Sexta-feira, 14 de Novembro de 2008

A IV CRUZADA

 

 

Com o surgimento do islamismo no século VII, uma nova religião dava base para a expansão do povo árabe, ou sarraceno. Os grandes impérios da antiguidade na Ásia Menor e Médio Oriente, como o dos persas e o dos bizantinos, entraram em decadência de tanto guerrearem entre si. Este enfraquecimento provocou a expansão árabe, que conquistaram aos bizantinos (herdeiros da parte oriental do Império Romano) parte da Síria, Palestina, Egito e norte da África, e, dos persas, a antiga Pérsia e a região dos rios Eufrates e Tigre, antiga Babilônia.
Durante a ocupação dos árabes na Palestina, era permitida a peregrinação dos cristãos a Jerusalém e a outras partes da Terra Santa. No século XI há a expansão dos turcos sejúlcidas, convertidos ao islamismo, que unificam toda a Anatólia, faz guerra contra os cristãos e dominam Jerusalém em 1078. A ameaça de expansão dos turcos sejúlcidas sobre o Império Bizantino, que tem Constantinopla como capital, põe em risco toda a Europa cristã.
Durante esta ocupação de Jerusalém, os sejúlcidas proíbem a peregrinação cristã a Terra Santa. É neste contexto que em 1095, no Concílio de Clermont, o papa Urbano II exorta a multidão cristã a libertar a Terra Santa, pondo Jerusalém novamente sob o domínio cristão. A multidão acolhe com entusiasmo a idéia de Urbano II, imediatamente partem em direção ao oriente, rumo a Palestina, levando consigo uma cruz vermelha sobre a roupa, sendo chamados, por isto, de cruzados. Estava criada a guerra entre cristãos e sarracenos pelo domínio de Jerusalém, que foi denominada de Cruzadas. Durante as Cruzadas, que durariam dois séculos, várias vezes Jerusalém foi tomada pelos cristãos, que em contrapartida, foi recuperada outras tantas vezes pelos sarracenos. Ao todo foram oficialmente contadas nove Cruzadas.

Uma Cruzada de Mercenários e Nobres Menores

Das nove cruzadas, a IV Cruzada, conhecida como a Cruzada do Comércio, foi caracterizada por ser mercenária e traiçoeira, pois não foi uma guerra de cristão contra sarraceno, mas de cristão contra cristão, fazendo estragos que perduraram por oito séculos. É a cruzada de cristãos contra cristãos.
Após três grandes cruzadas, uma característica dessa guerra era a pilhagem das cidades tomadas, o que favorecia o enriquecimento de muito dos cruzados. Mercenários cada vez mais participavam das chamadas guerras santas.
Em 1198, Inocêncio III torna-se papa em Roma. Tão logo assume o cargo de homem número um da igreja, tem como objetivo retomar Jerusalém, que desde 1192, quando findara a III Cruzada, permanecia sob o domínio dos muçulmanos. Uma nova cruzada começa a ser desenhada pelo papa, que conclama todos os nobres cristãos da Europa para realizá-la.
A IV Cruzada, promovida pelo papa Inocêncio III, começa no ano de 1201 a preparar a sua marcha rumo a Terra Santa. Mas não são os grandes e poderosos reis cristãos da época que assumem a sua liderança. Um grupo de governantes secundários com uma linhagem de cruzados, como o conde Luís de Blois, o conde Balduíno de Flandres e o conde Teobaldo de Champagne, assumem o comando da Cruzada. Os emissários desses nobres foram a Veneza preparar a viagem por mar. O doge de Veneza, Enrico Dandolo, combinou que, pela quantia de 85.000 marcos de prata, a república providenciaria uma frota de cinqüenta galeras e transporte para 4.500 cavaleiros, 9.000 escudeiros e 20.000 soldados de infantaria, com alimentos para um ano. O objetivo da expedição era liberar Jerusalém, porque agora, como na época da Primeira Cruzada, os cristãos do Ocidente só estavam dispostos a arriscar suas vidas pela Cidade Santa.
Com a morte do conde Teobaldo de Champagne no início de 1201, o marquês Bonifácio de Montferrat tornou-se o líder da expedição.
Em 1202 a IV Cruzada tem início, mas na data estabelecida para a partida, apenas 10.000 homens haviam se reunido em Veneza, com um déficit de 35.000 marcos na quantia que fora prometida aos venezianos. Estes se recusaram a reduzir o seu preço, mas concordaram em aceitar em troca a ajuda do exército cruzado para a tomada da cidade de Zara, na costa da Dalmácia. A cidade era um reino cristão que tinha divergências com Veneza. Zara foi tomada e saqueada, o que provocou a ira de Inocêncio III, que via no objetivo daquela cruzada uma guerra contra o poderio sarraceno, não um saque aos cristãos. Inocêncio III ficou tão indignado com o ataque a um rei cristão, que excomungou todo o exército cruzado. Mas rescindiu a sentença pregada por ver que a cruzada entraria em colapso antes de seguir para a Terra Santa.

