, ator norte-americano

28 de Maio
Cecil Thiré, ator e diretor brasileiro
Diogo Infante, ator e diretor português
Gladys Knight, cantora norte-americana
Ian Fleming, escritor britânico
Lia Gama, atriz portuguesa

29 de Maio
Annette Bening, atriz norte-americana
Bob Hope, ator britânico
Danton Mello, ator brasileiro
Débora Bloch, atriz brasileira
Helmut Berger, ator austríaco
John Kennedy, presidente americano
Juliana Knust, atriz brasileira

30 de Maio
Benny Goodman, músico norte-americano
Fábio Massimo, ator brasileiro
Glória de Matos, atriz portuguesa
Howard Hawk, diretor e produtor de cinema norte-americano

31 de Maio
Brooke Shields, atriz e modelo norte-americana
Clint Eastwood, ator e diretor norte-americano
Colin Farrell (foto), ator irlandês
Denholm Elliott, ator britânico
Don Ameche, ator norte-americano
Lea Thompson, atriz norte-americana
Manuel I de Portugal, rei português
Marco Nanini, ator brasileiro
Marília Gabriela, jornalista, apresentadora e atriz brasileira
Rainier II de Mônaco, principe monegasco
Tom Berenger, ator norte-americano
Walt Whitman, escritor norte-americano
Zilka Salaberry, atriz brasileira

Datas Comemorativas

01 de Maio – Dia Mundial do Trabalho
02 de Maio – Dia Nacional do Ex-Combatente
02 de Maio – Dia do Taquígrafo
03 de Maio – Dia do Sertanejo
05 de Maio – Dia da Comunidade
05 de Maio – Dia do Expedicionário
05 de Maio – Dia do Artista Pintor
06 de Maio – Dia do Cartógrafo
07 de Maio – Dia do Silêncio
07 de Maio – Dia do Oftalmologista
08 de Maio – Dia da Vitória
08 de Maio – Dia do Profissional de Marketing
08 de Maio – Dia do Artista Plástico
08 de Maio – Dia Internacional da Cruz Vermelha
09 de Maio – Dia da Europa
10 de Maio – Dia da Cavalaria
10 de Maio – Dia do Campo
11 de Maio – Dia da Integração do Telégrafo no Brasil
12 de Maio – Dia Mundial do Enfermeiro
13 de Maio – Dia da Abolição da Escravatura no Brasil
13 de Maio – Dia da Fraternidade Brasileira
13 de Maio – Dia do Automóvel
14 de Maio – Dia Continental do Seguro
15 de Maio – Dia Internacional das Famílias
15 de Maio – Dia do Assistente Social
15 de Maio – Dia do Gerente Bancário
16 de Maio – Dia do Gari
17 de Maio – Dia Mundial da Internet
17 de Maio – Dia da Constituição
18 de Maio – Dia Internacional dos Museus
18 de Maio – Dia dos Vidreiros
19 de Maio – Dia dos Acadêmicos de Direito
20 de Maio – Dia do Comissário de Menores
21 de Maio – Dia da Língua Nacional
22 de Maio – Dia do Apicultor
23 de Maio – Dia da Juventude Constitucionalista
24 de Maio – Dia da Infantaria
24 de Maio – Dia do Datilógrafo
24 de Maio – Dia do Telegrafista
24 de Maio – Dia do Detento
24 de Maio – Dia do Vestibulando
25 de Maio – Dia da Indústria
25 de Maio – Dia Massagista
25 de Maio – Dia do Trabalhador Rural
27 de Maio – Dia do Profissional Liberal
29 de Maio – Dia do Estatístico
29 de Maio – Dia do Geógrafo
30 de Maio – Dia do Geólogo
30 de Maio – Dia das Bandeiras
31 de Maio – Dia do Comissário de Bordo
31 de Maio – Dia Mundial das Comunicações Sociais
2º Domingo de Maio – Dia das Mães
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Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2008

O ENCANTO DE GAL COSTA NA VIRADA CULTURAL

 

 

Em 2005, São Paulo ganhou um grande presente, a Virada Cultural, que consiste em 24 horas seguidas de eventos culturais (shows de música, pirotécnicos, teatro, dança e muitas outras atrações), que acontecem por toda a cidade, transformando-a em uma grande atração cultural. Sua primeira realização foi de 19 a 20 de novembro daquele ano. O evento foi tão bem sucedido, que passou a ser tradição na cidade de São Paulo. Inspirada nas noites brancas européias, a Virada Cultural assumiu características tipicamente paulistanas e se tornou uma das maiores movimentações culturais do mundo. A Virada Cultural é uma iniciativa da Prefeitura de São Paulo, realizada pela Secretaria Municipal de Cultura, com o apoio da SPTuris, Sesc e Secretaria de Estado da Cultura. Tornou-se uma confraternização pacífica do paulistano, com exceção dos incidentes acontecidos na Praça da Sé, em 2007, que resultou em brigas e depredações de algumas lojas. Este ano, a Virada Cultural, na sua quarta edição, aconteceu de 26 a 27 de abril. A sua maior atração foi o show “Voz e Violão”, da cantora Gal Costa, acompanhada pelo violão de Luiz Meira. Um show intimista, em palco montado na Praça Júlio de Mesquita, na esquina com a Avenida São João, que comoveu os paulistanos. É da sensação causada pelo show, pela embriaguez da voz de sereia de Gal Costa, que faço o relato abaixo.

Gal Costa na Avenida São João, por Jeocaz Lee-Meddi

Quando cheguei à Avenida São João, vi um ambiente morno depois de um show da excelente cantora caboverdiana Cesária Évora. Temi pela segurança, pois o centro de São Paulo foi vítima do vandalismo de baderneiros no último show da Virada Cultural, em 2007. Temi por Gal Costa. Já a tinha visto em um show do gênero, no Ibirapuera, em um domingo de novembro de 2005, mas nunca na convulsão do centrão de São Paulo à noite.
Desde agosto do ano passado, quando deixei São Paulo para em Goiânia, com mais tranqüilidade, escrever o meu novo livro, que não via a cidade e trocávamos cumplicidades. Lembrei-me do ano de 1998, estava na cidade do Porto, em Portugal, quando Gal Costa iria com o seu show “Acústico”, fechar a Expo’98, grande evento cultural, o último do século XX na Europa. Não poderia deixar de ver Gal Costa. Para meu desespero, não consegui viajar em nenhum trem rápido do Porto a Lisboa, pois, devido ao encerramento da Expor, estavam lotados. Tive que me contentar em ir num trem que parava de aldeia em aldeia, fazendo uma viagem de quatro horas durar quase nove. Era outubro, de um outono frio do hemisfério norte. Cheguei à Expor, estava insuportável, abarrotada de gente. Debaixo de chuva assisti ao show de Gal Costa. Linda! Pensei comigo, é última vez que faço tanto sacrifício para ver um show de Gal Costa. Mero engano, neste fim de semana, vi-me a fazer exatos 900 quilômetros, de Goiânia a São Paulo, para mais uma vez, ver Gal Costa. Já tinha saudades de vê-la no palco. Saudades de uma vida, eternas, pois acompanho os seus shows desde os meus 16 anos. Aqui, na Europa, em qualquer lugar.
Cansado da viagem, encontrei-me com alguns amigos jornalistas e com amigos aqui da comunidade. Ansioso, não via a hora de começar o show. Pensei, que loucura, andar tanto para ver um show de voz e violão que até já vi. 21 horas da noite paulistana e ainda estava tudo calmo. Gal Costa chegou ao palco. Chegou toda de branco, jovial, alegre, como uma menina de 62 anos, a mostrar para nós o seu novo corte de cabelo. Parecia uma criança, como se a perguntar para o seu público: “Gostaram?” Se gostei. Via nela um brilho nos olhos que me acostumei a ver desde o primeiro show “Gal Tropical”. Pensei, esta é a minha Gal, está de volta. Mas me contive, era apenas o começo, ela apenas dizia feliz: “Eu Vim da Bahia” (Gilberto Gil). E que presente a Bahia dava para São Paulo!
Gal Costa estava segura, à vontade com o público paulistano, conforme comentamos, eu e os meus amigos. Parecia feliz de estar homenageando Sampa. E o público correspondia ao carinho da cantora. Quando olhei para o lado não acreditei, a praça Júlio de Mesquita estava repleta, a Avenida São João, coração pulsante do centro velho da cidade, estava radiante, brilhava ao som de Gal Costa.
Gal Costa deslumbrava, conduzia a platéia, fazia vibrar os fãs e uma juventude que nem sabia que gostava dela, mas que soube cantar várias das suas músicas, já que sempre estiveram impregnadas na história da MPB e na mente do brasileiro. Vê-la sensual cantar “Folhetim” (Chico Buarque) e, travestis e michês a cantar, dançar ao som da música, na Avenida São João, criava uma imagem que ia do underground ao mais belo poema que, deslumbrava a retina do paulistano. Cenas dignas de Almodóvar! Coisas de São Paulo, ali tão bem embalada na voz e na sensualidade da cantora. Ao fim de interpretar “Folhetim”, ela, menina-senhora, mulher-moleca, dizia:
A gente está aqui falando de Virada. E eu cortei o meu cabelo, o que é uma virada que a gente dá para a gente mesmo e para as outras pessoas. Hoje é uma noite de virada!"
E quem era fã, percebia o que ela dizia. Sim, ali, ao declarar o seu amor por São Paulo, Gal Costa estava disposta a dar uma virada, era uma promessa aos fãs, e feita na segurança dos seus olhos, na alegria contagiante do seu sorriso, da força da sua voz. Sensual, quase erótica, ela interpretou “Você Não Entende Nada” (Caetano Veloso), quase a levar ao delírio com a sua malícia nos gestos, nas mãos em volta da madrepérola da sua essência. Gal Costa voltava a ser fatal! A despertar o imaginário erótico dos que voltaram a desejar àquela mulher.
Divino, Maravilhoso” (Gilberto Gil – Caetano Veloso) teve o luxuoso coro das pessoas da janela dos seus prédios. “Chega de Saudade” (Vinícius de Moraes – Tom Jobim) parou a São João, que a esta altura, tinha gente cantando até em cima das árvores. Os meus amigos jornalistas, que eram mornos em relação a Gal Costa, tornaram-se de repente, ardorosos fãs, tamanho era o imã que emanava daquela mulher, sugando-nos como se fosse um zoom.
Ver Gal Costa cantar “Vapor Barato” (Jards Macalé – Wally Salomão) é uma emoção renovada a cada show que ela nos brinda com esta interpretação. A emoção mais uma vez atinge um clímax. Os floreados que a cantora dava às interpretações das músicas arrematavam e conduziam o público, como se o hipnotizasse com a sua voz de sereia, tão embriagantes, que não nos apercebíamos que só um violão acompanhava o repertório.
Meu Bem, Meu Mal” (Caetano Veloso), “Azul” (Djavan), “Samba do Grande Amor” (Chico Buarque), “London, London” (Caetano Veloso), “Vatapá” (Dorival Caymmi), “Wave” (Tom Jobim), “Baby” (Caetano Veloso), “Aquarela do Brasil” (Ary Barroso), de Caetano Veloso a Tom Jobim, de Djavan a Chico Buarque, de Wally Salomão a Ary Barroso, Gal Costa continuava plural. Encerrou o show com “Aquarela do Brasil”, mas voltou com os gritos que ansiavam pelo bis. E que bis. Voltou com “Trem das Onze”, do mais paulistano dos compositores, Adoniran Barbosa. Terminou apoteótica com “Sampa” (Caetano Veloso), emocionando quem estava ali, na Avenida São João, quase na esquina com a Ipiranga. Quando o show acabou, olhei para o lado. Estaria a perder a noção crítica? Tinha sido embriagado? Mas os que estavam do meu lado e as críticas da imprensa no dia seguinte, tranqüilizaram-me, não era delírio de fã confesso, apaixonado por Gal Costa, era a emoção mais cristalina que faz desta mulher quem é! Mais do que um simples “Voz e Violão”, Gal Costa deixou nítido que estava a iniciar uma nova fase da sua carreira. Bem-vinda Gal Costa! Valeu a pena os 900 quilômetros percorridos!
 
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Terça-feira, 16 de Dezembro de 2008

A CERTIDÃO DE NASCIMENTO DO BRASIL

 

 
No dia 9 de março de 1500, os ventos sopraram de Belém, na praia do Restelo, em Lisboa, a segunda armada portuguesa rumo à Índia. Treze velas, que eram compostas por nove naus, três caravelas e uma naveta de mantimentos, singraram no horizonte. Eram capitaneadas por Pedro Álvares Cabral, capitão-mor, Sancho de Tovar, que comandava a nau El-Rei, e trazia o cargo de sota-capitânia, tendo por função substituir o capitão-mor em caso de impedimento; Bartolomeu Dias, Diogo Dias, Simão de Miranda de Azevedo, Gaspar de Lemos, Aires Gomes da Silva, Nicolau Coelho, Luís Pires, Nuno Leitão da Cunha, Vasco de Ataíde, Simão de Pina e Pêro de Ataíde. A esquadra era a maior que já se vira em Portugal, transportava entre 1200 a 1500 homens, a incluir a tripulação, a gente de guerra, o feitor, os agentes comerciais, os escrivões, o cosmógrafo mestre João, um vigário e oito sacerdotes seculares, oito franciscanos, os intérpretes, físicos, os indianos que tinha sido levados para Lisboa por Vasco da Gama e alguns degredados que deveriam ser deixados pelas terras onde a esquadra passasse. O desvio da rota da armada para oeste, e a sua chegada às terras de Santa Cruz, em 22 de abril de 1500, é um dos maiores mistérios da história do Brasil e de Portugal.
Apesar das evidências empíricas de que havia mapas que asseguravam aos reis de Portugal, Dom João II e o seu sucessor, Dom Manuel I, a existência de terras à sudoeste do Mar Oceano (Atlântico); não há um documento oficial que prova esta teoria. Da viagem da esquadra de Pedro Álvares Cabral, a maior da época, não sobrou nada além de três registros: Relação do Piloto Desconhecido, Carta do Mestre João e a Carta de Pero Vaz de Caminha. Uma teoria histórica aponta que a perda dos registros da viagem deve-se à política de sigilo do governo português referentemente ao descobrimento ou achamento do Brasil, considerado segredo de estado, os documentos eram mantidos trancados e proibidos ao mundo, o que gerou uma perda irreparável, representada no diminuto número de documentos que noticiavam a existência da ilha de Vera Cruz. Sigiloso ou não, o fato é que o relato do próprio capitão-mor, perdeu-se pelos porões dos arquivos. Na falta de documentação mais detalhada, a Carta de Pero Vaz de Caminha é o maior relato dessa grande aventura marítima, que serviu como identificação e registro do primeiro contacto da civilização européia com os nativos das Terras Brasilis.

