Segunda-feira, 29 de Setembro de 2008

CHARLES CHAPLIN

 

 

 
Há pouco mais de trinta anos, no natal de 1977, o mundo perdia uma das figuras mais carismáticas do século XX, Charles Chaplin. Um ícone refletido na figura emblemática de Charlie (Carlitos), o romântico vagabundo de bigode, bengala e chapéu-coco. Imagem que povoa a mente de todas as pessoas do planeta.
Charles Spencer Chaplin nasceu em Walworth, Londres, em 1889. Filho de animadores do Music Hall, seus pais se separaram logo a seguir ao seu nascimento. A mãe tinha sérios problemas emocionais, que se agravaram com o tempo, o pai morreu quando Chaplin tinha ainda 12 anos, devido a problemas com bebidas. É da mãe que Chaplin herda o ludismo que carregaria para sempre na figura de Carlitos, quando criança esteve seriamente doente, ela sentava-se na janela e representava para o filho o que acontecia lá fora. Foi a mãe que lhe ensinou a cantar e a representar, e o menino Chaplin pisou nos palcos do Music Hall em 1894, aos cinco de idade.
Os problemas emocionais da mãe, juntando-se longos períodos de desemprego que ela passou, o alcoolismo do pai, trouxeram para a infância pobre de Chaplin momentos de internação em uma escola para crianças órfãs e destituídas de bens. Trabalhando regularmente nos teatros londrinos, Chaplin torna-se palhaço na companhia de comédia de Fred Karno.

A Figura Eterna do Vagabundo

Em 1912 segue com esta companhia para os Estados Unidos. A atuação de Chaplin na companhia de Karno foi vista pelo produtor de filmes Mack Sennet, que o contratou para trabalhar no estúdio Keystone Film Company. Iniciava-se uma das maiores carreiras cinematográficas da história. Charles Chaplin logo desponta no cinema mudo. É justamente no silêncio do cinema que cria o seu personagem malabarista, Charlie, ou Carlitos, como ficou conhecido no Brasil.
Com o adorável vagabundo Chaplin conquista o mundo. Faz desta personagem carismática um símbolo do século XX e do cinema que nascia no subúrbio de Hollywood, em Los Angeles. Carlitos torna-se o auto-retrato do homem no limiar da vida. Desprotegido do mundo, usa da inteligência para sobreviver, do carisma para conquistar e da sagacidade para incomodar os que estão à sua volta. A personagem empolga, mas toca na mesquinhez de quem a ladeia. Com o olhar triste e desprotegido, traz a completa solidão do homem diante de um mundo que se industrializa e se firma cada vez mais em um capitalismo selvagem. Carlitos traz sobre a sua proteção símbolos ainda mais desprotegidos do que ele diante da vida, como a criança abandonada pela mãe e encontrada pelo vagabundo (The Kid, 1921), ou a figura do cão rafeiro a acompanhá-lo. A figura do vagabundo é um ícone da galeria de personagens universais, não só do cinema, mas da arte moderna. Na sua contravenção e astúcia o reflexo do homem que luta contra o sistema, a liberdade vista como marginal e sem objetivos.

Um Homem de Cinema

Por trás da figura de Carlitos, Charles Chaplin revela-se um homem de negócios dentro da Sétima Arte. Funda com Mary Pickford, D. W. Griffith e Douglas Fairbanks Pai, em 1919, a United Artists, que se transformaria em um grande estúdio. Passa a dirigir os próprios filmes. Quando o som chega ao cinema em 1927, Chaplin permanece fazendo filmes mudos pela década de trinta. O seu primeiro filme sonoro só viria em “O Grande Ditador”, em 1940, sátira ao nazismo e à figura de Adolf Hitler.
Com “Tempos Modernos”, de 1936, Chaplin deixa claro o seu flerte com a esquerda. Suas posições políticas seriam responsáveis pela perseguição que iria sofrer quando da época da caça às bruxas deflagrada pelo macarthismo. Durante as décadas que viveu nos Estados Unidos, Chaplin jamais recorreu à nacionalidade americana, vivendo com visto de residência como qualquer outro estrangeiro. Acusado de comunista, numa visita à Inglaterra em 1952, foi impedido de entrar novamente nas terras do Tio Sam, tendo o seu visto negado pelo serviço de imigração daquele país. Chaplin decide viver na Suíça, de onde não mais iria sair. O velho senhor só retornaria à América em 1972, para receber o Oscar honorário (segundo da sua carreira) por sua obra e contribuição ao cinema. Em 1973 receberia o Oscar de melhor trilha sonora pelo filme “Luzes da Ribalta”, de 1952, mas só lançado em Los Angeles em 1972, devido à perseguição do macarthismo.
O último filme dirigido por Chaplin foi "A Condessa de Hong Kong", de 1967, protagonizado por Sophia Loren e Marlon Brando. Apesar do elenco, é um dos filmes que mais crítica negativa teve a sua carreira excepcional.
Em 1975, já livre das perseguições políticas devido às posições de esquerda, o adorável vagabundo do cinema tem o seu título de nobreza, é condecorado como cavaleiro de Sua Majestade, Elizabeth II, tornando-se Sir Charles Spencer Chaplin.

Casamentos

Na sua vida pessoal, Chaplin teve vários casamentos. Em 1918 casou-se com Mildred Harris, divorciando-se em 1920. Em 1924 casa-se com Lita Grey, casamento que duraria dois anos. Em 1936 um novo casamento com a estrela Paulette Goddard, que terminaria em divórcio em 1942. Aos 54 anos, em 1943, Charles Chaplin casou-se com Oona O’Neill, filha do dramaturgo Eugene O’Neill, Oona tinha na época apenas 17 anos. Viveria ao lado de Chaplin até a sua morte.
No dia 25 de dezembro de 1977, aos 88 anos, o velho vagabundo deixou para sempre os palcos do mundo. Naquele ano o natal foi mais triste. Uma figura que se tornou símbolo de cartões postais de esperança espalhados pelo mundo, sai de cena justamente no dia mais comemorado pelos cristãos, partindo de uma forma quase lúdica. Em 1978 ladrões roubam o seu corpo do cemitério de Vevey, Suíça, para extorquir dinheiro da família. O corpo só viria a ser encontrado dois meses depois, o que obrigou a família a construir uma cova de concreto com mais de 500 quilos.
Trinta anos depois da sua morte, a imagem jovial do vagabundo continua intacta na memória do planeta, e condenada a ser eterna, a jamais se apagar do universo contemporâneo. Dentro dos mitos do século XX., Carlitos talvez seja o que traz a maior identificação do homem com o lúdico e com a imagem de descaso diante do capitalismo erguido naquele século.

FILMOGRAFIA

Curta-Metragens

1914 - Between Showers (Dia Chuvoso ou Carlitos e Os Guarda-Chuvas)
1914 - A Busy Day (Carlitos Ciumento ou Carlitos e As Salsichas)
1914 - Caught in a Cabaret (Bobote em Apuros)
1914 - Caught in the Rain (Carlitos e a Sonâmbula)
1914 - Cruel, Cruel Love (Carlitos Marquês)
1914 - Dough and Dynamite (Dinamite e Pastel)
1914 - The Face on the Barroom Floor (Pintor Apaixonado ou Sobrado Mal-Assombrado)
1914 - The Fatal Mallet (A Maleta Fatal ou O Malho de Carlitos)
1914 - A Film Johnnie (Dia de Estréia)
1914 - Gentlemen of Nerve (Carlitos e Mabel Assistem as Corridas)
1914 - Getting Acquainted (Carlitos e Mabel de Passeio)
1914 - Her Friend the Bandit (Carlitos, Ladrão Elegante)
1914 – His Favorite Pastime (Carlitos Entre o Bar e o Amor)
1914 – His Musical Career (Carregadores de Piano)
1914 - His New Profession (Nova Colocação de Carlitos)
1914 - His Prehistoric Past (Passado Pré-Histórico)
1914 - His Trysting Place (O Engano)
1914 - Kid Auto Races at Venice (Corrida de Automóveis Para Meninos)
1914 - The Knockout (Dois Heróis ou Dois Heróis Encrencados)
1914 - Laughing Gas (Carlitos Dentista)
1914 - Mabel at the Wheel (Carlitos Banca o Tirano)
1914 - Mabel's Busy Day (Carlitos e as Salsichas)
1914 - Mabel's Married Life (Carlitos e Mabel se Casam)
1914 - Mabel's Strange Predicament (Carlitos no Hotel)
1914 - Making a Living (Carlitos Repórter)
1914 - The Masquerader (Carlitos Coquete)
1914 - The New Janitor (Carlitos Porteiro)
1914 - The Property Man (Carlitos na Contra Regra)
1914 - Recreation (Divertimento)
1914 - The Rounders (Na Farra)
1914 - The Star Boarder (Carlitos e a Patroa)
1914 - Tango Tangles (Carlitos Dançarino)
1914 - Those Love Pangs (Carlitos Rival no Amor )
1914 - Twenty Minutes of Love (Vinte Minutos de Amor)
1915 - The Bank (O Banco)
1915 - By the Sea (Carlitos à Beira Mar)
1915 - The Champion (Campeão de Boxe)
1915 - His New Job (Seu Novo Emprego)
1915 - His Regeneration
1915 - In the Park (Carlitos no Parque)
1915 - A Jitney Elopement (Carlitos Quer Casar)
1915 - Mixed Up
1915 - A Night Out (Carlitos se Diverte)
1915 - A Night in the Show (Carlitos no Teatro)
1915 - Shanghaied (Carlitos Marinheiro)
1915 - The Tramp (O Vagabundo)
1915 - A Woman (A Senhorita Carlitos)
1915 - Work (Carlitos Trabalhador)
1916 - Behind the Screen (Carlitos no Estúdio)
1916 - Burlesque on Carmen (Carmem às Avessas)
1916 - The Count (O Conde)
1916 - The Fireman (Carlitos Bombeiro)
1916 - The Floorwalker (Carlitos no Armazém)
1916 - One A.M. (Carlitos Boêmio)
1916 - The Pawnshop (Casa de Penhores)
1916 - Police! (Carlitos Policial)
1916 - The Rink (Carlitos Patinador )
1916 - The Vagabond (O Vagabundo)
1917 - The Adventurer (Carlitos Presidiário)
1917 - Chase Me Charlie
1917 - The Cure (Carlitos nas Termas)
1917 - Easy Street (Carlitos Guarda-Noturno)
1917 - The Immigrant (O Imigrante)
1918 - The Bond
1918 - A Dog's Life (Vida de Cachorro)
1918 - Shoulder Arms (Carlitos nas Trincheiras)
1918 - Triple Trouble (Carlitos em Apuros)
1919 - A Day's Pleasure (Um Dia de Prazer)
1919 - Sunnyside (Idílio Campestre)
1921 - The Idle Class (Os Ociosos)
1922 - Pay Day (Dia de Pagamento)
1923 - The Pilgrim (Pastor de Almas)


