Quinta-feira, 31 de Julho de 2008

O CIGARRO E A CUMPLICIDADE DOS MÉDIA

 

 

A indústria do cigarro foi a responsável pelas propagandas mais elaboradas e de penetração de massas, que fizeram parte da cultura brasileira dos anos setenta aos anos noventa, influenciando diretamente no comportamento de duas gerações. Uma triste marca para o Brasil ter sido tão influenciado por uma indústria que vende um produto que vicia e mata lentamente os seus consumidores.
Já nos anos oitenta a propaganda de cigarros sofria restrições na Europa e em países de outros continentes, sendo obrigatório que o produto trouxesse em sua embalagem um selo de alerta de que aquele produto causava danos irreversíveis à saúde, mas no Brasil não existia esta preocupação e o cigarro era comercializado livremente, sem advertências e promovido por campanhas publicitárias que fascinavam uma geração, que embriagada pelo marketing, sonhava com a virilidade selvagem do cowboy da Marlboro, ou com os modelos elegantes e bem sucedidos das campanhas da marca Hollywood.

David McLaren, o Marlboro Man

No século XX ,com o surgimento do cinema como meio de comunicação de massas no planeta, surge a glamourização do tabaco. Os galãs de Hollywood são belos, heróicos e fumam. Alguém consegue imaginar o mito Humphrey Bogart sem o seu companheiro de solidão, o cigarro? (Alguém se lembra de definhar e ser morto por um câncer?) A indústria tabagista aproveita-se do cigarro como “acessório” de imagem bem sucedida e cria em seus anúncios, um estilo de vida que reflete o sucesso, a beleza e o poder. Este estigma ainda hoje, no século XXI, faz parte desta indústria da morte.
A Marlboro criou em 1954 o Marlboro Man, personagem que fez parte das suas campanhas publicitárias até 1999. O personagem foi criado por John Landry, da agência Leo Burnett, como parte de uma campanha (Delivers the Goods on Flavor) de redirecionamento da marca, que na época era direcionada para o público feminino. O brilhantismo da campanha foi tanto que o cigarro Marlboro se tornou um ícone do mundo masculino. Os anúncios destacavam o homem em situações de impetuosa virilidade explícita ou velada, domando cavalos belíssimos, atingido o clímax e volúpia final com a frase: “Terra de Marlboro, aonde os homens se reúnem”, criando um mundo masculino a insinuar que o homem que fumasse o cigarro seria viril e pai de uma prole saudável. Dois dos modelos que representaram a figura apoteótica do cowboy da Malrboro, Wayne McLaren e David McLean morreram de câncer devido ao uso contínuo do cigarro. Wayne McLaren teria no leito de morte, em 1992, aos 49 anos, pronunciado as suas últimas palavras: “Eu sou a prova morta de que o cigarro vai matar vocês.” As imagens do ex-cowboy agonizando foram vinculadas nas campanhas internacionais antitabagistas, em nada lembram a virilidade do homem sobre o seu cavalo indomável.

 

A “Lei de Gerson”, Fruto da Publicidade Tabagista


No Brasil, a presença das marcas de cigarros na mídia influenciaram a história recente deste país. O maior exemplo dessa influência foi o termo “A Lei de Gerson”, termo criado para designar as várias crises de identidade pelo qual o país passou nos últimos trinta anos do século XX. O termo serviu para identificar a malandragem em contraponto com o trabalhador dedicado. Identificava o astuto e esperto que vivia de “expediente”, como se dizia na época, e sabia dar um “jeitinho”. O que pouca gente sabe ou não se lembra, é que o termo surgiu com o comercial do cigarro Vila Rica, onde o jogador Gerson, herói do tri-campeonato brasileiro de futebol em 1970, ao acender e tragar um cigarro da marca, solta o seu famoso bordão: “Gosto de levar vantagem em tudo, certo?” E a ter como ponto de partida um anúncio de cigarro ironicamente a ética do país foi discutida, a Lei de Gerson tornou-se um elemento de definição da identidade nacional.
Outros bordões de cigarros tornaram-se ícones do cenário nacional da propaganda, como o da campanha dos cigarros LS: “O fino que satisfaz”, feita pelo modelo Pedro Aguinaga no fim dos anos setenta. Ou as marcas voltadas para a mulher, que traziam comerciais mais sensíveis e de forte apelação emotiva do universo feminino, como os da Charm, “O Importante é ter charme” e os do cigarro Ella: “Ela sou eu”.

 

O Glamour das Campanhas do Cigarro

Mais que uma influência, os reclames da marca Hollywood ditaram um estilo de vida que atingiu a juventude dos anos oitenta. De 1973 a 1998 as propagandas desta marca de cigarro foram todas voltadas para o esporte radical. Trazia clipes que se tornaram cult de toda uma geração que viveu intensamente os anos oitenta. Até hoje esses clipes são distribuídos pela internet, vistos e consumidos por milhares de pessoas saudosistas daqueles anos. Vários foram os álbuns de músicas das propagandas do Hollywood lançados no mercado. Os adolescentes de então sonhavam em ser como os homens das propagandas dos cigarros Hollywood, e fumar, trazer na mão um cigarro, para esta geração era estar na moda, era ser um homem vencedor.
Era comum ver as celebridades a fumar durante entrevistas, como é o caso da cantora Elis Regina, que deu a última entrevista da sua vida em 10 de janeiro de 1982, para o programa “Jogo da Verdade”, da TV Cultura, a fumar um cigarro Charm. Ou os atores das telenovelas, como Tarcísio Meira e Aracy Balabanian, que no auge das suas carreiras nos anos setenta como protagonistas das novelas da Globo, apareciam fumando em pleno horário nobre. Em 12 de outubro de 2007, as últimas palavras do ator Paulo Autran foram dirigidas à esposa, a atriz Karin Rodrigues, a pedir para que as pessoas não fumassem. O ator fumou a vida inteira, saiu de cena vítima de um câncer causado pelo tabaco.
As campanhas publicitárias de tabaco foram banidas da televisão já no segundo governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso, através de uma campanha mais agressiva contra o tabaco, numa guerra comprada pelo Ministério da Saúde e pelo então ministro José Serra, contra a indústria tabagista. Mesmo depois de banidas da mídia através de uma lei federal, as marcas de cigarros continuaram a vincular o seu produto às grandes revistas nacionais, ou camufladas na produção de espetáculos culturais como o Free Jazz Festival, ou ainda, nas corridas de Fórmula 1 (com propagandas nos carros, nos capacetes e nas roupas dos pilotos). Além dos cigarros, a Marlboro é dona de uma marca de roupas cara e famosa, muito apreciadas por jovens desportistas estilo montanhês.
O poder da indústria tabagista domina grande parte do planeta. É uma indústria enraizada em todos os meios de comunicação, diretamente ou de forma implícita. Através do glamour das suas propagandas, o seu produto causa câncer. Traz a morte. Pense nisto ao consumir vídeos de propagandas tabagistas na rede.
 
 

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Quarta-feira, 30 de Julho de 2008

TROPICÁLIA

 

 

 
A Tropicália foi um movimento cultural que explodiu no cenário artístico brasileiro no fim dos anos sessenta. De rupturas estéticas e linguagem plural, o movimento deixou as suas marcas mais profundas na nossa MPB, já que os seus principais componentes eram cantores e compositores. O movimento teve como mentores e integrantes Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Torquato Neto, Tom Zé, a banda Os Mutantes, Nara Leão, Rogério Duprat, Capinam, Hélio Oiticica e Rogério Duarte.