Os Três Documentos Sobre a Viagem de Cabral

Diante da perda dos registros de navegação da esquadra de Cabral, os três documentos que chegaram aos nossos dias tornaram-se alvo de grandes teorias históricas, tendo uma importância fundamental nos estudos e na compreensão da formação do Brasil e do vasto Império Português através do mundo. Os três documentos foram descobertos muito depois do século XV e século XVI, quando foram produzidos. São eles:
Relação do Piloto Desconhecido, relato publicado, em italiano, na coletânea de viagens organizada por Fracanzano da Montalboddo, intitulada: "Paesi Novamente Retrovati et Novo Mondo de Alberico Vesputio Florentino Intitulato" (Vicenza, 1507, folhas 58 a 77, capítulos 63 a 83). Foi nesta antologia em italiano, que, pela primeira vez, saiu a notícia do descobrimento do Brasil, escrita por um dos integrantes da armada, provavelmente o escrivão João de Sá. Para alguns historiadores, Giovanni Matteo Cretico, à época núncio em Lisboa, seria o autor, tendo compilado ou traduzido uma narrativa anônima, remetendo-a, em seguida, ao cronista de Veneza, Domenico Malipiero. A primeira versão deste relato em português só foi feita em 1812, por Trigoso de Aragão Morato na "Coleção de Notícias para a História e Geografia das Nações Ultramarinas". Baseia-se na versão italiana "Navigationi del Capitano Pedro Alvares Cabral Scrita per un Piloto Portoghese et Tradotta di Lingua Portoghese in Italiana" (In: "Primo Volume della Navigationi et Viaggi..."), publicada por Giovan Battista Ramusio, em 1550.
Carta do Mestre João, foi escrita por João Faras ou João Emeneslau, espanhol conhecido por Mestre João, que era um físico (médico), astrônomo e astrólogo, que estava na expedição de Cabral. A carta teria sido escrita entre 28 de abril e 1 de maio de 1500. Na carta o autor alude à existência de um antigo mapa-múndi pertencente a Pero Vaz Bisagudo, em que já constaria a terra descoberta por Cabral. Este documento foi descoberto pelo historiador Francisco Adolfo de Varnhagen, futuro Visconde de Porto Seguro. A carta foi publicada, pela primeira vez, na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1843.
Carta de Pero Vaz de Caminha, é o documento mais detalhado dos primeiros momentos da chegada da esquadra de Cabral em terras brasileiras. Escrita entre 26 de abril a 1 de maio de 1500, é o primeiro registro feito no Brasil, sendo considerada a certidão de nascimento do Brasil, e também, o marco inicial da literatura brasileira. No seu relato ao rei Dom Manuel, Caminha vislumbra uma terra rica e de gente saudável. Descreve o homem nativo em sua essência viril e completamente desprovido das religiões conhecidas no Velho Mundo. Descreve a paisagem, o cenário, as plantas, as aves. Deslumbra-se com aquele contacto inédito entre duas civilizações. É dele o relato do momento exato em que se avista o Monte Pascoal, do momento que se dá o primeiro contacto com os habitantes da Terra de Santa Cruz, da troca de mercadorias entre os dois povos, da celebração da primeira missa no Brasil. Rica em detalhes, é através deste escrivão português, nascido no Porto, que se tem a idéia do impacto do descobrimento do Brasil.
A carta seria levada para Lisboa, no dia 1 de maio de 1500, por Gaspar de Lemos, que por ordem de Pedro Álvares Cabral, regressaria a Portugal para dar as boas novas sobre o descobrimento da Terra de Santa Cruz ao rei Dom Manuel. Pero Vaz de Caminha continuaria com a viagem da esquadra, rumo à Índia. Não mais regressaria à sua terra, morreria, segundo alguns historiadores, em combate durante um ataque mouro, em 15 de dezembro de 1500, em Calecute, na Índia, local para o qual tinha sido nomeado escrivão da feitoria que se ergueria ali. Pero Vaz de Caminha e a sua carta seriam esquecidos pela história, por mais de dois séculos, quando em 1773, José de Seabra da Silva, descobre-a intacta e inédita, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa. A carta foi publicada pela primeira vez no Brasil em 1817, na Corografia Brasílica, de Manuel Aires de Casal. Desde então, jamais saiu da história do Brasil, sendo considerada as suas digitais, a identidade de uma nação, a sua certidão de Nascimento.

Carta de Mestre João (Versão)

Senhor:

O bacharel mestre João, físico e cirurgião de Vossa Alteza, beijo vossas reais mãos. Senhor: porque, de tudo o cá passado, largamente escreveram a Vossa Alteza, assim Aires Correia como todos os outros, somente escreverei sobre dois pontos. Senhor: ontem, segunda-feira, que foram 27 de abril, descemos em terra, eu e o piloto do capitão-mor e o piloto de Sancho de Tovar; tomamos a altura do sol ao meio-dia e achamos 56 graus, e a sombra era setentrional, pelo que, segundo as regras do astrolábio, julgamos estar afastados da equinocial por 17°, e ter por conseguinte a altura do pólo antártico em 17°, segundo é manifesto na esfera. E isto é quanto a um dos pontos, pelo que saberá Vossa Alteza que todos os pilotos vão tanto adiante de mim, que Pero Escolar vai adiante 150 léguas, e outros mais, e outros menos, mas quem diz a verdade não se pode certificar até que em boa hora cheguemos ao cabo de Boa Esperança e ali saberemos quem vai mais certo, se eles com a carta, ou eu com a carta e o astrolábio. Quanto, Senhor, ao sítio desta terra, mande Vossa Alteza trazer um mapa-múndi que tem Pero Vaz Bisagudo e por aí poderá ver Vossa Alteza o sítio desta terra; mas aquele mapa-múndi não certifica se esta terra é habitada ou não; é mapa dos antigos e ali achará Vossa Alteza escrita também a Mina. Ontem quase entendemos por acenos que esta era ilha, e que eram quatro, e que doutra ilha vêm aqui almadias a pelejar com eles e os levam cativos. Quanto, Senhor, ao outro ponto, saberá Vossa Alteza que, acerca das estrelas, eu tenho trabalhado o que tenho podido, mas não muito, por causa de uma perna que tenho muito mal, que de uma coçadura se me fez uma chaga maior que a palma da mão; e também por causa de este navio ser muito pequeno e estar muito carregado, que não há lugar para coisa nenhuma. Somente mando a Vossa Alteza como estão situadas as estrelas do (sul), mas em que grau está cada uma não o pude saber, antes me parece ser impossível, no mar, tomar-se altura de nenhuma estrela, porque eu trabalhei muito nisso e, por pouco que o navio balance, se erram quatro ou cinco graus, de modo que se não pode fazer, senão em terra. E quase outro tanto digo das tábuas da Índia, que se não podem tomar com elas senão com muitíssimo trabalho, que, se Vossa Alteza soubesse como desconcertavam todos nas polegadas, riria disto mais que do astrolábio; porque desde Lisboa até às Canárias desconcertavam uns dos outros em muitas polegadas, que uns diziam, mais que outros, três e quatro polegadas, e outro tanto desde as Canárias até às ilhas de Cabo Verde, e isto, tendo todos cuidados que o tomar fosse a uma mesma hora; de modo que mais julgavam quantas polegadas eram, pela quantidade do caminho que lhes parecia terem andado, que não o caminho pelas polegadas. Tornando, Senhor, ao propósito, estas Guardas nunca se escondem, antes sempre andam ao derredor sobre o horizonte, e ainda estou em dúvida que não sei qual de aquelas duas mais baixas seja o pólo antártico; e estas estrelas, principalmente as da Cruz, são grandes quase como as do Carro; e a estrela do pólo antártico, ou Sul, é pequena como a do Norte e muito clara, e a estrela que está em cima de toda a Cruz é muito pequena. Não quero alargar mais, para não importunar a Vossa Alteza, salvo que fico rogando a Nosso Senhor Jesus Cristo que a vida e estado de Vossa Alteza acrescente como Vossa Alteza deseja. Feita em Vera Cruz no primeiro de maio de 1500. Para o mar, melhor é dirigir-se pela altura do sol, que não por nenhuma estrela; e melhor com astrolábio, que não com quadrante nem com outro nenhum instrumento. Do criado de Vossa Alteza e vosso leal servidor.


Johannes
artium et medicine bachalarius

Carta a El Rei Dom Manuel, de Pero Vaz de Caminha (Versão)

Senhor,

Posto que o Capitão-mor desta Vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a notícia do achamento desta Vossa terra nova, que nesta navegação agora se achou, não deixarei também de dar minha conta disso a Vossa Alteza, o melhor que eu puder, ainda que – para o bem contar e falar – o saiba pior que todos fazer!
Tome Vossa Alteza; porém, minha ignorância por boa vontade, a qual bem certo creia que, para alindar nem afear, aqui não há de pôr mais do que aquilo que vi e me pareceu.
Da marinhagem e das singraduras do caminho não darei aqui conta a Vossa Alteza, porque o não saberei fazer, e os pilotos devem ter este cuidado. Portanto, Senhor, do que hei de falar começo e digo: A partida de Belém, como Vossa Alteza sabe, foi, segunda-feira 9 de março. E sábado, 14 do dito mês, entre as 8 e 9 horas, nos achamos entre as Canárias, mais perto da Grande Canária. E ali andamos todo aquele dia em calma, à vista delas, obra de três a quatro léguas. E domingo, 22 do dito mês, às dez horas mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo Verde, a saber da ilha de São Nicolau, segundo o dito de Pero Escolar, piloto.
Na noite seguinte à segunda-feira amanheceu, se perdeu da frota Vasco de Ataíde com a sua nau, sem haver tempo forte ou contrário para que tal acontecesse. Fez o capitão suas diligências para o achar, em umas e outras partes. Mas. Não apareceu mais!
E assim seguimos nosso caminho, por este mar de longo, até que terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram vinte e um dias de abril, estando da dita ilha obra de 660 ou 670 léguas, segundo os pilotos diziam, topamos alguns sinais de terra, os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, assim como outras a que dão o nome de rabo-de-asno. E, quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que chamam fura-buchos.
Neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos; ao monte alto o capitão pôs nome – o Monte Pascoal e à terra – a Terra de Vera Cruz.
Mandou lançar o prumo. Acharam vinte e cinco braças; e, ao sol posto obra de seis léguas da terra, surgimos âncoras, em dezenove braças – ancoragem limpa. Ali permanecemos toda aquela noite. E à quinta-feira, pela manhã, fizemos vela e seguimos em direitos à terra, indo os navios pequenos diante, por dezessete, dezesseis, quinze, catorze, treze, doze, dez e nove braças, até meia légua da terra, onde todos lançamos âncoras em frente à boca de um rio. E chegaríamos a esta ancoragem às dez horas, pouco mais ou menos.
Dali avistamos homens que andavam pela praia, uns sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos que chegaram primeiro.
Então lançamos fora os batéis e esquifes; e vieram logo todos os capitães das naus a esta nau do capitão-mor, onde falaram entre si. E o capitão-mor mandou em terra no batel a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou de ir para lá, acudiram pela praia homens, quando aos dois, quando aos três, de maneira que, ao chegar o batel à boca do rio, já ali havia dezoito ou vinte homens.
Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijamente sobre o batel; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os pousaram.
Ali não pôde deles haver fala nem entendimento de proveito, por o mar quebrar na costa. Deu-lhes somente um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça, e um sombreiro preto. E um deles deu-lhe um sombreiro de penas de ave, compridas, com uma copazinha de penas vermelhas e pardas, como de papagaio; e outro lhe deu um ramal grande de continhas brancas, miúdas que querem parecer de aljôfar, as quais peças creio que o capitão manda a Vossa Alteza. E com isto se volveu às naus por ser tarde e não poder haver deles mais fala, por causa do mar.
Na noite seguinte ventou tanto sueste com chuvaceiros que fez caçar as naus. E especialmente a capitaina. E sexta pela manhã, às oito horas, pouco mais ou menos, por conselho dos pilotos, mandou o Capitão levantar âncoras e fazer vela. E fomos de longo da costa, com os batéis e esquifes amarrados à popa, na direção norte, para ver se achávamos alguma abrigada e bom pouso, onde nós ficássemos, para tomar água e lenha. Não que nos já minguasse, mas por aqui nos acertarmos.
Quando fizemos vela, estariam já na praia assentados perto do rio obra de sessenta ou setenta homens que se haviam juntado ali poucos e poucos. Fomos de longo, e mandou o Capitão aos navios pequenos que seguissem mais chegados à terra e, se achassem pouso seguro para as naus, que amainassem.
E, velejando nós pela costa, na distância de dez léguas do sítio onde tínhamos levantado ferro, acharam os ditos navios pequenos um recife com um porto dentro, muito bom e muito seguro, com uma mui larga entrada. E meteram-se dentro e amainaram. E as naus foram-se chegando, atrás deles. E um pouco antes de sol-posto amainaram também, talvez a uma légua do recife, e ancoraram em onze braças.
E estando Afonso Lopes, nosso piloto, em um daqueles navios pequenos, foi, por mandado do Capitão, por ser homem vivo e destro para isso, meteu-se logo no esquife a sondar o porto dentro; e tomou dois daqueles homens da terra; mancebos e de bons corpos, que estavam numa almadia. Um deles trazia um arco e seis ou sete setas; e na praia andavam muitos com seus arcos e setas; mas de nada lhes serviram. Trouxe-os logo, já de noite, ao capitão, em cuja nau foram recebidos com muito prazer e festa.
A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Não fazem o menor caso de encobrir ou de mostrar suas vergonhas; e nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto. Ambos traziam os beiços de baixo furados e metidos neles seus ossos brancos e verdadeiros, do comprimento duma mão travessa, da grossura dum fuso de algodão, agudos na ponta como furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita como roque de xadrez, ali encaixado de tal sorte que não os molesta, nem os estorva no falar, nem no comer ou no beber.
Os cabelos deles são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta, mais que de sobre-pente, de boa grandura e rapados até por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte, para detrás, uma espécie de cabeleira, de penas de ave amarela, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena por pena, com uma confeição branda como cera (mas não era), de maneira que a cabeleira ficava mui redonda e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a levantar.
O Capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, bem vestido, com um colar de ouro mui grande ao pescoço, e aos pés de uma alcatifa por estrado. Sancho de Tovar, Simão de Miranda, Nicolau Coelho, Aires Correia, e nós outros que aqui na nau com ele vamos, sentados no chão, pela alcatifa. Acenderam-se tochas. Entraram. Mas não fizeram sinal de cortesia, nem de falar ao Capitão, nem a ninguém. Porém um deles pôs olho no colar do Capitão, e começou de acenar com a mão para a terra e depois para o colar, como que nos dizendo que ali havia ouro. Também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal, como se lá também houvesse prata.
Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como se os houvesse ali. Mostraram-lhes um carneiro; não fizeram caso. Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram medo dela; não lhe queriam pôr a mão; e depois a tomaram como que espantados.
Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel e figos passados. Não quiseram comer daquilo quase nada; e se provavam alguma coisa, logo a lançavam fora. Trouxeram-lhes vinho numa taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram dele nada, nem quiseram mais. Trouxeram-lhes água em uma albarrada, provaram cada um o seu bochecho, mas não beberam; apenas lavaram as bocas e lançaram-na fora.
Viu um deles umas contas de rosário, brancas; fez sinal que lhas dessem, e folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço; e depois tirou-as e meteu-as em volta do braço, e acenava para a terra e novamente para as contas e para o colar do Capitão, como se dariam ouro por aquilo.
Isto tomávamos nós assim por assim o desejarmos. Mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não o queríamos nós entender, porque não lho havíamos de dar. E depois tornou as contas a quem lhas dera.
Então estiraram-se de costas na alcatifa, a dormir, sem buscarem maneiras de encobrir suas vergonhas, as quais não eram fanadas; e as cabeleiras delas estavam bem rapadas e feitas. O Capitão lhes mandou pôr por baixo das cabeças seus coxins; e o da cabeleira esforçava-se por a não quebrar. E lançaram-lhes um manto por cima; e eles consentiram, quedaram-se e dormiram.

