Sexta-feira, 26 de Dezembro de 2008

PRAGA 1968, FLORESCIMENTO E MORTE DE UMA PRIMAVERA


 

A Primavera de Praga floriu de janeiro a agosto de 1968, pulsou por oito meses. Utópica, ingênua, idealista, ela representou a semente da democracia dentro de um sistema rígido e fechado dos chamados países socialistas, direcionados pelo Kremlin. Ao contrário do que a dialética comunista pregava, uma “ditadura do proletário” para que se chegasse ao verdadeiro socialismo, os comunistas da pequena república da Tchecoslováquia propunham um “socialismo de rosto humano”, ou seja, a democracia como caminho para o verdadeiro socialismo.
A Primavera de Praga não propunha o fim do comunismo na Tchecoslováquia, mas a sua reforma, a mudança nas suas estruturas, o que não deixava de ser utópico, visto que o pequeno país fazia parte dos países do Pacto de Varsóvia, condição bem específica na época da Guerra Fria. Ingênuo era pensar em mudar o comunismo por dentro do país numa época que se dependia visceralmente que ele fosse mudado por fora. A Primavera de Praga não foi uma rebelião contra a política de Moscou, ou a manifestação de dissidentes comunistas, pelo contrário, todos os comunistas tchecoslovacos uniram-se para a melhora do comunismo, trazendo através de intelectuais e líderes políticos, experimentações de como esta mudança pudesse ser feita. Foram as experimentações que causaram medo aos países comunistas vizinhos, medo de que elas se alastrassem e obrigassem às reformas em todos os países da chamada cortina de ferro, e que o próprio império socialista e soviético não fosse sobreviver às mudanças.
A resposta aos experimentos dos comunistas da Tchecoslováquia veio na madrugada de 20 para 21 de agosto, quando 600 mil soldados e 7000 tanques dos países vizinhos a invadiram. Homens de fuzis nas mãos silenciaram a primavera, os tanques pisaram as suas flores, trazendo um inverno rigoroso e obscuro que iria durar 21 anos.

As Raízes da Primavera de Praga

Durante a Segunda Guerra Mundial (1939/1945), os países da Europa do leste foram invadidos pelos nazistas, perdendo a suas identidade e soberania como nação. Os anos da guerra e da invasão alemã trouxeram sofrimentos, fome e mortes às pessoas. Quando a Alemanha caiu, duas potências vieram em socorro dos oprimidos e invadidos: os ocidentais liderados pelos EUA e a Grã-Bretanha, e os comunistas liderados pela União Soviética. Enquanto os Estados Unidos e a Grã-Bretanha penetravam no norte da França, libertando-a, os soviéticos vinham do leste, libertando países como a Polônia, a Hungria, e todas as adjacências do Báltico e dos Bálcãs. Em 11 de fevereiro de 1945, os líderes dos governos dos aliados, Franklin Roosevelt, Winston Churchill e Josef Stalin, reúnem-se na estação balneária de Ialta, pequena cidade às margens do mar Negro, na Criméia. Com o objetivo de pôr fim à guerra, a Conferência de Ialta decidiria o rumo que o mundo teria, e como seria dividido. Após a guerra, o mundo ficou dividido entre dois blocos, um capitalista liderado pelos EUA, outro socialista, liderado pela URSS. Era o prelúdio da guerra fria, que seria a mais longa e silenciosa das guerras, só encerrada historicamente, em 1989.
Duas décadas após a divisão do mundo sob a influência de duas potências, o período de 1967 a 1968 gerou acontecimentos que abalariam as ideologias da Guerra Fria. A Guerra dos Seis Dias em Israel, mexera com os dois blocos, que assumiram lados opostos no conflito. A guerra do Vietnã causava grandes manifestações nos EUA. A China vivia o momento culminante da Revolução Cultural, que respingaria nas ideologias de esquerda por todo o planeta. 1968 foi um ano que marcou a Europa pela agitação estudantil, que se desencadeou pela Itália, pela então Alemanha Ocidental, culminando na França, com o Maio de 1968. O grande império soviético, com capital em Moscou, era comandado por Leonid Brejnev. Seu império estendia-se pela Hungria, Polônia, Tchecoslováquia, Romênia, Bulgária, Alemanha Oriental, os chamados países do Pacto de Varsóvia, que tinham autonomia, mas se guiavam pelas diretrizes da União Soviética. A Albânia e a Iugoslávia de Tito, apesar de seguirem regimes socialistas, mantinham-se independentes de Moscou.
Em 1967 uma crise política alastra-se pela Tchecoslováquia, desencadeada por intelectuais, centrada principalmente na União dos Escritores. Exigindo reformas, os intelectuais encontram eco dentro do Partido Comunista, na época liderado por Antonin Novotny, que estava no poder há uma década. A impopularidade de Novotny cresceu, levando à sua demissão em janeiro de 1968. Para substituí-lo foi escolhido Alexandre Dubcek, aquele que entraria para a história como quem possibilitou o “socialismo de rosto humano”, iniciando a Primavera de Praga.