Longa-Metragens

1914 - O Idílio Desfeito (1914)
1921 - The Kid (O Garoto)
1921 - The Idle Class (Os Clássicos Vadios)
1923 - A Woman of Paris (Casamento ou Luxo?)
1925 - The Gold Rush (Em Busca do Ouro)
1928 - The Circus (O Circo)
1931- City Lights (Luzes da Cidade)
1936 - Modern Times (Tempos Modernos)
1941 - The Great Dictator (O Grande Ditador)
1947 - Monsieur Verdoux (1947)
1952 - Limelight (Luzes da Ribalta)
1953 - Um Rei em Nova York
1967 - A Countess From Hong Kong (A Condessa de Hong Kong

 
 

 
 

 
 

 
 
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Sexta-feira, 26 de Setembro de 2008

BAIRRO ALTO

 

 

Provavelmente um dos lugares mais emblemático, sedutor e idolatrado de Lisboa, o Bairro Alto é o local dos movimentos e da vanguarda portuguesa. Talvez por ser um dos sítios onde transitam todas as tribos, toda a essência da moda ou gritos da contracultura lisboeta mesclada com os visitantes de todas as partes do mundo. Por lá encontramos turistas europeus, africanos, latino-americanos, ibéricos, portugueses do norte ou do sul, todos a dividir o mesmo espaço com moradores tradicionais, finos restaurantes e tascas populares. Há uma atmosfera romântica, marginal e contraventora que faz das suas ruas estreitas, com roupas estendidas nas varandas a disputar espaços com as flores e plantas, um local único, um sítio genuinamente português.

 
Origens Históricas do Bairro Alto

Nascido nos primórdios do século XVI, é a última conquista de uma das sete colinas de Lisboa. É um bairro pós Idade Média, já além das muralhas que cercavam a Lisboa Medieval. A primeira construção que se teve notícia foi uma ermida onde é hoje a Igreja de São Roque e a Santa Casa da Misericórdia. O sítio em sua origem mais remota foi originalmente ocupado por esta ermida dedicada a São Roque, fundada em 1506. Bairro da expansão quinhentista, foi o primeiro loteamento da Vila Nova de Andrade, em 1513. Fazia parte da cidade dos descobrimentos, programada com base numa malha urbana ortogonal moderna, onde se instalaram, lado a lado, populares (habitação de mercadores ligados às rotas marítimas) e aristocratas.
Com a chegada dos Jesuítas a Portugal, é na parte nova e alta da cidade de Lisboa que a prestigiada Companhia de Jesus se vai instalar. No lugar da ermida dedicada a São Roque é construída pelos jesuítas a Igreja de São Roque, entre 1565 a 1573. No local conhecido por Bairro Alto de São Roque, houve um grande desenvolvimento do que é hoje o Bairro Alto. Fora justamente o prestígio da ordem da Companhia de Jesus que atraíra para a colina a nobreza, que iria construir os seus palácios na parte norte, fazendo do local um bairro elegante.
Além dos palácios, o Bairro Alto foi tomado por habitações tradicionais e mais simples na parte ocidental, de vizinhança rural e mais elaborada nas zonas de inserção urbana. Essas construções deram expressão a este bairro popular e aristocrata. Com cantarias simples, cunhais de pedra, grades de ferro forjado, azulejos de padrão geométrico e janelas são aspectos que dão uma certa ambigüidade que estabelecem o equilíbrio entre a unidade e a diversidade, que sempre foram as características do bairro.

Do Terremoto ao Fado

Após o terremoto de 1755, a zona das Chagas foi completamente reorganizada, com destruição do tecido antigo e implantação de quarteirões pombalinos onde se inseriram prédios e palácios. A Rua da Misericórdia (antiga Rua Larga de São Roque) e a Rua do Século (antiga Rua Formosa) foram modernizadas com a reconstrução dos edifícios de forma mais imponente. O interior do Bairro Alto não sofreu transformações para além da desagregação das grandes edificações, como os palácios quinhentistas e seiscentistas.
Com a perseguição do Marquês de Pombal aos jesuítas e aos nobres de então, o Bairro Alto deixou de ser um local de elite e deu passagem para outra roupagem. No século XIX chegam os jornais, que tomam conta do bairro com as suas tipografias, os estúdios de fotografias e os restaurantes (Tavares em 1874 e Alfaia em 1880). O bairro começa a ser conhecido como típico de grande animação. Com a chegada dos jornalistas, escritores e intelectuais, o bairro liga-se para sempre à tradição literária, à imprensa e à vida boêmia, criando espaços de convívio que proporcionaram uma vivência cultural, que permanece até os dias de hoje.
Mas é durante o Estado Novo que o Bairro Alto transforma-se em um bairro popular, de expressiva vida noturna. Com a noite surgem as casas de fado, a vida marginal das prostitutas e dos seus proxenetas, que invadem as suas ruas estreitas. Essas mulheres belas e trágicas compõem a mística da boêmia que atrai marinheiros, fadistas e tantos outros. Em meio aos amores densos e populares, o fado acha um campo fértil para florir. As casas de fados trazem ícones da história de Lisboa, como a Amália Rodrigues em todo o seu esplendor de artista. É a essência do Bairro Alto da saudade lusitana, da repressão da ditadura de Salazar, não se pode falar sobre a política, mas cantar a fatalidade, a saudade, os amores impossíveis e trágicos são permitidos pelo Estado vigilante.

A Sétima Colina

É durante o Estado Novo que há uma degradação lenta dos prédios do Bairro Alto e de grande parte dos bairros históricos de Lisboa. O Bairro Alto é visto como zona de prostituição. Dos quartéis do Carmo emana a rendição da ditadura e os novos caminhos dos cravos surgem em 1974. Só nos anos oitenta é que vai sendo tomado por casas noturnas que se tornam parte da intelectualidade lisboeta. Casas como o emblemático Frágil de Manuel Reis, recebem gente dos espetáculos e da vida intelectual da cidade. Poetas, artistas e prostitutas ainda dividem a noite do Bairro Alto nessa década de transformações.
No fim da década de oitenta o Bairro Alto já é local preferido da vida noturna dos lisboetas. Começa a sua revitalização. Aos poucos a prostituição vai deixando definitivamente as suas ruas, empurrada para o Cais Sodré e para a Avenida da Liberdade. Nos anos noventa começa a ser um bairro procurado também para se viver, a população começa a ser renovada e os seus prédios restaurados. Em 1994 Lisboa torna-se a capital européia da cultura, o Bairro Alto é chamado de “Sétima Colina” e é um dos locais favoritos para os eventos culturais daquele ano. A Câmara Municipal promove a recuperação da maioria dos seus prédios, que voltam a ser coloridos imponentes. O Bairro Alto volta a ser um lugar da elite e das tribos e tendências diversas. Ateliers de moda de estilistas renomados invadem os prédios seculares. À noite as suas ruas ficam cheias, no verão é comum ver as pessoas nas portas dos bares a tomar as suas bebidas, em um convívio que se destaca pela diversidade. O costume de invadir as ruas começou no Portas Largas, na Rua da Atalaia, em 1994, e espalhou-se por todo o Bairro. O pão com chouriço de uma padaria da Rua da Rosa tornou-se o alimento principal nas madrugadas dos que muito beberam. Aqui é moda beber o absinto ou o vinho moscatel.
Mas o que mais seduz no Bairro Alto? Os bares? A noite? As pessoas? O fado? O gosto lacônico da tragédia das grandes paixões semeadas por cada esquina daquelas ruas? Ainda me lembro da primeira vez que um marinheiro falara-me do Bairro Alto, lá nos primeiros anos da década de oitenta. Citou as noites mundanas, as prostitutas, os amores fatais, o fado...
O Bairro Alto é de um ludismo cênico e de amores despidos, como nos fala o fado de Nuno de Aguiar/Calos Simões Neves e Oliveira Machado: “Bairro Alto, com seus amores tão delicados”, só quem os viveu sabe o que significam. E como um fado perdido e modernizado, quase Pop, em pleno século XXI, o coração ainda traça as armadilhas labirínticas nas suas ruas estreitas e iluminadas pelos candeeiros, seguidos pelos ventos noturnos que sussurram e sacodem as roupas nas janelas. Sem perder atmosfera tão particular, o Bairro Alto pulsa e desperta paixões de todos aqueles que freqüentam ou freqüentaram as suas ruas, sejam lisboetas, portugueses ou estrangeiros. Porque o Bairro Alto é tão português, tão lisboeta e tão universal.
 
 
 
 
 
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Quarta-feira, 24 de Setembro de 2008

DECLARAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS - 60 ANOS

 

 

Durante os séculos a saga humana foi marcada por guerras e pela construção de impérios sobre os escombros dos dominados. Atrocidades de guerra alcançaram através dos tempos requintes de tortura e de genocídios dos quais alguns povos foram perseguidos, outros totalmente extintos. Com a evolução do maquinário de guerra e da tecnologia a favor do poder e a destruição, não só grupos étnicos e povos ficaram ameaçados de desaparecerem, como a própria humanidade passou a correr este risco. Numa época de tecnologia de armas nucleares e químicas, tornou-se necessária proteger a humanidade dela mesma.
O Século XX foi marcado pelas mais devastadoras guerras da humanidade (Veja o artigo: SÉCULO XX – CEM ANOS DE GENOCÍDIO, VIRTUÁLIA, 18/11/07). Com o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, surgiu a necessidade de se criar um órgão neutro que defendesse com parcialidade e justiça os interesses das nações, que intercedesse em conflitos belicosos como os que originaram as duas guerras mundiais.
Feito o balanço dos estragos da Segunda Guerra Mundial, foi criada a Organização das Nações Unidas (ONU), uma instituição internacional formada por 192 Estados soberanos, fundada em 1945, para manter a paz e a segurança no mundo, fomentar relações cordiais entre as nações, promover progresso social, melhores padrões de vida e os direitos humanos.
Mais de sessenta anos após a criação da ONU, o mundo está longe de ser perfeito e de encontrar a paz entre as nações. Conflitos entre a política econômica da globalização e os estados pobres, choque de interesses entre os EUA e os estados árabes, terrorismo ideológico ou religioso por parte de líderes separatistas de muitos países, diferenças culturais intransponíveis entre o ocidente e o oriente, são fatores que geram descrédito e desconfiança dos povos em relação à ONU e às suas diretrizes. Mas apesar de todos os obstáculos, a ONU continua a ser dentro de todos os interesses dos povos dominantes do século XXI, a maior conquista das nações em defesa de si mesmas.
Mas a maior conquista da humanidade foi sem dúvida a criação da carta que rege a ONU e os direitos humanos. Para evitar as atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial a ONU produziu em 10 de dezembro de 1948 o documento com a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Trata-se do documento que mais protege o homem em um planeta dividido entre conflitos políticos, sociais e econômicos. Todos nós deveríamos saber de cor os artigos e princípios que regem esta carta. E lutar para que não haja a violação desses princípios seja no nosso bairro, na nossa cidade, no nosso país, no planeta.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos
 

 

A Declaração Universal dos Direitos Humanos tem XXX artigos e é o documento mais importante produzido pela humanidade, sintetizando uma plataforma utópica com o que há de positivo na idéia de um mundo desejável. É uma declaração de amor ao homem e ao planeta Terra. Em 2008 completará 60 anos. E ainda é uma utopia tenaz da humanidade.