Ao sábado pela manhã mandou o Capitão fazer vela, fomos demandar a entrada, a qual era mui larga e tinha seis a sete braças de fundo. E entraram todas as naus dentro, e ancoraram em cinco ou seis braças – ancoradouro que é tão grande e tão formoso de dentro, e tão seguro que podem ficar nele mais de duzentos navios e naus. E tanto que as naus foram distribuídas e ancoradas, vieram os capitães todos a esta nau do Capitão-mor. E daqui mandou o Capitão que Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias fossem em terra e levassem aqueles dois homens, e os deixassem ir com seu arco e setas, aos quais mandou dar a cada um uma camisa nova e uma carapuça vermelha e um rosário de contas brancas de osso, que foram levando nos braços, e um cascavel e uma campainha. E mandou com eles, para lá ficar, um mancebo degredado, criado de dom João Telo, de nome Afonso Ribeiro, para lá andar com eles e saber de seu viver e maneiras. E a mim mandou que fosse com Nicolau Coelho.
Fomos assim de frecha direitos à praia. Ali acudiram logo perto de duzentos homens, todos nus, com arcos e setas nas mãos. Aqueles que nós levamos acenaram-lhes que se afastassem e depusessem os arcos. E eles os depuseram. Mas não se afastaram muito. E mal tinham pousado seus arcos quando saíram os que nós levávamos, e o mancebo degredado com eles. E saídos não pararam mais; nem esperavam um pelo outro, mas antes corriam a quem mais correria. E passaram um rio que aí corre, de água doce, de muita água que lhes dava pela braga. E muitos outros com eles. E foram assim correndo para além do rio entre umas moitas de palmeiras onde estavam outros. E ali pararam. E naquilo tinha ido o degredado com um homem que, logo ao sair do batel, o agasalhou e levou até lá. Mas logo o tornaram a nós. E com ele vieram os outros que nós leváramos, os quais vinham já nus e sem carapuças.
Então se começaram de chegar muitos; e entravam pela beira do mar para os batéis, até que mais não podiam. E traziam cabaças d'água, e tomavam alguns barris que nós levávamos e enchiam-nos de água e traziam-nos aos batéis. Não que eles de todo chegassem a bordo do batel. Mas junto a ele, lançavam-nos da mão. E nós tomávamo-los. E pediam que lhes dessem alguma coisa. Levava Nicolau Coelho cascavéis e manilhas. E a uns dava um cascavel, e a outros uma manilha, de maneira que com aquela encarna quase que nos queriam dar a mão. Davam-nos daqueles arcos e setas em troca de sombreiros e carapuças de linho, e de qualquer coisa que a gente lhes queria dar.
Dali se partiram os outros, dois mancebos, que não os vimos mais.
Muitos deles ou quase a maior parte dos que andavam ali traziam aqueles bicos de osso nos beiços. E alguns, que andavam sem eles, traziam os beiços furados e nos buracos traziam uns espelhos de pau, que pareciam espelhos de borracha. E alguns deles traziam três daqueles bicos, a saber um no meio, e os dois nos cabos. Aí andavam lá outros, quartejados de cores, a saber metade deles da sua própria cor, e metade de tintura preta, a modos de azulada; e outros quartejados de escaques. Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem novinhas e gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas espáduas, e suas vergonhas, tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha.
Ali por então não houve mais fala nem entendimento com eles, por a berberia deles ser tamanha que se não entendia nem ouvia ninguém.
Acenamos-lhes que se fossem; assim o fizeram e passaram-se para além do rio. E saíram três ou quatro homens nossos dos batéis, e encheram não sei quantos barris d'água que nós levávamos. E tornamo-nos às naus. E quando assim vínhamos, acenaram-nos que voltássemos. Voltamos, e eles mandaram o degredado e não quiseram que ficasse lá com eles, o qual levava uma bacia pequena e duas ou três carapuças vermelhas para lá as dar ao senhor, se o lá houvesse. Não trataram de lhe tirar coisa alguma, antes mandaram-no com tudo. Mas então Bartolomeu Dias o fez outra vez tornar, que lhe desse aquilo. E ele tornou e deu aquilo, em vista de nós, a aquele que o da primeira agasalhara. Logo voltou e nós trouxemo-lo.
Esse que o agasalhou era já de idade, e andava por louçainha todo cheio de penas, pegadas pelo corpo, que parecia asseteado como São Sebastião. Outros traziam carapuças de penas amarelas; e outros, de vermelhas; e outros de verdes. E uma daquelas moças era toda tingida, de baixo a cima daquela tintura; e certo era tão bem feita e tão redonda, que sua vergonha (que ela não tinha) tão graciosa, que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais feições, fizera vergonha, por não terem a sua como ela. Nenhum deles era fanado, mas, todos assim como nós. E com isto nos tornamos, e eles foram-se.
À tarde saiu o Capitão-mor em seu batel com todos nós outros capitães das naus em seus batéis a folgar pela baía, perto da praia. Mas ninguém saiu em terra, por o Capitão o não querer, apesar de ninguém estar nela. Somente saiu – ele com todos nós – em um ilhéu grande, que na baía está e que na baixa-mar, fica mui vazio. Porém é por toda a parte cercado de água, de sorte que ninguém lá pode ir, a não ser de barco ou a nado. Ali folgou ele, e todos nós outros, bem uma hora e meia. E alguns marinheiros, que ali andavam com um chinchorro, pescaram peixe miúdo, não muito. Então volvemo-nos às naus, já bem de noite.

Ao domingo de Pascoela pela manhã, determinou o Capitão ir ouvir missa e sermão naquele ilhéu. E mandou a todos os capitães que se arranjassem nos batéis e fossem com ele. E assim foi feito. Mandou armar um pavilhão naquele ilhéu, e dentro levantar um altar mui bem arranjado. E ali com todos nós outros fez dizer missa, a qual disse o padre frei Henrique, em voz entoada, e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes que todos assistiram, a qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção.
Ali estava com o Capitão a bandeira de Cristo, com que saíra de Belém, a qual esteve sempre bem alta, da parte do Evangelho.
Acabada a missa, desvestiu-se o padre e subiu a uma cadeira alta; e nós todos lançados por essa areia. E pregou uma solene e proveitosa pregação, da história do Evangelho, ao fim da qual tratou da nossa vinda e do achamento desta terra, conformando-se com o sinal da Cruz, sob cuja obediência viemos, o que foi muito a propósito e fez muita devoção.
Enquanto assistimos à missa e ao sermão, estaria na praia outra tanta gente, pouco mais ou menos, como a de ontem, com seus arcos e setas, e andava folgando. E olhando-nos, sentaram. E depois de acabada a missa, quando nós sentados atendíamos a pregação, levantaram-se muitos deles e tangeram corno ou buzina e começaram a saltar e dançar um pedaço. E alguns deles se metiam em almadias – duas ou três que lá tinham – as quais não são feitas como as que eu vi; apenas são três traves, atadas juntas. E ali se metiam quatro ou cinco, ou esses que queriam, não se afastando quase nada da terra, só até onde podiam tomar pé.
Acabada a pregação, voltou o Capitão, com todos nós, para os batéis, com nossa bandeira alta. Embarcamos e fomos indo todos em direção à terra para passarmos ao longo por onde eles estavam, indo na dianteira, por ordem do Capitão, Bartolomeu Dias em seu esquife, com um pau de uma almadia que lhes o mar levara, para lho dar; e nós todos, obra de tiro de pedra, atrás dele.
Como viram o esquife de Bartolomeu Dias, chegaram-se logo todos à água, metendo-se nela até onde mais podiam. Acenaram-lhes que pousassem os arcos; e muitos deles os iam logo pôr em terra; e outros não.
Andava lá um que falava muito aos outros, que se afastassem. Mas não já que a mim me parecesse que lhe tinham respeito ou medo. Este que os assim andava afastando trazia seu arco e setas. Estava tinto de tintura vermelha pelos peitos e costas e pelos quadris, coxas e pernas até baixo, mas os vazios com a barriga e estômago eram de sua própria cor. E a tintura era tão vermelha que a água lha não comia nem desfazia. Antes, quando saía da água, era mais vermelha.
Saiu um homem do esquife de Bartolomeu Dias e andava no meio deles, sem implicarem nada com ele, e muito menos ainda pensavam em fazer-lhe mal. Antes lhe davam cabaças de água; e acenavam aos do esquife que saíssem, em terra.
Com isto se volveu Bartolomeu Dias ao Capitão; e viemo-nos às naus, a comer, tangendo trombetas e gaitas, sem os mais constranger. E eles tornaram-se a sentar na praia, e assim por então ficaram.
Neste ilhéu, onde fomos ouvir missa e sermão, espraia muito a água e descobre muita areia e muito cascalho. Enquanto lá estávamos foram alguns buscar marisco e não no acharam. Mas acharam alguns camarões grossos e curtos, entre os quais vinha um muito grande e muito grosso; que em nenhum tempo o vi tamanho. Também acharam cascas de berbigões e de ameijoas, mas não toparam com nenhuma peça inteira.
E tanto que comemos, vieram logo todos os capitães a esta nau, por ordem do Capitão-mor, com os quais ele se apartou, e eu na companhia. E perguntou a todos se nos parecia bem mandar a nova do achamento desta terra a Vossa Alteza pelo navio dos mantimentos, para a melhor mandar descobrir e saber dela mais do que nós podíamos saber, por irmos de nossa viagem.
E entre muitas falas que sobre o caso se fizeram foi dito, por todos ou a maior parte, que seria muito bem. E nisto concordaram. E logo que a resolução foi tomada, perguntou mais, se seria bem tomar aqui por força um par destes homens para os mandar a Vossa Alteza, deixando aqui em lugar deles outros dois destes degredados.
Sobre isto acordaram que não era necessário tomar por força homens, porque costume era dos que assim à força levavam para alguma parte dizerem que há de tudo quanto lhes perguntam; e que melhor e muito melhor informação da terra dariam dois homens desses degredados que aqui deixássemos do que eles dariam se os levassem por ser gente que ninguém entende. Nem eles tão cedo aprenderiam a falar para o saberem tão bem dizer que muito melhor estoutros o não digam, quando Vossa Alteza cá mandar. E que portanto não cuidassem de aqui tomar ninguém por força nem de fazer escândalo; para de todo mais os amansar e apacificar, senão somente deixar aqui os dois degredados, quando daqui partíssemos.
E assim ficou, por melhor a todos parecer, ficou determinado.
Acabado isto, disse o Capitão que fôssemos nos batéis em terra e ver-se-ia bem, como era o rio, e também para folgarmos.
Fomos todos nos batéis em terra, armados; e a bandeira conosco. Eles andavam ali na praia, à boca do rio, para onde nós íamos; e, antes que chegássemos, pelo ensino que dantes tinham, puseram todos os arcos, e acenaram que saíssemos. Mas, tanto que os batéis puseram as proas em terra, passaram-se logo todos além do rio, o qual não é mais largo que um jogo de mancal. E mal desembarcamos, alguns dos nossos passaram logo o rio, e meteram-se entre eles. E alguns aguardavam; e outros se afastavam. Com tudo, a coisa era de maneira que todos andavam misturados. Eles ofereciam desses arcos com suas setas por sombreiros e carapuças de linho, e por qualquer coisa que lhes davam.
Passaram além tantos dos nossos e andaram assim misturados com eles, que eles se esquivavam, e afastavam-se; e iam alguns para cima, onde outros estavam.
Então o Capitão fez que o tomassem ao colo dois homens e passou o rio, e fez tornar a todos.
A gente que ali estava não seria mais que aquela do costume. Mas logo que o Capitão chamou todos para trás, alguns se chegaram a ele, não por o reconhecerem por Senhor, mas porque a gente, nossa, já passava para aquém do rio.
Ali falavam e traziam muitos arcos e continhas, daquelas já ditas, e resgatavam-nas por qualquer coisa, de tal maneira que os nossos levavam dali para as naus muitos arcos, e setas e contas.
Então tornou-se o Capitão para aquém do rio. E logo acudiram muitos à beira dele.
Ali veríeis galantes, pintados de preto e vermelho, e quartejados, assim nos corpos, como nas pernas, que, certo, pareciam bem assim.
Também andavam entre eles quatro ou cinco mulheres, novas, que assim nuas, não pareciam mal. Entre elas andava uma, com uma coxa, do joelho até o quadril e a nádega, toda tingida daquela tintura preta; e todo o resto da sua cor natural. Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim tintas, e também os colos dos pés; e suas vergonhas tão nuas, e com tanta inocência descobertas, que nisso não havia vergonha alguma.
Também andava aí outra mulher moça, com um menino ou menina ao colo, atado com um pano (não sei de quê) aos peitos, de modo que não se lhe viam senão as perninhas. Mas as pernas da mãe e no resto não traziam pano algum.
Depois andou o Capitão para cima ao longo do rio, que corre rente à praia. E ali esperou por um velho que trazia na mão uma pá de almadia. Falava, enquanto o Capitão esteve com ele, perante nós todos; sem nunca ninguém o entender, nem ele a nós quantas cousas lhe demandávamos acerca douro, que desejávamos saber se na terra havia.
Trazia este velho o beiço tão furado que lhe cabia pelo buraco um grosso dedo polegar. E trazia metido no buraco uma pedra verde, de nenhum valor, que fechava por fora aquele buraco. E o Capitão lha fez tirar. E ele não sei que diabo falava e ia com ela para a boca do Capitão para lha meter. Estivemos rindo um pouco e dizendo chalaças sobre isso. E então enfadou-se o Capitão, e deixou-o. E um dos nossos deu-lhe pela pedra um sombreiro velho; não por ela valer alguma coisa, mas para amostra. Depois houve-a o Capitão, creio, para mandar com as outras coisas a Vossa Alteza.
Andamos por aí vendo o ribeiro, o qual é de muita água e muito boa. Ao longo dele há muitas palmeiras, não muito altas; e muito bons palmitos. Colhemos e comemos muitos deles.
Então tornou-se o Capitão para baixo para a boca do rio, onde tínhamos desembarcado.
Além do rio andavam muitos deles dançando e folgando, uns diante os outros, sem se tomarem pelas mãos. E faziam-no bem. Passou-se então para a outra banda do rio Diogo Dias, que fora almoxarife de Sacavém, o qual é homem gracioso e de prazer. E levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se a dançar com eles, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem fez ali muitas voltas ligeiras, andando no chão, e salto real, de que se eles espantavam e riam e folgavam muito. E conquanto com aquilo os segurou e afagou muito, tomavam logo uma esquiveza como de animais monteses, e foram-se para cima.
E então o Capitão passou o rio com todos nós outros, e fomos pela praia, de longo, indo os batéis, assim, rente da terra. Fomos até uma lagoa grande de água doce, que está junto com a praia, porque toda aquela ribeira do mar é apaulada por cima e sai a água por muitos lugares. E depois de passarmos o rio, foram uns sete ou oito deles meter-se entre os marinheiros que se recolhiam aos batéis. E levaram dali um tubarão que Bartolomeu Dias matou, lhes levou e lançou na praia.
Bastará dizer-vos que até aqui, como quer que eles um pouco se amansassem, logo duma mão para outra se esquivavam, como pardais do cevadouro. Homem não lhes ousa falar de rijo para não se esquivarem mais; e tudo se passa como eles querem, para os bem amansar.
O Capitão ao velho, com quem falou, deu uma carapuça vermelha. E com toda a conversa que com ele houve, e com a carapuça que lhe deu tanto que se despediu e começou a passar o rio, foi-se logo recatando. E não quis mais tornar do rio para aquém.
Os outros dois, que o Capitão teve nas naus, a que deu o que já disse, nunca mais aqui apareceram – do que tiro ser gente bestial, de pouco saber, e por isso tão esquiva. Porém e com tudo isto andam muito bem curados, e muito limpos. E naquilo me parece ainda mais que são como aves, ou alimárias monteses, às quais faz o ar melhor pena e melhor cabelo que às mansas, porque os seus corpos são tão limpos, tão gordos e formosos que não pode mais ser.
Isto me faz presumir que não tem casas nem moradias em que se recolham; e o ar em que se criam os faz tais. Nem nós ainda até agora vimos casa alguma ou maneira delas. Mandou o Capitão aquele degredado, Afonso Ribeiro, que se fosse outra vez com eles. E foi; e andou lá um bom pedaço, mas a tarde regressou, que o fizeram eles vir: e não o quiseram lá consentir. E deram-lhe arcos e setas; e não lhe tomaram nada do seu. Antes – disse ele – que lhe tomara um deles umas continhas amarelas que levava e fugia com elas, e ele se queixou e os outros foram logo após ele, e lhas tomaram e tornaram-lhas a dar; e então mandaram-no vir. Disse que não vira lá entre eles senão umas choupaninhas de rama verde e de fetos muito grandes, como de Entre Douro e Minho.
E assim nos tornamos às naus, já quase noite, a dormir.