 
"Eu organizo o movimento
Eu oriento o carnaval
Eu inauguro o monumento no planalto central
Do país"
(Caetano Veloso)

O Brasil Pré-Tropicalismo

 
 
Para melhor compreendermos o Tropicalismo e a juventude que fez parte do movimento, precisamos estar atentos ao momento histórico pelo qual o país passava. O ano de 1964 ficara marcado pelo fim da democracia proposta pela constituição brasileira de 1946, quando se enterra a ditadura do Estado Novo e o país passa a ser governado por presidentes eleitos.
Com a chegada de João Goulart ao poder em 1961, há uma desconfiança da direita tradicionalista , cada vez mais confrontada pela esquerda organizada. Sindicatos, movimentos populares e estudantis vivem o seu período áureo de mobilização e organização política. Estávamos vivendo o período da guerra-fria entre americanos e soviéticos pelo domínio do planeta. A América Latina passa a sofrer maiores pressões a partir de 1959, quando é deflagrada a revolução cubana de Fidel Castro. O sucesso de um governo socialista implantado em Cuba faz com que a esquerda acredite na revolução para toda a América Latina e que a direita recrudesça para evitar que ela se espalhe pelo continente. Em 1964 esquerda e direita brasileiras radicalizam. Desse confronto surge o movimento militar de direita que culmina com o golpe que depôs o presidente João Goulart. Os militares são vistos pela população brasileira como uma resposta aos comunistas que ameaçavam a segurança da nação. Em nome da família, da moral e dos seus bons costumes, a ditadura desarticula os movimentos sindicais e estudantis, pondo-os na clandestinidade e perseguindo, prendendo e cassando os seus líderes.
Mesmo clandestinos, os movimentos continuam, existem mas não são reconhecidos legalmente. Sob os olhos vigilantes da ditadura o país passa por uma ebulição cultural intensa, acompanhando o mundo que jamais será o mesmo depois dos anos sessenta. É do período pós 1964 que surgem os grupos de Teatro Arena e Opinião e a produção das peças do Teatro Oficina. Surgem o Cinema Novo e a Jovem Guarda. Há a explosão dos festivais de música e as suas canções de protesto. Todos esses movimentos culturais eram oriundos de artistas militantes na esquerda brasileira, inconformada com o golpe de 1964.
De 1964 a 1968, o país vive a primeira fase da ditadura militar, o movimento cultural e os seus intelectuais podiam agir livremente, sofrendo no máximo problemas com a censura. É neste contexto que surge a Tropicália.
 

 

 


"Atenção
Tudo é perigoso
Tudo é divino, maravilhoso
Atenção para o refrão:
É preciso estar atento e forte
Não temos tempo de temer a morte"
(Caetano Veloso - Gilberto Gil)

Nasce a Tropicália

Em 1967 Hélio Oiticica apresentou no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, o seu grande penetrável chamado de Tropicália. Estava criado o conceito estético da Tropicália.
Mas o nascimento oficial da Tropicália surge em outubro, no III Festival de MPB da Record em São Paulo, quando Caetano Veloso e Gilberto Gil apresentam respectivamente, as músicas “Alegria, Alegria” e “Domingo no Parque”. Desde a Bossa Nova que um movimento musical não trazia nada tão expressivo para a MPB. Com essas canções nasce um novo conceito estético de criar e fazer música em língua portuguesa. Esta nova linguagem ofusca a juventude de então, dividida entre os conceitos tradicionais de se criar música na MPB e a então alienante Jovem Guarda, que no seu começo se limita apenas a fazer versões de sucessos americanos.
A Tropicália no começo causa impacto e divide opiniões. Seus principais componentes Caetano Veloso e Gilberto Gil, tomam como modelo a Bossa Nova e o antológico álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, lançado na Inglaterra em 1967. Rogério Duarte, poeta e artista gráfico é um dos mentores intelectuais do movimento. É dele o célebre cartaz do filme de Glauber Rocha “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Calcado na originalidade da capa do álbum dos Beatles, é dele as capas coloridas dos álbuns Gilberto Gil 1968 e Caetano Veloso 1968.
Diz-se que o nome do movimento surgiu em fevereiro de 1968, com a publicação do artigo do jornalista Nelson Motta “A Cruzada Tropicalista”, no jornal Última Hora. Há tropicalistas que contestam esta versão.

Identificações Tropicalistas

O movimento tropicalista diverge pela primeira vez da forma nacionalista de se fazer MPB, principalmente com a estética carioca da Bossa Nova e dos sambas de Noel Rosa e outros compositores. Acrescentam à música o rock, a psicodelia e a guitarra elétrica. Rompem com a cultura engajada de esquerda, identificando-se com a contracultura hippie e com a poesia de uma vanguarda mais erudita, que dialoga com o concretismo literário brasileiro, transformando suas músicas em verdadeiras poesias. Para o fim do movimento essa identificação com uma vanguarda erudita dá passagem para uma vanguarda underground, que deixaria a sua herança cultural para a geração do desbunde.
Uma verdadeira guerra entre a vanguarda tropicalista e a esquerda tradicionalista foi travada, com a polêmica que opunha experimentalismo e engajamento, refletida nas vaias que Caetano Veloso recebeu quando defendia a música “É Proibido Proibir” . Para a esquerda organizada da época a Tropicália era alienada e sem objetivos diante do contexto político que se vivia no país.
O auge do movimento é o lançamento do álbum manifesto “Tropicália Ou Panis Et Circenses”, de 1968. O nome do álbum foi inspirado na exposição de Hélio Oiticica, e a própria composição da música “Tropicália”, de Caetano Veloso, também teve seu nome tirado da obra do artista plástico carioca.


Tropicália e o AI 5

Para o fim a Tropicália sofre influências cada vez mais fortes do rock internacional. O movimento começa a incomodar os costumes moralistas da época quando deixa os palcos da vanguarda nacional dos bares de São Paulo e dos festivais e ocupa espaços na televisão, órgão de comunicação usado pelos tropicalistas com o programa “Divino Maravilhoso”, exibido na extinta TV Tupi de outubro a dezembro de 1968. Com provocações anárquicas e experimentais, o programa incomoda não pela proposta política, mas pela proposta de quebra de tabus e preconceitos sociais. Durante o tempo de vida do programa o Brasil é tomado por fortes movimentos de oposição ao regime militar. A tensão é cada vez maior e o confronto inevitável. Em resposta às tensões e às manifestações políticas, em 13 de dezembro a ditadura edita o Ato Institucional Nº 5, que acaba com a liberdade de expressão civil, política e cultural. O AI 5 dava direito a dissolver o congresso, prender sem hábeas corpus, cassar mandatos e impor a censura, entre outras tragédias. Na antevéspera do natal “Divino Maravilhoso” vai ao ar pela última vez, quando Caetano Veloso canta “Noite Feliz” com um revólver apontado na cabeça. Foi a última provocação da Tropicália. No dia 27 de dezembro de 1968 Caetano Veloso e Gilberto Gil são presos, mais tarde confinados em Salvador de onde partem para o exílio em Londres, em 1969. Termina o tropicalismo.
Com a sua estética visual provocativa, suas roupas coloridas, e principalmente, sua linguagem renovada, a Tropicália durou pouco mais de um ano como movimento, mas transformou a cultura brasileira. Por seu sincretismo, misturou rock e bossa nova, samba, bolero, folclore. Libertária, poética, vanguardista, foi o ponto de ruptura ao tradicionalismo da MPB, mas também uma convergência das várias vertentes da nossa música, aqui acrescentada de novos ritmos e de novos instrumentos musicais. A irreverência da Tropicália foi a concretização da Bossa Nova.



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Segunda-feira, 28 de Julho de 2008

TRÊS IMAGENS: RETRATOS DA MULHER E DO SEU TEMPO

 

O que se vê através da imagem de uma objetiva? Este artigo é uma incursão no universo da imagem, sua função como registro de um momento histórico. Imagens que à primeira vista nos pode parecer um instante fragmentado, definitivo e incontestável, que desnudam uma moral ocidental nem sempre coerente com a realidade de todos os povos.
Três imagens fotográficas distintas, que têm em comum a mulher como personagem principal. Mulheres de universos ímpares, mas comuns pela sombra tétrica e aviltante da guerra como pano de fundo, sendo essa guerra uma condição de caráter social, religioso ou civil. Mulheres antagônicas que traduzem a diversidade cultural do seu tempo. Aqui imortalizadas pelas lentes documentais da objetiva, arrebatadas do cotidiano de suas vidas na planura do tempo, passando de personagens de nações a vítimas da humanidade. Mulheres que nunca se encontrariam, a não ser para ajustar contas com o seu tempo.
Na primeira fotografia temos uma mulher que foi a princesa de um dos maiores impérios ocidentais. Na segunda imagem descobrimos uma mãe muçulmana convivendo com a intolerância fundamentalista do seu país, e finalmente, na terceira imagem, temos uma mulher africana, sem identificação de nação ou país, apenas uma mulher africana, imagem de um continente devastado pelas pestilências e pela fome. Reduzida aos contrastes culturais de uma realidade decrépita ao ocidente.
Nas três fotografias o registro deixa de ser imagem e torna-se documento que desnuda não a mulher, mas a sua condição diante da tragédia, da guerra, da sociedade, que vai muito além do seu destino. A imagem torna-se a denuncia de um mundo que sabemos que existe, mas nem sempre o queremos compreender ou olhar para ele.


