Sexta-feira, 5 de Dezembro de 2008

TEMPORADA DE VERÃO - AO VIVO NA BAHIA: TRÊS VOZES DO BRASIL

 

 

A Tropicália estava no seu auge, quando foi interrompida, em dezembro de 1968, pela prisão de Gilberto Gil e Caetano Veloso, depois exilados em Londres. Na época o movimento caminhava para uma fase psicodélica, cada vez mais voltada para o rock, como refletiu o álbum “Gal”, de Gal Costa, de1969. O exílio duraria de 1969 a 1972, quando primeiro retornou Caetano Veloso, depois Gilberto Gil. Havia uma imensa expectativa do público, dos críticos e dos curiosos, para uma possível retomada da Tropicália. Mas os tempos eram outros, e as carreiras do trio tropicalista tinham passado por várias fases.
A grande expectativa era ver novamente Gal Costa, Caetano Veloso e Gilberto Gil juntos em um mesmo palco, que à exceção de uma apresentação de improviso, fora da programação, no festival da ilha de Wight, na Inglaterra, em 1970, e do grande evento do “Phono 73”, não acontecia desde os tumultuados idos de 1968. Quando voltaram do exílio, Gilberto Gil fez shows com Gal Costa e com Caetano Veloso, que por sua vez fez shows com Chico Buarque, além de um encontro histórico com João Gilberto e Gal Costa, em um programa de televisão que se deu pouco antes da volta de Londres, em 1971. Esta expectativa de ver os três juntos foi vislumbrada quando, em janeiro e fevereiro de 1974, foi gravada uma seqüência de shows individuais dos três cantores, em datas diferentes, feitas em um mesmo palco, no auge do verão, no Teatro Vila Velha, em Salvador, que se transformaria no álbum "Temporada de Verão – Ao Vivo na Bahia".
Temporada de Verão” é um registro à parte na carreira de Gal Costa, Gilberto Gil e Caetano Veloso, pois longe da psicodelia final do Tropicalismo, inaugura uma nova fase nas carreiras dos cantores, principalmente nas carreiras de Gal Costa e Caetano Veloso. Traz nove faixas, com interpretações únicas e definitivas na carreira de cada um. É um disco que reflete um momento de expectativa, que decepciona não pelo conteúdo, mas por não haver um encontro entre os três em nenhum momento do registro dos shows, também não há duos, são interpretações solitárias, de shows individuais, mas que se interligam, formando um conceito de disco próprio para a época. Gal Costa participa de duas faixas, Caetano Veloso de três e Gilberto Gil é contemplado com quatro faixas. “Temporada de Verão” em momento algum traz o saudosismo da época tropicalista dos cantores, mas consolida as carreiras que atingiriam o ápice nas próximas décadas, aqui com um gosto jovial de quem ainda não tinha dez anos de estrada, mas que já deixara marcas indeléveis na história da MPB.

Ao Vivo, Em Pleno Verão na Bahia

No verão de 1974, o Brasil ainda se recuperava do rescaldo que deixara o furacão Secos e Molhados, banda que, com a sua proposta irreverente vendera 800 mil cópias no álbum de estréia, feito que à época, era exclusividade de Roberto Carlos. Antes de o ano chegar ao fim, outra surpresa aconteceria no cenário musical brasileiro, o lançamento do álbum “Gita”, de Raul Seixas, que venderia 600 mil cópias.
É no meio desse turbilhão pelo qual passa a MPB, que surge o “Temporada de Verão”, de Caetano Veloso, Gal Costa e Gilberto Gil, álbum lançado em abril de 1974, gravado em Salvador, no Teatro Vila Velha, de janeiro a fevereiro daquele ano, com produção de Perinho Albuquerque e Guilherme Araújo. O álbum teve faixas gravadas na casa de Caetano Veloso, por não ter ficado tecnicamente boas na gravação ao vivo no Teatro Vila Velha. Para não perder a atmosfera do ao vivo, nessas faixas foi usado o som dos aplausos no final.
O álbum traz uma capa belíssima, com um horizonte laranja sob o mar, indicando um verão quente, no meio do horizonte, a cobrir o sol, surgem os rostos opostos de Caetano Veloso e Gilberto Gil, no meio do rosto dos dois, surge em três tiras de fotografias verticais, o rosto de Gal Costa, como o centro daquele sol. Na contra-capa, um texto sucinto de Guilherme Araújo revela o que é aquele álbum histórico:
Mais uma vez, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa juntos, como sempre, para deleite de seus inúmeros fãs e admiradores queridos, gravados ao vivo, na Bahia, no Teatro Vila Velha, no período de 10 de janeiro a 22 de fevereiro de 1974.”

