Terça-feira, 4 de Novembro de 2008

A RAINHA MARGOT

 


Um dos filmes mais densos dos anos noventa, A Rainha Margot, de 1994, trouxe para as telas o romance homônimo de Alexandre Dumas, que nas páginas da literatura relata de forma romanceada, a história Marguerite de Valois, filha de Catarina de Médici, conhecida como rainha Margot.
O filme de Patrice Chéreau abstrai-se totalmente da atmosfera do romantismo que traz o livro de Dumas, para torná-lo coberto de imagens impactantes, movidas por um furor histórico estonteante, onde a nudez e o sangue se interligam em cores fortes, em contraste com a imagem barroca de reconstrução de época. Ao assistirmos ao filme, quase que sentimos o cheiro do sangue, o cheiro dos corpos, prontamente preparados para trazer líquidos seminais no meio da guerra e da intolerância.
Isabelle Adjani é a uma bela e sensual rainha Margot, impregnando ao personagem a malícia, a intriga e o romantismo passional que afloram em tão inesperada personagem, uma sobrevivente de um destino político e dos acordos que revelam os bastidores sórdidos do poder que sustentaram as monarquias absolutistas nos primórdios dos estados modernos.
A Rainha Margot traz para o cinema um jeito psicológico de contar um épico histórico. Fascina pelas personagens ambíguas e desprovidas de uma moral vigente, de uma consciência aquém do poder e da ambição humana.

Um Cartaz Coberto de Sangue

Patrice Chéreau enche de beleza a paisagem humana, totalmente violada pelas atrocidades da guerra civil e dos envenenamentos provocados pela ambição do poder, onde o corpo perfeito desfaz-se, definha-se ao sabor do veneno.
Com as suas externas gravadas em Portugal, no Convento de Mafra, Chéreau usou vários modelos lisboetas como figurantes, dando uma idéia de perfeição estética aos rostos e corpos atrás dos protagonistas, quase que a vislumbrar ao ideal grego. No famoso convento português, a França do século XVI renasce em uma paisagem barroca.
O uso do sangue a marcar certas cenas pode ser visto já nos cartazes dos filmes, que trazem Isabelle Adjani vestida em trajes de bodas, com o vestido totalmente coberto pelo sangue. Mas o filme não perde o seu fio histórico, muito menos traz cenas de violência sem sentido, pelo contrário, apesar de manchadas de vermelho, as cenas são menores do que a realidade histórica, uma das mais negras do povo francês. A paisagem humana sobressai à paisagem histórica. Não são corpos assassinados pela intolerância religiosa que vemos, mas rostos humanos cobertos de vida psicológica latente.

A Noite de São Bartolomeu

No século XVI a hegemonia da igreja católica é abalada pelo surgimento do protestantismo. A França, que sempre teve a nobreza voltada e complementada pelo poder da igreja, vê a sua população aderir ao protestantismo. A convulsão permanente entre católicos e protestantes cria um clima minado, que pode explodir a qualquer momento. Em 1572, Marguerite de Valois, irmã do rei da França, é dada como esposa para o protestante Henrique de Navarra, em um casamento real feito para que se acalmassem os ânimos entre os huguenotes (como eram conhecidos os protestantes) e os católicos.
Na noite das bodas de Margot e Henrique de Navarra, em 22 de agosto, um agente de Catarina de Médici (no filme magistralmente interpretada por Virna Lisi), mãe do rei da França, Carlos IX (que tinha apenas 22 anos e não detinha verdadeiramente o controle), um católico chamado Maurevert, tentou assassinar o almirante Gaspard de Coligny, líder huguenote de Paris, o que enfureceu os protestantes, apesar de ele ter ficado apenas ferido. Nas primeiras horas da madrugada de 24 de agosto, o dia de São Bartolomeu, dezenas de líderes huguenotes foram assassinados em Paris, numa série coordenada de ataques planejados pela família real. Este massacre, que passou para a história como A Noite de São Bartolomeu, é retratado com extremo realismo por Chéreau, dando às imagens um tom épico, arrancando-lhe a violência crua e sem sentido. O massacre seguiria até outubro, durante o período, cerca de 70 a 100 mil huguenotes foram mortos.