O Florescer da Primavera

Alexandre Dubcek era eslovaco, ex-estudante da União Soviética, considerado homem de confiança de Brejnev, e foi com a aquiescência deste que ascendeu a Secretário-Geral do Partido Comunista da Tchecoslováquia, posto mais alto daquele país.
Dubcek, à frente de uma equipe de intelectuais e políticos liberais, promoveu um amplo programa de reformas, da agricultura a industria, reforçou a autonomia regional, traçando os esboços de uma nova Constituição. Dubcek não encontrou inspiração no “amigo” Brejnev, mas no reformismo de Nikita Kruchov.
De março a abril, Praga, a capital do pequeno país, floresceu em idéias e experimentos, que iam contra os princípios rígidos do império socialista comandado por Moscou. Neste período foram concedidos passaportes aos cidadãos, pela primeira vez um país do leste europeu permitia que o seu cidadão visitasse um país capitalista, fora das fronteiras da cortina de ferro. O poder dos funcionários stalinistas foi diminuído, nascia a idéia do sufrágio secreto. Experimentava-se o fim da censura, o que possibilitava a um país do pacto de Varsóvia poder assistir na televisão, os assassínios de Martin Luther King e Robert Kennedy, os estudantes em Paris comandados por Daniel Cohn-Bendit. Foram reabilitadas as vítimas das purgas do passado.
As experiências continuavam, trazendo o direito à greve, as organizações cívicas, os sindicatos, os mecanismos experimentais de uma economia de mercado, rebentava a iniciativa privada. Os limites que um governo socialista, de essência comunista, podia ir, eram todos arriscados.
A União Soviética e os seus aliados, os países vizinhos da Tchecoslováquia, começaram a ver as experimentações do governo de Dubcek como uma grande ameaça, temendo que elas se alastrassem por suas fronteiras. Moscou fez várias advertências a Dubcek, exigindo que ele parasse imediatamente com as reformas, chamando-as de inimigas do socialismo. O líder eslovaco ignorou as advertências, pois não se via traindo a ideologia comunista. Às reformas democráticas, Dubcek continuava a dizer ingenuamente, que eram o genuíno sentido do socialismo. Ainda mais ingênuo era não temer às reações do Kremlin, perfeitamente compreensível, pois o que se passava naquele pequeno país não era uma dissidência, uma revolta contra o regime, para que temer reações arbitrárias vindas de Moscou se, apesar das reformas internas, todos continuavam socialistas?
Mas Brejnev e os seus aliados não viam com esta ingenuidade a onda libertadora e liberal que invadia a Tchecoslováquia. O exemplo de Praga era pior do que uma dissidência, porque ele mexia pacificamente na política e em todo o sistema do grande império socialista. No auge do verão de 1968, às 23 horas do dia 20 de agosto, as forças armadas dos países do Pacto de Varsóvia, invadiram a Tchecoslováquia, levando presos para Moscou toda liderança comunista do país, pondo fim aos oito meses de experimentações que passaram para a história como a Primavera de Praga.