À segunda-feira, depois de comer, saímos todos em terra a tomar água. Ali vieram então muitos; mas não tantos como as outras vezes. E traziam já muito poucos arcos. E estiveram um pouco afastados de nós; mas depois pouco a pouco misturaram-se conosco; e abraçavam-nos e folgavam; mas alguns deles se esquivavam logo. Ali davam alguns arcos por folhas de papel e por alguma carapucinha velha e por qualquer coisa. E de tal maneira se passou a coisa que bem vinte ou trinta pessoas das nossas se foram com eles para onde outros muitos deles estavam com moças e mulheres. E trouxeram de lá muitos arcos e barretes de penas de aves, uns verdes, outros amarelos, dos quais creio que o Capitão há de mandar uma amostra a Vossa Alteza.
E, segundo diziam esses que lá foram, folgavam com eles. Neste dia os vimos mais de perto e mais à nossa vontade, por andarmos quase todos misturados. Ali, alguns andavam daquelas tinturas quartejados; outros de metades, outros de tanta feição, como em panos de armar, e todos com os beiços furados, muitos com os ossos neles, e bastantes sem ossos.
Alguns traziam uns ouriços verdes, de árvores, que na cor queriam parecer de castanheiras, embora fossem muito mais pequenos. E estavam cheios de uns grãos vermelhos, pequeninos que, esmagando-se entre os dedos, se desfaziam na tinta muito vermelha de que andavam tingidos. E quanto mais se molhavam, tanto mais vermelhos ficavam.
Todos andam rapados até por cima das orelhas; assim mesmo de sobrancelhas e pestanas.
Trazem todos as testas, de fonte a fonte, tintas de tintura preta, que parece uma fita preta da largura de dois dedos.
E o Capitão mandou aquele degredado Afonso Ribeiro e a outros dois degredados que fossem meter-se entre eles; e assim mesmo a Diogo Dias, por ser homem alegre, com que eles folgavam. E aos degredados ordenou que ficassem lá esta noite.
Foram-se lá todos; e andaram entre eles. E segundo depois diziam, foram bem uma légua e meia a uma povoação, em que haveria nove ou dez casas, as quais diziam que eram tão compridas, cada uma, como esta nau capitaina. E eram de madeira, e das ilhargas de tábuas, e cobertas de palha, de razoável altura; e todas de um só espaço, sem repartição alguma, tinham de dentro muitos esteios; e de esteio a esteio uma rede atada com cabos em cada esteio, altas, em que dormiam. E de baixo, para se aquentarem, faziam seus fogos. E tinha cada casa duas portas pequenas, uma num cabo e outra no outro.
Diziam que em cada casa se recolhiam trinta ou quarenta pessoas, e que assim os encontraram; e que lhes deram de comer dos alimentos que tinham, a saber muito inhame, e outras sementes que na terra dá, que eles comem. E como se fazia tarde fizeram-nos logo todos tornar; e não quiseram que lá ficasse nenhum. E ainda, segundo diziam, queriam vir com eles.
Resgataram lá por cascavéis e outras coisinhas de pouco valor, que levavam, papagaios vermelhos, muito grandes e formosos, e dois verdes pequeninos, e carapuças de penas verdes, e um pano de penas de muitas cores, espécie de tecido assaz belo, segundo Vossa Alteza todas estas coisas verá, porque o Capitão vo-las há de mandar, segundo ele disse.
E com isto vieram; e nós tornamo-nos às naus.

À terça-feira, depois de comer, fomos em terra, dar guarda de lenha e para lavar roupa.
Estavam na praia, quando chegamos, uns sessenta ou setenta, sem arcos e sem nada. Tanto que chegamos, vieram logo para nós, sem se esquivarem. E depois acudiram muitos, que seriam bem duzentos, todos sem arcos. E misturaram-se todos tanto conosco que uns nos ajudavam a acarretar lenha e metê-las nos batéis. E lutavam com os nossos, e tomavam com prazer.
Enquanto cortávamos a lenha, faziam dois carpinteiros uma grande Cruz dum pau, que ontem para isso cortou.
Muitos deles vinham ali estar com os carpinteiros. E creio que o faziam mais para verem a ferramenta de ferro com que a faziam do que para verem a cruz, porque eles não tem coisa que de ferro seja, e cortam sua madeira e paus com pedras feitas como cunhas, metidas em um pau entre duas talas, mui bem atadas e por tal maneira que andam fortes, porque lhas viram lá.
Era já a conversação deles conosco tanta que quase nos estorvavam no que havíamos de fazer.
O Capitão mandou a dois degredados e a Diogo Dias que fossem lá à aldeia e que de modo algum viessem a dormir às naus, ainda que os mandassem embora. E assim se foram.
Enquanto andávamos nessa mata a cortar lenha, atravessavam alguns papagaios essas árvores; verdes uns, e pardos, outros, grandes e pequenos, de sorte que me parece que haverá muitos nesta terra. Porém eu não veria mais que até nove ou dez. Outras aves então não vimos, somente algumas pombas seixas, e pareceram-me bastante maiores que as de Portugal. Alguns diziam que viram rolas, mas eu não as vi. Todavia segundo os arvoredos são mui muitos e grandes, e de infinitas espécies, não duvido que por esse sertão haja muitas aves! Cerca da noite nos volvemos para as naus com nossa lenha.
Eu, creio, Senhor, que ainda não dei conta aqui a Vossa Alteza da feição de seus arcos e setas. Os arcos são pretos e compridos, as setas também compridas e os ferros delas de canas aparadas, segundo Vossa Alteza verá alguns que – eu creio – o Capitão a Ela há de enviar.

À quarta-feira não fomos em terra, porque o Capitão andou todo o dia no navio dos mantimentos a despejá-lo e fazer levar às naus isso que cada um podia levar. Eles acudiram à praia, muitos, segundo das naus vimos. Seriam perto de trezentos, segundo Sancho de Tovar que para lá foi.
Diogo Dias e Afonso Ribeiro, o degredado, aos quais o Capitão ontem ordenara que de toda maneira lá dormissem, tinham voltado já de noite, por eles não quererem que lá ficassem. E traziam papagaios verdes; e outras aves pretas, quase como pegas, com a diferença de terem o bico branco e rabos curtos.
Quando Sancho de Tovar recolheu à nau, queriam vir com ele, alguns; mas ele não admitiu senão dois mancebos, bem dispostos e homens de prol. Mandou pensar e curá-los mui bem essa noite. E comeram toda a ração que lhes deram, e mandou dar-lhes cama de lençóis, segundo ele disse. E dormiram e folgaram aquela noite.
E assim não houve mais este dia que para escrever seja.

À quinta-feira, derradeiro de abril, comemos logo, quase pela manhã, e fomos em terra por mais lenha e água. E em querendo o Capitão sair desta nau, chegou Sancho de Tovar com seus dois hóspedes. E por ele ainda não ter comido, puseram-lhe toalhas, e veio-lhe comida. E comeu. Os hóspedes, sentaram-no cada um em sua cadeira. E de tudo quanto lhes deram, comeram mui bem, especialmente lacão cozido frio, e arroz.
Não lhes deram vinho, por Sancho de Tovar dizer que o não bebiam bem.
Acabado o comer, metemo-nos todos no batel, e eles conosco. Deu um grumete a um deles uma armadura grande de porco montês, bem revolta. E logo que a tomou meteu-a no beiço; e porque se lhe não queria segurar, deram-lhe uma pouca de cera vermelha. E ele ajeitou-lhe seu adereço da parte de trás de sorte que segurasse, e meteu-a no beiço, assim revolta para cima; e ia tão contente com ela, como se tivesse uma grande jóia. E tanto que saímos em terra, foi-se logo com ela, e não apareceu mais aí.
Andariam na praia, quando saímos, oito ou dez deles; e de aí a pouco começaram a vir. E parece-me que viriam, este dia, à praia quatrocentos ou quatrocentos e cinqüenta.
Traziam alguns deles arcos e setas; e deram tudo em troca de carapuças e por qualquer coisa que lhes davam. Comiam conosco do que lhes dávamos, e alguns deles bebiam vinho, ao passo que outros o não podiam beber. Mas quer-me parecer que, se os acostumarem, o hão de beber de boa vontade.
Andavam todos tão dispostos, tão bem feitos e galantes com suas tinturas, que pareciam bem. Acarretavam dessa lenha quanta podiam, com mil boas vontades, e levavam-na aos batéis.
Andavam já mais mansos e seguros entre nós, do que nós andávamos entre eles.
Foi o Capitão com alguns de nós um pedaço por este arvoredo até um ribeiro grande, e de muita água, que ao nosso parecer é o mesmo que vem ter à praia, em que nós tomamos água.
Ali ficamos um pedaço, bebendo e folgando, ao longo dele, entre esse arvoredo que é tanto e tamanho e tão basto e de tanta qualidade de folhagem que não se pode calcular. Há lá muitas palmeiras, de que colhemos muitos e bons palmitos.
Quando saímos do batel, disse o Capitão que seria bom irmos em direitura à cruz que estava encostada a uma árvore, junto ao rio, a fim de ser colocada amanhã, sexta-feira, e que nos puséssemos todos de joelhos e a beijássemos para eles verem o acatamento que lhe tínhamos. E assim fizemos. E a esses dez ou doze que lá estavam, acenaram-lhes que fizessem o mesmo; e logo foram todos beijá-la.
Parece-me gente de tal inocência que, se homem os entendesse e eles a nós, seriam logo cristãos, porque eles, segundo parece, não têm, nem entendem em nenhuma crença.
E portanto, se os degredados, que aqui hão de ficar aprenderem bem a sua fala e os entenderem, não duvido que eles, segundo a santa tenção de Vossa Alteza, se farão cristãos e hão de crer na nossa santa fé, à qual praza a Nosso Senhor que os traga, porque certamente esta gente é boa e de bela simplicidade. E imprimir-se-á facilmente neles qualquer cunho que lhe quiserem dar, uma vez que Nosso Senhor lhes deu bons corpos e bons rostos, como a homens bons. E o Ele nos para aqui trazer creio que não foi sem causa.
Portanto Vossa Alteza, pois tanto deseja acrescentar a santa fé católica, deve cuidar da salvação deles. E prazerá a Deus que com pouco trabalho seja assim.
Eles não lavram nem, criam. Não há aqui boi, nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem qualquer outra alimária, que costumada seja ao viver dos homens. E não comem senão deste inhame, de que aqui há muito, e dessas sementes e frutos que a terra e as árvores de si deitam. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos.
Neste dia, enquanto ali andavam, dançaram e bailaram sempre com os nossos, ao som de um tamboril nosso, como se fossem mais amigos nossos do que nós seus.
Se lhes homem acenava se queriam vir às naus, faziam-se logo prestes para isso, em tal maneira que se a gente todos quisera convidar, todos vieram. Porém não levamos esta noite às naus senão quatro ou cinco: a saber, o Capitão-mor, dois; Simão de Miranda, um, que trazia já por pajem; e Aires Gomes, outro, também por pajem.
Um dos que o Capitão trouxe era um deles um dos hóspedes, que lhe trouxeram da primeira vez, quando aqui chegamos, o qual veio hoje aqui, vestido na sua camisa, e com ele um seu irmão; e foram esta noite mui bem agasalhados, assim de vianda, como de cama, de colchões e lençóis, para os mais amansar.