Primeira Imagem

A FOTOGRAFIA: Princesa Diana com menina vítima das minas terrestres em Angola. - Photo Lusa. - A fotografia foi feita no início de 1997, durante a viagem da então ex-princesa de Gales, Diana Spencer, recém separada do marido, o príncipe Charles, à Angola, país do sudoeste africano. Por quase três décadas Angola viveu uma guerra civil que matou grande parte da população e levou o país à miséria total. Finda a guerra o país sofre com outro problema grave, as milhares de minas terrestres enterradas por todo o território. As minas continuam a matar ou a mutilar os angolanos. Nessa visita a princesa Diana sensibilizou o mundo para o problema das minas terrestres em Angola. Diana seria vítima fatal nesse mesmo ano de um acidente automobilístico.

A IMAGEM: A princesa e a menina mutilada de guerra. Dois sorrisos singelos para o registro da objetiva. Cores suaves, harmoniosas. Carinhosamente a princesa segura a bengala da menina. Bengala feita de madeira, improvisada diante da penúria da guerra. Um encontro que poderia ser uma ilusão de momento, a menina pobre e mutilada ao lado da bela princesa, um lapso de magia registrado no tempo. Duas mulheres diferentes na cor, na nacionalidade, no vestir, na forma de pensar e traduzir a vida. Um encontro para cumprir a agenda da princesa em suas inúmeras visitas de cunho social e filantrópico. A imagem nos mostra um momento de sublime felicidade daquela menina, quase mulher, sem direito à adolescência ou à fama, mas que tem o seu momento de merecida paz ao lado da princesa famosa. Um momento de carinho em uma vida tão desprotegida socialmente. Oposta à menina mutilada, reluz uma princesa solidária, em um momento de reflexão. Brincos e relógio da princesa contrastam com a roupa colorida e simples da menina. A imagem é doce, contemplativa, atemporal. Apesar da falta da perna, a menina mostra um semblante sem dor, sem rancor ou mágoa, um semblante altivo, orgulhosa por estar ao lado da figura carismática e lendária da princesa Diana. É como se a bengala segurada pela princesa desse o descanso e o amparo que os horrores da guerra não dão. A nobre e a plebéia. Duas mulheres marcando com a força do destino o seu tempo, a história do ocidente.

ALÉM DA IMAGEM: Além do sublime, do singelo e do sonho, percorreremos a crueza da fotografia. O sabor lancinante da perna substituída por uma bengala de madeira. Dentro do sorriso de cada mulher nos deparamos com os contrastes acentuados de dois mundos. A menina africana, a princesa européia. Dois universos distintos. O continente rico e o continente pobre. A menina-mulher mutilada pela guerra, empobrecida pela escassez de recursos, fruto da exploração de um povo através dos séculos. Na bengala da menina o retrato do fim de uma era, uma esperança fugaz nas mãos do ocidente, aqui revelado no amparo da princesa. A própria princesa, naquele momento também mutilada em sua vida pessoal. Derrubada do seu trono por infidelidades conjugais, pelos olhares famintos das objetivas dos paparazzi que lhe cerceavam os caminhos. Duas mulheres, dois mundos. Durante séculos mundo dos dominados e dos dominantes, do senhor e do escravo, do rico e do pobre, da opulência e da miséria. Mundos que através da imagem, por um curto momento, harmonizam-se e complementam-se. Derrubam dores históricas e diante da sensibilidade da objetiva, transbordam os alicerces da esperança. Um momento de paz na vida de duas mulheres que de formas diferentes, viveram as guerras do seu tempo.

Segunda Imagem



 

A FOTOGRAFIA: Mãe em Bentalha. – Hocine. – Fotografia feita após o massacre no subúrbio de Bentalha, na Argélia, em 1997. No início dos anos 90 do século XX a Argélia viu crescer o movimento dos fundamentalistas islâmicos. Com os fundamentalistas vieram os atentados terroristas e uma guerra civil que banhou de sangue este país do norte da África. Aqui uma mãe muçulmana é mostrada no exato momento que sabe do massacre dos seus filhos. Pouco informativa, porém mais impactante que um fila de cadáveres, a fotografia, realizada em 23 de setembro de 1997 diante de um hospital do subúrbio de Argel, deu a seu autor o World Press Photo, a mais valiosa recompensa internacional em matéria de fotojornalismo: o título da melhor fotografia de 1997.

A IMAGEM: À primeira vista a dor da mulher muçulmana transforma a fotografia em uma pintura renascentista, um quadro pincelado com as cores do desespero e da perda. O olhar perdido da mulher subtraída do que lhe é mais valorizado diante da cultura do seu povo: a família, os filhos. Já não é a figura da mulher na sua essência de fêmea, de uma Eva fora do Éden, mas a figura da mãe, da madona sem os filhos, sacrificados em nome da religião. O seu olhar sem horizonte, fixado no nada da perda, no abandono do ato da maternidade em questão de segundos. A beleza bíblica do seu semblante sacrificado, as vestimentas que refletem a sua religião, os seus costumes. A madona que há muito tomou o corpo da mulher, transformando-a no exemplo do que pode ser a dor da guerra. O que aconteceu a madona de Bentalha? O que aconteceu a essa mulher argelina, inundada de dor depois do massacre de seus entes queridos, cuja foto percorreu o mundo inteiro? Não importa, o primeiro convite da imagem nos remete à dor, ao sacrifício, aos velhos preceitos que nos lembram e nos advertem os evangelhos. A mulher mãe é a expiação máxima do sofrimento humano diante dos ideais perdidos dos filhos. Como uma Maria sem Cristo, uma mãe da Plaza de Mayo sem os filhos desaparecidos, esta madona não interessa para o mundo depois deste momento, mas o que interessa é a sua dor, que é o retrato de uma guerra sem vencedores. A madona com o seu manto e a sua dor, comovendo as cores da imagem, construindo a luz da fotografia para que o mundo percebesse que o ser humano é a maior vítima de si mesmo.

ALÉM DA IMAGEM: Além do manto da madona, da dor da mãe, nosso olhar mais atento percorre a dor de um povo. Nosso olhar desnuda-lhe o manto que a faz quase uma mulher sagrada, para olharmos a mulher que há dentro dela. Quanto mais fixamos os olhar, mais as cores da madona se esvaem. A madona revela a mulher muçulmana, a mulher que diante da subtração e ultraje da sua condição de mãe, esconde dentro de si aquela que amamenta e alimenta o homem fundamentalista. Percorremos o olhar além de um povo que mergulha em uma guerra civil por intolerância religiosa e cultural. Filhos da madona que fazem da miséria de um povo um barril de pólvora preste a explodir, usando do seu flagelo social a religião como fonte de inspiração e justificação de seus atos. O mesmo homem que detonou a bomba do fundamentalismo em seu país, que puxou uma arma, pode ter sido um dos filhos mortos dessa madona. Aqui a dor não tem lado, ela é rasgada diante dos nossos olhos. Aqui não importa quem massacrou, quem foi massacrado, mas o resultado que reflete todos os lados, todos os mortos, fundamentalistas ou não.

Terceira Imagem



 

A FOTOGRAFIA: Mãe Africana carrega o filho vítima do flagelo da Aids. – Gideon Mendel. – Fotografia premiada pelo World Press Photo. Foi feita em 1997, em um país africano. A epidemia do vírus HIV, que causa a doença da AIDS, tornou-se um flagelo no continente africano. Com países pobres, onde a população vive muito abaixo da linha da miséria, sem uma política sanitária e de prevenção, o continente negro sofre com perdas de vidas contaminadas pelo vírus. É um dos maiores flagelos da humanidade. Sem remédios e sem acesso ao tratamento, é comum na África as crianças se tornarem órfãs, vivendo em asilos especiais para este fim. Muitas crianças nascem com a herança do vírus no sangue. Calcula-se que um terço da população deste continente deve morrer vítima da Aids.