A Paixão no Meio da Luta Pelo Poder

Os meandros da história são cobertos por mistérios e tramas perigosas. Virna Lisi traz uma Catarina de Médici perigosa e fria, que na tentativa de envenenar o genro Henrique de Navarra, outra composição magistral do ator Daniel Auteuil, para impedi-lo de herdar o trono (ele um huguenote), envenena o próprio filho, o rei Carlos IX (vivido pelo ator Jean-Huges Anglades), subindo ao trono o irmão, Henrique III, que seria assassinado futuramente, e Henrique de Navarra subiria ao trono, para desgosto de Catarina de Médici, que não teria a sua descendência no trono da França.
As tramas políticas, as mortes, os assassínios, dão passagem ao amor de Margot pelo moleiro La Molê (Vincent Perez). As cenas de amor entre Margot e La Molê dão o tom passional ao filme. Cobertos de um erotismo contundente (a cena de nudez do ator Vincent Perez causou impacto no nu frontal, devido à condição de bem-dotado do galã), dão sempre a sensação de perigo aos jovens amantes. Quando por fim La Mole é decapitado, acusado de conspiração, uma Margot infeliz e destronada das ambições de ser rainha, leva no colo a cabeça do amado, mais uma vez cobrindo-se de sangue. Esta cena Chéreau inspirou-se em “O Vermelho e o Negro”, de Stendhal. Imagens definitivas, entre o épico e o psicológico, fazem deste filme um dos melhores da década de noventa e do fim do século XX. O filme arrebatou 5 prêmios César (o César é o prêmio anual do cinema francês) e 2 prêmios no Festival de Cannes.
Isabelle Adjani consegue aqui uma das interpretações mais brilhantes da sua carreira, num dos papéis mais ambíguos da história do cinema francês. No papel da rainha Margot, ganhou o seu quarto César, feito até então inédito de uma atriz francesa. Isabelle Adjani tem uma antagonista à altura, Virna Lisi, que faz da sua Catarina de Médici uma das mais empolgantes e complexas vilãs do cinema, numa interpretação barroca, que lhe concedeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes, além do César como melhor atriz coadjuvante. Sem dúvida o encontro de Isabelle Adjani e Virna Lisi é o ponto alto do filme.
Patrice Chéreau, que além de cineasta, é ator de teatro e do cinema francês, conseguiu um momento de genialidade único, difícil de superar. Ficou marcado como o diretor de A Rainha Margot.

Ficha Técnica:

A Rainha Margot

Direção: Patrice Chéreau
Ano: 1994
País: França, Itália, Alemanha
Gênero: Drama
Duração: 136 minutos / cor
Título Original: La Reine Margot
Elenco: Isabelle Adjani, Daniel Auteuil, Virna Lisi, Vincent Perez, Jean-Hugues Anglade, Dominique Blanc, Pascal Gregory, Claudio Amendola, Miguel Bosé, Asia Argento, Julien Rassam, Thomas Kretschmann, Jean-Claude Brialy, Jean-Philippe Ecoffey, Albano Guaetta
Sinopse: Na França de 1572, a guerra religiosa está destruindo o país. Com o objetivo de dar fim aos conflitos, a católica Marguerite de Valois, também conhecida como Margot, e o protestante Henri de Navarre unem-se num casamento arranjado. Mas os resultados dessa união são ainda mais devastadores.

Filmografia de Patrice Chéreau:

Diretor:

1974 - La Chair de l'orchidée
1978 - Judith Therpauve
1983 - l'Homme blessé
1987 - Hôtel de France
1991 - Contre l'oubli (filme coletivo)
1994 - La Reine Margot
1998 - Ceux qui m'aiment prendront le train
2000 - Intimacy (Intimidade)
2003 - Son frère

Ator:

1982 - Danton
1999 - Le Temps retrouvé
2002 - Au plus près du paradis
2003 - Le temps du loup


 

 
 

 

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publicado por virtualia às 02:47
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