Três Faixas com Caetano Veloso

Caetano Veloso vinha de um retumbante fracasso, o álbum “Araçá Azul”, lançado em 1973, considerado excessivamente experimental, tinha sido devolvido por várias lojas e tirado de catálogo. Só nos anos oitenta o álbum seria redimido e relançado. Esta fase da carreira do cantor transitava entre o que fora a época da Tropicália e a época do exílio, que resultara em grande produção de canções escritas em língua inglesa, refletidas nos álbuns “Caetano Veloso” (1971) e “Transa” (1972). Ainda não se conseguia ver qual o caminho que um dos inventores da Tropicália seguiria. A resposta viria neste disco.
Com a genial “De Noite na Cama” (Caetano Veloso), Caetano Veloso inicia a sua intervenção no álbum (é a segunda faixa do disco), canção já gravada por Erasmo Carlos, e que seria um grande sucesso na voz de Marisa Monte nos anos noventa. Com esta música, ressurge um Caetano Veloso despido da melancolia dos fogs londrinos (apesar da canção ter sido feita em Londres), pronto para retomar a sua carreira no Brasil não como experimental, mas definitiva. A música é agradável, sensual, existencial, jovial, mostra um compositor em sua essência, irreverente, apaixonado e apaixonante.
O Conteúdo” (Caetano Veloso) é a segunda intervenção de Caetano Veloso no álbum. A canção traz um ritmo que lembra as músicas de Jorge Ben, aqui homenageado, juntamente com outros dois Jorges (Mautner e Salomão). Alude à profecia que um vidente baiano tinha feito: que o autor morreria em 1975. Reflexiva, misto de existencialismo com a ironia do desbunde, em que tudo se pensa, mas nada se conclui. Caetano Veloso voltaria a fazer algo parecido em “Ele me Deu Um Beijo na Boca”, do álbum “Cores, Nomes” (1982). Os versos abaixo, traduzem a essência da canção:

Tudo vai bem, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo
E o divino conteúdo
A íris do olho de Deus tem muitos arcos


Felicidade” (Lupicínio Rodrigues), encerra a intervenção de Caetano Veloso, e também o disco (é a última faixa do álbum). Belíssima canção, é a surpresa do disco, torna-se um grande sucesso radiofônico, trazendo a voz do cantor de volta às rádios do país. Com duração de mais de seis minutos (6:29), era impossível prever a sua execução pelas rádios. Triste, poética, melancólica, a música às vezes parece que se irá transformar na clássica “Luar do Sertão” de Catulo da Paixão Cearense, numa intervenção incidental. Esta canção parece conciliar Caetano Veloso com o público brasileiro, saudoso do autor de “Alegria, Alegria”. Finalmente ele parece ter chegado ao Brasil, iniciando uma nova fase após a findada em “Transa” e a incompreendida em “Araçá Azul”.