A IMAGEM: A mulher mãe. A fotografia está em preto e branco. Não há espaço para as cores da imagem ou das plantas sem flores aqui retratadas. A casa é pobre, de terra batida, sem pintura, telhado de zinco ou amianto, mostra na sua arquitetura improvisada a condição social das duas personagens. A mulher carrega em seus braços o seu filho magro, dizimado pela pestilência. Tão leve que não lhe parece pesar o corpo inerte e transformado pela doença. Como quem carrega um recém-nascido, o seu olhar é meigo, maternal, protetor e mesmo ofuscado pela tragédia, não se perde na dor. Caminha como quem canta uma doce canção de ninar para o seu menino. Com o seu lenço na cabeça, a sua saia colorida, ela transforma a paisagem árida em paisagem humana, coberta de tradições e costumes. Ela é neste instante não a imagem da África quente e esquecida, mas a própria África, mãe de vidas perdidas pelo esquecimento do mundo. Seguimos o vento silencioso, o chão batido e sem asfalto. A imagem da mãe que embala o seu filho uma última vez. Que parece caminhar com cuidado para que nada perturbe aquele momento. Não pede socorro com a voz, apenas caminha. Como uma Pietà Contemporânea, uma Maria que recebe o seu filho após a crucificação dos seus pecados. Após a redenção das esperanças e do último fôlego. A imagem conduz o último ato de amor materno desta mulher. Ao fundo as plantas resistem ao vento quente soprado pelas savanas, pelo sal da vida que já se esvai.

ALÉM DA IMAGEM: No olhar que desvenda a Pietà encontramos o mais completo abandono do mundo ocidental pelo povo africano. Não é uma mãe africana que carrega nos braços o seu filho flagelado, mas a mulher universal, excluída por uma sociedade que nem sempre sabe como conviver com as diversidades e fica à deriva de um capitalismo desmedido e sem ética. Não é a mulher africana que caminha para o nada do deserto da mais profunda miséria. É a mulher que cresce quanto mais aprofundamos o olhar na imagem e transforma-se em várias Marias possíveis, desde a Maria que salta das profundezas das Pietàs das Igrejas às Marias flageladas pela seca nordestina, pela condição de misérias pautadas pelos quatro cantos do planeta, derrubando assim as diversidades culturais que separam essas Marias, seja qual for o continente que habitam. Outras Marias carregam seus filhos no olhar da imagem. Marias beligerantes. Com as suas sandálias de dedo pisam no solo das brasas sociais. Mães sem a proteção do estado, sem cidadania ou pátria. Mães vivendo os dias da avareza de Deus, caminhando sem a direção exata dos seus direitos. A casa pobre de terra batida nos faz mergulhar na aridez das pessoas. A pestilência rondando os movimentos. A figura magra e caída do filho, como um anjo calado, a pagar a sua dívida social. A pestilência como o cumprimento das velhas profecias, como se a culpa já viesse na genética dos esquecidos. A penitência final: a morte.
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Sábado, 26 de Julho de 2008

SÉCULO XX - CEM ANOS DE GENOCÍDIO

 


Desde os primórdios das civilizações que a brutalidade, as atrocidades e os extermínios de etnias faziam parte da formação dos impérios. Os grandes impérios surgiram da dominação e conquista de vários povos e reinos menores. A crueldade do povo dominante sobre o dominado não tinha limites e era visto como parte do mecanismo da conquista. Na antiguidade costumava-se escravizar os povos dominados. A colonização dos novos continentes foi feita em cima do extermínio de vários povos e culturas. Assim assistiu-se aos extermínios dos índios do Brasil e da América do Norte, das civilizações andinas, de quase toda a população dos aborígines da Oceania. O flagelo dessas culturas era visto como um mal necessário para o desenvolvimento intelectual e religioso das novas terras conquistadas.
Com a evolução da ética nas civilizações modernas, os conceitos morais foram revistos e a moral dominante dos estados reinventada. Certos costumes morais de dominação de estado e poder passaram a ser vistos como vergonhosos e como crimes contra a humanidade.
 

O Conceito de Genocídio

 
Até a Segunda Guerra Mundial, que impulsionou o fim do colonialismo dos continentes, a barbárie sobre um povo tido como inferior ou gentio era justificada e aceita moralmente. Diante das atrocidades da Alemanha nazista e as suas conseqüências indeléveis sobre o mundo contemporâneo, surgiu finalmente o conceito do genocídio. O termo genocídio, do grego genos, raça e do latim caedere, matar que nos dicionários é descrito por “destruição metódica de um grupo étnico, pela exterminação dos seus indivíduos”. Foi criado por Raphael Lemkin, um judeu polaco especialista em Direito Internacional. Na década de 1930 Lemki alertou o mundo para as intenções de Hitler, mas foi ridicularizado. Refugiou-se nos Estados Unidos em 1941, sem conseguir apoio da comunidade internacional que protegesse os judeus perseguidos na Europa. Em 1944, já o século XX ia longo em perseguições e extermínios, Lemkin criou a palavra genocídio.
A palavra serviu para enquadrar a terminologia adotada pelas Nações Unidas na Convenção sobre o Genocídio, de 9 de dezembro de 1948. Desde então os crimes de genocídio foram tipificados e as punições para eles foram previstas. A convenção da ONU explicitou o genocídio: são atos de genocídio todos os que sejam cometidos com a intenção de destruir, total ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso.
Mesmo depois do genocídio ter sido tipificado como crime, a violência contra os que são ou pensam de modo diferente não deixou de existir. O Século XX mal expirou e deixou como herança o estigma de ter sido o século dos genocídios, onde a evolução tecnológica e ideológica do estado moderno possibilitaram o requinte e o aprimoramento das técnicas de extermínio de povos vistos como diferentes e ameaçadores aos interesses do estado. Acadêmicos como Zigniew Brzezinski estimam que 187 milhões de pessoas foram mortas ou abandonadas à morte no Século XX, do total 16 a 17 milhões de pessoas foram vítimas de atos de intolerância ideológica, étnica, racial ou religiosa.

As Grandes Chacinas*

Entre os cientistas políticos atuais há um grande debate entre o que deve ser considerado genocídio. Segue as principais atrocidades do Século XX que são consenso de que caracterizaram um genocídio:

Hereros, 1904

Os hereros, povo banto da África Sudoeste (hoje Namíbia), revoltaram-se contra a colonização alemã. Os hereros viviam basicamente da pecuária. Passo a passo, o orgulhoso povo de pastores perdeu seus campos para os colonizadores alemães. Essa ocupação desencadeia uma revolta em janeiro de 1904. A repressão das tropas alemãs expulsou os hereros para o deserto de Omaheke, onde são condenados a morrer à fome e sede depois do exército liderado por von Trohta ter envenenado as fontes. A perseguição aos hereros foi condenada por grandes protestos na Alemanha, mas nunca cessou. Em 1911 apenas restavam 15 mil vivos, sendo na sua maioria mulheres e crianças. A existência dos hereros como entidade cultural extinguiu-se.

Armênios, 1915

Os armênios são cristãos da igreja ortodoxa da Armênia, que se instalaram há três mil anos na Anatólia, Ásia Menor, atual Turquia. Em 1913 formavam dez por cento da população turca e tinham contra si a discriminação e o ódio racial da juventude turca. Com a chegada desses jovens ao poder nesse ano, a questão Armênia surge no contexto da Primeira Guerra Mundial. Acusados de colaborar com os russos, os armênios foram alvo de extermínio perpetrado pelo Estado Turco e por sua população. Em 1915 foram deportados para o deserto sírio. Mais de um milhão de armênios morreram durante o êxodo ou em execuções sumárias.

Curdistão, 1919/1999

A etnia curda, cerca de 36 milhões de pessoas, nunca teve um estado, espalha-se pelos territórios da Turquia, Irã, Síria e Iraque, e o conflito com estes países custou milhões de vida ao longo do século XX . O problema persiste até os nossos dias, com uma guerra velada e feita por guerrilhas, sem a premeditação que leva um grupo a querer exterminar o outro, o que faz com que não se prove o ato de genocídio. Os bombardeamentos com gás venenoso feitos pelos iraquianos sob as ordens de Saddam Hussein, mostram o ato de genocídio que os curdos vêm sofrendo. Somente na aldeia de Halabja, morreram quase 5 mil pessoas em conseqüência do efeito das terríveis armas químicas.

Ucrânia, 1932/1933

A Ucrânia fez parte da extinta União Soviética. A coletivização dos campos decretada por Stálin bateu de encontro à resistência dos kulaks (camponeses ucranianos). Dentro da dialética e da concepção do estado soviético os camponeses ucranianos foram classificados como inimigos de classe e contra-revolucionários, sendo alvo de implacáveis perseguições. Depois de se falhar o objetivo de produção da campanha de 1932, os armazéns de cereais foram esvaziados e os vilarejos sitiados. No inverno de 1932 a fome vitimou entre cinco a sete milhões de pessoas.