 

Artigo I.
Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.

Artigo II.
1. Todo ser humano tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.
2. Não será também feita nenhuma distinção fundada na condição política, jurídica ou internacional do país ou território a que pertença uma pessoa, quer se trate de um território independente, sob tutela, sem governo próprio, quer sujeito a qualquer outra limitação de soberania.

Artigo III.
Todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.

Artigo IV.
Ninguém será mantido em escravidão ou servidão; a escravidão e o tráfico de escravos serão proibidos em todas as suas formas.

 
Artigo V.
Ninguém será submetido à tortura nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante.

 
Artigo VI.
Todo ser humano tem o direito de ser, em todos os lugares, reconhecido como pessoa perante a lei.

Artigo VII.
Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei. Todos têm direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.

 
Artigo VIII.
Todo ser humano tem direito a receber dos tribunais nacionais competentes remédio efetivo para os atos que violem os direitos fundamentais que lhe sejam reconhecidos pela constituição ou pela lei.

 
 
 
 
Artigo IX.
Ninguém será arbitrariamente preso, detido ou exilado.

 
Artigo X.
Todo ser humano tem direito, em plena igualdade, a uma justa e pública audiência por parte de um tribunal independente e imparcial, para decidir sobre seus direitos e deveres ou do fundamento de qualquer acusação criminal contra ele.
 

Artigo XI.
1. Todo ser humano acusado de um ato delituoso tem o direito de ser presumido inocente até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa.
2. Ninguém poderá ser culpado por qualquer ação ou omissão que, no momento, não constituíam delito perante o direito nacional ou internacional. Também não será imposta pena mais forte do que aquela que, no momento da prática, era aplicável ao ato delituoso.
 

Artigo XII.
Ninguém será sujeito à interferência em sua vida privada, em sua família, em seu lar ou em sua correspondência, nem a ataque à sua honra e reputação. Todo ser humano tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques.
 

Artigo XIII.
1. Todo ser humano tem direito à liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras de cada Estado.
2. Todo ser humano tem o direito de deixar qualquer país, inclusive o próprio, e a este regressar.
 

Artigo XIV.
1. Todo ser humano, vítima de perseguição, tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países.
2. Este direito não pode ser invocado em caso de perseguição legitimamente motivada por crimes de direito comum ou por atos contrários aos objetivos e princípios das Nações Unidas.
 

Artigo XV.
1. Todo homem tem direito a uma nacionalidade.
2. Ninguém será arbitrariamente privado de sua nacionalidade, nem do direito de mudar de nacionalidade.
 

Artigo XVI.
1. Os homens e mulheres de maior idade, sem qualquer restrição de raça, nacionalidade ou religião, têm o direito de contrair matrimônio e fundar uma família. Gozam de iguais direitos em relação ao casamento, sua duração e sua dissolução.
2. O casamento não será válido senão com o livre e pleno consentimento dos nubentes.
3. A família é o núcleo natural e fundamental da sociedade e tem direito à proteção da sociedade e do Estado.
 

Artigo XVII.
1. Todo ser humano tem direito à propriedade, só ou em sociedade com outros.
2. Ninguém será arbitrariamente privado de sua propriedade.
 

Artigo XVIII.
Todo ser humano tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, em público ou em particular.
 

Artigo XIX.
Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras.

Artigo XX.
1. Todo ser humano tem direito à liberdade de reunião e associação pacífica.
2. Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma associação.

Artigo XXI.
1. Todo ser humano tem o direito de fazer parte no governo de seu país diretamente ou por intermédio de representantes livremente escolhidos.
2. Todo ser humano tem igual direito de acesso ao serviço público do seu país.
3. A vontade do povo será a base da autoridade do governo; esta vontade será expressa em eleições periódicas e legítimas, por sufrágio universal, por voto secreto ou processo equivalente que assegure a liberdade de voto.

Artigo XXII.
Todo ser humano, como membro da sociedade, tem direito à segurança social, à realização pelo esforço nacional, pela cooperação internacional e de acordo com a organização e recursos de cada Estado, dos direitos econômicos, sociais e culturais indispensáveis à sua dignidade e ao livre desenvolvimento da sua personalidade.

Artigo XXIII.
1. Todo ser humano tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego.
2. Todo ser humano, sem qualquer distinção, tem direito a igual remuneração por igual trabalho. 3. Todo ser humano que trabalha tem direito a uma remuneração justa e satisfatória, que lhe assegure, assim como à sua família, uma existência compatível com a dignidade humana e a que se acrescentarão, se necessário, outros meios de proteção social.
4. Todo ser humano tem direito a organizar sindicatos e a neles ingressar para proteção de seus interesses.

Artigo XXIV.
Todo ser humano tem direito a repouso e lazer, inclusive a limitação razoável das horas de trabalho e a férias remuneradas periódicas.

Artigo XXV.
1. Todo ser humano tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar-lhe, e a sua família, saúde e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência em circunstâncias fora de seu controle.
2. A maternidade e a infância têm direito a cuidados e assistência especiais. Todas as crianças, nascidas dentro ou fora do matrimônio gozarão da mesma proteção social.

Artigo XXVI.
1. Todo ser humano tem direito à instrução. A instrução será gratuita, pelo menos nos graus elementares e fundamentais. A instrução elementar será obrigatória. A instrução técnico-profissional será acessível a todos, bem como a instrução superior, esta baseada no mérito.
2. A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais. A instrução promoverá a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e grupos raciais ou religiosos, e coadjuvará as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz.
3. Os pais têm prioridade de direito na escolha do gênero de instrução que será ministrada a seus filhos.

Artigo XXVII.
1. Todo ser humano tem o direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir das artes e de participar do progresso científico e de seus benefícios.
2. Todo ser humano tem direito à proteção dos interesses morais e materiais decorrentes de qualquer produção científica literária ou artística da qual seja autor.

Artigo XXVIII.
Todo ser humano tem direito a uma ordem social e internacional em que os direitos e liberdades estabelecidos na presente Declaração possam ser plenamente realizados.

Artigo XXIX.
1. Todo ser humano tem deveres para com a comunidade, na qual o livre e pleno desenvolvimento de sua personalidade é possível.
2. No exercício de seus direitos e liberdades, todo ser humano estará sujeito apenas às limitações determinadas pela lei, exclusivamente com o fim de assegurar o devido reconhecimento e respeito dos direitos e liberdades de outrem e de satisfazer as justas exigências da moral, da ordem pública e do bem-estar de uma sociedade democrática.
3. Esses direitos e liberdades não podem, em hipótese alguma, ser exercidos contrariamente aos objetivos e princípios das Nações Unidas.

Artigo XXX.
Nenhuma disposição da presente Declaração pode ser interpretada como o reconhecimento a qualquer Estado, grupo ou pessoa, do direito de exercer qualquer atividade ou praticar qualquer ato destinado à destruição de quaisquer dos direitos e liberdades aqui estabelecidos.
 

 


 
 
Órgãos Ligados à ONU

OMS (Organização Mundial da Saúde)
OIT (Organização Internacional do Trabalho)
Banco Mundial
FMI (Fundo Monetário Internacional)
UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância)
 
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Domingo, 21 de Setembro de 2008

FLORBELA ESPANCA UMA MULHER ALÉM DO SEU TEMPO

 

 

Florbela Espanca foi uma das maiores poetisas da língua portuguesa. Nasceu em 8 de dezembro de 1894, na pequena Vila Viçosa, Alentejo. Filha de José Maria Espanca e de sua concubina Antonia da Conceição Lobo, é fruto fora do casamento do pai devido à impossibilidade da esposa lhe dar filhos, o que o faz recorrer a uma velha lei medieval de tê-los fora do casamento. Ainda com Antonia, o pai de Florbela tem outro filho, Apeles. Florbela é batizada pela própria esposa do pai e mais tarde, criada por ela.
É de uma personalidade passional e apaixonante. Herda do pai o amor pela fotografia, José Maria Espanca é quem introduz o cinematógrafo em Portugal. Freqüenta o ensino secundário em Évora, e mais tarde o curso de Direito, o que é visto como um ato de ousadia para uma mulher de sua época. Mas a ousadia faria parte para sempre da sua vida e da sua obra.
Os poemas de Florbela Espanca transportam o leitor para agudeza das palavras e do amor, sôfrego e passional, mas de uma beleza intensa que nos devora a alma, que nos faz sentir que corre o sangue da vida em nossas veias. A poesia de Florbela traz a vida, os sentimentos à flor da pele. A coragem de amar e de expor-se aos sentimentos, sem medo da sua condição de mulher e da época que a gerou. Florbela desafia o seu tempo. Está além dele, além das limitações que lhe são impostas. Tem a coragem de amar uma, duas, várias vezes. Casa-se por três vezes, o que cria a rejeição e animosidade da sua família tradicionalista, que lhe deixa de falar por algum tempo.
Há quem a acuse de amar o próprio irmão Apeles. Esse amor impossível e incestuoso lhe teria arrancado os mais tórridos poemas. Verdades ou lendas, o fato é que quando Florbela perde o irmão em 1927, morto em um trágico acidente, jamais se irá recuperar psicologicamente. Entra em estado permanente de depressão, fuma em demasia e vai perdendo o brilho e a saúde, cada vez mais abalada psicologicamente. Mergulha em um estado de solidão que a faz distanciar-se cada vez mais da paixão pela vida. Na passagem da noite de 7 para 8 de dezembro de 1930, dia do seu aniversário, Florbela Espanca põe fim à sua agonia perene, suicida-se ingerindo dois frascos de Veronal. Aos trinta e seis anos cala-se para sempre esta poetisa portuguesa que fez da sua poesia uma ode perene ao amor e à paixão.