A Noite em Que a Primavera Morreu

Uma invasão à Tchecoslováquia era um assunto delicado para o líder soviético. O mundo ainda tinha na memória a invasão da União Soviética a Budapeste, em 1956, que resultara na morte de 20 mil pessoas. Ao contrário da imensa rebelião que se sucedera em Budapeste, na Tchecoslováquia as reformas eram pacíficas, e todos os habitantes viam o regime de Moscou como amigo e aliado, não o contestando. Era a primeira vez na história moderna que países interviam militarmente em um país amigo, que vivia uma euforia pacífica. Brejnev viu-se pressionado pelos países do Pacto de Varsóvia a intervir nos assuntos do país de Dubcek. Antes de concretizar a invasão, ele telefonou para o presidente norte-americano Lyndon Johnson, para ter a certeza de que os EUA e os países capitalistas não iriam interferir, perguntando-lhe se o acordo de Ialta ainda era válido, questionamento ao qual Johnson respondeu que sim, que a Tchecoslováquia fazia parte do lado soviético da guerra fria, sendo um problema do Kremlin. Dado o aval americano, iniciou-se a invasão.
Os tchecos e os eslovacos viram com surpresa, a chegada de 600 mil soldados estrangeiros, trazidos por aviões e 7000 tanques. Quando refeita do impacto de ver a invasão, a população saiu às ruas, em protesto, tentando atrapalhar os passos dos soldados e dos tanques. Naquele dia o país tornou-se uno, como nunca fora antes e jamais seria depois. Muitos foram para as ruas a vaiar os soldados, a tentar barrá-los, empunhando apenas a bandeira do país. Tudo em vão. A força dos tanques era mais conclusiva. Ao povo restou balbuciar entre os lábios: “O big brother mandou os tanques”.
Dubcek, levado preso para Moscou, era obrigado a pedir pelas rádios, a submissão aos invasores, para que se evitasse um banho de sangue. O ocidente, tendo a garantia do presidente Lyndon Johnson, não iria intervir. A população que ousara fazer as mudanças naqueles oito meses, estava sozinha, isolada entre os tanques, na incerteza do que lhes aconteceria. Eram espalhados boatos de que a Tchecoslováquia seria anexada à União Soviética, como acontecera com a Letônia, a Estônia e a Lituânia. O sonho da Primavera de Praga estava definitivamente encerrado. Quando o país acordou na manhã seguinte à invasão, encontrou não a utopia, mas a força bruta de um sistema que, apesar de corroído nos alicerces, levaria ainda duas décadas para ruir.

Um Longo Inverno Após a Primavera

Depois de preso e humilhado, Alexandre Dubcek foi destituído, sendo substituído por Gustav Husak, que se manteria no poder até 1989, quando a Revolução de Veludo derrubaria de vez o regime socialista. Com o fim da Primavera de Praga, a população foi forçada a assinar um documento que a obrigava a concordar com a invasão, legitimando a presença das tropas estrangeiras no país. Quem se recusava a assinar o documento, tinha a vida prejudicada para sempre.
A Tchecoslováquia mergulharia em um regime autoritário, que resultaria no surgimento de vários dissidentes. Uma das características da Primavera de Praga é que ela não tinha sido feita contra os comunistas ou contra o comunismo. Também não foi feita por dissidentes ou por simpatizantes da direita, depois dela, o regime dos comunistas foi marcado por um grande número de dissidentes, que eram os socialistas de antes, transformados em desencantados comunistas, que passaram a odiar amargamente o regime socialista e as diretrizes do Kremlin.
Em 1970 Alexandre Dubcek e 500 mil comunistas foram expulsos do partido. Ao antigo secretário-geral só foi permitido exercer a profissão de guarda florestal. Começava a limpeza cultural, que entre torpes arbitrariedades, proibiria jornais e revistas culturais e destruiria as faculdades de arte. Jornalistas, escritores e acadêmicos tinham os seus trabalhos proibidos, sendo postos a limpar caldeiras, dirigir tratores ou a limpar parques públicos. Muitos intelectuais fugiram do país, como foi o caso do escritor Milan Kundera, que partiu com o livro “A Insustentável Leveza do Ser” debaixo do braço e nunca mais voltou, ou ainda o fotógrafo Josef Koudelka (a quem pertence todas as fotografias apresentadas neste artigo), que partiria para o exílio em 1969 e só voltaria ao país em 1991.

