Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2008

O ENCANTO DE GAL COSTA NA VIRADA CULTURAL

 

 

Em 2005, São Paulo ganhou um grande presente, a Virada Cultural, que consiste em 24 horas seguidas de eventos culturais (shows de música, pirotécnicos, teatro, dança e muitas outras atrações), que acontecem por toda a cidade, transformando-a em uma grande atração cultural. Sua primeira realização foi de 19 a 20 de novembro daquele ano. O evento foi tão bem sucedido, que passou a ser tradição na cidade de São Paulo. Inspirada nas noites brancas européias, a Virada Cultural assumiu características tipicamente paulistanas e se tornou uma das maiores movimentações culturais do mundo. A Virada Cultural é uma iniciativa da Prefeitura de São Paulo, realizada pela Secretaria Municipal de Cultura, com o apoio da SPTuris, Sesc e Secretaria de Estado da Cultura. Tornou-se uma confraternização pacífica do paulistano, com exceção dos incidentes acontecidos na Praça da Sé, em 2007, que resultou em brigas e depredações de algumas lojas. Este ano, a Virada Cultural, na sua quarta edição, aconteceu de 26 a 27 de abril. A sua maior atração foi o show “Voz e Violão”, da cantora Gal Costa, acompanhada pelo violão de Luiz Meira. Um show intimista, em palco montado na Praça Júlio de Mesquita, na esquina com a Avenida São João, que comoveu os paulistanos. É da sensação causada pelo show, pela embriaguez da voz de sereia de Gal Costa, que faço o relato abaixo.