E hoje, que é sexta-feira, primeiro dia de maio, pela manhã, saímos em terra com nossa bandeira; e fomos desembarcar acima do rio, contra o sul, onde nos pareceu que seria melhor chantar a Cruz, para melhor ser vista. Ali assinalou o Capitão o sítio, onde fizessem a cova para a chantar.
Enquanto a ficaram fazendo, ele com todos nós outros fomos pela Cruz abaixo do rio, onde ela estava. Dali a trouxemos com esses religiosos e sacerdotes diante cantando, em maneira de procissão.
Eram já aí alguns deles, obra de setenta ou oitenta; e, quando nos assim vir, alguns se foram meter debaixo dela, para nos ajudar. Passamos o rio, ao longo da praia; e fomos pôr onde havia de ficar, que será do rio obra de dois tiros de besta. Andando-se ali nisto, vieram bem cento cinqüenta, ou mais.
Chantada a Cruz, com as armas e a divisa de Vossa Alteza, que primeiro lhe haviam pregado, armaram altar ao pé dela. Ali disse missa o padre frei Henrique, a qual foi cantada e oficiada por esses já ditos. Ali estiveram conosco, a ela, perto de cinqüenta ou sessenta deles, assentados todos de joelho assim como nós.
E quando veio ao Evangelho, que nos erguemos todos em pé, com as mãos levantadas, eles se levantaram conosco, e alçaram as mãos, estando assim até se chegar ao fim; e então tornaram-se a assentar, como nós. E quando levantaram a Deus, que nos pusemos de joelhos, eles se puseram assim como nós estávamos, com as mãos levantadas, e em tal maneira sossegados que certifico a Vossa Alteza, nos fez muita devoção.
Estiveram assim conosco até acabada a comunhão; depois da qual comungaram esses religiosos e sacerdotes e o Capitão com alguns de nós outros.
Alguns deles, por o sol ser grande, quando estávamos comungando, levantaram-se, e outros estiveram e ficaram. Um deles, homem de cinqüenta ou cinqüenta e cinco anos, se conservou ali com aqueles que ficaram. Esse, estando nós assim, ajuntava estes, que ali ficaram, e ainda chamava outros. E andando assim entre eles falando, lhes acenou com o dedo para o altar e depois apontou com o dedo para o Céu, como se lhes dissesse alguma coisa de bem; e nós assim o tomamos.
Acabada a missa, tirou o padre a vestimenta de cima, e ficou na alva; e assim se subiu, junto ao altar, em uma cadeira; e ali nos pregou o Evangelho e dos Apóstolos cujo é o dia, tratando no fim da pregação desse vosso prosseguimento tão santo e virtuoso, que nos causou mais devoção.
Esses, que estiveram sempre à pregação, quedaram-se como nós olhando para ele. E aquele que digo, chamava alguns, que viessem ali. Alguns vinham e outros iam-se; e acabada a pregação, como Nicolau Coelho trouxesse muitas cruzes de estanho com crucifixos, que lhe ficaram ainda da outra vinda, houveram por bem que se lançasse uma ao pescoço de cada um. Pelo que o Padre Frei Henrique se assentou ao pé da Cruz; e ali, a um por um, lançava a sua atada em um fio ao pescoço, fazendo-lha primeiro beijar e alevantar as mãos. Vinham a isso muitos; e lançaram-nas todas, que seriam obra de quarenta ou cinqüenta.
Isto acabado – era já bem uma hora depois do meio dia – viemos a comer às naus, trazendo o Capitão consigo aquele mesmo que fez aos outros aquele gesto para o altar e para o Céu e um seu irmão com ele. Fez-lhe muita honra e deu-lhe uma camisa mourisca e ao outro uma camisa destoutras.
E, segundo que a mim e a todos pareceu, esta gente, não lhes falece outra coisa para ser toda cristã, do que entenderem-nos, porque assim tomavam aquilo que nos viam fazer como nós mesmos; por onde pareceu a todos que nenhuma idolatria nem adoração têm. E bem creio que, se Vossa Alteza aqui mandar quem entre eles mais devagar ande, que todos serão tornados e convertidos ao desejo de Vossa Alteza. E por isso, se alguém vier, não deixe logo de vir clérigo para os batizar; porque já então terão mais conhecimentos de nossa fé, pelos dois degredados que aqui entre eles ficam, os quais hoje também comungaram.
Entre todos estes que hoje vieram, não veio mais que uma mulher moça, a qual esteve sempre à missa e a quem deram um pano com que se cobrisse. Puseram-lho ao redor de si. Porém, ao assentar, não fazia grande memória de o estender bem, para se cobrir. Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal, que a de Adão não seria maior, quanto a vergonha.
Ora veja Vossa Alteza quem em tal inocência vive se converterá ou não, ensinando-lhes o que pertence à sua salvação.
Acabado isto, fomos assim perante eles beijar a Cruz. Despedimo-nos e viemos comer.
Creio, Senhor, que, com estes dois degredados ficam mais dois grumetes, que esta noite se saíram desta nau, no esquife, fugidos para terra. Não vieram mais. E cremos que ficarão aqui, porque de manhã, prazendo a Deus fazemos daqui partida.
Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul vimos, até à outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas de costa. Tem, ao longo do mar, nalgumas partes, grandes barreiras, delas vermelhas, delas brancas; e a terra de cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta, é tudo praia-palma, muito chã e muito formosa.
Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande, porque, a estender olhos, não podíamos ver senão terra com arvoredos, que nos parecia muito longa.
Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro; nem lho vimos. Porém a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados, como os de Entre Douro e Minho, porque neste tempo de agora os achávamos como os de lá.
Águas são muitas; infindas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por bem das águas que tem.
Porém o melhor fruto, que dela se pode tirar me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar.
E que aí não houvesse mais que ter aqui esta pousada para esta navegação de Calecute, isso bastaria. Quanto mais disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa santa fé.
E nesta maneira, Senhor, dou aqui Vossa Alteza conta do que nesta terra vi. E, se algum pouco me alonguei, Ela me perdoe, pois o desejo que tinha de tudo vos dizer, mo fez pôr assim pelo miúdo.
E pois que, Senhor, é certo que, assim neste cargo que levo, como em outra qualquer coisa que de vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer graça especial, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro – o que d'Ela receberei em muita mercê.

Beijo as mãos de Vossa Alteza.
Deste Porto Seguro, da vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de Maio de 1500.

Pero Vaz de Caminha.
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Domingo, 14 de Dezembro de 2008

SABOR DE CAFÉ

 

 

O café é uma bebida que nos traz um prazer para o corpo e a mente, bebida encorpada que nos seduz ao paladar, traz uma sensação de energia e vivacidade, que nos ajuda a melhorar o humor e a mandar embora uma tendência à depressão. Nas últimas décadas, os degustadores do bom café ficaram cada vez mais exigentes, o consumo de um café mais selecionado e sofisticado, vem a se tornar um hábito. Casas de café, os chamados cafés, tornam-se abundantes, investem desde a moagem até a seleção dos grãos (arábica ou conilon), trazendo uma bebida mais refinada e encorpada, com um aroma acentuado e a deixar um gosto mais persistente na boca.
Libidinoso, excitante, o ato de tomar um simples café é sublime. Quase uma poesia sem versos, elaborada no aroma que empesta o ar, no trave acentuado que nos queima e segura-se à língua, na cor de um vinho negro e quente. O beijo de uma boca a saber ao café é um grande prelúdio do amor!

O Café Através dos Tempos e dos Costumes

A história do café é conhecida a partir da era cristã, com registros do século IX, que aponta a sua origem em terras da Etiópia, no nordeste da África, onde era cultivado. Dali seguiu para o Egito, atravessou o Mar Vermelho e chegou a Arábia. É a partir do consumo dos árabes que a história do café torna-se encorpada. A origem da palavra café, segundo algumas versões, é de que vem do árabe "qahwa", que significa "vinho da Arábia". É na Arábia que a infusão do café recebe o nome de kahwah ou cahue (ou ainda qah'wa, do original em árabe). Os turcos otomanos chamavam à bebida de kahve, que significava vinho. O termo coffea arabica foi dado pelo naturalista sueco Carl von Linné, já no século XVIII.
No início os pastores árabes usavam a infusão da fruta para produzir um chá que evitava o sono. Reza a lenda que, Kaldi, um pastor, viu a excitação das ovelhas quando comiam os frutos do cafeeiro, contou a sua descoberta aos monges, que passaram a usar esta infusão para evitar o sono enquanto meditavam.
Foi na Pérsia que se torrou o fruto pela primeira vez, transformando-o em um vinho negro, que se espalhou para a Europa e o restante do mundo antigo.
Com a difusão pelo mundo, o café foi perseguido, tido como uma bebida de excitação mental e da alma. Primeiro os maometanos consideraram a bebida imprópria, incompatível com as leis de Maomé. Mas o tempo venceu o preconceito dos maometanos, tornando-se uma das bebidas mais consumidas por eles. Com a queda de Constantinopla, tomada aos cristãos pelos otomanos, em 1453, o café chegaria a esta cidade grega, e em 1475, surgiu a primeira loja de café do mundo. Com a expansão do islamismo e dos descobrimentos marítimos, foi inevitável que a bebida chegasse aos mais diversos lugares. Quando chegou aos reinos cristãos, o consumo do café foi proibido pelos papas, por ser visto como uma bebida dos islamitas. Clemente VIII foi o papa que liberou o consumo do café para o mundo cristão.
A expansão pela Europa é lenta, mas definitiva. Chega em Veneza, em 1570. Devido à perseguição da igreja à bebida, só em 1652 foi aberta a primeira casa de café, na Inglaterra.
O café como é consumido nos tempos atuais, começa a adquirir forma somente quando em 1672, é aberta a primeira casa de café em Paris, na França. É na Cidade Luz que o açúcar é adicionado pela primeira vez à bebida, e dela começa a fazer parte.
Até chegar ao Brasil, o café tem uma longa peregrinação pelo mundo. Em determinado momento da história o café chegou a ilha de Java (atual Indonésia). É a partir de Java que os holandeses, através do seu dinamismo do comércio marítimo, executado pela Companhia das Índias Ocidentais, introduzem o café no Novo Mundo, espalhando a sua plantação e cultura nas Guianas, Cuba, Martinica, Porto Rico e São Domingos. Em 1727, Francisco de Mello Palheta, trouxe para o Brasil, dentro do seu bolso, uma muda de café arábica da Guiana Francesa. Desde então o café se tornou uma bebida típica dos costumes e tradições dos brasileiros. Foi justo o café o responsável pelas riquezas produzidas no Brasil do fim do século XIX e início do século XX. Nos dias de hoje é impossível ver o Brasil sem o café, os brasileiros sem o cafezinho.

O Perfil de Sabor

Para que a pessoa ao degustar um café, possa descobrir as suas características, e, sem remorsos, entregar-se a este prazer, a ABIC (Associação Brasileira da Indústria do Café), mostra como distinguir as características dos cafés e reconhecer as suas preferências:
Aroma: é o odor típico da bebida na xícara. Ele pode variar de suave a intenso. Não deve ser fraco ou estranho a café.
Sabor: é o gosto agradável da bebida, que permanece na boca durante vários minutos. Pode ser suave ou intenso. Não pode ser desagradável, nem estranho.
Corpo: é a sensação de viscosidade que fica na boca, ao se tomar o café, podendo variar de leve a encorpado.
Torração (ponto de torra): é a cor do grão ou do pó, após a torração. Quanto mais escuro, mais amargo o café.
Moagem: é o nível de granulometria do pó. Quanto mais fino, mais amarga e escura fica a bebida. Quanto mais grosso, mais suave o café.
Tipo da bebida: são três tipos principais. A mole, que identifica um café suave e equilibrado; a dura, que identifica uma bebida encorpada e agradável; e a rio, que caracteriza um café de sabor intenso e marcante.
O Perfil de Sabor é definido também, pelos tipos de grãos de café que são usados na industrialização, que podem ser do tipo Arábica ou Conilon.
Arábica: é o café mais produzido em todo o mundo e também no Brasil. É o responsável pela diversidade de sabores e aromas da bebida. Os cafés Gourmet (cafés de alta qualidade) exigem grãos arábicas de alta qualidade.
Conilon: é usado em combinações com o café arábica. Ele possui menor acidez e tem mais cafeína que o arábica. No Brasil é produzido no Espírito Santo, Rondônia e Bahia.

Café, Saudável Tentação

Perseguido por décadas pelos vigilantes da saúde, o café já foi condenado pela medicina, tido com uma bebida prejudicial à saúde. Injustiça que estudos mais recentes e conclusivos contesta. Nos últimos tempos o hábito de tomar café foi redimido, hoje é visto como um alimento natural que faz bem à saúde. O café possui os chamados ácidos clorogênitos, que quando torrados produzem substâncias que alteram as endorfinas do cérebro, responsáveis pela melhora do humor. As quino-lactonas são formadas quando os grãos são torrados. A sensação de bem-estar que temos ao ingerirmos a bebida, ajuda na prevenção da depressão.
o café possui cafeína, potássio, zinco, ferro, magnésio e diversos outros minerais em pequenas quantidades. O grão do café também possui aminoácidos, proteínas, lipídeos, além de açúcares, polissacarídeos e polifenóis (ácidos clorogênitos), que ajudam a combater os radicais livres do nosso corpo, responsáveis pelo envelhecimento e por doenças cardiovasculares e ligadas ao câncer.
Estudos científicos garantem que o consumo moderado do café (entre três a quatro xícaras por dia), ajuda às crianças e aos adolescentes a aprender melhor na escola, e aumenta a memória imediata; combate os radicais livres, com suas propriedades antioxidantes que evitam o envelhecimento, doenças cancerígenas e infarto do coração.
Então que tal um brindar o dia com uma deliciosa xícara de café? Cheese!
 
 
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Domingo, 7 de Dezembro de 2008

O FOGO E AS CINZAS & TEMPO DE SOLIDÃO - MANUEL DA FONSECA

 

 

Manuel da Fonseca, um dos maiores representantes do neo-realismo português, além de exímio contista, destaca-se também como romancista (“Cerromaior” -1943, “Seara do Vento” - 1958) e poeta (“Rosa dos Ventos” - 1940, “Planície” - 1942). É como contista que iremos analisá-lo a seguir.
Ao contrário das personagens de Miguel Torga, que surgem do nada e tornam-se densas e humanas, as personagens dos contos de Manuel da Fonseca são mais elaboradas, mais estruturadas, dificilmente surpreendem dentro do imprevisto. As personagens adquirem uma personalidade psicológica que evoluí conforme o meio social em que se encontra, mantendo sempre uma estrutura equilibrada, de onde a razão vai de encontro ao que esperamos da vida, do quotidiano, seja ele vivido no campo ou na cidade. Cada personagem ficcional de Manuel da Fonseca parece a reunião de três indivíduos reais, ou seja, o autor transporta para a ficção duas ou três personalidades reais, fazendo assim, um trabalho de elaboração, onde a história contada tende a um clímax esperado, nunca, ou quase nunca, espontâneo como vimos nos contos de Miguel Torga. Aqui analisaremos os livros de contos “O Fogo e as Cinzas” e “Tempo de Solidão”, duas obras de tempos diferentes da história portuguesa. O “O Fogo e as Cinzas“ é o retrato das pequenas vilas e aldeias do interior português, personagens típicas dessas terras, que compõem o conjunto de uma sociedade secular. “Tempo de Solidão” retrata a cidade da grande, a urbanidade e a transformação dos costumes, o homem do interior migra para a grande cidade, muitas vezes a perder-se diante do anonimato urbano.

O Fogo e as Cinzas, Retratos do Interior Português

Ao analisarmos os contos do livro “O Fogo e as Cinzas” (19ª edição - Caminho - 1992), vamos encontrar semelhanças com os “Contos da Montanha” de Miguel Torga. Tal qual Torga, estes contos foram escritos durante o Estado Novo, tendo sido publicados pela primeira vez em 1951. Para compreendermos melhor a época, os contos estão situados numa Europa pós-guerra, onde os primeiros anos da guerra fria e da afirmação nuclear são os principais problemas. Enquanto assistimos ao enterro dos nacionalismos extremados, o Nazismo na Alemanha e o Fascismo na Itália, a Península Ibérica vive sob as ditaduras de Franco em Espanha e de Salazar em Portugal. É na ditadura de Salazar, voltada para as colônias africanas, numa política totalmente isolada do resto da Europa, fechada às mudanças intelectuais do mundo, que surge os contos aqui analisados. Neles vamos sentindo uma desolação das personagens que pouco a pouco. vêem surgir lentamente um progresso nas vilas e nas aldeias. Com este progresso acontece a perda de certos costumes, o eterno olhar saudosista do português sobre o que evoluí e o que se perde com tal evolução.
Manuel da Fonseca faz desses contos sutis viagens através de Troia, desce por Sines, Milfontes, guia-nos até o Alentejo, indo desembocar no Algarve. Ao contrário de Torga, que faz das pedras transmontanas o cenário das suas personagens, Fonseca faz de várias regiões personagens também do campo, mas não só a gente que trabalha na terra, a gente humilde e sem esperança, aqui surge também donos de terras, com todos os seus caprichos e passionalismos, como no conto “Amor Agreste", onde força e paixão assumem um voluntarismo subtil, numa tensão mista de amor e desejo:

“António de Alba Grande, que tirara a namorada de dentro da golpelha, livrou-a da mordaça e da corda que lhe tolhia os membros. Afastou-se um pouco para o lado.“

Também encontramos trabalhadores típicos das vilas como os bombeiros voluntários, uma profissão muito respeitada e quase heróica no interior português. No conto “O Fogo e as Cinzas”, são as memórias da personagem descritas na primeira pessoa, que nos conduz através dos acontecimentos que mudaram a sua vida. Por duas vezes o fogo na cidade alterou a vida da personagem. A primeira vez, quando a namorada foi salva, mas quando saiu nos braços do bombeiro quase nua, o narrador jamais aceitou a vergonha do fato, deixando-se dominar pelo machismo e preconceitos das aldeias:

E poderia eu ter casado com Antoninha, depois de todos a observarem de barriga ao léu? Ainda agora coro ao pensar que estive quase, quase a fazê-lo.”

