Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008

OS 100 ANOS DA IMIGRAÇÃO JAPONESA NO BRASIL

 

 

Quando o navio Kasato Maru atracou no porto de Santos, no dia 18 de junho de 1908, trazia a bordo 165 famílias, camponeses pobres, oriundos do norte e do sul do Japão. Vinham de um Japão assolado por uma crescente explosão demográfica, e incapaz de gerar empregos para toda esta população efervescente. 781 pessoas aventuravam-se naquela empreitada ambiciosa e imprevisível às terras do ocidente. Os imigrantes japoneses chegaram ao Brasil em busca de melhores meios de vida, e de enriquecimento que os possibilitasse de voltar para a terra do sol nascente.
Além da esperança de uma vida melhor, os japoneses traziam na bagagem a certeza de que voltariam à terra natal. Não voltaram, com perseverança, sabedoria, trabalho e determinação, construíram uma identidade própria, que atingiu a cultura brasileira; marcada pela assimilação de costumes e tradições, e, principalmente, pela miscigenação deste povo com os nativos do Brasil.
O Kasato Maru trouxe consigo, uma das mais bem-sucedidas imigrações que aportaram no Brasil. 100 anos depois, a colônia japonesa conta com cerca de 1,5 milhão de pessoas que fazem parte da população brasileira, seus descendentes estão inseridos como brasileiros, formando uma parte das várias digitais que identificam a população plural do Brasil.

A Bordo do Kasato Maru

Com a abolição da escravatura no Brasil, em 1888, os negros libertos, na sua maioria, marcados pelas cicatrizes profundas deixadas da relação senhor-escravo, abandonaram as lavouras, espalhando-se pelas cidades, em busca de uma nova vida. Esta fuga de mão-de-obra deixou as lavouras de café, principal riqueza do Brasil da época, carentes de quem nela trabalhasse. A solução foi o governo subsidiar e incentivar as migrações de mão-de-obra estrangeira. A imigração italiana foi a que trouxe mais mão-de-obra para as lavouras brasileiras. Mas a decepção dos italianos com a forma de vida que aqui encontraram, o não cumprimento dos contratos prometidos, causaram grandes problemas, o que levou o governo da Itália a proibir, em 1902, a imigração subsidiada.
Na mesma época, o Japão vivia a crise de uma explosão demográfica. O país nipônico deixava, no fim do século XIX, o feudalismo, mecanizava as lavouras, o que gerou a ociosidade da mão-de-obra nos campos japoneses. Milhares de pessoas migraram para os centros urbanos do Japão, causando um colapso de pessoas nas cidades. A solução encontrada para o problema, foi a emigração dos japoneses para o mundo. Esta emigração encontrou dificuldades na Austrália, onde sofreu com os maus tratos. Muitos foram para os Estados Unidos, que a partir de determinado momento, vetou a migração japonesa.
Diante da carência de mão-de-obra nas lavouras brasileiras, e da grande explosão demográfica pela qual passava o Japão, os dois países incentivaram a migração do povo nipônico para a América do Sul. Em novembro de 1907, Ryu Mizuno, diretor da Companhia de Migração do Império (Kokoku Shokumin Kaisha), assinou o acordo que foi o responsável pela primeira leva de imigrantes japoneses vinda para o Brasil.
Selado o acordo com o governo brasileiro, no dia 28 de abril de 1908, saía do porto de Kobe, o navio Kasato Maru, com 781 passageiros a bordo. Pelo acordo assinado, o governo brasileiro só aceitava os imigrantes casados, vetando veementemente a entrada de solteiros no país. No dia 28 de junho de 1908, o Kasato Maru chegou ao porto de Santos, em São Paulo. De Santos seguiram para a cidade de São Paulo, sendo hospedados na Pensão dos Imigrantes, de onde foram distribuídos pelas lavouras do país.
A imigração japonesa encontrou no solo brasileiro, condições para que se estabelecesse. Donos de uma exemplar aptidão para trabalhar a lavoura, não foi difícil desenvolver este talento nas férteis terras brasileiras, tornaram-se especialistas no cultivo de lavouras de hortaliças e legumes. Essencialmente agrícola nos seus primórdios em solo brasileiro, com o passar dos anos a colônia japonesa alcançou os centros urbanos, em destaque para a cidade de São Paulo.

O Período Negro da Segunda Guerra Mundial

De 1908 a 1930, a imigração japonesa tornou-se intensa, principalmente depois da Primeira Guerra Mundial. Em 1932, os imigrantes nipônicos no Brasil passavam dos 130 mil. Em 1934, o presidente Getúlio Vargas, movido por sua política nacionalista, impõe cotas para esta imigração.
Concentrada no isolamento das colônias rurais, os imigrantes japoneses preservaram as suas tradições, continuando a falar a língua japonesa em suas casas. Criaram escolas japonesas para onde enviavam os filhos.
Às vésperas da Segunda Guerra Mundial, em 1938, novamente o governo do presidente Vargas impõe medidas que atingem a colônia japonesa, desta vez restringindo às atividades culturais e educacionais dos imigrantes italianos, alemães e japoneses. Deflagrada a guerra, só em 1942 o Brasil é obrigado a participar dos seus conflitos, combatendo ao lado dos aliados, declarando assim, guerra ao eixo Alemanha-Itália-Japão. É o período mais conturbado da história da imigração japonesa no Brasil.
Declarada a guerra ao Japão, o governo brasileiro rompe relações com aquela nação, fecha definitivamente as escolas japonesas no país, em todo o território nacional é proibido que se fale à língua nipônica.
Durante a guerra, há cerca de 200 mil imigrantes japoneses no Brasil. Destes, a maioria não aceitou a derrota do Japão, em 1945. A colônia dividiu-se em duas, os "derrotistas" (makegumi), que representavam menos de 20% dos imigrantes, e os "vitoristas" (kachigumi). Foi criada a organização Shindo Renmei, após a rendição do Japão, com o propósito de propagar no Brasil a idéia de que o Japão não tinha perdido a guerra, que as notícias da rendição era uma invenção dos EUA para enfraquecer o Japão. O Shindo Renmei perseguiu os japoneses que acreditaram que o Japão realmente tinha perdido a guerra, com o objetivo de matar os “derrotistas”, também chamados de “corações sujos”. Entre kachigumis e makegumis, oficialmente, 23 pessoas foram mortas entre 1946 e 1947. A organização só foi desfeita em 1947, quando o presidente Dutra mandou interrogar mais de 30 mil pessoas, prendendo 300 suspeitos, ameaçando com a expulsão, a 155 indivíduos da colônia.

Brasil e Japão, Parceiros Financeiros

O Brasil e o Japão só viriam a retomar as suas relações diplomáticas em 1952. É no fim desta década, que o Japão, já reerguido do colapso econômico no qual fora lançado durante a Segunda Guerra Mundial, começa a investir economicamente no Brasil. Em 1958, o estaleiro Ishikawajima do Brasil, conhecido como Ishibras, começou as suas operações. Este foi o primeiro de vários investimentos industriais que vieram através de acordos bilaterais entre Brasil e Japão. Em 1967, empresas japonesas, como a Toshiba e a NEC, começaram a investir no Brasil.
Nos anos oitenta, devido à crise gerada pela instabilidade financeira pós-ditadura militar, aconteceu o inverso na migração japonesa, descendentes brasileiros dos japoneses, emigraram para o Japão, à procura de melhores oportunidades de trabalho. Os emigrantes brasileiros no Japão, conhecidos na sua maioria por dekasseguis (brasileiros de origem japonesa). Cerca de 2500.00 emigrantes brasileiros vivem atualmente no Japão.
Desde 1908, a imigração japonesa no Brasil vai na sua quarta geração. A cada geração, há um termo japonês para designá-la:

Isseis – Japoneses da primeira geração, nascidos no Japão – 12,51%
Nisseis – Filhos de japoneses – 30,85%
Sanseis – Netos de japoneses – 41,33%
Vonseis – Bisnetos de japoneses – 12,95%

Cerca de 1,5 milhão de pessoas fazem parte da colônia japonesa no Brasil, a maior colônia de japoneses fora do Japão. Quando chegaram ao porto de Santos, em 1908, a maioria vinha com o propósito de passar apenas alguns anos no Brasil, voltando logo a seguir. Não voltaram. Fizeram do Brasil uma segunda pátria, introduzindo aqui a sua cultura, a sua miscigenação. Deram à cultura do Brasil, uma identidade ainda mais plural, com traços da cultura oriental.
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Terça-feira, 30 de Dezembro de 2008

GAL COSTA 1969, O ÁLBUM QUE FECHOU 1968

 

 

Caetano Veloso e Gal Costa lançaram em 1967, o álbum “Domingo”, iniciando assim, duas das mais belas carreiras da história da MPB. Álbum delicado, de canções intimistas, de uma poesia que lembrava a Bossa Nova. “Domingo” não acenava para a explosão que viria pouco tempo depois do seu lançamento, quando os cantores mergulharam nas águas turbulentas da Tropicália.
1968 foi o ano do lançamento do primeiro álbum a solo de Caetano Veloso, mas o primeiro disco solo de Gal Costa só iria sair em 1969, devido às agitações políticas e sociais que assolaram o país naquele ano, envolvendo os tropicalistas na roda viva e na ventania histórica que se vivia intensamente. O álbum Gal Costa, que trazia o esplendor da Tropicália, foi todo produzido e feito em 1968, o atraso em seu lançamento, em 1969, oxigenou o movimento tropicalista, estrangulado pela prisão de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Este primeiro álbum solo da carreira de Gal Costa transformou-a em uma solitária musa do tropicalismo, cantando para os seus mestres, exilados ou calados pela ditadura militar. A diva Gal Costa nascia para o Brasil, perpetuando-se até os dias atuais.

Divino Maravilhoso, o Programa dos Tropicalistas

A apresentação de Gal Costa no IV Festival da Record, no dia 14 de novembro de 1968, foi o momento de ruptura total da sua imagem até então comportada, sempre de cabelos curtos e de estirpe bossa nova. A cantora surgiu nos palcos do festival vestindo roupas de hippie, cabelos black power e a ousar a soltar os agudos em gritos de protestos. Gal Costa defendeu a música "Divino, Maravilhoso" (Caetano Veloso - Gilberto Gil), que ficou em 3º lugar no festival, a vencedora foi "São Paulo Meu Amor", de Tom Zé, também ele um tropicalista.
1968 foi o ano dos maiores festivais da música brasileira, que se tornara porta-voz de uma juventude engajada politicamente, querendo derrubar a ditadura militar instaurada no país em 1964. As manifestações estudantis em Paris, em maio, a Primavera de Praga (movimento contra o socialismo soviético na Tchecoslováquia), a prisão dos estudantes da UNE em Ibiúna, todos estes acontecimentos refletiram no festival que Gal Costa cantou “Divino, Maravilhoso”.
Divino Maravilhoso” tornou-se o nome de um programa semanal de televisão da extinta Tupi, dirigido por Fernando Faro e Antonio Abujamra. Apresentado por Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa, o programa foi ao ar de outubro a dezembro de 1968. Um programa totalmente anárquico, com cenas antológicas de Caetano Veloso preso em uma jaula comendo bananas ou plantando bananeira. “Divino Maravilhoso” apresentou nomes de cantores então debutantes no cenário brasileiro, como Jorge Ben, Jards Macalé.
No dia 13 de dezembro, o governo militar decretou o Ato Institucional 5 (AI-5), que dava direito a dissolver o congresso, prender sem hábeas corpus, cassar mandatos e impor a censura, entre outras tragédias. Com o AI-5 a ditadura endureceu ainda mais. Na antevéspera do natal “Divino Maravilhoso” foi ao ar pela última vez, mostrando um provocante Caetano Veloso a cantar “Noite Feliz” com uma arma apontada na cabeça. A apresentação irritou aos militares e à família conservadora que sustentava o regime militar, após tirar o programa do ar, a polícia repressiva do governo prendeu, no dia 27 de dezembro, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Os cantores só seriam libertados na quarta-feira de cinzas de 1969, quando são escoltados pela polícia até Salvador, de onde partem para o exílio em Londres. Termina o tropicalismo.
Para não comprometer os apresentadores, as fitas do programa são totalmente destruídas por seus diretores, ficando apenas registrado na memória de quem o assistiu na época. “Divino Maravilhoso” era uma resposta aos bem comportados programas da TV Excelsior: “O Fino da Bossa”, comandado por Elis Regina e Jair Rodrigues, que foi ao ar de 1965 a 1967, e “Jovem Guarda”, comandado por Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa, de 1965 a 1969. Com “Divino Maravilhoso” o Brasil assistiu à ascensão e à queda do Tropicalismo.

Gal Costa 1969, a Tropicália Pós-1968

Apesar de ter sido lançado em 1969 com o nome de “Gal Costa”, este álbum deve tomar como referência o ano de 1968, pois sua gravação e o seu repertório só poderiam ter acontecido naquele tumultuado ano.
1968 trouxe a Tropicália para o cenário musical. Um movimento que mudou a estética bem-comportada da nossa MPB, sendo uma alternativa à Jovem Guarda e à Bossa-Nova, mesclando as duas e o que havia de mais antigo e de mais novo na nossa MPB. O movimento repercute na era dos festivais, levando uma juventude militante contra a ditadura ao delírio. Caetano Veloso romperia com esta esquerda militante ao apresentar "É Proibido Proibir", no teatro TUCA, no meio de uma grande vaia, urros e protestos ele é impedido de cantar e faz um discurso histórico, definitivo, rompendo de vez com a chamada "caretice" da juventude engajada que queria tomar o poder.
O álbum de Gal Costa foi gravado meses antes de ser lançado, pois o clima de insegurança provocado em 1968 adiou esse lançamento. A cantora havia mudado os cabelos curtos, trocou os vestidos tubinhos bem comportados por plumas e um visual hippie. Deixou os agudos tomar conta da voz intimista.
Ainda em 1968 participou do lançamento do álbum manifesto "Tropicália ou Panis et Circenses", nome tirado de uma tela de Hélio Oiticica, ao lado de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Os Mutantes e Nara Leão, participando de três faixas, entre elas a mítica "Baby".
O álbum “Gal Costa”, lançado em 1969, trazia em seu repertório toda a essência da Tropicália, agonizante naquele momento. Inesperadamente o álbum venderia mais de 100 mil cópias, um grande feito para a época, transformando Gal Costa na única representante da Tropicália. A direção musical do disco é de Rogério Duprat.
O álbum traz a mesma versão gravada no "Tropicália Panis Et Circenses" da canção urbana "Baby" (Caetano Veloso), com a participação de Caetano Veloso, tornando-se a canção mais tocada do disco, revelando a jovem cantora para todo o Brasil, transformando-se no seu primeiro grande sucesso. "Baby" tinha sido feita para Maria Bethânia, que não quis gravá-la. “Baby” fez parte da trilha do filme "Copacabana me Engana", de Antonio Carlos Fontoura.
No álbum, Caetano Veloso participa ainda da balançada e doce "Que Pena - Ela Já Não gosta Mais de Mim" (Jorge Ben), dueto eloqüente, que nada lembra o encontro intimista da dupla nas faixas de “Domingo”.
Também Gilberto Gil participa em duas faixas: no alegre e provocante xaxado "Sebastiana" (Rosil Cavalcanti), e na adolescente "Namorinho de Portão" (Tom Zé), canção regravada pelo Pato Fu que de tão atual, poderia ser tema da novela adolescente “Malhação”.
Gal Costa grava duas canções da dupla que se tornara fundamental nos bastidores da MPB, Roberto Carlos e Erasmo Carlos: o roque "Se Você Pensa" e a reflexiva "Vou Recomeçar", que estrategicamente terminava o lado A e começava o lado B do LP, respectivamente.
Um dos pontos altos do álbum é "Não Identificado" (Caetano Veloso), numa época em que o homem estava preste a descer na Lua, uma bela canção na voz de Gal Costa, confirmando aqui o título de maior intérprete de Caetano Veloso. Momento sublime da cantora "caetaneando".
Na Tropicália há espaço para o protesto, a palavra de ordem, como na provocante "Divino, Maravilhoso" (Gilberto Gil - Caetano Veloso), que por si só daria teses de discussão e, ao mesmo tempo, para canções cantadas em inglês como a pré Flower e Power "Lost in The Paradise" (Caetano Veloso).
Um ícone do álbum é a bossa-tropical "Saudosismo" (Caetano Veloso), que Gal Costa canta com a voz de uma musa da Bossa Nova. Aqui há alusões a várias músicas da Bossa Nova: "Eu, você, nós dois", verso que alude ao começo de "Fotografia" (Tom Jobim). Os refrões da canção são referências explícitas aos sucessos da Bossa-Nova ("Lobo Bobo", "A Felicidade"), e João Gilberto girava na vitrola, mas a voz era da embriagante Gal Costa.
Uma das mais belas canções do álbum é a urbana "A Coisa Mais Linda Que Existe" (Gilberto Gil - Torquato Neto), uma viagem romântica pela cidade de uma juventude que fazia "...festa e comício" numa época que o grito era encerrado pelo Ato Institucional 5 (AI-5), deixando a Tropicália agonizante.
"Gal Costa", de 1969, é a Tropicália que ressurge das cinzas com, segundo Eduardo Logullo: "canções de temáticas urbanas, doces reflexões anarquistas, constatações, citações, provocações, balanço.."
Como era preciso ter atenção, tudo era perigoso, já nada era tão divino ou maravilhoso. Os iconoclastas Gilberto Gil e Caetano Veloso deixavam o Brasil. Sem os amigos, Gal Costa ficava solitária na representação da Tropicália, e encerrava o mais tropicalista de seus álbuns com a confiante e espiritualista "Deus é o Amor" (Jorge Ben):

“Todo mundo vai embora
Mas a chuva não quer parar
Ninguém mais quer ficar
Só eu, sozinho, vou me molhar
Mas eu tenho fé que a chuva há de passar
E aquele sol tão puro
De manhãzinha bem quentinho há de chegar
E os passarinhos vão cantar
Pois a alegria vai voltar
E todo mundo que foi embora vai voltar
Agradecendo a Deus todo mundo vai rezar e cantar
Deus é a vida, a luz e a verdade
Deus é o amor, a confiança e a felicidade
Deus é a vida, a luz e a verdade
Deus é o amor, a confiança e a felicidade."

Ficha Técnica:

Gal Costa
Philips
1969

Direção musical: Rogério Duprat
Estúdios: Scatena e Reunidos
Arranjos: Rogério Duprat, Gilberto Gil e Lanny
Layout: Gian
Direção de produção: Manuel Barenbein

 
Faixas:

1 Não identificado (Caetano Veloso), 2 Sebastiana (Rosil Cavalcanti) Participação: Gilberto Gil, 3 Lost in the paradise (Caetano Veloso), 4 Namorinho de portão (Tom Zé) Participação: Gilberto Gil, 5 Saudosismo (Caetano Veloso), 6 Se você pensa (Erasmo Carlos - Roberto Carlos), 7 Vou recomeçar (Erasmo Carlos - Roberto Carlos), 8 Divino, maravilhoso (Caetano Veloso - Gilberto Gil), 9 Que pena (Jorge Ben) Participação: Caetano Veloso, 10 Baby (Caetano Veloso) Participação: Caetano Veloso, 11 A coisa mais linda que existe (Gilberto Gil - Torquato Neto), 12 Deus é o amor (Jorge Ben)
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Segunda-feira, 29 de Dezembro de 2008

OS MESES DO ANO - JUNHO

 

 
Junho é o mês do primeiro solstício do ano, trazendo a estação quente ao hemisfério boreal e a fria ao hemisfério austral. Quando o Sol atingir o ponto mais ao norte da sua trajetória, a partir do dia 21 de Junho, teremos o solstício, que trará o dia mais longo do ano no hemisfério norte, iniciando o verão, e o menor dia do ano no hemisfério sul, iniciando o inverno.
Sexto mês do ano do calendário gregoriano, com 30 dias, Junho tem o seu nome derivado da deusa Juno, rainha dos deuses, mulher do poderoso Júpiter. Juno corresponde à deusa Hera da mitologia grega. Juno era a deusa que protegia a mulher casada e às suas obrigações seculares. Além de proteger o casamento, a deusa protegia e fortalecia o feto, protegia a mulher na hora do parto, aliviando-a. Por este motivo, Junho tradicionalmente, é tido como o mês ideal para realizar bons casamentos.
Marcando o fim da primavera ou do outono, Junho começa o seu ponto astrológico com sinal em Gêmeos e termina com sinal em Câncer. É o último mês do calendário gregoriano que tem o nome derivado de algum deus mitológico.