Um Poema de Amor




Amar

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar : Aqui... Além...
Mais Este e Aquele, e Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente! ...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada dia:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...


 

Outro Poema




Ser Poeta (Perdidamente)

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

 


CRONOLOGIA

1894 – Nasce, em 8 de dezembro em Vila Viçosa (Alentejo), Florbela d’Alma da Conceição Espanca, filha de Antônia da Conceição Lobo e João Maria Espanca, casado com Mariana do Carmo Ingleza.
1895 – è batizada em 20 de junho de 1895, tendo como padrinhos Mariana do Carmo Ingleza , esposa do pai e como padrinho o amigo Daniel da Silva Barroso.1897 – Nasce o irmão Apeles em 10 de março.
1899 – Florbela freqüenta a escola primária em Vila Viçosa.
1903 – Data de 11 de novembro o poema “A Vida e a Morte”, provavelmente a primeira peça escrita por Florbela.
1908 – Ingressa no Liceu de Évora, onde permanece até 1912, de modo que a família muda-se nesse ano para Évora, a fim de facilitar-lhe a permanência nos estudos. Ainda em 1908, falece em Vila Viçosa a sua mãe Antônia da Conceição Lobo, aos vinte e nove anos de idade.
1913 – Florbela batiza, em 8 de maio, o primo Túlio Espanca, a quem se dedicará sempre com desvelos de assídua madrinha. No dia do seu aniversário, casa-se em Vila Viçosa, com Alberto de Jesus Silva Moutinho, um ano mais velho que ela, seu colega desde o primário.
1914 – Florbela e o marido vão morar no Redondo; ali atravessarão um período econômico difícil, já que se sustentam dos parcos rendimentos das aulas particulares a alunos de Colégio.
1915 – O jovem casal regressará a Évora, para viver em casa de João Maria Espanca e para dar aulas no Colégio de Nossa Senhora da Conceição.
1916 – Florbela seleciona, dentre a sua produção poética cerca de trinta peças produzidas a partir de 10 de maio de 1915, com as quais inaugura o projeto e o manuscrito Trocando Olhares. Começa a partir de princípio de junho, a se ocupar de um novo projeto poético, A Alma de Portugal. Após 18 de julho, envia a Raul Proença, a sua antologia Primeiros Passos.
1917 – Encerra o manuscrito Trocando Olhares em 30 de abril desse ano.Apeles, que tem dotes artísticos e que pratica sensivelmente a pintura, está seguindo carreira oposta em Lisboa: em 19 de agosto, termina o Curso da Escola Naval, graduando-se aspirante.Em 9 de outubro, Florbela, vivendo desde setembro em Lisboa, subsidiada pelo pai, matricula-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, que abandonará em meados de 1920.
1918 - Em abril, Florbela que se encontra adoentada, vai com o marido a Quelfes (Algarve) para repouso.
1919 – É publicado em junho, pela Tipografia Maurício de Lisboa, O Livro de Mágoas.
1921 – Apeles é graduado guarda-marinha pela Escola Naval. Em 30 de abril é decretado, em Évora, o divórcio de Florbela com Moutinho. Em 29 de junho, Florbela se casa com o alferes de artilharia da Guarda Republicana, Antônio José Marques Guimarães, então com 26 anos, o casal vai residir no Porto.
1922 – Transfere-se, em março, para uma Quinta na Amadora e, já em junho do mesmo ano, para Lisboa.
1923 – Publica Tipografia A Americana de Lisboa o Livro de Sóror Saudade.Em novembro, a poetisa se encontra novamente adoentada e segue para Gonça (Guimarães) a fim de tratar-se.
1924 – A 4 de abril, em Lisboa, Antônio Guimarães entra com o pedido de divórcio contra Florbela Espanca, que será deferido em 23 de junho de 1925.
1925 – Casa-se em 15 de outubro, com Mário Pereira Lage, médico que contava então trinta e dois anos, passando o casal a residir em Esmoriz.
1926 – Florbela e o marido mudam-se para Matosinhos. Apeles gradua-se primeiro-tenente da Marinha.
1927 – Florbela inicia o seu trabalho de tradutora de romances franceses para a Civilização do Porto, função que desempenhará até a morte.
Em vôo de treino, em 06 de junho, Apeles mergulha no Tejo, diante de Porto Brandão, morrendo tragicamente. Florbela reage pondo-se a produzir com afinco um livro de contos, à memória dele dedicado, o As Máscaras do Destino. Desde então, embora permaneça com a tarefa das traduções - ela se declara quase permanentemente deprimida.
1930 – Inicia a colaboração no recém-fundado Portugal Feminino com poemas e contos, na revista Civilização e no Primeiro de Janeiro, ambos de Porto.
Inicia um diário a 11 de janeiro, que se encerra em 2 de dezembro com uma única frase “e não haver gestos novos nem palavras novas”.
Na passagem de 7 para 8 de dezembro, data do seu aniversário, Florbela d’Alma da Conceição Espanca suicida-se em Matosinhos. É e é enterrada no Cemitério de Sedin. Em 17 de maiode 1964 tem os restos mortais transportados para o Cemitério de Vila Viçosa.

 

 

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Sábado, 20 de Setembro de 2008

CALENDÁRIOS DA HUMANIDADE

 

 

Quando chegamos a dezembro, mais um ano é encerrado no nosso calendário. A sensação é que isto acontece por todo o planeta. Mero engano, a humanidade é construída por civilizações tão distintas, que produzem cada uma o seu próprio calendário. No nosso planeta algumas civilizações já ultrapassaram o quarto ou quinto milênio, enquanto que outra ainda não chegou ao segundo.
Durante a história da humanidade vários calendários foram criados e apagados do mapa. Calendários dos antigos egípcios, sumérios, maias, babilônicos, astecas, entre muitos. A maioria deles tem as suas origens atreladas às religiões seguidas por cada civilização como marco da sua contagem e nos ciclos solares ou lunares.
Ao chegarmos ao ano 2008 da era cristã, esta data não diz nada a cerca de setenta por cento das pessoas distribuídas pelos países. Mas em que ano estão ou estarão outras civilizações do século XXI em 2008? Quais os principais calendários existentes nos dias de hoje? Além do calendário cristão, ou gregoriano, temos o calendário judaico, o calendário muçulmano e o calendário chinês, cada um momento histórico diferente e datas específicas. É diante dos calendários tão distintos que percebemos que a humanidade é rica em tradições e culturas muitas além da nossa civilização judaico-cristã.

Calendário Cristão

O calendário cristão teve o seu início no século VI, quando o abade Dionísio decidiu contar o tempo a partir do ano 1 do nascimento de Jesus Cristo. Até então a contagem era feita a partir da posse do imperador Diocleciano. Como Roma tornara-se cristã e Diocleciano fora um feroz perseguidor do cristianismo, era incompatível continuar contando o tempo a partir da sua posse. Para descobrir a data do nascimento de Cristo, Dionísio tomou como marco a data registrada da fundação de Roma. Contou os anos de todos o reinados romanos e chegou à conclusão de que se tinham passado 753 anos da fundação da cidade eterna ao nascimento de Cristo. Esta data define o ano 1 da era cristã. Mas estudos recentes apontam para um erro de quatro anos, provavelmente pelo esquecimento de contar o período que o imperador Augusto governou com o seu nome de batismo, Otávio (de 27 a 31 a.C). O erro é confirmado pela morte de Herodes, segundo o historiador judeu Flavius Josephus, ocorrida no mês de um eclipse lunar, que para os astrônomos ocorreu no ano 4 a.C. Portanto, quando da passagem oficial para o ano 2008, estamos a entrar no ano 2012 da era cristã.
O calendário cristão tem as suas origens no antigo calendário romano, depois substituído pelo calendário juliano, no ano de 43 antes de Cristo, e finalmente substituído pelo calendário gregoriano, promulgado pelo Papa Gregório XIII, em 24 de fevereiro de 1582. Segue o ano solar, com 365 dias, 5 horas e 49 minutos, divididos em 12 meses. De quatro em quatro anos é acrescentado um dia em fevereiro, o chamado ano bissexto.

Meses Gregorianos

01 - Janeiro – 31 dias
02 - Fevereiro – 28 dias (29 em anos bissextos)
03 - Março – 31 dias
04 - Abril – 30 dias
05 - Maio – 31 dias
06 - Junho – 30 dias
07 - Julho – 31 dias
08 - Agosto – 31 dias
09 - Setembro – 30 dias
10 - Outubro – 31 dias
11 - Novembro – 30 dias
12 - Dezembro – 31 dias

O Calendário Judaico

O calendário judaico tem como ponto de partida, segundo a tradição hebraica, a criação do mundo. Para chegar a uma data concreta, o rabino Hai Gaon, judeu da Babilônia, que viveu no século XI, calculou o tempo de existência de vários personagens bíblicos. Somando-se as existências dessas figuras, Gaon chegou à conclusão que se passara 1949 anos desde a criação do universo até o nascimento do patriarca Abraão.
Diferente do calendário Gregoriano, este é um calendário baseado no movimento lunar. Cada mês é iniciado na lua nova. O ano lunar tem 12,4 meses, que gera uma diferença do calendário gregoriano de 11 dias a cada ano. Esta diferença é compensada ocasionalmente pelo acréscimo do mês de Adar II.
O primeiro mês do calendário judaico é o de Nissan, quando é feita a comemoração da Pessach (Páscoa Judaica).
Ao chegar ao ano de 2008, por volta de setembro, o calendário judaico irá festejar a chegada do ano de 5769.