Também vamos encontrar os tropas de “Noite de Natal”, os mendigos, o adolescente que abandona a infância de “O Retrato”, enfim, as personagens mais diversificadas e típicas, que constroem um realismo lusitano.
Ao olharmos para os contos de Manuel da Fonseca, vamos encontrar as personagens normalmente inseridas em determinados locais , num largo, num café, numa casa, cujas ações das mesmas vão sucedendo como um cotidiano bucólico, um marasmo perene do dia a dia. Primeiro os costumes vão sendo descritos para que tenhamos uma visão perfeita do local focalizado, do espaço, do ambiente, onde as personagens surgem como visitas, lentamente tomam forma e adquirem o controlo das ações, sobressaindo-se ao cenário. O tempo é sempre o momento de contar uma história, pode ser uma noite na taberna, um dia num monte alentejano, alguns anos no largo de uma cidade, mas sempre de acordo com a evolução da visão das personagens diante da vida. Assim, as marcas da transformação dos tempos e da paisagem, vão sendo mostradas diante da descrição da sensação das personagens. É o progresso que chega e leva embora a paisagem humana:

“Antigamente, o Largo era o centro do mundo. Hoje é apenas um cruzamento de estradas, com casas em volta e uma rua que sobe para a Vila. O vento dá nas faias e a ramaria farfalha num suave gemido, o pó redemoinha e cai sobre o chão deserto. Ninguém. A vida mudou-se para o outro lado da Vila.”

Na descrição acima, no conto “O Largo”, ao contrário das personagens de Torga, onde parecem submergirem da paisagem agreste, as personagens de Manuel da Fonseca vêm em primeiro plano. O traço psicológico é evidenciado a cada parágrafo, as transformações do ambiente e do cenário vão sendo analisados por determinada personagem, que psicologicamente acompanha as mudanças do ambiente e, por fim, a mudança de atitudes, ou seja, elas evoluem mediante o exterior:

“O comboio Matou o Largo. Sob o rumor do rodado de ferro morreram homens que eu supunha eternos. O senhor Palma Branco, alto, seco, rodeado de respeito. Os três irmãos Montenegro, espadaúdos e graves. Badina fraco e repontão. O Estroina, bêbado, trocando as pernas, de navalha em punho. o Má Raça, rangendo os dentes, sempre enraivecido contra tudo e todos. O lavrador de Alba Grande, plantado ao meio do Largo com a sua serena valentia. Mestre Sobral. Ui Cotovio, rufião, de caracol sobre a testa. O Acácio, o bebedola do Acácio, tirando retratos, curvado debaixo do grande pano preto.”

Tempo de Solidão, Uma Urbanidade Saudosista

Ao analisarmos os contos de “Tempo de Solidão” (3ª edição - Caminho -1985), vamos encontrar um Manuel da Fonseca totalmente urbano, perdido no progresso rápido da tecnologia, inserido no dia a dia da cidade e nas latitudes suburbanas ao redor dos grandes centros. Devemos analisar com a visão da mudança dos tempos, pois o conto “Tempo de Solidão” foi editado pela primeira vez em 1969, pelos Estúdios Cor. Nele vamos encontrar a solidão de um casal, separado pelo dia a dia, pelo trabalho na cidade. Os despojos do dia, os acessórios do cotidiano, a casa no subúrbio, a creche do filho, o telefone, a secretária, os escritórios; enfim, um mundo de transição entre o fim do regime salazarista e das mudanças contidas pré-1974. Nota-se perfeitamente o azedume de não ver nada além do marasmo, a tristeza de viver um tempo de estio. As personagens são tomadas por uma desolação do quotidiano, por um saudosismo dos tempos dos cafés do interior, da vida sem o metropolitano, da cidade sem o campo. Silvia e Guilherme temem o dia a dia, a opressão da nova vida urbana que vivem, o estar juntos, mas distanciados pela correria dos dias. Trabalhos separados, camas juntas, o encontro no fim da noite, os desejos do dia a dia. Desejos voyeuristas e dissimulados. A vontade de quebrar com o estabelecido, de fugir da rotina, o massacre das obrigações, as culpas do silêncio de cada um, por fim os corpos que se desejam no fim da noite, fazendo do momento de prazer a fuga de tudo:

“A princípio confuso, depois nítido, sobre os ombros de Guilherme, e apagando-lhe as feições, surge aos olhos de Sílvia a cara do “operário”, tal como ela a sentira, no consultório: calma, forte, repassando-a de serenidade. No mesmo instante, sobre o vidro embaciado da janela do comboio, projecta-se, aos olhos de Guilherme, como imagem de perdida felicidade, o rosto fresco e jovem da mulher entrevista no café. “

Nestes contos, também nos deparamos com a venda das ideologias em nome da posição social e do trabalho. A personagem de “Uma Boa Passagem de Ano” é o exemplo do homem que para ter uma subida social dentro da empresa, despojou-se de valores pessoais, intimistas, perdendo um certo orgulho próprio. Apesar de querer estar em determinada posição social, é claramente repelido pelos outros, quando ele próprio repele àqueles que não pensam como ele ou, não sobem nas esferas sociais. Melancolicamente descobre que a sua ascensão é uma farsa, que apesar das mudanças, continua a admirar o amigo que mais pensa desprezar, e despreza a si próprio:

Ria tanto que me agarrei à barriga. E ao chegar ao carro ainda ria. “O Dimas não percebe”, pensava eu, e ria. “Cada um no seu lugar”, ria eu, de olhos arrasados de lágrimas. “Sim - ofendidos, mas curvados!” ”

Traçando um pouco o retrato do escritor famoso que não gosta de dar entrevistas, Manuel da Fonseca retrata em “A Entrevista” o modelo ideal do novo homem que viria com os anos setenta, ou seja ,o jovem pobre do interior, que para sobreviver trabalhava em vários empregos e custeava os estudos. Aqui ainda o reflexo do salazarismo, em que a luta, o trabalho, a humildade, fazem da componente psicológica do português o estereótipo do fim do Estado Novo:

“-Uma parte, na província, outra parte, aqui, na cidade. Um homem e uma mulher que passam tormentos para que o filho tire um curso. Querem elevá-lo à classe beneficiada pelo dinheiro. É assim que eles pensam que se deve fazer. Mas, na cidade, há uma rapariga que pensa de maneira diferente. E o rapaz, o tal que anda a tirar o curso à custa da miséria dos pais, descobre o erro em que vive. É isto o romance...”

Manuel da Fonseca , é aqui mais melancólico do que nunca, parece muitas vezes fugir do tempo atual e mergulhar no saudosismo de outrora. Saudades da juventude ou do tempo em que Portugal era um país de brandos costumes, com uma guerra colonial nas costas e cinqüenta anos de ostracismo cultural trancados nos calabouços da história? Saudades portuguesas.

Manuel da Fonseca

Manuel Lopes Fonseca, escritor do neo-realismo português, nasceu em 15 de outubro de 1911, em Santiago do Cacém, região do Alentejo.
Manuel da Fonseca deixou o Alentejo para concluir os estudos em Lisboa. Mas é o Alentejo com as suas aldeias e vilas, que vai povoar o universo do escritor ao longo de sua obra, que mais tarde acaba por se tornar urbana.
Militante do Partido Comunista Português (PCP), esta militância e escolha ideológica refletir-se-iam claramente na composição psicológica das personagens e na sociedade que as cercava. O escritor fez parte do grupo do Novo Cancioneiro, fazendo da sua obra uma importante intervenção social e política.
Manuel da Fonseca chegou a fazer a Escola de Belas-Artes, deixando registros dos seus traços em retratos de amigos, com José Cardoso Pires, mas nunca se sobressaiu como artista plástico.
Manuel da Fonseca morreu em 11 de março de 1993, em Lisboa, aos 81 anos de idade.


OBRAS:

Poesia

1940 – Rosa dos Ventos
1942 – Planície
1958 – Poemas Dispersos
1958 – Poemas Completos

Contos

1942 – Aldeia Nova
1951 – O Fogo e as Cinzas
1968 – Um Anjo no Trapézio
1973 – Tempo de Solidão

Romance

1943 – Cerromaior
1958 – Seara de Vento

Crônicas

1989 – Crônicas Algarvias
 
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Sexta-feira, 5 de Dezembro de 2008

TEMPORADA DE VERÃO - AO VIVO NA BAHIA: TRÊS VOZES DO BRASIL

 

 

A Tropicália estava no seu auge, quando foi interrompida, em dezembro de 1968, pela prisão de Gilberto Gil e Caetano Veloso, depois exilados em Londres. Na época o movimento caminhava para uma fase psicodélica, cada vez mais voltada para o rock, como refletiu o álbum “Gal”, de Gal Costa, de1969. O exílio duraria de 1969 a 1972, quando primeiro retornou Caetano Veloso, depois Gilberto Gil. Havia uma imensa expectativa do público, dos críticos e dos curiosos, para uma possível retomada da Tropicália. Mas os tempos eram outros, e as carreiras do trio tropicalista tinham passado por várias fases.
A grande expectativa era ver novamente Gal Costa, Caetano Veloso e Gilberto Gil juntos em um mesmo palco, que à exceção de uma apresentação de improviso, fora da programação, no festival da ilha de Wight, na Inglaterra, em 1970, e do grande evento do “Phono 73”, não acontecia desde os tumultuados idos de 1968. Quando voltaram do exílio, Gilberto Gil fez shows com Gal Costa e com Caetano Veloso, que por sua vez fez shows com Chico Buarque, além de um encontro histórico com João Gilberto e Gal Costa, em um programa de televisão que se deu pouco antes da volta de Londres, em 1971. Esta expectativa de ver os três juntos foi vislumbrada quando, em janeiro e fevereiro de 1974, foi gravada uma seqüência de shows individuais dos três cantores, em datas diferentes, feitas em um mesmo palco, no auge do verão, no Teatro Vila Velha, em Salvador, que se transformaria no álbum "Temporada de Verão – Ao Vivo na Bahia".
Temporada de Verão” é um registro à parte na carreira de Gal Costa, Gilberto Gil e Caetano Veloso, pois longe da psicodelia final do Tropicalismo, inaugura uma nova fase nas carreiras dos cantores, principalmente nas carreiras de Gal Costa e Caetano Veloso. Traz nove faixas, com interpretações únicas e definitivas na carreira de cada um. É um disco que reflete um momento de expectativa, que decepciona não pelo conteúdo, mas por não haver um encontro entre os três em nenhum momento do registro dos shows, também não há duos, são interpretações solitárias, de shows individuais, mas que se interligam, formando um conceito de disco próprio para a época. Gal Costa participa de duas faixas, Caetano Veloso de três e Gilberto Gil é contemplado com quatro faixas. “Temporada de Verão” em momento algum traz o saudosismo da época tropicalista dos cantores, mas consolida as carreiras que atingiriam o ápice nas próximas décadas, aqui com um gosto jovial de quem ainda não tinha dez anos de estrada, mas que já deixara marcas indeléveis na história da MPB.

Ao Vivo, Em Pleno Verão na Bahia

No verão de 1974, o Brasil ainda se recuperava do rescaldo que deixara o furacão Secos e Molhados, banda que, com a sua proposta irreverente vendera 800 mil cópias no álbum de estréia, feito que à época, era exclusividade de Roberto Carlos. Antes de o ano chegar ao fim, outra surpresa aconteceria no cenário musical brasileiro, o lançamento do álbum “Gita”, de Raul Seixas, que venderia 600 mil cópias.
É no meio desse turbilhão pelo qual passa a MPB, que surge o “Temporada de Verão”, de Caetano Veloso, Gal Costa e Gilberto Gil, álbum lançado em abril de 1974, gravado em Salvador, no Teatro Vila Velha, de janeiro a fevereiro daquele ano, com produção de Perinho Albuquerque e Guilherme Araújo. O álbum teve faixas gravadas na casa de Caetano Veloso, por não ter ficado tecnicamente boas na gravação ao vivo no Teatro Vila Velha. Para não perder a atmosfera do ao vivo, nessas faixas foi usado o som dos aplausos no final.
O álbum traz uma capa belíssima, com um horizonte laranja sob o mar, indicando um verão quente, no meio do horizonte, a cobrir o sol, surgem os rostos opostos de Caetano Veloso e Gilberto Gil, no meio do rosto dos dois, surge em três tiras de fotografias verticais, o rosto de Gal Costa, como o centro daquele sol. Na contra-capa, um texto sucinto de Guilherme Araújo revela o que é aquele álbum histórico:
Mais uma vez, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa juntos, como sempre, para deleite de seus inúmeros fãs e admiradores queridos, gravados ao vivo, na Bahia, no Teatro Vila Velha, no período de 10 de janeiro a 22 de fevereiro de 1974.”

Três Faixas com Caetano Veloso

Caetano Veloso vinha de um retumbante fracasso, o álbum “Araçá Azul”, lançado em 1973, considerado excessivamente experimental, tinha sido devolvido por várias lojas e tirado de catálogo. Só nos anos oitenta o álbum seria redimido e relançado. Esta fase da carreira do cantor transitava entre o que fora a época da Tropicália e a época do exílio, que resultara em grande produção de canções escritas em língua inglesa, refletidas nos álbuns “Caetano Veloso” (1971) e “Transa” (1972). Ainda não se conseguia ver qual o caminho que um dos inventores da Tropicália seguiria. A resposta viria neste disco.
Com a genial “De Noite na Cama” (Caetano Veloso), Caetano Veloso inicia a sua intervenção no álbum (é a segunda faixa do disco), canção já gravada por Erasmo Carlos, e que seria um grande sucesso na voz de Marisa Monte nos anos noventa. Com esta música, ressurge um Caetano Veloso despido da melancolia dos fogs londrinos (apesar da canção ter sido feita em Londres), pronto para retomar a sua carreira no Brasil não como experimental, mas definitiva. A música é agradável, sensual, existencial, jovial, mostra um compositor em sua essência, irreverente, apaixonado e apaixonante.
O Conteúdo” (Caetano Veloso) é a segunda intervenção de Caetano Veloso no álbum. A canção traz um ritmo que lembra as músicas de Jorge Ben, aqui homenageado, juntamente com outros dois Jorges (Mautner e Salomão). Alude à profecia que um vidente baiano tinha feito: que o autor morreria em 1975. Reflexiva, misto de existencialismo com a ironia do desbunde, em que tudo se pensa, mas nada se conclui. Caetano Veloso voltaria a fazer algo parecido em “Ele me Deu Um Beijo na Boca”, do álbum “Cores, Nomes” (1982). Os versos abaixo, traduzem a essência da canção:

Tudo vai bem, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo
E o divino conteúdo
A íris do olho de Deus tem muitos arcos


Felicidade” (Lupicínio Rodrigues), encerra a intervenção de Caetano Veloso, e também o disco (é a última faixa do álbum). Belíssima canção, é a surpresa do disco, torna-se um grande sucesso radiofônico, trazendo a voz do cantor de volta às rádios do país. Com duração de mais de seis minutos (6:29), era impossível prever a sua execução pelas rádios. Triste, poética, melancólica, a música às vezes parece que se irá transformar na clássica “Luar do Sertão” de Catulo da Paixão Cearense, numa intervenção incidental. Esta canção parece conciliar Caetano Veloso com o público brasileiro, saudoso do autor de “Alegria, Alegria”. Finalmente ele parece ter chegado ao Brasil, iniciando uma nova fase após a findada em “Transa” e a incompreendida em “Araçá Azul”.