Juno, a Divindade Protetora da Mulher e do Casamento

O mito de Hera, a rainha do Olimpo, esposa ciumenta de Zeus, foi assimilado pelos romanos ao mito de Juno. Na Grécia a fiel deusa protegia o casamento e a sua estabilidade. Em Roma Juno assume um caráter menos humano, tornando-se mais divindade, perdendo as características vingativas e ciumentas de Hera, para ser a mãe protetora do lar e da mulher.
A deusa é filha de Saturno e Cibele, irmã e esposa de Júpiter. Quando a fusão do mito de Hera e de Juno acontece na Roma antiga, dá origem a vários epítetos da deusa: Juno Lucetia, divindade protetora da essência feminina e dos seus problemas gerais; Juno Pronuba era a regente dos casamentos; Juno Domiduca era quem conduzia a virgem para a casa do esposo; Juno Lucina era a deusa das mulheres grávidas e do parto, que auxiliava a criança a nascer; Juno Ossipagina fortificava o feto; Juno Rumina fazia com que a mãe tivesse leite farto para nutrir o recém-nascido; Juno Populonia era a deusa que multiplicava os povos; e, por fim, Juno Sospita, invocada na hora do parto para aliviar a mãe do peso da criança.
Assim como a Hera grega, Juno era a personificação do elemento fundamental da família, cultuada principalmente pelas mulheres, representava a fidelidade e as boas relações entre os casais. Era a deusa do amor conjugal. O culto de Juno em Roma, tinha como festa principal a Matronalia, realizada no mês de fevereiro, após uma homenagem na floresta do Palatino. Na Matronalia a mulher-mãe comum era a homenageada, recebendo presentes do marido e dos filhos. A Matronalia é tida por muitos, como a festa que deu origem ao Dia das Mães.

Junhos na História do Mundo

01 de Junho
1920 – Inaugurada, em Berlim, Alemanha, a primeira exposição de dadaísmo no mundo (na foto, dadaísmo, Lovesick, George Grosz, 1916, óleo sobre tela).
1946 – Preso e fuzilado em Bucareste, o ditador romeno Ion Antonescu, executado como criminoso de guerra e aliado dos nazistas.
2001 – Dipendra, príncipe herdeiro do trono do Nepal, comete suicídio após assassinar os pais e vários membros da família real.

02 de Junho
1882 – Morre em uma ilha italiana, Giuseppe Garibaldi, herói responsável pela unificação da Itália.
1949 – Após anexar a parte oriental da Palestina (Cisjordânia), a Transjordânia passa a denominar-se oficialmente Jordânia,
1953 – Coroação de Elizabeth II como rainha do Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte, na Abadia de Westminster.

03 de Junho
1926 – Em Portugal é estabelecido um regime militar e, António de Oliveira Salazar é nomeado pela primeira vez, ministro das finanças.
1963 – Morre o papa João XXIII.
1989 – Morre o líder político e espiritual iraniano, o aiatolá Khomeini.

04 de Junho
1902 – Aberto no Louvre, em Paris, o Museu de Artes Decorativas.
1989 – Dezenas de mortos e centenas de feridos na Praça de Tiananmen, em Pequim, após o exército chinês disparar contra uma multidão de manifestantes.
1992 – Líderes de 180 nações encontram-se no Rio de Janeiro, iniciando a conferência ECO 92.

05 de Junho
1883 – Inaugurado a companhia de trens Orient-Express, trazendo pela primeira vez, vagões leitos.
1925 – Aprovado em Genebra, o protocolo que proíbe o uso de gases venenosos e armas bacteriológicas em guerras.
1967 – Inicio da Guerra dos Seis Dias, de Israel contra os países árabes Egito, Síria e Jordânia.

6 de Junho
1919 – Publicado no jornal Il Popolo d’Italia, o manifesto do movimento fascista, de Benito Mussolini.
1944 – Desembarque das tropas dos Aliados na Normandia, norte da França, o fato entrou para a história como o Dia D.
1968 – Morre o senador norte-americano, Robert Kennedy, atingido por um tiro em um hotel de Los Angeles, na Califórnia.

07 de Junho
1905 – Votado pelo parlamento do Reino Unido da Suécia e Noruega, a separação entre os dois países.
1911 – O vulcão Colima, no México, entra em erupção, causando a morte de 1450 pessoas.
1951 – Executados os últimos criminosos de guerra nazistas que foram condenados pelo tribunal de Nuremberg (foto do tribunal de Nuremberg).

08 de Junho
632 – Morre em Medina, o profeta Maomé, fundador do islamismo.
1928 – Iniciada a Conferência Internacional do Trabalho, em Genebra, Suíça.
1950 – Início da Guerra da Coréia, quando tropas da Coréia do Norte cruzam o paralelo 38, fronteira imposta na conferência de Ialta, entre as duas Coréias.

09 de Junho
1870 – Morre o escritor inglês Charles Dickens, autor de obras como “Oliver Twist” e “David Copperfield”.
1946 – Bhumibol Adulyadej sob ao trono da Tailândia, substituindo o rei Ananda Mahidol, morto em circunstâncias obscuras, com arma de fogo.
1999 – Celebração da coroação do novo rei da Jordânia, Abdalá II, e da sua esposa, Rania.

10 de Junho
1580 – Morre Luís de Camões, grande poeta lusitano.
1901 – Aprovado no parlamento da Bélgica, a anexação do Congo, na África.
1926 – Morre Antonio Gaudi, arquiteto catalão, um dos símbolos de Barcelona.

11 de Junho
1903 – Assassinados o rei da Sérvia, Alexandre I, e a sua esposa.
1951 – Promulgada, em Portugal, a lei que converte as colônias em territórios além-mar.
2001 – Executado o terrorista Timothy McVeigh, responsável pela explosão de um prédio em Oklahoma, em 1995, onde morreram 168 pessoas.

12 de Junho
1872 – Inaugurada a primeira ferrovia no Japão.
1898 – Proclamada a independência das Filipinas pelo general Emilio Aguinaldo.
1994 – Austríacos votam a favor do ingresso do seu país na União Européia.

13 de Junho
1611 – Observadas, pela primeira vez, as manchas no Sol, pelo astrônomo holandês David Fabricius.
1949 – George Orwell publica a sua obra-prima, “1984”.
1996 – Eliminada pelo parlamento, a pena de morte na Bélgica.

14 de Junho
1823 – A Guatemala separa-se do México.
1905 – A tripulação do encouraçado russo Potemkin rebela-se, fuzilando o comandante e vários oficiais (na foto, cartaz do filme “O Encouraçado Potemkin”, de Sergei Eisenstein).
1940 – Durante a Segunda Guerra Mundial, o exército alemão entra em Paris.

15 de Junho
1502 – Cristóvão Colombo, na sua quarta e última viagem à América, descobre a ilha da Martinica.
1932 – Eclode a Guerra do Chaco, entre a Bolívia e o Paraguai.
1994 – Estabelecidas relações diplomáticas entre Israel e o Vaticano.

16 de Junho
1904 – O governador russo Nicolás Bobrikov é assassinado na Finlândia.
1969 – George Pompidou é nomeado presidente da França.
1978 – Estados Unidos assina acordo com o Panamá, em que garante a devolução do Canal do Panamá aos panamenhos no ano 2000.

17 de Junho
1852 – A independência do Paraguai é reconhecida pela Argentina.
1940 – Em Londres, o general De Gaulle funda o Comitê Nacional da França Livre.
1944 – A Islândia torna-se uma República independente.

18 de Junho
1815 – Travada a Batalha de Waterloo, na qual Napoleão Bonaparte é definitivamente derrotado pelos países aliados contra o seu poder.
1997 – Rendição do líder cambojano do Khmer Vermelho, Pol Pot.
2000 – Assinado um acordo em Argel, entre a Etiópia e a Eritréia, pondo fim à guerra que travavam desde 1998.

19 de Junho
1097 – Nobres e plebeus europeus partem para Jerusalém, dando início à Primeira Cruzada, decidida no Concilio de Clermont.
1867 – Fuzilado em Santiago de Querétaro, Maximiliano I, imperador do México.
1953 – Executado em Nova York, o casal Rosenberg, acusado de revelar segredos atômicos à União Soviética.

20 de Junho
1900 – Iniciada a Rebelião dos Boxers, na China, contra estrangeiros e o mundo cristão.
1963 – Durante a Guerra Fria, Estados Unidos e União Soviética criam uma linha de telex, o telefone vermelho, para manter uma comunicação direta entre as duas nações em caso de conflitos.
1991 – Berlim (foto), volta a ser capital da Alemanha unificada.

21 de Junho
1908 – Manifestação feminina reúne 250 mil mulheres em Hyde Park, Londres, que reclamam o seu direito ao voto.
1941 – A Alemanha declara guerra à União Soviética.
1963 – Eleito papa o cardeal Giovanni Montini, assumindo o nome de Paulo VI.

22 de Junho
431 – Realizada a primeira das cinco sessões do Concílio de Éfeso, que reuniu vários líderes cristãos.
1934 – Os Estados Unidos ingressam na Conferência Internacional do Trabalho.
1941 – Os exércitos alemães invadem a União Soviética de Stalin.

23 de Junho
1894 – Criado, pelo Barão de Coubertin, juntamente com 15 países, o Comitê Olímpico Internacional (COI), que restabelecia os jogos olímpicos.
1949 – O papa Pio XII decreta a excomunhão de simpatizantes comunistas.
1952 – Durante a Guerra da Coréia, a aviação norte-americana bombardeia as centrais elétricas de Yalu.

24 de Junho
1633 – Galileu Galilei é libertado da prisão da Inquisição.
1901 – Primeira exposição de Pablo Picasso, na galeria Ambroise Vollard de Paris.
1976 – A Assembléia Nacional do Vietnã declara a reunificação do Vietnã do Sul e Vietnã do Norte, com a capital em Hanói.

25 de Junho
1906 – Pedro Montt vence as eleições para presidente do Chile.
1962 – Formada a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO).
1975 – Independência de Moçambique, colônia portuguesa da África.

26 de Junho
1959 – Cuba rompe relações diplomáticas com a República Dominicana.
1974 – No Chile, nove meses após o golpe militar que derrubou o governo Allende, o general Augusto Pinochet assume os poderes presidenciais.
2000 – Revelado, pelo Vaticano, o terceiro segredo de Fátima, que se referia ao atentado contra um papa, consumado em 1981, contra João Paulo II.

27 de Junho
1660 – O parlamento britânico condena à prisão John Milton, escritor inglês, autor de “O Paraíso Perdido”.
1910 – Porfírio Diaz elege-se pela sétima (e última) vez, presidente do México.
1941 – Durante a Segunda Guerra Mundial, a Hungria declara guerra à União Soviética.

28 de Junho
1914 – O arquiduque Francisco Ferdinando (foto), herdeiro do trono austro-húngaro, é assassinado em Saravejo, gerando o estopim que desencadearia a Primeira Guerra Mundial.
1919 – Assinado o Tratado de Versalhes, que selava a paz entre a Alemanha e as demais nações, após a Primeira Guerra Mundial.
2001 – Slobodan Milosevic, ex-presidente iugoslavo, é entregue ao Tribunal de Haia.

29 de Junho
1900 – Entra em funcionamento a Fundação Nobel, outorgante dos prêmios Nobel.
1948 – Início do regime do “Apartheid”, na África do Sul, onde a minoria branca discrimina a maioria negra.
2001 – Kofi Annan é reeleito secretário geral da Organização das Nações Unidas (ONU).

30 de Junho
1934 – Hitler encerra as SA, executando Ernst Rohm, o seu líder, e, os seus principais colaboradores, no episódio sangrento chamado de “A Noite das Longas Facas”.
1960 – O Congo Belga, ex Zaire e atual República Democrática do Congo, declara a sua independência.
1992 – O governo da Rússia aprova um extenso programa de privatizações de empresas.

Junhos na História do Brasil

01 de Junho
1808 – Circula em Londres, pela primeira vez, o Correio Braziliense, considerado o primeiro jornal brasileiro, dirigido por Hipólito da Costa.
1838 – Morre Cipriano Barata, implicado na Conjuração Baiana de 1798 e na Revolução Pernambucana de 1817.

02 de Junho
1822 – Instalada no Rio de Janeiro, a sociedade maçônica Apostolado da Nobre Ordem dos Cavaleiros de Santa Cruz.
1988 – Assembléia Constituinte fixa em cinco anos o mandato do presidente José Sarney.

03 de Junho
1621 – A Companhia das Índias Ocidentais recebe privilégio de explorar e governar suas conquistas. Três anos depois invadiria o Brasil.
1939 – Primeira demonstração da televisão no Brasil, no Rio de Janeiro.

04 de Junho
1608 – Iniciada a construção do Convento de Santo Antônio, no Rio de Janeiro.
1898 – Nasce em Serra Talhada, Pernambuco, Virgulino Ferreira da Silva, conhecido mais tarde como Lampião, o mais famoso cangaceiro do Brasil.

05 de Junho
1605 – Filipe II de Portugal (III de Espanha) proíbe a escravização de índios no Brasil.
1729 – Nasce em Minas Gerais, Cláudio Manuel da Costa, um dos líderes da Inconfidência de 1789.

06 de Junho
1755 – Instituída a Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão, pelo Marquês de Pombal.
1755 – Iniciada no Rio de Janeiro a construção da igreja da Candelária, que só seria concluída 123 anos depois, em 1898.

07 de Junho
1494 – Assinado o Tratado de Tordesilhas, que dividia as terras recém-descobertas e por descobrir entre os reinos de Espanha e Portugal.
1889 – Posse dos últimos ministros do Império.

08 de Junho
1914 – Fundada a Federação Brasileira de Esportes, origem da CBF.
2000 – O governo, através do INSS, regulamenta pensões de casais homossexuais.

09 de Junho
1597 – Morre na Espanha, José de Anchieta, um pioneiro da evangelização no Brasil.
1828 – O 2º Batalhão de Granadeiros, no Rio de Janeiro, composto por mercenários europeus, amotina-se contra os maus-tratos, num movimento que logo se espalharia por todos os batalhões de estrangeiros.

10 de Junho
1808 – O príncipe regente D. João declara guerra a Napoleão Bonaparte e seus aliados, ordenando “que por mar e por terra se lhes façam todas as possíveis hostilidades”.
1926 – Inaugurado serviço de ônibus no Rio de Janeiro.

11 de Junho
1557 – Morre em Lisboa o rei D. João III, que dividiu o Brasil em capitanias e introduziu o Tribunal da Inquisição em Portugal.
1848 – Morre em Paris Jean-Baptiste Debret, integrante da chamada missão artística francesa, que registrou em suas pinturas a sociedade brasileira dos tempos de D. João VI e de D. Pedro I.

12 de Junho
1641 – Portugal e Holanda firmam armistício na guerra pelo nordeste brasileiro.
1817 – Fuzilados em Salvador, Bahia, três líderes da Revolução Pernambucana de 1817, Domingos José Martins, padre Miguelinho e José Luiz de Mendonça.

13 de Junho
1621 – Rei Felipe III divide a América portuguesa em dois Estados: o do Brasil e o do Maranhão.
1964 – É criado o Serviço Nacional de Informações (SNI), um dos principais instrumentos repressivos do regime militar.

14 de Junho
1901 – Início de quebra-quebra no Rio de Janeiro em reação ao aumento das tarifas dos bondes, que duraria seis dias.
1971 – Teodomiro Braga, militante de esquerda, condenado à morte pelo regime militar, tem sua pena comutada para prisão perpétua.

15 de Junho
1962 – Lei federal nº 4.070 eleva o território do Acre à categoria de Estado.
1991 – IBGE divulga que 16% das mulheres estão esterilizadas.

16 de Junho
1556 – Primeiro bispo do Brasil, Pero Fernandes Sardinha é devorado por índios na Bahia.
1950 – Inaugurado o Estádio Nacional, atual Estádio Mário Filho, no Maracanã.

17 de Junho
1604 – Nasce no castelo de Dillenburg, Alemanha, Maurício de Nassau, que governou as possessões holandesas no Brasil entre 1637 e 1644.
1889 – Última sessão da Câmara dos Deputados do Império.

18 de Junho
1822 – O príncipe regente D. Pedro, através de decreto, proíbe o acúmulo de cargos e exige comprovação de atividades dos funcionários públicos.
1862 – Presos no Rio de Janeiro três oficiais ingleses, estopim para um rompimento entre Brasil e Inglaterra.

19 de Junho
1898 – Primeira filmagem feita no Brasil, por Afonso Segreto, registra cenas da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro.
1984 – Tancredo Neves é indicado pela oposição para concorrer à Presidência.

20 de Junho
1910 – Criado por decreto, o Serviço de Proteção aos Índios.
1952 – A lei federal nº 1.628 cria o BNDE, atual BNDS (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), tendo como diretor o economista Roberto Campos.

21 de Junho
1839 – Nasce no Rio de Janeiro, Machado de Assis, que se tornaria no final do século XIX, a maior expressão da literatura brasileira.
1970 – Brasil vence a Itália, no México, e conquista o tricampeonato da Copa de Futebol do Mundo.

22 de Junho
1552 – Pero Fernandes, primeiro bispo do Brasil, chega à Bahia.
1874 – Inaugurado o telégrafo submarino, ligando o Rio de Janeiro à Europa.

23 de Junho
1865 – Lançado ao mar, na Baía de Guanabara, o encouraçado Tamandaré, primeira embarcação do tipo construída no Brasil, que teve importante papel na Guerra do Paraguai.
1986 – Confronto entre grevistas e polícia deixa dois mortos em São Paulo.

24 de Junho
1966 – 283 marinheiros são condenados por rebelião no maior julgamento do país.
1985 – Estréia na Rede Globo, com grande audiência, a novela Roque Santeiro, que tinha sido censurada dez anos antes pelo regime militar.

25 de Junho
1850 – Aprovado o Código Comercial do Império, em gestação desde 1832.
1892 – Instalado na antiga residência da família real, na Quinta da Boa Vista, o Museu Nacional.

26 de Junho
1862 – Adotado no Brasil, por lei, o sistema métrico francês.
1969 – Lançado o semanário O Pasquim, importante veículo de crítica (bem-humorada) à ditadura militar.

27 de Junho
1763 – Rei D. José I transfere a sede do governo do Brasil de Salvador para o Rio de Janeiro.
1810 – Decreto do príncipe regente D. João manda instalar a Biblioteca Real (cujo acervo originou a Biblioteca Nacional) na igreja da Ordem Terceira do Carmo, no Rio de Janeiro.

28 de Junho
1720 – Eclode em Minas Gerais uma revolta contra o aumento da taxação sobre o ouro.
1977 – Emenda constitucional institui o divórcio no Brasil.

29 de Junho
1862 – Iniciado o serviço de barcas ligando o Rio de Janeiro a Niterói.
1958 – Seleção Brasileira, após derrotar a Suécia por 5 a 2, torna-se campeã da Copa do Mundo de futebol.

30 de Junho
1887 - Iniciada a terceira regência da princesa Isabel.
1987 – Depois que 67 veículos foram destruídos pela população, a justiça volta atrás e suspende o reajuste de 50% das tarifas concedido às empresas de ônibus no Rio de Janeiro.