Gal Costa na Avenida São João, por Jeocaz Lee-Meddi

Quando cheguei à Avenida São João, vi um ambiente morno depois de um show da excelente cantora caboverdiana Cesária Évora. Temi pela segurança, pois o centro de São Paulo foi vítima do vandalismo de baderneiros no último show da Virada Cultural, em 2007. Temi por Gal Costa. Já a tinha visto em um show do gênero, no Ibirapuera, em um domingo de novembro de 2005, mas nunca na convulsão do centrão de São Paulo à noite.
Desde agosto do ano passado, quando deixei São Paulo para em Goiânia, com mais tranqüilidade, escrever o meu novo livro, que não via a cidade e trocávamos cumplicidades. Lembrei-me do ano de 1998, estava na cidade do Porto, em Portugal, quando Gal Costa iria com o seu show “Acústico”, fechar a Expo’98, grande evento cultural, o último do século XX na Europa. Não poderia deixar de ver Gal Costa. Para meu desespero, não consegui viajar em nenhum trem rápido do Porto a Lisboa, pois, devido ao encerramento da Expor, estavam lotados. Tive que me contentar em ir num trem que parava de aldeia em aldeia, fazendo uma viagem de quatro horas durar quase nove. Era outubro, de um outono frio do hemisfério norte. Cheguei à Expor, estava insuportável, abarrotada de gente. Debaixo de chuva assisti ao show de Gal Costa. Linda! Pensei comigo, é última vez que faço tanto sacrifício para ver um show de Gal Costa. Mero engano, neste fim de semana, vi-me a fazer exatos 900 quilômetros, de Goiânia a São Paulo, para mais uma vez, ver Gal Costa. Já tinha saudades de vê-la no palco. Saudades de uma vida, eternas, pois acompanho os seus shows desde os meus 16 anos. Aqui, na Europa, em qualquer lugar.
Cansado da viagem, encontrei-me com alguns amigos jornalistas e com amigos aqui da comunidade. Ansioso, não via a hora de começar o show. Pensei, que loucura, andar tanto para ver um show de voz e violão que até já vi. 21 horas da noite paulistana e ainda estava tudo calmo. Gal Costa chegou ao palco. Chegou toda de branco, jovial, alegre, como uma menina de 62 anos, a mostrar para nós o seu novo corte de cabelo. Parecia uma criança, como se a perguntar para o seu público: “Gostaram?” Se gostei. Via nela um brilho nos olhos que me acostumei a ver desde o primeiro show “Gal Tropical”. Pensei, esta é a minha Gal, está de volta. Mas me contive, era apenas o começo, ela apenas dizia feliz: “Eu Vim da Bahia” (Gilberto Gil). E que presente a Bahia dava para São Paulo!
Gal Costa estava segura, à vontade com o público paulistano, conforme comentamos, eu e os meus amigos. Parecia feliz de estar homenageando Sampa. E o público correspondia ao carinho da cantora. Quando olhei para o lado não acreditei, a praça Júlio de Mesquita estava repleta, a Avenida São João, coração pulsante do centro velho da cidade, estava radiante, brilhava ao som de Gal Costa.
Gal Costa deslumbrava, conduzia a platéia, fazia vibrar os fãs e uma juventude que nem sabia que gostava dela, mas que soube cantar várias das suas músicas, já que sempre estiveram impregnadas na história da MPB e na mente do brasileiro. Vê-la sensual cantar “Folhetim” (Chico Buarque) e, travestis e michês a cantar, dançar ao som da música, na Avenida São João, criava uma imagem que ia do underground ao mais belo poema que, deslumbrava a retina do paulistano. Cenas dignas de Almodóvar! Coisas de São Paulo, ali tão bem embalada na voz e na sensualidade da cantora. Ao fim de interpretar “Folhetim”, ela, menina-senhora, mulher-moleca, dizia:
A gente está aqui falando de Virada. E eu cortei o meu cabelo, o que é uma virada que a gente dá para a gente mesmo e para as outras pessoas. Hoje é uma noite de virada!"
E quem era fã, percebia o que ela dizia. Sim, ali, ao declarar o seu amor por São Paulo, Gal Costa estava disposta a dar uma virada, era uma promessa aos fãs, e feita na segurança dos seus olhos, na alegria contagiante do seu sorriso, da força da sua voz. Sensual, quase erótica, ela interpretou “Você Não Entende Nada” (Caetano Veloso), quase a levar ao delírio com a sua malícia nos gestos, nas mãos em volta da madrepérola da sua essência. Gal Costa voltava a ser fatal! A despertar o imaginário erótico dos que voltaram a desejar àquela mulher.
Divino, Maravilhoso” (Gilberto Gil – Caetano Veloso) teve o luxuoso coro das pessoas da janela dos seus prédios. “Chega de Saudade” (Vinícius de Moraes – Tom Jobim) parou a São João, que a esta altura, tinha gente cantando até em cima das árvores. Os meus amigos jornalistas, que eram mornos em relação a Gal Costa, tornaram-se de repente, ardorosos fãs, tamanho era o imã que emanava daquela mulher, sugando-nos como se fosse um zoom.
Ver Gal Costa cantar “Vapor Barato” (Jards Macalé – Wally Salomão) é uma emoção renovada a cada show que ela nos brinda com esta interpretação. A emoção mais uma vez atinge um clímax. Os floreados que a cantora dava às interpretações das músicas arrematavam e conduziam o público, como se o hipnotizasse com a sua voz de sereia, tão embriagantes, que não nos apercebíamos que só um violão acompanhava o repertório.
Meu Bem, Meu Mal” (Caetano Veloso), “Azul” (Djavan), “Samba do Grande Amor” (Chico Buarque), “London, London” (Caetano Veloso), “Vatapá” (Dorival Caymmi), “Wave” (Tom Jobim), “Baby” (Caetano Veloso), “Aquarela do Brasil” (Ary Barroso), de Caetano Veloso a Tom Jobim, de Djavan a Chico Buarque, de Wally Salomão a Ary Barroso, Gal Costa continuava plural. Encerrou o show com “Aquarela do Brasil”, mas voltou com os gritos que ansiavam pelo bis. E que bis. Voltou com “Trem das Onze”, do mais paulistano dos compositores, Adoniran Barbosa. Terminou apoteótica com “Sampa” (Caetano Veloso), emocionando quem estava ali, na Avenida São João, quase na esquina com a Ipiranga. Quando o show acabou, olhei para o lado. Estaria a perder a noção crítica? Tinha sido embriagado? Mas os que estavam do meu lado e as críticas da imprensa no dia seguinte, tranqüilizaram-me, não era delírio de fã confesso, apaixonado por Gal Costa, era a emoção mais cristalina que faz desta mulher quem é! Mais do que um simples “Voz e Violão”, Gal Costa deixou nítido que estava a iniciar uma nova fase da sua carreira. Bem-vinda Gal Costa! Valeu a pena os 900 quilômetros percorridos!
 
publicado por virtualia às 22:57
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