 
Meses Judaicos

 
01 - Nissan - 30 dias (Março - Abril)
02 - Iyar - 29 dias (Abril - Maio)
03 - Sivan - 30 dias (Maio - Junho)
04 - Tammuz - 29 dias (Junho - Julho)
05 - Av - 30 dias (Julho - Agosto)
06 - Elul - 29 dias (Agosto - Setembro)
07 - Tishrei - 30 dias (Setembro - Outubro)
08 - Heshvan - 29/30 dias (Outubro - Novembro)
09 - Kislev - 30/29 dias (Novembro - Dezembro)
10 - Tevet - 29 dias (Dezembro - Janeiro)
11 - Shevat - 30 dias (Janeiro - Fevereiro)
12 - Adar - 29/30 dias (Fevereiro - Março)
13 - Adar II - 29 dias (Março - Abril)


 
Calendário Muçulmano

Ao contrário dos calendários cristão e judaico, que não se sabe com precisão o dia e a data de quando se iniciou, no calendário muçulmano não há dúvidas de quando ele começou a ser contado. Começa a partir do dia que o profeta Maomé deixou em fuga, a cidade natal de Meca (chamada de hégira – busca de proteção) e estabeleceu-se em Medina, no dia 16 de julho de 622.
É utilizado na maioria dos países islâmicos para o cálculo das festas religiosas e oficialmente por alguns países do Golfo Pérsico. Baseia-se no ano lunar de 354 dias, dividido em 12 meses de 29 ou 30 dias intercalados. Perfaz uma diferença de 11 dias em relação ao calendário gregoriano. Como esses dias não são corrigidos, geram uma diferença de 97 dias do calendário solar em cada século. Em 2008 o ano muçulmano atingirá o ano de 1429.

Meses Muçulmanos

01 - Muharram
02 - Safar
03 - Rabi al-Awwal
04 - Rabi ath-Thani
05 - Jumaada al-Awwal
06 - Jumaada al-Akhira
07 - Rajab
08 - Sha'aban
09 - Ramadan
10 - Shawwal
11 - Dhu al-Qidah
12 - Dhu al-Hija

Calendário Chinês

De todos os calendários em vigor, o mais antigo é o chinês. É um calendário tanto lunar, como solar. Cada ano apresenta doze lunações, ou 354 dias. Para se igualar ao calendário solar são acrescentados a cada oito anos 90 dias. Está dividido em ciclos de doze anos. Cada ano tem o nome de um bicho e começa sempre em uma lua nova, entre 21 de janeiro e 20 de fevereiro.
Como não há uma era chinesa, os anos não são contados a partir de determinado acontecimento. Foram registradas diversas dinastias chinesas, que se contadas pelo calendário gregoriano, deduz-se que o calendário dos animais é seguido desde 2636 antes de Cristo, o que faria de 2008 o ano de 4644 desse calendário.
Em 1912 a China adotou oficialmente o calendário gregoriano, mas a população continua a seguir o sistema tradicional, sendo a comemoração de cada ano novo chinês a maior festa popular daquele país.
Em 7 de fevereiro de 2008 o calendário chinês entrará no ano do Rato.

Ciclo Chinês

01 - Zi (Rato)
02 - Chou (Boi)
03 - Yin (Tigre)
04 - Mao (Coelho)
05 - Chen (Dragão)
06 - Si (Serpente)
07 - Wu (Cavalo)
08 - Wei (Carneiro)
09 - Shen (Macaco)
10 - You (Galo)
11 - Xu (Cachorro)
12 - Hai (Porco)
 
 
 
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Quinta-feira, 18 de Setembro de 2008

AS TENTAÇÕES DE SANTO ANTÃO - O APOCALIPSE DE BOSCH

 

 

Cronologicamente a Idade Média teve seu fim com a tomada de Constantinopla pelo Império Otomano, em 1453. O que viria depois ainda seria chamado pelos historiadores do crepúsculo da Baixa Idade Média. A partir da última década da centúria quatrocentista dar-se-ia no sul da Europa um rompimento com as crendices medievais e um renascimento nas artes e na ciência, inspiradas nos clássicos gregos. Esta tendência é vista principalmente nas obras de Leonardo da Vinci e do então incipiente Michelangelo e nos estudos de Copérnico.
Mas a aproximação de 1500 trouxe a idéia de que o fim dos tempos estava próximo. E o homem europeu passou a conviver com a idéia de que o Apocalipse dar-se-ia muito em breve. Cristóvão Colombo previa a data do Juízo Final para o ano de 1650. Na contramão do jubileu de Roma de 1500 e das grandes descobertas marítimas, os velhos mitos medievais atormentavam a população do continente. É neste contexto místico que surge a mais apocalíptica de todas as obras de arte : o famoso tríptico do pintor Hieronymus Bosch, As Tentações de Santo Antão.

Bosch e Santo Antão

Jeroen van Aeken, que se tornou um pintor famoso com o pseudônimo de Hieronymus Bosch, nasceu na Holanda, em 1450, e faleceu em 1516. O pseudônimo de Bosch veio das últimas letras do nome da sua cidade natal: Hertogenbosch. Contemporâneo de Jan van Eyck, Bosch traz um estilo totalmente diferente dos artistas da sua época. A sua obra é marcada pelo fantástico , com figuras simbólicas, complexas, caricaturais, algumas figuras desconhecidas para a sua época. Traz para o século XVI características do que seria o surrealismo do século XX , inspirando gênios como Salvador Dali.
As obras de Bosch foram muito apreciadas por Filipe II, da Espanha, daí ter um grande acervo delas em terras ibéricas, principalmente no Museu do Prado, em Madri. Da sua vida há poucos registros. Alguns rumores tornam-se lendários dentro da sua biografia, como o suposto envolvimento com a alquimia e o ocultismo, que teria gerado uma perseguição da inquisição. Não há documentos que comprovem tais fatos, o que fazem deles lendas.
As Tentações de Santo Antão, descreve as tentações vividas por Santo Antão, que nasceu no Egito em 251, vivendo grande parte da sua vida no deserto, aonde sofreu terríveis tentações como sofrera Cristo no período de jejum, nos seus quarenta dias no deserto. Conta-se que Santo Antão morreu com 105 anos, em 356. Tem o nome confundido com Santo Antônio de Lisboa (ou de Pádua, na tradição italiana). Para evitar tal confusão, em língua portuguesa é usado o seu nome arcaico: Antão. É conhecido como o Padre do Deserto, e um dos padres mais conhecido e venerado da igreja. Em 1095 foi fundada uma ordem com o seu nome, a ordem dos Antonianos (Canonici Regulares Sancti Antonii).

A Obra do Apocalipse

As Tentações de Santo Antão (1500), é uma obra que se encontra atualmente no Museu Nacional de Arte Antiga de Lisboa.
Na obra apocalíptica de Bosch as visões do fim do mundo são materializadas em desenhos e pinturas que nos faz ter a idéia do que nos aguarda as profecias, a fustigação do homem por demônios irados e vingativos. Traz um clima sombrio de um homem que traduz em sua obra todos os tormentos da sua época, todas as crenças de uma formação religiosa rígida, nos moldes da igreja medieval vigente em seu país, a Holanda, que brevemente seria abalada pelo surgimento da Reforma. São painéis que pintam em efeitos desconcertantes o definhar dos homens diante da maldição das profecias. Aqui o mundo é grotesco e sente-se ao seu redor o ar putrefato e corrupto.
A inspiração com certeza veio com a grande crença que assolou a Europa e o mundo cristão naqueles últimos anos que precederam 1500, a certeza da vinda do anticristo e do Juízo Final.
No centro do quadro a figura de Santo Antão, ajoelhado, tranqüilo e impassível diante da fealdade ao redor, olhar confiante nas promessas que irão vencer o mundo satânico que o ladeia, dominado pela essência destrutiva das tentações e das figuras demoníacas e entregues ao pecado e à culpa.
O cenário é do fantástico, do mágico, vislumbra o macabro, traz incêndios e monstros imaginários. Há um demônio com crânio de cavalo a tocar alaúde; um peixe metade gôndola, a engolir um homem; uma mulher com calda de lagarto a cavalgar uma ratazana.
Numa época em que o Renascimento traduzia corpos perfeitos e nos contemplava com imagens do belo, as imagens das pinceladas de Bosch causam asco e o fascínio do homem diante das profecias, da expiação e da culpa. O belo dá passagem para o bizarro. O homem espera o Juízo Final. Não veio em 1500, será aguardado para 2000. Nas imagens de As Tentações de Santo Antão o presságio daquela que seria a obra do Apocalipse.

ALGUMAS OBRAS “FANTÁSTICAS”

O Carro de Feno (Museu do Prado, Madri)
O Jardim das Delícias (Museu do Prado, Madri)
O Juízo Final (Akademie de Bildenden Künste, Viena)
As Tentações de Santo Antão – primeira versão (Museu de Arte de São Paulo, São Paulo)
As Tentações de Santo Antão – versão definitiva (Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa)
Os Sete Pecados Mortais (Museu do Prado, Madri)
Navio dos Loucos ou A Nau dos Insensatos (Museu do Louvre, Paris - foto ao lado)
Morte e o Avarento (Galeria Nacional de Washington, Washington D.C.)
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Quarta-feira, 17 de Setembro de 2008

MITOS E FLORES

 

Desde os mais primórdios dos tempos que a beleza singular, colorida e aromática das flores ilaqueou e encantou os homens. Ainda hoje são usadas para seduzir, como gentileza ou em rituais funerários e de adeus.
Apreciadas pelas culturas antigas, as flores foram usadas para fazer parte de rituais de casamento, iniciação sexual , perfumes e oferendas aos deuses. Do encanto da beleza de algumas flores, surgiram lendas que persistem até os nossos dias. Era como se nas cores e na delicadeza das flores o homem pudesse aliviar as suas fatalidades. Na mitologia grega algumas tragédias e tristezas foram traduzidas na origem das mais belas flores. Elas muitas vezes surgiram do sangue e das lágrimas dos homens e dos deuses. Um sentimento de dor era mitigado na delicadeza de uma flor.

Jacinto e o Amor dos Deuses

O belo Jacinto trazia na sua sensualidade de mortal o poder da sedução que despertou a paixão do deus Apolo e de Zéfiro, deus e senhor dos ventos do oeste. Diante da corte dos dois deuses, Jacinto decidiu-se por Apolo, provocando a ira e o ciúme incontrolável de Zéfiro.
Jacinto tornara-se muito amado por Apolo, que passou a segui-lo onde quer que fosse. Corriam pelos campos sob os olhos invejosos de Zéfiro, desfilando sua paixão e corpos perfeitos. Numa tarde de brisa suave, os dois amantes se divertiam com o jogo de arremesso de disco. Apolo arremessou o disco no céu. Jacinto seguiu com os olhos extasiados o vôo daquele disco. Foi neste momento sublime que Zéfiro interviu, mudando a direção dos ventos, fazendo com que o disco arremessado por Apolo atingisse a fronte de Jacinto. Tão logo atingido, o belo Jacinto deu o seu último suspiro, caindo morto sobre os campos. Da sua fronte o sangue jorrou, manchando a terra.
Apolo correu em socorro do amante, tentou ainda ressuscitá-lo, mas nem os seus poderes imortais trouxeram o jovem à vida. Apolo abraçou-se ao corpo do amado. Sentia o tormento da culpa em seu ser imortal. Jurou ao amante que jamais seria esquecido por ele, que todas às vezes que tocasse a sua lira e murmurasse o seu canto, seria uma forma de homenageá-lo e de lembrá-lo. E do sangue de Jacinto que molhava o solo, o deus fez brotar uma flor que trazia o colorido mais belo que a púrpura tíria. Uma flor muito semelhante ao lírio, porém, roxa. Ela traduzia a saudade e o pesar de Apolo. A flor foi chamada de jacinto e renasce toda primavera para lembrar o destino e a beleza perdida de Jacinto.
A flor descrita em nada se parece com o jacinto moderno, talvez seja uma íris ou amor-perfeito. Mas o jacinto como flor ficou a ser o símbolo da dor e da culpa de Apolo. Ou da inveja e da paixão não correspondida de Zéfiro.