Nascidos em Junho

01 de Junho
Alanis Morissette, cantora e compositora canadense
Braz Chediak, ator e diretor de cinema brasileiro
Frank Morgan, ator norte-americano
Marilyn Monroe (foto), atriz norte-americana
Morgan Freeman, ator norte-americano
Pat Boone, cantor norte-americano

02 de Junho
Caio Blat, ator brasileiro
Johnny Weissmuller (foto), atleta e ator norte-americano
Stacy Keach, ator norte-americano
Wentworth Miller, ator britânico

03 de Junho
José Lins do Rego, escritor brasileiro
Josephine Baker, cantora e dançarina norte-americana
Luiza Curvo, atriz brasileira
Tony Curtis (foto), ator norte-americano

04 de Junho
Angelina Jolie, atriz norte-americana
Angelo Antonio, ator brasileiro
Bruce Dern, ator norte-americano
Dennis Weaver, ator norte-americano
Fernanda Paes Leme, atriz brasileira
Hugo Carvana, ator e diretor brasileiro
Jorge Palma, cantor e compositor português

05 de Junho
Erasmo Carlos, cantor e compositor brasileiro
Federico Garcia Lorca, poeta e dramaturgo espanhol
Ivon Curi, cantor e ator brasileiro
Marcio Kieling, ator brasileiro
Maria Isabel de Lizandra, atriz brasileira
Mark Wahlberg, ator norte-americano
Sandra Annenberg, jornalista e atriz brasileira
Wanderléa, cantora brasileira
Zuzu Angel, estilista brasileira

06 de Junho
José I de Portugal, 25º rei português
Maysa, cantora e compositora brasileira
Thomas Mann, escritor alemão

07 de Junho
Carla Marins, atriz brasileira
Cláudia Rodrigues, atriz brasileira
Dean Martin, ator e cantor norte-americano
Flávia Alessandra, atriz brasileira
Jessica Tandy, atriz britânica
Liam Neeson, ator irlandês
Paul Gauguin, pintor francês
Prince, músico, dançarino e cantor norte-americano
Tobias Barreto, poeta brasileiro
Tom Jones, cantor britânico

08 de Junho
Eduardo Moscovis, ator brasileiro
Frank Lloyd Wright, arquiteto norte-americano
James Darren, ator norte-americano
Robert Preston, ator norte-americano
Robert Schumann, músico e compositor alemão
Sonia Braga, atriz brasileira

09 de Junho
Cole Porter, músico e compositor norte-americano
Johnny Depp, ator norte-americano
Michael J. Fox, ator canadense
Natalie Portman, atriz israelense
Pagu (Patrícia Galvão), escritora brasileira

10 de Junho
Bibi Ferreira, atriz, cantora e encenadora brasileira
Djenane Machado, atriz brasileira
Hattie McDaniel, atriz e cantora norte-americana
Inês Galvão, atriz brasileira
João Gilberto, cantor brasileiro
Judy Garland (foto), atriz e cantora norte-americana
Marly Bueno, atriz brasileira
Saul Bellow, escritor canadense
Vincent Perez, ator suíço

11 de Junho
Carlos Alberto, ator brasileiro
Carlos Eduardo Dolabella, ator brasileiro
Gene Wilder, ator norte-americano
Isabela Garcia, atriz brasileira
Jacques-Yves Cousteau, ecologista e explorador náutico francês
Reginaldo Faria, ator brasileiro
Richard Strauss, compositor e maestro alemão

12 de Junho
Anne Frank, escritora adolescente alemã
Antonio Grassi, ator brasileiro
Carmem Verônica, atriz e vedete brasileira
Chick Corea, músico de jazz norte-americano
Rômulo Arantes, ator e nadador brasileiro

13 de Junho
Antonio Pitanga, ator brasileiro
Fernando Pessoa, poeta português
Isadora Ribeiro, atriz brasileira
José Bonifácio, estadista brasileiro
Malcolm McDowell, ator britânico
William Butler Yeats, poeta e dramaturgo irlandês

14 de Junho
Camila Pitanga, atriz brasileira
Che Guevara, guerrilheiro revolucionário argentino
Dalton Trevisan, escritor brasileiro
Jerzy Kosinski, escritor polonês
Lavínia Vlasak, atriz brasileira
Linda Batista, cantora brasileira
Marcos Pasquim, ator brasileiro

15 de Junho
Demis Roussos, cantor grego nascido no Egito
Helen Hunt, atriz norte-americana
James Belushi, ator norte-americano
Lilian Lemmertz, atriz brasileira
Sergio Endrigo, cantor e compositor italiano

16 de Junho
Ariano Suassuna, escritor brasileiro
Arnold Vosloo, ator sul-africano
Ivan Lins, cantor e compositor brasileiro
Paulo Gracindo, ator brasileiro
Rui Zink, escritor português
Stan Laurel, ator e diretor inglês

17 de Junho
Aracy Cardoso, atriz brasileira
Arlete Salles, atriz brasileira
Barry Manilow, cantor e compositor norte-americano
Clodovil, estilista, apresentador de televisão e político brasileiro
Igor Stravinsky, compositor russo
Márcia Breia, atriz portuguesa
Ralph Bellamy, ator norte-americano

18 de Junho
Ana Rosa, atriz brasileira
Celly Campello, cantora brasileira
E. G. Marshall, ator norte-americano
Fernando Henrique Cardoso, político, sociólogo e ex-presidente brasileiro
Isabella Rossellini (foto), atriz e modelo italiana
Jeanette MacDonald, atriz e cantora americana
Lúcio Mauro Filho, ator brasileiro
Maria Bethânia, cantora brasileira
Paul McCartney, cantor e compositor britânico
Richard Boone, ator norte-americano

19 de Junho
Chico Buarque, cantor, compositor e escritor brasileiro
Daniel de Oliveira, ator brasileiro
Gena Rowlands, atriz norte-americana
Kathleen Turner, atriz norte-americana
Letícia Spiller, atriz brasileira
Louis Jourdan (foto), ator francês
Marisa Pavan, atriz italiana
Moe Howard, ator e comediante norte-americano
Nuno da Câmara Pereira, fadista e político português
Pier Angeli, atriz italiana
Sidney Magal, cantor e ator brasileiro
Stephany Brito, atriz brasileira

20 de Junho
Danny Aiello, ator norte-americano
Errol Flynn (foto), ator australiano
Kadu Moliterno, ator brasileiro
Martin Landau, ator norte-americano
Nicole Kidman, atriz australiana-americana
Rossana Podestà, atriz italiana nascida na Líbia

21 de Junho
Françoise Sagan, escritora francesa
Ilka Soares, atriz brasileira
Jane Russell, atriz norte-americana
Jean-Paul Sartre, escritor, filósofo e dramaturgo francês
Juliette Lewis, atriz e cantora norte-americana
Machado de Assis, escritor brasileiro
Maureen Stapleton, atriz norte-americana
Nelson Gonçalves, cantor brasileiro
Ron Ely, ator norte-americano

22 de Junho
Billy Wilder, cineasta polonês naturalizado norte-americano
Emmanuelle Seigner, atriz francesa
Erich Maria Remarque, escritor alemão
Hermeto Pascoal, músico e compositor brasileiro
Kris Kristofferson, cantor, compositor e ator norte-americano
Lindsay Wagner, atriz norte-americana
Meryl Streep, atriz norte-americana
Tonico Pereira, ator brasileiro

23 de Junho
Bob Fosse, diretor de cinema e encenador de teatro norte-americano
Cininha de Paula, atriz e diretora brasileira
Dercy Gonçalves, atriz brasileira
Elza Soares, cantora brasileira
Frances McDormand, atriz norte-americana
Isaura Bruno, atriz brasileira
Johannes Gutenberg, alemão inventor da imprensa
Sérgio Reis, cantor e ator brasileiro
Zinédine Zidane, jogador de futebol francês

24 de Junho
Betty Lago, atriz e modelo brasileira
Joaquim Manuel de Macedo, escritor brasileiro
Nancy Allen, atriz norte-americana
Régis Cardoso, diretor de telenovelas brasileiro

25 de Junho
Antonio Gaudi, arquiteto espanhol
Bussunda, humorista brasileiro
Fernanda Lima, atriz e modelo brasileira
George Michael, cantor britânico
George Orwell, jornalista e escritor britânico nascido na Índia
Luiz Carlos Vasconcelos, ator brasileiro
Miguel Sousa Tavares, jornalista e escritor português
Sidney Lumet, cineasta norte-americano

26 de Junho
Ana Zanatti, atriz portuguesa
Chris O'Donell, ator norte-americano
Eleanor Parker, atriz norte-americana
Gilberto Gil, cantor, compositor e político brasileiro
Pearl S. Buck, escritora norte-americana
Peter Lorre, ator norte-americano nascido na Eslováquia

27 de Junho
Didi Viana, atriz brasileira
Guimarães Rosa, escritor brasileiro
Isabelle Adjani, atriz francesa
Krzysztof Kieslowski, cineasta polonês
Luigi Pirandello, escritor, poeta e dramaturgo italiano
Teresa Guilherme, apresentadora e atriz portuguesa
Tobey Maguire, ator norte-americano
Wagner Moura, ator brasileiro
Zezé Motta, atriz brasileira

28 de Junho
Daniel Dantas, ator brasileiro
Garoto, músico e compositor brasileiro
Grazielli Massafera, atriz brasileira
Henrique VIII, rei inglês no século XV
Jean-Jacques Rousseau, escritor e filósofo suíço
John Cusack, ator norte-americano
Kathy Bates, atriz norte-americana
Mary Stuart Masterson, atriz norte-americana
Mel Brooks, ator e cineasta norte-americano
Pedro Neschling, ator brasileiro
Raul Seixas, cantor e compositor brasileiro

29 de Junho
Antoine de Saint-Exupéry, escritor e ilustrador francês
Henrique Viana, ator português
Maria Maya, atriz brasileira
Pedro Paulo Rangel, ator brasileiro
Rosa Mota, atleta portuguesa
Sérgio Britto, ator brasileiro
Tereza Seiblitz, atriz brasileira

30 de Junho
Dira Paes, atriz brasileira
Lena Horne, atriz e cantora norte-americana
Leonard Whiting, ator britânico
Tony Bellotto, músico e escritor brasileiro
Susan Hayward (foto), atriz norte-americana

Datas Comemorativas

01 de Junho – Dia da Imprensa
03 de Junho – Dia Mundial do Administrador de Pessoal
05 de Junho – Dia Mundial do Meio Ambiente e da Ecologia
07 de Junho – Dia da Liberdade de Imprensa
08 de Junho – Dia do Citricultor
09 de Junho – Dia do Porteiro
09 de Junho – Dia do Tenista
09 de Junho – Dia da Imunização
10 de Junho – Dia de Camões e de Portugal (feriado em Portugal)
10 de Junho – Dia da Língua Portuguesa
10 de Junho – Dia da Raça
10 de Junho – Dia da Artilharia
11 de Junho – Dia do Educador Sanitário
12 de Junho – Dia dos Namorados (Brasil)
13 de Junho – Dia de Santo Antônio de Lisboa (Pádua)
13 de Junho – Dia do Turista
14 de Junho – Dia do Solista
17 de Junho – Dia do Funcionário Público Aposentado
18 de Junho – Dia do Químico
19 de Junho – Dia do Cinema Brasileiro
20 de Junho – Dia do Revendedor
20 a 22 de Junho – Solstício (de verão no hemisfério norte, de inverno no hemisfério sul)
21 de Junho – Dia da Mídia
21 de Junho – Dia Universal Olímpico
21 de Junho – Dia do Imigrante
24 de Junho – Dia de São João Batista
24 de Junho – Dia das Empresas Gráficas
24 de Junho – Dia Internacional do Leite
26 de Junho – Dia do Metrologista
27 de Junho – Dia Nacional do Progresso
29 de Junho – Dia de São Pedro e São Paulo
29 de Junho – Dia do Papa
29 de Junho – Dia da Telefonista
29 de Junho – Dia do Pescador
2 º ou 3 º domingo de Junho – Dia dos Pais. Na Bélgica, no segundo domingo de Junho. Nos EUA, Reino Unido, Irlanda, Países Baixos e Canadá, no terceiro domingo de Junho
Junho – Orgulho Gay, celebração com várias paradas gays pelo mundo em honra dos tumultos de Stonewall.
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Domingo, 28 de Dezembro de 2008

BRASIL 1968, DO TIRO NO CALABOUÇO AO AI-5

 

 

O ano de 1968 foi marcado pelas ebulições políticas e sociais que assolaram o mundo. A Guerra Fria instalada após a Segunda Guerra Mundial criou dogmas filosóficos, ideologias revolucionárias, e ditaduras que defenderam dois blocos políticos, o bloco americano e o bloco soviético. 1968 veio e contestou todas as ideologias e sistemas vigentes, atrás da contestação político-ideológica, os costumes sociais da sociedade ocidental vieram abaixo, trazendo novos comportamentos, inseridos na repressão dos governos ditatoriais tanto de direita, como de esquerda.
Se o mundo foi abalado, gerando os tumultos estudantis na Europa, que culminaram com as manifestações de maio em Paris, com a contestação do regime socialista na extinta Tchecoslováquia e a sua Primavera de Praga, no Brasil estas contestações não passaram despercebidas, sendo assimiladas de uma forma convulsiva que culminaria com o fechamento do Congresso Nacional em dezembro e o fio ínfimo de liberdade que ainda se podia respirar sendo finalmente estrangulado.
Liberdade comportamental não rimava com um governo ditatorial. Não se podia assumir a liberdade sexual, o consolo das drogas, a quebra dos tabus, sem que se fosse contra uma ditadura militar sustentada por uma sociedade hipócrita e conservadora. Se na França a luta era contra o sistema e as velhas tradições comportamentais sociais e religiosas, no Brasil a luta era também esta, acrescida da luta pelo fim da ditadura militar. Assim surgiram os movimentos de mudanças, de um lado os estudantes engajados em sua militância política querendo derrubar a ditadura, do outro lado os estudantes da contra-cultura, querendo derrubar os preconceitos e os preceitos comportamentais e sexuais. Se o primeiro grupo era considerado atuante e esclarecido, o segundo grupo era tido como alienado. Militantes e alienados fizeram o Brasil estremecer. Nos ventos dos festivais de música, nas cores da Tropicália, na pulsação dos congressos estudantis clandestinos, nas passeatas pelas avenidas das cidades, nas greves de trabalhadores, nos gritos da palavra de ordem, nas mortes e enterros, nas prisões de líderes ativistas, 1968 correu para o colapso final, a decretação do Ato Institucional número 5, o AI-5, levando embora qualquer gemido de liberdade.

Morte no Restaurante Calabouço

Quando a ditadura militar foi instaurada em 1964, a primeira atitude do novo regime foi dizimar os movimentos trabalhistas, as ligas camponesas, a intelectualidade de esquerda, os militares envolvidos com movimentos que feriam a hierarquia e os movimentos estudantis. Iniciou-se um processo de cassações, expurgos e prisões. Em 1968 só o movimento estudantil ainda afrontava a ditadura militar. A União Nacional dos Estudantes (UNE), cassada em seus direitos legais e com a sua sede depredada e incendiada tão logo os golpistas chegaram ao poder, reorganizou-se clandestinamente em 1966. O novo fôlego do movimento estudantil incomodava profundamente os militares. Os estudantes representavam a mais tenaz e perigosa resistência ao governo do então presidente Costa e Silva.
A longa saga convulsiva de manifestações de 1968, que terminaria com a tragédia do AI-5, começou em uma quinta-feira, no dia 28 de março. No centro do Rio de Janeiro funcionava o restaurante Calabouço, bastante freqüentado por servir comida de preço acessível aos estudantes menos abonados. É neste restaurante que se encontrava no início da noite daquela quinta-feira, o estudante secundarista Edson Luís de Lima e Souto, de 17 anos, quando foi apanhado no meio de uma tragédia histórica. Os estudantes decidiram fazer uma passeata relâmpago, protestando contra a péssima comida servida no restaurante e aumento do preço do bandejão, inserindo nos protestos as tradicionais palavras de ordem contra a ditadura. A manifestação foi interrompida pela chegada da Polícia Militar ao local. Chegaram truculentos, com cassetetes nas mãos, reprimindo violentamente os protestos estudantis, temendo que eles terminassem no apedrejamento da embaixada dos Estados Unidos.
A princípio, os estudantes dispersaram-se em dois grupos, novamente reunidos, atiraram pedras e paus sobre os policiais, que se viram obrigados a recuar, deixando a rua deserta por algum tempo. Quando voltaram, os policiais chegaram atirando sobre os estudantes. Um tiro vindo da arma do aspirante a PM Aloísio Raposo atingiu o coração de Edson Luís. O estudante foi levado para a Santa Casa da Misericórdia que ficava a uns quarteirões dali. Infelizmente já lá chegou sem vida. A polícia ainda tentou remover o corpo de Edson Luís para o Instituto Médico Legal, mas foram impedidos pelos estudantes. Tomando o corpo de Edson Luís, os manifestantes desfilaram com ele pelas ruas até a Assembléia Legislativa, onde seria velado. Estava iniciada a guerra dos estudantes e de vários setores da sociedade contra o regime militar.
A polícia ainda tentou fazer a opinião pública acreditar que Edson Luís era um perigoso militante comunista que conspirava contra o governo e contra a soberania do país, mas ficou provado que era apenas um estudante pobre, sem nenhuma militância política, que servia como copeiro para sobreviver e perdia a vida inocentemente, aos 17 anos. A morte de Edson Luís comoveu a cidade do Rio de Janeiro e todo o Brasil. Seu velório foi repleto de discursos feitos por estudantes, políticos e intelectuais.
No dia 29 de março, Edson Luís foi velado na Assembléia Legislativa, tendo o corpo coberto pela bandeira do Brasil. O caixão sairia da Assembléia às 16h15, sendo o cortejo acompanhado por 50 mil pessoas, só se comparando ao de Getúlio Vargas em 1954. Levou-se mais de duas horas para percorrer os 6 quilômetros que separavam o Cemitério São João Batista do local do velório. Frases de protesto podiam ser lidas durante o corteja, entre elas a emblemática “Os velhos no poder, os novos no caixão”. Sobre o caixão a bandeira do Brasil. Várias outras bandeiras tremulavam no meio da multidão. Já ia noite quando se prosseguia a caminho do cemitério e, por ordem do governo, nenhuma luz nas ruas foi acesa. Os carros que ali se encontravam acenderam os faróis, pessoas queimavam folhas de jornais, produzindo luzes efêmeras, moradores desciam dos prédios com lanternas e velas, seguindo o cortejo. Edson Luís foi enterrado à luz de velas e ao som do Hino Nacional. O protesto contra a sua morte ecoou por todo o Brasil, constrangendo profundamente o governo militar.

Acossados na Igreja da Missa em Homenagem a Edson Luís

Os ânimos exaltaram-se após o crime no restaurante Calabouço. Em São Paulo os estudantes da Politécnica e da Medicina da USP, os da Faculdade São Francisco e os da Pontifícia Universidade Católica , fizeram vários protestos contra a morte do estudante no Rio de Janeiro.
No dia 2 de abril foi rezada uma missa na igreja da Candelária em homenagem a Edson Luís. A cavalaria da Polícia Militar cercou a igreja, no final da missa atingiram dezenas de pessoas com golpes de sabre. Outra missa na Candelária em memória do estudante morto a realizar-se ainda naquela noite, foi proibida pelo governo militar. Mas o vigário-geral do Rio de Janeiro, dom Castro Pinto, desacatou a proibição e celebrou uma missa para 600 pessoas. Ao término da missa, diante do cerco da igreja pela polícia, os padres puseram-se em frente às pessoas, enfrentando três fileiras de policiais empunhados com sabres. Formando um cordão protetor, os clérigos deram-se as mãos, conduzindo as pessoas da igreja até a Avenida Rio Branco, garantindo que todas saíssem em segurança de dentro da igreja. Após a saída das 600 pessoas, a cavalaria repressiva sitiou-as pelas ruas da Candelária, ferindo várias delas.
O mês de abril seguia tenso, ainda no dia 5 o presidente Costa e Silva mandou que se apreendesse vários livros e jornais tidos como subversivos ao regime. Também proibiu as manifestações da Frente Ampla, movimento de oposição formada pelos ex-presidentes João Goulart e Juscelino Kubitschek e pelo maior conspirador do golpe de 1964, o ex-governador da Guanabara Carlos Lacerda, na época também cassado dos seus direitos políticos pelo regime ditatorial que ajudou a ascender ao poder.
Se o movimento estudantil tornara-se o inimigo maior da ditadura, gerando perseguições e prisões, outros setores da sociedade brasileira também sofreram arbitrariedades, perdendo lentamente os poucos direitos civis que ainda lhes restavam. Em 17 de abril foi feito um novo atentado aos direitos dos brasileiros, as capitais dos estados da união, juntamente com outras cidades, foram declaradas zonas de segurança nacional. Na prática, um decreto do governo pôs fim às eleições diretas para prefeitos de 68 cidades brasileiras. Com a perda da autonomia política, essas cidades teriam os seus prefeitos nomeados, não mais eleitos pelo povo.
Ainda naquele tumultuado mês de abril de 1968, um atentado a bomba destrói a entrada do jornal “O Estado de S.Paulo”. O clima estava apenas começando a esquentar pelo país. Dias de tempestades estavam por vir.

A Sexta-Feira Sangrenta

Em maio estouram as barricadas pelas ruas de Paris. Um movimento intenso que uniria estudantes e trabalhadores franceses em uma manifestação histórica que abalaria não só a França, mas o mundo, deixa os seus respingos no Brasil, que vivia à época, sufocado pelo autoritarismo de uma ditadura militar. Se os estudantes franceses saíam às ruas para lutar pelas utopias idealistas, por conceitos abstratos de uma ruptura social, no Brasil os estudantes tomavam as ruas em protesto a um inimigo real que era a ditadura dos militares.
Em junho o Rio de Janeiro assistiria às suas “barricadas”, tão dramáticas quanto às de Paris, levantadas no centro da cidade, entre a Avenida Rio Branco e as Ruas Graça Aranha e México. No dia 19 de junho a polícia encerrou uma assembléia estudantil que ocorria na Faculdade de Economia, os 400 estudantes dali retirados foram levados para o Campo do Botafogo. Ali sofreriam as mais torpes humilhações, soldados urinaram sobre os seus corpos, passaram cassetetes entre as pernas das mulheres. No dia 20 de junho a polícia invadiu a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Usando da truculência habitual, puseram os estudantes deitados de bruços com a cara enfiada no gramado; outros tantos foram, com as mãos na nuca, encostados a um muro enquanto as mulheres eram forçadas a andar de quatro diante do escárnio da PM.
As turbulências dos dias 19 e 20 de junho geraram grande tensão entre os estudantes. No dia 21, sexta-feira, sob a liderança de Vladimir Palmeira, os estudantes marcharam para o ministério da Educação, onde deveriam ser recebidos pelo então ministro Tarso Dutra. Encontraram o pátio do ministério cercado, o que desencadeou os protestos, gerando uma verdadeira batalha. A principal luta estudantil era contra os acordos do MEC (Ministério da Educação e Cultura) e os técnicos da USAID (sigla da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional), que previam a mudança no sistema de educação brasileiro sob a orientação dos americanos. As mudanças eliminariam as cadeiras de filosofia e canto orfeônico do colegial, cerceando assim, o pensamento e o desenvolvimento da sensibilidade crítica. Empunhando pedras e objetos de madeira, os estudantes atacaram a embaixada dos Estados Unidos. Isolados no último andar do prédio, os funcionários atiravam contra os estudantes. Diante da saraivada de tiros, os manifestantes fogem, mas são cercados por agentes da Polícia Federal, do DOPS e da Polícia Militar. Do alto um helicóptero despeja ácido sobre os manifestantes. Começava a barricada brasileira contra a ditadura, que entraria para a história como a “Sexta-Feira Sangrenta”.
Por volta das 13 horas o centro do Rio de Janeiro tornou-se um campo de batalha. Os três dias de tensão e repressão vividos pelos estudantes ajudaram a exaltar os ânimos. Bombas de gás lacrimogêneo explodiam sobre os estudantes e a população que, aquela altura, cansada da repressão dos militares, juntava-se naquele protesto sangrento. Pouco a pouco a cavalaria e o batalhão de choque ocupam a Avenida Rio Branco, indo de encontro aos manifestantes. Quem voltava do almoço ou saía do trabalho, aderia à luta contra a repressão. Do alto dos edifícios a população atira contra os soldados garrafas, cinzeiros, cubos de gelo, cadeiras, máquina de escrever, vasos, enfim, tudo se torna arma contra o batalhão de choque. Nas ruas, corpo a corpo, os manifestantes erguem barricadas com material de construção, onde tentam protegerem-se dos tiros, cassetetes e dos chutes. Munidos de pedras e paus, lutam por quase dez horas. Estudantes, bancários, funcionários públicos, comerciários, travam o maior combate de ruas contra a ditadura militar. Sob as chuvas dos objetos atirados dos edifícios, a polícia avançou, ultrapassando a primeira barricada, na retaguarda os agentes do DOPS atiram contra os manifestantes das ruas e contra os que atiravam objetos dos edifícios. Centenas de pessoas são feridas, quatro delas sucumbem mortas, entre elas um policial atingido por um tijolo. Mais de mil pessoas terminam presas. Era o balanço final da “Sexta-Feira Sangrenta”.