Gilberto Gil, a Apoteose do Show

Gilberto Gil vinha de um grande sucesso em 1973, a canção do lado B de um compacto, “Xodó (Eu Só Quero Um Xodó)", de Dominguinhos e Anastácia. Um sucesso popular que o cantor não tinha desde “Aquele Abraço”, canção de 1969, hino da sua despedida quando rumou para o exílio. O movimento estudantil voltara a tomar fôlego em 1973, e com ele o endurecimento da ditadura, que resultou nas mortes por tortura, do presidente da UNE Honestino Guimarães e do estudante de geologia da USP Alexandre Vanucchi Leme (o Minhoca). Os estudantes convidaram Gilberto Gil para um show na Politécnica. O show que teria 30 minutos, durou 3 horas, e Gil apresentou a sua nova canção de protesto feita em parceria com Chico Buarque “Cálice”. Esta canção foi proibida pela ditadura militar e Gilberto Gil e Chico Buarque não a puderam cantar no evento “Phono 73”, festival promovido pela Polygram. É desse ano tumultuado que Gilberto Gil chega ao verão de 1974. Suas intervenções ao lado dos estudantes são claramente refletidas no show e no álbum “Temporada de Verão”.
Terremoto” (Paulo César Pinheiro – João Donato), inicia a intervenção espetacular, alegre, jovial e bicho grilo de Gilberto Gil. O cantor só entra a partir da quarta faixa, seguindo consecutivamente até a sétima faixa. Como o título sugere, Gilberto Gil entra como um terremoto, apagando as intervenções contidas de Gal Costa e Caetano Veloso. Após o exílio, a barra pesada que se vivia no país, aqui o cantor avisava, que diante da confusão dos tempos, por onde que andasse, deveria trazer os pés no chão.
O Relógio Quebrou” (Jorge Mautner), segue o aviso que o cantor dera no início. Divertida, interpretada por um Gilberto Gil cáustico, enérgico, que mostra os ratos nos porões das nossas mentes enquanto ela é silenciada pelo sistema, pelo mundo à nossa volta, preso nos ponteiros de um relógio quebrado, numa época da história em que não se sabe se a meia-noite era o meio-dia da existência. Gilberto Gil termina a canção perguntando para a platéia “Sacou o meu recado?”.
O Sonho Acabou” (Gilberto Gil) começa com Gilberto Gil assoviando “Carinhoso” e a chamar pelo nome de Pixinguinha, que naquele verão completava um ano de sua morte, e pelo nome de Clementina de Jesus. A música foi inspirada no que o cantor viu no mítico festival de Glastonbury, no interior da Inglaterra, feito na concepção esotérica para ser o festival dos festivais da era de aquário. Entre uma pirâmide, três palcos e gurus, por lá passaram todos os grupos alternativos, regados de ácidos lisérgicos. Para Gilberto Gil, ao ver o festival findar, as barracas desmontadas, era a certeza de que a frase de John Lennon “The dream is over”, da música “God”, fazia sentido, encerrando o fascínio do psicodelismo. A canção, ao contrário do que sugere o título, não é saudosista ou triste, é alegre, bicho grilo, quase que a fugir para um pseudo-psicodelismo.
Cantiga do Sapo” (Jackson do Pandeiro – Buco do Pandeiro) encerra a intervenção de Gilberto Gil, numa apoteótica interação com o público. É uma canção alegre, divertida, bucólica, que se intercala com “O Sonho Acabou”. Incisiva, alegre, a trazer uma dúbia interpretação entre o sistema vigente e a ideologia flower power, a intervenção de Gilberto Gil chega ao fim de uma forma contundente, mas com uma leveza que só um poeta como o cantor sabia galgar diante de um verão lacerante, sob uma ditadura militar.

Gal Costa, Nova Fase em Duas Canções Perenes

Gal Costa chegava em 1974, despida totalmente da imagem do auge do desbunde, quando fora eleita a sua musa. A cantora vinha do bem sucedido show “Índia”, com o qual excursionara por umas 40 cidades brasileiras e resultara em um álbum do mesmo nome. O show trazia uma atmosfera folk-glitter, a distanciar-se do sucesso de “Gal a Todo Vapor”, de 1971-72. O dueto que fizera com Maria Bethânia “Oração de Mãe Menininha”, de Dorival Caymmi, na apresentação do “Phono 73”, tornara-se um grande sucesso radiofônico.
No show do Teatro Vila Velha, Gal Costa começava a sua intervenção com a música “O Dengo que a Nega Tem”, de Dorival Caymmi, e terminava com a inédita “Flor do Cerrado”, que Caetano Veloso fizera para ela. Nenhuma das interpretações da cantora destas músicas foram registradas no álbum “Temporada de Verão”. A omissão de “Flor do Cerrado” compreende-se, pois foi guardada para o álbum que Gal Costa lançaria em maio daquele ano. Mas a subtração de “O Dengo Que a Nega Tem” é imperdoável. No álbum a cantora teria apenas duas músicas registradas.
Quem Nasceu” (Péricles R. Cavalcanti), é a canção escolhida para abrir o álbum, que se inicia com uma voz feminina. A canção nos traz uma Gal Costa já com uma interpretação contida, cool, que se refletiria no seu próximo álbum, o “Cantar”. A canção é doce, como a voz da cantora, que aqui é quase transformada em um templo colorido, traz um existencialismo com resquícios da filosofia dos hippies e da geração flower power, que busca a sua mística nas metáforas da natureza:

O sol nasceu, a lua nasceu
O dia nasceu, o sol nasceu
É tudo figura
É tudo mentira
Quem nasceu fui eu
Quem nasceu foi você
E a gente não sabe bem como
E nem sabe por que”

Acontece” (Cartola), é a segunda e última intervenção de Gal Costa no álbum “Temporada de Verão”. Um feliz encontro da cantora com o mestre Cartola. Todas às vezes que Gal Costa visitou o repertório deste compositor (“Cordas de Aço”, “As Rosas Não Falam”), produziu grandes obras-primas na sua carreira. “Acontece” é uma música melancólica, que traz a face final do amor, o triste reflexo de quando uma das partes já não tem paixão, quando o coração gela e já não há como fazê-lo renascer para o sentimento esgotado. A interpretação cool de Gal Costa acentua a melancolia de se esquecer da paixão pela estrada, e a dor de quem é esquecido. Com a gravação bem sucedida desta música por Gal Costa, o Brasil ganhou dois presentes: a belíssima interpretação da cantora e o primeiro disco gravado por Cartola, aos 65 anos de idade. O álbum “Cartola”, de 1974, produzido por Marcus Pereira, foi possível a partir desta redescoberta do mestre naquele verão da Bahia.
A forma considerada cool, de Gal Costa cantar a partir deste álbum, desagradaria totalmente aos que estavam acostumados com a fase visceral de “Fa-tal – Gal a Todo Vapor”, ou ainda com o folk-glitter de “Índia”. Aqui Gal Costa inaugura claramente uma nova fase, resgatando o que tinha sido proposto em “Domingo” (1967) e concretizado em “Cantar” (1974). O que parece cool é apenas o conter da leoa libertada em “Gal” (1969), a cantora torna-se mais intimista nos agudos, mas acende um lirismo mais doce, mais quente na voz de agudos domados, mas jamais esquecidos.
Temporada de Verão”, visto à luz de muitos verões que se passaram desde que foi lançado, é um álbum fundamental na carreira de Gal Costa, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Deixou-nos órfãos dos duetos que se esperava dele, mas registrou uma proposta de carreira que os cantores iriam seguir por algum tempo, até novas rupturas. Ele foi o embrião para a realização do refulgente “Doces Bárbaros”, de 1976, que acrescentaria Maria Bethânia ao trio, e presentear-nos-ia com duetos inesquecíveis, concretizando o que foi apenas sugerido no álbum de 1974.

Ficha Técnica:

Temporada de Verão - ao vivo na Bahia
Polygram
1974

Direção de produção: Guilherme Araújo e Perinho Albuquerque
Direção de estúdio: Perinho Albuquerque
Técnicos de gravação: Val Aliperti (ass. técnica)
Estúdio: Gravado ao vivo na Bahia
Arranjos: Gilberto Gil e Perinho Albuquerque
Corte: Joaquim Figueira
Capa: José Roberto Aguilar
Fotos: Tereza Eugênia

Gravado ao vivo na Bahia, Teatro Vila Velha, em janeiro e fevereiro de 1974


Caetano Veloso – Gal Costa – Gilberto Gil – Temporada de Verão - ao vivo na Bahia

1 - Quem nasceu
(Péricles R. Cavalcanti)
Interpretação: Gal Costa
2 - De noite na cama
(Caetano Veloso)
Interpretação: Caetano Veloso
3 - O conteúdo
(Caetano Veloso)
Interpretação: Caetano Veloso
4 - Terremoto
(Paulo César Pinheiro - João Donato)
Interpretação: Gilberto Gil
5 - O relógio quebrou
(Jorge Mautner)
Interpretação: Gilberto Gil
6 - O sonho acabou
(Gilberto Gil)
Interpretação: Gilberto Gil
7 - Cantiga do sapo
(Buco do Pandeiro - Jackson do Pandeiro)
Interpretação: Gilberto Gil
8 - Acontece
(Cartola)
Interpretação: Gal Costa
9 - Felicidade (Felicidade foi embora)
(Lupicínio Rodrigues)
Interpretação: Caetano Veloso

 
publicado por virtualia às 15:32
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