Narciso e a Imagem na Fonte

Narciso era filho do deus-rio Cefiso e da ninfa Liríope. Quando nasceu, o adivinho Tirésias declarou que ele teria uma longa vida, desde que jamais contemplasse a própria figura. Contemplar a própria imagem na Grécia antiga era vista como agouro e má sorte.
Narciso cresceu belo, orgulhoso e insensível aos sentimentos e às paixões que despertava. Desprezava a todos que lhe apareciam como pretendentes e seguia pela vida sem amar ninguém, quase inatingível pelos sentimentos.
A ninfa Eco apaixonou-se por Narciso, mas só conseguiu do jovem a indiferença. Eco via na beleza do rapaz os traços de um deus como Apolo ou Dionísio. O seu amor não correspondido a faz definhar aos poucos, diante de uma fonte, aonde vai perdendo a voz e só gemendo e repetindo o nome de Narciso. Compadecidos, os deuses do Olimpo a transforma em uma rocha que quando por ali passava alguém e falava alto, ouvia o som da própria voz repetida algumas vezes pelo pela rocha que se tornra Eco.
A insensibilidade de Narciso faz com que seja amaldiçoado pela deusa Némesis, que o condena a se apaixonar perdidamente pela primeira pessoa que visse. Narciso debruçou-se diante da fonte de Eco para saciar a sede, ao ver o seu reflexo na água apaixona-se desesperadamente pelo que vê. A paixão pela imagem que jamais pode tocar leva-o à loucura. Passa o tempo todo debruçado sobre a fonte, a amar a si mesmo, sem nunca ser correspondido. Narciso deixa-se definhar diante da fonte, a olhar a sua imagem. Não come, não bebe, ama-se em desespero e reflexo. Vive o desalento de amar a si mesmo até que é transformado pelos deuses na bela flor de narciso.

Do Sangue de Adônis as Belas Anêmonas

Cíniras, rei de Chipre, filho de Apolo, é um soberano amante da arte e o criador de vários instrumentos musicais, como a flauta. Após um banquete regado de muito vinho e música, o rei recolheu-se nos seus aposentos, totalmente embriagado. A filha Mirra, que nutria uma paixão pelo próprio pai, aproveita da sua embriaguez para viver este amor, deitando-se no leito do pai e com ele tendo uma noite de amor. No dia seguinte, já sóbrio, o rei percebe o ardil. Enfurecido tenta matar a filha, que foge para os bosques. É nos bosques que Mirra irá dar à luz àquele que se tornaria o homem mais belo de toda a Grécia, Adônis, filho incestuoso do amor que sentia pelo próprio pai.
Adônis é de uma beleza perfeita. Tão perfeita que atrai para si a paixão de Afrodite, a deusa do amor e da beleza. Nos braços do amante mortal, Afrodite vive dias de intensa e feliz paixão, despertando a fúria do seu amante, o deus Ares, senhor da guerra e da discórdia. Preterido pelo amor de um mortal, o deus vinga-se da amante, quando Adônis participa de uma caçada de javalis. Ares envia um javali enfurecido que ataca o jovem, ferindo-o mortalmente nas ancas. O sangue de Adônis mancha a erva verde. Afrodite corre em socorro do amante, mas já o encontra dilacerado e morto pelo javali. Do sangue do belo Adônis faz brotar as anêmonas, flores brancas e sem cor. A deusa que se tinha ferido ao correr entre as silvas, vê o próprio sangue respingar sobre as anêmonas, que se tingem de vermelhas. Da sua dor e do sangue do amado foi feita a anêmona, flor da tristeza e do consolo, de raríssima beleza e que floresce e vive por pouco tempo.

Outras Flores... Outras Lendas

Outra lenda envolve Héracles (Hércules), filho de Zeus e da mortal Alcmena. Ao nascer o herói não teria herdado a imortalidade do pai, Zeus sabia que se ele fosse amamentado com o leite da mulher, a deusa Hera, tornar-se-ia imortal. Assim, ordena a Hermes que leve Héracles junto ao seio de Hera, quando esta estivesse dormindo. Mas Héracles ao sugar o leite do seio da deusa, faz com tanta violência, que Hera desperta e o atira para longe. O leite derramado do seio da deusa espalha-se pelo céu, onde cria a Via Láctea e pela terra, onde nascem os lírios ou, em uma outra versão, a flor de lis.
As papoulas surgiram das lágrimas da deusa da agricultura Deméter, ao ter a filha Perséfone raptada pelo senhor dos infernos, o deus Hades. Para amenizar a dor de Deméter, Zeus ordena que Perséfone volte à terra por seis meses e os outros seis meses reina nos infernos ao lado de Hades. Assim, quando a filha retorna na primavera, surgem as papoulas, belas e de duração meteórica, para alegrar a deusa da agricultura e das plantações.
Seja qual for a lenda, a tragédia é sempre amenizada pela singularidade das flores. Lendas, como a de Narciso, tornaram-se clássicas e usadas até como forma de expressão da psicanálise do século XX . Estão sempre associadas à beleza humana perdida para a morte e para a tragédia, refletida na beleza perene das flores.


 

 


 

 

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Sábado, 13 de Setembro de 2008

EUNUCOS E CASTRATI - AMPUTAÇÃO MASCULINA ATRAVÉS DOS SÉCULOS


 

O homem tem na sua genitália o orgulho e o símbolo de sua plenitude viril. Por ter o seu órgão sexual externo, ao contrário do órgão sexual feminino, o pênis sempre foi visto como forma de poder e hegemonia masculina. Justamente por exercer esta forma de poder e suposta superioridade do sexo, que a eliminação do órgão genital masculino foi sempre um ato de castigo e punição durante todos os períodos da história da humanidade. A castração do órgão masculino gerou ao longo dos séculos os eunucos, homens que tiveram os seus testículos, pênis ou ambos, removidos, amputados.
A emasculação é o ato de extirpar toda a genitália masculina (pênis e testículos). A orquiectomia consiste na remoção dos testículos. A penectomia ou falectomia é a remoção apenas do pênis.

Os Eunucos

Os eunucos são conhecidos desde a antiguidade até os nossos dias, em pleno século XXI. O primeiro registro da história sobre eles, vem do século XXI a.C, da cidade de Lagash, na Suméria. A prática da castração e de ter eunucos nas cortes era comum em toda a Ásia. Os eunucos existiram na China, na Índia, Ásia Menor e toda a Pérsia. Muitas vezes era uma forma de retaliação dos conquistadores sobre os povos conquistados. Também no mundo árabe antigo era comum tê-los a proteger os haréns dos sultões, sem que pudesse pôr em causa este harém, não tendo o eunuco como seduzir as suas mulheres.
Há relatos de eunucos também na Bíblia. O profeta Jeremias teria sido salvo pelo eunuco etíope Ebede-Meleque, quando atirado em uma cisterna (Jeremias 38:7-13). Outro eunuco etíope é relatado em Atos 8:27-39, aqui ele é convertido ao cristianismo e batizado por Filipe. O próprio Cristo faz uma citação em Mateus 19:12:
Pois há eunucos que nasceram tais da madre de sua mãe, e há eunucos que foram feitos eunucos pelos homens, e há eunucos que se fizeram eunucos por causa do reino dos céus.
Há a interpretação deste texto como símbolo da castidade a serviço do sacerdócio e da propagação da palavra de Deus pelas nações.
Vamos encontrar na história eunucos que se tornaram ilustres e conhecidos. Bagoas foi um eunuco nascido na Pérsia, portador de uma grande beleza que atraiu Alexandre, o Grande, tornando-se o seu cortesão e amante preferido.
Zheng He, famoso navegador chinês, que viveu entre os séculos XIV e XV, foi capturado ainda jovem e castrado para servir na corte chinesa. Navegando pelo Oceano Índico chegou à Índia, ao Mar Vermelho e à costa leste da África. Há quem diga que tenha chegado ao continente americano.

Os Castrati

O castrato é um cantor masculino com extensão vocal que corresponde em pleno à voz feminina, seja de soprano, mezzo-soprano e contralto. Para atingir esta extensão era preciso que o jovem fosse submetido a uma operação de corte dos canais provenientes dos testículos. Os castrados surgem no século XVI, quando a igreja sente a necessidade de vozes agudas em seus coros, e como a participação de mulheres era vetada pelas leis da Igreja Católica, tornou-se comum o uso de jovens castrados nesses coros. Sisto V aprovou em bula papal de 1589 o recrutamento de castrati (plural de castrato) para o coro da Igreja de São Pedro, em Roma. Antes, o Duque de Ferrara, por volta da década de 1550, tinha castrati no coro de sua capela.
As castrações eram feitas em rapazes pobres, órfãos ou abandonados, sem a proteção familiar. Às vezes, a própria família impossibilitada de cuidar do filho, entregava-o à castração. No século XVI o castrato passou a ser visto com prestígio e símbolo de ascensão social.
Os castrati tornaram-se integrantes das óperas no seu auge, nos séculos XVII e XVIII. O papel principal dessas óperas era em grande parte, escrito para o castrato, que adquiria grande importância intelectual nos meios europeus. As óperas de Handel são feitas para os castrati. A interpretação barroca dessas óperas é toda feita por castrati.
O mais famoso castrato foi o napolitano Carlo Broschi (1705-1782), conhecido como Farinelli. Foi castrado aos sete anos de idade, cantou a partir dos anos 1720 em óperas de Nicolau Porpora, e da maioria dos compositores de sua época. No auge de sua forma vocal, cantou em Londres, aplaudido pela sua agilidade, pureza tímbrica e bela sonoridade, sendo capaz de sustentar uma nota por mais de um minuto sem respirar. Farinelli morreu rico e a gozar de grande prestígio.
Gaetano Cafarelli (1710-1783), castrato mezzo-soprano, assim como Farinelli, foi aluno de Porpora e compositor para o qual Handel escreveu a famosa ária "Ombra mai fù" de Xerxes (o "Largo"). Sua voz era encantadora, inferior apenas à de Farinelli, sua arrogância o tornou impopular.
Por mais de trezentos anos a igreja usa castrati em seus coros, e a música erudita em suas óperas. Essa prática foi definitivamente proibida em 1870 na Itália, único país que a fazia nesse tempo. Em 1902 o papa Leão XIII proibiu definitivamente o uso de castrati nos coros das igrejas. O último castrato foi Alessandro Moreschi (1858-1922), que fez parte do coro da Capela Sistina entre 1902 e 1904. Gravou dez discos, e é o único registro que se tem da voz de um castrato, hoje totalmente extinta.