A Passeata dos 100 Mil

A violência da Sexta-Feira Sangrenta indignou aos cariocas, repercutindo um descontentamento por vários setores da sociedade. Escritores, jornalistas, artistas, professores, trabalhadores e estudantes tentam registrar esta indignação através de uma manifestação pacífica. Era preciso conter tanta revolta, tanta violência, reparar a dignidade dos ofendidos e aplacar a ira dos ofensores.
Vários intelectuais articularam algumas reuniões com o intuito da promoção de uma passeata que reunisse toda a sociedade carioca. O resultado das reuniões foi levado ao salão nobre do Palácio Guanabara, onde o escritor e psicanalista Hélio Pellegrino, à frente de 300 intelectuais, foram recebidos pelo governador Negrão de Lima. Pressionado por Hélio Pellegrino, o governador deu a autorização oficial para que se realizasse uma passeata pacifica no centro da cidade. Negrão de Lima concordou em não pôr policiais na rua, além de ser pressionado para libertar o arquiteto Bernardo Figueiredo e o diretor de teatro Flávio Rangel, presos por razões políticas. Faziam parte dos intelectuais liderados por Hélio Pellegrino: Oscar Niemeyer, Clarice Lispector, Ferreira Gullar, Nara Leão, Ziraldo, Milton Nascimento e muitos outros. Após uma longa negociação, o governador da Guanabara liberou a realização de uma passeata pacífica pelo centro da cidade do Rio de Janeiro.
Em 26 de Junho, menos de uma semana após as batalhas nas ruas do Rio de Janeiro, a Sexta-Feira Sangrenta, uma grande passeata desfilou pelo centro da cidade. Cerca de 100 mil pessoas caminharam sem incidentes, sem policiais repressores, movidos ao som do Hino da Independência que cantavam. 100 mil pessoas marchavam, entre elas intelectuais, artistas, sindicalistas, estudantes, políticos, religiosos, mães de estudantes. Era a volta do povo às manifestações de ruas, delas banido desde 2 de abril de 1964, quando políticos e mulheres de famílias de rosários nas mãos desfilaram para receber com aplausos os militares golpistas. O povo voltava às ruas desta vez não para homenagear os militares, mas para protestar contra as suas arbitrariedades, contra a truculência que conduziam o regime, contra a falta de liberdade e, principalmente, pelo fim da violência que usavam contra os seus filhos, ocasionando assassínios como o que se abatera em março sobre o estudante Edson Luís de Lima Souto. Se ainda havia um resquício de simpatia popular ao governo de Costa e Silva, este se perdeu definitivamente diante dos acontecimentos que se sucederam nos dias 19, 20 e 21 de junho.
A manifestação começou às 10 horas da manhã, estendendo-se até às 17h45. Na esquina da Avenida Rio Branco com a Assembléia, Luís Travassos, presidente da UNE clandestina, subia em uma banca de revistas e fazia um discurso. Por volta do meio dia chegou o estudante Vladimir Palmeira. Entre os artistas, Paulo Autran, Tonia Carrero, Marília Pêra, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Nara Leão, Milton Nascimento e muitos outros. A manifestação ficou conhecida como a “Passeata dos 100 Mil”, e foi o maior movimento de rua contra a ditadura militar até o movimento pelas Diretas Já, em 1984. Após a sua realização, foi criada uma comissão que levaria reivindicações ao governo. Nenhuma delas foi aceita. Para arrematar tão ousada passeata, o governo proibiu, a 17 de julho, todas as manifestações públicas.

Os Sindicatos Tomam as Fábricas

As manifestações de 1968 atingiram também os trabalhadores brasileiros. Já na segunda metade de abril, no dia 16, Ênio Seabra comandou uma greve de metalúrgicos em Contagem, Minas Gerais.1600 operários pararam. Mesmo sendo declarada ilegal pela Delegacia Regional do Trabalho, a greve encorpou e em poucos dias, atingiu o número de 6 mil grevistas. A adesão de mais dez empresas à greve fez o governo recuar, propondo um abono de 10% como reajuste. A greve só terminaria quando o abono tornou-se extensivo a todos os brasileiros.
No 1 º de maio daquele ano, cerca de 20 mil pessoas comparecem aos manifestos do dia do trabalho realizados em São Paulo, na Praça da Sé. Oportunistamente o então governador de São Paulo, Abreu Sodré, subiu ao palanque. O líder metalúrgico de Osasco, José Ibrahim, que seria o terceiro orador, recusa-se a subir no palanque ao lado do governador. Diante da recusa de Ibrahim de discursar quando chamado, trabalhadores e estudantes começaram a vaiar Abreu Sodré e as suas autoridades. Uma grande confusão foi formada, com manifestantes atirando pedras, uma delas atingiriam a testa do governador. Acossados pela multidão, Abreu Sodré e os seus homens fugiram para dentro da catedral, trancando-se lá. Os manifestantes queimaram o palanque e seguiram em passeata ruma a Praça da República. Na esquina das avenidas São João e Ipiranga, apedrejaram as vidraças do City Bank.
As manifestações do 1º de maio e a bem sucedida greve dos trabalhadores de Contagem, fizeram com que os metalúrgicos de Osasco antecipassem a greve planejada para acontecer em novembro. No dia 16 de julho, os trabalhadores da Cobrasma, apoiados pelo Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco, sob o comando de José Ibrahim, desarmam a guarda e tomam a fábrica, iniciando a greve. Logo a greve espalhou-se por outras fábricas, mobilizando cerca de 10 mil trabalhadores. Os ministérios do Trabalho e da Justiça interviram, enviando forças policiais que cercou as fábricas, prendendo e torturando muitos trabalhadores. O sindicato sofreu intervenção e os seus diretores foram cassados, muitos deles tiveram que recorrer ao exílio para fugir à prisão e às torturas.

Atores Espancados pelo CCC

1968 foi um ano de contestações ao sistema. A arte constituiu um dos veículos desta contestação, adquirindo uma riqueza profunda diante das manifestações de lutas que ansiavam por liberdade de expressão e pela necessidade de respirar esta liberdade cerceada pelo Estado de exceção democrática.
1968 foi o ano do auge da Tropicália e dos grandes festivais da canção. Diante de uma televisão ainda incipiente, que não tinha uma programação contínua para todo o país, foi através da música que a juventude adquiriu voz para protestar não só contra a ditadura militar, mas contra os costumes.
Mais próxima das manifestações sociais do Maio de 1968 em Paris, a Tropicália de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Torquato Neto causava desconfiança entre a juventude engajada politicamente. Considerados alienados por Geraldo Vandré e algumas vezes por Edu Lobo, que participam ativamente de tendências políticas de esquerda, os tropicalistas incomodavam pela irreverência e pela quebra dos tabus. Assim, tanto os cantores declaradamente engajados, quanto os aliciadores da contracultura, eram vistos como inimigos do regime militar e dos costumes conservadores da classe média que o sustentava.
O ano foi dos tropicalistas no Festival da Record, com a vitória de Tom Zé com a música “São Paulo Meu Amor”. “Divino, Maravilhoso”, de Caetano Veloso e Gilberto Gil, interpretada por Gal Costa, ficaria em terceiro lugar. O Festival Internacional da Canção (FIC), apresentado pela TV Globo, causou grande polêmica quando da apresentação de Caetano Veloso defendendo a música “É Proibido Proibir”, título inspirado nas frases dos muros de Paris em maio. Diante de uma imensa vaia, o tropicalista vocifera contra a platéia, onde esquerda engajada e contracultura tornam-se inconciliáveis, fazendo um rompimento histórico naquele momento. Outra polêmica foi a vitória de “Sabiá”, de Tom Jobim e Chico Buarque, sobre “Para Não Dizer Que Não Falei das Flores”, de Geraldo Vandré. A platéia achou que Vandré tinha sido injustiçado. “Para Não Dizer Que Não Falei das Flores” tornou-se o hino contra a ditadura militar, dizem que ela foi uma das responsáveis pelo AI-5.
Apesar de ideologias antagônicas, Geraldo Vandré, Gilberto Gil e Caetano Veloso bateram de frente com a ditadura militar. Foram presos e exilados. Em 1968 o Brasil assistiu a ascensão e queda da Tropicália. Caetano Veloso e Gilberto Gil terminariam o ano na prisão, vítimas do AI-5.
O teatro também sofreu os reveses de um ano tumultuado. Em 18 de julho O Galpão, sala do Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, que apresentava a peça “Roda Viva”, foi invadido e depredado pelo CCC (Comando de Caça aos Comunistas). O CCC nasceu nas salas do Mackenzie, tradicional universidade paulistana. Em nome dos bons costumes, perseguiram várias peças consideradas subversivas e agressivas à moral conservadora que hipocritamente defendiam. “Roda Viva” era uma peça de Chico Buarque e encenada por José Celso Martinez Corrêa. Durante a invasão, 20 homens armados com cassetetes e soco-inglês sobre as luvas, espancaram os atores, destruíram camarins, bancos, refletores, instrumentos e equipamentos elétricos. Marília Pêra, a protagonista da peça, foi agredida por cassetete no camarim, teve as roupas rasgadas, sendo arrastada para a rua. Também foram agredidos: o assistente de coreografia Jura Otero, os atores Rodrigo Santiago, Margot Baird, Eudóxia Acunã e Walkiria Mamberti.
Outros incidentes ocorreriam com “Roda Vida”. Em outubro, poucos dias antes da sua estréia em Porto Alegre, panfletos foram distribuídos pela cidade dizendo: “Hoje poupamos a integridade física dos atores e espectadores, amanhã não”. A cidade encheu-se de cartazes do CCC com ameaças aos atores, incitando-os a deixar a cidade. À noite, quando o elenco voltava da peça para o hotel onde estava hospedado, foi atacado por 30 homens armados. A atriz Elizabeth Gasper e o violinista Zelão, seu marido, que faziam parte do elenco da peça, foram seqüestrados, humilhados e abandonados longe da cidade. Durante o seqüestro, foram pressionados a deixar a cidade em 16 horas.
No dia 8 de outubro Norma Bengell e Emílio di Biasi são atacados por policiais. O ator é derrubado no chão, enquanto a atriz é seqüestrada. Norma Bengell foi levada de São Paulo para o Rio de Janeiro. Foi interrogada por cinco horas, sendo acusada de colaborar com os comunistas e de levar panfletos para uma passeata estudantil. A atriz seria libertada ainda naquele dia.
Não só o teatro e a música foram destaques em 1968, em julho Martha Vasconcellos foi aclamada a mulher mais bonita do planeta, sendo eleita miss universo.
Ainda em 1968, o Brasil perdia Assis Chateaubriand, o criador da maior cadeia de imprensa do país, os Diários Associados; o ator e galã de telenovelas Amilton Fernandes, morto em um acidente de automóvel, que se consagrara vivendo o Albertinho Limonta da telenovela “O Direito de Nascer” e o poeta Manuel Bandeira.
Neste ano, a 26 de maio, foi realizado no Hospital das Clínicas, em São Paulo, o primeiro transplante de coração no Brasil, feito pelo doutor Euryclides de Jesus Zerbini.
Se o ano foi difícil para as artes, terminaria ainda pior, com a criação em 22 de novembro, do Conselho Superior de Censura. E para encerrar o ano, em dezembro o CCC atira uma bomba no Teatro Opinião e os tropicalistas Caetano Veloso e Gilberto Gil são presos.

A Batalha da Maria Antônia

A Universidade do Mackenzie, em São Paulo, sempre abrigou a elite conservadora paulistana em suas salas de aula. Enquanto a maioria do movimento estudantil era composta por militantes de esquerda com tendências claramente comunistas, os estudantes do Mackenzie declaravam-se direitistas e defensores do golpe militar de 1964. Na época do golpe, o CCC, composto por estudantes vindos daquela universidade, foram os que perseguiram tenazmente os líderes da UNE. No Rio de Janeiro, membros do CCC teriam incendiado a sede da UNE em 1964. Em 1968 os integrantes do CCC iniciaram uma verdadeira perseguição aos atores e representantes da cultura que parcamente, avaliavam como subversivos e ofensivos aos costumes e à moral vigente. Um dos atos mais radicais que membros do CCC praticaram foi o espancamento dos atores da peça “Roda Viva”.
Em 1968 o prédio da Universidade do Mackenzie era vizinho da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, que ficava na Rua Maria Antônia, no centro de São Paulo. Se o Mackenzie era reduto do CCC, da FAC (Frente Anticomunista) e do MAC (Movimento Anticomunista), e de outros estudantes de direita, a Filosofia da USP era reduto da esquerda, abrigando a sede da clandestina União Estadual de Estudantes (UEE) e a proscrita UNE.
No dia 2 de outubro os estudantes da Filosofia promovem um pedágio na Rua Maria Antônia para angariar fundos para o Congresso da UNE, a realizar-se clandestinamente dentro de alguns dias. Ao assistirem o ato, os estudantes do Mackenzie, em tom provocatório, começou a atirar ovos nos colegas da Filosofia. Iniciou-se um tumulto e ofensas de ambas as partes, com grupos defrontando-se de forma ameaçadora. Para pôr fim ao tumulto, a reitora do Mackenzie Esther Figueiredo Ferraz, chama uma tropa de choque, alegando que pretendia proteger o prédio da universidade de uma possível depredação.
No dia seguinte, 3 de outubro, a animosidade entre os estudantes vizinhos continuou. Faixas da Filosofia foram arrancadas pelos estudantes do Mackenzie. Começam a explodir rojões, vidraças são quebradas. Uma batalha armada de pedras, paus e tijolos é iniciada, prosseguindo com bombas e tiros. Armados de metralhadoras, um esquema de guardas protege o Mackenzie. À frente dos estudantes da Filosofia estão o presidente e vice-presidente da UNE, Luís Travassos e Edson Soares respectivamente, e o presidente da UEE de São Paulo, José Dirceu.
No meio do tumulto, centenas de pessoas aglomeram-se na Rua Maria Antônia, um policial tenta conter a agitação, disparando tiros para o ar, enquanto que um aluno da Filosofia tenta tomar-lhe a arma. Trocas de coquetéis Molotov voam entre os estudantes rivais, incendiando as paredes da Filosofia. Um estudante do Mackenzie é ferido por um rojão, ele é socorrido por uma ambulância. Os confrontos tornam-se acirrados. Bombeiros são chamados para combater focos de incêndio. O estudante secundarista José Carlos Guimarães, que ao ir a uma livraria da região resolvera ajudar os estudantes da USP, é baleado na cabeça, segundo algumas testemunhas, pelo atirador Osni Ricardo, membro do CCC e informante da polícia. José Carlos é carregado pelos colegas, mas morre a caminho do hospital.
Após a morte de José Carlos, José Dirceu faz um discurso relâmpago, incitando os colegas a uma passeata de protesto pelas ruas de São Paulo. 800 pessoas saem em passeata. Pelo caminho incendeiam carros da polícia. São dispersos pelos soldados na Praça das Bandeiras.
Ao fim do confronto, que passou para a história como a “Batalha da Maria Antônia”, o saldo era desolador e trágico: um morto, três estudantes baleados e dezenas ficaram feridos. À noite o teto do prédio da Filosofia ruiu. A faculdade passaria a funcionar em barracões do campus. O incidente precipitou a transferência da faculdade para o atual campus Armando de Salles Oliveira, no Butantã. O prédio incendiado foi restaurado, nos tempos atuais abriga o Centro Universitário Maria Antônia, um espaço cultural.

O 30º Congresso da UNE em Ibiúna

Desde 1966 que a UNE desafiava o regime militar e fazia os seus congressos clandestinamente, elegendo a sua diretoria. O 30º Congresso da UNE estava marcado para acontecer no dia 12 de outubro. Um forte esquema de segurança foi acionado para que se realizasse sem a ameaça da intervenção da polícia e de possíveis prisões. Pontos estratégicos de encontro foram delineados em São Paulo, em que instruídos, obedeciam a algumas senhas para estabelecer o primeiro contacto. “Onde fica a Lapa?” era uma das senhas, a qual se respondia: “A Lapa fica na China”. Feito o contacto, as pessoas eram conduzidas para o interior paulista. Realizar-se-ia o congresso no sítio Murundu, próximo de Ibiúna. Assim, nos dias que precederam o sábado, 12 de outubro, estudantes e líderes estudantis de todo o Brasil chegavam ao sítio de Ibiúna.
Mas o congresso não chegou a realizar-se, Na manhã de sábado, por volta das 7 horas, três destacamentos da Força Pública, dois dirigidos pelo DOPS e outro pelo comandante do 7º Batalhão da Força, de Sorocaba, cercaram o sítio. Um estudante que estava de sentinela atirou para o ar, na tentativa de avisar os congressistas. Os soldados revidaram, atirando com metralhadoras para o ar. Minutos depois, 920 congressistas, sem oferecer resistência alguma, entregavam-se aos soldados. Entre eles: Vladimir Palmeira, presidente da UME (União Metropolitana de Estudantes) do Rio de Janeiro; Luís Travassos, presidente da UNE; José Dirceu, presidente da UEE; Antônio Guilherme Ribeiro Ribas, da União Paulista de Estudantes Secundaristas; e Jean-Marc Van der Weid, candidato à sucessão de presidente da UNE.
Mesmo diante de um esquema rígido de segurança, uma certa ingenuidade dos estudantes entregou-os às autoridades. Durante a semana, os poucos mais de 5 mil habitantes de Ibiúna estranharam alguns jovens cabeludos e jovens mulheres vestidas diferentemente dos moradores locais. Mais estranho ainda foi alguns deles encomendar a uma padaria 2 mil pãezinhos. Mas a maior falha aconteceu na quinta-feira, dia 10, quando o sitiante Miguel Góis foi ao sítio cobrar uma dívida do dono e foi impedido por dois estudantes armados de passar a cancela. Assustado com os estranhos, o homem deu queixa ao delegado do lugar. Não foi difícil encontrar alguns panfletos pelas estradas locais e deduzir que o congresso clandestino estava a realizar-se nas mediações de Ibiúna. O delegado alertou o DOPS, e já na madrugada de sexta-feira, dia 11, todo o aparato policial que levaria às prisões estava concluído.
Naquele dia chuvoso, os estudantes presos caminharam alguns quilômetros até os caminhões que os conduziriam até o presídio Tiradentes. Durante todo o percurso, o comboio que transportava os prisioneiros foi apresentado com aparato à população. Era a maior vitória do governo militar, que aprisionando os líderes estudantis, cortava a garganta dos maiores opositores do regime. Com o fracasso do congresso de Ibiúna, a UNE perderia de vez a sua força. Muitos líderes estudantis recorreriam no ano seguinte não às passeatas regidas por pedras e paus, mas às armas, iniciando as guerrilhas urbanas que assolariam o país e fariam tremer os militares.