Alemanha, 1933/1945

Com a ascensão do nazismo em 1933, o mundo assistiria por mais de uma década o maior genocídio do século XX. De início os nazistas preocuparam-se com a depuração dos 600 mil judeus alemães. A ação dos Einsatzengruppen (esquadras móveis de assassinos das SS nazistas) e a estratégia da “Solução Final” concebida por Reinhard Heydrich, das SS, decidida no subúrbio de Wannsee, Berlim, em janeiro de 1942, com ou sem autorização direta de Hitler, matou entre cinco a seis milhões de judeus. Também foram vítimas dos alemães os ciganos e outras minorias religiosas (Testemunhas de Jeová).

Criméia e Volga, 1941

Em 1941 Hitler invade a União Soviética, forçando Stálin a entrar na guerra contra os alemães. Com a abertura da frente leste pelo exército alemão, Stálin decreta a deportação dos alemães do Volga e dos povos localizados em áreas estratégicas que se tinham oposto ao reforço do regime. Cinco milhões de alemães, tártaros, tchetchenos e inguches foram deportados para as estepes geladas da Sibéria ou para a Ásia Central. Não se sabe ao certo quantos desses cinco milhões pereceram.

Indonésia, 1965

A partir de outubro de 1965, cerca de 250 mil a meio milhão de pessoas, na maioria militantes do PKI (Partido Comunista da Indonésia) foram massacrados pela polícia, pelo exército e pela turba de populares. O PKI garantira por via eleitoral a participação na vida política do país, mas um golpe militar encerrou essa participação. Corpos flutuavam no Rio Brantas, sem cabeça e de estômago abertos. Para garantir que se não afundavam, eram amarrados, empalados em varas de bambu.

Nigéria (Biafra), 1967/1970

A Nigéria ficou independente da colonização britânica em 1960. É composta por várias etnias: haussa, ioruba, ibo, fulani, entre outros. Em 1966, eclodiu uma guerra civil pelo controle do poder central opondo os haussas aos ibos, sendo os últimos derrotados. O poder caiu nas mãos de um general haussa. Os ibos, concentrados no leste do país não reconheceram o governo central e proclamaram em 1967, o estado independente de Biafra, gerando uma guerra civil que se estendeu até 1970 quando os ibos de Biafra renderam-se e o território foi reincorporado a Nigéria. Cerca de dois milhões de pessoas, em sua maioria ibos, morreram nessa guerra.

Bangladesh, 1971

Quando a Índia ficou independente da coroa britânica em 1947, tinha uma população de maioria hindu, com uma minoria muçulmana. Com a independência, os territórios indianos de maioria islâmica formaram o país independente do Paquistão, que tinha duas áreas territoriais distintas: o Paquistão Ocidental era separado geograficamente do Paquistão Oriental por 1.600 km de território indiano. O Paquistão Ocidental foi composto pelas províncias de maioria muçulmana do Beluquistão, Sind, Punjab e a Fronteira Norte Ocidental. A Bengala Oriental, também de maioria muçulmana, formou o Paquistão Oriental, que fez a sua independência em 1971, passando a se chamar Bangladesh. A independência não foi aceita pelo Paquistão, gerando o extermínio de três milhões de habitantes do Bangladesh pelo exército paquistanês. A chacina causou protesto da opinião pública mundial. Um grande concerto musical de repúdio foi promovido por Ravi Shankar e George Harrison, o “Concerto pelo Bangladesh”.

Burundi, 1972

Uma revolta da maioria hutu a 29 de abril de 1972 provoca a morte de 2000 a 3000 pessoas da população tutsi, que controlava o poder. No dia seguinte o presidente Michel Micombero decreta a lei marcial, que suscita uma onda de terror que culmina na morte de 100 a 200 mil pessoas da etnia hutu. Todos os intelectuais hutus foram mortos ou exilados em outros países.

Camboja, 1975/1979

O Camboja perdeu cerca de 150 mil pessoas vítimas dos bombardeios norte-americanos na Guerra do Vietnã. Com a ascensão dos Khmer Vermelhos ao poder liderados por Pol Pot, o Camboja tornou-se um imenso campo de morte e atrocidades. Em quatro anos 1,7 milhões de pessoas (20 por cento da população) sucumbiram à fome, às doenças e aos trabalhos forçados. Pol Pot faz milhões de pessoas abandonar as cidades em migrações forçadas para os campos. Seu objetivo utópico era recriar a grandiosidade do Camboja medieval à custa do sacrifício coletivo.

Timor, 1975/1979

O Timor Leste foi colonizado pelos portugueses, com a Revolução dos Cravos em abril de 1974, inicia-se a descolonização portuguesa da África e da Ásia. Com a saída dos portugueses de Timor, a Indonésia, com a cumplicidade dos EUA, decide, em 1975, invadir o território leste daquela ilha, anexando-o ao seu território. A anexação foi feita de forma brutal, matando mais de 200 mil timorenses entre 1975 e 1979.

Antiga Iugoslávia, 1991/1999

Com o fim da guerra fria, vários foram os países que se desintegraram. A Iugoslávia de Tito dá passagem para os países independentes da Eslovênia Croácia, Bósnia-Herzegovina, Macedônia, Sérvia e Montenegro. A luta entre sérvios, croatas e outras etnias religiosas deu origem às maiores atrocidades que a Europa assistiu após a Segunda Guerra Mundial. Grupos étnicos diferentes foram mortos e expulsos na Bósnia, na Eslavônia e na Krajina. O conflito vitimou cerca de 326 mil pessoas de 1991 a 1996. Em 1999 o território do Kosovo, na Sérvia, cuja população é de maioria albanesa, sofreu a perseguição dos sérvios que gerou mais um conflito na região, a guerra do Kosovo, logo sufocado pela intervenção da comunidade internacional.

Ruanda, 1994

Os tutsis ruandeses refugiaram-se no Uganda após uma insurreição mal sucedida em 1959/62. Os seus filhos invadem o Ruanda nos anos noventa. Os hutus são 85 por cento da população e organizam a defesa. Os hutus possuíam desde 1992 um complexo aparelho de extermínio. O Burundi, país vizinho do Ruanda, tem o seu primeiro presidente hutu Malchior Ndadaye, assassinado em 1993. O Ruanda mergulhou no horror da carnificina étnica em abril de 1994, depois que o avião que levava o presidente Juvenal Habyarimana, da etnia hutu, foi abatido a tiros em Kigali. Em três meses mais de 700 mil tutsis foram chacinados.

China (Tibete)

O Tibete foi invadido pela China em 1949. Nos primeiros dez anos de invasão, cerca de 6000 mosteiros são destruídos e é feito um número indeterminado de mortos, obrigando o seu líder espiritual Dalai Lama, a fugir do país. A destruição sistemática da cultura tibetana não costuma constar dos anais do genocídio.
Também na China aconteceram os atos de fuzilamento em massa perpetrados na seqüência da invasão japonesa dos anos trinta. O objetivo era o aniquilamento dos chineses e coreanos, considerados inferiores pelos invasores. 300 mil pessoas foram mortas no massacre de Naking em 1937.

 
*Fonte: Revista Pública, nº 193
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Quinta-feira, 24 de Julho de 2008

UM POEMA DE WILLIAM BUTLER YEATS

 



William Butler Yeats nasceu em 13 de junho de 1865, em Dublin, Irlanda. Um dos maiores poetas do século XX , autor de teatro, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1923. Grande parte da sua vida se deu na época em que a Irlanda era dominada pela Grã-Bretanha e assolada por movimentos separatistas, muitas vezes violentamente reprimidos pela coroa britânica, o que fez de Yeats um nacionalista irlandês militante.



Do Romantismo Exuberante ao Modernismo Austero

A beleza da poesia de Yeats traduz a pulsação de sentimentos diluídos em palavras doces, líricas, fantasiosas, que traduzem o cansaço da paixão, mas a sua inevitável condição de ampliar o coração nos mistérios da existência. Em Yeats percebemos o tempo passar, às vezes docemente, às vezes melancolicamente, inevitavelmente. A beleza física se esvai e surge a beleza indomável e etérea dos olhos da alma. Mesmo depois de deixar a fase inicial da sua poesia voltada para o romantismo, quando abraça o modernismo e uma escrita mais austera, há sempre na sua poesia a elevação do nível artístico voltados para a emoção, seja ela romanticamente exuberante ou nacionalista e contestadora. Traz ainda um toque de misticismo que sempre cultivou na sua personalidade, muitas vezes criticado pelos modernistas.
Entre as suas angústias e misticismos, a velhice era sem dúvida uma parte da vida que Yeats via com melancolia:

A ESPORA

Parece-te horrível que luxúria e ira
Cortejem a minha velhice;
Quando jovem não me flagelavam assim;
Que mais tenho eu que me esporeie até cantar?