Rumo a Constantinopla

Quando estava em Zara, o exército cruzado foi procurado pelo príncipe grego bizantino Aleixo IV. Ele contava que em Bizâncio, o Imperador Isaac II fora derrubado pelo seu irmão Aleixo III e fora cegado. Aleixo IV era filho de Isaac II, que conseguira fugir do algoz. O príncipe prometeu para os cruzados que, se ajudassem o seu pai a recuperar o trono, em troca dar-lhes-iam dinheiro e os recursos do Império Bizantino para a conquista de Jerusalém.
Com a decadência do império romano, ele foi divido em duas partes: O Império do Ocidente, comandado por Roma, e o Império do Oriente, comandado por Constantinopla. Com a cristianização do Império, os poderes da igreja são divididos pelos dois reinos: a igreja cristã latina (conhecida como católica), com sede em Roma, e a igreja cristã grega (conhecida como ortodoxa), com sede em Constantinopla, as duas passam a ter papas distintos. Aleixo IV também garantia a reconciliação da Igreja Ortodoxa com a Católica, grandes subvenções e dez mil soldados bizantinos para participarem da cruzada. A idéia interessou ao doge Enrico Dandolo. Os cruzados aceitaram a proposta, partiram para Constantinopla, a capital do Império Bizantino, em 1202. O papa Inocêncio III recomendou que não tocassem nos cristãos de Bizâncio.
Os Cruzados esperaram o inverno passar, e em junho de 1203, logo após a sua chegada, atacaram os arrabaldes de Constantinopla, capturaram o subúrbio de Galeta e quebraram a corrente que protegia a entrada do porto da cidade, o Corno de Ouro. No dia 17 de julho, eles organizaram um ataque à própria Constantinopla, mas foram rechaçados pela guarda do imperador. Aleixo III fugiu, levando consigo o tesouro da cidade, e os cruzados puseram novamente no trono Isaac II.
Mas Isaac II Ângelo foi desprezado por seus súditos, era acusado pelos bizantinos de reinar para os latinos. Foi incapaz de pagar o dinheiro que o filho havia prometido aos cruzados.

A Carnificina da Sexta-Feira 13

Em janeiro de 1204, Isaac II Ângelo foi deposto e assassinado junto com seu filho Aleixo IV, pela população enfurecida e revoltosa. Foi substituído por Aleixo V Ducás, que combateu os cruzados. Logo após o levante, o que se seguiu foi uma carnificina que, passados oito séculos, ainda não foi compreendida pela história, e não foram cicatrizadas as suas feridas.
Em 12 de abril de 1204, a tropa de cruzados liderados pelos nobres franceses e pelos mercenários venezianos, atacou a capital bizantina. Um dia depois, na sexta-feira 13, Constantinopla foi tomada. A antiga e até então inconquistada capital do Império Romano do Oriente, foi submetida à chacina de seus habitantes e à pilhagem de seus tesouros. Nas ruas o fio da espada dos cruzados manchava o chão com o sangue dos cristãos ortodoxos. Cadáveres se espalhavam pelos quatro cantos da cidade. Mulheres foram violadas, expostas nuas pelas ruas, exploradas e humilhadas pelos cristãos latinos. Aquela sexta-feira jamais sairia da memória dos cristãos ortodoxos. Desde então, toda sexta-feira treze foi vista como um dia de agouro.
A maior ofensa feita pelos cruzados foi o saque à Catedral de Santa Sofia, a maior igreja do mundo cristão. Roubaram as relíquias e tesouros, como peças em ouro, todas as estátuas e até os seus mosaicos. Há registros de que o sudário que envolvera Jesus Cristo estava nesta igreja, e que a partir deste dia, desapareceu para sempre. Como se não bastassem os saques, há ainda registro de que uma prostituta foi posta pelos cruzados sobre o trono do líder máximo da Igreja Ortodoxa, o patriarca João X, sobre o qual teria dançado e cantado canções obscenas.
Constantinopla viveu três dias de completo terror. No final 2000 gregos bizantinos foram mortos, famílias separadas, casas pilhadas, 4000 cristãos ortodoxos foram vendidos para os turcos sejúlcidas.

800 Anos de Cisão Entre Católicos e Ortodoxos

Não só os tesouros de Constantinopla foram divididos, mas também o próprio Império Bizantino. Em 16 de maio, Balduíno de Flandres foi coroado imperador na Catedral de Santa Sofia e recebeu terras na Trácia, em partes da Ásia Menor e em algumas das ilhas Cíclades. Bonifácio de Montferrat fundou um reino em Tessalônica. Os venezianos apossaram-se de algumas possessões bizantinas na costa do Mar Adriático, de cidades na costa do Peloponeso, da ilha de Eubéia, de algumas ilhas jônias e de Creta (Veja mapa da divisão latina ao lado). Constantinopla foi subdividida em distritos, com os venezianos a tomar quase metade da cidade.
Nenhum cruzado que havia partido para ajudar os seus irmãos cristãos a lutar contra o domínio sarraceno, chegou a Terra Santa. Permaneceram para usufruírem-se das riquezas arrancadas da carcaça do Império Bizantino. O Império Bizantino tornar-se-ia um império latino. Constantinopla jamais se iria recuperar deste golpe, nem quando voltou a ser grega em 1261.
Houve uma completa cisão entre a igreja romana e a igreja ortodoxa. Para os ortodoxos, os papas de Roma, a partir de então, se tornaram os arqui-hereges, os monstros de dois chifres. Desde então, todos os papas romanos foram excomungados sucessão por sucessão pelos patriarcas da Igreja Ortodoxa Cristã. Só em 2001, quando o papa João Paulo II pediu perdão ao patriarca Bartolomeu I e à igreja ortodoxa pelas atrocidades da IV Cruzada, é que as duas igrejas voltaram a restabelecer relações diplomáticas, mas sempre sob os olhos da desconfiança, sem nunca apagar de vez as cicatrizes feitas em 1204.

 

 
 
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publicado por virtualia às 04:29
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