Terça-feira, 25 de Novembro de 2008

TRÊS CORES: AZUL - BRANCO - VERMELHO


 

Um dos momentos mais sublimes do cinema dos anos noventa e de toda a história do cinema, é a trilogia Três Cores: Azul, Branco e Vermelho, de Krzysztof Kieslowski. A idéia nasceu da vontade do realizador polonês homenagear a França, inspirou-se nas cores da bandeira daquele país e nos princípios da Revolução Francesa: liberdade (Azul), igualdade (Branco) e fraternidade (Vermelho). A partir desta idéia, mergulhamos no cinema intimista, repleto de simbolismos psicológicos e de imagens que é o universo de Kieslowski. Numa belíssima fotografia que joga com as cores retratadas, este universo é o próprio íntimo inatingível de cada personagem. A imagem revela a personalidade que cada um esconde. O acaso é menor do que o destino, que se vai tecendo até o ponto de cada um cumprir o seu, independente de se querer ou não vivê-lo.
Azul” (1993), “Branco” (1994) e “Vermelho” (1994), para além dos enredos particulares a cada um, trazem entre si, um fio condutor. O local onde todas as histórias se entrelaçam é o tribunal, onde uma mesma cena aparece nos três filmes em perspectivas diferentes. Os três filmes desnudam o universo psicológico de Krzysztof Kieslowski, que joga com as sensações, as cores, os objetos, os presságios, tudo trama para que a ação aconteça, os desencontros cessem, e a vida aconteça, independente das escolhas. Na associação da imagem sofisticada das cores com a interpretação de grandes atores e o encontro de personagens densos e humanos, surge um cinema de forte impacto e agradável descoberta, numa cumplicidade incondicional entre o filme e a platéia. Três Cores é a esperança que temos que a vida aconteça, apesar das dores, dos caminhos desembocarem em becos sem saídas, e com Kieslowski ela acontece, repleta de cores e de marcas indeléveis.

Azul 

Azul” gira em torno da personagem Julie, magistralmente interpretado por Juliette Binoche. Julie vê a sua vida aparentemente tranqüila, drasticamente mudada por um acidente de automóvel, onde perde o marido e filha de três anos. Viúva de um célebre músico, que deixara uma obra interrompida, uma música para festejar o ato que concretizaria a unificação européia. Julie empenha-se em completar a obra do marido, e para isto, conta com ajuda de Olivier, para que conclua a música do marido.
É neste percurso que a vida desmascara-se para Julie, derrubando-lhe todas as certezas vividas até então. É com muita dor que lhe é revelado o caso de amor que o marido teve durante anos com uma advogada, que lhe confessa, espera um filho do marido morto.
Perdida em suas descobertas, Julie sente-se órfã de uma mãe viva, que velha e sem memória, internada em uma clínica, confunde-a com a irmã, sem se lembrar dela. Sem a mãe, sem a filha, sem o amor do marido, Julie caminha em universo pungente e solitário. Torna-se amiga da sua vizinha prostituta. Provoca a paixão que Olivier sente por ela para que se sinta amada ou desejada, desemboca na mais profunda dor da existência humana.
Após atravessar todas as perdas e descobertas, Julie vai à casa de Olivier e aceita-lhe o amor oferecido. Desiste de vender a casa que o marido lhe deixara, transferindo-a para a amante do marido e o seu futuro filho, herdeiro legítimo do morto. Julie liberta-se finalmente da dor e da solidão. Na sua travessia, decide finalmente explodir em lágrimas. Depois de chorar, sorri para a câmara. Está livre novamente, pronta para a felicidade.
Juliette Binoche tem aqui uma das melhores interpretações da sua carreira. É o rosto suave e angustiado da atriz que empresta as emoções para Julie. Personagem e atriz assumem uma identidade movida por grandes planos, envolvidas nas cores da película, nos simbolismos inerentes de uma vida. A atriz foi premiada com o Cesar em 1994, na França, e com o Copa Volpi em Veneza.
Azul”, é o mais pungente de toda a trilogia. Ele investe no sofrimento mais recôndito da sua personagem, fazendo-a passar pela dor da perda, da traição, da solidão e pela arte de perdoar, libertar-se da depressão. Azul é denso, como o é a estrada que se cruza a caminho da liberdade.
Azul foi premiado com três Cesars: melhor atriz (Juliette Binoche), melhor edição e melhor som; Prêmio Goya, Espanha, de melhor filme europeu; três prêmios no Festival de Veneza: Prêmio Leão de Ouro (Krzysztof Kieslowski), Prêmio de melhor fotografia e Prêmio Copa Volpi de melhor atriz (Juliette Binoche).