W. B. Yeats morreu em 28 de janeiro de 1939, quando a Irlanda já era um país livre. Foi o maior representante do Renascimento Literário Irlandês. Foi co-fundador do Abbey Theatre.

Um Poema

 





When You Are Old (original)

When you are old and gray and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;

How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;

And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face among a crowd of stars.

Poema publicado em The Rose, em 1893





Quando Fores Velha (tradução)

Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;

Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;

Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.

Tradução: José Agostinho Baptista
W.B. YEATS - UMA ANTOLOGIA - Assírio & Alvim



CRONOLOGIA

1865 - Nasce em Georgeville, Dublin, William Butler Yeats, no dia 13 de Junho.
1867 - A família muda-se para Londres.
1875 - Matricula-se na Godolphin School de Hammersmith.
1880 - A família regressa à Irlanda. Yeats faz os estudos secundários em Dublin.
1881 - Apaixona-se pela sua prima Laura Johnston.
1883 - Ingressa na Escola de Arte de Dublin.
1885 - Aparecem os seus primeiros poemas na Dublin University Review. Conhece Katharine Tynan e John O'Leary.
1887 - A família regressa a Londres. Yeats liga-se a certas entidades teosóficas.
1888 - A família vende as suas terras na Irlanda.
1889 - Publica The Wanderings of Oisin and Other Poems. Edita Fairy and Folk Tales of the Irish Paesantry. Apaixona-se por Maud Gonne.
1890 - Aparece o famoso poema «A Ilha do Lago de Innisfree».
1891 - É fundado o Rhymer's Club. Inicia a sua amizade com Johnson e Dowson. Primeira proposta de casamento a Maud Gonne. Funda a London Irish Literary Society. Nesse mesmo ano funda com O'Leary como presidente, a National Literary Society em Dublin.
1892 - Publica The Countess Kathleen and Various Legends and Lyrics.
1893 - Edita com Ellis The Works of William Blake.
1894 - Primeira visita a Paris. Nova proposta de casamento a Maud Gonne.
1895 - Partilha uma casa com Arthur Symons.
1897 - Publica The Secret Rose.
1898 - Concebe a idéia do Irish Theatre com Lady Gregory e Edward Martyn.
1899 - Publica The Wind Among the Reeds. Nova proposta de casamento a Maud Gonne.
1902 - Assume a presidência da Irish National Dramatic Society.
1903 - Maud Gonne casa-se com John MacBride. Yeats visita os EUA, onde realiza algumas conferências.
1904 - É inaugurado o Abbey Theatre. Yeats assume várias tarefas que o afastam da criação.
1906 - Publica Poems 1895-1905.
1907 - Visita a Itália com Lady Gregory e o filho desta.
1908 - São publicados os seus Collected Works, em oito volumes.
1910 - Publica The Green Helmetand Other Poems.
1912 - Passa alguns dias com Maud Gonne na Normandia. Conhece Ezra Pound.
1914 - Publica Responsibilities. Completa a primeira parte de Autobio-graphies. Visita os E UA.
1915 - Recusa um título honorífico que lhe é oferecido pelo Governo.
1916 - Passa o Inverno na companhia de Ezra Pound. Dá-se o levantamento da Páscoa (Easter rising). Escreve Easter 1916.
1917 - Compra o castelo de Ballylee. Casa-se com Georgie Hyde-Lees.
1918 - Visita Sligo (Irlanda).
1919 - Nasce em Dublin, no mês de Fevereiro, a sua filha Anne Yeats. Visita Oxford.
1920 - Nova viagem aos EUA.
1921 - Nasce-lhe o filho Michael, em Agosto.
1922 - Adquire a casa de Merrion Square em Dublin. O seu pai morre em New York. É nomeado senador do novo Estado Irlandês.
1923 - É-lhe outorgado o Prêmio Nobel.
1924 - Termina o livro A Vision. Visita a Sicília.
1925 - Visita Roma e Milão. Publicai Vision.
1927- Adoece gravemente de uma infecção pulmonar. Viaja a Algeciras, Sevilha e Cannes.
1928 - Publica The Tower. Vende a casa de Dublin.
1929 - Visita Rapallo onde vive Ezra Pound.
1930 - Escreve o poema Byzantium.
1931 - Words for Music, Perhaps. É doutorado pela universidade de Oxford. Morre Lady Gregory. É fundada a Irish Academy of Letters.
1933 - The Winding Stair and Other Poems.
1934 - Viaja até Maiorca. Colabora na tradução dos Upanishadspaxa. inglês.
1936 - Adoece gravemente. Regressa a Dublin.
1937 - Edita o Oxford Book of Modern Verse (1892-1935).
1938 - Visita pela última vez o Abbey Theatre. Recebe Maud Gonne em Dublin.
1939 - Morre a 28 de Janeiro. É sepultado em Roquebrune. São publicados os Last Poems. O corpo será trasladado para Sligo, Irlanda, em 1948.

 

 



Cronologia por JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA
W.B.Yeats - Uma Antologia
Editora Assírio & Alvim
Lisboa, Portugal

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Segunda-feira, 21 de Julho de 2008

DA POP ART À UNITED COLORS OF BENETTON

 

 

Quando a exposição This is Tomorrow (Isto é o Amanhã) foi realizada na Whitechapel Gallery, Inglaterra, em 1956, iniciou-se um movimento de arte popular de cores intensas e grandes traços, a Pop Art. A obra escolhida para anunciar o evento foi uma colagem de Richard Hamilton intitulada “O que é que torna o lar dos nossos dias tão diferente, tão atraente?” Na “Collage” de Hamilton podemos ver um homem musculoso, uma pin up, móveis modernos, a capa de uma revista em quadrinhos ampliada e pendurada na parede, um gravador e um televisor. Era o olhar irônico dos produtos da cultura de massa observados pela arte. A Pop Art tem como referência um universo de imagens codificadas. Os norte-americanos Andy Warhol e Roy Lichtenstein são os principais representantes do movimento.
Andy Warhol (1928-1987), filho de imigrantes tchecos, tornou-se famoso em 1962 pelas suas obras sobre as latas de sopa Campbell, garrafa de Coca-Cola e as embalagens de um detergente. Celebrizou-se por seu trabalho gráfico sobre produtos de consumo e com a variação em cores de fotos de gente famosa. Roy Lichtenstein (1923-1997) passava para as suas telas o universo das histórias em quadrinhos, com cenas de cores brutais, realçadas pela valorização da trama de impressão. Alguns dos artistas que pertenceram à Pop Art exploraram o erotismo e quase todos recriaram as técnicas da publicidade. Tinham na sua visão de mundo a falta de complacência com o sistema, desafiando-o com suas imagens próximas da expressão ampliada da arte e da estética popular.


A United Colors Of Benetton


Nos anos noventa surgiram as propagandas da Benetton. Longe de ser uma marca de roupas de elite, a Benetton é um grupo de lojas italianas, com filiais em 120 países. Atinge um grupo de pessoas que vai do popular à classe média jovem. Ficou famosa no mundo justamente pelas propagandas daquela década, muitas vezes agressivas e polêmicas, flertando simultaneamente com o inusitado e com o grotesco. As campanhas que tinham o título de “United Colors of Benetton” pode ser equiparada à Pop Art do fim do último milênio, tendo na imagem e no vídeo a sua estética principal.
No início dos anos noventa a AIDS era uma doença com forma de tratamento ainda precário e de mecanismos desconhecidos pela ciência. Um diagnóstico naquela época era uma sentença de morte. A Benetton usou o tema do flagelo da AIDS várias vezes em suas campanhas publicitárias. A campanha Aids – David Kirby, de 1992, trazia um homem no leito de morte com o corpo todo destruído pela doença e amparado pelo pai. Uma imagem que chocou a Europa e o mundo na época do seu lançamento, dando origem ao repúdio de vários familiares que passavam pelo drama de perder entes queridos para a doença. Em 1993 a campanha HIV – Positivo voltava ao tema da Aids, desta vez não trazendo o corpo em declínio físico, três fotografias de um modelo musculado tatuado em três partes do seu corpo (ancas, púbis e braços) a frase HIV – Positive faziam parte da campanha.
Apesar do desconforto que muitas vezes causaram, as campanhas da Benetton eram sempre aguardadas com muita expectativa. Um tema muito explorado foi o da diversidade racial, tendo sempre modelos de raças diferentes no mesmo reclame ou cartaz. Também os dogmas foram contestados em campanhas como a “Padre e Freira” (1991), que trazia um antológico beijo na boca de um padre e de uma freira.
Em 1998 a Benetton conseguiu em uma das suas campanhas questionar a pena de morte norte-americana, pondo em suas propagandas fotografias de condenados no corredor da morte. A campanha causou um mal-estar geral e um questionamento sobre o tema que constrangeu os Estados Unidos.
Mais do que agredir, as campanhas da Benetton refletiam momentos dos conturbados anos de fim de milênio, focando sempre em temas atuais e momentâneos que a sociedade tentava não ver, atirando-os para debaixo do tapete. Assim como na Pop Art, também as campanhas não são complacentes com o sistema, apesar de dele usufruir, gerando-lhe a polêmica sem lhe contestar o conteúdo.
Arte ou não, dependendo do olhar sobre as imagens das campanhas, o fato é que a United Colors of Benetton foi a própria cultura do início da era digital, pré-internet, pós-muro de Berlim. Enquanto a Pop Art tinha como pano de fundo às limitações da guerra-fria, a “Pop Art Benetton” tinha o vazio das ideologias e às mazelas que assolavam o mundo no fim do milênio. A contracultura da geração sem cultura definida.
 