Assassínio do Capitão Chandler

O 12 de outubro de 1968 ficou marcado por dois acontecimentos antagônicos, mas que se encontram nos fios paralelos da história: a prisão dos estudantes do 30º congresso da UNE, em Ibiúna, e a morte do capitão estadunidense Charles Rodney Chandler. Este último acontecimento ficou conhecido como o “Caso Chandler”.
O capitão Chandler tinha em 1968, 30 anos. Estava oficialmente no Brasil como bolsista na escola de sociologia e política da Fundação Álvares Penteado, em um programa de intercâmbio entre as escolas militares brasileiras e americanas. Rumores de que Chandler, um veterano da Guerra do Vietnã, viera ao Brasil para colaborar e instruir os serviços policiais da ditadura, ficaram em evidência quando ele participou de uma palestra para militares e deu uma entrevista para o jornal “Folha de S. Paulo”, falando sobre a sua experiência no Vietnã. Chandler chamou a atenção da esquerda que, naquele momento, decidira pegar em armas e seguir a luta contra a ditadura através da guerrilha urbana. O capitão estadunidense passou a representar o grande inimigo da esquerda armada. Especialista em matar vietcongues e suspeito de pertencer à CIA, além de ser norte-americano, três fatores que decidiram o destino do capitão. Um tribunal revolucionário condenou Chandler a morte.
Na manhã de 12 de outubro, no momento em que a polícia prendia os congressistas da UNE em Ibiúna, o capitão Chandler era metralhado à porta da sua casa, na Rua Petrópolis, bairro do Sumaré, na capital paulista. A morte do ex-combatente do Vietnã resultou de uma ação conjunta do então “Grupo Marighela”, futura Aliança Libertadora Nacional (ALN) e da futura Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), comandada pelo ex-sargento Onofre Pinto. Diógenes José Carvalho de Oliveira disparou seis tiros a queima roupa e Marco Antonio Braz uma rajada de metralhadora.
Passada quatro décadas, não se ficou provado se Chandler morrera inocente, não passando de um simples estudante bolsista, ou se era colaborador do regime militar. Culpado ou inocente, a história vista aos olhos de hoje parece arbitrária, quando um tribunal revolucionário decide a execução de um homem. Arbitrária também era a ditadura, construída sobre os escombros da democracia que ela derrubara, impondo um regime de exceção. A morte de Chandler seria o marco do início da luta armada que a esquerda iria aderir. O fato aconteceu dois meses antes de decretado o Ato Institucional número 5, que consolidaria de vez a decisão da esquerda de pegar em armas e ir para as ruas lutar contra a ditadura.

O Dia que a Ditadura Matou de Vez a Esperança da Democracia

A 3 de setembro, às vésperas das comemorações cívicas do dia da Independência, o jornalista e deputado do então MDB, Márcio Moreira Alves, faz um discurso histórico no Congresso, protestando contra a invasão da Universidade de Brasília, incitando o povo a não comemorar o Dia da Pátria. Enfático, pedia às jovens mulheres que não dançassem com os cadetes nos bailes oficiais da Independência. Corajosamente chamou os quartéis de “covis de tortura”. Os militares sentiram-se ofendidos com o discurso do deputado. Era o princípio de uma crise que terminaria com o fechamento do Congresso.
A ofensiva do regime militar já se fazia cada mais sentida. Medidas mais drásticas estavam sendo programadas. No dia 1 de novembro Elizabeth II, rainha do poderoso império britânico, chegaria ao Brasil para uma visita de onze dias. Era preciso esperar passar a visita de tão ilustre personalidade para que as medidas mais pesadas da ditadura fossem tomadas, aniquilando de vez com todas as oposições e contestações. Uma grande nuvem negra abatia-se sobre o céu do Brasil e da sua democracia já tão ultrajada e usurpada.
No dia 12 de dezembro o governo militar pediu licença à Câmara para processar o deputado Márcio Moreira Alves. Os deputados, por 216 a 141 votos, negaram autorização à solicitação do ministro da Justiça. Ao fim da votação, encerraram a sessão sob aplausos, vivas à democracia e a cantar o Hino Nacional. As nuvens negras finalmente desabaram sobre o Brasil, trazendo a tempestade dilacerante.
Em resposta à desobediência dos políticos, o governo militar decidiu mostrar a sua força. A 13 de dezembro o presidente Costa e Silva reuniu-se com o Conselho de Segurança Nacional, no Palácio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Na reunião seria votado o quinto Ato Institucional. Dos 23 presentes, apenas o vice-presidente Pedro Aleixo, foi contra. Aleixo declararia que com a promulgação daquele Ato Institucional estariam “instituindo um processo equivalente a uma ditadura”, ao que o coronel Jarbas Passarinho responderia: “Às favas, senhor presidente, todos os escrúpulos de consciência”. Por unanimidade, o Conselho de Segurança Nacional aprovou o AI-5. Era a consolidação escancarada da ditadura militar no Brasil.O AI-5 anulava a Constituição de 1967, ao contrário dos atos anteriores, não tinha data para ser revogado. Ao presidente era dado o poder de decretar recesso do Congresso Nacional, das Assembléias Legislativas e das Câmeras de Vereadores. Era-lhe permitido suspender direitos políticos de qualquer cidadão pelo prazo de dez anos, além de cassar mandatos eletivos federais, estaduais e municipais. Suspendia a garantia de Hábeas Corpus nos casos de crimes considerados políticos e contra a segurança nacional, constituída pelo regime ditatorial militar. O presidente já não precisava de ninguém para governar. Com o AI-5 fechou-se o Congresso e apagou-se qualquer luz sobre a democracia. O Brasil mergulharia na fase mais obscura da sua história. O ano de1968 era finalmente encerrado no país. Mais cedo do que no resto do mundo. Acabava-se qualquer esperança almejada pelas manifestações no dia 13 de dezembro.
 
 

Veja também:

 

1968, O ANO DE TODOS OS GRITOS: http://virtualia.blogs.sapo.pt/15485.html

PARIS, MAIO DE 1968: http://virtualia.blogs.sapo.pt/16286.html

PRAGA 1968, FLORESCIMENTO E MORTE DE UMA PRIMAVERA: http://virtualia.blogs.sapo.pt/16879.html

 

 

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Sábado, 27 de Dezembro de 2008

BELEZA AMERICANA

 

 

Ao contrário do cinema europeu, o cinema norte-americano sempre esteve mais preocupado em exaltar a identidade dos EUA, do que compreender a essência dos seus habitantes, em criar heróis admiráveis do que anti-heróis humanos. As poucas vezes que Hollywood traçou um perfil do desajuste dos americanos, foram feitas com maestria, como em “Táxi Driver” (1976), de Martin Scorsese, ou ainda, “Apocalypse Now” (1979), de Francis Ford Copolla. “Beleza Americana” surge como uma ácida e perturbadora crítica à mistificação da “american way of life” como a forma de vida a ser seguida pelo resto do mundo. A desconstrução das personagens atinge a todos os valores tidos como essenciais na sociedade americana: a família, o patriotismo exaltado, a estabilidade econômica, os valores de um país decadente em sua pseudomoral conservadora. Utilizando-se de várias personagens paralelas, todos os valores morais vão sucumbindo, expondo a essência de cada personagem, deixando-a nua das máscaras e à deriva da mesquinhez dos valores seculares. Para conduzir o emaranhado delicado das personagens, foi escolhido o diretor teatral Sam Mendes, um jovem realizador britânico, de origem lusitana, até então um ilustre desconhecido da sétima arte. Com “Beleza Americana”, o cinema americano fechou a década de noventa questionando a sociedade pós Monica Lewinsky e pré World Trade Center, fazendo-o através de um inteligente humor negro, uma dramaticidade à flor da pele, um erotismo latente, de rara beleza estética sensual. O resultado foi um dos melhores filmes da década e de todos os tempos, premiado com cinco Oscars.

Todas as Armas Apontadas Para Lester

Beleza Americana” gira em torno de Lester Burnham, personagem magistralmente vivido por Kevin Spacey. Lester, chega ao 43 anos como um frustrado pai de família, preso a um emprego que odeia, desprezado pela filha adolescente e pela mulher. Na acomodação que vive, Lester encontra mais prazer na masturbação solitária do que em fazer sexo com a mulher, a corretora de imóveis Carolyn (Annette Bening). No marasmo da sua vida, Lester desenvolve um desejo obsessivo pela bela Angela (Mena Suvari), uma ninfeta colega de sua filha Jane (Thora Birch). É esta paixão velada pela adolescente que acende uma chama na vida de Lester. Aos poucos, ele se rebela diante das imposições da vida e da sociedade, na sua rebelião, vai desconstruindo os valores essenciais da sociedade em que vive.
Lester rompe com o emprego medíocre que tem, pedindo demissão, muda a forma de vestir, faz musculação e transforma o corpo desgastado pela idade em atlético, desenvolve uma amizade sustentada pelo ato de fumar haxixe, com o vizinho, o jovem Ricky Fitts (Wes Bentley), ex-dependente químico que lhe fornece as drogas. Quanto mais rompe com a coerência social, mais Lester encontra o equilíbrio e a felicidade, não como um adulto a caminho da meia idade, mas como um adolescente a descobrir o mundo e a beleza que nele existe, mas que a perdemos na construção dos valores que fazem de um cidadão um vencedor diante da opinião pública. Lester descobre os tênues fios da felicidade, mas é tarde para ele. O filme começa e ele já avisa que irá morrer naquele dia.
As mudanças de Lester ferem o mundo de mentiras que há à sua volta. O país que vive é uma mentira, o bairro onde mora é de habitantes infelizes. Ironicamente, dos vizinhos de Lester, somente o casal gay Jim (Scott Bakula) e JB (Sam Robards), têm uma vida normal e familiarmente saudável. Na nova vida de Lester não há espaço para aquele mundo hipócrita. Quanto mais avança em direção de si próprio, mais os que estão à sua volta empunham uma arma, preste a atirar. Todos apontam para Lester, a mulher, a filha e o seu namorado, o vizinho, a sociedade, um deles irá matá-lo. A tragédia americana será consumada, sem beleza alguma. O tiro que mata Lester, atinge o espectador, a sociedade e os seus costumes.

O Mundo Dúbio de Cada Personagem

No mundo de “Beleza Americana” nada é politicamente correto, tudo é aparência. Todos mentem, todos traem, todos amam a hipocrisia. Cada personagem reflete uma máscara que se lhe veste a sociedade americana, feita para amar a América acima de Deus e da família, e para ser um vencedor de uma complexa sociedade convulsivamente moralista. É a era de Bill Clinton, que ao ser felado pelos lábios carnudos de sua estagiária, e ter deixado o sêmen da decadência dos costumes americanos no vestido azul da parceira, quase foi cassado pelo moralismo da política do seu país.
Carolyn, a insatisfeita mulher de Lester, é o exemplo da saga americana, que sonha com sucesso profissional e financeiro. A falta de ambição de Lester mata o seu apetite sexual por ele. É nos braços de Buddy Kane (Peter Gallagher), o rei dos corretores, que Carolyn vai saciar o seu desejo sexual. Não é o corpo de Buddy que atrai Carolyn, mas sim o seu sucesso profissional. Na sua obsessão cega pela vitória profissional, a mulher de Lester encontra um prazer quase que orgástico quando tem aulas de tiro e adquire uma arma. Este prazer é a imagem da sociedade americana, cada vez mais armada.
Angela, a menina-mulher pela qual Lester desenvolve a sua obsessão romântica e sexual, é o símbolo da beleza perfeita, do desejo, da falsa ingenuidade, da provocação. Angela é a adolescente mais desejada pelos colegas da sua escola. Provocante, ela esconde um doce segredo, ao contrário do que se imagina, a bela mulherzinha é virgem.
Jane, a adolescente que se revolta com o mundo, menospreza o pai por sua passividade diante da vida e pelo seu assédio à amiga Angela. Jane concentra todo o seu ódio em Lester, cogita inclusive matar o pai, contratando o jovem Ricky para fazê-lo.
Ricky é um jovem problemático, ex-dependente químico, que vende drogas para a vizinhança. A mãe (Allison Janney) é uma mulher ausente e submissa ao pai, o coronel Frank (Chris Cooper), homem rude, aposentado do exército, orgulhoso das suas medalhas, exemplo vivo do herói americano. Frank é um homem rígido em seus conceitos, trata o filho com mão pesada, numa agressiva tentativa de deixá-lo longe das drogas. É o porta-voz do pensamento do americano mediano, menospreza o casal gay da sua vizinhança, movido por um grande preconceito. Frank, o honrado aposentado do exército americano, traz surpresas de uma personalidade reprimida. Nos enganos da comédia humana, Frank acredita que o filho está a manter um relacionamento homossexual com Lester. O coronel procura Lester não para proteger o filho do que considera a mais abjeta escolha sexual, mas para revelar o seu desejo escondido pelo vizinho. A revelação gera o repúdio de Lester, rejeição que, um homem como Frank, não supera. Está apertado o gatilho que matará Lester.

Cinco Oscars e Três Globos de Ouro

Kevin Spacey consegue dar a Lester todas as nuances da personagem, desde a imagem do pacato e menosprezado pai de família do início do filme, ao obsessivo e lascivo homem que deseja ardentemente a ninfeta amiga da filha. O ator mostra a virada da personagem de uma forma contundente, sem exageros histriônicos, mas longe de ser intimista. Spacey nos traz na sua composição de Lester, a doce lembrança de Jack Lemmon, o ator que mais representou no cinema a imagem do bom americano. O próprio Spacey confessou que se inspirou em Lemmon para interpretar o emblemático personagem de “Beleza Americana”.
A interpretação de Lester Burnham obrigou Kevin Spacey a submeter-se a rigorosos e pesados exercícios físicos, para que tivesse os músculos que exigiam a segunda fase da personagem. Esta transformação física está explicita nas cenas de nudez da personagem, que se mostra a exercitar o corpo. A recompensa de Kevin Spacey veio com o Oscar de melhor ator, dado pela Academia de Hollywood no ano de 2000.
Além do Oscar de melhor ator, “Beleza Americana” arrebatou mais quatro estatuetas: Oscar de melhor filme, Oscar de melhor diretor para Sam Mendes, Oscar de melhor roteiro original e de melhor fotografia.
Além dos 5 Oscars, o filme ganhou três Globos de Ouro para melhor filme, melhor diretor e melhor roteiro original.

Ficha Técnica:

Beleza Americana

Direção: Sam Mendes
Ano: 1999
País: Estados Unidos
Gênero: Comédia, Drama
Duração: 121 minutos / cor
Título Original: American Beauty
Roteiro: Alan Ball
Produção: Bruce Cohen, Dan Jinks, Alan Ball e Stan Wlodkowski
Música: Thomas Newman e Pete Townshend
Direção de Fotografia: Conrad L. Hall
Desenho de Produção: Naomi Shohan
Figurino: Julie Weiss
Edição: Tariq Anwar e Christopher Greenbury
Elenco: Kevin Spacey, Annette Bening, Thora Birch, Wes Bentley, Mena Suvari, Peter Gallagher, Chris Cooper, Allison Janney, Scott Bakula, Sam Robards
Sinopse: Lester Burham (Kevin Spacey) não agüenta mais o emprego e se sente impotente perante sua vida. Casado com Carolyn (Annette Bening) e pai da adolescente Jane (Tora Birch), o melhor momento de seu dia é quando se masturba no chuveiro. Até que conhece Angela Hayes (Mena Suvari), amiga de Jane. Encantado com sua beleza e disposto a dar a volta por cima, Lester pede demissão e começa a reconstruir sua vida, com a ajuda de seu vizinho Ricky (Wes Bentley).

Sam Mendes

Sam Mendes até dirigir “Beleza Americana”, em 1999, era um conhecido encenador de peças teatrais em Londres. A encenação que Sam Mendes fez de “Cabaret”, foi decisiva para que Steven Spielberg e o produtor Bruce Cohen, que viram o espetáculo nos palcos londrinos, decidissem entregar a ele a direção do filme.
Sam Mendes nasceu em Reading, na Inglaterra, em 1 de agosto de 1965. Seus antepassados eram portugueses da Ilha da Madeira, que vieram de Trinidade e Tobago, quando dali expulsos. Atualmente é casado com a atriz Kate Winslet, estrela de "Titanic", com quem tem um filho.

Filmografia de Sam Mendes:

2005 – Jarhead
2002 – Road of Perdition
1999 – American Beauty
1996 – Company (Filme para a televisão)
 
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Sexta-feira, 26 de Dezembro de 2008

PRAGA 1968, FLORESCIMENTO E MORTE DE UMA PRIMAVERA


 

A Primavera de Praga floriu de janeiro a agosto de 1968, pulsou por oito meses. Utópica, ingênua, idealista, ela representou a semente da democracia dentro de um sistema rígido e fechado dos chamados países socialistas, direcionados pelo Kremlin. Ao contrário do que a dialética comunista pregava, uma “ditadura do proletário” para que se chegasse ao verdadeiro socialismo, os comunistas da pequena república da Tchecoslováquia propunham um “socialismo de rosto humano”, ou seja, a democracia como caminho para o verdadeiro socialismo.
A Primavera de Praga não propunha o fim do comunismo na Tchecoslováquia, mas a sua reforma, a mudança nas suas estruturas, o que não deixava de ser utópico, visto que o pequeno país fazia parte dos países do Pacto de Varsóvia, condição bem específica na época da Guerra Fria. Ingênuo era pensar em mudar o comunismo por dentro do país numa época que se dependia visceralmente que ele fosse mudado por fora. A Primavera de Praga não foi uma rebelião contra a política de Moscou, ou a manifestação de dissidentes comunistas, pelo contrário, todos os comunistas tchecoslovacos uniram-se para a melhora do comunismo, trazendo através de intelectuais e líderes políticos, experimentações de como esta mudança pudesse ser feita. Foram as experimentações que causaram medo aos países comunistas vizinhos, medo de que elas se alastrassem e obrigassem às reformas em todos os países da chamada cortina de ferro, e que o próprio império socialista e soviético não fosse sobreviver às mudanças.
A resposta aos experimentos dos comunistas da Tchecoslováquia veio na madrugada de 20 para 21 de agosto, quando 600 mil soldados e 7000 tanques dos países vizinhos a invadiram. Homens de fuzis nas mãos silenciaram a primavera, os tanques pisaram as suas flores, trazendo um inverno rigoroso e obscuro que iria durar 21 anos.

As Raízes da Primavera de Praga

Durante a Segunda Guerra Mundial (1939/1945), os países da Europa do leste foram invadidos pelos nazistas, perdendo a suas identidade e soberania como nação. Os anos da guerra e da invasão alemã trouxeram sofrimentos, fome e mortes às pessoas. Quando a Alemanha caiu, duas potências vieram em socorro dos oprimidos e invadidos: os ocidentais liderados pelos EUA e a Grã-Bretanha, e os comunistas liderados pela União Soviética. Enquanto os Estados Unidos e a Grã-Bretanha penetravam no norte da França, libertando-a, os soviéticos vinham do leste, libertando países como a Polônia, a Hungria, e todas as adjacências do Báltico e dos Bálcãs. Em 11 de fevereiro de 1945, os líderes dos governos dos aliados, Franklin Roosevelt, Winston Churchill e Josef Stalin, reúnem-se na estação balneária de Ialta, pequena cidade às margens do mar Negro, na Criméia. Com o objetivo de pôr fim à guerra, a Conferência de Ialta decidiria o rumo que o mundo teria, e como seria dividido. Após a guerra, o mundo ficou dividido entre dois blocos, um capitalista liderado pelos EUA, outro socialista, liderado pela URSS. Era o prelúdio da guerra fria, que seria a mais longa e silenciosa das guerras, só encerrada historicamente, em 1989.
Duas décadas após a divisão do mundo sob a influência de duas potências, o período de 1967 a 1968 gerou acontecimentos que abalariam as ideologias da Guerra Fria. A Guerra dos Seis Dias em Israel, mexera com os dois blocos, que assumiram lados opostos no conflito. A guerra do Vietnã causava grandes manifestações nos EUA. A China vivia o momento culminante da Revolução Cultural, que respingaria nas ideologias de esquerda por todo o planeta. 1968 foi um ano que marcou a Europa pela agitação estudantil, que se desencadeou pela Itália, pela então Alemanha Ocidental, culminando na França, com o Maio de 1968. O grande império soviético, com capital em Moscou, era comandado por Leonid Brejnev. Seu império estendia-se pela Hungria, Polônia, Tchecoslováquia, Romênia, Bulgária, Alemanha Oriental, os chamados países do Pacto de Varsóvia, que tinham autonomia, mas se guiavam pelas diretrizes da União Soviética. A Albânia e a Iugoslávia de Tito, apesar de seguirem regimes socialistas, mantinham-se independentes de Moscou.
Em 1967 uma crise política alastra-se pela Tchecoslováquia, desencadeada por intelectuais, centrada principalmente na União dos Escritores. Exigindo reformas, os intelectuais encontram eco dentro do Partido Comunista, na época liderado por Antonin Novotny, que estava no poder há uma década. A impopularidade de Novotny cresceu, levando à sua demissão em janeiro de 1968. Para substituí-lo foi escolhido Alexandre Dubcek, aquele que entraria para a história como quem possibilitou o “socialismo de rosto humano”, iniciando a Primavera de Praga.