Gilberto Gil, a Apoteose do Show

Gilberto Gil vinha de um grande sucesso em 1973, a canção do lado B de um compacto, “Xodó (Eu Só Quero Um Xodó)", de Dominguinhos e Anastácia. Um sucesso popular que o cantor não tinha desde “Aquele Abraço”, canção de 1969, hino da sua despedida quando rumou para o exílio. O movimento estudantil voltara a tomar fôlego em 1973, e com ele o endurecimento da ditadura, que resultou nas mortes por tortura, do presidente da UNE Honestino Guimarães e do estudante de geologia da USP Alexandre Vanucchi Leme (o Minhoca). Os estudantes convidaram Gilberto Gil para um show na Politécnica. O show que teria 30 minutos, durou 3 horas, e Gil apresentou a sua nova canção de protesto feita em parceria com Chico Buarque “Cálice”. Esta canção foi proibida pela ditadura militar e Gilberto Gil e Chico Buarque não a puderam cantar no evento “Phono 73”, festival promovido pela Polygram. É desse ano tumultuado que Gilberto Gil chega ao verão de 1974. Suas intervenções ao lado dos estudantes são claramente refletidas no show e no álbum “Temporada de Verão”.
Terremoto” (Paulo César Pinheiro – João Donato), inicia a intervenção espetacular, alegre, jovial e bicho grilo de Gilberto Gil. O cantor só entra a partir da quarta faixa, seguindo consecutivamente até a sétima faixa. Como o título sugere, Gilberto Gil entra como um terremoto, apagando as intervenções contidas de Gal Costa e Caetano Veloso. Após o exílio, a barra pesada que se vivia no país, aqui o cantor avisava, que diante da confusão dos tempos, por onde que andasse, deveria trazer os pés no chão.
O Relógio Quebrou” (Jorge Mautner), segue o aviso que o cantor dera no início. Divertida, interpretada por um Gilberto Gil cáustico, enérgico, que mostra os ratos nos porões das nossas mentes enquanto ela é silenciada pelo sistema, pelo mundo à nossa volta, preso nos ponteiros de um relógio quebrado, numa época da história em que não se sabe se a meia-noite era o meio-dia da existência. Gilberto Gil termina a canção perguntando para a platéia “Sacou o meu recado?”.
O Sonho Acabou” (Gilberto Gil) começa com Gilberto Gil assoviando “Carinhoso” e a chamar pelo nome de Pixinguinha, que naquele verão completava um ano de sua morte, e pelo nome de Clementina de Jesus. A música foi inspirada no que o cantor viu no mítico festival de Glastonbury, no interior da Inglaterra, feito na concepção esotérica para ser o festival dos festivais da era de aquário. Entre uma pirâmide, três palcos e gurus, por lá passaram todos os grupos alternativos, regados de ácidos lisérgicos. Para Gilberto Gil, ao ver o festival findar, as barracas desmontadas, era a certeza de que a frase de John Lennon “The dream is over”, da música “God”, fazia sentido, encerrando o fascínio do psicodelismo. A canção, ao contrário do que sugere o título, não é saudosista ou triste, é alegre, bicho grilo, quase que a fugir para um pseudo-psicodelismo.
Cantiga do Sapo” (Jackson do Pandeiro – Buco do Pandeiro) encerra a intervenção de Gilberto Gil, numa apoteótica interação com o público. É uma canção alegre, divertida, bucólica, que se intercala com “O Sonho Acabou”. Incisiva, alegre, a trazer uma dúbia interpretação entre o sistema vigente e a ideologia flower power, a intervenção de Gilberto Gil chega ao fim de uma forma contundente, mas com uma leveza que só um poeta como o cantor sabia galgar diante de um verão lacerante, sob uma ditadura militar.

Gal Costa, Nova Fase em Duas Canções Perenes

Gal Costa chegava em 1974, despida totalmente da imagem do auge do desbunde, quando fora eleita a sua musa. A cantora vinha do bem sucedido show “Índia”, com o qual excursionara por umas 40 cidades brasileiras e resultara em um álbum do mesmo nome. O show trazia uma atmosfera folk-glitter, a distanciar-se do sucesso de “Gal a Todo Vapor”, de 1971-72. O dueto que fizera com Maria Bethânia “Oração de Mãe Menininha”, de Dorival Caymmi, na apresentação do “Phono 73”, tornara-se um grande sucesso radiofônico.
No show do Teatro Vila Velha, Gal Costa começava a sua intervenção com a música “O Dengo que a Nega Tem”, de Dorival Caymmi, e terminava com a inédita “Flor do Cerrado”, que Caetano Veloso fizera para ela. Nenhuma das interpretações da cantora destas músicas foram registradas no álbum “Temporada de Verão”. A omissão de “Flor do Cerrado” compreende-se, pois foi guardada para o álbum que Gal Costa lançaria em maio daquele ano. Mas a subtração de “O Dengo Que a Nega Tem” é imperdoável. No álbum a cantora teria apenas duas músicas registradas.
Quem Nasceu” (Péricles R. Cavalcanti), é a canção escolhida para abrir o álbum, que se inicia com uma voz feminina. A canção nos traz uma Gal Costa já com uma interpretação contida, cool, que se refletiria no seu próximo álbum, o “Cantar”. A canção é doce, como a voz da cantora, que aqui é quase transformada em um templo colorido, traz um existencialismo com resquícios da filosofia dos hippies e da geração flower power, que busca a sua mística nas metáforas da natureza:

O sol nasceu, a lua nasceu
O dia nasceu, o sol nasceu
É tudo figura
É tudo mentira
Quem nasceu fui eu
Quem nasceu foi você
E a gente não sabe bem como
E nem sabe por que”

Acontece” (Cartola), é a segunda e última intervenção de Gal Costa no álbum “Temporada de Verão”. Um feliz encontro da cantora com o mestre Cartola. Todas às vezes que Gal Costa visitou o repertório deste compositor (“Cordas de Aço”, “As Rosas Não Falam”), produziu grandes obras-primas na sua carreira. “Acontece” é uma música melancólica, que traz a face final do amor, o triste reflexo de quando uma das partes já não tem paixão, quando o coração gela e já não há como fazê-lo renascer para o sentimento esgotado. A interpretação cool de Gal Costa acentua a melancolia de se esquecer da paixão pela estrada, e a dor de quem é esquecido. Com a gravação bem sucedida desta música por Gal Costa, o Brasil ganhou dois presentes: a belíssima interpretação da cantora e o primeiro disco gravado por Cartola, aos 65 anos de idade. O álbum “Cartola”, de 1974, produzido por Marcus Pereira, foi possível a partir desta redescoberta do mestre naquele verão da Bahia.
A forma considerada cool, de Gal Costa cantar a partir deste álbum, desagradaria totalmente aos que estavam acostumados com a fase visceral de “Fa-tal – Gal a Todo Vapor”, ou ainda com o folk-glitter de “Índia”. Aqui Gal Costa inaugura claramente uma nova fase, resgatando o que tinha sido proposto em “Domingo” (1967) e concretizado em “Cantar” (1974). O que parece cool é apenas o conter da leoa libertada em “Gal” (1969), a cantora torna-se mais intimista nos agudos, mas acende um lirismo mais doce, mais quente na voz de agudos domados, mas jamais esquecidos.
Temporada de Verão”, visto à luz de muitos verões que se passaram desde que foi lançado, é um álbum fundamental na carreira de Gal Costa, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Deixou-nos órfãos dos duetos que se esperava dele, mas registrou uma proposta de carreira que os cantores iriam seguir por algum tempo, até novas rupturas. Ele foi o embrião para a realização do refulgente “Doces Bárbaros”, de 1976, que acrescentaria Maria Bethânia ao trio, e presentear-nos-ia com duetos inesquecíveis, concretizando o que foi apenas sugerido no álbum de 1974.

Ficha Técnica:

Temporada de Verão - ao vivo na Bahia
Polygram
1974

Direção de produção: Guilherme Araújo e Perinho Albuquerque
Direção de estúdio: Perinho Albuquerque
Técnicos de gravação: Val Aliperti (ass. técnica)
Estúdio: Gravado ao vivo na Bahia
Arranjos: Gilberto Gil e Perinho Albuquerque
Corte: Joaquim Figueira
Capa: José Roberto Aguilar
Fotos: Tereza Eugênia

Gravado ao vivo na Bahia, Teatro Vila Velha, em janeiro e fevereiro de 1974


Caetano Veloso – Gal Costa – Gilberto Gil – Temporada de Verão - ao vivo na Bahia

1 - Quem nasceu
(Péricles R. Cavalcanti)
Interpretação: Gal Costa
2 - De noite na cama
(Caetano Veloso)
Interpretação: Caetano Veloso
3 - O conteúdo
(Caetano Veloso)
Interpretação: Caetano Veloso
4 - Terremoto
(Paulo César Pinheiro - João Donato)
Interpretação: Gilberto Gil
5 - O relógio quebrou
(Jorge Mautner)
Interpretação: Gilberto Gil
6 - O sonho acabou
(Gilberto Gil)
Interpretação: Gilberto Gil
7 - Cantiga do sapo
(Buco do Pandeiro - Jackson do Pandeiro)
Interpretação: Gilberto Gil
8 - Acontece
(Cartola)
Interpretação: Gal Costa
9 - Felicidade (Felicidade foi embora)
(Lupicínio Rodrigues)
Interpretação: Caetano Veloso

 
publicado por virtualia às 15:32
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Terça-feira, 2 de Dezembro de 2008

SIDA, UM FLAGELO CONTEMPORÂNEO

 

 

Em 1988, há vinte anos, a OMS (Organização Mundial da Saúde), instituiu o Dia Mundial de Combate a SIDA, 1 de dezembro. Numa época em que ser declarado portador do vírus HIV constituía uma sentença de morte, era preciso que se chamasse a atenção do mundo para o maior flagelo do final do segundo milênio. Longe ia a descoberta de um tratamento eficaz, muito menos uma esperança de cura. O mundo assistia às imagens de pessoas debilitadas pelo flagelo, cadavéricas a definhar, cujo único destino era a morte. A face da SIDA assustava o mundo! A tragédia era iminente.
Longe vai da atualidade a imagem dos flagelados da SIDA dos anos de 1980 e da primeira metade da década de 1990. Tratamentos adormeceram o vírus, mas não o eliminou. Estudos sobre o HIV ainda vão longe de encontrar uma cura. Se a sobrevida dos portadores aumentou com as drogas, não os livrou da sina da doença. A SIDA não desapareceu do planeta, pelo contrário, está camuflada diante das terapias disponíveis. Tão perigosa quanto dantes, a doença mata silenciosamente os seus portadores, sem as imagens trágicas que se repetia no início da sua descoberta.
Relatórios recentes apontam que 33 milhões de pessoas estão infectadas pelo HIV em todo o planeta. O continente africano é o mais afetado pela epidemia. O tratamento é de alto custo, o que impossibilita que chegue aos países pobres do planeta. Nos países desenvolvidos a epidemia está camuflada pelas drogas terapêuticas, fazendo com que uma nova geração que não viu as mortes trágicas de outros tempos não a tema, descuidando-se da prevenção. Na primeira década de 2000 diminuiu o número de mortes causadas pela SIDA, em 2001 foram 2,2 milhões de mortos, em 2007 caiu para 2 milhões. Mas a ONU admite que a guerra está longe de ser vencida, e com a crise econômica mundial, teme que falte verba para o financiamento do tratamento em todo o planeta.
A SIDA hoje não tem cura, continua a matar silenciosamente. O melhor caminho para evitá-la continua a ser a prevenção, daí grandes campanhas pelo uso do preservativo nas relações sexuais. Desde o primeiro caso detectado no fim dos anos 1970 até os tempos atuais, a SIDA continua a ser um grande flagelo da humanidade.

Os Primeiros Anos da Epidemia

Em 12 de dezembro de 1977 morria, aos 47 anos, Margrethe P. Rask, médica e pesquisadora dinamarquesa, vítima de estranhos sintomas para a sua idade. Uma autópsia revelaria que os pulmões da médica estavam cheios de microorganismos que ocasionaram um tipo agressivo de pneumonia. Margrethe P. Rask tinha estado na África, a estudar o Ebola. Teria sido uma das primeiras vítimas da SIDA, mesmo não se tendo a certeza até os dias de hoje. Há relato ainda, de uma amostra sanguínea de um homem de Kinshasa, Congo, morto em 1959, que analisada recentemente ter-se-ia revelado soropositiva.
Em 1981 começaram a aparecer vários casos de doenças oportunistas em grupos de homossexuais americanos, principalmente na cidade de São Francisco, e em menor incidência, em Los Angeles e Nova York. A estranha doença chamou a atenção do centro de controle de doenças dos EUA. Descrevia-se pela primeira vez a Síndrome de Imunodeficiência Adquirida, sem nomeá-la cientificamente. A doença foi erroneamente vista como um mal que afetava apenas aos homossexuais, fazendo que o preconceito do governo Reagan ignorasse-a, não liberando verbas para um estudo mais profundo. Esta postura reacionária de Ronald Reagan, mantida por vários anos, atrasaria as descobertas de tratamentos por uma década, causando uma das maiores catástrofes de todos os tempos, a propagação da epidemia e, conseqüentemente, a morte de milhões de pessoas.
Em 1982 o centro de controle de doenças norte-americano começou a colher dados relacionados aos homossexuais, seus nomes e os nomes dos que com eles mantiveram relações sexuais, na tentativa de mapear a doença apenas em um determinado grupo de risco. Durante as entrevistas com os homossexuais, vários declararam ter tido relações sexuais com um mesmo homem, o comissário de bordo franco-canadense Gaetan Dugas. Este homem seria conhecido mais tarde como o paciente zero, teria sido através dele que a doença cruzou o Atlântico. Gaetan Dugas, o paciente zero, acusado pela história de ter trazido o vírus do HIV para os EUA, morreria em 1984.
A doença desconhecida começou a tomar proporções de uma epidemia iminente, atingido ainda em 1982, pessoas tóxico-dependentes, e as primeiras transmissões detectadas em transfusões sanguíneas. 14 países relataram ainda neste ano, casos da doença. Também no Brasil sete casos foram confirmados, todos em São Paulo e em pacientes homo ou bissexuais. Sem ainda ter um nome cientifico, a doença era chamada pela imprensa como GRID (Gay Related Immune Deficiency), ou como “Peste Gay”.
Completamente desconhecida, a doença causou pânico no mundo quando, em 1983, foram relatados casos de infecção em crianças nos EUA, sendo posta a hipótese de que poderia ser transmitida pelo ar e por utensílios domésticos comuns. Diante do alastramento epidemiológico, foi realizada em Denver, EUA, a primeira conferência sobre SIDA, chegando à triste conclusão de que 3000 casos da doença atingiam os americanos, com um total de 1283 mortos. A doença era ainda relatada em 33 países.
A identificação do agente etiológico da SIDA, um retrovírus, só foi feita em 1984, quando dois grupos de cientistas reclamaram para si a descoberta: o grupo do Dr. Luc Montagnier, do Instituto Pasteur de Paris e o grupo do Dr. Robert Gallo, do Instituto de Virulogia Humana da Universidade de Maryland, Estados Unidos. Na França o agente etiológico da SIDA foi reconhecido como LAV, associado a linfadenopatia; nos EUA foi chamado de HTLV-3. Após uma longa disputa entre as comunidades científicas pelos louros da descoberta, chegou-se ao consenso de denominá-lo HIV (em português vírus da imunodeficiência humana).
Já nesta época 7000 norte-americanos tinham a doença, obrigando o governo Reagan a dar maior atenção à epidemia, fazendo com que a secretária de saúde e serviços humanos da época, declarasse que antes de 1990 haveria uma vacina e a cura da SIDA. A esta altura a população homossexual de São Francisco está em grande número infectada, como medida preventiva, todas as saunas gays da cidade, ponto de encontros sexuais, são fechadas. Esta medida estender-se-ia por várias cidades da Europa.