Branco 

Dentro da trilogia, Branco é o mais leve e o mais imperfeito, mas não menos genial do que os outros. Sua verve gira em torno da vingança de uma paixão levada ao extremo. A complexidade das personagens é retratada quase que em tom de comédia, com lapsos dramáticos que dão uma passagem hipnótica para as seqüências de final imprevisível.
O filme começa com a separação em tribunal de um casal, ele um polonês, ela francesa. Logo de início a igualdade entre o casal é contestada. Marido e mulher se acusam em tribunal francês, as acusações da mulher são feitas por ela própria, as do marido são feitas por um interprete. Diante das dificuldades da língua do polaco, o juiz dá vantagem à francesa. Divorciado e com dificuldades de voltar para a sua terra, Karol (o polaco) segue para o seu país, leva consigo uma paixão que o consome. O que poderia ser o retrato de uma louca e atormentada paixão, torna-se o espelho que reflete a desigualdade. A narrativa assume uma forma de comédia satírica, interrompida às vezes, por flashs dramáticos. A paixão do polaco pela mulher, faz com que ele arquitete uma situação de vingança, levando-a à Polônia, envolvendo-a em uma teia que a fará passar pelo mesmo que ele passou na França. Essa trama culmina na prisão da mulher amada. E o princípio da igualdade é alcançado por uma velha lei dos povos semitas da antiguidade: Olho por olho, dente por dente”. Branco não empolga como Azul ou Vermelho, mas fascina pela surpresa do desfecho, o argumento poderia resultar em um filme que facilmente cairia no ridículo, mas que a direção genial de Krzysztof Kieslowski encontra um tom ideal, que transforma o princípio da igualdade em uma odisséia do amor que não pode ser esquecido, trazendo conseqüências que quebram fronteiras, mas não derrubam a burocracia das nações e suas leis de xenofobia. A troca final de gestos e olhares entre as personagens consolida a vingança, mas não derruba o amor, literalmente preso nos labirintos caprichosos da metáfora da igualdade.
Não tão premiado quanto Azul e ou indicado para o Oscar como Vermelho, Branco recebeu o Prêmio Urso de Prata no Festival de Berlim, em 1994, para Krzysztof Kieslowski como melhor diretor.

