Sábado, 17 de Janeiro de 2009

OS ARREPENDIDOS DO GOLPE MILITAR DE 1964

 

 

Quando, em 31 de março de 1964, desencadeou-se a sublevação militar da 4ª RM e 4ª DI, com sede em Juiz de Fora, Minas Gerais, comandada pelo general Olímpio Mourão Filho, que marchou rumo ao Rio de Janeiro para depor o então presidente do Brasil, João Goulart, a maior parte da sociedade brasileira apoiou os militares. Olímpio Mourão Filho e a sua tropa, foram recebidos como heróis na capital da Guanabara. Estava consolidado o golpe militar, que implantaria a pior ditadura que o Brasil já teve, que se estenderia de 1964 a 1985.
Os pilares dessa ditadura foram construídos pela ambição de três governadores de estados brasileiros: Adhemar de Barros, governador de São Paulo, Magalhães Pinto, governador de Minas Gerais, e Carlos Lacerda, governador do então estado da Guanabara (incorporado ao estado do Rio de Janeiro em 1974). Ambicionando a presidência da República, estes três homens apoiaram o golpe, desencadeando um clima político no país para que ele fosse executado.
Nas ruas, mulheres, empresários, padres, estudantes de direita, empunharam rosários e bandeirinhas do Brasil na mão, sob o lema “Família que reza unida, permanece unida”, realizaram entre 19 de março a 8 de junho de 1964, 49 marchas pelo país. As marchas antes do golpe militar de 31 de março, eram chamadas de Marchas da Família com Deus, depois do golpe passaram a chamar Marcha da Vitória.
Com exceção do jornal Última Hora, todos os grandes jornais do país apoiaram o golpe militar. Quando consumado a queda do governo, somente o movimento estudantil, alguns sindicatos, alguma tropa do Rio Grande do Sul, pequenos setores da ala esquerda das forças armadas e os partidos comunistas clandestinos, rebelaram-se contra o golpe. O restante da nação aplaudiu e agradeceu aos militares por salvá-los do perigo vermelho.
Para justificar o golpe, passaram a chamar de revolução. Muitos dos que apoiaram a tomada do poder pelos militares, passada a euforia, nem bem se completava um mês, e já se arrependiam do equívoco histórico que ajudaram a criar, das trevas que haviam lançado a democracia do país. Surgiam os arrependidos da “revolução” de 1964.

Engodo aos Três Governadores Conspiradores

O dia 31 de março de 1964, terça-feira, terminara como um dia de imensa confusão histórica. Conspirado nos últimos três anos, o golpe que emanou das tropas mineiras, não contava com um apoio total das Forças Armadas. O governador de Minas Gerais Magalhães Pinto, nos últimos quinze dias de março percorreu todos os aeroportos do país, levando um documento para ser assinado por outros governadores, apoiando a deposição do presidente, foi ele quem deu apoio de base às tropas levantadas em seu estado. Da tríade de governadores conspiradores, Magalhães Pinto foi o único que se beneficiou do regime da ditadura militar. Banqueiro ambicioso, desmoralizado politicamente, o seu Banco Nacional foi à falência em 1986. Esta instituição financeira sobreviveria por mais dez anos, através de uma contabilidade fraudulenta, deixando um rombo de 10 bilhões de reais, quando liquidado, em 1996.
O governador da Guanabara, Carlos Lacerda, conhecido como o corvo, no dia 31 de março, armou-se no Palácio da Guanabara. Apesar de ser um dos mais ferrenhos opositores do governo federal, Lacerda não sabia com antecedência do movimento que descia de Minas Gerais, pois, assim como Magalhães Pinto, era potencial candidato à presidência da República, disputando uma indicação do seu partido. Era natural que Magalhães Pinto escondesse de Lacerda o movimento. Carlos Lacerda, em 1939, passou de fervoroso comunista a um inimigo implacável das esquerdas e das causas populares. Conhecido como corvo conspirador, conspirou contra Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart. Sua índole incendiária aspirava à presidência da República. Quando se apercebeu que o governo dos militares não se faria provisório, e manter-se-ia no poder por um longo tempo, rebelou-se, o que resultou nos seus direitos políticos cassados pelo governo militar. Em 1967, Carlos Lacerda, o maior inimigo do governo João Goulart, surpreendentemente, aliou-se ao presidente deposto e a Juscelino Kubitschek, formando a Frente Ampla, para assim, restituir as eleições diretas no país. A Frente Ampla foi sufocada pela repressão do regime. Quando morreu, em 1977, Carlos Lacerda era o maior arrependido dos apoiadores do golpe de estado de 1964.
Adhemar de Barros, governador de São Paulo, falso puritano, trajava-se de defensor da moral e dos bons costumes, cinicamente incentivava o bordão “Rouba, mas faz”. Também ele ambicionava a presidência do país. Ao sentir-se traído pelos militares, em março de 1966, exigiu a renúncia do presidente Castelo Branco, lançando um manifesto a exigir a restauração da democracia. O manifesto resultou na cassação do seu mandato, tendo os direitos políticos suspensos por 10 anos. Ameaçado de prisão, Adhemar de Barros, um dos maiores apoiadores do golpe de 1964, partiu para o exílio, a 7 de junho de 1966. Morreu em Paris, em 1969, deixando com a amante, a famosa “Caixinha do Adhemar”, um cofre com 2.600.000 dólares dentro, roubado à amante, após a sua morte, por guerrilheiros que resistiam ao regime militar, em 18 de julho de 1969.