O Florescer da Primavera

Alexandre Dubcek era eslovaco, ex-estudante da União Soviética, considerado homem de confiança de Brejnev, e foi com a aquiescência deste que ascendeu a Secretário-Geral do Partido Comunista da Tchecoslováquia, posto mais alto daquele país.
Dubcek, à frente de uma equipe de intelectuais e políticos liberais, promoveu um amplo programa de reformas, da agricultura a industria, reforçou a autonomia regional, traçando os esboços de uma nova Constituição. Dubcek não encontrou inspiração no “amigo” Brejnev, mas no reformismo de Nikita Kruchov.
De março a abril, Praga, a capital do pequeno país, floresceu em idéias e experimentos, que iam contra os princípios rígidos do império socialista comandado por Moscou. Neste período foram concedidos passaportes aos cidadãos, pela primeira vez um país do leste europeu permitia que o seu cidadão visitasse um país capitalista, fora das fronteiras da cortina de ferro. O poder dos funcionários stalinistas foi diminuído, nascia a idéia do sufrágio secreto. Experimentava-se o fim da censura, o que possibilitava a um país do pacto de Varsóvia poder assistir na televisão, os assassínios de Martin Luther King e Robert Kennedy, os estudantes em Paris comandados por Daniel Cohn-Bendit. Foram reabilitadas as vítimas das purgas do passado.
As experiências continuavam, trazendo o direito à greve, as organizações cívicas, os sindicatos, os mecanismos experimentais de uma economia de mercado, rebentava a iniciativa privada. Os limites que um governo socialista, de essência comunista, podia ir, eram todos arriscados.
A União Soviética e os seus aliados, os países vizinhos da Tchecoslováquia, começaram a ver as experimentações do governo de Dubcek como uma grande ameaça, temendo que elas se alastrassem por suas fronteiras. Moscou fez várias advertências a Dubcek, exigindo que ele parasse imediatamente com as reformas, chamando-as de inimigas do socialismo. O líder eslovaco ignorou as advertências, pois não se via traindo a ideologia comunista. Às reformas democráticas, Dubcek continuava a dizer ingenuamente, que eram o genuíno sentido do socialismo. Ainda mais ingênuo era não temer às reações do Kremlin, perfeitamente compreensível, pois o que se passava naquele pequeno país não era uma dissidência, uma revolta contra o regime, para que temer reações arbitrárias vindas de Moscou se, apesar das reformas internas, todos continuavam socialistas?
Mas Brejnev e os seus aliados não viam com esta ingenuidade a onda libertadora e liberal que invadia a Tchecoslováquia. O exemplo de Praga era pior do que uma dissidência, porque ele mexia pacificamente na política e em todo o sistema do grande império socialista. No auge do verão de 1968, às 23 horas do dia 20 de agosto, as forças armadas dos países do Pacto de Varsóvia, invadiram a Tchecoslováquia, levando presos para Moscou toda liderança comunista do país, pondo fim aos oito meses de experimentações que passaram para a história como a Primavera de Praga.

A Noite em Que a Primavera Morreu

Uma invasão à Tchecoslováquia era um assunto delicado para o líder soviético. O mundo ainda tinha na memória a invasão da União Soviética a Budapeste, em 1956, que resultara na morte de 20 mil pessoas. Ao contrário da imensa rebelião que se sucedera em Budapeste, na Tchecoslováquia as reformas eram pacíficas, e todos os habitantes viam o regime de Moscou como amigo e aliado, não o contestando. Era a primeira vez na história moderna que países interviam militarmente em um país amigo, que vivia uma euforia pacífica. Brejnev viu-se pressionado pelos países do Pacto de Varsóvia a intervir nos assuntos do país de Dubcek. Antes de concretizar a invasão, ele telefonou para o presidente norte-americano Lyndon Johnson, para ter a certeza de que os EUA e os países capitalistas não iriam interferir, perguntando-lhe se o acordo de Ialta ainda era válido, questionamento ao qual Johnson respondeu que sim, que a Tchecoslováquia fazia parte do lado soviético da guerra fria, sendo um problema do Kremlin. Dado o aval americano, iniciou-se a invasão.
Os tchecos e os eslovacos viram com surpresa, a chegada de 600 mil soldados estrangeiros, trazidos por aviões e 7000 tanques. Quando refeita do impacto de ver a invasão, a população saiu às ruas, em protesto, tentando atrapalhar os passos dos soldados e dos tanques. Naquele dia o país tornou-se uno, como nunca fora antes e jamais seria depois. Muitos foram para as ruas a vaiar os soldados, a tentar barrá-los, empunhando apenas a bandeira do país. Tudo em vão. A força dos tanques era mais conclusiva. Ao povo restou balbuciar entre os lábios: “O big brother mandou os tanques”.
Dubcek, levado preso para Moscou, era obrigado a pedir pelas rádios, a submissão aos invasores, para que se evitasse um banho de sangue. O ocidente, tendo a garantia do presidente Lyndon Johnson, não iria intervir. A população que ousara fazer as mudanças naqueles oito meses, estava sozinha, isolada entre os tanques, na incerteza do que lhes aconteceria. Eram espalhados boatos de que a Tchecoslováquia seria anexada à União Soviética, como acontecera com a Letônia, a Estônia e a Lituânia. O sonho da Primavera de Praga estava definitivamente encerrado. Quando o país acordou na manhã seguinte à invasão, encontrou não a utopia, mas a força bruta de um sistema que, apesar de corroído nos alicerces, levaria ainda duas décadas para ruir.

Um Longo Inverno Após a Primavera

Depois de preso e humilhado, Alexandre Dubcek foi destituído, sendo substituído por Gustav Husak, que se manteria no poder até 1989, quando a Revolução de Veludo derrubaria de vez o regime socialista. Com o fim da Primavera de Praga, a população foi forçada a assinar um documento que a obrigava a concordar com a invasão, legitimando a presença das tropas estrangeiras no país. Quem se recusava a assinar o documento, tinha a vida prejudicada para sempre.
A Tchecoslováquia mergulharia em um regime autoritário, que resultaria no surgimento de vários dissidentes. Uma das características da Primavera de Praga é que ela não tinha sido feita contra os comunistas ou contra o comunismo. Também não foi feita por dissidentes ou por simpatizantes da direita, depois dela, o regime dos comunistas foi marcado por um grande número de dissidentes, que eram os socialistas de antes, transformados em desencantados comunistas, que passaram a odiar amargamente o regime socialista e as diretrizes do Kremlin.
Em 1970 Alexandre Dubcek e 500 mil comunistas foram expulsos do partido. Ao antigo secretário-geral só foi permitido exercer a profissão de guarda florestal. Começava a limpeza cultural, que entre torpes arbitrariedades, proibiria jornais e revistas culturais e destruiria as faculdades de arte. Jornalistas, escritores e acadêmicos tinham os seus trabalhos proibidos, sendo postos a limpar caldeiras, dirigir tratores ou a limpar parques públicos. Muitos intelectuais fugiram do país, como foi o caso do escritor Milan Kundera, que partiu com o livro “A Insustentável Leveza do Ser” debaixo do braço e nunca mais voltou, ou ainda o fotógrafo Josef Koudelka (a quem pertence todas as fotografias apresentadas neste artigo), que partiria para o exílio em 1969 e só voltaria ao país em 1991.

Jan Palach, Uma Tocha Humana nas Cinzas da Primavera

Logo depois que se sucedeu, a invasão da Tchecoslováquia causou grandes protestos pelo mundo, mas logo foi esquecida por todos. A partir de setembro de 1968, a Primavera de Praga dava passagem para um inverno de 21 anos, com um governo repressivo e fielmente apresentado às lentes controladoras de Moscou.
Em janeiro de 1969 o estudante Jan Palach, que juntamente com vários colegas, tinha estado em Moscou a protestar contra os abusos do sistema, perdera as ilusões de que a primavera política voltasse a florir em seu país. Inconformado, escreveu cartas ao regime, caminhou até a Praça Wenceslau, em Praga, regou o corpo com gasolina e acendeu o fogo, imolando-se em protesto ao fim da Primavera de Praga. Jan Palach, aos vinte anos, ardeu à beira das flores de uma estátua.
O funeral de Jan Palach reuniu cerca de 200 mil pessoas. Após o enterro, o local da sua lápide tornou-se motivo de veneração. Para evitar que se transformasse em mártir, a polícia secreta do país, em 1973, desenterrou e exumou os seus restos mortais, cremando-o e mandando as cinzas numa urna para a sua mãe, em Vsetaty, terra natal do estudante. A mãe de Jan Palach ficou proibida de sepultar a urna no cemitério da cidade até 1974. Em 1990, a urna com as cinzas de Jan Palach, voltou oficialmente para o local de origem. Jan Palach tornou-se o “rosto do socialismo humano”, a sua morte foi o último suspiro da Primavera de Praga.

O Fim da Nação da Primavera

Quando Mikhail Gorbatchov promoveu, nos anos 80, a Perestroika, confessou que teve grande inspiração nos princípios da Primavera de Praga. 21 anos depois da invasão que pusera fim à Primavera, em 1989, caía o muro de Berlim, símbolo oficial da divisão das nações em dois sistemas, sustentados pela União Soviética e pelos EUA. A queda do muro pôs fim à guerra fria, anunciando o declínio e fim do império socialista.
Também em 1989, aconteceria na Tchecoslováquia Revolução de Veludo, que poria fim ao longo período de inverno político e cultural pelo qual passara o país.
40 anos depois da Primavera de Praga, devemos lembrá-la como um embrião utópico de democracia dentro dos países da cortina de ferro. Os países do leste europeu passaram por grandes transformações e sofrimentos no decorrer do século XX. Primeiro vieram os nazistas, que invadiram, dominaram, mataram, mutilaram. Depois os soviéticos surgiram como salvadores, foram eles que libertaram a Tchecoslováquia do julgo de Hitler, motivo que levou os utópicos condutores da Primavera de Praga a considerá-los amigos. Esqueceram que o preço cobrado tinha sido a imposição do regime socialista comandado por Moscou.
O propósito da Primavera de Praga era impossível de ser alcançado, visto que uma reforma profunda no velho sistema socialista criado em cima das dialéticas marxista-leninistas, com toda a sua evolução para estados totalitaristas, significaria o seu próprio fim. Foi o que aconteceu quando Gorbatchov promoveu as reformas vislumbradas pelo governo de Dubcek, quando elas floresceram, derrubaram o grande império, como um efeito dominó, caíram um a um todos os governos comunistas dos países do Pacto de Varsóvia. A própria Tchecoslováquia deixou de existir. Em 1992 um plebiscito decidiu pela divisão do país, ao primeiro minuto de 1993 nasciam a República Tcheca e a Eslováquia. Praga é hoje a capital dos tchecos. Da sua primavera restou o rosto de Jan Palach, as bases para que o próprio país, criado pela imposição do velho sistema comunista, ruísse um dia, deixando de existir.
 
 

 

Veja também:

 

1968, O ANO DE TODOS OS GRITOS: http://virtualia.blogs.sapo.pt/15485.html

PARIS, MAIO DE 1968: http://virtualia.blogs.sapo.pt/16286.html

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Quinta-feira, 25 de Dezembro de 2008

YESHUA BEN YOSSEF, O JUDEU

 

 

Todos os anos, quando da aproximação do dia 25 de dezembro, data que se comemora o nascimento de Cristo, há sempre uma pausa para reflexões de vida, atitudes e até mesmo uma análise dos dogmas. Mais de dois milênios depois do seu nascimento, Yeshua Ben Yossef (Jesus filho de José, em aramaico) ainda é uma das personagens mais enigmáticas da história. A começar pela própria data do seu nascimento, desconhecida dos registros históricos, a comemoração no dia 25 de dezembro foi herdada das festas pagãs da Roma antiga, conhecidas como saturnais, que ocorriam entre 17 e 24 de dezembro.
No decorrer de mais de vinte séculos, Jesus Cristo despertou paixões, controvérsias, ódios e polêmicas. No século XX a sua própria existência foi contestada, uma vez que só tínhamos registros históricos da sua vida além dos evangelhos, nas Antiguidades Judaicas e uma versão de História da Guerra dos Judeus, do historiador judeu Josefo, quase contemporâneo seu. Deixando a corrente cética sobre a sua existência, surge a pergunta, quem foi este judeu que mudou a história da humanidade e que, em seu nome, foram travadas as mais terríveis guerras, os mais calorosos discursos de fé?
Para entendermos o cristianismo e os seus dogmas, é preciso jamais esquecer as suas origens, ou a etnia a qual Jesus pertencia.

Os Filhos de Abraão

Conta a história que Abraão, nômade nascido em Ur, na Mesopotâmia, por ordem de Deus, migrou para o território habitado pelos cananeus, entre o rio Jordão e o Mediterrâneo 1800 anos antes de Cristo. Sua esposa Sara não lhe podendo gerar um filho, convenceu-o a se deitar com a escrava Hagar, que lhe gerou Ismael. Mas Deus concebeu a Sara o dom da maternidade já na velhice, e ela gerou Isaac aos noventa anos. Com o nascimento do filho, Sara convence Abraão a mandar Hagar e Ismael embora, assegurando assim, a herança de Isaac. Assim é feito, expulsos por Abraão, Hagar e o filho seguem para o deserto de Bersabéia. Deus guia os passos da escrava até a Arábia e promete-lhe que o seu filho seria pai de uma grande nação. De Ismael surgiria a linhagem do profeta Maomé, fundador do islamismo seiscentos anos depois do nascimento de Cristo.
Da linhagem de Isaac surgem os gêmeos Esaú e Jacó. Através de um ardil, Jacó compra a primogenitura ao irmão Esaú, tem a bênção de Isaac e torna-se Israel, pai de doze filhos, que dariam origem às 12 tribos dos israelitas e ao povo hebreu. A saga do povo judeu através dos séculos é voltada para as promessas de um povo eleito por Deus e separados dos outros povos, para que não se contaminem com falsas adorações e falsos deuses. O Deus de Israel é Único e não admite idolatria. Promete a Abraão uma descendência próspera e com ele faz a aliança, selada pela circuncisão dos seus varões, diferenciando-os das outras nações.
O pacto é renovado através de Moisés e da conquista da terra prometida e da criação de uma série de leis que o hebreu deve cumprir para que se mantenha puro e continue com o privilégio de ser o povo escolhido de Deus. Mas o povo israelita muitas vezes fugiu ao cumprimento das leis mosaicas. A cada traição às leis são castigados e entregues a diversos povos que os dominam através dos séculos. O pacto é renovado na casa do rei Davi, da sua linhagem cumprir-se-ia a profecia messiânica do rei dos reis, que surgiria e elevaria o povo de Israel diante dos seus opressores. Povo eleito de Deus, através do messias alcançariam a paz e a felicidade prometidas , e através deles se estenderia para toda a humanidade.

A Palestina na Época de Cristo

Jesus nasce na Palestina entre o ano 6 ou 7 a.C., numa época conturbada da dominação romana ao povo judeu. Por esta ocasião encontramos as facções dos saduceus, que controlavam o Templo e eram mais condescendentes em sua interpretação da Lei; dos fariseus, mais radicais e mais austeros, usavam a tradição oral para impor minuciosamente os aspectos da Lei na vida judaica, são radicalmente contra o domínio romano. Há ainda as seitas austeras e fanáticas, como os essênios e os zelotes. Os zelotes desprezavam não só os romanos, como os judeus que com eles colaboravam. Promoviam o terrorismo como forma de luta contra o domínio romano e os seus impostos e opressão. Enviavam assassinos conhecidos como sicários (homens do punhal), que mesclados à multidão, assassinavam os seus inimigos.
Durante os primeiros trinta anos da vida de Cristo, há poucas referências sobre as suas ações. Sua pregação começa justamente nessa idade. Após ser batizado por João Batista, apresenta-se como o Messias (ungido) vociferado pelos profetas. Profundo conhecedor da Lei, usa de metáforas e parábolas para se identificar como o ungido e expandir os seus pensamentos. Cristo contesta a mecanização da Lei, mas jamais a renega. Jamais renega a sua condição de judeu ou demonstra que veio para criar uma nova religião, ele veio para cumprir a função do judaísmo e às suas profecias. Chancela as leis mosaicas e acrescenta “amai-vos uns aos outros como a ti mesmo”. Critica a forma colaboracionista dos saduceus com as forças dominantes vigentes e como conduzem o Templo. Numa terra de convulsão política e religiosa, é visto pelas seitas como um homem carismático e de forte influência sobre os hebreus, e com isto, como aquele que vai conduzir Israel à liberdade e contra o domínio de Roma. Mas Cristo rejeita a idéia de conduzir o povo à guerra contra a opressão romana, separa o estado do da religião, “a César o que é de César”. A sua forma pacifista desagrada aos zelotes, sedentos pela revolução e extermínio dos romanos e seus domínios em terras israelitas. Com um idealismo considerado historicamente lunático, declara-se o mensageiro de um novo reino espiritual que viria a partir de então. É acusado de blasfêmia por se dizer o filho de Deus e vociferar a destruição do Templo. Em um acordo entre os saduceus e os romanos, é julgado e crucificado. Segundo a tradição, ressuscita em um corpo diferente, mas reconhecido por seus apóstolos, cumprindo todas as profecias.

O Cristianismo Depois de Cristo

Após a sua morte e à propagação das suas idéias por seus apóstolos, Yeshua torna-se Jesus, seu nome em grego, o Cristo (ungido em grego). Apesar do domínio romano, o grego é a língua mais difundida no mundo antigo, e os relatos sobre a vida de Cristo seriam escritos em aramaico ou grego. Quatro evangelhos são escritos para contar a saga de Jesus Cristo, três deles são sinóticos (Marcos – Mateus e Lucas), assim chamados porque é possível fazer deles uma sinopse única de grande parte do seu conteúdo, pois não diferem uns dos outros. O evangelho de João é o mais denso. Talvez por João ter sido o que atingiu a idade mais avançada dos apóstolos de Cristo, e por ter assistido à queda de Jerusalém, o cerco do povo hebreu, a tragédia que levou à morte de milhões de hebreus e à destruição do Segundo Templo pelos romanos no ano de 70, os seus escritos são vociferados em previsões catastróficas e na criação do próprio livro do Apocalipse.
Com a destruição do Templo em Jerusalém, há a diáspora judaica pelo mundo e o abandono da terra prometida. Os seguidores de Cristo surgem como uma nova seita no mundo antigo. Seguem os ensinamentos de Cristo e as leis mosaicas, com a crença em um só Deus e no Messias, rejeitam a idolatria e os sacrifícios aos deuses. Paulo de Tarso converte-se ao cristianismo e a partir dos seus conceitos, é o primeiro a rejeitar a idéia de que para ser cristão primeiro tem que se ser judeu, o que contraria os primeiros judeus que seguem os ensinamentos de Cristo. É neste momento que há uma ruptura com o judaísmo e a consolidação de uma seita cristã. Em Roma os judeus são vistos como uma nação, mas os cristãos como uma seita incômoda que se alastra. Começa a perseguição aos cristãos, o que gera a consolidação de uma nova religião.
Judeu praticante da Lei, Cristo surge para consolidar o judaísmo. A partir dele a religião hebraica perde a sua função, já não se justifica a existência de um povo eleito para evidenciar a profecia da vinda de um messias. Com certeza que o fator condenatório da religião e a própria ameaça da sua extinção pelo referido messias, e por não ver naquele que assim se apresentava as evidências do rei profetizado, foram as razões que influenciaram os saduceus a negociar com os romanos o julgamento e a condenação que resultaram na morte de Jesus Cristo, justificada pelo sumo sacerdote Caifás : “É de vosso interesse que um só homem morra pelo povo e não pereça a nação toda.” Sacrificando Cristo, os saduceus garantiram a sobrevivência do judaísmo como religião e do seu objetivo de esperar o cumprimento das profecias messiânicas que irão redimir a humanidade através dos filhos de Abraão.
Mais de dois mil anos depois, há a pergunta que encontra ecos, mas jamais uma resposta definitiva, Cristo queria fundar uma nova religião? Em nenhum momento ele renegou a Lei, pelo contrário, citou-as como exemplo a ser seguido. Também Paulo de Tarso, judeu considerado o fundador do cristianismo, todas às vezes que não encontrava nas palavras de Cristo respostas para os questionamentos, buscava-as na Lei e no judaísmo. Após a conversão de Roma e à romanização do cristianismo primitivo, e a sua adaptação às antigas religiões pagãs do continente europeu, como o fortalecimento da figura de Maria substituindo as deusas pagãs, o judaísmo foi desaparecendo da igreja que era erguida em Roma. A imagem de Cristo torna-se européia, é transformado em um homem louro, de olhos azuis ou verdes, longe da figura física de um semita. Muitos dos judeus que foram convertidos voltam ao judaísmo diante da romanização do cristianismo. Surgem os dogmas medievais como os da Santíssima Trindade. Cristo deixa de ser o Messias judeu para se tornar a encarnação de Deus na terra. Judaísmo e cristianismo se tornam inconciliáveis. Para os judeus Deus é único e superior, não se iria materializar na forma humana. A citação medieval “santa Maria mãe de Deus” é vista como blasfêmia, uma simples mortal jamais poderia ser mãe do Deus Único de Abraão. O cristianismo só voltaria a resgatar algumas das suas características judaicas com a Reforma no século XVI.
E novamente a pergunta: Proclamando-se o Messias, Cristo quis fundar uma nova religião ou cumprir o propósito do judaísmo? Se em nenhum momento Cristo deixou de auto-afirmar que era o Messias, provavelmente a segunda hipótese é a mais correta. Mas como há até os historiadores que duvidam que ele existiu, assim como duvidam da existência de Abraão, como não duvidar da sua condição messiânica? A história e a fé muitas vezes são inconciliáveis, cabe ao homem decidir por elas. Uma certeza é irrefutável, amado ou odiado, aceito ou rejeitado pelos homens e pela história, Yeshua Ben Yossef foi um dos mais ilustres judeus que Israel e as suas promessas de redimir o mundo geraram para a humanidade.