Vermelho 

Vermelho não é somente a concretização de uma trilogia, mas da obra grandiosa do seu autor, que morreria dois anos depois da sua conclusão. Mais do que nunca o universo de Kieslowski abre as portas da alma humana. A primeira imagem que se tem é de alguém a fazer uma chamada telefônica, a câmara segue os cabos que levam a mensagem, atravessa mares e terras, explodindo no telefone da outra pessoa. Há urgência na comunicação entre as pessoas, urgência em atingir o filtro que sorve os sentimentos, é hora das vidas se interligarem e cumprir os seus destinos. Vermelho é de uma imagem poética onde as sensações do ser e do sentir vencem as barreiras do acaso, do destino que não pode ser negado.
Valentine atropela um cão, na coleira descobre o endereço do seu dono, um juiz aposentado (brilhantemente interpretado por Jean-Louis Trintignant), que foge do marasmo e da solidão a ouvir escutas telefônicas dos vizinhos. Valentine, ao descobrir o ato de invasão de privacidade do juiz, sente repulsa por sua atitude, mas tem pena da solidão daquele homem. Inesperadamente os dois descobrem o universo solitário que ambos vivem, desenvolvendo uma sólida amizade, envolta no terno e tênue fio que conduz às raízes da fraternidade.
Enquanto Valentine desenvolve a sua amizade com o juiz, e sofre com a ausência do amor que está longe, não só fisicamente, como também vai se distanciando do seu coração; do outro lado da cidade, um homem luta com as frustrações do amor. Sofre pelas decepções, assim como Valentine. Ambos choram por amores mal vividos, lutam por amores infrutíferos, andam pelas mesmas ruas mas nunca se encontram. Suas almas procuram o mesmo, mas suas vidas distanciam-se rua a rua, mágoa a mágoa, dor a dor. É a vida que passa quando insistimos em não encontrá-la. Com Vermelho sentimos a vida a nos escorrer por bilhetes, telefonemas, desencontros, pelas rodas dos carros. Não há tempo de olhar para o lado e ver que o grande amor está ali, tão próximo, tão presente.
A beleza das imagens, que encontra a sofisticação no vermelho ao fundo. Cada cena, cada objeto, cada plano, formam uma metáfora, que só quem estava a despedir-se do cinema poderia criar tão magnífica obra, densa, bela, solitária, fraterna, resumida na esperança do acaso que a vida tece os seus mistérios.
Por fim Valentine deixa a cidade. O homem que sempre caminha paralelo ao seu destino também parte. Seguem em viagem pelo canal da Mancha. Um grande acidente faz o ferry-boat afundar. Só há 6 sobreviventes. Eles são: Valentine e o homem, que finalmente se encontram dentro daquela tragédia, e os casais dos outros dois filmes, do Azul e do Branco. Krzysztof Kieslowski encerra de maneira apoteótica a sua trilogia, todas as personagens principais dos três filmes encontram-se, são sobreviventes do acidente do canal da Mancha.
De maneira sensível e definitiva, a vida passou pelos filmes das cores, o destino venceu o acaso. Assim como as suas personagens, Krzysztof Kieslowski deixa a cena após vencer as angústias e o destino, como um sopro do acaso, é a beleza do ser humano e das suas infinitas portas abertas para os sentimentos.


Fichas Técnicas:

Três Cores: Azul

Direção: Krzysztof Kieslowski
Ano: 1993
País: França, Polônia, Inglaterra, Suíça
Gênero: Drama
Duração: 97 minutos / cor
Título Original: Trois Couleurs: Bleu
Elenco: Juliette Binoche, Benoît Régent, Florence Pernel, Charlotte Véry, Hélène Vincent, Philippe Volter, Claude Duneton, Hugues Quester, Emmanuelle Riva, Daniel Martín
Sinopse: Após um trágico acidente em que morrem o marido e a filha de uma famosa modelo (Juliette Binoche), ela decide por renunciar à sua própria vida. Após uma tentativa fracassada de suicídio, ela volta a se interessar pela vida ao se envolver com uma obra inacabada de seu marido, que era um músico de fama internacional.


Três Cores: Branco

Direção: Krzysztof Kieslowski
Ano: 1994
País: França, Polônia, Inglaterra, Suíça
Gênero: Comédia - Drama
Duração: 89 minutos / cor
Título Original: Trois Couleurs: Blanc
Elenco: Zbigniew Zamachowski, Julie Delpy, Janusz Gajos, Jerzy Stuhr, Aleksander Bardini, Jerzy Trela, Jerzy Nowak, Michel Lisowski, Cezary Harasimowicz, Juliette Binoche
Sinopse: Segundo episódio da série do diretor polonês Kieslowski dedicada aos ideais da Revolução Francesa (liberdade, igualdade e fraternidade), e o único da trilogia tratado de forma humorística. Dessa vez, apresenta um olhar irônico sobre como o vazio da vida pode ser profundamente afetado pelo amor. A esposa de Karol (Zbigniew Zamachowski) pede o divórcio e o trata com crueldade, pois ele está impotente. Sem dinheiro e sem ninguém, Karol, que é imigrante na França, retorna à Polônia. Aos poucos ele vai ganhando dinheiro e planeja uma doce vingança.