Mulheres que Marcharam a Favor do Golpe

A Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que reuniu 1 milhão de pessoas na Candelária, Rio de Janeiro, no dia 2 de abril de 1964, recebeu os militares vindos de Minas Gerais, como heróis e salvadores. Esta marcha, que se passou a chamar a Marcha da Vitória, chancelou o golpe militar. Era a representação da família, da igreja, do povo brasileiro, que no ato se mostrava feliz e grato aos golpistas.
Diante do sucesso das marchas, no dia 13 de maio, pouco mais de um mês após o golpe de estado, aconteceu na sede dos Diários Associados, na rua 7 de Abril, no centro de São Paulo, uma cerimônia empreendida por Assis Chateaubriand, que lançava uma campanha nos jornais, rádios e tevês, chamada de Ouro para o Bem do Brasil. A campanha convencia o povo a ajudar o novo governo, com doações de ouro, através de alianças, anéis, pulseiras, colares e outros objetos. O Rotary Club aderiu à campanha, promovendo por várias cidades do Brasil a Semana Cívica do Ouro. O governador Adhemar de Barros doou o seu salário de 400.000 mil cruzeiros. A indústria automobilística doou veículos, empresários contribuíram com cheques, que chegaram a milhões. 100 mil pessoas doaram 400 quilos de ouro e meio bilhão de cruzeiros, em duas semanas. Quem fazia a doação, recebia uma aliança de latão com a inscrição: Doei ouro para o bem do Brasil. O valor real arrecadado jamais foi revelado, tampouco o destino que as jóias levaram.
Das mães que marcharam pelas ruas do Brasil, saudando o golpe militar, ou daquelas que doaram jóias para a construção de um Brasil livre do perigo vermelho, muitas foram as que, anos depois, saíram das suas casas à procura dos filhos desaparecidos e mortos, tragados pela repressão militar. Segundo dados estatísticos, a maioria dos jovens que se rebelaram contra a ditadura, eram oriundas de uma classe média abastada, que se beneficiara economicamente com o novo regime. Benefício que lhes custaram caro, o arrependimento eterno.

A Igreja Católica e Outras Religiões Arrependidas

Na marcha da candelária, no dia 2 de abril, o maior apoio do setor religioso veio da igreja católica, foram também convidados pelos organizadores do evento (entre eles CAMDE - Campanha da Mulher pela Democracia e o IBAD - Instituto Brasileiro de Ação Democrática), pastores, rabinos e umbandistas, que discursaram favoráveis ao golpe. Todos tiveram motivos de arrependimento futuro. A igreja católica, que saudou o golpe militar, viu padres torturados, desaparecidos ou mortos pelos ditadores. Padres que se revoltaram contra o regime, abraçaram, nos anos setenta, a Teologia da Libertação, oriunda dos anos cinqüenta. Dom Paulo Evaristo Arns, ex-cardeal de São Paulo, um defensor dos direitos humanos, foi um dos arrependidos do apoio ao golpe, cobrando transparência do regime militar e denunciado as suas torturas.
Em 1975, quando o jornalista Vladimir Herzog foi preso, torturado e morto pela ditadura militar, foi apresentado um laudo que constatava não tortura, mas suicídio a causa da sua morte. De acordo com a lei judaica, um suicida é enterrado na periferia do cemitério, como forma de condenar visivelmente o pecado cometido por aquele que destrói a própria vida. Herzog foi sepultado no centro do cemitério, o rabino Henry Sobel declarou categoricamente, à imprensa, que ele tinha sido sepultado com todas as honras que lhe eram devidas como judeu, como brasileiro, como ser humano. Com esta declaração, a comunidade judaica repudiava a versão de suicídio da ditadura militar, constrangendo-a, obrigando-a a reconhecer a tortura no Brasil, até então, veementemente negada. Alguns dias, depois da morte de Herzog, a pedido da família e do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo, foi realizado um culto ecumênico na Catedral da Sé, celebrado pelo cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, pelo reverendo Jaime Wright e pelo rabino Henry Sobel. As religiões que um dia se manifestaram favoráveis ao golpe militar, rebelavam-se a favor da volta da democracia, mais do que arrependidos de um dia ter confiado na entrega do poder aos militares.
Os grandes jornais, todos, com exceção do Última Hora, de Samuel Wainer, pediram a queda do governo de João Goulart e apoiaram o golpe militar. O preço que o jornal Última Hora pagou foi a depredação e incêndio da sua sede, além da perseguição política, que resultou no seu fim. A Folha de S. Paulo e o Estado de S. Paulo tiveram uma relação bem próxima com o núcleo conspirador do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES). Mais tarde, sofreriam com a censura, obrigando-os a substituir reportagens previamente censuradas por receitas culinárias e poemas de Luís e Camões. Jornalistas como Carlos Heitor Cony, ou o escritor Antonio Callado, apoiadores do golpe, já quinze dias depois dele ter acontecido, mudaram as suas opiniões, movidos por um arrependimento histórico que assolou toda a nação.
De 1964 a 1985, o Brasil colheu os frutos que resultaram do golpe de estado feito pelas forças militares. 21 anos de trevas e cerceamento cultural. Grande parte dos que apoiaram e saudaram o golpe, antes mesmo da ditadura militar findar, já se faziam arrependidos, conscientes do erro histórico pelo qual se deixaram levar. Assim como o equívoco cometido, esta é uma página da história do Brasil que já foi virada, mas que deixou cicatrizes indeléveis, muitas ainda não curadas.
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publicado por virtualia às 04:40
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