Os Eunucos do Século XXI

Curiosamente os eunucos não se extinguiram com o passar dos séculos. Nos dias atuais há cerca de 50 mil eunucos que vivem na Índia, os hijras (expressão para dizer “nem homem, nem mulher”). Vestem-se como mulheres e usam nomes de mulheres. Pela tradição hindu são vistos como símbolo de sorte aos recém-nascidos e aos recém-casados. Muitos ganham a vida aparecendo nos casamentos, sendo pagos por isso. Se amaldiçoarem os noivos ou os recém-nascidos, trarão má sorte aos amaldiçoados.
Após muitos anos de perseguição e de discriminação, os hijras hoje se organizam em sindicatos e alguns deles conseguiram ser prefeitos de algumas cidades. Em 2004 um tribunal indiano decidiu que os eunucos são tecnicamente homens. No meio dos hijras juntaram-se nos dias atuais vários transexuais e hermafroditas rejeitados pelos pais.
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Segunda-feira, 8 de Setembro de 2008

PÁTIO DO COLÉGIO: LOCAL GENÉTICO DA PAULICÉIA

 


Quem tem a oportunidade de avistar a cidade de São Paulo do alto de um dos seus arranha-céus, dificilmente consegue pensar em um ponto de origem daquela enorme paisagem de concreto e asfalto. A cidade parece infinita, assim como a sua verticalidade, sem as digitais que a identifiquem.
Mas a metrópole aparentemente fria e imponente, traz os seus segredos perdidos por entre os prédios, os seus lugares recônditos e históricos. No coração da cidade vamos encontrar o Pátio do Colégio, local genético da Paulicéia.

São Paulo de Piratininga

A fundação da cidade de São Paulo é atribuída ao padre José de Anchieta, que após uma longa expedição, ao lado do padre Manuel da Nóbrega, decidiram que no alto de uma colina entre os rios Tamanduateí e Anhagabaú, seria um bom lugar para a construção de uma casa que serviria de alojamento aos jesuítas. Instalou-se ali um grupo de missionários jesuítas, construindo um barracão de pau-a-pique coberto de sapê, que serviria de moradia e capela. Em 25 de janeiro de 1554 é celebrada a primeira missa pelo sacerdote Manuel de Paiva, na presença dos padres Anchieta, à época um adolescente e ainda a estudar, e Manoel da Nóbrega, do bandeirante João Ramalho e sua esposa Bartira, e dos índios Caiubi e Tibiriçá. Nascia a povoação de São Paulo de Piratininga.
Sobre os acontecimentos José de Anchieta anotava em seu diário:
“Nós, os irmãos mandados para esta aldeia no ano do Senhor de 1554, chegamos a 25 de janeiro e celebramos a primeira missa em uma casa pobrezinha e muito pequena no dia da conversão de São Paulo, a quem a dedicamos.”
Em 1556 o padre Afonso Brás foi o encarregado da ampliação da antiga casa de barro socado para abrigar os catequizadores. No dia 1 de novembro deste ano é inaugurado o colégio.
O povoamento prosperou ao redor do Colégio dos Jesuítas, transformando-o no núcleo da cidade. Vários foram os acontecimentos ao longo do tempo, como brigas entre os colonos e religiosos que culminaram na expulsão dos jesuítas do local, para onde só retornariam treze anos mais tarde.

De Colégio a Palácio dos Governadores

O Colégio esteve sob o domínio dos jesuítas até 1760, quando por decreto do Marquês de Pombal, foram expulsos das terras de Portugal e Brasil. Saíram do local que fundaram dois séculos antes humilhados, acorrentados e escoltados pelas tropas. Por onde passavam o povo lhes beijava as mãos. Com a expulsão da Companhia de Jesus, em 1765 são lhes confiscados os bens, o governo da província transforma o Colégio em moradia do governador e em Palácio dos Governadores.
Passa-se mais de um século e o antigo Colégio dos Jesuítas sofre uma série de transformações arquitetônicas, chegando ao fim do século XIX, totalmente remodelado e com uma arquitetura neoclássica, como toda sede do executivo da época. Aos domingos as missas ali celebradas para o governador e a sua família, trazem a elite paulistana a esses cultos. A última missa rezada na capela foi em 1890. As diferenças entre o bispado e o governo culminam no abandono da velha capela, que se deteriora e desaba na noite de 13 para 14 de março de 1896. Com o desabamento da capela, a sua torre é transformada em um torreão do palácio.
Em 1912 o Colégio deixa de ser a residência oficial do governador da província. Em 1925 à frente do prédio, é inaugurado o monumento do italiano Amadeu Zani, uma coluna encimada pela figura de uma mulher de braços erguidos, simbolizando a glória. No seu pedestal a inscrição: “Glória imortal aos fundadores de São Paulo”. Em 1932 a sede do governo deixa definitivamente o antigo prédio, transferida para o Palácio dos Campos Elíseos. O velho prédio é ocupado pela Secretaria de Educação. Em 1953 o prédio neoclássico é demolido. Em 1954, durante os festejos do IV centenário da fundação de São Paulo, o Estado devolveu o imóvel à Companhia de Jesus, para que fosse feita a sua reconstrução como monumento histórico. Numa reviravolta da história, o Pátio do Colégio readquiriu em 1979 a sua feição primitiva.
Hoje funciona no local o Museu Padre Anchieta, a sua principal relíquia é uma parede de taipa de pilão de 1556. Também lá se encontram um manto e a parte do fêmur do Padre Anchieta. Para quem acha que São Paulo não tem uma identidade, que tudo é anonimato, o Pátio do Colégio traz uma aconchegante singularidade, a certidão de nascimento daquela que se tornou a maior cidade do Brasil e uma das maiores do mundo.

 

 
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Segunda-feira, 1 de Setembro de 2008

GAL COSTA

 

 

Quando Maria da Graça saiu de Salvador, rumo ao sudeste, para participar do Festival Internacional da Canção, em 1966, com a música “Minha Senhora” (Gilberto Gil – Torquato Neto), ninguém imaginaria que aquela menina de 20 anos, olhar intimista, tímida, cabelos curtos e comportados, iria fazer uma das mais brilhantes carreiras que a Música Popular Brasileira já teve notícias. Maria da Graça Costa Pena Burgos nasceu em Salvador, Bahia, em 26 de setembro de 1945, época histórica que fechava a II Guerra Mundial e a ditadura Vargas no Brasil. Conheceu Caetano Veloso em 1963 e desde então, as suas carreiras se interligariam para sempre. Participou em 1964, ao lado de Gilberto Gil, Maria Bethânia, Tom Zé e do próprio Caetano Veloso, do espetáculo “Nós, Por Exemplo”, que teve grande repercussão na capital baiana.
A jovem Maria da Graça encantara João Gilberto quando, ainda uma ilustre desconhecida, cantara para o inventor da Bossa Nova. Sua voz de sereia encantaria uma nação inteira e depois o mundo. Lançou o seu primeiro compacto em 1965, com as músicas “Sim Foi Você” (Caetano Veloso) e “Eu Vim da Bahia” (Gilberto Gil). Aqui traz ainda uma voz intimista, quase agreste, quase tímida, mas cheia de promessas.

Musa dos Movimentos

Foi Guilherme Araújo quem transformou a menina Maria da Graça em Gal Costa, mudando-lhe para sempre o nome.
Já como Gal Costa, ela lança ao lado de Caetano Veloso, o álbum “Domingo”, em 1967, primeiro da carreira dos dois, que já ali define o autor e a sua intérprete. Gal seria a voz que traduziria a verdadeira essência da canção de Caetano Veloso por toda a sua carreira. Mas o tempo é de guerra, de convulsão política e cultural, e mal “Domingo” é lançado e já esquecido pelas rupturas que Caetano Veloso e o surgimento da Tropicália impõem. Gal é levada pelo turbilhão da Tropicália, que é deflagrada de 1967 a 1968. A menina tímida veste roupas coloridas, muda os cabelos curtos para o estilo black power e rasga a voz, gritando que tudo é perigoso, no IV Festival da Record, em 1968, com a canção “Divino, Maravilhoso” (Caetano Veloso – Gilberto Gil), já definitivamente tropicalista. Os acontecimentos políticos no Brasil precipitaram o fim da Tropicália. Em 13 de dezembro o AI-5 é promulgado, e com ele o resto de liberdade que restara desde a implantação da ditadura militar em 1964. Gilberto Gil e Caetano Veloso são presos no final daquele ano fatídico, posteriormente são confinados em Salvador até o embarque para o exílio em Londres, em 1969. A Tropicália só não silenciou porque o álbum “Gal Costa”, que se atrasou no seu lançamento em 1968, só sendo lançado no ano seguinte, deu uma sobrevida ao movimento. Gal ficou a cantar sozinha a Tropicália combalida. O disco é sucesso absoluto e a canção “Baby” (Caetano Veloso) revela Gal Costa para todo o Brasil. É o seu primeiro sucesso. Com a confinação dos amigos baianos, Gal assume involuntariamente o que restou dos tropicalistas. Torna-se então a Musa dos Tropicalistas. Ainda nesta fase de rupturas e de separação dos integrantes da Tropicália, a cantora lança o convulsivo e radical álbum “Gal”, 1969, encerrando com ele o movimento tropicalista.
O início da década de setenta traz os anos mais repressivos da ditadura militar. Gente é morta e torturada nos porões da ditadura. Com eles o silêncio e o desalento de quem não pode falar. Também o movimento hippie chega ao seu fim. No Brasil os herdeiros da Tropicália e do movimento hippie são apelidados de “geração do desbunde”. Gal Costa torna-se a voz dessa geração. O seu show “Fa-tal”, de 1971 a 1972, tornar-se-ia obrigatório para aquela juventude amordaçada politicamente e sedenta de mudar os costumes. E Gal é mais uma vez musa de um movimento de uma época, a Musa da Geração do Desbunde.
Gal Costa assume em sua carreira a vanguarda, a contracultura da época. Segue uma carreira sólida e insólita. Em 1975 é convidada pelo diretor global Daniel Filho para protagonizar a novela “Gabriela”, baseada na obra de Jorge Amado. Gal recusa o convite, alegando não saber interpretar. Mas fica com a canção de abertura da novela “Modinha Para Gabriela” (Dorival Caymmi), levando naquele ano juntamente com Jorge Amado e Dorival Caymmi, a Bahia e a sua cultura para todos os lares brasileiros. O encontro com Caymmi resulta no álbum “Gal Canta Caymmi”, de 1976.