 
 
 

 
 
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Quarta-feira, 24 de Dezembro de 2008

PARIS, MAIO DE 1968

 

 
Quando os estudantes saíram às ruas de Paris, em 1968, confrontando o sistema, a ordem política e os costumes sociais, estava deflagrado o maior movimento social do século XX. Em 30 dias de protestos, as transformações sociais concentraram o que se levaria mais de uma década para acontecer. Os confrontos entre jovens estudantes e policiais, acontecida em maio daquele ano, contou com a adesão de trabalhadores, mobilizou a França e espalhou-se para o restante do mundo ocidental.
Explodiram discursos pelas universidades, pelas ruas de Paris, palavras de ordem ousadas e frases revolucionárias emblemáticas eclodiram pelos muros da cidade, cartazes movidos pela genialidade criativa serviam de escudos para os estudantes, que nas ruas mostravam aos pais, governantes e filósofos da ideologia pós Segunda Guerra Mundial, que um novo mundo, novos costumes, desenhavam-se na história, e que as mudanças vieram para ficar. Era o clamor que exigia uma nova condição para a mulher diante da sociedade, da visão sem tabus ao sexo livre, do amor sem o casamento, da instituição familiar sem o conservadorismo secular das religiões, da liberdade que se perseguia e que já não se podia conter. Após o Maio de 1968, as relações entre homem e mulher, raças e costumes, pais e filhos, o amor livre, a homossexualidade, sofreram mudanças radicais, primeiro na França, depois no mundo. Paris assistia não à Revolução Francesa de 1789, que mudara a ordem e o poder de séculos, mas à Revolução do Comportamento, que também encerrou tabus de séculos.


“A Imaginação no Poder”

A França ainda não se recuperara da invasão alemã (1940-1944), durante a Segunda Guerra Mundial, quando eclodiu a Guerra Colonial na África, que resultou na independência das suas colônias naquele continente. A Guerra da Argélia, que culminou com a independência deste país em 1962, deixou cicatrizes indeléveis no povo francês. Em 1968,as feridas ainda sangravam e traziam um descontentamento convulsivo, alimentado pelas mudanças sociais que aconteciam no mundo.
No dia 23 de Março de 1968, estudantes da Universidade de Nanterre, nos arredores de Paris, organizaram protestos para mostrar o descontentamento com a estrutura acadêmica conservadora, a disciplina rígida e os currículos escolares. Os protestos culminaram com a ocupação da Universidade de Nanterre. Diante da ocupação, a reitoria decidiu fechar a universidade. Cercada por estudantes liderados por Daniel Cohn-Bendit , nos fins de abril, os protestos estudantis chegaram a Paris. No dia 3 de maio, solidários, os alunos da Sorbonne abriram as suas portas para os estudantes de Nanterre.
Os protestos atingiram as ruas da capital francesa. A pequena greve que surgira dos estudantes de algumas faculdades e nas escolas secundaristas, irrompeu em uma grande manifestação estudantil que tomou características de Revolução. Palavras de ordem como “É Proibido Proibir” ou “A Imaginação no Poder”, ecoaram pelas ruas da cidade, riscadas nos muros e impressas nos cartazes. No dia 5 de maio, mais de 10 mil estudantes entraram em confronto com a polícia no Quartier Latin, bairro da tradicional intelectualidade de Paris.
No dia 6 de maio, irrompeu o confronto entre 13 mil estudantes e a polícia. Bombas de gás lacrimogêneo lançadas pela polícia, tiveram como resposta as pedras nas mãos do jovens. As manifestações sucederam-se nos dias seguintes. Cerca de 150 carros foram danificados ou incendiados. Influenciados pelos estudantes, operários de Paris realizaram protestos, ocupando fábricas e organizando passeatas e greves.
No dia 10 de maio, 20 mil estudantes enfrentaram a polícia nas ruas e nas universidades da Cidade Luz, num acirrado confronto que ficaria conhecido como a Noite das Barricadas.
No dia 13 de maio, aconteceu a unificação dos movimentos estudantil e trabalhista, que juntos promoveram uma greve geral de 24 horas, contra o governo do general De Gaulle e a sua política trabalhista e estudantil. No dia 20 de maio, o movimento atingiu o seu ápice, paralisando toda a França. Fábricas foram ocupadas, mais de 6 milhões de trabalhadores aderiram à greve. Paris amanheceu sem, ônibus, telefone e sem o metropolitano, além de vários outros serviços essenciais. Pressionado, o governo do general De Gaulle dissolveu a Assembléia Nacional, criou um quartel de operações militares para combater a insurreição. A situação só foi controlada no final de maio, depois de uma violenta repressão. Diante de um colapso eminente, De Gaulle marcaria eleições parlamentares para 23 de junho. Mas o governo de De Gaulle, irremediavelmente atingido pelas manifestações, sustentar-se-ia no poder somente até abril de 1969.
O movimento, assim como começou, esvaiu-se de repente. No final, mais de 1500 pessoas foram feridas. As armas finais usadas pelos estudantes da Sorbonne foram as frases emblemáticas que passaram para história do século XX. No rastro do movimento vieram as drogas, a música pop, o amor livre, a liberação feminina, uma nova sociedade para encerrar aquele século louco.
40 anos passados do Maio de 1968, os seus principais líderes são hoje empresários bem-sucedidos, alguns políticos, homens e mulheres que fazem parte do sistema que um dia contestaram. Mas a herança daquela Revolução Social expandiu-se pelo mundo, e, o comportamento do mundo cristão ocidental jamais foi o mesmo.

Frases Emblemáticas do Maio de 1968

"É proibido proibir"
"Se queres ser feliz, prende o teu proprietário"
"Sejam realistas, exijam o impossível!"
"O despertador toca: primeira humilhação do dia"
"A imaginação no poder"
"Abaixo o realismo socialista. Viva o surrealismo"
"As paredes têm ouvidos, seus ouvidos têm paredes"
"A idade de ouro era a idade onde o ouro não reinava"
"Nós somos todos judeus alemães"
"Não queremos um mundo onde a certeza de não se morrer de fome se troca contra o risco de morrer de aborrecimento"
"A humanidade só será feliz no dia em que o último capitalista for pendurado com as tripas do último burocrata"
"A política passa-se nas ruas"
"O patrão precisa de ti, tu não precisas dele"
"A arte morreu, libertemos a nossa vida cotidiana"
"A arte morreu. Não consumam o seu cadáver"
"Todo poder abusa. O poder absoluto abusa absolutamente"
"Todo poder aos conselhos operários (um enraivecido)
Todo poder aos conselhos enraivecidos (um operário)"
"O poder tinha as universidades, os estudantes tomaram-nas. O poder tinha as fábricas, os trabalhadores tomaram-nas. O poder tinha os meios de comunicação, os jornalistas tomaram-na. O poder tem o poder, tomem-no!"
"O direito de viver não se mendiga, toma-se"
"Viva o poder dos conselhos operários estendido a todos os aspectos da vida"
"Abramos as portas dos asilos, das prisões, e outras faculdades"
"Trabalhador: tu tens 25 anos, mas o teu sindicato é do outro século"
"Todo reformismo se caracteriza pela utopia da sua estratégia, e pelo oportunismo da sua tática"
"Quando a Assembléia Nacional se transforma em um teatro burguês, todos os teatros da burguesia devem se transformar em Assembléias Nacionais"
"Juventude Marxista Pessimista"
"Não nos prendamos ao espetáculo da contestação, mas passemos à contestação do espetáculo"
"A revolução não é a dos comitês, mas, antes de tudo, a vossa.
Levemos a revolução a sério, não nos levemos a sério"
"Quanto mais amor faço, mais vontade tenho de fazer a revolução.
Quanto mais revolução faço, maior vontade tenho de fazer amor"
"Professores, sois tão velhos quanto a vossa cultura, o vosso modernismo nada mais é que a modernização da polícia, a cultura está em migalhas"
"Não reivindicaremos nada. Não pediremos nada. Conquistaremos. Ocuparemos"
"Sob as calçadas, a praia"
"Um homem não é estúpido ou inteligente. É livre ou não é"
"As reservas impostas ao prazer excitam o prazer de viver sem reserva"
"Revolução, eu te amo"
"Sou marxista, tendência Groucho"
"A revolução deve ser feitas nos homens, antes de ser feita nas coisas"
"Um só fim de semana não-revolucionário é infinitamente mais sangrento que um mês de revolução permanente"
“Tu, camarada, tu, que eu desconhecia por detrás das turbulências, tu, amordaçado, amedrontado, asfixiado, vem, fala conosco"
"Abaixo a Universidade"
"O álcool mata. Tomem LSD"
"A sociedade nova deve ser fundada sobre a ausência de qualquer egoísmo e qualquer egolatria. O nosso caminho será uma longa marcha de fraternidade"
"Abaixo a sociedade espetacular mercantil"
"Os limites impostos ao prazer excitam o prazer de viver sem limites"
"O sonho é realidade"
"Corre camarada, o velho mundo está atrás de ti"
"Acabareis todos por morrer de conforto"
"O sagrado, eis o inimigo"
"A poesia está na rua"
"Abaixo os jornalistas e todos os que os querem manipular"
"Abaixo o Estado"
"Viva o efêmero"
"Não trabalharemos mais"
 
 
  

 

Veja também:

 

1968, O ANO DE TODOS OS GRITOS

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Terça-feira, 23 de Dezembro de 2008

OS DEUSES DO OLIMPO

 

 

Com a cristianização do mundo grego, os seus deuses idealizados, por trazerem características por demais humanas (ódio, cólera, amor, alegria...), deixaram de ser venerados como divindades e tornaram-se mitos. A palavra mitologia (do grego mythos, significando fábula, e logos, tratado), designa o conjunto de fábulas e lendas que determinado povo imaginou e o estudo dos mesmos. Enquanto religião, os deuses gregos conciliavam o homem com a natureza, explicando princípios básicos da vida, como nascer, viver e morrer, sem criar vínculos do homem à divindade, sem codificações da deidade em um Livro Sagrado. Os deuses gregos isentam aquele povo dos conceitos do que é sacro e do que é pecado. Os deuses espelham os homens, com todas as suas qualidades e defeitos, tendo apenas na imortalidade a superioridade a eles.

As Gerações do Poder dos Deuses

No princípio, do misterioso Caos emanaram todas as formas materiais da vida. Dele emergiu Gaia, a mãe Terra, que sozinha gerou Urano (Céu). Gaia une-se a Urano, que a fecunda constantemente, e deles nascem os Titãs, os Ciclopes, monstros de um só olho, e os Hecatônquiros, gigantes de cem braços e cinqüenta cabeças. Urano reina ao lado dos doze filhos titãs, mas não suporta ver a face horrenda dos outros filhos, os ciclopes e os hecatônquiros, aprisionando-s no interior da Terra. Presos sem ver à luz, os filhos de Gaia e de Urano são responsáveis pela força indomável da natureza, causadores das desordens e cataclismos, como os vulcões, os terremotos, as tempestades e os furacões. A primeira geração de deuses governada por Urano e por sua mulher Gaia, personifica a força material da natureza, a sua desordem genetriz.
Desde que se unira a Urano, o ventre de Gaia não parou de gerar um único dia. Cronos (Saturno), o deus do tempo, um dos titãs, revolta-se contra o pai, por este fecundar incessantemente à mãe, trazendo-lhe sofrimentos com uma prole indomável e por ver os filhos prisioneiros. Para que Gaia não continue gerando infinitamente, Cronos corta, com uma foice afiada pela própria mãe, os testículos do pai. Sendo a foice o símbolo da morte para os gregos, quem morre não é Urano, visto que é imortal, mas o seu reinado.
Cronos, ao lado da titânia Réia (Cibele), sua esposa e irmã, estabelece o segundo reinado dos deuses sobre a Terra e os homens. Já não é o reinado da desordem criadora, e sim da era pré-consciente da humanidade. Cronos, o tempo, está cego, perdido na evolução da vida e da ordem natural. A vida não explica a si mesma, apenas fervilha.
Com Réia, Cronos gera três filhas, Héstia (Vesta), Deméter (Ceres) e Hera (Juno), e três filhos, Hades (Plutão), Poseidon (Netuno) e Zeus (Júpiter). Alertado pela profecia de um oráculo, que um dos filhos o iria destronar, Cronos devora cada um deles tão logo nascem. Réia salva Zeus de ser devorado, quando este nasce, entrega ao marido uma pedra enrolada em várias tiras de pano, para que ele o devore a pensar tratar-se do filho.
Salvo de ser devorado, Zeus seria criado pelas Ninfas em Creta, longe do pai. Crescido, Zeus destrona o pai, obriga-o a ingerir uma porção que o faz vomitar todos os filhos devorados, que cresceram dentro dele. Ao lado dos irmãos, Zeus trava uma luta de dez anos pelo poder, vencendo os Titãs e os Gigantes. Torna-se o senhor de todos os deuses, dividindo com os irmãos o domínio do mundo: a Zeus coube o reino do céu e da terra, a Poseidon o mar, e a Hades, as profundezas terrestres, chamadas de Érebo ou Infernos.
O terceiro e definitivo reinado dos deuses é feita por Zeus, casado com a sua irmã Hera. Zeus ordena o universo definitivamente, estabelecendo o princípio divino da espiritualidade, é afirmação da ordem sobre a desordem. No reinado de Zeus surgirá a geração dos deuses Olímpicos.
Zeus reina de cima do Monte Olimpo, o ponto mais alto de toda a Grécia. Outros deuses reinarão ao seu lado, formando os doze deuses do Olimpo, seis deusas e seis deuses. Há três listas diferentes referentes aos doze deuses do Olimpo:
1 – Zeus, Poseidon, Apolo, Ares (Marte), Hermes (Mercúrio), Hefestos (Vulcano), Hera, Héstia, Deméter, Afrodite (Vênus), Atena (Minerva) e Ártemis (Diana).
Nesta primeira lista Dioniso (Baco), o deus do vinho, não é considerado como um dos doze deuses do Olimpo.
2 – Zeus, Poseidon, Apolo, Ares, Hermes, Hefestos, Dioniso, Hera, Deméter, Afrodite, Atena e Ártemis.
Nesta lista, segue a versão de que, ao chegar ao Olimpo, Dioniso expulsou Héstia, a deusa do lar, de seu posto junto a Zeus, ocupando este lugar privilegiado, firmando-se para sempre como divindade. Aqui há um desequilíbrio em relação ao sexo dos deuses, há 7 deuses e 5 deusas, o que faz da lista a menos reconhecida.
3 – Zeus, Apolo, Ares, Hermes, Hefestos, Dioniso, Hera, Héstia, Deméter, Afrodite, Atena e Ártemis.
Nesta lista, Poseidon, senhor dos mares, governa de um castelo nas profundezas dos oceanos, não participando do reinado do irmão no Olimpo, apesar de integrar das decisões do conselho Olímpico.
Hades, senhor dos mortos, participa do conselho Olímpico, mas reina sozinho na escuridão do mundo, sobre os mortos, por isto não consta em nenhuma das listas.

Zeus, o Pai dos Deuses

Zeus, o Júpiter da mitologia romana, é o mais jovem dos crônidas (filhos de Cronos). Salvo por Réia de ser devorado por Cronos, cresce em Creta, aos cuidados das Ninfas e do Curetes, jovens sacerdotes da mãe. Zeus destrona o pai Cronos, obriga-o a ingerir uma porção que o faz vomitar os filhos devorados. Divide o domínio do mundo com os irmãos, cabendo-lhe o céu e a terra.
Como rei absoluto, Zeus comanda o Olimpo e os homens. É considerado o pai dos deuses, dos semideuses, dos heróis e dos homens. Para manter a prole e a paternidade que lhe garantem o poder sobre os deuses, o senhor do Olimpo une-se a um grande número de deusas e de mulheres mortais, desafiando os ciúmes da sua mulher Hera. Todas as grandes cidades da Grécia antiga tinham como patrono um filho de Zeus. O deus tem como arma os raios e os trovões, estabelece a disciplina entre os deuses e os homens, protegendo-os e assegurando-lhes a ordem.

Hera, a Ciumenta Esposa de Zeus

Hera, a Juno da mitologia romana, filha de Cronos e Réia, reina no Olimpo, ao lado do marido Zeus. Temida por seu caráter essencialmente vingativo e ciumento, Hera persegue todas as amantes e filhos do marido. A deusa é a imagem do caráter humano movido pelo ciúme, sendo a mais realista e humana dos mitos gregos. Hera é a personificação do elemento fundamental da família. Seu ciúme reflete o momento pelo qual a cultura grega passava, abandonando de vez a poligamia e adotando a monogamia na família. A deusa era cultuada principalmente pelas mulheres, representava a fidelidade e as boas relações entre os casais. Era a deusa do amor conjugal. Nas artes era representada como uma jovem mulher bela e um pouco severa. Seus poderes sobre o Olimpo e os demais deuses, são iguais aos do marido.

Deméter, a Deusa da Agricultura

Deméter, a Ceres da mitologia romana, uma das filhas de Cronos e Réia, ao nascer, foi devorada pelo pai, mais tarde é salva pelo irmão Zeus. É uma deusa de caráter agrário, responsável pela fertilidade da terra, das colheitas e da civilização. Representa a mulher da civilização helênica, que nos tempos mais remotos da sua história, tinha como costume a dedicação dos homens à caça, à pesca e às armas, enquanto as mulheres cuidavam da casa e do campo. Deméter ajuda os mortais a plantar os grãos e a cultivar a terra. Quando sua filha Core (Prosérpina) é raptada por Hades, o senhor dos infernos, e levada para o seu reino nas trevas, Deméter abandona o mundo à fome. Para que a humanidade não pereça com as trevas nos campos, Zeus interfere, fazendo um acordo entre a deusa da agricultura e o senhor dos mortos: Core ficaria seis meses ao lado de Hades, no mundo das trevas, e seis meses na terra, ao lado da mãe. Assim, quando Core retorna do Érebo, surge a primavera, Deméter volta aos campos e garante uma boa colheita no verão, quando Core retorna para junto do marido, Deméter deixa os campos para chorar a filha, surgindo o outono e o inverno das lágrimas da deusa.

Héstia, a Fria Deusa da Castidade

Héstia, a Vesta da mitologia romana, a primeira filha de Cronos e Réia, foi devorada pelo pai quando nasceu. Bela e fria, Héstia foi cortejada e amada pelos deuses Apolo e Poseidon, mas não sentiu amor ou paixão por nenhum deles, recusando-os e fazendo voto de castidade. Recebeu de Zeus a honra de ser venerada em todos os lares, ser incluída em todos os sacrifícios e permanecer imóvel no seu palácio, cercada pelo respeito dos deuses e dos mortais. É a divindade do fogo que aquece os lares (héstia em grego significa o fogo da lareira), das virgens (as vestais da Roma antiga) e protetora da família, dos lares. Todas as cidades antigas possuíam o fogo de Héstia, mantido aceso nos palácios em que se reuniam os representantes das tribos. Héstia era representada como uma mulher jovem, com um véu sobre a cabeça e os ombros. Uma das lendas diz que Héstia, destronada por Dioniso, deixou de ser uma das doze divindades do Olimpo.

Poseidon, Senhor dos Mares

Poseidon, o Netuno da mitologia romana, filho de Cronos e Réia, é o deus dos oceanos, dos terremotos e dos maremotos. Grande parte do território grego é constituído por ilhas no Mar Egeu, daí a grande importância do culto a Poseidon pelos helenos. O senhor dos mares habita, segundo a tradição do mito, um palácio nas profundezas do Egeu. Percorre os mares numa carruagem atrelada a velozes cavalos de cascos de bronze e crinas de ouro, trazendo o tridente nas mãos, sendo acompanhado por uma comitiva de Sereias, Nereidas, Ninfas, Centauros marinhos e delfins. É o deus pai de Teseu, o mais célebre dos heróis de Atenas. Também é pai de monstros como a Medusa. É um deus impetuoso, venerado pelos pescadores, navegantes e mercadores dos mares. Apesar da sua grande influência sobre o Olimpo, às vezes não é identificado como um dos doze deuses Olímpicos, tendo o seu reinado sobre as águas dos mares.

Afrodite, a Deusa do Amor

Afrodite, a Vênus da mitologia romana, nasceu da espuma do mar. Quando Cronos cortou os testículos de Urano, atirando-os ao mar, formou-se uma enorme espuma dos órgãos arrancados, da qual surgiu Afrodite, a mais bela de todas as deusas. Afrodite é a deusa do amor, a maior força que conduz o homem. Esta força pode ser a do sentimento mais profundo, como a do desejo sexual insaciável e destrutivo, o amor pode engrandecer o homem, como levá-lo à loucura. É a deusa da força primaveril, que traz o esplendor anual das plantas e a renovação da vida pelo amor, sempre em paralelo com a vida humana e a vegetal, pois a agricultura conduz a força da civilização helênica. Sem a primavera não há a fertilidade, não há a renovação da vida, não há o futuro. Foi obrigada por Zeus a casar-se com Hefestos, o deus feio e coxo dos vulcões. Afrodite trai sem culpa o marido com os mais belos deuses: Ares, Hermes e Dioniso, ou com os mortais Adônis e Anquises.