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Sexta-feira, 18 de Julho de 2008

JEOCAZ LEE-MEDDI - STANISLAS KALIMEROV (UM ENSAIO)

 

 





Conheci Stanislas Kalimerov em Lisboa, em 1993, através de alguns amigos comuns. Instantaneamente nasceu entre nós uma amizade fraterna e cheia de aventuras pelas ruas de Lisboa.
Stanislas Kalimerov é um grande fotógrafo nascido no sul da França, filho de pais ucranianos, mas de uma cultura gaulesa indiscutível. Nossa amizade foi travada no período de produção das fotografias que iriam compor a excelente exposição A Última Cena – Um Olhar Português (Lê Denière Scène – Un Regard Portugais) e eu escrevia o romance Fatal – A Hora Azul.
Foi uma época de criatividade fundamental para os dois. Época em que vivemos paixões fugazes e essenciais para a nossa formação emocional. Assistimos aos desatinos e armadilhas da paixão que cada um viveu nas noites lisboetas. Entre um romance e outro acompanhei a produção da exposição, desde os modelos que para ela posaram (alguns meus amigos pessoais) à elaboração dos textos feita pelo poeta Al Berto, de quem me tornei amigo.
Foi numa fria tarde de fevereiro do inverno europeu que posei para as lentes do Stanislas, no ensaio que resultou nas fotografias aqui expostas. Foram feitas na praia da Fonte da Telha. Nesta tarde falamos dos nossos projetos, ele o da exposição e eu o de escrever um romance. Foi nesta tarde que Stanislas me falou da Hora Azul, aquele momento de transição entre o dia e a noite, que se dá um minuto de silêncio entre os seres do dia e os seres da noite. Um único minuto! É a Hora Azul! Naquele instante a idéia do meu romance nasceu. Disse ao Stanislas que quando escrevesse o livro e o publicasse, usaria uma das fotografias daquele ensaio na sua capa. Um ensaio que ainda só existia na objetiva.
Assim correram os dias... Stanislas a preparar a exposição e eu a escrever o meu livro. No dia 18 de março de 1995 escrevi a última linha do romance Fatal – A Hora Azul. No 27 de outubro de1995 foi inaugurada a exposição A Última Cena – Um Olhar Português (Lê Denière Scène – Un Regard Portugais), no Convento dos Inglesinhos, em Lisboa.
A exposição foi um sucesso e o romance um livro premiado. Muitos anos se passaram, mas o momento exato da idéia do romance foi registrado nas fotografias de Stanislas Kalimerov.
Meu amigo aqui fica a minha homenagem. O ensaio feito entre o crepúsculo e o pôr do sol naquele domingo de fevereiro de 1994, quando vivíamos a Lisboa capital européia da cultura e o auge do nosso ludismo.
O trabalho de Stanislas Kalimerov pode ser visto em seu site:


http://www.stanislas-kalimerov.com/
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Quinta-feira, 17 de Julho de 2008

GERALDO DEL REY

 

 



Há certos ícones da cultura brasileira que não lhe são feitos as reverências e as homenagens merecidas. O ator Geraldo Del Rey é um desses ícones que fazem parte da história da dramaturgia nacional, tendo participado em atuações importantes e definitivas tanto no palco dos teatros, nas telas do cinema e da televisão. Sua trajetória confunde-se com a do próprio cinema novo. Sua passagem pela televisão marcou uma época em que o veículo precisa de grandes nomes e talentos para que se consolidasse ante ao público. Geraldo Del Rey, o galã do preto e branco, fez suspirar atrizes e mulheres poderosas, como Glória Magadan. Deixou um precioso rastro de talento por onde passou, marcando de forma indelével o mundo do espetáculo do século XX no Brasil.

Do Ciclo Baiano ao Cinema Novo

Geraldo Del Rey nasceu em Ilhéus, na Bahia, em 29 de outubro de 1930. Teve formação profissional na Escola de Teatro da Universidade da Bahia.
Sua presença no cinema nacional começa nos anos cinqüenta, onde participa ativamente do Ciclo Baiano, movimento precursor do Cinema Novo, que reúne todos os filmes que são realizados na Bahia entre 1959 e 1963. O movimento congregava personalidades como Glauber Rocha, Rex Schindler, Roberto Pires, Paulo Gil Soares, Oscar Santana, Orlando Senna e Antônio Pitanga.
Geraldo Del Rey trazia um estilo de interpretação interiorizado com influências do Actor's Studio americano. Participa em 1959 de Redenção de Roberto Pires, primeiro longa-metragem do cinema baiano. Do chamado Ciclo Baiano, participa de quase todos os filmes, entre eles: Bahia de Todos os Santos (1960), A Grande Feira (1961), Tocaia no Asfalto (1962) e Sol Sobre a Lama (1963).Consegue projeção nacional e internacional ao participar ao lado de Leonardo Villar e Glória Menezes no filme de Anselmo Duarte, O Pagador de Promessas (1962), que seria premiado com a Palma de Ouro em Cannes.
Mas é sob a direção de Glauber Rocha e sob as lentes do Cinema Novo que o ator de olhos verdes, chamado por alguns de Alain Delon tupiniquim, finca para sempre o seu nome no cinema brasileiro, participando dos antológicos e históricos Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e A Idade da Terra (1980).
Geraldo Del Rey integrou o núcleo fundador do Festival de Cinema de Gramado, em 1973, dando muito de seu prestígio e apoio para que o evento ganhasse repercussão nacional. Em 2004, em reconhecimento a essa colaboração o 32 Festival de Cinema de Gramado prestou uma Homenagem Especial pela sua participação e contribuição ao cinema nacional.


Militância e Casamento

Ainda no início da década de sessenta ingressou no Teatro Oficina, tendo importantes participações nos palcos. É nesta época de ebulição e mudanças dos ventos no cenário político nacional que Geraldo Del Rey se engaja nos movimentos políticos de esquerda, conservando uma militância que levaria até o fim da ditadura militar.
Casa-se em 1963 com a jornalista Tânia Carvalho. Com a situação política cada vez mais tensa após o golpe militar de 1964, passa um tempo na Europa, ao lado da mulher. Na ocasião Geraldo Del Rey fez um filme com a atriz Maria Barroso, mulher do político português Mário Soares, que futuramente seria a primeira dama de Portugal. Em 1967 nasce-lhe o filho Fabiano.