Jan Palach, Uma Tocha Humana nas Cinzas da Primavera

Logo depois que se sucedeu, a invasão da Tchecoslováquia causou grandes protestos pelo mundo, mas logo foi esquecida por todos. A partir de setembro de 1968, a Primavera de Praga dava passagem para um inverno de 21 anos, com um governo repressivo e fielmente apresentado às lentes controladoras de Moscou.
Em janeiro de 1969 o estudante Jan Palach, que juntamente com vários colegas, tinha estado em Moscou a protestar contra os abusos do sistema, perdera as ilusões de que a primavera política voltasse a florir em seu país. Inconformado, escreveu cartas ao regime, caminhou até a Praça Wenceslau, em Praga, regou o corpo com gasolina e acendeu o fogo, imolando-se em protesto ao fim da Primavera de Praga. Jan Palach, aos vinte anos, ardeu à beira das flores de uma estátua.
O funeral de Jan Palach reuniu cerca de 200 mil pessoas. Após o enterro, o local da sua lápide tornou-se motivo de veneração. Para evitar que se transformasse em mártir, a polícia secreta do país, em 1973, desenterrou e exumou os seus restos mortais, cremando-o e mandando as cinzas numa urna para a sua mãe, em Vsetaty, terra natal do estudante. A mãe de Jan Palach ficou proibida de sepultar a urna no cemitério da cidade até 1974. Em 1990, a urna com as cinzas de Jan Palach, voltou oficialmente para o local de origem. Jan Palach tornou-se o “rosto do socialismo humano”, a sua morte foi o último suspiro da Primavera de Praga.

O Fim da Nação da Primavera

Quando Mikhail Gorbatchov promoveu, nos anos 80, a Perestroika, confessou que teve grande inspiração nos princípios da Primavera de Praga. 21 anos depois da invasão que pusera fim à Primavera, em 1989, caía o muro de Berlim, símbolo oficial da divisão das nações em dois sistemas, sustentados pela União Soviética e pelos EUA. A queda do muro pôs fim à guerra fria, anunciando o declínio e fim do império socialista.
Também em 1989, aconteceria na Tchecoslováquia Revolução de Veludo, que poria fim ao longo período de inverno político e cultural pelo qual passara o país.
40 anos depois da Primavera de Praga, devemos lembrá-la como um embrião utópico de democracia dentro dos países da cortina de ferro. Os países do leste europeu passaram por grandes transformações e sofrimentos no decorrer do século XX. Primeiro vieram os nazistas, que invadiram, dominaram, mataram, mutilaram. Depois os soviéticos surgiram como salvadores, foram eles que libertaram a Tchecoslováquia do julgo de Hitler, motivo que levou os utópicos condutores da Primavera de Praga a considerá-los amigos. Esqueceram que o preço cobrado tinha sido a imposição do regime socialista comandado por Moscou.
O propósito da Primavera de Praga era impossível de ser alcançado, visto que uma reforma profunda no velho sistema socialista criado em cima das dialéticas marxista-leninistas, com toda a sua evolução para estados totalitaristas, significaria o seu próprio fim. Foi o que aconteceu quando Gorbatchov promoveu as reformas vislumbradas pelo governo de Dubcek, quando elas floresceram, derrubaram o grande império, como um efeito dominó, caíram um a um todos os governos comunistas dos países do Pacto de Varsóvia. A própria Tchecoslováquia deixou de existir. Em 1992 um plebiscito decidiu pela divisão do país, ao primeiro minuto de 1993 nasciam a República Tcheca e a Eslováquia. Praga é hoje a capital dos tchecos. Da sua primavera restou o rosto de Jan Palach, as bases para que o próprio país, criado pela imposição do velho sistema comunista, ruísse um dia, deixando de existir.
 
 

 

Veja também:

 

1968, O ANO DE TODOS OS GRITOS: http://virtualia.blogs.sapo.pt/15485.html

PARIS, MAIO DE 1968: http://virtualia.blogs.sapo.pt/16286.html

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publicado por virtualia às 20:38
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