Ares, o Cruel Deus da Guerra

Ares, o Marte da mitologia romana, filho de Zeus e Hera, é o deus da guerra, inseparável companheiro do Terror e da Discórdia, é a face destrutiva da guerra, representa a crueldade das batalhas, o sangue derramado, a discórdia sem lados, sem vencedores, apenas o ódio cego das batalhas. Os gregos relutavam em cultuar Ares, que não oferecia a sua proteção à cidade alguma, apenas dominava o ódio. O deus jamais foi aceito inteiramente pela sociedade grega, que não admitia a violência e a brutalidade. A origem ao seu culto provinha dos trácios, povo belicoso, considerado desprezível pelos helenos. Ares é o pai dos deuses que personificavam a discórdia: Fobos, Deimos e Éris. Da sua união com Afrodite nasceram Cupido e Harmonia.

Atena, a Deusa da Sabedoria

Atena, a Minerva da mitologia romana, nasceu da cabeça de Zeus. O senhor do Olimpo uniu-se a Métis e fecundou-a, mas o oráculo previu que o próximo filho desta união destronaria Zeus, assim como ele fizera a Cronos. Para evitar que a profecia viesse a se concretizar, engoliu Métis. Tempos depois, despontou da sua cabeça a bela Atena, deusa da guerra estratégica, da luta racional e justa. Ao contrário de Ares, que provocava o horror da guerra, Atena protegia o guerreiro. Protetora e sábia, era ela que conduzia os gregos na defesa dos nobres ideais, na difusão da cultura e na instauração da paz. Atena manteve-se virgem, jamais amou homem algum ou teve filhos. Era a deusa mais cultuada pelos gregos, principalmente na Acrópole, em Atenas, cidade que leva o seu nome.

Hefestos, o Artesão dos Deuses

Hefestos, o Vulcano da mitologia romana, filho de Zeus e Hera, nasceu coxo, envergonhando a mãe diante dos deuses do Olimpo. Para não apresentar o filho imperfeito aos deuses, a esposa de Zeus atirou-o do Olimpo ao mar. Hefestos teria sido salvo pela nereida Tétis e sua amiga Eurínome, que criaram o feio deus como um filho. Hefestos tornou-se um habilidoso artesão dos metais, senhor do fogo e da forja. Deus do fogo e dos vulcões, é a imagem divina do artesão perfeito. Quando adulto, presenteou a mãe Hera com um trono de ouro, ao sentar-se sobre o presente, a deusa ficou aprisionada. Era a vingança à mãe que o rejeitara. Só aceitou libertar Hera daquela prisão, quando Zeus deu-lhe como esposa a mais bela das deusas, Afrodite. Hefestos tinha a sua oficina na ilha de Lemnos, onde era auxiliado por divindades menores ligadas ao fogo e à metalurgia. O mito de Hefestos representava a preocupação dos gregos com a genética. Era uma forma de alertar para os perigos dos filhos deformados nascidos da união entre irmãos, como eram Hera e Zeus.

Hermes, o Mensageiro dos Deuses

Hermes, o Mercúrio da mitologia romana, filho de Zeus e Maia, é o esperto deus dos viajantes, dos mercadores e dos ladrões. Corredor infatigável, o deus viaja por todas as partes entre a Terra e o Olimpo, como mensageiro dos deuses. Por esta desenvoltura, era representado pelos gregos como viril, modelo de juventude e ideal de juventude, sua veneração era feita nos estádios e ginásios. Era tido como o deus que inventara o pugilato e as carreiras atléticas, sendo o patrono dos desportistas. Foi o deus que inventou a lira, sendo cultuado pelos poetas e cantores. Traz chapéu e sandálias providos de pequenas asas que o ajudam a correr como o vento. Pai de vários filhos, os mais conhecidos da sua prole são: Pã, fruto da sua união com a ninfa Driopéia, e Hermafrodito, ser de dupla natureza, homem e mulher ao mesmo tempo, da sua união com Afrodite.

Apolo, o Deus Solar

Filho de Zeus e Latona, irmão gêmeo da deusa Ártemis, Apolo era o cultuado deus da luz, rompendo a escuridão do mundo, iluminando a obscuridade da ignorância e tecendo o brilho do dom da poesia e das artes. O deus tinha muitas faces, múltiplas funções. Era o condutor dos pastores, multiplicador das colheitas, iluminava o caminho dos navegantes, protegia os médicos e a saúde, inspirava os artistas, e adivinhava o futuro dos homens em seus oráculos. Era visto como deus da perfeição da beleza grega. Apolo era a superioridade do belo sobre o feio, do sublime sobre o vulgar, do ideal de beleza absoluta. É pai de Esculápio, mítica figura de médico. Amou Dafne, ninfa que fizera voto de castidade aos deuses, perseguida pelo deus da luz, implorou a Gaia que lhe ajudasse, sendo transformada em um loureiro sagrado. Trágico também foi o seu amor pelo belo Jacinto, disputado com Zéfiro. Enciumado, Zéfiro fez com que Apolo atingisse mortalmente o amado quando arremessava um disco. Triste, o deus transformou o sangue do amante numa flor que leva o seu nome. Deus da poesia e da beleza, Apolo é sempre seguido pelas nove Musas e pelas três Graças, nos seus passeios pelos vales do Parnaso ou pelos bosques da Arcádia.

Ártemis, a Virginal Deusa da Caça

Ártemis, a Diana da mitologia romana, irmã gêmea de Apolo, filha de Zeus e da titânia Latona. A lenda dizia que Ártemis nascera no sexto mês de gestação e Apolo no sétimo. Era a deusa da Lua e da caça, pediu a Zeus que lhe desse como apanágio a virgindade eterna. Ártemis nunca amou nenhum mortal ou deus, nunca teve filhos, era a imagem da altiva rainha da natureza selvagem. Tem como animal símbolo o cervo. De uma beleza rara, a deusa emana o fulgor e vigor das caçadoras dos bosques, trazendo sempre consigo o arco e as setas. Como deusa da Lua, acreditava-se que exercia influência sobre alguns fenômenos naturais. A sua pureza virginal refletia o contato direto do homem com a natureza, sem destruí-la ou ofendê-la.

Dioniso, o Poderoso Deus do Vinho

Dioniso, o Baco da mitologia romana, filho de Zeus e da mortal Sêmele, uma princesa tebana. Sendo filho de pai divino e mãe mortal, Dioniso não era aceito como deus. A lenda do mito de Dioniso diz que ele descobriu a uva, uma fruta desconhecida, extraindo dela o vinho, bebida de efeitos poderosos. Dioniso utilizou-se dos efeitos do vinho para impor a sua divindade aos homens e aos seres olímpicos. Era o deus do vinho, da alegria, da embriaguez, das festas, da colheita e da fertilidade.O deus era seguido pelas Mênades (as Bacantes dos romanos), jovens mulheres que simulavam delírios dionisíacos, celebrando as orgias com gritos e danças desnorteadas. Com o seu cortejo, Dioniso viajava pela Grécia antiga, propiciando aos devotos alegria e felicidade. Através do vinho, as preocupações deixavam os corações humanos e os medos sucumbiam. A coragem crescia, a vida refulgia em seu esplendor. A embriaguez produzia além do prazer e da esperança, a selvageria e a loucura. O culto a Dioniso está ligado às origens do teatro. Com Afrodite, o deus gerou Príapo, famoso por seu vigor fálico. Uniu-se à Ariadne, com quem viveu para sempre.
 
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Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2008

A CENSURA DO GOVERNO MILITAR E AS NOVELAS DA GLOBO

 

 

A prática de censura às artes, à literatura e às comunicações, é uma conseqüência dos governos repressivos, que usam dos veículos de comunicação para a divulgação de uma poderosa propaganda de estado, vetando aqueles que se lhe opõem. A Alemanha nazista foi quem mais soube usar dos veículos de comunicação, passando para o povo germânico e para o mundo a utopia de um estado totalitário. Não foi diferente no Brasil na época da ditadura militar, que durou de1964 a 1985. Durante duas décadas, a censura impôs o seu conceito de estado, moral e civismo em prol do regime dos presidentes vindos da caserna. Este período foi dividido em dois, o primeiro, de 1964 a 1968, considerado mais brando, que ocasionou um erro histórico das lideranças políticas da época, que viam 1968 como o ano em que a ditadura estava enfraquecida e pronta para ser derrubada, erro que terminou na promulgação do Ato Institucional número 5 (AI-5), de 13 de dezembro de 1968, que fechou o Congresso, cassou mandatos, negando hábeas corpus aos presos políticos. O regime militar entrou na sua segunda fase, com um endurecimento maior. Após o AI-5, a liberdade de expressão passou a ser vigiada, todos os veículos de comunicação (imprensa, música, televisão, teatro, cinema) deveriam ter as suas pautas previamente aprovadas, sujeitas à inspeção local por agentes autorizados.
A imagem que o autoritarismo do regime militar no Brasil queria passar era a de um governo estável politicamente, de uma nação regida por uma rígida moral cristã e de bons costumes, de um país próspero e em pleno ápice do desenvolvimento. Qualquer menção à tortura, à perseguição política ou à falta de liberdade de pensamentos, era proibida, omitida diante de uma nação que, na maioria das vezes, sua população não sabia o que estava a acontecer nos calabouços da ditadura, ou, no jogo de poder que assolava a nação.
 

Jornais, Revistas, Músicas... Censura Geral

 

A censura à imprensa gerou diferentes reações. Jornais e revistas quando tinham suas matérias censuradas, deixavam longos espaços em branco, publicavam receitas culinárias indecifráveis, ou recorriam à poesia de Camões no lugar das matérias vetadas.
A MPB teve várias canções censuradas, com “Cálice” (Chico Buarque – Gilberto Gil), “Apesar de Você” (Chico Buarque) ou “Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores” (Geraldo Vandré). Capas de discos foram censuradas, como a do álbum “Índia”, de Gal Costa, de 1973, em que a cantora trazia um close frontal em uma vestida de uma tanga minúscula. A censura ao corpo do cantor Ney Matogrosso, que na época fazia parte da banda “Secos & Molhados” (1973), apresentando-se sem camisa. Como conseqüência, a televisão só podia focalizar o seu rosto, ou o corpo ao longe, sem closes.
O cinema foi um dos veículos de comunicação mais prejudicado pela censura da ditadura militar. Filmes como “Emmanuelle” (1974), com Sylvia Kristel, “O Último Tango Em Paris” (1972), com Marlon Brando, só foram exibidos em 1980, quando a ditadura militar proporcionou uma abertura e liberou certas obras censuradas. Mas o filme “Pra Frente Brasil”, de 1982, que falava da tortura no regime militar, não escapou à tesoura da censura.
A censura não poupou a telenovela, que se tornou o principal produto de consumo do telespectador brasileiro. Autores como Dias Gomes, Janete Clair, Lauro César Muniz e Mário Prata, tiveram seus textos destruídos pelos censores, que se encarregavam de verificar se o que se ia ao ar estava de acordo com as regras do regime militar e com os seus valores morais.

Capítulos e Novelas Censuradas

A telenovela diária, como forma de entretenimento da televisão brasileira no formato que se tem hoje, surgiu em 1963, com 2-5499 Ocupado, tendo como protagonistas Tarcísio Meira e Glória Menezes. Na primeira fase da ditadura militar (1964-1968), as telenovelas não tinham grande poder de formação de opinião junto ao público, o que fez com que os censores só olhassem para elas a partir de 1970. Naquele ano, o sucesso de “Irmãos Coragem”, de Janete Clair, pôs o hábito no brasileiro de ver telenovela no horário nobre, tradição que perdura até os dias atuais. A paixão tão bem correspondida entre o brasileiro e as telenovelas, fez com que as mais estranhas formas de censura caíssem sobre os textos dos autores até o fim da ditadura militar.
A primeira telenovela de Dias Gomes foi “A Ponte dos Suspiros” (1969), feita pela Rede Globo. Era um dramalhão que se passava em Veneza. O dramaturgo, temendo represálias devido à sua militância política declaradamente de esquerda, assinou esta novela com o pseudônimo de Stela Calderón. Dias Gomes tinha a supervisão do seu texto feita pela poderosa Glória Magadan. Com a demissão de Glória Magadan pela Globo, o autor mudou radicalmente o texto, passando a debater temas políticos. Com a mudança no conteúdo, a censura paulista obrigou a novela a ser transmitida às 22 horas, inaugurando assim, um novo horário na emissora que perduraria até 1979. Na novela “Bandeira 2” (1971/72), o protagonista era o bicheiro Tucão (Paulo Gracindo), que teve grande aceitação popular. A censura exigiu que ele fosse morto no fim da trama, para moralizar a história. A censura atingiria a próxima novela de Dias Gomes, a mítica “O Bem-Amado” (1973). A música tema da abertura da novela, “Paiol de Pólvora” (Vinícius de Moraes – Toquinho), foi censurada por causa do verso “Estamos sentados em um paiol de pólvora”, sendo substituída por “O Bem-Amado” (Vinícius de Moraes – Toquinho), tocada pelo Coral Som Livre. Ainda nesta novela, foi proibido que Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo) fosse chamado de “coronel” e Zeca Diabo de “capitão”, o que obrigou a emissora carioca a apagar o áudio em mais de 15 capítulos já gravados em que apareciam as palavras. “Ódio” e “vingança” foram outras palavras proibidas pela censura de serem pronunciadas na novela. O maior golpe que sofreu Dias Gomes foi a censura completa da novela “Roque Santeiro”, em 1975. Já com 36 capítulos gravados e editados, prontos a estrear, a Delegacia de Ordem Pública e Social (DOPS), descobriu que o dramaturgo estava a adaptar o texto teatral “O Berço do Herói”, de sua autoria, que fora escrito e proibido em 1963. A história de Sinhozinho Malta (Lima Duarte), viúva Porcina (Betty Faria) e Roque (Francisco Cuoco) nunca foi ao ar, sendo substituída por uma reprise compacta de “Selva de Pedra”. A novela só seria liberada dez anos depois, em 1985, trazendo o mesmo Lima Duarte no papel de Sinhozinho Malta, mas com Regina Duarte (Porcina) e José Wilker (Roque) como protagonistas. A novela tornar-se-ia um dos maiores sucessos da televisão brasileira.
Durante a ditadura militar e a sua rígida censura, Janete Clair foi a autora de telenovelas que mais produziu grandes sucessos, sendo a que teve mais textos vetados pela censura. “O Homem Que Deve Morrer” (1971), sugeria de forma alegórica, uma adaptação da vida de Cristo. Ciro Valdez (Tarcísio Meira), nascia de uma mulher virgem do interior do Brasil. Dois dias antes da estréia, o tema foi considerado impróprio, os dez primeiros capítulos foram totalmente vetados pela censura. Diante do impasse, Janete Clair baseou a sua novela em “Eram os Deuses Astronautas”, de Erich von Daniken, e o protagonista passou a ser filho não do espírito santo, mas de um ET. Janete Clair voltaria a sofrer com a censura na sua novela seguinte, “Selva de Pedra” (1972). Na novela, o casamento entre Cristiano (Francisco Cuoco) e Fernanda (Dina Sfat) não se realizou porque a censura considerava a união um estímulo à bigamia. Cristiano acreditava que a sua mulher Simone (Regina Duarte), tinha morrido em um acidente, mas a censura não permitiu a cerimônia, alegando que o público sabia que o casamento era bigamia. Janete Clair fez com que Fernanda fosse abandonada no altar e, inutilizou 22 capítulos já escritos, que seriam exibidos logo após o casamento das personagens. Em 1973, a autora teve a novela “Cidade Vazia” vetada pela censura, sendo obrigada a improvisar com “O Semideus”. Após o término de “O Semideus”, “Cidade Vazia” foi liberada com o nome de “Fogo Sobre Terra” (1974). A novela narrava a história da cidade fictícia de Divinéia, que seria inundada por uma hidrelétrica. A novela sofreu grandes problemas com a censura por causa do protagonista Pedro Azulão (Juca de Oliveira), que liderava o povo contra a construção da hidrelétrica. Pedro Azulão foi obrigado a mudar a sua convicção ideológica. Na trama, a autora pensava em matar a personagem no final, mas a censura não deixou, para que não se transformasse em mártir, e, de quebra fez com que a personagem se retratasse. Esta novela teve vários capítulos mutilados pela censura, fazendo a coerência do texto desaparecer por completo. De uma só vez, a autora rasgou 12 capítulos censurados. Mais tarde, Janete Clair declararia que “Fogo Sobre Terra”, tinha sido a sua novela mais prejudicada pela censura. A autora voltaria a sofrer retaliações com “Duas Vidas” (1977), cuja temática mostrava a desapropriação de residências pelas obras da construção do metrô do Rio de Janeiro. Como o metrô era uma obra do governo federal, não podia ser criticado pela televisão. Nenhuma personagem podia reclamar sequer da poeira feita pelas obras. Uma cena entre as personagens Valdo (Luís Gustavo) e Naná (Arlete Salles), que sugeria uma discussão violenta, foi inteiramente cortada, o telespectador ficava sem perceber se Valdo tinha matado ou espancado Naná.
A ditadura dos generais era moralista, pois era sustentada por uma burguesia conservadora e rígida, composta por senhoras de família que saíram às ruas em 1964, com rosários nas mãos, a apoiar o golpe militar. Nas novelas da época, um homem casado não se poderia apaixonar por outra mulher, ter amantes, muito menos trocar um beijo e carinhos com ela. Na novela “Sem Lenço, Sem Documento” (1977), de Mário Prata, Marco (Ney Latorraca) era casado com Iara (Cidinha Milan), nutria uma paixão velada por Carla (Bruna Lombardi), por este motivo, a censura obrigou o autor a matar Iara, fazendo de Marco um viúvo disponível para viver o seu amor por Carla.
Escalada” (1975), o maior sucesso de Lauro César Muniz, contava a história da construção de Brasília, mas o protagonista Antônio Dias (Tarcísio Meira), e as outras personagens da trama, eram proibidas de falar no nome de Juscelino Kubtschek, o presidente que havia construído a capital federal, e, que fora exilado pelo regime militar. Lauro César Muniz voltaria a sofrer com a censura em 1977, na novela “Espelho Mágico”, as personagens Nora (Yoná Magalhães) e Jordão (Juca de Oliveira) viviam um casamento desgastado, marcado por cenas de fortes discussões, que foram cortadas e excluídas, não indo ao ar pela censura achar que serviam de incentivo à separação dos casais. O mais curioso é que esta novela foi ao ar no momento histórico da aprovação da lei do Divórcio no Brasil, promulgada naquele ano, lei que criou um mal-estar entre a burguesia e a igreja conservadoras, os maiores aliados dos militares.
Às vezes a censura comportava-se de forma que não se percebia, como no caso da novela “Escrava Isaura” (1976), de Gilberto Braga, que tinha como tema a escravidão, mas que não se podia usar a palavra “escravo”. Esta palavra tinha que ser substituída por “peça”. Na novela “O Bofe” (1972), de Bráulio Pedroso, Inocêncio (Paulo Gonçalves) era um vigarista que se passava por padre para dar um golpe, quando os censores perceberam o ardil, obrigaram o autor a manter a personagem como padre e ser punido no fim da trama.
Um ano após a proibição de “Roque Santeiro”, a Rede Globo sofreria mais um golpe, “Despedida de Casado”, de Walter George Durst, programada para substituir “Saramandaia”, foi proibida pela censura. O projeto de lei que instituiria o divórcio no Brasil estava no auge do seu debate, e a lei seria promulgada seis meses depois da estréia dessa novela, mesmo assim, a censura continuava conservadora, não permitindo que o tema, as crises conjugais do casal Stela (Regina Duarte) e Rafael (Antônio Fagundes) após dez anos de casados, fosse abordado pela televisão. Os 30 primeiros capítulos tinham sido aprovados pela censura, depois de gravados e editados, não agradaram aos censores e a novela foi definitivamente vetada. A solução foi Walter George Durst escrever outra história e aproveitar o elenco de “Despedida de Casado”. “Nina” foi a novela escrita para substituir a malograda história. Ao contrário de “Roque Santeiro”, que foi retomada dez anos depois, “Despedida de Casado” foi definitivamente esquecida, pois teve a sua temática datada após a lei do divórcio.
Já feita a anistia política e retomada a abertura, no finzinho do regime militar, a mini-série “Bandidos da Falange” (1982), de Aguinaldo Silva, foi censurada, só liberada cinco meses depois, após sofrer grandes cortes, vindo a ser exibida em 1983.
Não só de cunho político, como também de vertente moralista e defensora dos costumes da época, a censura que perdurou enquanto do regime militar, provocou o decepamento de centenas de capítulos das novelas, culminando com o veto total de duas delas, “Roque Santeiro” (1975) e “Despedida de Casado” (1976), ambas da Rede Globo.
 
publicado por virtualia às 13:16
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