Três Cores: Vermelho

Direção: Krzysztof Kieslowski
Ano: 1994
País: França, Polônia, Suíça
Gênero: Drama
Duração: 99 minutos / cor
Título Original: Trois Couleurs: Rouge
Elenco: Irene Jacob, Jean-Louis Trintignant, Frédérique Feder, Jean-Pierre Lorit, Samuel Le Bihen, Marion Stalens, Teco Celio, Jean Schlegel, Juliette Binoche, Zbigniew Zamachowski
Sinopse: Valentine (Irène Jacob) atropela um cachorro que tem o endereço do dono na coleira. É dessa forma que ela conhece a pessoa que iria alterar o curso de sua vida: um juiz aposentado que vive espionando as conversas telefônicas de seus vizinhos. Por trás desse comportamento, esconde-se um homem que entra na intimidade das pessoas até saber o desenrolar de seus destinos. Apesar da repulsa que Valentine sente no início pela atitude do juiz, acaba se formando uma amizade. Neste último filme da trilogia das cores de Kieslowski, personagens dos dois filmes anteriores aparecem rapidamente, tendo suas vidas afetadas pela trama central.

Filmografia de Krzysztof Kieslowski:

1966 – Urzad
1966 – Tramwaj
1967 – Koncert Zyczen
1968 – Z Miasta Lodzi
1968 – Zdjecie (TV)
1970 – Bylem Zolnierzem
1971 – Robotnicy 1971 – Nic o Nas Bez Nas
1971 – Przed Rajdem
1971 – Fabryka
1972 – Refren
1972 – Podstawy BHP w Kopalni Miedzi
1972 – Miedzy Wroclawiem a Zielona Gora
1973 – Murarz
1974 – Przeswietlenie
1974 – Pierwsza Milosc (TV)
1974 – Przejscie Podziemme (TV)
1975 – Zyciorys
1975 – Le Personnel (Personel)
1976 – Szpital
1976 – Klaps
1976 – Blizna (A Cicatriz)
1977 – Nie Wiem
1978 – Siedem Kobiet w Róznym Wieku
1978 – Z Punktu Widzenia Nocnego Portiera
1979 – Amator (Amador)
1980 – Spokój (TV)
1980 – Dworzec
1980 – Gadajac Glowy
1981 – Krótki Dzien Pracy (TV)
1985 – Bez Konca (Sem Fim)
1987 – Przypadek (O Acaso)
1988 – Dekalog (TV) (O Decálogo) : série de dez filmes, de duração com aproximadamente 60 minutos
1988 – Siedem Dni w Tygo Dniu
1988 – Krótki Film o Milosci (Não Amarás) : oriundo da série Decálogo, 6º mandamento, expandido para longa metragem
1988 – Krótki Film o Zabijaniu (Não Matarás): filme também expandido para longa metragem
1989 – Dekalog, Dziesiec (TV)
1990 – La Double Vie de Véronique (A Dupla Vida de Véronique)
1990 – City Life
1993 – Trois Couleurs: Bleu (Trilogia das Cores: Azul)
1994 – Trois Couleurs: Blanc (Trilogia das Cores: Branco)
1994 – Trois Couleurs: Rouge (Trilogia das Cores: Vermelho)
 


 
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publicado por virtualia às 03:26
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1 comentário:
De Loot a 21 de Janeiro de 2009 às 12:01
Adorei estes três filmes sãos em dúvida uma referência no Cinema.

Aproveito para dizer que são 7 os sobreviventes do Ferry e não 6. O rapaz inglês que trabalhava no bar do ferry também sobreviveu.

Cumprimentos


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