Primeira Dama da MPB

Em 1978 Gal Costa deixa a vanguarda e o experimentalismo de lado e mergulha em antigos sucessos da MPB, lançando “Água Viva”, que daria origem ao show e ao álbum “Gal Tropical”, em 1979, que culminaria com o álbum “Aquarela do Brasil” (1980), com interpretações da obra de Ary Barroso. É nesta fase que Gal atinge a maturidade artística e tornar-se-ia desde então, uma das maiores intérpretes de todas as fases da história da MPB.
Nos anos oitenta Gal Costa assume o posto de primeira dama da MPB e é a cantora que mais vende disco no país. É a cantora mais ouvida e mais requisitada para fazer participações especiais em trabalhos históricos, como a trilha sonora do filme “Gabriela” (1983), ao lado de Tom Jobim, ou os álbuns de teatro de Chico Buarque e Edu Lobo. Só Gal Costa está presente em todos esses álbuns. É ainda na década de oitenta, que alcança projeção internacional, priorizando no fim da década excursões ao exterior, acompanhando o mestre Tom Jobim em algumas delas.
Após três anos sem lançar nenhum álbum, volta em grande estilo com o incomparável e antológico “Plural” . É na década de noventa que faz o seu mais polêmico show: “O Sorriso do Gato de Alice”, dirigida por Gerald Thomas, sob repertório do álbum de mesmo nome. Para comemorar os trinta anos de carreira, faz uma revisão com o álbum “Acústico MTV” (1997), alcançando com ele uma nova geração de fãs e sucesso de vendagens, que abriria portas para o lançamento de outros álbuns acústicos de cantores da MPB. A cantora termina a década e o milênio com o álbum duplo “Gal Costa Canta Tom Jobim”, tornando-se desde então, a principal intérprete do maestro soberano e fazendo dessas canções uma presença constante no repertório dos seus shows.
Nos últimos anos a MPB brasileira mudou. As carreiras dos seus principais intérpretes também. Nesta primeira década de 2000 Gal Costa regravou músicas da MPB e do seu próprio repertório. Em 2001 foi vítima do patrulhamento ideológico que assola a política brasileira há décadas, quando se pronunciou em defesa do então senador baiano Antônio Carlos Magalhães, à época caçado pelos colegas do senado. A repercussão foi tão negativa, que teve que adiar o lançamento do álbum “De Tantos Amores” (2001), recebido com ressalvas pela crítica e pelo patrulhamento da esquerda radical. Em 2005, em comemoração aos seus sessenta anos, lançou o álbum “Hoje”, com canções inéditas e compositores iniciantes.
Quarenta anos após o lançamento do seu primeiro álbum, apesar de todas as críticas e cobranças, Gal Costa ainda é a maior cantora da MPB. Nenhuma outra surgiu que lhe ofuscasse o título. Em um país como o Brasil, de memória instantânea e modismos efêmeros, manter a qualidade de uma carreira por quarenta anos, com acertos e erros, é um privilégio de cantoras raras como o é Gal Costa. Justamente por ser considerada a maior cantora do Brasil, é a mais cobrada por crítica e público.
Gal Costa, com a sua voz doce de sereia, com perfumes agudos extasiantes, embriagou e arremessou gerações em seus labirintos de diva da MPB.

 

DISCOGRAFIA

1967 – Domingo (Com Caetano Veloso)
1969 – Gal Costa
1969 – Gal
1970 – Legal
1971 – Gal a Todo Vapor - Fa-tal
1973 – Índia
1974 – Temporada de Verão – Ao Vivo (Com Caetano Veloso e Gilberto Gil)
1974 – Cantar
1976 – Gal Canta Caymmi
1976 – Doces Bárbaros (Com Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia)
1977 – Caras & Bocas
1978 – Água Viva
1979 – Gal Tropical
1980 – Aquarela do Brasil
1981 – Fantasia
1982 – Minha Voz
1983 – Gabriela – Trilha do Filme (Com Tom Jobim)
1983 – Baby Gal
1984 – Profana
1985 – Bem Bom
1987 – Lua de Mel Como o Diabo Gosta
1987 – Rio Revisited (Com Tom Jobim)
1990 – Plural
1992 – Gal
1993 – O Sorriso do Gato de Alice
1995 – Mina D’Água do Meu Canto
1997 – Tieta do Agreste – Trilha do filme (Com Caetano Veloso)
1997 – Acústico MTV
1998 – Aquele Frevo Axé
1999 – Gal Costa Canta Tom Jobim
2001 – De Tantos Amores
2002 – Bossa Tropical
2003 – Todas as Coisas e Eu
2005 – Hoje
2006 – Live At The Blue Note
2006 – Gal Costa Ao Vivo

DVDs

1997 – Acústico MTV
2000 – Gal Costa Canta Tom Jobim
2004 – Outros (Doces) Bárbaros
2005 – Ensaio
2005 – Roda Viva
2006 – Gal Costa Ao Vivo


TRILHAS DE NOVELAS

1972 – A Revolta dos Anjos - Coração Vagabundo, com Caetano Veloso (Rede Tupi)
1972 – Tempo de Viver - Pérola Negra (Rede Tupi)
1974 – Os Inocentes - De Amor Eu Morrerei (Rede Tupi)
1975 – Gabriela (Abertura) - Modinha Para Gabriela (Rede Globo)
1976 – O Casarão (Abertura) - Só Louco (Rede Globo)
1977 – Espelho Mágico - Tigresa (Rede Globo)
1978 – João Brasileiro, O Bom Baiano - Solitude (Rede Tupi)
1978 – Dancin' Days - Solitude (Rede Globo)
1978 – Gina - Coração Vagabundo, com Caetano Veloso (Rede Globo)
1978 – Pecado Rasgado - De Fogo, Luz e Paixão, com Marcelo (Rede Globo)
1979 – Os Gigantes - Força Estranha (Rede Globo)
1979 – Como Salvar Meu Casamento - Qual É Baiana? (Rede Tupi)
1979 – Dinheiro Vivo - Dez Anos (Rede Tupi)
1979 – Cara a Cara - Folhetim (Rede Bandeirantes)
1980 – Água Viva - Noites Cariocas (Rede Globo)
1981 – Ciranda de Pedra - Dez Anos (Rede Globo)
1981 – O Amor É Nosso - Jogada Pelo Mundo (Rede Globo)
1981 – Brilhante - Meu Bem, Meu Mal (Rede Globo)
1981 – Terras do Sem Fim - Roda Baiana (Rede Globo)
1982 – O Ninho da Serpente - Baby, com Caetano Veloso (Rede Bandeirantes)
1982 – Final Feliz - Verbos do Amor (Rede Globo)
1982 – Campeão - Bloco do Prazer (Rede Bandeirantes)
1983 – Louco Amor - Dom de Iludir (Rede Globo)
1983 – Sabor de Mel - Luz do Sol (Rede Bandeirantes)
1984 – Transas e Caretas – Baby, com Roupa Nova (Rede Globo)
1984 – Corpo a Corpo - Nada Mais (Rede Globo)
1984 – Vereda Tropical - Um Dueto, com Francis Hime (Rede Globo)
1985 – Um Sonho a Mais - Chuva de Prata (Rede Globo)
1987 – Bambolê – Desafinado (Rede Globo)
1988 – Bebê a Bordo - Viver e Reviver (Rede Globo)
1988 - Fera Radical - Me faz bem (Rede Globo)
1988 – Vale Tudo (Abertura) - Brasil (Rede Globo)
1989 – Tieta - Alguém me Disse (Rede Globo)
1990 – Barriga de Aluguel - Eu Acredito (Rede Globo)
1990 – Rainha da Sucata - Nua Idéia (Rede Globo)
1991 – O Dono do Mundo - Solidão (Rede Globo)
1992 – Deus Nos Acuda (Abertura) - Canta Brasil (Rede Globo)
1993 – Mulheres de Areia - Caminhos Cruzados (Rede Globo)
1994 – Pátria Minha - Errática (Rede Globo)
1994 – As Pupilas do Senhor Reitor - Todo Beijo, com Marcelo (SBT)
1995 – História de Amor - Futuros Amantes (Rede Globo)
1995 – A Idade da Loba – Lindeza (Rede Bandeirantes)
1995 – A Próxima Vítima - Alguém Que Olhe Por Mim, com Cauby Peixoto (Rede Globo)
1996 – Antônio Alves, O Taxista - Lindeza (SBT)
1996 – Anjo de Mim - O Amor (Rede Globo)
1997 – Zazá - Jovens Tardes de Domingo (Rede Globo)
1998 – Torre de Babel (Abertura) - Pra Você (Rede Globo)
1998 – Fascinação - Inquietação (SBT)
2001 – Porto dos Milagres (Abertura) - Caminhos do Mar (Rede Globo)
2003 – Mulheres Apaixonadas - O Amor em Paz (Rede Globo)
2003 – Jamais Te Esquecerei - Epitáfio (SBT)
2003 – Celebridade - Nossos Momentos (Rede Globo)
2004 – Metamorphoses - As Time Goes By (Record)
2004 – Senhora do Destino - Dono dos Teus Olhos (Rede Globo)
2005 – Alma Gêmea - Linda Flor (Yayá, Ai Yoyô) (Rede Globo)
2005 – Os Ricos Também Choram - Begin The Beguine (SBT)
2005 – Prova de Amor - Mar e Sol (Record)
2005 – Belíssima - Coisa Mais Linda, com Paulo Bellinati (Rede Globo)
2006 – Bicho do Mato - Sexo e Luz (Record)
2006 – O Profeta - Caminhos Cruzados (Rede Globo)
2007 – Paraíso Tropical - Ruas de Outono (Rede Globo)
2007 – Eterna Magia - Pra Machucar Meu Coração (Rede Globo)
2007 – Amor e Intrigas - Samba do Avião (Record)
2008 – Ciranda de Pedra - E Daí? (Proibição Inútil e Ilegal) (Rede Globo)


 
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