Rock Hudson, o Primeiro Rosto da SIDA

Já identificado, o HIV continuava a ser visto pejorativamente como o “Câncer Gay”. Esta concepção gerou o estigma da doença. Já se identificava que a principal via de transmissão era a sexual. A SIDA revelava-se como uma doença de comportamento, o que trazia para quem a contraía, além do sofrimento físico, a discriminação e a culpa. Para o portador do HIV, desmoronava-se muitas vezes, a imagem de uma vida escondida, camuflada pela pressão social. Esta culpa comportamental atinge até os dias atuais os infectados pelo HIV, causando o isolamento social dos mesmos.
Se a SIDA parecia atingir somente os homossexuais, aos poucos ela foi mostrando-se sem limites de classes, raças ou opções sexuais. Já em 1985, dois outros grupos de pessoas padecem com a epidemia, o dos dependentes químicos e o dos hemofílicos. Já a SIDA há muito fazia parte do mundo e as transfusões de sangue eram feitas sem a menor preocupação com a doença. Os bancos de sangue isolavam apenas os grupos de homossexuais, os únicos apontados como possíveis transmissores do HIV. Só em 1985 chegava ao mercado um teste sorológico de metodologia imunoenzimática para diagnosticar a infecção causada pelo HIV, podendo ser utilizado para triagem nos bancos de sangue. Este teste passou a ser usado em todo o mundo, diminuindo o risco de transmissão do HIV através de transfusões sanguíneas.
É em 1985 que a epidemia toma proporções que comovem e assustam o mundo. A contaminação do astro de Hollywood, Rock Hudson comove o planeta, e a mídia explora a exaustão, o definhar de um grande ídolo. O ator fazia a série “Dinastia”, quando revelou a doença ao mundo. O pânico instalou-se no meio das atrizes que em cena, trocaram beijos apaixonados com ele. A descoberta fez com que os estúdios norte-americanos obrigassem os atores a um teste de HIV para que pudessem fazer cenas mais quentes entre si. A medida causou pânico e discriminação entre a classe artística. Enquanto a polêmica corria o mundo, Rock Hudson definhava a olhos vistos diante dos fãs e do mundo.
Em julho de 1985, os jornais anunciavam a chegada de Rock Hudson à França, para submeter-se a tratamento. Era a primeira vez que uma figura pública conhecida em todo o planeta padecia do flagelo do fim do século. A SIDA deixava de ser uma doença de vítimas anônimas para adquirir um rosto, uma expressão que causaria a comoção de todos. Esta identificação entre a SIDA e a celebridade revela ao mundo a sua homossexualidade, a necessidade de aceitação desta condição pela sociedade, já não é o “gay” anônimo das saunas de São Francisco que está morrendo, mas um homem com uma história e uma dignidade, mais definida pela luta contra a doença. Luta em vão, pois não há cura para tão trágico flagelo. A celebridade de Rock Hudson faz da sua morte anunciada uma causa que toma proporções políticas. Torna-se o primeiro militante anti SIDA apontado pela cronologia histórica da doença.
Pela primeira vez desde que detectada, a SIDA, refletida na figura de Rock Hudson, desperta a atenção além da maldição e do terror, gera-se nas pessoas princípios como a solidariedade e a coragem lúcida para enfrentar o flagelo. Pela primeira vez celebridades de todo o mundo, como Elizabeth Taylor (amiga pessoal do ator), mobilizam-se para apoiar os doentes. Uma militância densa anti SIDA espalha-se pelo mundo, sendo amplamente apoiada e divulgada pela imprensa. Ao mesmo tempo em que a militância solidária expande-se pelo mundo, o medo da doença aumenta. Afinal, se uma celebridade era infectada por uma doença mortal, qualquer pessoa estaria sujeita a ela. A SIDA torna-se uma realidade temida. Já não se pode ignorá-la, ou achar que se está imune não tendo relações homossexuais. A SIDA torna-se uma doença de risco em todas as vertentes das sociedades do planeta.
Os curtos meses de agonia e de luta de Rock Hudson, fez dele uma figura exemplar da luta contra a SIDA. No dia 3 de outubro de 1985, o jornal francês “Libération” anunciava a morte do ator de forma contundente: “Rock Hudson é o primeiro rosto vivo da SIDA (...) existira então a SIDA antes de Rock Hudson e a SIDA depois de Rock Hudson”.

As Primeiras Drogas Anti-Virais

Só em 1986, na segunda conferência internacional da SIDA, em Paris, foi reportada experiências iniciais com a primeira droga antiviral, a azidotimidina (AZT). Neste mesmo ano o FDA (Food and Drug Administration) aprovou o seu uso. Pela primeira vez uma droga revelava um impacto, ainda que discreto, sobre a mortalidade dos infectados pelo HIV.
No mesmo ano a OMS lançou uma estratégia global de combate à SIDA. Seringas e agulhas foram recomendadas que fossem esterilizadas. Também o uso do preservativo passou a ser estimulado entre as pessoas como medidas preventivas. Controles mais rígidos foram impostos aos bancos de sangue. Mesmo assim a epidemia avançava e a morte dos portadores era uma questão de tempo tão logo recebesse o diagnóstico. O AZT era uma luz ínfima dentro de um túnel sombrio e sem fim.
Após a morte de Rock Hudson, várias celebridades abraçaram a causa da militância a favor dos portadores do HIV e contra a discriminação dos mesmos. Em 1987 a princesa Diana abriu o primeiro hospital especializado em tratamento da AIDS na Inglaterra. Durante a inauguração, a princesa não usou luvas quando apertou as mãos de pessoas com SIDA, fato que suscitou comentários de toda a imprensa mundial, ajudando a dissipar as atitudes preconceituosas das pessoas.
Para intensificar mais a militância e o apoio aos portadores do HIV, a OMS instituiu em 1988, o Dia Mundial da Luta Contra SIDA, em 1 de dezembro. A primeira edição do Dia Mundial da AIDS teve como tema: “Junte-se ao esforço mundial”. Neste mesmo ano, os irmãos Henfil e Chico Mário (irmãos de Herbert de Souza, o Betinho), hemofílicos e contaminados pelo HIV, morreriam.
Em 1989 algumas drogas estão disponíveis no mercado, entre elas o DDI. O alto preço do AZT torna-se 20% mais barato. No dia 1 de dezembro o tema do Dia Mundial da SIDA era: “Cuidemos uns dos outros”. A década de 1980 era encerrada tendo a SIDA como o maior flagelo da humanidade, e com um número cada vez maior de infectados pelo planeta. Falar sobre cura era uma utopia distante a anos-luz.

Uma Luz Sobre o Tratamento

A década de 1990 começou com a morte de grandes celebridades, como o cantor e compositor brasileiro Cazuza, o cantor britânico Freddie Mercury e o bailarino soviético Rudolf Nureyev. O mundo parece incapaz diante do flagelo. Programas de trocas de seringas nas farmácias pelos dependentes químicos como meios de prevenção são criticados, causando polêmicas, assim como a distribuição de preservativos pelas escolas e locais públicos. A epidemia é uma realidade, assim como os costumes morais vigentes. Era preciso que se conscientizasse que a SIDA era a própria contestação dos costumes, e para combatê-la era preciso que se modificasse hábitos e preconceitos seculares.
Enquanto a luta contra os costumes e os preconceitos, como a resistência do uso dos preservativos pelos homens e pela igreja, está acirrada, também a luta nos laboratórios é tenaz, mas lenta diante das mortes causadas pela SIDA. Em 1991 um outro antiretroviral, o DDC, é autorizado para pacientes intolerantes ao AZT. Mesmo diante de novas drogas, constatava-se que a eficácia do tratamento era limitada, criando a resistência do vírus com o passar do tempo. Só em 1992 começa a ser usado a combinação de duas drogas (AZT e DDC), com relativo sucesso. Em 1994 é que se passou a estudar um novo grupo de drogas, os inibidores da protease, que demonstraram um potente efeito contra a infecção quando associados com drogas do grupo inibidor da transcriptase reversa (AZT). Esta associação passou a ser chamada de “coquetel”. Mas esta descoberta não chegou cedo aos pacientes, devido aos custos elevados do tratamento. Além disso, para que se formasse a combinação ideal para obter resultados eficazes, um grande número de comprimidos tinha que ser ingeridos pelos infectados, o que dificultava imensamente o tratamento e a tolerância dos mesmos.
Os inibidores da protease só foram aprovados pela primeira vez pelo FDA em 1995. A esta altura a SIDA era a principal causa de morte entre americanos com idade entre 25 e 44 anos. A epidemia atingira, desde o início da infecção, 400 mil pessoas nos EUA, com 250 mil mortes.
A luz sobre o tratamento dos infectados pela SIDA chegou finalmente, em 1996, quando um grande número de drogas foi aprovado pelo FDA, fazendo que diminuísse o preço, facilitando os governos dos países a assumirem os custos do tratamento de cada infectado. Neste ano, na conferência internacional da SIDA, ocorrida em Vancouver, foi anunciada que a combinação de três drogas tinha efeitos mais eficazes do que a terapia dual. Estava lançado o tratamento que aumentaria a sobrevida dos infectados, melhorando a sua qualidade de vida e terminando com a sentença de morte que o diagnóstico da SIDA trazia para quem contraía o vírus.
No fim da década de 1990, a SIDA adquiria uma outra face, o rosto de uma doença que já não se mostrava fulminantemente mortal. Passou a ser vista como uma doença crônica, que poderia ser tratada por muitos anos. Foi nesta década, em 1994, que se criou o UNAIDS, integrado por cinco agências de cooperação de membros da Organização das Nações Unidas (Unesco, Unicef, OMS, UNDP e UNFPA), além do Banco Mundial, com o objetivo de defender e garantir uma ação global para prevenção da SIDA.

A Negação do HIV Como o Causador da SIDA

A epidemia chegou a ser negada por um grupo de cientistas, que afirmou em suas teorias que o HIV não era a causa da SIDA. Para os autores da hipótese, a SIDA não seria causada pelo HIV, e sim pela poluição, pela fome, pelas drogas e pela vida destrutiva do indivíduo. Alguns chegavam a afirmar que as drogas descobertas na terapêutica da doença eram ineficazes, outros que elas desenvolviam a doença.
Estas hipóteses nasceram com Peter Duesberg, em 1984, e alcançou grandes adeptos até a década de 1990, quando David Ho desenvolveu medicamentos potentes que destruíram 99% do vírus, proporcionando aos infectados uma vida quase normal.
Ainda hoje a teoria de que o HIV não causa a SIDA persiste como uma fagulha especulativa dentro do mundo científico. Recentemente, Robert Gallo, um dos descobridores históricos do HIV, alimentou na Austrália a polêmica, ao declarar que os seus estudos não comprovavam que o HIV causava a SIDA. Esta declaração contribuiu ainda mais para que Gallo fosse visto como um grande oportunista da ciência, sendo desacreditado pelo meio acadêmico.
A negação do HIV foi politicamente aproveitada por vários líderes políticos de países africanos, que usavam da teoria para não gastar com medicamentos para o povo infectado. Esta atitude causou uma grande catástrofe na África do Sul. O ex-presidente Thabo Mbeki por anos assumiu a teoria, tentando desacreditar a SIDA em seu país, minimizando o problema, como se ele não existisse, chegando a duvidar da relação entre o HIV e a SIDA. Com isto, o seu ministério da saúde recomendou ao povo sul-africano que incluísse alho e limão na alimentação para combater a doença, espalhando que os remédios de tratamento eram uma farsa. O resultado desta omissão pôs a África do Sul no topo das estatísticas, com 5,5 milhões de infectados, sendo hoje o país com o maior número absoluto de casos no mundo.

Em Memória dos que Foram Disseminados pela SIDA

Na primeira década do terceiro milênio a SIDA tornou-se uma doença silenciosa. Não se vê os infectados sucumbirem como foi visto no auge do flagelo. O controle da doença garante aos infectados um anonimato, algo impossível no início da descoberta da doença, que chegava fulminante, deixando exposta a vida e a saúde de quem padecia deste mal.
Os portadores sofrem com um tratamento difícil, repleto de efeitos colaterais, como a distribuição de peso corporal, transformando o corpo e o rosto dos portadores completamente, muitas vezes destruindo-lhes a auto-estima. Não há mais grupos de riscos, a SIDA afeta homens, mulheres, crianças, jovens, velhos, homossexuais, heterossexuais. Continua a ser uma doença de comportamento, onde o uso da camisinha é o método mais eficaz de combate. Verifica-se um aumento da infecção em pessoas com mais de cinqüenta anos, que motivados por tratamentos com drogas contra a impotência, passaram a ter novamente uma vida sexual ativa, mas se esqueceram da prevenção, algo que não lhes é tão familiar quanto aos jovens.
Sem cura, a SIDA está longe de ser uma epidemia controlada, tão pouco extinta. 33 milhões de pessoas estão infectadas no mundo. A crise financeira pela qual passa os países, ameaça que os governos continuem a gastar tanto com o tratamento da doença. A SIDA continua a ser uma grande sombra camuflada no âmago da humanidade. Basta um sopro para que ela volte a devorar vidas com a mesma voracidade que se assistiu por mais de uma década.
No Dia Mundial da Aids, em 2008, um imenso laço vermelho, símbolo da luta contra a doença, foi erguido em frente à Casa Branca, em Washington, numa clara demonstração de respeito e empenho em seu combate pelo governo norte-americano, um grande contraste com a época do governo Ronald Reagan, que fechou os olhos à doença, discriminando-a como um “câncer gay”, condenando assim, milhões de vidas. É neste dia que o mundo inteiro reúne-se em uma militância benéfica através do planeta. Nestes momentos de luta, nomes ainda rondam as nossas memórias, nomes de vítimas deste grande flagelo, que de uma forma ou de outra, devem sempre ecoar na lembrança de todos nós: Rock Hudson, Rudolf Nureyev, Cazuza, Freddie Mercury, Brad Davis, Sandra Bréa, Thales Pan Chacon, Mário Viegas, Carlos Augusto Strazzer, Anthony Perkins, Cláudia Magno, Lauro Corona, Zacarias, Antonio Variações, Renato Russo, Herbert de Souza (o Betinho), Henfil... ou o nome de um amigo ou parente próximo.

publicado por virtualia às 16:36
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