O Galã do Preto e Branco

Na televisão o belo porte logo lhe traz a condição de galã das telenovelas. Estréia na TV Excelsior, atuando ao lado de atores como Carlos Zara e Regina Duarte (em princípio de carreira). Vidas Marcadas, de Ivani Ribeiro (1965), consegue relativo sucesso que lhe rende algumas capas de revistas da época.
A sua estréia na Rede Globo acontece em 1968, na telenovela A Gata de Vison. A emissora ainda está nos seus primórdios. Reza a lenda que a autora da telenovela, a então toda poderosa Glória Magadan apaixonou-se pelo ator, 30 anos mais jovem do que ela. Geraldo Del Rey vivia o vilão da trama protagonizada por Tarcísio Meira e Yoná Magalhães. A tórrida paixão entre a autora e o ator refletia-se na trama, diz-se “quanto maior o ardor entre ambos, mais o personagem de Tarcísio Meira ia mudando de características e personalidade”. Conta-se ainda, que Tarcísio ao reclamar do rumo que seguia o seu personagem foi afastado definitivamente da telenovela. Com a saída do protagonista Glória Magadan solucionou o problema do casal romântico principal da trama, dando fim à personagem da protagonista, Meggy Parker, criando-lhe uma irmã gêmea, Dolly Parker, para formar o novo par romântico da novela, com Geraldo Del Rey. Pouco tempo depois a era Glória Magadan na Globo era encerrada e a autora é demitida da emissora. Surge a era de Janete Clair.
Em 10 de novembro 1969 a Globo reformula totalmente o formato de suas novelas com a estréia de Véu de Noiva, de Janete Clair, novela das oito da noite. Os dramalhões de época dão passagem para os dramas contemporâneos. O cenário já não é mais de castelos, arenas ou desertos, mas das praias da zona sul carioca. Pela primeira vez é inserida uma trilha sonora em uma telenovela. Véu de Noiva marca a estréia de Regina Duarte na TV Globo, ela é a protagonista ao lado de Cláudio Marzo. Geraldo Del Rey era o antagonista da novela, a última vértice do triângulo amoroso que formava com os protagonistas. Um papel importante em uma novela que logo de início foi sucesso absoluto. Mas o ator não chegaria ao fim da novela. Há duas versões para a sua saída da Globo, a primeira é a de que foi demitido por causa da sua militância política, o que é improvável, pois faziam parte da mesma militância Dias Gomes e tantos outros que trabalhavam na emissora. O que se conta em várias versões é que por volta do trigésimo capítulo, Geraldo Del Rey decidiu sair da novela, pois havia recebido convite para trabalhar na TV Tupi, em uma novela de Glória Magadan, agora contratada da emissora paulista. A saída de Geraldo Del Rey da trama faz Janete Clair resolver o problema com o assassínio da personagem, iniciando assim, a longa série de assassínios das telenovelas brasileiras, surgindo pela primeira vez o famoso bordão: "Quem matou ....?" No país só se fazia uma pergunta naquele começo de 1970: Quem matou Luciano? E com um tiro quando tocava ao piano, Luciano/Geraldo Del Rey encerrava definitivamente o posto de galã global.
Em 16 de fevereiro de 1970 estréia E Nós Aonde Vamos?, na TV Tupi. A novela é um fracasso. Glória Magadan vai embora do Brasil, indo escrever novelas em Miami. Esta novela seria a última da carreira de Leila Diniz, que morreria em um acidente de avião dois anos depois. Coincidentemente 1970 é o ano da separação do ator e de Tânia Carvalho.
Com a ida para a TV Tupi a carreira de galã de telenovelas de Geraldo Del Rey declina. Ele permaneceria nesta emissora até Roda de Fogo (1978), indo para a TV Bandeirantes em 1979, tendo um papel de destaque em O Todo-Poderoso. Passaria ainda pelo SBT. Só voltaria à Rede Globo em 1986, numa pequena participação na novela Cambalacho. Em 1990 Geraldo Del Rey já sem o porte de galã, calvo e envelhecido, brilha novamente em uma novela global: Lua Cheia de Amor, fazendo par romântico com Marília Pêra. A última interpretação do ator foi a do jornalista Damasceno, na minissérie Anos Rebeldes (1992), de Gilberto Braga, produzida pela Rede Globo. No dia 25 de abril de 1993, Geraldo Del Rey faleceu. Saía de cena uma das mais intrigantes carreiras de um ator brasileiro. Da vanguarda do movimento do Ciclo Baiano e intérprete imprescindível do Cinema Novo ao galã das telenovelas preto e branco, este ator deixou a sua marca indelével no cenário nacional. O estudo da sua carreira será sempre uma descoberta.

FILMOGRAFIA

1988 - Dedé Mamata
1988 - Os Heróis Trapalhões - Uma Aventura na Selva
1984 - Garota Dourada
1980 - A Idade Da Terra
1980 - Asa Branca - Um Sonho Brasileiro
1975 - A Carne
1975 - Núpcias Vermelhas
1973 - Um Homem Tem Que Ser Morto
1971 - Ana Terra
1970 - Anjos e Demônios
1969 - Um Uísque Antes, Um Cigarro Depois
1968 - Bebel, Garota Propaganda
1967 - O Vigilante Em Missão Secreta
1966 - Mudar De Vida
1966 - Cristo de Lama
1966 - O Santo Milagroso
1965 - Entre o Amor e o Cangaço
1965 - Menino de Engenho
1964 - Deus e o Diabo na Terra do Sol
1964 - Lampião, o Rei do Cangaço
1963 - Sol Sobre A Lama
1962 - O Pagador de Promessas
1962 - Tocaia no Asfalto
1961 - A Grande Feira
1960 - Bahia de Todos os Santos
1959 - Redenção
1950 - Somos Dois

TELENOVELAS E SÉRIES

1992 - Anos Rebeldes (minissérie)
1992 - Pedra Sobre Pedra
1990 - Lua Cheia de Amor
1990 - Escrava Anastácia (minissérie)
1989 - Capitães da Areia (minissérie)
1989 - Cortina de Vidro
1989 - Colônia Cecília (minissérie)
1988 - Chapadão do Bugre (minissérie)
1986 - Cambalacho
1984 - Joana (seriado)
1983 - Braço de Ferro
1982 - A Leoa
1979 - O Todo-poderoso
1978 - Roda de Fogo
1976 - Canção para Isabel
1975 - Vila do Arco
1975 - O Sheik de Ipanema
1974 - A Barba Azul
1973 - Divinas & Maravilhosas
1973 - Rosa dos Ventos
1972 - Camomila e Bem-Me-Quer
1972 - Os Fidalgos da Casa Mourisca
1971 - Sol Amarelo
1971 - Editora Mayo, Bom Dia
1970 - E Nós Aonde Vamos?
1969 - Véu de Noiva
1969 - A Última Valsa
1968 - A Gata de Vison
1967 - Os Miseráveis
1966 - Abnegação
1966 - Anjo Marcado
1965 - Em Busca da Felicidade
1965 - Vidas Cruzadas
1965 - O Céu É de Todos
1964 - Ilsa
1964 - Pecado de Mulher
1963 - Um Dia... Talvez
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publicado por virtualia às 06:36
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Terça-feira, 15 de Julho de 2008

NEVOEIRO - FERNANDO PESSOA

 

 


Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer —
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

 
 
Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
 

É a Hora!

 
 
 
 
 
FERNANDO PESSOA - Mensagem
 
publicado por virtualia às 19:56
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Sexta-feira, 11 de Julho de 2008

VIRTUÁLIA - CONVITE AO MANIFESTO

 

 
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No ápice de um mundo contemporâneo, globalizado e digitalizado, muito já se foi dito, muito há o que se falar. Muito mais o que se registar. A informação é rápida, instantânea, nasce, propaga-se e morre com a mesma intensidade de um relâmpago no céu. Começar um blog é quase que começar um diálogo com o imprevisível, com a surpresa de quem está do outro lado. Um manifesto contemporâneo, um manifesto quotidiano de um século incipiente e movido pelas emoções banais e virtuais das comunicações.
Este blog vai ser escrito em uma linguagem directa, mas elegante. Terá as portas abertas para todos aqueles que dele necessitar para informar, acrescentar e traduzir o quotidiano. Sucumbir o marasmo do seu potencial escravista.
Nos dias de hoje classificamos tudo, os amigos, a família, as cidades, os sentimentos. Eu tenho amigos que por exigência performativa, posso classificá-los em:

Amigos da Geração 25 de Abril
Amigos das pós cavaquismo 

Amigos da Geração pós União Europeia
Amigos da Geração pós Expo 98

Cada um traz uma faixa etária e uma visão de vida que faz de nós um arquivo inconfidencial e exposto aos erros e acertos da história recente deste país e do mundo.
VIRTUÁLIA é isto, um conjunto de textos classificados por temas: POLÍTICA, MEMÓRIA, CULTURA, PERSONALIDADES, LITERATURA, DESATINOS, etc. Independentes de credo religiosos ou ideologias, se é que elas existem numa época que já caiu o muro de Berlim e impérios se desfizeram ao pó das dialécticas.
Convido-os para um café virtual. Uma tertúlia informal e sem dialécticas. Entre, clique, leia, escreva, opine. A casa é sua.
Bem-vindos à VIRTUÁLIA!

Por Jeocaz Lee-Meddi

 
publicado por virtualia às 00:28
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